|
Esse
é o famoso Scarabeus sacer. Em comparação aos seus amigos
africanos, pode-se dizer que seja um pequeno besouro. Porque há
verdadeiros monstros na sua família. |
|
|
|
|

|
|
|
|
Scarabeus sacer |
|
|
Da
mesma família Scarabaeidae, seus cinco primos, Goliathus,
todos africanos, podem chegar a quase três vezes o seu tamanho -
verdadeiros gigantes. O Scarabeus sacer sequer tem os "chifres"
fantásticos de seu outro primo africano, o Augosoma
centaurus, que pode, ainda, chegar aos
seus 9
cm: praticamente um rinoceronte!
Sim,
a família Scarabaeidae
é grande, e, aparentemente, nosso (não o menor,
mas) pequeno Scarabeus sacer não apresenta
nada de especial. Ele não é grande,
não tem chifres majestosos, não tem colorido especial.
Não tem nenhuma característica aparente que pudesse fazer desse um case
para Abhadya.
Quem
é nosso pequeno besouro? Bem, em termos estritamente entomológicos, essa
seria a sua identidade:
|
- Reino
|
Animalia
|
|
|
- Filo
|
Arthropoda
|
|
- Classe
|
Insecta
|
|
- Ordem
|
Coleoptera
|
|
- Família
|
Scarabaeidae
|
|
- Subfamília
|
Scarabaeinae
|
|
- Tribo
|
Scarabaeini
|
Com
sua ficha científica, ainda não se pode, contudo, entrever a sua
singularidade. O que talvez ajude seja a apresentação de seus, digamos,
"apelidos". Em
inglês, ele é chamado de "dung beetle". Em francês,
"scarabée bousier". Por aqui, nós o conhecemos como: besouro
do esterco. Alhures, rola-bosta. Sua distribuição geográfica é bastante vasta, mas
interessa, aqui, precisar que é
característico do Egito, ao lado de outro parente muito próximo, o Kheper
aegyptiorum, que pode ser visto no site
da BBC. Logo se verá que o "sacer" do Scarabeus sacer, e o
"Kheper" do Kheper aegyptiorum têm muito mais do que
uma simples
relação de parentesco...
Nosso
amiguinho passa a vida alimentando-se do esterco de herbívoros africanos.
Ele faz parte da enorme tropa biológica de processamento da matéria
orgânica excretada pelas manadas inumeráveis do continente. E o que não
falta é comida! Uma massa de esterco de elefante pode dar oportunidade
para uma tropa de milhares de besouros coprófagos. O site da BBC
fala de 16.000 deles em um único monte de fezes de elefante! E reside
justamente aí, quem diria, na sua peculiar relação com o esterco, o
interesse histórico-cultural por esse pequeno coleóptero.
Observe-se, por exemplo essa fotografia:
Aquele
besourinho ali, no canto da fotografia, é o Scarabeus sacer. Essa
foto é muito boa, porque, além de permitir que o tamanho comparativo de
um Scarabeus sacer seja observado, mostra-o em sua atividade
característica: rolar bolas de estrume. E é por isso que ele é
conhecido como "dung beetle" ou "scarabée bousier" -
escaravelho ou besouro do estrume.
Existem
vários tipos de besouros do estrume, como, por exemplo, o Scarabaeus
laticollis, o Kheper
aegiptiorum, e o Scarabeus sacer. Essa
família em especial, a Scarabaeidae, providencia alimento para seus
filhotes, antecipando-lhes uma "refeição". Ao fazerem-no,
dividem-se em quatro
categorias: a) os paracópridos (ou
"Dwellers"), que
enterram um punhado de esterco, cavando exatamente debaixo do próprio monte de estrume,
do qual o recolhem,
b) os telecópridos ("Rollers"), que retiram uma porção de esterco do monte de
estrume, fazem uma bola com ela, rolam-na até um lugar apropriado, cavam
um buraco e a enterram, c) os endocópridos ("Tunnellers"), que fazem o ninho dentro do
próprio monte de estrume, e, finalmente, d) os cleptoparasitas, que
utilizam-se de ninhos de outros besouros, ou lhes roubam o esterco que
recolheram.
O Scarabeus sacer, como se pode ver pela figura acima, e pelas
abaixo, são telecópridos - "rollers", ou "roladores".
Vão empurrando, resolutamente, sua bola
de esterco.
Pode-se
ver como era - e é - dura a vida de um "escaravelho do
esterco", neste ilustrativo vídeo do Youtube.
Os
egípcios antigos não deixaram escapar essa característica curiosa dos Scarabeus
sacer e dos seus primos Kheper aegyptiorum. Podem-se ver representações deles nas paredes dos templos, eles e
suas bolas de esterco.
Além
disso, representaram-nos por meio de enfeites e de uma série de objetos
culturais, de toda sorte, e de toda utilidade, tanto ricos quanto pobres,
desde os Faraós e sacerdotes, até os simples camponeses.
|
- enfeites e amuletos |
|
|
|
|
|
- artigos funerários (escaravelhos-coração) |
|
|
|
|
|
|
|
Como
se pode ver da terceira foto acima, escreviam-se, na parte de baixo dos
escaravelhos, fórmulas de toda sorte: encantamentos, votos,
nomes (sinetes), que extraiam da força simbólica do escaravelho a força
que precisavam para se expressar, desde que constituíam desde símbolos
pessoais, até invocações da força mágico-vital do Scarabeus sacer - a
rigor, como se verá, bem mais do que isso.
E
isso valia não não apenas no que diz respeito ao povo de modo geral, mas,
principalmente, aos sacerdotes e ao próprio Faraó. Os achados
arqueológicos das tumbas dos reis egípcios são ricos em
representações de ouro do Scarabeus sacer - o escaravelho sagrado.
|
|

|
um escaravelho de ouro, encontrado na tumba de
Tutancamon
|
|
|
|
|
|

|
peitorais cerimoniais |

|
|
|
|
|
|
um escudo funerário da tumba de Tutancamon |

|
|
|
|
|
|
|
|

|
Se você lê francês, gostará de clicar nessa
imagem |
O
Scarabeus sacer tem duas razões principais para ser tão apreciado,
simbolicamente, pelos egípcios. Primeiro, porque tornou-se um símbolo do
renascimento. Trata-se, com efeito, de um fenômeno histórico-cultural
muito interessante, que ilustra de modo extraordinário e singular o fato
de que as mais adiantadas especulações míticas podem nascer, como de
fato nascem, da observação das coisas mais cotidianas, e do mundo
natural.
No
caso do Scarabeus sacer, trata-se do fato de a fêmea pôr o seu ovo
dentro da bola de esterco, e enterrá-la. Daí, algum tempo depois,
nascerá um novo Scarabeus sacer, que encontrará, em seu
"sarcófago", a matéria de que se alimentará, antes de sair
para o mundo, onde lhe esperam montes e montes de estrume, e a série
interminável de recolher um punhado, engendrar uma bola, rolá-la,
enterrá-la, cuidar de pôr nela um novo ovo, e, depois de morrer,
"saber" que a vida continuará no próximo besourinho de
estrume.
A
apropriação simpática é compreensível. Os humanos, enterrados,
esperam que, um dia, renasçam para uma nova vida. Muitos escaravelhos
rituais são encontrados em inúmeras tumbas egípcias, e o sentido é
evidente: assim como o escaravelho, enterrado, renasce para uma nova vida,
também aquele homem ou mulher, enterrado ali, deseja renascer um dia,
para sua nova vida. O fato de que, no caso do escaravelho, se trate de uma
série, isto é, macho e fêmea - ovo - larva - pupa - besouro, enquanto
que, no caso humano, se trata de uma morte singular, e não um processo de
procriação, não desarticula o mito em si, porque, nele, a imaginação
criativa vê as coisas da forma mágico-poética própria da
interpretação da vida através das alegorias participativas e
simpáticas.
Dessa
forma, olhando para baixo, para o pequeno besouro de estrume, aos seus
pés, rolando sua bola de esterco, o egípcio antigo podia ver mais do que
um besouro de estrume - via nele um escaravelho sagrado, um Scarabeus
sacer.
Foi
encontrada uma escultura enorme, de mais ou menos um metro e meio de
comprimento, provavelmente instalada em algum templo egípcio, por volta
do século IV a.C., feita de diorita, que traduz, de forma plástica, a
expressividade da simpatia simbólica entre as crenças religiosas e a
singularidade desse pequeno coleóptero.
|

|
|

|
|
No site do The
British Museum, clique em "compass", e pesquise por
"scarabeus", para as informações detalhadas |
|
|
|
|

|
|
|
Escaravelho
gigante, próximo ao Lago Sagrado, em Karnak |
|
A
segunda apropriação simbólico-mitológica que os egípcios elaboraram,
observando a vida do Scarabeus sacer, é das mais interessantes de que
tenho notícia. Os egípcios fizeram uma "ponte" entre a bola de
esterco, que o Scarabeus sacer rola pela terra, e o sol. O sol foi
tomado como uma representação da bola que o escaravelho sagrado rola.
Nas representações dos templos, acima, bem como nos enfeites
cerimoniais, quer sacerdotais, quer dos Faraós, vê-se não apenas o
escaravelho em si, mas igualmente a "bola", aí, naturalmente,
não mais a própria bola de esterco, que o Scarabeus arrasta, mas já a
representação mítico-simbólica do sol.
Uma
vez que a bola não se faz rolar sozinha, mas é rolada pelo Scarabeus
sacer, não foi difícil a invenção do oficiante do movimento do sol.
Assim, os egípcios inventaram o deus Khepri:
|
|

|
|
|
Khepri
representado na tumba de Nefertiti |
|
|

|
|
|
Khepri |
Observe-se
a cabeça da divindade, representada pelo próprio Scarabeus sacer. Na
forma estilizada, sobre o barco, Khepri não apenas tem a cabeça em forma
de escaravelho, mas até os seus braços tornaram-se as asas do besouro. Ou,
ainda, a divindade ao lado do próprio escaravelho sagrado e de sua
inseparável bola sagrada:
Khepri
representa, assim, o sol da manhã, o levante, o sol que nasce e cruza os
céus, em sua jornada diária. Está relacionado, portanto, à vida, e à
força geradora de vida do sol. Os textos sagrados egípcios falam de
Khepri como aquele que se gera a si mesmo, que, apesar da aparente
abstração metafísico-mitológica, traduz de modo bastante coerente a
relação simpática do deus com o Scarabeus sacer, cuja "bola"
é o ninho, de onde nascerá o próximo besouro da espécie. Ainda que,
depois de hipostasiado na forma de um deus, Khepri, mesmo derivando do
Scarabeus sacer, testemunhem-se desenvolvimentos mítico-teológicos
próprios, relacionados à dinâmica do culto e das doutrinas a ele
relacionadas, na origem, contudo, os elementos característicos do deus e do culto
engendram-se a partir das próprias singularidades materiais e naturais da vida do
besouro. O próprio hieróglifo que representa o nome do deus Khepri é
formado pelo desenho do Scarabeus sacer:
A
simbólica do Scarabeus sacer é bastante complexa. Ela foi traduzida nas
práticas rituais de sepultamento egípcias, não apenas na forma -
sarcófagos mortuários, representando a "bola" funerária -,
mas, também, no sentido funcional. Para os egípcios, o corpo renasce
numa outra vida, da mesma forma como, eles sabem, o escaravelho emerge da
terra. Escaravelhos de coração eram colocados nas tumbas, mesmo as mais
simples, para representar justamente essa esperança de renascimento. A
vida não se resume em morrer - a morte é uma transição: a vida
continua em frente. Olhando para baixo, para os próprios pés, para
aquele bichinho preto, especialista em rolar bolas de estrume pelos campos, em
cavar, em enterrar, em fazer renascer a vida, pode-se, daí, emprestar
simbolicamente todo o ciclo à própria vida humana.
Levantando
a cabeça, a bola do sol mostra-se parecida com a bola do escaravelho.
Alguém deve rolar o sol - é Khepri, que recebe, em hipóstase, todas as
características simbólicas do Scarabeus sacer: o nome, o ciclo de vida,
o poder de auto-criação, o movimento do sol.
É
provável que a própria mumificação, no Egito, constitua uma simpatia
relacionada, também, ao Scarabeus sacer, que atesta um processo de
desenvolvimento biológico comum aos coleópteros: ovo - larva - pupa e
espécime adulto. As larvas de besouros são bastante diferentes dos
indivíduos adultos, e a mumificação pode, de certa forma, ser uma
tentativa de reproduzir o estado larval do Scarabeus sacer,
contribuindo-se, assim, com a vida.
Seja
como for, se a mitologia egípcia é tomada em si mesma, independentemente
de suas condições histórico-sociais de emergência, pode-se cair num
abstracionismo absolutamente improcedente. Como imaginar, contudo, que a
mitologia de um deus a rolar o sol pela abóbada celeste tem sua origem
na observação de um pequeno inseto, comedor de estrume de animais? Como
imaginar que os escaravelhos colocados nos sarcófagos, nas tumbas,
levados como "patuás" ("charm"), amuletos, como
bijuterias, como enfeites, como peitorais e broches, esculpidos nas
paredes, pintados em papiros são, de fato, representações
mágico-simpaticas, cujo objetivo é emprestar do ciclo biológico do
Scarabeus sacer toda a sua forma mágico-simbólica?
Por
mais abstrata que seja uma fé, por mais complexa e articulada, por mais
"sobrenatural", pode-se retroagi-la até a sua origem
histórico-social, se dispusermos dos vestígios. O caso do Scarabeus sacer é apenas um dentre muitos
outros. Refletir sobre essa história causa em nós uma sensação de
pertencimento ecoplanetário à espécie humana. Todas as fides são
estruturalmente comparáveis. Na origem, nascem a partir de abstrações
histórico-culturais de aspectos naturais da vida e do mundo, cujas
simbólicas são transferidas para o mundo noológico propriamente
mítico, onde desenvolvem-se num novo ecossistema, articulando-se com e
contra todas as demais mitologias ali já situadas, com as quais
eventualmente entre em contato..
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –