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Foram
(mesmo) monolátricos os profetas?
Cooptação
da profecia como hipótese de trabalho
Osvaldo
Luiz Ribeiro
27
de abril de 2006
Resumo:
o artigo defende a hipótese da não-tematização monolátrica do discurso profético.
Os profetas “clássicos” teriam constituído um grupo característico de
liderança social urbana e campesina, originados no contexto da urbanização do
norte, em seu envolvimento mais próximo e especificamente econômico e militar
com o Império, envolvidos com denúncias de caráter social. Relevantes
enquanto contingente simbólico popular, sua memória será cooptada pelo Templo
de Judá, durante a reconstrução nacional, sob a Pérsia, tornando-os
defensores imbatíveis da monolatria exclusivista javista, tema preferido do
sacerdócio jerosolimitano pós-exílico.
Palavras-chave:
profetas – profetismo – sacerdotes – monolatria – cooptação.
Talvez
seja cedo para o dizer. Mas pergunto-me: esperar para quê? pelo quê?
Certamente, para que outro o diga, com o que me sentiria a um só tempo alegre e
triste. Alegre, porque direi: não falei? Triste, porque direi: queria ter sido
eu a tê-lo dito. Então o digo logo. Mas, a rigor, deveria esperar até que
tivesse melhor assentado a massa. O cimento ainda está fresco, e será mais fácil
derrubar o muro, agora, do que depois. Mas talvez também isso seja melhor –
se é para ser destinado aos escombros, que o seja logo.
No
que concerne à forma e ao modelo, não estou redigindo uma tese de doutorado.
Contudo, depois de levantada a bibliografia sobre o assunto, e verificado seu
grau de pertinência e originalidade, talvez a presente intuição possa seguir
um caminho mais apurado.
Ideologia
e fontes escritas no conjunto Josué -
Reis
Um
olhar mais pausado sobre a série Josué
– Juizes – Samuel – Reis parece trazer à luz um dado interessante: se
imaginarmos um redator localizado, naturalmente, depois de Reis, talvez não fosse de todo um exagero pretender que, à medida
que a redação se afasta deste, as narrativas vão se tornando menos “históricas”,
e assumindo uma constituição mais perceptivelmente ficcional.
É
como se, à medida que pretende descrever o período dos “reis”, o redator
encontra “fontes” disponíveis, o que significaria dizer mesmo “textos”
pré-existentes, mais do que simples registros tradicionais orais. Os próprios
livros dos Reis fazem questão de
mencionar as fontes, provenientes, nesse caso, da corte.
Estendendo
as narrativas até Samuel, as fontes
parecem ser menos volumosas, ainda que a estrutura narrativa surpreenda pela
aparência histórica, levando alguns a apostar mesmo em testemunho ocular dos
fatos. De qualquer forma, a concentração num período comparativamente tão
curto, ou se justifica pela existência de “fontes” disponíveis, ou pela
importância ideológica do período. Se a historiografia mais recente do Antigo
Israel estiver correta, o período “clássico” Davi – Salomão foi
reeditado, para configurar história comum dos “dois” Reinos – Norte
(Israel) e Sul (Judá), de modo que é provável tanto a existência de alguma
fonte, quanto a liberdade de configuração ideológica desse período da história.
Chegando
ao período de responsabilidade de Juízes,
o caráter ideológico das narrativas salta aos olhos. Não que apontamentos
ideológicos não estivessem presentes em Samuel
e, principalmente,
em Reis. Mas
, como venho de propor, ali, tais apontamentos ideológicos vêm entremeados
naquilo que pode constituir fonte escrita, isto é, de alguma forma, memória
registrada, com a qual a redação do conjunto deve lidar. No caso de Juízes, pode até ser que haja, como se pretende de Jz 5, por
exemplo, fontes escritas pré-existentes à redação do conjunto, mas é mais
difícil. O conjunto de Juízes é
mais fácil de ser tomado, historiograficamente, como ficção histórica do que
Samuel e Reis.
Finalmente,
Josué pode ser considerado como
“uma narrativa fictícia da conquista”, como a introdução de Herbert Niehr
o considera (ZENGER, p. 175), a partir de cuja afirmação cheguei eu mesmo (por
que não?) a propor que haja uma identificação político-ideológica entre o
Josué, personagem do livro homônimo, e Josué, sumo sacerdote do Segundo
Templo (RIBEIRO, 2006).
A
partir do que foi dito, pode-se presumir que haja uma dependência maior do
redator do conjunto Josué – Reis de
fontes escritas para o que concerne à porção mais recente da história: Reis
e Samuel, nessa ordem, e maior em relação a Reis do que em relação a Samuel;
e, por outro lado, uma dependência menor, e mesmo inexistência absoluta de
fontes quanto ao período mais distante, Josué,
por exemplo. A narrativa de Reis seria
histórica, então, enquanto a de Josué
seria ideológica? Não, absolutamente. Todo o conjunto Josué – Reis é absolutamente ideológico. Não é historiografia
como a consideraríamos para um trabalho acadêmico contemporâneo: é ideologia
vertida em narrativa – ideologia instrumental. Ocorre, contudo, que, quanto
mais o período esteja próximo da redação, tal ideologia deve lidar com
fontes escritas, de modo que a ideologia que se encarna na redação desse
trecho do conjunto deve lidar com as fontes escritas, e deve constituir-se a
partir de e malgrado elas. Deve-se espremer nas costuras, entranhar na massa. À
medida, contudo, que as fontes escritas desaparecem, sobrevivendo, se tanto,
apenas memória secular tradicional, a ideologia torna-se, ela mesma, a
narrativa, de modo que todo o presente se transporta para lá e então,
instala-se nas personagens, dirige-as, faz com que falem, faz com que ajam, e não
há mais discernimento entre história e ideologia, apenas ideologia narrativa:
“narrativa fictícia da conquista”.
O
quadro correspondente seria o seguinte:
|
Josué
|
Juízes
|
Samuel
|
Reis
|
Redator
Js-Re
|
|
ideologia
|
Ideologia
+
prováveis
fontes escritas
|
Ideologia
+
fontes
escritas mais restritas
|
Ideologia
+
abundantes
fontes escritas
|
Considero
necessário deixar clara minha opinião de que, sendo correta a percepção
acima, não seria adequado perceber que a ideologia redacional encontra-se mais
plenamente presente em Josué do que
em Reis. Nem
de longe! A presença das fontes escritas mais abundantes em Reis,
e, vá lá, ausentes em Josué, não
deve levar à afirmação de que, então, a história esteja mais viva lá do
que cá. A redação ideológica não se curva diante das fontes escritas: ela
as utiliza a seu favor, haja o que houver. Os discursos são todos
convenientemente engendrados, e de tal sorte que, na eventualidade de uma fonte
escrita, digamos, inconvenientemente anti-ideológica, não há a necessidade
(que talvez sentíssemos hoje) de ser descartada. Basta que seja situada
ideologicamente dentro do discurso redacional, e pronto. Isso explicaria a
sobrevivência, dentro do conjunto elaborado, de peças constrangedoras para a
ideologia redacional: não são mais constrangedoras dentro do conjunto, e dada
a forma como a narrativa vai ser apresentada nas leituras públicas, outro
instrumento da ideologia redacional (a redação constitui apenas um momento da
ação ideológica vista em sua totalidade). Essa estratégia termina por ajudar
– e quanto! – o exegeta e o historiador na tarefa, nem sempre fácil, de
proporem reconstruções da montagem das narrativas. É que, descartada a força
ideológica presente no conjunto narrativo, os elos, responsáveis pelas
costuras, se fragilizam; a força ideológica se dissolve; e a independência,
ou mesmo a proposição anti-ideológica da peça originária pode ser
percebida, como um galho ressaltado num caminho tomado, antes, como plano e
seguro para a caminhada, mas no qual, agora, corre-se o risco de tropeçar.
Presença dos profetas no conjunto Josué
– Reis
Uma
leitura não desconstrucionista dessas narrativas permite extrair delas a
informação de que os “profetas” são os herdeiros fiéis da tradição de
Moisés/Josué. Não gostaria de aqui ser obrigado a trazer à discussão o
problema do recorte do Deuteronômio:
há na pesquisa uma discussão não terminada sobre a relação original desse
livro ou com o conjunto Gênesis – Números,
ou com o conjunto Josué – Reis.
Deixando de lado essa discussão técnica, posso deixar de fora um importante
argumento a favor de minha tese aqui defendida. Mas tanto melhor, porque, na
eventualidade de alguém desejar dar continuidade às intuições que aqui esboço,
o recurso ao Deuteronômio apenas
aumentaria a força dos argumentos. Seja como for, se Deuteronômio
deve estar no início do conjunto Josué
– Reis, fica ainda mais evidente que Moisés/Josué se pretendem
preservados na “profecia”.
Mas
que se deixe o Deuteronômio no seu
limbo redacional. Baste o conjunto Josué
– Reis. Mas que se dê um passo adiante. Esse conjunto (sem o Deuteronômio),
constitui o que se considera a primeira metade dos Nebi’im (Profetas), a
segunda parte da divisão em três da Bíblia Hebraica. Os Nebi’im são
constituídos pelos Profetas Anteriores (Josué
– Reis) e Profetas Posteriores (Isaías
– Jeremias – Ezequiel – Os 12).
É
importante colocar as duas séries diante dos olhos. Tomada a sua presença na
estrutura dos Nebi’im, os livros apresentam-se na seguinte ordem:
|
Profetas
Anteriores
|
Profetas
Posteriores
|
|
Josué
|
Juízes
|
Samuel
|
Reis
|
Isaías
|
Jeremias
|
Ezequiel
|
Os 12
|
Tomadas
as narrativas em suas pretensões, o quadro é o seguinte:
|
Josué
|
Juízes
|
Samuel
|
Reis
|
|
|
|
|
Isaías
|
Jeremias
|
Ezequiel
|
|
|
|
|
Os
12
|
É
notável que os Profetas Posteriores, começando por Amós, Oséias, Miquéias
e Isaías, estejam colocados no
momento mais significativo da história: o início do “reino unificado” –
sob Judá. Claro, Amós e Oséias
estariam situados “antes” disso. Seu papel no conjunto, contudo, é
portar-se como portal para a entrada triunfal de Ezequias e da sua reforma,
conforme se pode depreender da leitura de 2 Re 18-19.
Judá
é a herdeira de Davi e Salomão (a rigor, mais de Davi do que de Salomão), que
se comportam, assim, como um eixo entre Moisés/Josué, de um lado (Josué),
e os “profetas”, de outro. Josué
introduz a “proposta” ideológica; Davi a consubstancia num projeto tópico
(cúltico-litúrgico); os “profetas” lutam pela sua preservação e purificação.
A rigor, é no momento redacional que tudo isso efetivamente se consolida na
forma do programa hegemônico da golah
persa – uma Judá javista, exclusivamente javista; hierocrática (já que
“Davi” não poderá [mais] despertar do seu sono/sonho dinástico, dado o
evaporamento de Zorobabel), masculinamente hierocrática (exclusivamente
masculinamente hierocrática); tópica, topicamente jerosolimitana,
religiosamente jerosolimitana; anicônica, surpreendentemente anicônica...
Isso,
contudo, é o que uma leitura desconstrucionista pode apresentar. Não a leitura
pacífica e passiva da própria narrativa, cuja intenção é dizer, de dois
modos, a mesma coisa. Se vejo bem, a primeira parte dos Nebi’im descreve as
coisas como a ideologia redacional as vê e diz ter acontecido. O enredo e a
moral da história são sobejamente conhecidos: “Israel” afastou-se da aliança
e da Lei, desviou-se, em seu caminho, dos caminhos de Yahweh, que, tomado de
justa ira, fez o que fez, primeiro com o Norte, como que, assim, dando um aviso
muito sério ao Sul; e, depois, olvidado o aviso – não sem as admoestações
dos profetas! – com o próprio Sul.
Josué
apresenta a proposta: aliança e Lei. Juízes, a perversão, combatida pelos precursores dos profetas, os juízes,
heróis da fé – no que aqui concerne, da ideologia. Samuel
prepara o caminho, aos trancos e barrancos, para o monarca segundo o coração
de Yahweh, Davi, cujo filho, contudo, põe tudo a perder: nova perversão. Os
reis sucedem-se numa interminável série de perversões, diante do que os
profetas, ei-los, surgem como que a última voz, a derradeira – e inútil –
da defesa da fé monolátrica. A ira de Yahweh põe fim a tudo. A esperança,
esse pavio frágil, fumega ali, na figura triste de um rei sentando à mesa...
Essa
desgraça, cujo pavio fumegante da esperança de restauração tanto quer
esquecer quanto lembrar, dá-se por conta de questões muito presentes nas
costuras ideológicas dos Profetas Anteriores: “Israel” abandona Yahweh, e
serve a outros deuses e deusas; desobedece a ordem expressa (Deuteronômio?) de cultuar Yahweh em Jerusalém; entrega-se a práticas
litúrgicas tanto obscenas quanto pervertidas. Imperdoável. Isso é o que dizem
os Profetas Anteriores...
E,
para que não pairem dúvidas, também o dirão, e agora não em “costuras”,
não na parte destinada à “moral” da história, mas em cada palavra, para
isso “vieram”, os próprios profetas. Na sua porção posterior, os Nebi’im
pretendem deixar claro que os profetas insistentemente defenderam o que os próprios
redatores dos Nebi’im agora defendem. Em cada intervenção polêmica, contra
os reis, sim, mas contra o povo, também, contra todos, é melhor que se saiba,
os profetas defenderam a adoração exclusiva a Yahweh, ao mesmo tempo em que
condenavam às raias da pena de morte, com ódio implacável, qualquer desvio em
direção aos outros deuses, verdadeiro adultério de um povo chamado às núpcias
com seu deus. Pregaram ainda os caminhos de Yahweh, caminhos esses que,
abandonados, levaram à desgraça – tanto no norte e do Norte, quando no sul e
do Sul.
Dessa
forma, os Nebi’im se apresentam, com suas duas partes constitutivas, como uma
janela através da qual se pode “contemplar o passado”. O vão deixado
aberto pelas duas bandas é a “história” – digamos, os “fatos”, as
coisas como elas realmente se deram. Quem olhar pela janela, tem diante de si,
pronta, a leitura desses fatos. Essa leitura está registrada na parte
redacional, os Profetas Anteriores, que não apenas dão as coisas como a
ideologia redacional pretende que sejam tomadas, mas dão, ao mesmo tempo, as
justas causas, sempre de acordo com a ideologia redacional, pelas quais as
coisas se deram como se quer sejam tomadas como se tendo dado. Na outra banda,
os observadores podem ouvir, de viva voz, a própria ideologia sendo pregada lá
e então, mas, então, pelos profetas. Isso que aqui vai, redigido, essa
ideologia, essa proposta que aqui e agora se faz, lá e então já estava e já
era feita. Seus campeões? Os profetas.
Numa
palavra: a golah, de alguma maneira
responsável pelo conjunto Josué – Os
12 (seja na forma do contemporâneo assim considerado “acordo” entre
sacerdotes e “deuteronomistas”, seja na forma de elaboradora e instauradora
do programa hegemônico da Judá pós-exílica) quer fazer-nos crer que seu
discurso já estava lá. Pretende que a tomemos como “herdeira” dos
profetas? Pode ser: a golah quer
fazer-nos crer constituir-se como herdeira dos profetas, que, por sua vez, foram
herdeiros de Moisés/Josué, depois de uma estação ali na terra dos juízes.
Isso
é o que querem que creiamos. Não é de outra forma que leio (ainda que se
possa ler de outra forma) a história da consulta à “profetisa Hulda” (2 Re
22,14-20). Encontrado o Livro da Lei no tempo e no Templo de Josias (dá-se a
data de
621 a
.C. para a “descoberta” desse que tem sido considerado como um [no mínimo]
protótipo do Deuteronômio),
pretendendo-se levar a termo uma “reforma” religiosa, lá se vão os
oficiais do rei a consultar Hulda. Quem é Hulda? Diz-se “profetisa”, e,
claro, enquanto “profetisa”, liderança feminina, com proeminência sobre
grupos sociais específicos – com certeza relevantes para o sistema
responsável pela redação desse Reis.
Consultada, que diz a narrativa ser a opinião de Hulda? Rigorosamente tudo
quanto esses oficiais gostariam de ouvir. Hulda endossa a “reforma”. E ela
vai acontecer. E, é o que interessa no fundo, se alguém reclamar, que dizer?
Que o que é que se quer? Afinal, não foi a “profecia” quem “deixou”?
Mais do que isso, que “ansiava” por isso?
Para
mim, essa Hulda aí, tendo existido, não é mais a Hulda que existiu. Que a
narrativa tenha de recorrer a uma mulher, e a uma profetisa, que em Nm 12 vai
ser tratada até o ponto da lepra, penso deva ser compreendido como consistindo
um recurso de cooptação de memória. Não se pode desviar de Hulda – então,
que ela pelo menos diga o que deve dizer, ou seja, o que a “reforma” precisa
ouvir, porque, de qualquer forma, ela não está mais “aqui” para negar seu
testemunho (diria que se trata do mesmo caso da memória de João, o
batista,
nos capítulos iniciais de João, o
Evangelho – João é um obstáculo que de nada adianta olvidar: melhor cooptá-lo.
E nisso João é extraordinariamente
eficiente).
Hulda
representa um caso concreto de cooptação, quem sabe, de uma memória concreta,
de uma personagem e de uma personalidade concreta. É muito útil à narrativa
– tanto que Crônicas manterá o
episódio, utilíssimo. Por que “útil”? Por que faz uma mulher e profetisa,
a meu ver, pedra no sapato do discurso masculino e hierocrático do Templo,
confessar que a reforma é tudo quanto Yahweh quer. Para ser claro ao extremo:
penso que, quando a narrativa está sendo composta, a golah
tem, diante de si, uma classe de recalcitrantes resmungadores, gente de “dura
cerviz”, que não se emenda, que não se submete, e que se agarra à memória
de seus próprios heróis e heroínas. O remédio, se não para essa geração de
pervertidos, mas para as gerações seguintes, é reconstruir a memória desses heróis
e dessas heroínas, não os fazendo desaparecer, coisa pouco inteligente, e nada
eficiente (tentaram isso com Asherah, e eis Maria, e, agora, Madalena), mas tornando-os
porta-vozes primordiais da voz que, aqui e agora, por meio das narrativas que dão
conta da vida desses heróis e heroínas primordiais, fala.
Noutros
momento e lugar dever-se-ia atentar para a estrutura de 2 Re 18-19, onde vão,
encenadas, naturalmente sob a direção segura da ideologia redacional, a voz da
ideologia – reforma! – e a voz recalcitrante da população invadida em seu
espaço privado – reforma não! Um sensacional caso de como o “acaso” histórico
pode definir o curso da história programática. O que não faria a menor
diferença, porque a ideologia vencedora vence não à mercê de acasos: vence
até por meio deles, mas, se eles faltam, como parece ser o caso da profecia,
ela os produz, nem que seja à custa de uma "falsificação" do passado.
É
o que penso do que se diz da profecia nos termos em que se diz, e lá onde se
diz. Cooptação!
Cooptação dos profetas na ideologia
redacional do conjunto Josué – Os 12
A
desculpa de que me servirei aqui para não apresentar um esquema completo que
fundamente o que apresento como intuição é o fato de que registro muito
prematuramente essa intuição (ainda que ela tenha lá seus dois anos de idade,
já). Não escrevo para a “academia”, a fim de que seja convencida de que,
eventualmente, eu esteja certo. Fosse essa minha intenção, esse ensaio deveria
se transformar numa Tese de Doutorado, com todas as suas implicações –
inclusive o risco de não poder ser apresentada à banca, por força de sua
controvertida (e presumida, mas não certa) originalidade: pesada demais para
aquele ambiente...
Escrevo,
então, para que, daqui a alguns anos, defendida a hipótese que aqui vai, mas
então ainda que por outro mais preparado, possa eu dizer para mim mesmo, e para
meus eventuais leitores: não disse? É, pois, ainda, intuição.
E
digo dela o seguinte: para mim, os profetas jamais estiveram envolvidos com polêmicas
monolátricas com o povo israelita/judaíta/canaanita (a tese atual é de que
israelitas/judeus e canaanitas/cananeus são uma e a mesma gente, apenas vistos
sob óticas diferentes. A tese de Gottwald já indicava isso, mas não tão
explicitamente quanto Israel Finkelstein pretende seja ouvida). Para mim, os
profetas eram ativistas políticos, até onde um personagem próximo oriental do
corredor siro-palestinense pode ser tomado a partir do modelo mais recente de um
“ativista político”. Eu diria que seriam mais para ancestrais dos zelotes e
dos sicários do que dos Macabeus, se me entendem... Mais preocupados com questões
relacionados à justiça e liberdade sociais do que pureza étnica ou
cultural-religiosa.
Não
vejo os profetas como histéricos pregadores da Lei e do Caminho. Histéricos, vá
lá, que bem o eram – como todos os “profetas” o são, por vocação, e,
por isso mesmo, sempre “perigosos”. Mas não “religiosos” no sentido de
uma histeria concentrada em prédicas e imprecações de caráter
cúltico-litúrgico.
Botavam a boca no trombone é contra o que consideravam injustiça social (o que
podia, eventualmente, envolver conteúdos incontornavelmente religiosos). As
vozes, agora várias, que representam as imprecações contra a “imoralidade
conjugal do povo”, e como se gosta de ver “Oséias” como o campeão nisso,
para o bem (os comentários tradicionais), ou para o mal (os comentários
feministas), tais vozes, é o que digo, não são “proféticas” – são
sacerdotais. Foram escritas, é o que digo, para serem colocadas na boca dos
profetas, mas jamais teriam sido pronunciadas por eles (ressalvada a
possibilidade de as categorias de profetas cultuais envolverem-se na defesa do
“culto”. Mas esses profetas cultuais não estão sob a minha mira aqui). O
que se quer, colocando tais imprecações cúltico-puritanas na boca dos
profetas – isto é, da categoria de profetas “independentes” do sistema
político-religioso –, é transformar a memória deles em instrumento de
legitimação das reformas sacerdotais. Se a reforma é monolátrica, os
profetas devem ser transformados em defensores intransigentes da monolatria. Se
a reforma é anicônica, os profetas devem ser transformados em iconoclastas
sangrentos. Se a reforma é masculina, os profetas devem ser, todos, masculinos,
e, se sobra alguma memória incontornável, olha lá Hulda, seja ela, então, o
símbolo concreto não do discurso, mas da aprovação inspirada e legítima da
legítima e inspirada reforma que, dado disso tanto falarem os profetas, um
grande rei decide-se por instalar. E, se ele não teve tempo para tanto, deixa
com a gente que a gente faz...
É
difícil “provar” isso. Também é difícil “provar” que a menstruação
não é imundície coisa nenhuma. Contudo, é o que disseram, da menstruação,
os mesmos que disseram o que disseram dos profetas. Trata-se da mesma coisa –
instrumentalização do que estiver disponível para, por todos os meios, ganhar
a todos... Ainda não se venceu de todo essa estratégia eficiente e eficaz que
o Templo engendrou para, eficiente e eficazmente, enxotar as mulheres do sacerdócio
e da profecia. Metade da massa que se diz herdeira dessa história ainda olha
para aquele sangue com os olhos emprestados de homens do século VI antes de
Cristo. Não “os homens” de lá, que não se trata, em absoluto, eu penso,
de uma espécie de “guerra dos sexos”, mas aqueles homens “religiosos”
que, querendo o poder efetivo – o poder político e militar os persas lhes
entregaram “de bandeja”, mas as consciências é mais difícil de serem
conquistadas – tiveram de concentrá-lo, disputando-o com liderança feminina
de forte representação popular. E, convenhamos, a Natureza deu uma mãozinha,
fazendo com que sangrassem as mulheres...
É
difícil provar que os profetas não tenham sido fundamentalistas religiosos,
ainda que, estou disposto a crer, possam ter sido fundamentalistas políticos.
Também é difícil provar que Yahweh e Asherah tenham sido consortes. Dei lá
minha contribuição à tese (RIBEIRO,
2002), mas é assunto controvertido. Que
os israelitas/canaanitas adoravam a deusa parece der difícil refutar, porque, a
menos que minta, Othmar Keel nos dá conta de que centenas de imagens de deusas,
de grandes seios e largos quadris, representação iconográfica das virtudes da
fertilidade feminina, são desenterradas das casas dos camponeses daquele tempo,
e isso mesmo a poucos anos de distância do momento em que o conjunto Josué
– Os 12 é escrito (eu arriscaria dizer, mesmo “durante”). A presença
da deusa é tão evidente na cultura material do Israel Antigo, e tão escassa
– mas visível! – nos textos da Bíblia Hebraica, que Croatto chegou a falar
de erasio memoriae, ou seja:
apagamento dos vestígios da memória dela... O que torna difícil a prova... e
constrangidos, convenhamos, nós, obrigados a recorrer quase a uma espécie de
argumento ab silentio.
É
difícil provar que os profetas não estavam em lutas com Baal, Asherah,
Nehushtan. Que, quem sabe?, até participavam dos cultos comunitários. Não é
necessário que tenhamos cada israelita na conta de um adorador de um monte de
deuses. É possível que cada qual servisse a um ou dois, não necessariamente
os mesmo que seus vizinhos serviam, de modo que Jacó podia adorar Yahweh e
Asherah, com uma queda para esta, sina dos camponeses, enquanto Samuel,
Nehushtan, afinal ele é um ferreiro, e, Benjamin, somente Yahweh, guerreiro que
é. O que pretendo investigar, até o dia em que a moeda definir cara ou coroa,
é se eram mesmo isso que pinta(ra)m
deles: intransigentes fundamentalistas da monolatria.
Minha
hipótese de trabalho é desconstrucionista e revisionista: não, os profetas não
eram intransigentes fundamentalistas da monolatria. Teria sido o Templo, depois
de sua reconstrução pelos persas, e de acordo com um projeto político-ideológico
monocromático, monolátrico e masculino, que os teria pintado nesse tom de
roxo-caixão. Diante da pergunta: e por que os sacerdotes teriam feito isso? Eu
responderia, provisoriamente: 1) primeiro, porque a memória dos profetas estava
lá. É perceptível como eles, os profetas, estão instalados justamente na porção
para a qual, segundo a teoria que aqui defendo, mais havia “fontes
escritas”. A estratégia redacional é lidar com essa memória, cooptando-a.
Essa presença profética é como um galho na estrada. O galho está lá. Fazer
o quê? Jogar ele para o lado, como se não estivesse lá? Ou, melhor, pegar o
galho, empregar força nas duas extremidades dele, fazer com que vergue,
amarrar-lhe a corda de um lado a outro, fazer dele, assim, um arco e, com ele,
justamente com ele, disparar as flechas para o que se veio para essa estrada? Os
profetas são um arco através do qual os sacerdotes lançam suas flechas desde
o Templo de Jerusalém.
2)
Segundo, porque, apesar de estarem lá, sua mensagem não era algo que
legitimasse o projeto hegemônico da Judá hierocrática. Por isso, devem
comportar-se como arco, que, sozinho, nada faz. As flechas, contudo, devem ser
aquelas confeccionadas, afiadas e disparadas pelo Templo – que é, afinal,
quem elabora (planeja o programa = confecciona as flechas), redige (coopta a memória
dos profetas = transforma a memória dos profetas em arco) e lê publicamente
(instala o programa = dispara as flechas) as narrativas.
E
não teria havia confronto? Naturalmente. Há razoável número de textos na Bíblia
Hebraica que podem ser lidos na forma de memórias de resistência ao projeto
hegemônico do Templo, e que sobreviveram por meio de mecanismos que precisam
ser investigados mais seriamente, em lugar de saltarmos, cansados, para teorias
de leitura canônica da Bíblia Hebraica. Mal começamos o trabalho sério e já
vão lá trabalhadores cansados, querendo desfrutar da paisagem – ainda há
muita pedra a ser levantada, ó minha gente!
Não
falemos dos textos propriamente, daqueles que podem ser lidos na qualidade de
memória dos confrontos. Mas sejam trazidos aqui “fatos” muito instigantes,
que parecem constituir sons dissonantes nessa sinfonia orquestrada. Em consonância
com a declaração programática de Malaquias, de que “o sacerdote é o
mensageiro de Yahweh” (Ml 2,7), a profecia praticamente “desaparece”
depois da reconstrução do Templo de Jerusalém. A julgar pelo que vai em Zc
13,1ss, melhor seria dizer que a profecia é convencida a desaparecer... Isso é
bastante interessante, porque, se os profetas foram os herdeiros de Moisés/Josué,
e se foram eles a passar o bastão para Josué, o sumo sacerdote de Jerusalém,
porque precisam, agora, de aposentadoria... precoce... forçada?
Há
já uma diminuição da audácia e da intrepidez proféticas em um texto como Dt
18,9-22, porque faz do profeta um boneco de ventríloquo da Lei. Há já uma polêmica
aberta, escandalosa, entre o Templo e a profecia em Nm 12, terminando a profecia
leprosa, e, se curada, recebida no arraial sob as condições dedutíveis da
moral da história – melhor um cão vivo... No centro dessa polêmica, Ml 2,7,
que melhor seria entendido: “porque o sacerdote é (agora) o mensageiro de
Yahweh”. E, como é natural, as pessoas são mesmo umas cabeças-duras, nem
sempre é fácil fazer com que cada qual se mantenha no seu devido lugar, de
modo que é compreensível que Zc 13,1ss dê ordens até a pai e mãe a matarem,
dentre seus filhos, eventuais profetas desse tipo, caso não os convença a
meterem-se com arados e ancinhos.
A
profecia vai desaparecer. Os profetas são pintados repetindo o discurso do
Templo, concordando com as reformas. Depois, sacerdotes são pintados como se
fossem profetas: Ezequiel, Zacarias, Malaquias, Ageu. Até Elias! Todos, homens
do templo. Finalmente, são dispensáveis. Num sistema sacerdotal, hierocrático,
regido por direito divino escrito, os profetas tornam-se persona non grata.
Pistas para (re)visão do discurso histórico-social
dos profetas
Que
um conflito aberto entre a profecia e o Templo irrompeu violentamente a partir
da restauração de Judá, pode-se depreender de uma série de textos, que
apresento como sugestão de revisão da literatura dita profética.
Nm
12 é absolutamente incontornável. Apresentei no Congresso Brasileiro de
Pesquisa Bíblica meu parecer a respeito, não sem uma pontual contestação pública,
e o texto completo está disponível (RIBEIRO,
2004). Deixo os detalhes para
dizer, de uma vez, que “Miriam” representa não apenas a profecia, mas a
profecia de liderança campesina feminina. Violentada pelo discurso de
prerrogativa exclusiva de porta-voz de Yahweh, a profecia enfrenta “Moisés”,
na defesa de quem Yahweh responde com a afirmação tanto da insuficiência
procedimental da profecia, quanto da supremacia cúltico-litúrgica,
rigorosamente oracular nos termos em que, depois, Malaquias declara, de “Moisés”
– o mensageiro é o sacerdote. E pronto.
1
Re 17 é um caso especial: trata-se de perícopes em que o campeão da
monolatria de guerra, “Elias”, interage com a “viúva”. Tenho textos
publicados sobre a passagem, e o leitor pode consultar os detalhes lá. Aqui,
apenas resumo a leitura, defendendo a hipótese lá desenvolvida de que
“Elias” representa discurso do Templo, diante de críticas campesinas específicas
apresentadas em confronto ao discurso teológico “ortodoxo” dos sacerdotes
em face de uma situação de seca. “Elias” representa um caso típico de
cooptação da memória profética. Ali, “Elias” é o próprio Templo.
Outra
passagem que mereceu minha atenção foi Os 2,4-15. “Ela não é minha mulher” não representa, a rigor, um caso de
cooptação da memória de um profeta,
mas da cooptação da literatura profética.
A passagem, a rigor, sequer menciona Oséias. Mas pelo fato de ter sido
incorporada ao Livro do Profeta Oséias,
faz com que a tese defendida na passagem seja tomada pela boca do profeta. Como
disse no artigo publicado, no que me diz respeito, a passagem inteira pode ser
tomada como a voz do Templo em plena cerimônia de divórcio de Yahweh. Mais ou
menos como se, sendo a população obrigada por um Esdras/Neemias, meio
ensandecido, sob ameaças e cumprimento de ameaças, inclusive, de tapas e
arrancamento de cabelos, a expulsarem (su)as mulheres “estrangeiras”, Yahweh
tenha sido forçado a dar ele mesmo o exemplo...
Finalmente,
Is 4,2-6, uma passagem interessante, porque, em primeiro lugar, pode parecer
“profética”, porque está, afinal, nos Profetas. Uma leitura atenta, mas
talvez insuficientemente detalhista, pode fazer valer a tese de que, sim, é
verdade, o Templo fale mesmo em textos tido como “proféticos”, ainda que não
na proporção com que este artigo, afinal, quer fazer seja pressuposto. Com
efeito, há de se concordar, não há outro espaço em toda a Bíblia Hebraica
onde haja uma concentração tão grande de terminus technicus da teologia do
Templo: estão praticamente todos lá, o que pode indicar tratar-se, afinal, da ipsssissima
vox sacerdotal. Eu, contudo, cheguei a conclusão diferente: tratar-se-ia de
um caso muito especial de reinscrição transgressiva: a terminologia técnica
do Templo é usada, pela profecia feminina, contra o próprio Templo, como a
quem diz, no final das contas, que o que interessa mesmo, de verdade, é que o
camponês possa plantar e colher. O resto, bem, o resto é o resto... O irônico
em tudo isso é que, no cabo de guerra do vai-não-vai, a peça acabe sendo
incorporada num discurso que endossa a ideologia que, a rigor, o poema quis
desprezar...
Mas
o que mais chamaria a minha atenção, no momento, é que as narrativas que compõem
os Profetas podem ser separadas em dois grupos: o grupo dos textos de imprecação
sócio-econômica, no “bom” estilo de Amós, e o grupo dos textos de polêmica religiosa, cujo campeão, o
Dêutero-Isaías, coroa com seu proto-monoteísmo a apoplexia “oseiana” do
“adultério” popular. Salvo engano – eu confesso estar afirmando isso sem
o necessário crivo crítico (é necessário averiguar a validade de tudo quanto
aqui disse, e principalmente desse último parágrafo) – o conjunto da
literatura profética se apresenta como a costura, ora mais pendendo para um
lado do que para o outro, de textos de denúncia social com textos de imprecação
monolátrica. No que diz respeito à minha hipótese aqui defendida, os textos de denúncia
social representariam memória da voz profética ligada ao campo e à crítica
urbana, ao passo que à histeria monolátrica, não só aquela de extremo mau
gosto de um Ezequiel, mas mesmo as mais econômicas, responderia o Templo e,
naturalmente, seu corpo sacerdotal masculino e misógino.
Talvez
haja mesmo alguma virtude na intuição mais antiga de que, seja como for, a
profecia clássica nasce no Norte, com Oséias
e Amós, ou, ainda mais cedo, com os
campeões Elias e Eliseu. A profecia nunca foi uma prerrogativa exclusivamente
israelita, é verdade, mas a uma profecia independente político-socialmente,
concentrada em imprecações contra os desmandos sócio-econômicos de uma
liderança urbana corrupta responderia bem o contexto de uma Samaria muito bem
urbanizada, rica, integrada político-militarmente ao aparelho assírio, pelo
que se pode depreender das informações advindas da arqueologia iconográfica
de que tropas israelitas, especificamente do Norte, compunham mesmo o exército
Assírio. E isso desde o século IX. Caso interessante se apresenta como o da
tropa de bigas israelita sendo anexada inteiramente ao exército de Sua
Majestade após a destruição do Estado de Israel em 722. Um Estado em pleno
desenvolvimento econômico deve ter gerado condições de desigualdade e opressão
social de uma tal envergadura, que terminaria por eclodir no surgimento de uma
classe especial de liderança popular, legitimando sua revolta e se conclamando
representação popular sob a inspiração de Yahweh. Afinal, se a França deve
dizer-se regida pela (deusa) Razão em tempos de Revolução Francesa, à medida
que Napoleão e seus soldados marcham sobre a Europa, é compreensível que os
críticos sociais daquela época e daquele lugar legitimem-se, também eles
(compreensível, não desculpável), num suposto partidarismo de Yahweh. Hoje
deveríamos – estamos prontos – decantar todos esses precipitados e
reduzi-los a uma expressão, digamos, contemporânea... Seja como for, Yahweh,
naquelas bocas, está irado, sim, mas contra a Grande Organização (Coroa –
Templo), e não por ciúmes daquele ou daquela, mas porque lhes comem seus
filhinhos, chupando-lhes, salgadas, as tripas...
No
Sul, é coisa para se investigar, e principalmente depois da tese de inexistência
de um Estado davídico-salomônico unificado, se uma Jerusalém “eterna”,
preservada mesmo sob a “conquista” de Davi (é o caso de nos perguntarmos se
não vale para a Jerusalém jebusita – israelita o mesmo que vale para uma
população palestina israelita – canaanita), não teria dado azo para a
concentração de um aparelho sacerdotal muito mais fortalecido do que seu
similar nortista, além do que a aventada hipótese de uma Judá mínima,
inexpressiva, remota, leve à hipótese da ausência de contexto para a profecia
nos termos em que eclode no norte. O encontro das duas expressões
“religiosas”, os críticos sociais, os “críticos do sistema” do norte,
e os sacerdotes do sistema, do sul,
durante as fugas da população de Israel para Judá, em decorrência das invasões
assírias, pode ter marcado, sob o signo do conflito – logo, apontando desde
cedo para a necessidade de cooptação da memória dessa força social
subversiva – as relações de “poder” político-teológico na novel Nação
judaico-israelita, herdada por um Ezequias boníssimo...
Bem,
boníssimo segundo uma tradição. É
bastante plausível que o Sl 53 se refira a Ezequias como “devorador do meu
povo” (“meu povo” aí significando “povo de Yahweh”), e descrevendo-o
nada respeitosamente como um medroso durante a invasão de Senaqueribe em 701.
Corrobora essa leitura a revisão do Sl 53 consignada pelo Sl 14, em que
justamente o verso constrangedor, que permite, numa só tacada, seja
identificado o contexto gerador do salmo com o cerco de Jerusalém, e o rei
medroso, ontem leão, hoje um rato, com o rei Ezequias, é providencialmente
substituído por uma lenga-lenga genérica, falando de pobres e de justos,
palavras sem repercussão prática nos corredores do poder, mas nem por isso
ineficientes até para a demagogia. É provável que Judá tivesse seus críticos
sociais, poucos, dado seu pouco fôlego, ou seus “intelectuais orgânicos”,
mínimos, se Judá era mesmo, como pretende a arqueologia revisionista mais
recente, uma pequena vila de camponeses e seu orgulhoso sistema sacerdotal,
milenar (essa última parte vai por minha conta), e que, afinal, não seria
necessário o êxodo dessa classe desde o norte. Mas o fato é que é muito mais
provável que, dado aquele êxodo, alguém menos íntimo das bondades daquele
que foi preso como um pássaro na gaiola, de quem Senaqueribe se gaba ter levado
o trono de marfim – afinal, não apenas Amós tinha do que falar quanto aos
reis de Samaria, Judá também tinha sua opulência, e, pelo que vou vendo, à
custa do mesmo preço denunciado pelo profeta – tenha, afinal, se sentido, então,
mais livre para arriscar o pescoço. Dê-se mais um tempo, e seja trocado o
cetro pelo peitoral, e logo essa gente saberá o preço de meter-se nas
alturas...
Esse
momento particular da história de Israel tem servido para teses interessantes,
a última a cair, pelo que me lembro, é a independência, nunca, é verdade,
atestada com unanimidade, de um “documento” E, apresentado ao público desde
o final do século XIX. Esse documento E foi, quando defendido, reputado ao
movimento profético, e, importante lembrar, ao movimento profético nascido no
Norte. A tese de um E profético já se dissolveu faz, pelo menos, trinta anos
– mas o movimento profético “monolátrico”, clone teológico do Templo,
permanece, como pelo menos, registro fóssil, e recurso estratégico para a
defesa de um monoteísmo que se esforça, ainda, por nascer da genialidade de,
pelo menos, um “Elias”.
Desconfio,
e para o dizer, digo logo, que a força (secreta?) que motiva essa linha de
orientação da pesquisa seja, afinal, a hipótese de que o monoteísmo seja
intrinsecamente bom. Talvez fizesse mesmo parte do conjunto das atitudes morais
constitutivas do que Kant intui como “imperativo(s) ético(s)”, fundamento
de uma moral prática, que Schopenhauer critica de subserviência ao sistema
teológico. Uma tal atitude natural como essa, deve ser relacionada com homens
especiais. Um Moisés fundador do monoteísmo, ainda que de uma monolatria
incipiente, vai tornando-se difícil de ser sustentado, salvo nos ambientes onde
não se dê importância para as evidências literárias e históricas, e cuja
pressão tradicional e dogmática seja fomentada pelo sistema político de gestão
do sagrado. Não é esse o caso da academia, muito mais séria nesse ponto. O
que não significa, contudo, que estejamos livres das idéias mais idílicas de
uma genialidade espiritual como necessidade histórica para uma tese fundamental
e essencialmente tão nobre quanto o monoteísmo...
E
se, proponho, nem que por um segundo, seja encarada toda a proposição monolátrica
e monoteísta engendrada por Israel – perdão, pelo Templo de Jerusalém –
como a história, nesse caso indecorosa, da supressão, pela forma, seja física,
seja psicológica, da construção de um sistema político-religioso maquinado
programaticamente de cima para baixo, programado e implantado sob o regime da
legitimação religiosa, claro, cujo modelo exemplar mais parecido seria o
discurso programático de A República?
E se o caráter nobre do monoteísmo consiste numa projeção de nossa própria
constituição cultural (Schopenhauer, Feuerbach), antes que da tese, primeiro
filosófica, em si mesma – mercê de uma Grécia que engole uma Pérsia e, com
ela, a tese judaica, tornando ontológico o que é político – e depois político-teológica,
fadada a lutar eternamente contra as propensões humanas para as representações
antropomórficas inumeráveis da Natureza? E se, no fundo, não estamos mesmo, e
até hoje, “encantados” por esse mantra?
Talvez,
apenas talvez, se a academia deixar de lado, por um segundo que seja, a idéia
grega do Uno-Tudo-Todo de Parmênides, também a idéia grega de um
Espírito-bom-num-corpo-mau,
e pensar a tese monoteísta a partir dos fundamentos culturais e dos registros
histórico-sociais da Bíblia Hebraica, talvez, insisto, chegue a sentir um
princípio de enjôo com a idéia em si mesma, e chegue a perguntar-se, mas,
como?! A partir daí, a tese de um profetismo nem um pouco historicamente
interessado nesse assunto possa parecer menos desbaratada. Conto os dias para
que as teses da historicidade babilônica ou próximo-babilônica de um
“profeta” (o “Dêutero-Isaías”), gênio do proto-monoteísmo, nós,
enquanto ainda nem o éramos, mas já, lá, o projeto de “nós”, mostre-se,
afinal, um equívoco tópico-utópico: tópico, porque se venha a descobrir,
afinal, tratar-se, também ali, da voz sacerdotal ruminada bem mais tarde do que
gostaríamos (e quanta força se faz!), e utópico, porque, afinal, não é
tanto que gostemos do monoteísmo em si mesmo, mas que tenhamos em suprema conta
a sua essência intrinsecamente, propriamente, inequivocamente divina...
Talvez
seja esse o meu próprio diagnóstico: algum tipo de patologia ainda não
suficientemente estudada, cujo sintoma seja a compreensão profunda de uma
inalienável constituição ocidental, significa dizer, filosoficamente e
teologicamente monoteísta, como resíduo inexorável da irreversibilidade histórica
(Prigogine), a despeito da consciência de que tal conquista do Espírito, da
Razão e da Verdade tenha sido trazido à luz, vá lá, com os recursos que a
esse mesmo Espírito, hoje, assim construído e constituído, pareceria
desumano, demasiadamente desumano (Edgar Morin). Para o dizer de forma bastante
direta – não me parece melhor ou pior do que qualquer outra a tese monoteísta:
são todas elas idéias que nos possuem, mais do que nós a elas, ainda que as
saibamos usar, também, segundo nossos interesses, que, no fundo, comungamos com
elas também. Não há base alguma para que sejam comparadas as representações
do sagrado, senão as predileções, adquiridas a que preço, meu Deus, por essa
ou aquela. Tendo chegado a esse estado de compreensão da doutrina, mas
impossibilitado de arrancar da pele seu traço constitutivo, resta-me vingar-me
de tudo isso – não falei de patologia? – fazendo com que o que consideraria
culpa, parecendo a outros, a honra, recair sobre o Templo, enquanto, para
aqueles, sobre os profetas. O que, fica agora claro para mim, nos torna iguais
num ponto: gostamos, afinal desses camaradas, os profetas... Uns, porque são os
artífices do Sagrado que nos corre nas veias, ao passo que, para mim,
justamente porque não se teriam metido nesses assuntos.
Conclusão
Para
quebrar o ar depressivo com que, a rigor, concluí o que vinha de dizer, talvez
valha a pena converter em roteiro os desdobramentos da hipótese. E diria
tratar-se do seguinte:
1)
promover uma revisão da literatura profética a partir do projeto
de verificação da viabilidade da hipótese: é possível ler os Profetas
Posteriores na condição de cooptação sacerdotal da memória profética?
(claro: “caber” não prova que chegamos, afinal, à “verdade”. Em termos
históricos, em termos historiográficos, em termos estritamente exegéticos,
jamais sairemos da condição de portadores de hipóteses. Hipóteses que são,
já sabemos, representações humanas, demasiadamente humanas – sendo
igualmente justo dizer que há representações mais lúcidas, contudo);
2)
reavaliar a postura implícita com a qual a academia, consciente
ou inconscientemente, se aproxima da questão temática monolatria/monoteísmo,
com o objetivo de verificar até que ponto a busca pelas origens do monoteísmo
na “profecia” não responda a uma tese implícita da condição
essencialmente boa da própria tese, e, de roldão, do componente social
“profeta” (estamos encantados pela leitura greco-ontológica da tese político-religiosa
do monoteísmo judaico, que nos leva a ler “Eu sou”, helenicamente
conveniente, quando uma leitura judaica deveria ler “Eu estou”? Cai até
melhor na passagem, alguém há de concordar)
3)
reavaliar as hipóteses de trabalho do contexto gerador da Torah e
dos Nebi’im: acordo entre dois poderes polares? Expressões comunitárias
conflitantes, mas, de resto, consensuais por meio de congresso tribal? Imposição
político-teológica, de cima para baixo, de um projeto ideológico patrocinado
e promovido por uma nação estrangeira, a uma população autóctone e, agora,
provinciana? (uma leitura “marxista” da Bíblia Hebraica, concordo, é démodé.
Mas, convenhamos, uma leitura não minimamente marxista dessa mesma literatura
é pura ideologia).
Fico
devendo (preguiça) a bibliografia
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto – |