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AOS
PÉS DELE Osvaldo Luiz Ribeiro
(I) Neste
exercício de exegese, gostaria de pedir a crítica de todos os leitores
interessados. Pretendo demonstrar que Rt 3,4 possui um erro de tradução ainda
não corrigido em nenhuma das versões de que disponho. Aqueles leitores que
possuem domínio do hebraico, ou detêm instrumentos técnicos suficientes para
elaborar uma crítica com relação à tradução do versículo, sintam-se
convidados a contribuírem, escrevendo-me para ouviroevento@ouviroevento.pro.br.
A
tradução acima é própria, e está vertida propositadamente de forma bastante
literal. O próximo passo seria lhe dar fluidez, proporcionar-lhe uma sintaxe
mais natural. Mas a mantive assim, para que a análise possa tornar-se mais fácil
por parte do leitor que deseje compará-la diretamente com a Stuttgartensia
ou qualquer outro texto hebraico. A
questão está em decidir se Rute "descobre <os pés dele> (de Boaz),
e se deita", ou se Rute "se descobre <aos pés dele> (de Boaz),
e se deita". O
termo hebraico aparece quatro vezes: em 3,4.7.8.14. Trata-se da mesma expressão
marGülötäyw.
O leitor pode consultar qualquer texto hebraico, e concluir por si mesmo. Sendo,
assim, a mesma expressão, no mesmo capítulo, e referindo-se ao mesmo fato,
deveria ser traduzida de forma semelhante em todas as quatro ocorrências. Mas não
constato isso nas versões. Todas as versões que consultei, traduzem o termo
hebraico por <os seus pés> em 3,4.7 e por <a seus pés>, nos v. 8 e
14. Por
outro lado, a tradução que proponho para o verbo hebraico merece explicações.
As versões o traduzem por <descobre>, acrescentando o que entendem como
seu objeto direto: <descobre os pés
dele>. Mas, assim compreendido, o verbo exigiria, no hebraico, a partícula
designativa do acusativo, que é, naquela e noutras línguas afins, o indicativo
de predicação direta do verbo, introduzindo o seu objeto direto. Mas não
existe a partícula do acusativo em Rt 3,4 e 7. Observe o leitor que todas as
vezes que esse mesmo verbo hebraico aparece no Antigo Testamento, quando sua
predicação é direta e se lhe acompanha um objeto direto, lá está a partícula
designativa do acusativo. Em Lv 20,18, quando se fala de <(o homem) descobrir
a sua nudez (da mulher com quem ele se deita)>, o hebraico apresenta a partícula
designativa do acusativo. Aí, o verbo <descobrir> é transitivo direto, e
<a sua nudez> é seu objeto direto. Também em Jr 49,10 o hebraico carrega
consigo a partícula designativa do acusativo: "Mas eu despi a Esaú,
descobri os seus esconderijos". Partícula
essa que não existe no texto de Rt 3,4 e 7. Portanto, 1) se todas as vezes que
no Antigo Testamento, o verbo de Rt 3,4.7 aparece com predicação direta,
acompanhado de seu respectivo objeto direto, consta do texto a partícula
designativa do acusativo, e, 2) se em Rt 3,4.7 não existe a partícula, o
verbo, ali, então, não pode ser transitivo direto, nem pode seu termo
acompanhante ser objeto direto. De fato, o verbo é pronominal e seu
acompanhante, adjunto adverbial de lugar. Mas,
com essa afirmação, fico devendo novas explicações. O grau do verbo hebraico
de Rt 3,4.7 é piel. Esse grau indica
que o verbo assume a ação que representa na sua forma mais ampla e intensiva.
Assim, a tradução desse verbo está além de um <descobrir-se>. É, na
verdade, um <desnudar-se>. É o mesmo verbo hebraico utilizado para
descrever a cena constrangedora de um Noé despindo-se por causa do
entorpecimento pelo vinho. Ainda que em Gn 9,21 o grau não seja piel,
e, conseqüentemente, o sentido não é o de um <descobrir-se intenso>, um
<desnudar-se>, é, contudo, exatamente esse o sentido, denunciado pelo
castigo que sofre Canaã diante de seu comportamento face à nudez do pai. No
entanto, se por um lado a ação é intensiva, e devemos entender um
<desnudar> na ação que propõe, por outro lado, a forma hebraica não é
reflexiva. Esperaríamos um hitpael,
em que o agente da ação é, ao mesmo tempo, o paciente: <desnudar-se>.
Ficamos na seguinte situação: 1) se de um lado o verbo não é transitivo
direto, a ação não recai, portanto, sobre nenhum objeto direto e 2) se além
disso, a ação é intensa, significando <nudez>, 3) de outro lado, o
verbo hebraico não possui o grau reflexivo (não poderia comportar dois graus
ao mesmo tempo). Contudo, o verbo <descobrir>, no sentido de <retirar
algo que cobre alguma coisa>, se não é transitivo direto, só pode ser
pronominal ou reflexivo, porque a sua predicação indireta não é cabível.
<Descobrir> implica, necessariamente, em <descobrir> alguma coisa:
se não pode ser um objeto (e em Rt 3,4.7 não pode), só pode ser o próprio
agente da ação - nesse caso, Rute, que <descobre-se>, aliás, uma vez
que é piel o grau verbal, <desnuda-se>.
(II)
Minha
opinião é de que Rute tenha levado Boaz a <conhecê-la> naquela mesma
noite, e que seu comportamento todo, segundo as orientações de Noemi, encontra
paralelo na atitude de Tamar, diante de Judá. Tamar veste-se de prostituta e se
deita com Judá (não sem antes, estrategicamente, certificar-se de que sua
segurança estaria garantida, mantendo consigo o selo, os lenços e o cajado de
Judá). Ela o faz, reconhece Judá mais tarde, para manter o nome de Er, primogênito
de Judá que o Senhor matara. No
caso de Rute, dá-se o mesmo. Noemi e Rute estão sozinhas, sem família. Seu
futuro é incerto. Essa preocupação está estampada nas palavras de Noemi em
3,1: "(...) não tenho procurado um lugar de descanso que seja bom para
ti?". Na verdade, a preocupação de Noemi é mais específica, e tem um
nome: o goel, o resgatador,
identificado no verso seguinte: "(...) Boaz não é parente nosso
(...)?". Deveríamos nos perguntar por que Boaz, tendo o direito de goel, não o exerceu antes. Noemi afirma que Rute foi colocada junto
às criadas de Boaz. O próprio Boaz, pessoalmente, deu ordens para que seus
servos permitissem que Rute recolhesse as espigas que eventualmente ficassem nas
plantações, ou caídas no chão. Mas, isso é significativo: Boaz não tomou a
iniciativa de resgatar Rute. Assim como Judá, que depois de ter dado Tamar a Onã,
seu filho, por esposa, após a morte de seu primogênito, e ter Onã recusado-se
a perpetuar o nome de seu irmão falecido em detrimento do seu próprio nome,
fez-se de rogado e mandou Tamar de volta a casa de seus pais. E
Noemi monta sua estratégia. Rute deve lavar-se, ungir-se e vestir-se e, então,
descer à eira. O intuito é claro: Rute deverá <dar-se a conhecer> a
Boaz. Mas, um momento: Rute deve <dar-se a conhecer> a Boaz, mas não
antes que ele coma e, principalmente, que ele beba. Boaz deveria chegar ao seu
limite. Somente depois, Rute deveria <dar-se a conhecer>. Em
3,4 as orientações tornam-se bastante claras. Tendo Boaz comido e bebido,
procurará um lugar na eira para deitar-se. Rute deve observar à distância os
movimentos de Boaz. Quando ele se tiver deitado, Rute deve aproximar-se,
<descobrir-se aos pés dele> e deitar-se. Segundo Noemi, quando Rute tiver
assim se descoberto e deitado aos pés dele, "ele te fará saber o que
deves fazer". De
3,5 a 3,7, Rute executa milimetricamente as orientações de sua sogra. Lava-se,
unge-se, veste-se apropriadamente e vai à eira. Procura por Boaz e lá está
ele, comendo e bebendo. E bebe tanto que seu coração fica alegre, com cuja
declaração devemos entender o seu estado de entorpecimento pelo vinho.
Exatamente como Noemi tinha previsto, Boaz vai deitar-se ao lado de um monte de
cereais. Rute, então, aproxima-se de fininho e, então, <descobre-se aos pés
dele>. E, assim, se deita. Não
fica dito se Boaz a faz "saber o que deves fazer". Na minha opinião,
uma estratégia tão detalhada não seria frustrada. Além do mais, outros
elementos adiante corroboram a possibilidade de Rute <ter-se dado a
conhecer> a Boaz ao pé da meda. Seja como for, Boaz acorda, e "eis uma
mulher deitada aos seus pés". Questionada, sua resposta é contundente:
"Eu sou Rute, tua criada. Tu <estendeste> teu manto sobre tua criada,
porque um remidor tu és". Não entendo por que as versões traduzem a
expressão <estender o manto> no imperativo [<estende a tua capa>
(versão revisada da IBB; versão revista e corrigida da IBB; revista e
atualizada, da SBB; Bíblia de Jerusalém; Edição Pastoral; na linguagem de
hoje, da SBB; Mensagem de Deus, da Loyola; revista e corrigida da co-edição
SBB/Vida], se o verbo hebraico é o completo de qal, isto é, uma realização simples e completa. Rute não pede a
Boaz que estenda seu manto sobre ela: Rute diz para Boaz que ele <já>
estendeu o seu manto sobre ela. A
expressão <estender o manto> simboliza a união conjugal. Em Ez 16,8, a
expressão é utilizada para simbolizar o desposamento de Yahweh com Jerusalém.
Mesmo ali, onde a forma verbal é o incompleto de qal, não o completo, as versões traduzem a expressão pelo nosso
pretérito perfeito. Nesse caso, torna-se inescusável recusar o mesmo pretérito
perfeito para o completo de qal.
Principalmente pelo contexto, onde 1) depois de receber instruções para
<dar-se a conhecer> a Boaz somente após ter ele comido e bebido, 2) tendo
ele ficado com seu coração alegre, Rute se deita a seu lado, descoberta. Se
devemos entender a expressão <cobrir com o manto> como metáfora para a
união conjugal, temos de admitir que a afirmação de Rute coloca essa união
em algum momento entre o instante em que, <descobrindo-se aos pés dele,
deitou-se>, e aquele outro em que, acordando no meio da noite, Boaz depara-se
com uma mulher deitada <a seus pés>. "Tu estendeste teu manto sobre
tua criada, porque um remidor tu és". Será
se as atitudes posteriores de Boaz confirmam a leitura? Certamente. A começar,
já, por 3,10, quando Boaz declara que esta atitude de fidelidade de Rute é
melhor do que a primeira. De que atitude de fidelidade está falando Boaz?
Certamente, a fidelidade ao nome de seu falecido marido, uma vez que os frutos
de sua união com Boaz recairiam sobre a memória e o nome de Malon, conforme
4,10: "E de que também tomo por mulher a Rute, a moabita, que foi mulher
de Malom, para suscitar o nome do defunto sobre a sua herdade". Boaz
reconhece na atitude de Rute um ato de fidelidade ao nome e à herança de seu
marido, assim como Judá reconhecera na atitude de Tamar a mesma fidelidade a Er.
Judá chama Tamar de <justa>; Boaz chama Rute de <abençoada>. Ambas
mulheres lutam pela mesma causa, e usam a mesma estratégia. Mas,
subitamente, nova pista interessantíssima aparece em 3,15, cuja chave é
apresentada de maneira velada em 3,17. Boaz manda que Rute se sirva de seu manto
e despeja nele seis medidas de cevada. E a despede. Rute chega em casa, conta
tudo a Noemi e, então, Rute faz a declaração que me leva a crer ainda mais
firmemente que, de fato, a intenção do escritor de Rute é declarar que Boaz
estendeu seu manto sobre a moabita naquela mesma noite: "Estas seis cevadas
ele deu para mim, porque disse: 'Tu não irás à tua sogra de mãos
vazias'". Sou da opinião de que a expressão <não irás de mãos
vazias> consiste numa figura de pensamento, e que, antes de referir-se ao
alimento que Rute recebe, refere-se à posteridade que foi buscar para Malon,
seu marido. Em 1,21, num discurso de profunda amargura, Noemi declara:
"Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar". É a mesma expressão
que Rute usa, mas declarando uma sorte inversa: Boaz não me deixou partir (de mãos)
vazias! Devemos nos recordar que quando Noemi diz que partiu <cheia>, não
está dizendo que partiu com fartura de alimentos. É justamente o contrário,
porque Noemi e sua família vão peregrinar pelos campos de Moabe, fugindo da
fome. Por outro lado, quando Noemi e Rute decidem retornar para seu povo,
fazem-no, tendo ouvido que Yahweh havia visitado seu povo, dando-lhe pão (1,6).
Portanto, a expressão <cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar>
refere-se à sua família, marido e filhos, todos perdidos e mortos. Noemi
partira cheia, e voltara vazia. Rute vai ter com Boaz vazia, mas volta cheia. A
estratégia de Noemi deu certo: Rute já carrega consigo sua posteridade!
O
que seus concidadãos acharam disso? Perguntem a Rt 4,11 e 12: "Então
<todo o povo> que estava no tribunal e <os anciãos> disseram:
'Somos testemunhas! Que o senhor torne a mulher que entra em tua casa como
Raquel e como Lea, que edificaram juntas a casa de Israel. Faze fortuna em
Efrata e torna-te célebre em Bet-Lehem; e assim, pela descendência que o
Senhor te der desta jovem mulher, tua casa seja como a casa de Peres, que Tamar gerou de Judá”. Não
estou aqui para decidir, como juiz, se Rute fez certo, deitando-se com Boaz. Nem
que Noemi tenha acertado ou não, orientando-a. Estou aqui apenas para
certificar-me do que diz o texto bíblico. O que ele diz, segundo posso afiançar,
aí está. Isso me põe a pensar – e muito. É um mundo distante demais do
meu, o dessas mulheres no campo. De longe, observo-as. Não sabiam elas, mas
estavam concebendo, na eira, no chão da eira, o avô de Davi... |