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O
Anticristo
I
Olhemo-nos
de frente. Somos Hiperbóreos,
e sabemos muito bem como vivemos distantes. "Nem por terra nem
por mar encontrarás o caminho que conduz aos Hiperbóreos - como
já dizia Píndaro de nós. Para além do Norte, dos gelos, da morte
- a nossa vida, a nossa felicidade... Descobrimos a felicidade,
conhecemos o caminho que a ela conduz, encontramos a saída após
milhares de anos de labirinto. E quem além de nós, a encontrou? -
O homem moderno, talvez? - "Eu nem sei sair nem entrar; sou
tudo aquilo que não sabe sair nem entrar" - suspira o homem
moderno... E é dessa modernidade que enfermamos - da paz
apodrecida, do compromisso cobarde, de toda a virtuosa imundície do
moderno sim e não.
Esta
tolerância, este largeur do coração, que tudo
"perdoa", porque tudo "compreende", é para nós
Siroco. Antes viver entre os gelos do que no meio das virtudes
modernas e outros ventos do Sul!... Fomos bastante corajosos, não
poupamos os outros nem a nós próprios, éramos por natureza menos
domesticáveis que quaisquer outros: mas por longo tempo
desconhecemos aonde ir com o nosso valor. Havíamo-nos
tornado tristes, chamavam-nos fatalistas. A nossa fatalidade era a
plenitude, a tensão, o surgir das forças. Tínhamos sede de
relâmpagos e de fatos, conservávamo-nos o mais longe possível da
felicidade dos fracos, da "resignação". A nossa
atmosfera estava carregada de tempestade, a nossa própria natureza
nublava-se - pois não tínhamos rota alguma. Eis a fórmula da
nossa felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma finalidade... |
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Der
Antichrist
1.
-
Sehen wir uns ins Gesicht. Wir sind Hyperboreer, - wir wissen gut
genug, wie abseits wir leben. "Weder zu Lande, noch zu Wasser
wirst du den Weg zu den Hyperboreern finden": das hat schon
Pindar von uns gewusst. Jenseits des Nordens, des Eises, des Todes -
unser Leben, unser Glück ... Wir haben das Glück entdeckt, wir
wissen den Weg, wir fanden den Ausgang aus ganzen Jahrtausenden des
Labyrinths. Wer fand ihn sonst? - Der moderne Mensch etwa? "Ich
weiss nicht aus, noch ein; ich bin Alles, was nicht aus noch ein
weiss" - seufzt der moderne Mensch ... An dieser Modernität
waren wir krank, - am faulen Frieden, am feigen Compromiss, an der
ganzen tugendhaften Unsauberkeit des modernen ja und Nein.
Diese
Toleranz und largeur des Herzens, die Alles "verzeiht",
weil sie Alles "begreift", ist Scirocco für uns. Lieber
im Eise leben als unter modernen Tugenden und andren Südwinden! ...
Wir waren tapfer genug, wir schonten weder uns, noch Andere: aber
wir wussten lange nicht, wohin mit unsrer Tapferkeit. Wir wurden düster,
man hiess uns Fatalisten. Unser Fatum - das war die Fülle, die
Spannung, die Stauung der Kräfte. Wir dürsteten nach Blitz und
Thaten, wir blieben am fernsten vom Glück der Schwächlinge, von
der "Ergebung" ... Ein Gewitter war in unsrer Luft, die
Natur, die wir sind, verfinsterte sich - denn wir hatten keinen Weg.
Formel unsres Glücks: ein Ja, ein Nein, eine gerade Linie, ein Ziel
...
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IIa.
Parto do princípio de que não se trata de poder
no sentido político-militar. Penso que se trata do poder
no sentido psicológico-filosófico da autonomia do sujeito. Daí que tudo quanto concorra
para a autonomia desse sujeito é bom.
O contrário seria "tudo o
que nasce da fraqueza"
- que eu tomaria como qualquer posição que se assuma na condição
de "submeter-se", em face da heteronomia. Nesse caso, o
sujeito não quer/não pode agir a partir de si mesmo, mas vê-se, por alguma
razão, determinado pela vontade de outra consciência. Nesse
sentido, a felicidade
seria a experiência de constatar a própria autonomia, de superar
determinada(s) heteronomia(s), e expressar-se a partir da própria
consciência. Bem entendido - felicidade para quem deseja autonomia.
Há quem prefira abdicar dela.
IIb.
"Nenhum contentamento, mas
mais poder"
indicaria para a resistência à heteronomia - a não-conformação.
Rm 12,1-2 recomenda alguma coisa aparentemente parecida: "não
vos conformeis a este mundo". Contudo, ali se fala da
"vontade de Deus", que, no entender de Nietzsche,
constituiria heteronomia - travestida em "vontade de
Deus", na verdade a vontade de sacerdotes sobre a
consciência individual. Assim interpretaria a recomendação à
guerra, e não à paz - recusar submeter-se em nome da dispersão do
conflito potencial. Se for assim, então se poderia explicar que se
recomende a virtu,
e não a "virtude",
o valor, e não a moral. Quer-se saltar sobre o cristianismo
- moral - e tocar o
varão da antiguidade greco-romana. Trata-se, então, do
valor "aristocrático", da varonilidade "cavalheiro",
da virilidade do
"soldado", mas enquanto tipos ideais de "homens de
valor", de "homens valorosos".
IIc.
O último parágrafo pode ser lido de maneira ou política ou
utópica. Com "política", quero indicar para a
possibilidade de o parágrafo recomendar a supressão desse fraco
aí, desse sujeito concreto que está diante de "mim".
Não aposto nessa possibilidade de leitura. Com
"utópica", quero indicar para a recepção em tese da
proposta ideal de uma sociedade em que não existissem homens "fracos".
Não estou bem certo, porque
logo a seguir fala-se de que a compaixão é "o
mais nocivo d(...)os vícios".
Contudo, "compaixão"
aí é uma metonímia para "cristianismo".
O vício é, portanto, o cristianismo.
IId.
Faço o seguinte: tomo cada parágrafo em particular,
leio-os uns pelos outros, leio-os pelo conjunto do capítulo, e o
conjunto do capítulo pelo conjunto dos parágrafos. Leio
recursivamente. Resultado: o cristianismo é o pior de todos os
vícios, porque promove a heteronomia. Deve-se fazer guerra contra
essa situação, e promover a autonomia dos indivíduos. A própria
guerra provavelmente "os ajude mesmo a desaparecer". A
guerra aí não consiste na aplicação da força contra o
cristianismo ou contra os "fracos" heterônomos.
Consistiria, antes, na defesa da idéia da própria autonomia em si.
A publicação de O Anticristo seria uma guerra... (voltar
para Reflexão um) |
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II
O que é bom? - Tudo aquilo que desperta
no homem o sentimento do poder, a vontade de poder, o próprio poder.
O que é mau? - Tudo o que nasce da
fraqueza.
O que é a felicidade? - A sensação de
que o poder cresce - de que uma resistência foi vencida.
Nenhum contentamento, mas mais poder. Não
a paz acima de tudo, mas a guerra. Não a virtude, mas o valor (no estilo
do Renascimento: virtu, virtude desprovida de moralismos).
Quanto aos fracos, aos incapazes, esses
que pereçam: primeiro princípio da nossa caridade. E que se os ajude
mesmo a desaparecer! O que é mais nocivo do que todos os vícios? - A
compaixão que suporta a ação em prol de todos os fracos, de todos os
incapazes: - o cristianismo.
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Questão
metodológica um:
-
penso que O Anticristo exija uma leitura a partir do eixo
histórico-psicológico de Nietzsche. É necessário encarnar-se de
sua posição relativa, condição sine qua non para a
recuperação arqueológica do sentido de suas palavras. É que elas
são especialíssimas, peculiaríssimas, além de, claro, ambíguas.
Por que especialíssimas? Porque são de Nietzsche - um homem que
nasceu póstumo. Por que ambíguas? Porque são vertidas em registro
poético, cujo eixo referencial é - não há como resistir a isso -
a intenção de Nietzsche.
Se
Nietzsche é um Dom Quixote, está mais para Brancaleone. Não é um
soldado de armas. Suas armas são a filosofia, sua espada, a pena.
É, claro, um guerreiro, mas sua luta se faz com palavras, vestindo
idéias precisas, mas em linguagem tão profundamente poética, de
um rasgo passional tão intestino, que transmutam-se em registro
poético. Corre-se o risco de situar o conjunto poético sobre um
outro eixo qualquer, e pôr-se a perder a intenção histórica com
que as palavras foram escolhidas, vocacionadas, articuladas.
O
drama é, portanto, saber quem é Nietzsche. Para o saber, só lendo
suas obras. Mas para o que é necessário conhecer Nietzsche - o que
é possível, lendo-o. Deve-se, portanto, reconhecendo a
necessidade de reconstrução recursiva do homem Nietzsche e de seu
pensamento, tomar o bonde andando, e criticar a cada passo o
resultado provisório da leitura.
voltar
para IVb |
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2.
Was ist gut? - Alles,
was das Gefühl der Macht, den Willen zur Macht, die Macht selbst im
Menschen erhöht.
Was ist schlecht? -
Alles, was aus der Schwäche stammt.
Was ist Glück? - Das
Gefühl davon, dass die Macht wächst, dass ein Widerstand überwunden
wird.
Nicht Zufriedenheit,
sondern mehr Macht; nicht Friede überhaupt, sondern Krieg; nicht
Tugend, sondern Tüchtigkeit (Tugend im Renaissance-Stile, virtù,
moralinfreie Tugend)
Die Schwachen und
Missrathnen sollen zu Grunde gehen: erster Satz unsrer Menschenliebe.
Und man soll ihnen noch dazu helfen.
Was ist schädlicher
als irgend ein Laster? - Das Mitleiden der That mit allen
Missrathnen und Schwachen - das Christenthum ...
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3.
Nicht,
was die Menschheit ablösen soll in der Reihenfolge der Wesen, ist
das Problem, das ich hiermit stelle (- der Mensch ist ein Ende -):
sondern welchen Typus Mensch man züchten soll, wollen soll, als den
höherwerthigeren, lebenswürdigeren, zukunftsgewisseren.
Dieser
höherwerthigere Typus ist oft genug schon dagewesen: aber als ein
Glücksfall, als eine Ausnahme, niemals als gewollt. Vielmehr ist er
gerade am besten gefürchtet worden, er war bisher beinahe das
Furchtbare; - und aus der Furcht heraus wurde der umgekehrte Typus
gewollt, gezüchtet, erreicht: das Hausthier, das Heerdenthier, das
kranke Thier Mensch, - der
Christ
...
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IIIa.
Um
capítulo-chave para a compreensão do livro, que, por sua vez, precisa da
adequada leitura do anterior. O tipo de homem que se deve criar é o autônomo.
IIIb.
A autonomia já se testemunhou na terra. Mas, a julgar por Nietzsche,
deu-se por
acaso.
Não era fruto de uma expectativa. Pelo contrário - era temível a sua
aparição. E foi esse medo da autonomia humana, da livre determinação
da consciência do sujeito que engendrou o caráter oposto: o Heterônomo.
Heterônomo poderia ser o epíteto desse cristão que Nietzsche desenha.
IIIc.
Compreende-se, assim, porque ele é descrito como "animal
doméstico",
porque sua autonomia, que faria dele um animal da floresta, um animal
selvagem, lhe foi arrancada; como "rês gregária". Besta de
carga acomodada à manada. Manada, porque a consciência se dissolve na
congregação. Besta de carga, porque esse heterônomo está a serviço -
e não se trata de uma consciência que se põe em serviço, mas de uma
consciência sob serviço. Admirável
Gado Novo, de Zé Ramalho, evocaria assim essa categoria: "vocês
que fazem parte dessa massa, que entra nos projetos do futuro". É,
pois, uma besta
humana enferma,
porque a sua saúde, segundo o diagnóstico de Nietzsche no capítulo II
é a autonomia. |
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III
O
problema que aqui me coloco não é qual a sucessão do homem na
escala dos seres (- o homem é uma
finalidade - ?) mas sim qual o tipo de homem que se deve criar,
que se deve pretender, que tipo terá mais valor, que tipo será
mais digno de viver, mais seguro do futuro?
Este
tipo de elevado valor existiu já por mais de uma vez; mas como um
feliz acaso, como uma exceção, nunca um tipo desejado. Pelo
contrário, foi precisamente o tipo mais temido até ao presente,
quase que foi a realidade temível por excelência - e esse temor
engendrou o tipo inverso, desejado, criado, conseguido: o animal
doméstico, a rês gregária,a enferma besta humana - o cristão... |
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IV
Ao
contrário do que hoje se tem por verdadeiro, a humanidade não
representa um progresso para algo melhor, mais forte ou mais
elevado. O "progresso" não passa de uma idéia moderna,
ou seja, de uma idéia falsa. Vale o europeu moderno bem menos que o
europeu do Renascimento. Desenvolver-se não significa forçosamente
elevar-se, aperfeiçoar-se, fortalecer-se.
Por
outro lado, florescem constantemente casos isolados em diferentes
regiões da Terra, provenientes das mais diversas culturas, nos
quais se manifesta efetivamente um tipo superior: tipo que,
relativamente ao conjunto da humanidade, constitui uma espécie de Übermensch.
Esses golpes de sorte da grande realização foram, e serão talvez,
sempre possíveis. E até mesmo raças inteiras, tribos, povos ou
linhagens podem, em alguns casos, representar semelhante acertar no
alvo. |
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Reflexão
um:
Nietzsche tem
uma visão negativa da modernidade. Mas ainda aqui é preciso
cuidado - corre-se o risco de escapar da ótica
histórico-social do próprio Nietzsche. De que modernidade
ele fala? E por que ela é fraca relativamente ao
Renascimento? Ela é fraca, porque perdera o seu impulso de
autonomia, acomodou-se, acovardou-se, acocorou-se à sombra,
arrumou as esteiras e deitou-se - orgulhosamente, a título de
progresso. O que Nietzsche vê, é, contudo, a beira do
abismo. A modernidade ainda caminha curvada sob os valores
heterônomos.
É por isso que
eu não posso ser considerado um teólogo liberal. No campo
teológico, o liberalismo não me encanta. Por quê? Porque
ele é um compromisso com um hegelianismo agostiniano. A
idéia de progresso da modernidade nada mais é que a idéia
de Cidade de Deus de Agostinho, de cujo portão principal
arrancaram as letras D, e, u e s. Não é mais de Deus, mas é
o mesmo "projeto". Não se vê - não? - que se
está, ainda, atrelado a um programa heterônomo, ainda se
encena uma peça dirigida desde outra consciência. Os valores
ainda não são humanos, demasiadamente humanos, no sentido de
existenciais e históricos.
Não posso
tomar o cristianismo como a realização de um projeto ideal.
Não o é. Não posso tomar a teologia como Lei. Não é é.
Não posso assumir qualquer doutrina religiosa como Logos.
Não o é. Não posso relativizar essas questões,
secularizá-las, e brincar de moderno. Nesse sentido, não
posso fazer paz - minha única saída, rigorosamente nos
termos em que leio o capítulo II,
é a guerra, aquela guerra. E eu a faço dentro de mim, e à
minha volta, no meu metro quadrado.
Claro, meu
metro quadrado, agora, com a Internet, pode estender-se
ilimitadamente, sem deixar de ser meu metro quadrado. Não
ficaria decepcionado. Talvez seja mesmo melhor que cada
ser-humano torne-se senhor de sua própria consciência. Eu me
esforço para o ser da minha. |
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4.
Die Menschheit
stellt nicht eine Entwicklung zum Besseren oder Stärkeren oder Höheren
dar, in der Weise, wie dies heute geglaubt wird. Der "Fortschritt"
ist bloss eine moderne Idee, das heisst eine falsche Idee. Der Europäer
von Heute bleibt, in seinem Werthe tief unter dem Europäer der
Renaissance; Fortentwicklung ist schlechterdings nicht mit irgend welcher
Nothwendigkeit Erhöhung, Steigerung, Verstärkung.
In einem andren
Sinne giebt es ein fortwährendes Gelingen einzelner Fälle an den
verschiedensten Stellen der Erde und aus den verschiedensten Culturen
heraus, mit denen in der That sich ein höherer Typus darstellt: Etwas,
das im Verhältniss zur Gesammt-Menschheit eine Art Übermensch ist.
Solche Glücksfälle des grossen Gelingens waren immer möglich und werden
vielleicht immer möglich sein. Und selbst ganze Geschlechter, Stämme, Völker
können unter Umständen einen solchen Treffer darstellen. |
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IVa.
O
termo "humanidade" é ali tomado como a abstração do
conjunto dos seres-humanos. Hegel está por trás desse parágrafo,
e sua idéia de Espírito Absoluto, movendo-se em direção ao
cumprimento de seu destino. Nietzsche não pode trabalhar com a
idéia de "progresso", porque ele não tem sob mira a
idéia de "modelo". Não há um ponto final onde se deve
chegar. Essa humanidade apenas caminha... Caminhando-se, cada qual,
e mesmo conjuntos inteiros, podem construir-se a partir de
existências autônomas ou heterônomas. Por isso Nietzsche acha que
o homem do Renascimento é mais valoroso, porque o Renascimento é
um impulso de autonomia, diante do que a "modernidade"
constituiria um enfraquecimento.
IVb.
Parágrafo perigoso. O termo Übermensch
é
excessivamente ambíguo. Apelo para a Questão
metodológica um:
é necessário tentar acessar o termo pelo léxico histórico-social
de Nietzsche. Tentarei um exercício de complexidade.
A humanidade, enquanto o conjunto abstraído dos seres-humanos, não
"caminha" em direção a um fim, sequer caminha como um
corpo. Há bolsões de realização aqui e ali: indivíduos,
linhagens, tribos, povos, raças inteiras. Não uma hipóstase ideal
chamada humanidade, caminhando, rumo a uma realização histórica.
Os seres-humanos realizam-se concretamente, desde o indivíduo
concreto, até as articulações sociais, igualmente concretas. São
essas constituintes concretas que soem manifestar-se, eventualmente,
na condição de um "tipo superior".
IVc.
O "tipo superior", pois, não é uma hipóstase, mas uma
atualização concreta humana. Deve ser procurado o seu sentido na
própria corrente narrativa que o acaba de introduzir - e nos termos
dela. A corrente vem de apresentar a autonomia, e de
valorizar o homem renascentista por conta do seu ímpeto de
autonomia. Esse homem concreto, na posse de sua autonomia, esse é o
Übermensch.
Que é ele? O homem que se assume na condição de homem a caminho,
não a caminho de. O homem, mas também a linhagem, a tribo, o povo,
a raça que se sabe construtora de sua própria caminhada e
condição - que se faz, que se projeta, que se lança, sempre a si
mesmo. Cuidado! O Übermensch
não é
um "projeto", um "alvo", uma "meta",
um "ideal". Ele é a assunção da autonomia como meta
e risco.
IVd.
Quando
se diz que "esse" tipo superior o é relativamente ao
conjunto da humanidade, não se está falando de "tipo
ideal" - mas do fato concreto de esse "tipo superior"
ter-se tomado como senhor de si mesmo. Nesse sentido, aquele
conjunto da humanidade estaria sub-existindo, dado o fato de que,
estivesse pleno também ele de sua faculdade autônoma, constituiria
também ele parcela daquele tipo superior.
IVe.
O Übermensch
aqui
não é um sujeito que se torna sobre-excelente, transforma-se em
modelo. Não é uma determinada linhagem santa ou "nobre".
Não é uma determinada tribo germânica ou chinesa. Não é um
determinado povo americano. Não é uma determinada raça ariana. O Übermensch
é toda
aquela qualquer grande realização assustadoramente poderosa de
qualquer sujeito, qualquer linhagem, qualquer tribo, qualquer povo,
qualquer raça tomar-se a si mesmo como nível, assumir-se em sua
própria gestação histórico-cultural. |
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12/12/2006
Va.
Diante de um parágrafo desses, fazer o quê? Um cristão
mal-humorado, teria algumas opções. Primeira, negar. Nietzsche é
um lunático, e o cristianismo é a religião da liberdade, os
cristãos, os príncipes dos libertos. Meu diagnóstico dessa
atitude: disfunção cognitiva. Segunda: concordar com Nietzsche,
quando ele fala que o cristianismo tolhe a autonomia, mas
discordando com Nietzsche quanto ao juízo sobre tal atitude da
Igreja. É que, para um tal cristão, o homem é mesmo como Pascal
diz (exceto os teólogos eclesiásticos, como Karl Barth, claro,
que, contudo, têm a luz nos olhos, como já a tinha, a seu tempo,
Platão, ainda que, para ele, também as almas estivessem
estúpidas. Meu diagnóstico dessa atitude: tem gosto pra tudo.
Minha própria atitude: irretocável.
Vb.
"Não
se deve embelezar nem desculpar o cristianismo".
Sim, porque esse tipo de atitude apenas esconde o problema. Se a
pulsão heteronomizadora do cristianismo não é denunciada, se não
se usam megafones, no fundo, praticam-se acordos de engavetamento,
dos mesmos que se condenam da Justiça ou do Legislativo. Mas é o
mesmo quando, devendo reconhecer que o ser-cristão é o
ser-heterônomo, simplesmente fazemos como que aceitamos a tese,
mas, na prática, continuamos a marcha. É necessária a denúncia.
Vc.
a guerra que o cristianismo travou contra aquele tipo de homem
superior, isto é, contra o homem-em-emancipação, contra o
homem-autônomo, é a guerra política de vontade-de-todo-poder
sobre ele. A denúncia de Nietzsche está atrasada, porque já a
fizera, e na cara da Igreja, o moleiro Domenico Scandella, segundo
nos conta, magistralmente, Carlo Ginzburg. Esse Menocchio pôs o
dedo na ferida, e na cara dos seus inquisidores: "vocês não
querem que eu saiba o que vocês sabem". Mas, para Nietzsche,
é também mais do que isso: é que não se quer um homem do tipo
que queira querer, um homem que ouse querer, um homem que acredite
que possa querer. Todo o querer, o pensar, todo o controle deve
estar nas mãos do cristianismo. Que, contudo, bebe já nas fontes
sacerdotais de Gn 2,4b-3,24, segundo cuja narrativa, Adão e Eva
são culpados por quererem saber, eles mesmos, por eles mesmos, e,
assim, tornar-se igual aos deuses, o que é bom ou ruim para eles
mesmos. Tanto o narrador desse mito, quanto os inquisidores, quanto
o cristianismo, de modo geral, têm por modelo estratégico de
gestão o controle centralizado da vida humana. É patológico.
Vd.
Todo o parágrafo é um libelo contra a atitude do cristianismo
contra a autonomia humana. O medo do pensamento crítico, o horror
pelos "instintos fortes", isto é, os instintos
autônomos. Legitima-se o discurso pela mesma via de sempre: são
idiotas estúpidos os homens, e a verdade está no conta-gotas, na
mão do filósofo e do clero. Não é à toa que, diante da crise
avassaladora da emancipação cultural, intelectual, científica,
moral, social, que caracterizou, principalmente, o século XIX, o
"século romântico", as três igrejas ocidentais tenham
reagido justa e energicamente contra esse espírito natural. O mundo
católico, com o Vaticano I, o protestante, também europeu, com a
neo-ortodoxia de Barth, e os evangélicos norte-americanos, com o
Fundamentalismo. Nesses ambientes, "pensar" é
"pecar". Nietzsche está certo, certíssimo. Miséria para
nós, cristãos, porque, hoje, aos seis anos do século XXI, ainda
somos absoluta e rigorosamente a mesma gente. |
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V.
Não se deve
embelezar nem desculpar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte
contra este tipo de homem superior, renegou todos os instintos
fundamentais deste tipo e desses instintos destilou o mal, o negativo
- o homem forte como tipo censurável, como proscrito. O
cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, incapaz, fez oposição
aos instintos de conservação da vida forte, um ideal; e até
corrompeu a razão das naturezas intelectualmente poderosas, ensinando que
os valores superiores do intelecto não passam de pecado, desvios e tentações.
O mais lamentável exemplo: a concepção de Pascal, que julgava estar a
sua razão corrompida pelo pecado original; estava corrompida sim, mas
apenas pelo seu cristianismo!
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Reflexão dois:
"Acho
que o Espírito Santo está em todo mundo [...] e acho que qualquer
um que tenha estudado pode ser sacerdote, sem ter que ser
sagrado."
"Ir se
confessar com padres ou frades é a mesma coisa que falar com uma
árvore."
Se esta
árvore conhecesse a penitência, daria no mesmo; alguns homens
procuram os padres porque não sabem que penitências devem ser
feitas para seus pecados, esperando que os padres as ensinem, mas,
se eles soubessem, não teriam necessidade de procurá-los."
"Acho
que a Sagrada Escritura tenha sido dada por Deus, mas, em seguida,
foi adaptada pelos homens. Bastariam só quatro palavras para a
Sagrada Escritura, mas é como os livros de batalha, que vão
crescendo."
"A
respeito das coisas dos Evangelhos, acho que parte delas é
verdadeira e, noutra parte, os evangelistas puseram coisas da
cabeça deles, como se pode ver nas passagens onde um conta de um
modo e outro de outro"
"o que
é que você pensa, os inquisidores não querem que nós saibamos o
que eles sabem"
Domenico
Scandella, dito Menocchio (in Carlo Ginzburg, O Queijo e
os Vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela
Inquisição. Companhia das Letras: 1989. p. 53, 55, 128s).
Curioso é
que, 500 anos depois, ainda tem doutor em teologia que não tem a
coragem desse moleiro... Talvez
nem a sanidade. |
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5.
Man soll
das Christenthum nicht schmücken und herausputzen: es hat einen
Todkrieg gegen diesen höheren Typus Mensch gemacht, es hat alle
Grundinstinkte dieses Typus in Bann gethan, es hat aus diesen
Instinkten das Böse, den Bösen herausdestillirt, - der starke
Mensch als der typisch Verwerfliche, der "verworfene Mensch".
Das Christenthum hat die Partei alles Schwachen, Niedrigen,
Missrathnen genommen, es hat ein Ideal aus dem Widerspruch gegen die
Erhaltungs-Instinkte des starken Lebens gemacht; es hat die Vernunft
selbst der geistigstärksten Naturen verdorben, indem es die
obersten Werthe der Geistigkeit als sündhaft, als irreführend, als
Versuchungen empfinden lehrte. Das jammervollste Beispiel - die
Verderbniss Pascals, der an die Verderbniss seiner Vernunft durch
die Erbsünde glaubte, während sie nur durch sein Christenthum
verdorben war! - |
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