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“Como
é que, diante de tais visões, como é que, com esta terrível
fome de saber, com estes repentinos apetites da consciência,
seríamos capazes de nos satisfazer, daqui em diante, como
homem actual?”
(A
Gaia
Ciência, A. 382)
"Nós,
que procuramos o conhecimento"
(A
Gaia
Ciência, A. 380)
"Daí
resulta uma necessidade de conhecer que pode parecer epicúrea e
que não se cansa facilmente dos problemas"
(A
Gaia Ciência, A. 375)
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Entenda-se
– saiu-se há pouco do “mundo” tradicional-normativo da
“teologia” cristã. Daí a “terrível fome”, porque
quer-se “saber”, porque a consciência o exige, o impõe. A
sopa rala que a “modernidade” servia à mesa não podia
satisfazer o apetite do corpo famélico de Nietzsche. Não havia
muito que ele pudesse fazer a respeito. Como dirá alhures,
quanto à música de Wagner, sua indisposição fisiológica
igualmente fazia-se particularmente sensível em face da cozinha
de seu tempo.
Sinto-me
exatamente assim, em face da “teologia” de meu tempo. Há vinte e um anos
que lido com ela, e, agora, chego ao doutorado. Dead
line. Subir a montanha é preciso – e impreciso. Não
será o caldo ralo da “teologia” que me permitirá a
escalada. A teologia tornou-me imprestável para a teologia. Só
posso parar. E, como não posso parar, só posso ultrapassar a
ração de farelos, e devorar carne, como aquele ogro que Bloch
cita da lenda. Uma pós-teologia. Uma teologia nova – quero
dizer, totalmente nova. Que, por primeiro ato, publique sua
confissão – pequei, e viverei em insuperável pecado, porque
minha alma é cética.
Ó
cética alma, mística!, ó mística alma cética!, come!,
devora! - a carne da terra, o corpo da physis, a alma do mundo.
aos
16/06/2008
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“Talvez,
nós outros, filósofos, estejamos todos hoje em má posição
perante o saber humano, a ciência aumenta, e os mais sábios de
nós estão perto de descobrir que sabem muito pouco”
(A
Gaia Ciência, A. 381)
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Desse Nietzsche eu gosto! Tem um Nietzsche que me assusta, como o
susto de um pai – ou de um filho? – diante de sua cria,
reconhecendo-se nela, entre claros-escuros, entre graça e
terror, entre “trabalho cumprido!” e “meu Deus, o que eu
fiz?”.
Nietzsche
está no outro lado do século XX. Morrerá na divisa –
25/08/1900 (tinha que morrer no dia do soldado! – que tolice
minha). A ciência, aí, está começando a preparar sua entrada
triunfal. Como os fogos, nos estádios, a fumaça, nos shows
de rock, o cogumelo não deixará dúvidas quanto a que veio a ciência.
Nietzsche pressente-lhe o cheiro de enxofre – e, portanto, de
incenso. O sagrado tanto atrai quanto apavora.
O
que me encanta nesse Nietzsche é ele saber que a filosofia
brinca de deus – ao
passo que aí vem uma coisa verdadeiramente divina. A filosofia, ah, como ela é tagarela. Mas vem aí, ele
anuncia, um advento inexoravelmente criador.
Quando Prometeu meter a mão dentro da physis,
e arrancar suas tripas, e ostentá-las ao mundo, restará aos
filósofos, Nietzsche antecipa-lhes o destino, dar de ombros, se
não circunscreverem também no coração da matéria seu labor
de dizer coisas.
Quero
isso para mim – meu corpo não me permitiria nada diferente,
agora. O teólogo que sou e o filósofo que brinca em mim
definitivamente encarnaram. Descobri a terra de que meu espírito
é feito – e é até o fundo dela que quero enfiar a mão.
aos
16/06/2008
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"Somos,
numa palavra - e que essa palavra seja a nossa palavra de honra!
-, bons europeus, herdeiros da Europa, seus herdeiros ricos e
mimados, mas ricos também de uma superabundância de
obrigações acumuladas por milhares de anos de espírito
europeu: como tais, 'saídos' do cristianismo, a ele hostis,
porque precisamente 'saímos' de sua escola, porque os nossos
pais foram cristãos de uma lealdade sem reservas, que teriam
sacrificado de bom coração à sua fé, os bens, o sangue, o
estatuto e a pátria. Nós... nós fazemos o mesmo. Mas por
quem? Pela nossa falta de crença pessoal? Por qualquer espécie
de descrença? Não, bem o sabeis, meus amigos! O sim que
se esconde em vós é mais forte do que todos os nãos e os
talvez de que sofreis com a época; e se vos é necessário
partir para o mar, ó imigrantes, é uma fé que vos
empurra para lá, a vós também!..."
(A
Gaia Ciência, A. 377) |
Não
nesse, mas num trecho anterior desse mesmo aforismo, Nietzsche
me assusta. Trata-se de um daqueles momentos de que falei acima.
Nesse trecho, não. Nesse trecho eu chego a acompanhá-lo.
Entendo bem o que, para Nietzsche, significa dizer
"'saímos' do cristianismo". Na verdade, são muitos
sentidos, todos válidos. Um, segundo o qual o século XIX é
fruto do cristianismo. Outro, segundo o qual ele rompe com ele.
Contudo, uma vez que "saímos" de lá por meio desse
duplo registro, é, ainda, por ele marcados, que dele saímos.
Reagir contra ele é uma coisa que podemos fazer - a partir
dele. O que, afinal, na filosofia, nas ciências, na teologia,
pode estar e ficar fora do cristianismo? Aqui entende-se o que
Vattimo quer dizer, quando diz que ser ocidental é ser cristão
- mas ressabio-me, como gato escaldado, de que Vattimo esteja
ensaiando um gesto, a seu tempo e modo, barthiano. É aprofundar
a questão, e esperar, pra ver.
Quanto
a mim, ainda que não de todo presente em "vós",
reconheço-me ali. O Brasil que me toca é um Brasil de cara
européia, porque a escola, a filosofia, as ciências, a
teologia, tudo isso tem cara européia entre nós. Então,
reconheço em mim essa fé de que Nietzsche fala, uma fé
que, conquanto rompa com a cristã, é, ainda, a seu jeito, fé.
Lançar-se ao mar...
Mas
aí está, a meu ver, a diferença entre essa fé de marinheiro
e aquela fé anterior. Essa é metodológica - "navegar é
preciso", ao mesmo tempo que assombrada - "viver não
é preciso". Não é uma fé que "sabe", mas uma
fé que "sabe que não sabe". Mas quer saber tudo de
novo. Diferente.
Já
fui chamado de fundamentalista de esquerda. Um aluno disse isso
de mim. Num primeiro momento, aborreci-me. Num segundo,
concordei. Sim, sou fundamentalista de esquerda - o que quer
dizer que não posso abrir mão de uma fé em torno da
vida.
Se,
por um lado, não posso repetir (mais) as velhas doutrinas -
romper com a fé do cristianismo resume-se a isso, reconhecer
que os conteúdos doutrinários, todos, do cristianismo,
constituem roupas humanas, porque, além de criadores, somos,
também, alfaiates de Deus -, por outro lado não posso conceber
um descolamento radical da vida - aquela "irrisão" de
que, em certo sentido, fala o filósofo.
O ceticismo é - afinal - uma fé.
Sem
simplificações reprováveis, a fé pós-cristã é uma
fé que cresce de dentro para fora, sabendo-se tatear
interminável no escuro, abraço criativo entre os sentidos e a
imaginação crítica.
Vivemos
dois mil anos ouvindo Platão. Quando Nietzsche disse que Deus
estava morto, esse era o nome que dava ao filósofo das idéias.
aos
16/06/2008
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"Muito
pelo contrário, o mundo, para nós, voltou a tornar-se
infinito, no sentido em que não lhe podemos recusar a
possibilidade de se prestar a uma infinidade de
interpretações. Voltamos
a ser dominados por grande calafrio; mas quem terá vontade de
divinizar logo a seguir, de novo, à antiga moda, esse monstro
do mundo desconhecido? De ir adorar, por exemplo, o desconhecido
com D maiúsculo? Ai de nós, temos demasiadas possibilidades de
interpretar esse desconhecido sem deus, de o interpretar
com o diabo, ou com estupidez ou com loucura... sem contar com a
nossa própria maneira, a nossa maneira humana de o fazer,
demasiado humana, como sabemos!..."
(A
Gaia Ciência, A. 374) |
Não
faz uma semana, eu acho, escrevi Da
coragem. No fundo, era sobre isso que eu falava - mas sem
essa beleza (ou, concedo, com outra). Nietzsche fala exatamente
do que eu falava. Nos meus termos, da origem estética da
religião, dos deuses, das deusas. Vejo o Tratado de História
das Religiões, de Mircea Eliade, aqui. Eliade repete, a seu
modo, Nietzsche. O desconhecido, homens e mulheres, há
milênios, domesticaram-no, aqui, com uma cara assim, ali, com
uma cara assado, todas essas caras, caras hierofânicas,
cratofânicas - estéticas. Tratava-se, com aqueles discursos
míticos, de roupas estéticas para com elas recobrir-se a nudez
do desconhecido.
Na
longa e distante noite dos temos, homens e mulheres começaram,
assim, esteticamente, a domesticação do mundo. Criaram os
deuses e as deusas como nomes para as diversas dimensões do
desconhecido, à medida que iam tomando ciência dele. Cada dia,
um desconhecido. Cada dia, um deus. O mundo era grande demais
para caber num único olhar. Eram necessários vários olhares,
logo, várias zonas desconhecidas se iam deixando descortinar -
"revelar" - a que se seguiam várias hierofanias,
várias epifanias, várias materializações dos deuses.
Tudo
isso sob o regime estético. Até que os homens e as mulheres
inventassem as grandes civilizações históricas, o poder
militar organizado, as grandes tribos, as grandes cidades, o
poder central. O poder gostou da estética religiosa inventadora
de deuses e de deusas. Apropriou-se dela. Doravante, a religião
torna-se hiperonimamente política e hiponimamente estética. Os
reis inventaram a religião oficial, o controle social por meio
da religião, as normas, as leis religiosas.
Até
que, recentemente, não faz, ainda, duzentos anos redondos, bem
pesados, homens e mulheres, em certo modo, cansados do jogo
político da religião, viraram a mesa - os desmancha-prazeres
de Huizinga. Inventamos a República, a heurística
científico-humanista, e, por um instante, a religião quase
desintegrou-se.
Mas
não. Não se desintegrou, não. Mas não pode mais ser a mesma
coisa. Se ainda é, é porque não deixou-se, ainda, esclarecer,
e, aí, onde a religião ainda é o que era antes do Romantismo,
Marx marca ponto, porque ela é ópio e alienação. Desafio
todos os religiosos a deixarem-se passar pelo rito de
iniciação romântico - formigas noológicas de peçonha
alucinógena picarão seu córtex, e revelarão a condição
mítica da teologia, da religião. Não há cura para isso.
Depois
dessa passagem - pela qual os religiosos recusam-se passar (cada
qual tem sua razão) - não é mesmo mais possível divinizar o
mundo - "à moda antiga". Um novo mito, à nova moda,
deve recobrir a leitura do mundo. Não há como o homem - como
espécie - morar no mundo, se não por meio do mito. A meu
juízo, a religião deveria retornar à sua condição estética
primeira - sob a condição, moderna, de reconhecer-se essa
condição como mítica - como mito insuperável.
Essa
é a revelação heurística da modernidade à história da
religião - ela, toda ela, ela inteira, todas elas, é/são
mitos. Se assim tomadas, podem, inclusive, ser muito úteis como
plataforma noológica de instalação da humanidade sobre o
planeta. Afinal, o que não é mito? Os conceitos de
"nação", de "pátria", de
"igualdade", de "liberdade", de
"fraternidade" - tudo isso é mito. E mito
necessário. Um mito estético religioso não é incompatível -
até porque os hinos nacionais convidam-nos à divinização da
Deusa Pátria. O que não podemos é, de novo, divinizar tudo
isso - porque tudo isso é mito.
aos
19/06/2008
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"Até
onde vai o caráter perspectivo da existência? Possui ela mesmo
outro caráter? Uma existência sem explicação, sem 'razão',
não se torna precisamente uma 'irrisão'? E, por outro lado,
não é qualquer existência essencialmente 'explicativa'? É
isso que não podem decidir, como seria necessário, as
análises mais zelosas do intelecto, as mais pacientes e
minuciosas introspecções: porque o espírito do homem, no
decurso destas análises, não se pode impedir de se ver
conforme a sua própria perspectiva e só pode ver de acordo
com ela. Só podemos ver com os nossos olhos; é uma curiosidade
sem esperança de êxito procurar que outras espécies de
intelectos e de perspectivas podem existir"
(A
Gaia Ciência, A. 374) |
Pretendo,
aqui, levar o aforisma para onde quero. Talvez, mais tarde,
abri-lo como se abre um abiu, e comê-lo, doce. Mas o que me
chama a atenção, agora, é o quanto esse aforismo de Nietzsche
pode abrir caminho - abriu? - para um "relativismo"
insosso, que, aposto, não tem nenhuma relação com o que o
próprio Nietzsche quer dizer.
Observe-se
que o aforismo fecha a porta para soluções, fugas, contornos,
desvios, afiançando - com temeridade? - que "é uma
curiosidade sem esperança de êxito procurar que outras
espécies de intelectos e de perspectivas podem existir".
Isso me faz parar e pensar sobre o fato de que, até aqui,
Nietzsche estivesse falando da "nossa" - humana,
demasiado humana - maneira de intelecto, a da
"espécie" humana, própria da espécie humana. A
alternativa seria imaginar que Nietzsche esteja falando, até
aí, de cada homem especificamente, de modo que o espírito
desse homem fosse, ele, uma "mônada" aprisionada em
sua própria - e subjetiva - perspectiva. Ora, mas se Nietzsche
estivesse - e estiver - falando sob essa perspectiva, como se
pode imaginar que os homens, as mulheres, os membros da
espécie, possam, afinal, intercomunicar-se?,
intercompreender-se?, intercomprometer-se?
Talvez
seja melhor considerar que Nietzsche esteja falando do
aprisionamento - romântico! - da "espécie" Homo
sapiens, aprisionamento histórico-cultural inexorável. Se
assim for, Nietzsche não está falando que cada homem e mulher
sejam como bolhas isoladas, e que, cada pensamento, seja uma
irrisão e um fogo fátuo, uma chispa breve e sem futuro - nem
passado (e, consequentemente, inclusive, sem presente), mas que
a "espécie" inteira, como um todo, é solitária e
solidária em sua masmorra consciente (cf. A. 373!). Como se diz ter Pascal
dito: "o homem é um caniço quebrado, e o peso do Universo
o esmaga - mas ele o sabe".
Aborrece-me
(por quê?) o fato de que, no século XX, tanto se tenha tomado
Nietzsche para transformar-nos em Mônadas idealistas,
deslocadas do real e dos outros todos, vivendo a irrisão do
relativismo desenfreado. O risco ronda as portas de Heidegger e
de Gadamer, e - é meu juízo - fez crescer, arruinada desde o
alicerce, a filosofia de Vattimo (que se diz, no entanto,
fundamentada [?] em Nietzsche).
Penso,
ao contrário, que Nietzsche esteja tão somente fechando a
porta para cima. Se o aforismo for continuado - essa é
apenas a citação de um trecho -, o leitor deparar-se-á com a
advertência de Nietzsche de que não há (mais) como querermos
interpretar o mundo como "divino"
- e esse é o ponto: resta-nos, apenas, o olhar humano, nosso
olhar, da espécie, e não aquele do "sujeito"
relativista. Trata-se de pôr homens e mulheres, juntos e todos,
todos juntos, sob a condição inexorável do escuro e da
solidão siderais.
Suspeito
que a ainda não concluída discussão entre "idealismo
relativista" e "materialismo realista" traduza,
no fundo, uma questão de política. Como se o materialismo
quisesse o poder pela "ciência", e o idealismo, um
contra-poder (logo, também, poder) pela não-ciência ou pela
tudo-ciência (Habermas?). Eu não quero (aqui e agora) pôr a
mão nessa caixa de escorpiões. Mas considero que a mais
completa tradução desse Nietzsche esteja, inteira, registrada
em O Método, de Edgar Morin - "nem idealismo, nem
materialismo, mas idealismo e materialismo, sem idealismo nem
materialismo". Penso que Karl-Otto Apel igualmente esteja
tocando no assunto, mas num ponto específico - como superar o
relativismo, sem transformá-lo em positivismo?
Arrisco
um diagnóstico - Heidegger, Gadamer e Vattimo não nos ajudam
com essa situação. Eles ajudam-nos a construir relações
humanas, apenas - nós versus nós. Mas nada sabem do
mundo real, e decidiram deixá-lo de lado. Descobriram a
subjetividade histórico-cultural, psicológica, do Dasein,
e, no fundo, substituíram o homem e a mulher concretos por essa
Idéia. No fundo, um neoplatonismo mitigado, disfarçado, mas a
mesma opção pela idéia, aqui, transformada em linguagem,
tradição e cultura. Ainda formiga, aí, um sentimento não de
solidão humana, mas de indiferença, um solipsismo da espécie,
uma ironia primata idiossincrática. Não quero seguir por aí.
Não vou caminhar um metro nessa picada conquanto recolha deles
o que também eles recolheram de antes deles: somos seres
históricos, culturais, provisórios.
Mas
a trilha que quero seguir é aquela aberta por Prigogine, Morin,
Apel, Ginzburg, Gould, cujo primeiro bandeirante, desconfio, é
Nietzsche "a consciência é a última fase da evolução
do sistema orgânico" (A Gaia Ciência, A. 11).
Eu
amo esse homem. Por quê? Porque ele não me protege da dor.
Não é meu sacerdote. Nem meu carrasco. Só me olha do alto de
seus olhos aristocráticos. O que eu, sem esforço, perdôo. Para
o amor, isso não custa nem dois centavos.
aos
20/06/2008
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Nietzsche,
o rebelde aristocrático.
Domenico
Losurdo |
"Olhos
aristocráticos" - leia-se imediatamente aí em cima. Eu
já havia percebido que Nietzsche tem de ler sido por outra
perspectiva do que aquela - "filosófica",
´pós-moderna" - que caracteriza a sua recepção
contemporânea. Eu já o havia, inclusive, dito em publicação
- Então
eu sou moderno.
Agora,
descobri, ontem, sem o procurar, mas por ler seu nome num post
do blog do Nassif, Domenico Losurdo, que publicou, em 2003, Nietzsche,
il ribelle aristocratico. Biografia intellettuale e bilancio
critico. Turín: Bollati Boringhieri, 2002, 1167 p. Losurdo
afirma, nesse sentido, exatamente o que eu já havia percebido
em minhas leituras de Nietzsche - Nietzsche fala a partir de sua
posição e política aristocrática, e ouvir suas palavras
desde outra perspectiva não é ouvi-lo.
É
por isso que sua crítica feroz ao Cristianismo é ao fato de
ele ter constituído por meio da política da "moral dos
escravos". É por isso que Nietzsche defende a divisão
tripartite da sociedade - pensadores, governantes e povo. É por
isso que ele trata, de forma zombeteira, o cristão, besta de
carga. Nietzsche, dói-lhe no profundo da alma que o século XIX
esteja abrindo as portas para uma revolução democrática - da
qual, contudo, estamos longe, muito longe.
Fico
feliz de ter encontrado Losurdo. O que Losurdo faz com Nietzsche
é uma tentativa de "exegese histórico-social"- como
Ginzburg fizera com Domenico Scandella, e como eu tento fazer
com os textos da Bíblia Hebraica.
Tentarei
comprar e ler a obra. Por ora, só tive acesso a uma resenha
que o próprio Losurdo recomenda.
aos
06/09/2008
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