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Lendo histórico-socialmente
textos bíblicos
Osvaldo Luiz Ribeiro
(esquema gráfico de Hudson
Pereira da Silva)
O jogo que jogo, quando leio
textos bíblicos, é o jogo "hermenêutico" histórico-social. Há
outros jogos que podem ser jogados, quando o assunto é textos. O jogo do
direito, por exemplo, ou o da literatura. O jogo que jogo é o da história. Meu
jogo é exegético. Faço exegese. Que é alguma coisa entre ler e fazer
arqueologia.
Imaginei um desenho, e o fiz no
quadro-branco. Queria apresentá-lo aqui, na Internet, e pedi ao meu (então)
aluno, Hudson, do Seminário do Sul, que desenhasse pra mim. Expliquei. Ele
ouviu atentamente. E fez pra mim. O desenho é o seguinte.
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No passado, o
EVENTO. Alguém escreve um texto para o usar como instrumento de
intervenção social, aplicando-o a outro alguém. Lá, o texto
queria dizer uma e apenas uma coisa. Queria fazer uma e uma única
coisa.
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Desde o passado,
na condição de vestígio desse passado, uma narrativa chega até
as mãos do exegeta. É tudo que ele tem: uma narrativa. Sua missão
"impossível": converter em texto a narrativa que tem nas
mãos. Levá-la de volta até lá, o passado dela, até aquele dia,
aquele, e não outro. Ressuscitar os mortos, e fazer com que vivam,
de novo, aquele momento. Isso é exegese
histórico-social. A exegese é exumação de cadáveres.
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Passo a explicar o desenho, e,
explicando-o, a dizer o que considero exegese - exegese histórico-social.
A exegese lê textos. No meu
caso, textos bíblicos. Particularmente, textos do Antigo Testamento. Os textos
que a exegese lê são pedaços do passado. E o são em diferentes sentidos. Os
textos são pedaços de todos os passados em que foram instrumentalizados
político-socialmente, teológico-religiosamente, quando foram lidos, usados,
quando fizeram história. Eu até posso interessar-me, por exemplo, pela
"história dos efeitos" de um texto, pela "história da
recepção" de uma determinada narrativa bíblica. Por exemplo, pode ser
estudada a história da interpretação de Gênesis 3, ou, cito aleatoriamente,
a parábola do grão de trigo, ou a narrativa do Servo Sofredor. Não chamaria
isso propriamente de exegese. Nem mesmo diria tratar-se, essa abordagem,
necessariamente de um "capítulo" da exegese. Não apostaria muito na
hipótese de que a história dos efeitos de uma passagem bíblica tenha algo a
me dizer sobre o sentido original dessa passagem. É verdade que um exercício
assim é indispensável para que seja descoberto o momento em que determinada
interpretação dessa passagem nasceu: quando foi, por exemplo, que o Servo
Sofredor "virou" Jesus de Nazaré. Mas essa descoberta dirá algo
muito mais de "mim", que interpreto desse jeito, do que do texto e de
sua interpretação original. Concederia a essa atividade
heurístico-epistemológica um papel propedêutico da formação do pesquisador
- a saber: dar-se conta de que as interpretações sucessivas de um texto
sobredeterminam-se ao próprio texto, e corre-se o risco de que estas últimas
acabem sendo tomadas por aquele.
Outro sentido para textos como
pedaços do passado é aquele que o considera um vestígio histórico, um
indício, no sentido em que Carlo Ginzburg usa a palavra "indício",
em Mitos, Emblemas e Sinais. Refiro-me aqui ao momento de produção do
texto. É a esse momento que procuro dar toda a minha atenção. A exegese que
faço é histórico-social por isso: porque ela está metodologicamente
interessada, apenas, no sentido com que o texto foi "armado",
"amarrado", "articulado", "tecido",
"tramado". Os sentidos com que ele foi revestido, lido,
instrumentalizado, depois daquele momento inicial, não me interessam, quando
faço exegese.
Falo daquele momento original.
Textos não são fungos. Não nascem ao pé de árvores, sob troncos podres, nas
tundras, nas paredes úmidas. Textos são criações culturais, humanas,
intencionais. Se é humano, é intencional. Não há ato humano que não seja
intencional. Intencional, não é, contudo, "genial". Pode ser,
também, "genial" - e há textos "geniais" no Antigo
Testamento. Qualquer pressuposto de que lidamos com mentes primitivas aí é
absolutamente baseado em outros pressupostos absolutamente infundados. Sendo
até também geniais, são, contudo, culturais, isto é, nascem no cadinho da
cultura. Mas não são frutos dela. Articulam-se nela, com ela, a partir dela,
na, da e pela forja pragmática do condicionamento histórico-social. Mas não
é a cultura que age: são agentes humanos os que agem, práxicos, pragmáticos,
ideologicamente despertos, é verdade, mas agentes. Mesmo quando
"pacientes", são agentes. Os textos que produzem são produzidos,
porque são tomados como necessários. Para além de seu contingenciamento
antropológico-cultural, os agentes humanos vivem sob o esforço de ruptura da
placenta noológica da cultura. E a rompem, eventualmente. E é por isso que há
cultura.
Os textos, portanto, nascendo no
passado, já existem sob perspectiva. É o agente operador do texto, chame-se
tal agente de "escritor", "autor", "redator", quem
articula o eixo hermenêutico a partir do qual palavras e frases serão
contextualizadas, enfileiradas em correição, cada uma delas, e todas,
caminhando, obedientes, sob o eixo sintático-pragmático-programático
premeditado pela consciência operativa desse agente-escritor. No texto, nenhuma
palavra tem vida própria. A vida dela, ali, então, assim, depende do eixo
hermenêutico (ideológico, teleológico, pragmático) com que ela, a palavra,
ela, a frase, ela, a oração, ela, a estrutura, foi aprisionada na fala
articulada e fechada do discurso histórico-social. Claro, esse texto, depois,
pode virar, ele mesmo, verbete de um dicionário literário, e sofrer, ele
mesmo, multi-perspectivação, ser aberto por multi-referências hermenêuticas,
múltiplas chaves de leitura. Nada muda. Esse texto, lá, naquele tempo, quando
escrito, foi escrito para dizer o que tinha que dizer, isto é, dizer aquilo
para o que foi trazido à luz, isto é, dizer aquilo que o agente operador do
discurso textual tem em mente dizer, e diz, e fazer, e faz, e faz, dizendo, e
diz, fazendo.
Principalmente naquele tempo,
tempo não de leitores, mas de leituras, e públicas, a intenção do agente
articulador do discurso alcançava-se não apenas na escrituração do texto,
mas na sua instrumentalização ideológica, pragmática, em contexto retórico.
As leituras operativas davam-se como parte teleológica da intenção do
escritor. Não era apenas escrever o texto, que ninguém o lerá (salvo
exceções). É escrevê-lo, e lê-lo para seus destinatários, e fazer dessa
leitura a aplicação pragmática da ideologia que o inspira, da teleologia que
o determina.
Uma tal noção de
"texto", já se vê, está numa dimensão para além da literatura. Eu
diria que ela, a noção, na verdade, proposta de trabalho, pressuposto
metodológico, compõe-se sob o conceito de "complexidade" (cf. Edgar
Morin). O sentido desse texto, assim tomado, não está na
"narrativa", mas na relação perspectivista e instrumentalizadora
entre a intenção do agente operador e o aprisionamento sintático-narrativo de
palavras, frases e orações. Nesse momento, se você descarta a intenção do
agente operador, o "texto" se dissolve. O que sobra é, apenas, uma
"narrativa". Multi-referenciada, isto é, aberta, acessada, lida, a
partir de qualquer outro eixo referencial - e não há leitura sem eixo
referencial -, assume qualquer outro "sentido", que, mais uma vez,
não está na "narrativa", mas na articulação referencial de uma
intencionalidade operativa, pragmática, seja estética (literatura) ou
retórica (jurídica). Textos têm sentido? Não. Textos ganham sentido.
Primeiro, pelo seu "autor", que, no contexto específico do Antigo
Testamento, que tenho estudado dedicadamente, e, assumiria, do Novo Testamento,
que tenho investigado menos dedicadamente, e, arriscaria, durante longo período
histórico (eu diria, até a "invenção" da leitura pessoal como
prática cultural), era garantido pela performance retórica do próprio agente
operador da leitura, ou pelo aparelho operador subordinado. Depois, por todos os
leitores que, apoderando-se da "narrativa", fazem, cada vez, a sempre
mesma pergunta do eunuco de Atos: esse texto, de que(m) fala ele?,
pergunta que deve ser respondida, e será, seja pelo próprio leitor, seja por
alguma instância heterônoma (explícita ou implícita).
Quando leio textos do Antigo
Testamento, tento lê-los, revivendo o seu autor. Mas não só ele, porque o
autor não delira para as estrelas, mas escreve para pessoas concretas. O
texto é instrumento de intervenção social, já disse antes. Sinto-me
obrigado, e é imperioso, a ressuscitar os destinatários do operador do texto.
Não é apenas quem diz, mas para quem. E, aí, não há como fugir: e disse, por
quê? E para quê? E mais: a partir de quê? Como esse agente
operador lida com a tradição a partir da qual ele fala? Como se posiciona,
ideologicamente, diante de seus destinatários? Está do lado deles, e têm,
juntos, um referencial positivo ou negativo comum? Sonham juntos, ou lutam
juntos, ou sofrem juntos? Ou, não, antes, coloca-se como adversário de seus
destinatários, conquistador deles, senhor de suas vontades, vidas e corpos?
Ainda, nem uma coisa nem outra, defende-se deles? A relação entre o
autor-operador do texto e os seus destinatários pode ser variadíssima dentro
dessas três possibilidades - convivência eco-simbiótica, retórica quiriarcal, retórica de resistência.
Menciono os elementos que estão
presentes, às vezes todos, às vezes alguns dentre eles, no momento da
criação-operação do texto.
1. autor, autora, autores ou
autoras, porque a autoria pode ser também comunitária, sim. E feminina?
Também.
2. a própria narrativa, que,
abstraída desse momento criador-operador, é mera narrativa, mas, nele, é
texto, carregado de pragmática e teleologia.
3. o destinatário, a
destinatária, os destinatários ou as destinatárias. Nesse caso, podem ser
cruzadas todas as possibilidades entre os elementos do primeiro e deste
conjuntos.
4. o contexto pragmático. A
esse, eu chamo de EVENTO. O nome de minha página é um tributo e esse momento
histórico, e à minha postura exegética fundamental. EVENTO é o contexto
global, completo, o cenário dentro do qual agem e operam todos os outros
elementos constitutivos de EVENTO, enquanto categoria teórico-metodológico
exegética.
5. a percepção que o agente
operador do texto tem do momento - do EVENTO.
6. a decisão de intervir no
EVENTO. Onipresente. Sem esse elemento, o texto não nasceria jamais. O que faz
do sujeito histórico-social um autor-operador de textos é a sua decisão
histórico-social de intervir no evento histórico - para o que produz seu
instrumento de intervenção social, Sua Excelência, o Texto.
7. a tradição comum aos dois
elementos práxicos-operativos do evento ("autor" e
"destinatário"), que constitui tanto uma caixa de disponibilidades
retóricas, peças operacionalizáveis da memória cultural, quanto uma força
coercitiva. A relação dos agente operadores do evento, no evento, é complexa,
seja entre si, seja com a tradição. Há tanto submissão, quanto
enfrentamento. Há tanto determinismo, quanto liberdade.
8. a intenção autoral, mais do
que um pensamento, um projeto. A intenção presente no texto é o equivalente,
complexo, antropológico, do movimento de uma peça no tabuleiro de xadrez: o
jogador estende a mão, toma a peça e, a partir de seu projeto maior de ganhar
o jogo, move, aqui, agora, essa peça, cujo movimento só faz sentido tanto
internamente ao jogo (cavalo anda em L), quanto fora dele, isto é, na
estratégia de vitória planejada pelo enxadrista. Quando digo que um texto tem
intenção, não estou dizendo que um pedaço da mente do escritor está ali,
colada, dormindo. O que eu digo é que uma estratégia de intervenção está,
ainda, estruturando a sintaxe da narrativa, porque é ela que faz da narrativa,
texto, isto é, é ela que mantém a narrativa sempre instalada em seu momento
genésico. A pragmática que pariu o texto ainda está lá. Basta que a
narrativa seja lida, novamente, a partir da estratégia operativa do
agente-escritor, e o texto ressuscita.
Isso é o básico. Não se trata
nem de uma receita de bolo. Trata-se de um roteiro. É também na pragmática
exegética que os nós se revelam, e são desvelados.
Isso que vim de dizer está, no
desenho, representado pelo primeiro elemento estilizado: "realidade
histórica". Trata-se do EVENTO. Ele é a única coisa absolutamente real e
histórica, no que diz respeito à narrativa. Na condição de instrumento
ideológico-retórico, a narrativa pode constituir-se por elementos redacionais
imaginados. Seja a mais estapafúrdia fantasia isso que vai na narrativa, o
EVENTO, constituído pelo conjunto da narrativa, quando então texto, mais
seu(s) operador(es)-escritor(es) e mais seu(s) destinatário(s), é
absolutamente histórico. É esse EVENTO a chave para a leitura
histórico-social do texto. É necessário lê-lo aí, no EVENTO.
E esse é o problema da exegese.
O que ela tem na mão, não é o EVENTO. Nem o texto. Texto seria, se a
narrativa que o exegeta tem na mão viesse trazendo consigo, explicitamente, num
capítulo do seu manual de leitura, o evento do qual e no qual ela emergiu. Não
é assim que acontece. O que nos cai nas mãos são narrativas. É, cada uma, o
que sobrou de seus respectivos acontecimentos históricos constitutivos. Todo o
mais deles ficou no passado. Apenas a narrativa, subproduto e, ao mesmo tempo,
substrato operacional do texto, chegou até o exegeta, na condição de
vestígio, de indício. A narrativa é um ser arqueológico, enterrado não
debaixo da terra, mas sob os escombros da História. Filha do Universo,
histórico (cf. Prigogine), a narrativa é, também, histórica. Escondido pela
História, o Universo e a narrativa esperam para serem observados - exumados.
Essa idéia tento ilustrar com o
segundo elemento estilizado: a página em hebraico. É ela o que tem hoje o
exegeta. Se vai lê-la histórico-socialmente, tem de re-inseri-la naquele
EVENTO. Se não o fizer, falhou em sua missão. Se não tentar, sequer entendeu
sua missão.
Nesse sentido, o erro mais comum
na profissão exegética, a histórico-social, é render-se à narrativa. Quando
a narrativa é tomada pelo EVENTO, pronto. Está perdido o trabalho. Qualquer
outra coisa pode se fazer assim, e talvez seja até muito interessante, sob
outros aspectos. Não estou dizendo que a única coisa legítima que se pode
fazer com uma narrativa é lê-la histórico-socialmente. Pelo amor de Deus,
não sou míope. Quer dizer, sou, mas só nos olhos. O que estou dizendo é que,
se o exegeta é um exegeta histórico-social, diz-se haver outros tipos (isso
já acho discutível - se é outra coisa que não leitura histórico-social de
um texto, tenho dúvidas se o termo "exegeta" é adequado), repito: se
o exegeta é um exegeta histórico-social, então, e não tem outro jeito, é
minha compreensão profissional, o que ele tem de fazer é re-instalar a
narrativa em seu EVENTO de origem. Em outras palavras: é transformar a
narrativa que tem nas mãos, em texto, no texto que ele foi naquele dia.
Terá de usar a própria
narrativa para isso. Sua missão é uma só: ouvir o texto dentro do EVENTO de
que ele é parte constitutiva. Esse objetivo é constituído por etapas
concomitantes e complexas. Concomitantes, porque são realizadas todas ao mesmo
tempo, e, complexas, porque cada uma delas depende das outras, e, todas, em seu
conjunto, dependem de cada uma, isoladamente, tanto quanto, cada uma,
isoladamente, depende do conjunto. É um paradoxo da complexidade: para entender
cada palavra, preciso do todo. Para entender o todo, de cada palavra. Não posso
escolher por onde começo. Tenho que começar da parte e do todo, ao mesmo
tempo, construindo, pouco a pouco, o todo, pelas partes, e identificando o
sentido das partes, pelo todo que vou construindo.
A exegese é uma tarefa bastante
difícil. Exige muita dedicação. Exige muita atenção. Exige incondicional
condicionamento metodológico. Exige lucidez metodológica. Rigor absoluto
consigo mesmo, com as armadilhas da ideologia pessoal. Menos do que isso não é
digno da tarefa. Nem exegese.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem
alterações no texto –
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