Josué como narrativa mítico-literária
Osvaldo
Luiz Ribeiro
03/03/2006
Minha
última leitura de Js 24 provocou-me a percepção (ainda agora [mas um pouco
menos] intuitiva) de que se tratava, essa, de uma narrativa mítico-literária
(RIBEIRO, 2005). Significaria dizer que a narrativa deveria ser entendida como
se referindo a uma época (muito) posterior aos “fatos” ali narrados.
Escrevi na margem de minha Bíblia: “’Josué’ é ‘Josué’, o sumo
sacerdote de Zc 3,1? Faz muito
sentido”.
Desde
aquela leitura, a idéia tem me perseguido, e assombrou-me ontem à noite,
enquanto relia a Introdução que
Herbert Niehr escreveu ao livro de Josué (ZENGER, p. 170-176). A leitura de
toda a Introdução, na verdade,
reportou-me àquela leitura de Js 24, mas, principalmente, a seção referente
às “ênfases teológicas”. Ali, discutindo, dentre outros aspectos, os
temas “monolatria e Javé” e “a Tora e obediência à Tora”, Herbert
Niehr apontava para questões que, mais uma vez, forçaram-me a um retorno a Zc
3,1. Não, minto – na verdade, a toda a série de visões de Zacarias, porque
a questão da monolatria e da “lei” (a rigor, do rolo)
são fundamentais no conjunto delas.
Sobre
as “visões” de Zacarias, já escrevi. O que escrevi pode ser consultado em
minha página de trabalho: www.ouviroevento.pro.br.
O leitor interessado poderia começar sua pesquisa lendo dois textos: “Encenação Histórico-teológica e Visão Profética. Fundamentação
Hermenêutica da História nas Oito Visões de Zacarias” e “As
mulheres do efa. Epílogo da interdição da deusa e do feminino na Judá pós-exílica”,
que, naturalmente, estão disponíveis ali.
Muito
resumidamente, diria que as “oito visões” de Zacarias representariam uma
apresentação político-ideológica do programa de restauração sacerdotal da
Judá pós-exílica, cujo ideal preconizava a hierocracia (exclusivamente)
masculina, a monolatria “javista”, claro, centralizada no
templo, e, para o que aqui basta, a introdução do “governo pelo rolo”.
Se minhas intuições ali desenvolvidas se mostra(ra)m convenientes, a sétima
visão, a mulher dentro do efa,
deveria indicar para a prática polilátrica, nesse caso, relacionada ao culto
à deusa (Asherah?), prática essa encontrada pela golah
em Judá quando do retorno político-programático da “elite” deportada.
Caso se trate efetivamente de programa político-religioso de governo, a julgar
pela sua plataforma, seria lícito interpretar seu esforço no sentido da superação
de uma determinada condição histórico-social instalada na terra: polilatria
(Yahweh, Asherah[?], Nehushtan[?], dentre outro[a]s representações divinas);
liderança religiosa variada, inclusive,
e, nesse caso, principalmente, feminina;
e intermediação profético-oracular com o sagrado. Todas essas práticas
pretendem ser abolidas pelo que leio como programa político-religioso da golah, nos termos conforme o apresenta(ria)m o conjunto das “oito
visões de Zacarias”.
Sabemos
através da quarta “visão” (Zc 3,1ss), que o sumo sacerdote apresentado
como o “chefe religioso” no programa é justamente um personagem chamado,
também, como o do livro homônimo, “Josué”. Na “visão”, Josué
aparece ao lado do Anjo de Yahweh. Somos informados ali, pelo Anjo de Yahweh, da
eleição de Jerusalém, e o próprio Josué recebe também dele a promessa de
que governará “a minha casa”, isso “se andares pelos meus caminhos e
guardares os meus preceitos” (v. 7). No todo, diante de uma acusação
representada na narrativa pela figura de um adversário,
acusação essa que não é desmentida, mas superada por meio de uma ação
purificadora da parte do próprio Yahweh, o sumo sacerdote Josué é apresentado
como aquele a quem Yahweh entrega sua casa e todos os que estão legados a ela.
Josué é o chefe, o servo de Yahweh.
Diante
de um quadro apresentado como polilátrico, caberia a Josué, sumo sacerdote da
Jerusalém recém-instalada pela Pérsia, a julgar pelo que se pode depreender
da “visão” da mulher dentro do efa
(Zc 5,5-11), expurgar a cidade dessas práticas, implantando a monolatria e
impondo sua observância.
Ora,
o que eu vejo aqui, nas “oito visões de Zacarias”, o sumo sacerdote Josué
à testa de um projeto de “posse da terra”, de reorganização da terra em
torno da “lei” e do serviço exclusivo a Yahweh, é, a rigor, o mesmo, sem
tirar nem pôr, que o quadro geral desenhado pelo livro de Josué:
o mesmo herói, o mesmo povo, a mesma divindade, o mesmo culto, a mesma odisséia...
Obviamente,
não se trata de uma operação inquestionável: nada, em exegese, pode ser
reduzido à obviedade incontestável. Nem é possível fazer com que, da própria
leitura das “visões de Zacarias”, de um lado, e de Josué, de outro, se depreenda, naturalmente, univocamente, a percepção
de que falem da mesma coisa – se não cheguem mesmo a ser da mesma mão! Toda
essa operação hermenêutica é o que é: intuição. Pode, no máximo,
angariar argumentos a seu favor, o que não garante, em absoluto, que todos (os
leitores) se deixarão convencer. Eu mesmo chego a essas possibilidades histórico-literárias
depois de uma (longa) série de (muitos) [pequenos] passos... E mesmo eu, que
vejo com meus olhos o que digo ver, pergunto-me, por ter aprendido assim, se
“vejo” o que está lá para ser visto, porque foi assim, então, que se
teriam dado as coisas, ou se, ao contrário, “crio” tudo isso que digo ver.
Em outras palavras, se a percepção hermenêutica aqui apresentada e defendida
tem contato com a realidade histórica por trás dos textos de que emerge, ou se
é produto da polissemia daquelas narrativas, com que meu olhar curioso brinca,
enquanto elas brincam com ele...
Seja
como for, encontro-me na condição de, a partir da leitura da introdução de
Herbert Niehr, apresentar alguns argumentos para defender a percepção de que
(algum nível de) o livro de Josué
bem como seu personagem principal e homônimo devam ser tomados como projeção
mítico-literária do sumo sacerdote Josué, mencionado em Zc 3,1ss, responsável
pela restauração persa de Judá em torno da “lei” e da “monolatria”
javista.
Josué,
de Herbert Niehr
De
um parágrafo importante de Herbert Niehr, extraio duas conclusões. Primeira:
as duas primeiras seções do livro (Js 1,1-12,24 e 13,1-22,34) têm na
“lei” a sua perspectiva de fundo: “a obediência à Tora garante a posse
da terra” (p. 171). Segundo o próprio Herbert Niehr, “a consistência do
conteúdo do livro apóia-se no comprometimento de Josué e o povo com a Torá
de Moisés”. É sob “Josué, fiel a Javé”, que a terra é conquistada e
dividida. No centro, Josué; o objetivo, a conquista e a divisão da terra; a
condição, a fidelidade à Torá de Moisés, reflexo da fidelidade a Yahweh.
A
segunda conclusão a que chego é a de que, ao lado dessa primeira condição para a conquista e propriedade da terra,
apresenta-se outra: a monolatria. Isso depreendo da afirmação, a meu ver
clara, do próprio Herbert Niehr: “o apêndice dos caps. 23-24 volta mais uma
vez a atenção para a relação de Israel com Deus. Agora não está no
primeiro plano a Tora, e sim a alternativa: servir a Javé ou aos deuses da
terra” (p. 171).
Essa
justaposição condicional “lei” – “monolatria” encontra-se, também,
e nessa mesma ordem, no conjunto das “oito visões de Zacarias”: a
“lei”, correspondendo ao “rolo que voava”, objeto da sexta “visão”,
e a “monolatria” correspondendo à expulsão da “deusa (Asherah?) e das
sacerdotisas(-profetisas) da deusa” (as mulheres com asas), como leio a cena
das “mulheres do efa”, objeto da sétima “visão de Zacarias”, que segue
imediatamente a “visão do rolo que voava”.
Ora,
essa descrição do conteúdo do livro de Josué chega mesmo a parecer uma outra
maneira de dizer o mesmo, e com personagens todos homônimos, a mesma história
que vai nas “oito visões de Zacarias”: para que a terra seja restaurada,
Yahweh manda, à frente, Josué, que deve liderar o povo em torno da “lei” e
do “serviço exclusivo a Yahweh”. O que venta lá em Josué,
com Josué, Yahweh e o povo, também venta cá em Zacarias, com Josué, Yahweh e
o povo...
Naturalmente
que tudo pode não passar de apenas uma grande e extraordinária “coincidência”,
alguma coisa como se o passado se repetisse... O mesmo passado, o mesmo povo, o
mesmo herói, a mesma divindade (aliás, dito melhor, as mesmas divindades)...
Eu, contudo, não apostaria nisso. Na verdade, não aposto. Nem Herbert Niehr,
eu acho, ainda que não esteja certo de ele vir as coisas como eu vejo. Estou
certo, contudo, de que ele não considera razoável a hipótese do “eterno
retorno”, porque, para ele, Josué
consiste numa “narrativa fictícia
(grifo meu) da conquista da terra sob o sucessor de Moisés” (p. 175). Se é
fictícia, não aconteceu. Não nos termos em que a “história” é
contada...
[Numa publicação de 1900,
J. M. Robertson afirma o seguinte: “That Joshua is a purely mythical personage
- was long ago decided by the historical criticism of the school of Colenso and
Kuenen; that he was originally a solar deity can be established at least as
satisfactorily as the solar character of Moses” (Robertson,
J. M. Christianity and Mythology.
London: Watts,
1900)]..
Herbert
Niehr leva em conta que uma tal narrativa fictícia tenha sido forjada para
responder à pergunta pela relação entre Judá e Israel com a terra, depois
da catástrofe de 586 (cf. p. 175). O objetivo da “resposta” teria sido,
então, afirmar que “a terra é uma terra dada por Javé. A conseqüência de
que Israel se afastou de Javé, voltando-se para outras deusas
(grifo meu) e outros deuses, é a perda da terra. Foi isso que se cumpriu em
586”
(p. 175). Josué teria, então, uma
função didático-teológica, mais do que programático-ideológica. Em todo
caso, uma ficcção...
[com efeito, desde pelo menos 1969, Lothar Perlitt já teria antecipado a
afirmação de que, assim como Gn 15 e a perícope do Sinai, também Js 24
deveria ser considerado uma narrativa tardia (cf. PURY, O Pentateuco em questão,
p. 54)].
Não
tenho qualquer problema a priori com a
explicação de Herbert Niehr. Já passou do tempo de considerarmos como
imprescindível ao “valor” ético dessas narrativas todas da tradição
judaico-cristã, e mesmo e particularmente da “bíblica”, a historicidade
literal de suas histórias/estórias. Muito menos ainda o valor teológico que
sustentam, uma vez que teologia em absoluto nada tem a ver com metafísica ou
verdade, mas com cultura e história. São homens e mulheres que fazem teologia!
Desde Kant, Schopenhauer e o Romantismo, malgrado Barth e sua(s) escolas (neo)-ortodoxas
no século XX, que aprendemos um (novo) jeito de lidar com (essa) literatura
sagrada. Por outro lado, não basta apenas saltar da história para a ficção,
como se o carimbo classificatório “ficção” resolvesse (todas) as coisas.
Sim, é insuficiente o expediente classificatório, porque a ficção, mesmo e
justamente por ser ficção permanece
História: a Natureza não mente nem inventa. O Universo não mente, nem inventa
(não no sentido com que aqui uso a palavra “invenção”). Os homens
inventam! Se alguém “inventou” essa história, essa “invenção” é
histórica, e, logo, deve merecer explicação e fundamentação histórica...
Talvez a explicação de Herbert Niehr seja, afinal, tudo quanto de que se
precise para realmente dar conta das coisas tal qual elas se deram: alguém
pergunta (o povo, o leigo, o pobre), alguém responde (o sábio, o sacerdote, o
“poder”).. Mas há uma questão que não pode ser deixada de lado, e que
denuncia uma vocação mais política do que didática
de Josué: a “coincidência” das
duas “histórias”. Dois Josués, o “Josué” da conquista e o “Josué”
da restauração; colocados os dois no marco inaugural da “posse” da terra
(“conquista” x “restauração”); empenhados os dois em impor a “lei”
como condição, ao lado da “monolatria”, da posse e propriedade da terra;
servos os dois, fidelíssimos, de Yahweh. Um diz: “quanto a mim e à minha
casa, serviremos a Yahweh” (Js 24,15b); ao outro se diz: “se andares pelos
meus caminhos e guardares os meus preceitos, então tu governarás a minha
casa” (Zc 3,7b). Coincidência demais, eu acho...
Considero
plausível, e uma “saída” mais consistente, desconsiderar qualquer
possibilidade de “coincidência”, e tomar os pontos de identificação entre
as duas composições como proposital.
Bastaria tomar a situação descrita nas “oito visões de Zacarias”;
observar o enfrentamento entre o sumo sacerdote Josué e seu(s) adversário(s);
analisar sua polêmica “monolátrica” com o povo “da terra”; interpretar
o “rolo que voava” como a introdução de um novo sistema jurídico (político-teológico
e legislativo) com base na “lei escrita”; considerar a possibilidade da
expulsão da deusa e de seu aparelho litúrgico; e, então, partindo da
necessidade política de legitimação desse personagem, Josué, sumo sacerdote
do templo de Jerusalém em pleno final do século VI, sem prejuízo de outras
legitimações mais concretas (militares, por exemplo), ler Josué
como ficção, sim, mas como ficção mítico-literária,
não religiosamente didática, mas político-religiosamente legitimador. Josué
não diz: foi assim; diz: será assim. Numa narrativa mítico-literária, a função
do “foi assim” da ficção é garantir o “será assim” da coação...
Herbert
Niehr ainda me deixa mais abismado com o fato de ter percebido uma outra
“coincidência” formidável entre as duas “histórias”. Prescinde-se da
monarquia! “Ademais evidencia-se no personagem Josué que não há necessidade
de um reinado para que se possa reaver a terra, e sim um servo de Javé
comprometido com a Torá” (p. 175). Essa “coincidência” é o fato de que,
seja o Josué de Josué, seja o Josué
de Zacarias, seja na ficção da conquista, seja na forma como imaginamos ter se dado a
restauração judaica, em ambos os casos tudo se dá sem a presença do rei. Em termos histórico-sociais, implica dizer
que a monarquia não está presente no horizonte de produção da narrativa.
Bem,
a situação é a mesma nas composições, mas não é a mesma se a ficção é
engendrada no exílio, mais cedo, ou no pós-exílio, mais tarde. Desde a
“queda” de Jerusalém, 586/7 a.C., não se tem mais “monarquia”
em Judá. Na
terra, povoada sim senhor durante o “exílio”, tudo indica que o modelo político
deva ser encarado na forma de instâncias descentralizadas de decisão: não
sobreviveram instituições “centrais”, ainda que seja difícil imaginar que
não tenham sobrevivido e, em todo caso, sido desenvolvidos sistemas
circunstanciais de governo.
O
que restou da monarquia, a dinastia real precisamente, foi deportada. O
finalzinho de 2 Re (25,27-30) parece deixar transparecer uma certa animação em
torno da esperança dinástica; se essa redação é exílica, seria justificável
uma contabilização futura da presença da dinastia em qualquer projeto de
restauração de Judá. Impossível que no meio dessa “animação” uma
“legitimação” e difícil que uma ficção sejam forjadas, deixando a fonte
da animação de lado. Se há esperanças para a dinastia, como inventar um
modelo exemplar de liderança que não o considere? Se Josué
é apenas ficção, mas ficção didática,
como o quer Herbert Niehr, deveríamos esperar para sua gestação não o
momento da animação com a possível restauração da dinastia, se a ausência
proposital da monarquia no “modelo”, denunciada, tem fundamento. A ficção
deveria então o quê? Ser gestada num período anterior? Não, porque o
“acidente” de 586/7 é a razão dada por Herbert Niehr para a pergunta pela
relação de Judá e Israel com a terra. Resta, portanto, considerar apenas o
ambiente pós-exílico...
Com
efeito, o conjunto das “oito visões de Zacarias” menciona a figura dos
“dois ungidos” diante de Yahweh (Zc
4, a
“quinta visão” e as “três palavras sobre Zorobabel”), o que tem sido
relacionado ao sumo sacerdote de um lado, e ao rei, de outro (BALDWIN, p. 95),
sendo que a Pérsia muito provavelmente não teria gostado dessa combinação, o
que, por sua vez, explicaria o sumiço de Zorobabel de cena...
Se
a saída de cena de Zorobabel deve ser entendida como o “não” persa para
qualquer prerrogativa da dinastia real a voltar ao poder (cf. GALLAZZI, p. 46s)
[o que parece provável], e se esse “não” se fez ouvir logo desde muito
cedo (o que seria “natural”, se a hipótese anterior for considerada), e
ainda se o conjunto das “oito visões de Zacarias” é de fato um projeto político
em forma de visão profética, torna-se não só natural, mas necessário
inferir que aquela “animação” presente no final da redação de 2 Re
esteja mais uma vez presente (se não for mesmo a mesma!), já que, em Zacarias,
mais do que “animação monárquica”, menciona-se o nome do suposto herdeiro
do trono, Zorobabel. De todo modo,
frustração, animação debalde. Pegamos Zacarias
em plena frustração profética! A rigor, frustração política...
Não
é o caso de Josué, cuja história se
dá naturalmente como desenrolada no
período pré-monárquico. Se Josué
é ficção, e ficção conscientemente relacionada à idealização de um
“modelo” de liderança para a “nova conquista”, parece ser necessário
admitir que a ficção “sabe” da derrocada de toda esperança dinástica...
Caso contrário, que impediria uma ficção davídica, por exemplo? Ficção por
ficção, um bom monarca de Judá se portaria perfeitamente bem como modelo...
Pense-se,
contudo, em Josué como legitimação
mítico-literária de Josué, e
precisamente depois de esclarecidas todas as condições persas, de resto, históricas,
para a consumação do projeto de poder hierocrático: o monarquia está fora!
Josué sabe disso, e tanto, que Josué
assume isso. Caberia aqui, penso que perfeitamente, mais ainda do que em seu próprio
contexto, a afirmação de Herbert Niehr, que tomo emprestada: “não há
necessidade de um reinado para que se possa reaver a terra, e sim um servo de
Javé comprometido com a Torá” (p. 175). Isso é exigido de Josué, o sumo
sacerdote (Zc 3,1ss), que, na pessoa agora do personagem mítico-literário Josué,
responde “sim”.
Essa
nova questão faz com que seja necessário, para a adequação das duas histórias,
considerar que seja mais legítimo pensar numa redação pós-exílica para Josué,
e, ainda assim, posterior à definição do destino da dinastia no projeto
hierocrático judaico. Herbert Niehr me autoriza a tanto, como se viu. Essa
operação recoloca a questão do caráter ficcional de Josué
em novos termos, mais histórico-socialmente convenientes, me parece: não se
trata de “coincidência” de histórias (eterno retorno), nem de uma simples
ficção histórico-literário-teológica com base em ideologia religiosa que,
em todo caso, funciona igualmente, senão melhor, na solução que proponho; Josué
consistiria, em algum nível de sua redação (que deve ser identificado) na
retroprojeção mítico-literária, logo, político-religiosa e ideologicamente
determinada, programada, formulada, controlada, nas, para as e pelas circunstâncias
histórico-sociais que circunscrevem a restauração de Judá sob Josué, sumo
sacerdote advindo da e com a golah,
nos termos do programa político-religioso hierocrático importado da e
patrocinado pela Pérsia.
Seja
como for, mais uma vez, se Josué, o
livro e o personagem, forem considerados, como proponho, funções ideológicas,
político-religiosas, mítico-literárias, para a legitimação de Josué, o
sumo sacerdote hierosolimitano do finalzinho do século VI, e de todo o programa
pérsico-judaico de restauração de Judá como cabeça-de-ponte no corredor
siropalestinense, é até possível imaginá-lo, de pé, todo o povo diante
dele, como que diante daquele grande general de Yahweh, por meio de quem Yahweh
dá a terra... E doravante, toda a vez que a leitura pública de Josué fosse feita, o povo saberia exatamente de quem se tratava, e,
melhor ainda, do que se tratava...
Referências Bibliográficas
BALDWIN, E. C. Haggai,
Zechariah, Malachi - a introduction and commentary. s/l: Intervarsity Press,
1975. 253 p.
GALLAZZI, S. A
Teocracia Sadocita. Sua História e Ideologia. Macapá: Sandro Gallazzi,
2002. 274 p.
RIBEIRO,
Osvaldo Luiz. As
mulheres do efa. Epílogo da interdição da deusa e do feminino na Judá pós-exílica.
www.ouviroevento.pro.br.
2005.
RIBEIRO,
Osvaldo Luiz. Encenação
Histórico-teológica e Visão Profética. Fundamentação Hermenêutica da História
nas Oito Visões de Zacarias. www.ouviroevento.pro.br.
2003.
RIBEIRO,
Osvaldo Luiz. Narrativas de Funcionalidade Mítico-literária – proposta teórico-metodológica
para classificação e leitura de textos do Antigo Testamento. www.ouviroevento.pro.br.
2005
.
ZENGER,
Erich e outros. Introdução ao Antigo
Testamento. Trad. Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2003. 557
p.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –