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Eu quis
começar meu blog com Nietzsche, porque de um jeito
muito especial eu gosto dele. Comecei seriamente a ler
Nietzsche com Zaratustra, e me apaixonei pelo
"prólogo", que pus como frontispício na
entrada do bosque... |
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<<Der
Mensch ist ein Seil, geknüpft zwischen Tier und Übermensch
- ein Seil über eninem Abgrunde. Ein gefährliches Hinüber,
ein gefäherliches Auf-dem-Wege, ein gefährliches Zurücblicken,
in gefährliches Schaudern und Stehenbleiben>>
Eu não sei se o
entendo corretamente, porque o conceito de
"super-homem" em Nietzsche tem sido apresentado de
uma maneira diferente da com que eu o decodifico. Seja como
for, direi como leio aquele preciso trecho do prólogo, e do
que gosto.
O homem do prólogo
de Zaratustra não está sobre uma corda: ele
próprio é "uma corda" ou uma
"ponte". Não vejo o homem do prólogo cruzando a
ponte para chegar do outro lado, posto que o que há para
ser amado nele é justamente ser a ponte, e não ser
meta. Tão pouco vejo esse homem de Nietzsche transpondo a
corda para o outro lado do abismo. Não, não: esse (im)preciso
homem é justamente corda e ponte.
Se assim é, se esse
homem que amo ser é, com efeito, corda e ponte, então é
impraticável imaginar que seu destino, seguindo em frente,
seja constituir-se no "super-homem", assim como,
retornando, retornar ao seu estado "animal". Esse
homem é homem quando e enquanto corda e
ponte. Se deixa de ser corda e ponte, tem o risco de
tornar-se animal, logo, um não-homem, ou tornar-se
super-homem, também aí um não-homem.
Penso que leio
corretamente o pequeno poema, porque o próprio Zaratustra
dirá que, sendo o homem "uma corda estendida entre o
animal e o super-homem", assoma-se diante dele uma
série de perigos:
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o perigo de
transpor o abismo!
o perigo de
continuar adiante!
o perigo de olhar
para trás!
o perigo de
tremer, de parar!
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Percebo aqui um
paradoxo delicioso, que me deixa com as carnes trêmulas,
porque é também aqui um medo, um medo de ter errado, mas
gostar imensamente desse erro que teria errado. Suspeito que
o pensamento complexo que bebi de Edgar Morin goteje desde
essa pérola.
É que esse homem
que é corda e ponte corre eternamente o risco de transpor o
abismo, se vai, ou de retornar, se vem. Se vai, deixa de ser
homem, vira super-homem, não-homem; se vem, deixa de ser
homem, vira animal, não-homem. Contudo, ai dele! ele deve
"seguir", porque há, decerto e sempre, também o
risco de tremer e parar!
Nosso homem não
pode transpor o abismo, nem para frente, nem para trás,
mas, coitado! tão pouco pode parar! Minha cabeça dói...
Dói mesmo?
Nietzsche brinca conosco, de esconde-esconde. Onde escondeu
o segredo? Não será no itálico que vejo na versão: transição?
Não será que Zaratustra sabe que o homem não pode seguir
em frente, rumo a uma meta - não há metas! que o homem
não pode retornar, desistindo da caminhada! que o homem
deve, a todo tempo, transmutar-se, metamorfosear-se, morrendo,
mas morrendo e renascendo, e sempre de si
mesmo, como fruto de si mesmo e de sua caminhada perigosa?
Por isso o que há
para ser amado no homem é ser ponte, e não meta - porque
meta é grandeza não-humana. Seguir, ir, transitar, ah,
sim, fado e fardo - mas nunca sair da condição de sempre
transitar, de sempre ir, de sempre ser ponte e corda,
eternamente sobre o abismo.
Sobre o nada, entre
o animal e o super-homem, o homem de Nietzsche treme o tempo
todo. E, tremendo, faz tremer com ele a terra inteira...
Uma palavra sobre o
"super-homem". A rigor, o termo alemão que
Nietzsche usou é Übermensch, e não significa
exatamente "super-homem", mas, mais adequadamente,
"sobre-humano", "além-do-humano". O que
reforça minha idéia de que
é provável que Nietzsche já estivesse, aí, com esse
termo, nesse prólogo formidável, usando-o dentro de um
raciocínio complexo, de modo que Übermensch
não seria o que o homem deve se tornar a longo prazo,
mas o que ele se torna (sobre-humano = além-do-humano =
não-humano) se abdica de sua condição de equilibrista.
Longe de ser o que o homem deve ser, o Übermensch ameaça
o ser do ser-humano. Para mim, ele consiste no
"modelo". O homem não tem modelos - nasce para
fazer-se, fazendo-se, à medida que se faz (cf. O
Anticristo, III). Há, contudo,
cabeças que imaginam modelos para ele: modelos políticos,
filosóficos, morais, teológicos. Esses são os
super-homens, eu imagino. Quando o homem abandona a sua
incerteza existencial, sua insegurança ontológica, quando
o homem abandona o gosto de tremer em devir perpétuo,
quando abraça e se deixa abraçar pelo gosto do modelo, eis
aí o super-homem, porque eis aí um não-homem: chegou lá!
está pronto! e se mexer um dedo pra cá ou pra lá, chegou
mesmo a transgredir o padrão...
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Se
não há modelos, então, e se esse Übermensch de
Nietzsche é mesmo, como eu penso que é, esse "ser
humano" em rumo de si mesmo, de si para si, talvez
pudéssemos brindá-lo com a velha letra do Raul:
Metamorfose
Ambulante
Raul
Seixas
(música
e letra)
Prefiro
ser essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
É chato chegar a um objetivo num instante
Eu quero viver essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
Eu vou lhes dizer aquilo tudo que eu lhes disse antes
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Hum...
vou continuar pensando sobre isso, porque pode ser que eu
esteja errado. O tempo tem tempo... E, enquanto espero o
tempo, que me espera o pensamento, bebo a sabedoria dos
versos de Antonio Machado. Caminante,
son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar. (Poesías
completas. Madri: 1973. p. 158)
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