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Os
seis versículos
–
sobre a estrutura e o sentido de Jó
Osvaldo
Luiz Ribeiro
19/09/2007
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Bem
e mal são um só
Heráclito
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Resumo
A
partir da tradução de Jó 42,1-6, de Jack Miles, o ensaio postula a hipótese
de: a) uma origem compósita para o Livro
de Jó, b) segundo a qual um “Núcleo Poético”, crítico, (Jó
3,1-42,6*) teria sido elaborado antes dos textos que, agora, constituem o “Prólogo”
(Jó 1-2*) e o “Epílogo” (42,7-17*) de Jó,
constituindo-se a sua crítica na recusa de todas as respostas, humanas e,
inclusive, as divinas, apresentadas plasticamente ao problema do sofrimento, e
consubstanciada, irônica e sarcasticamente, na última declaração de Jó, em
42,6: “agora que meus olhos o viram, estremeço de pena pelo
barro mortal”. Em função dessa obra questionadora e desafiadora da ortodoxia, c) e
com o objetivo de recalcar seu potencial crítico, redigem-se um Prólogo e um
Epílogo, conservadores ambos, que, circunscrevendo-se em torno do Núcleo Poético
original, encravam-lhe estacas e amarras próprias da teologia retributiva.
Nasce, aí, os Jós da tradição – o Livro
de Jó, conservador, e Jó, o paciente e fidelíssimo sofredor. O primeiro,
poético, trágico e crítico, enterrou-se sob os escombros “canônicos”.
Morreu de dor.
Introdução
No
campo da Introdução ao Livro de Jó,
reconhece-se uma estrutura “maior” do livro em três partes. Um Prólogo, os
capítulos 1 e 2. Uma Seção de Diálogos, correspondente ao grosso do livro:
3,1-42,6. E um Epílogo, representado por 42,7-17.
Não
é uma tarefa difícil – pelo contrário – identificar uma tal estrutura 1-2
/ 3,1-42,6 / 42,7-17. O Prólogo e o Epílogo foram escritos em prosa. O “núcleo”
– a absoluta maior parte do livro –, em “poesia”. Dessa forma, o Prólogo
e o Epílogo formam uma “moldura” em prosa, em torno do núcleo poético.

Sempre
no campo da Introdução, deve-se decidir, metodologicamente, se essa composição
atual de Jó é original, isto é, o Livro
de Jó foi escrito por uma só pessoa, já sob essa estrutura concêntrica
prosa – poesia – prosa, ou, ao contrário, essa estrutura em “cebola”
testemunha o fato de, a uma seção original, terem sido acrescentadas novas seções?
Na primeira hipótese, Jó seria uma
obra unitária. Na segunda, uma obra compósita.
Para
uma leitura despreocupada, aparentemente não faz diferença, uma vez que o
leitor está interessado na “história” da personagem central, Jó, bem como
na trama consignada na narrativa como um todo. Chama-se “sincrônica” a esse
tipo de aproximação e leitura a uma obra, particularmente em se tratando de
livros da Bíblia. Para um outro tipo de preocupação, contudo, dita “diacrônica”,
ah, sim, faz diferença, e muita. A leitura diacrônica está interessada em
saber como surgiu determinado livro, por que partes dele, e como as então novas
partes, e quando, foram sendo acrescentadas. Não é sem importância a preocupação,
porque, para um leitor “diacrônico”, o sentido de cada parte pode ser
melhor esclarecido pelo contexto original. Nesse caso, se cada pedaço do livro
teria surgido em diferentes épocas, obrigar-se-ia o leitor a reconstruir cada
época dessas, devolver-lhe a seção própria, e, assim, compreendê-la dentro
de sua respectiva situação de origem. Uma leitura em ambiente acadêmico
obriga-se a uma preocupação dessa natureza. E, ainda que se decida, nesse
ambiente, pelo formato final – a leitura dita “canônica” – deve-se,
ainda assim, saber por que meios – acréscimos, supressões, desvios, sublimações,
recalques – a “nova” leitura, chamada, agora, canônica, veio a ser,
porque isso que eventualmente ela se tenha tornado, tornou-se à custa da
descontextualização dos respectivos sentidos histórico-sociais anteriores,
pertinentes, então, a cada seção mais antiga. Insisto – uma leitura
despreocupada sente-se bem, sem atentar para essas questões de Introdução.
Uma leitura preocupada – logo, crítica –, não. Coisas de leitores e
leitoras e de leituras.
Jó
– obra unitária ou obra compósita?
A
questão que se impõe, portanto, é: como decidir se o Livro
de Jó é uma obra unitária ou compósita?
Bem,
a rigor seguem-se dois caminhos: a) analisando internamente
as “evidências”, e b) buscando “evidências” externas
em relação ao livro.
Constitui
“evidência externa” o fato de que “de uma série de textos paralelos do
antigo Oriente se depreende que o livro de Jó
não trata de um tema genuinamente israelita”.
Mencionam-se vários desses “textos paralelos”. 1 – Homem e Deus, ou Jó Sumério,
datado de cerca de 2.000 a.C. 2 – Ludlul
bel nemeqi (“Eu enaltecerei o senhor da sabedoria”), mais conhecido como
Jó Babilônico, datado de cerca do século
XII a.C. 3 – O Diálogo de um Sofredor
com seu Amigo Religioso, também conhecido por outros dois nomes: Teodicéia
Babilônica e Qohelet Babilônico,
datado entre os anos 1.000 e 800 a.C. 4 – vários excertos da literatura egípcia,
caracterizados como “controvérsia sapiencial”: O
Lamento do Agricultor, O Diálogo da
Pessoa Cansada da Vida com sua Alma e as Palavras
de Exortação de Ipu-Ver, por exemplo, datados do fim do terceiro milênio.
5 – na literatura grega, Prometeu, Os Persas (de Ésquilo), bem como dramas de Eurípedes, todos
datados entre os séculos VI e V.
Por
meio dessa literatura paralela a Jó,
conclui-se que o tema do “justo sofredor” era bastante comum e corrente no
Antigo Oriente Próximo. Talvez até, é possível, o autor, ou os autores, de Jó
houvessem se servido de tais tradições, para sua própria composição.
A
rigor, contudo, o fato de existirem tais fontes, bem como de ser muito provável
que o autor ou os autores de Jó
tenham-se servido delas, não significa que, necessariamente, o livro tenha sido
composto de uma só vez, ou em diferentes momentos. Não se pode, por meio de
tais literaturas, reconstruir o percurso da composição de Jó. Tão só afiançar, com alto grau de probabilidade histórica,
que Jó faz parte de uma longa e comum
tradição cultural do entorno oriental do Mediterrâneo, uma tradição que se
pode recuperar por um período tão longo quanto quase mil anos – se não
mais.
Restam
as evidências internas. Por meio delas, Ludger Schwienhorst-Schönberger
defende a hipótese de que Jó seja
compósito: “o cerne mais antigo está no substrato básico da narrativa da
moldura (1-2; 42,7-17)”.
A partir daí, ter-se-ia dado uma “primeira ampliação volumosa”, que
responderia pelo acréscimo “da seção de diálogos (3-27; 29-31;
38-42-6)”. Somente mais tarde ter-se-ia acrescentado a seção correspondente
aos “discursos de Elihu”.
Argumenta-se a favor da explicação para a origem em separado das molduras e da
seção de diálogos por meio dos seguintes argumentos: a) tensões estilísticas,
b) tensões sócio-históricas, c) tensões teológicas.
Por sua vez, o comentarista não está tão certo quanto à exclusão dos
“discursos de Elihu” do bloco poético principal. É mesmo impossível
determinar com “certeza”.
Mesmo
no que diz respeito à relação entre as molduras e a seção interna, poética,
Ludger Schwienhorst-Schönberger reconhece que há outras possibilidades de
explicação. Poderia ter havido etapas de elaboração mesmo já nas molduras,
com as cenas celestes sendo consideradas secundárias. Além disso, haveria razões
para a defesa da hipótese de que o processo de elaboração do núcleo poético
tenha sido muito mais quebrado do que o autor propunha.
Como
eu disse, o leitor despreocupado encontrará nessas imprecisões e indecisões
razões que julgará mais do que justas para desligar-se das questões introdutórias
ao livro, e, simplesmente, “fruir” de sua história. É legítima a decisão,
em se tratando a leitura sincrônica de uma empreitada ou estético-literária,
ou estético-devocional ou político-dogmática. O atormentado do leitor diacrônico,
contudo, não pode, em nenhuma hipótese, abandonar o trabalho – ainda que ele
se configure difícil, muito, muito difícil. É, mal comparando, se, precisando
diagnosticar determinada patologia, a fim de tentar a cura de um paciente seu,
dada, contudo, a sua grande dificuldade profissional, uma vez que os sintomas
que ele observa podem ser explicados por meio de diferentes hipóteses, cada
qual se fazendo acompanhar de inúmeros argumentos “válidos”, o médico
simplesmente desse de ombros e resolvesse levar o doente ao parque de diversões.
Vai ver ele se cura por si só, e, caso contrário, ao menos morrerá se
divertindo.
Não,
o leitor crítico-diacrônico ver-se-á obrigado a testar tantas quantas forem
as hipóteses, e, decidindo-se, sempre provisoriamente, por uma delas, restará
a ele “ler” sob essa hipótese, sob essa incógnita – como se fizesse álgebra.
Os
seis versículos
Tradição
e tradução – tradução e tradição
A
meu ver, há um ponto que seria decisivo para a determinação do caráter unitário
ou compósito de Jó. Mesmo ele,
entretanto, é controverso. Trata-se da tradução de Jó 42,1-6. A rigor, do v.
6, mas a tradução desse verso depende – e muito – da tradução e do
sentido dos versos 1-5.
Conhece-se
razoavelmente bem a história de Jó, a personagem. Homem bom e justo, um miserável
de um adversário celeste da divindade acaba dando ocasião para que Yahweh o
chegue a “provar”, entregando-o, exceto sua vida, nas mãos do canalha. Jó
vai comer, quase que literalmente, o pão que o diabo amassou. Esse, o Prólogo.
Seguem-se, a partir daí, tomado Jó que estará de pústulas e chagas, lamúrias
e imprecações, que Jó lançará contra Yahweh. Nada, absolutamente nada, aí,
justifica aquela imagem bovina de um Jó que sofre, sofre, e ainda espera um
pouquinho mais de sofrimento. Jó, aí, esperneia.
Essa
longa lamúria é interrompida pela intervenção direta de Yahweh. A divindade
aparece-lhe, e fala com ele. Depois de ouvir o que a própria divindade tem a
dizer, diz a tradição, Jó arrepende-se profundamente, porque reconhece que
falou não apenas demais, mas, principalmente, do que lhe escapava à compreensão,
barro mortal que é.
Em
decorrência do fato da contrição, da confissão e do arrependimento de Jó,
agora já no Epílogo, Yahweh não apenas recrimina seus amigos, como o
recompensa com muito mais do que ele havia possuído antes da “peleja” entre
a divindade e seu adversário.
Essa
leitura “sincrônica” do arrependimento de Jó corresponde, em suas linhas
gerais, às diversas traduções de Jó 42,6 nas Bíblias disponíveis. Cito
algumas delas.
-
“Também,
por isso, tenho horror de mim e retrato-me, no pó e na cinza” (TEB, Loyola);
Também
uma tradução de caráter exegético acompanha as traduções acima: “Por
isso eu me abomino e sofro no pó e na cinza”.
Segundo
esse caminho, há uma perfeita adequação entre o Prólogo, o Núcleo Poético
e o Epílogo. Yahweh aposta em Jó, Jó é provado, Jó vence a provação –
ainda que por meio de contrição e arrependimento – e, finalmente, Jó é
“recompensado”. Se o mal não é “explicado” positivamente, ao menos
sai-se do livro com a certeza de que, apesar
dele, Yahweh está sobre tudo e todos – Criador poderoso e excelso que é.
Pode
ser. Não é, contudo, o que pensa Jack Miles.
“Agora,
sim, estamos fritos”
Jack
Miles escreveu um “romance” – Deus,
uma biografia
–, e assim o apresenta: “quero situar na literatura o meu assunto.
Escreverei aqui sobre a vida do Senhor Deus como o protagonista – e apenas
isso – de um clássico da literatura mundial”.
Deus – uma biografia não constitui,
logo, uma obra de caráter “religioso”. O recorte é a Bíblia Hebraica, mas
apenas em sua dimensão literária. Sequer é “teológica” a obra, uma vez
que “Deus” será tratado apenas como personagem do “romance”. Não se
trata de “história”, porque Jack Miles sabe que está “inventando” uma
obra que, jamais, existiu como “intenção” histórica, existindo
artificialmente na forma de cânon – e cânon judaico.
Em
seu romance literário, Jack Miles vai seguindo a ordem dos livros dados pela Bíblia
Hebraica. Em cada um deles, toma “Deus” como a mesma personagem, em uma
mesma “história” – a sua. E vai escrevendo não como “crente”, “teólogo”
ou “historiador”, mas como romancista.
Pelo
menos até que chega a Jó. Aí, ele pára.
E adverte que “devemos abandonar (pela primeira e única vez) o método
adotado neste livro”.
Que método? De ir narrando a história de Deus, literariamente, sem muita
preocupação com versos específicos. Jack Miles sabe que não está escrevendo
“um verdadeiro comentário da Bíblia”,
e, por isso, não se dá ao cuidado “exegético” a que deveria se dar, caso
escrevesse um comentário. Mas, agora, diante de Jó, Jack Miles sente-se obrigado a “tratar” melhor o texto.
Vai parar, e, ele mesmo, traduzir. Que textos? Os seis versículos – Jó
42,1-6.
Jack
Miles não está convencido de que Jó “entrega as pontas”. Ao contrário,
ele aposta numa resposta irônica de Jó. Seja-me permitida uma citação longa:
A
importância central da resposta de Jó ao Senhor determina que se faça uma
exceção a esse procedimento. O discurso e duas partes do Senhor a Jó é seu
testamento, suas últimas palavras. Ele não tornará a falar no Tanach;
entretanto, o sentido desse discurso dependerá inteiramente da maneira como Jó
irá recebê-lo. Infelizmente, uma tradição de interpretação baseada numa
silenciosa correção do texto hebraico (...) conseguiu transformar em
arrependimento uma resposta que deveria ser ouvida corretamente como ironia
respondendo a sarcasmo. Essa tradição transformou um empate retórico entre o
Senhor e Jó numa desequilibrada vitória do Senhor. Mas, uma vez que a vitória
lhe vem no pior momento, quando o Senhor é parceiro do jogo do diabo, a vitória
transforma-se numa paradoxal derrota do Senhor, e as intenções piedosas dos
intérpretes acabam em blasfêmia.
Deixo
a acusação de “blasfêmia” que Jack Miles lança aos pés dos
“piedosos” intérpretes – isso é com eles – e me atenho à declaração
exegética com que ele a sustenta. Originalmente, a resposta de Jó teria sido
irônica e sarcástica.
Tal ironia e sarcasmo seria exegeticamente recuperável (“uma leitura
cuidadosa pode restaurar a ironia original”),
apesar de uma bem sedimentada tradição de leitura ter “transformado” a
ironia em rendição. Mas e quanto a Jack Miles, ele a restaura? “Não sem uma
discussão de detalhes lingüísticos às vezes tediosos”.
Resumirei
muito brevemente, sem apresentar todos os argumentos que Jack Miles apresenta, a
tese que seu “comentário” defende. Onde as traduções correntes lêem
“tenho horror de mim”, “me retrato” ou “retrato-me”, e “me
abomino”, Jack Miles afirma constar o verbo ´em´as, e, de fato, é o que consta da Biblia Hebraica Stuttgartensia, o texto hebraico standard
utilizado pela “academia” internacional. Uma vez que meu objetivo nesse
ensaio não é analisar a tradução de Jack Miles, mas analisar a questão
introdutória da estrutura de Jó à
luz da sua tradução, reservar-me-ei a, simplesmente, transcrever suas declarações
exegéticas.
E elas dão conta de que o verbo ´em´as não
se faz seguir imediatamente de um complemento, qualquer que seja, de modo que os
complementos “de mim” e “me” das traduções que citei “são
acrescentados da cabeça do tradutor”
– não existem no texto hebraico, e foram pressupostos pelos respectivos
tradutores. Jack Miles aposta que tal tradição derive da LXX, cujo tradutor
acrescentou literalmente o complemento, cuja força ter-se-ia migrado para a
tradição de leitura de Jó.
Jack Miles, contudo, defende a seguinte hipótese. Esse
verbo e o seguinte (´em´as
wüniHamTî), formariam uma hendíade – “uma ação única
expressa através de dois verbos”.
Argumenta que a divisão do texto hebraico da BHS reconhece a unidade dos dois
verbos, separados do final do verso. De fato, eis a configuração da BHS,
inclusive com os “acentos” massoréticos:
|
`al-Kën
´em´as wüniHamTî
|
yTim.x;_nIw>
sa;äm.a, !Keâ-l[;
|
42,6a
|
|
`al-`äpär
wä´ëper
|
rp,ae(w"
rp"ï['-l[;
|
42,6b
|
Jack Miles observa bem, e, nesse caso, os organizadores do
texto hebraico da BHS reconhecem a relação sintática entre os dois verbos de
42,6a.
Há mais. A expressão `äpär
wä´ëper de 42,6b deveria ser lida como
a mesma expressão, agora em Gn 18,27. Mais uma vez, de fato, pode-se ver em Gn
18,27: wü´änökî
`äpär wä´ëper, que Jack Miles traduz “eu que sou pó e cinza”,
afirmando que, aí, ela se refere a uma “pessoa” – “eu (Abraão, que
fala com Yahweh) que sou pó e cinza”. Uma tal expressão significaria: “eu
que sou barro mortal”.
Essa expressão de 42,6b deveria, então, afirma Jack
Miles, ser tratada como complemento de toda a hendíade de 42,6a, e ser assim
“compreendido” o v. 6: “sou levado à compaixão pelo barro mortal”.
É curioso, e muito, ilustrando com muita propriedade, e indiretamente, as
considerações de Jack Miles, que Samuel Terrien tenha conhecimento de tais
questões exegéticas. Em seu Jó,
Terrien sabe, por exemplo, “que a idéia não é a do arrependimento, o terminus
tecnicus do pensamento profético, judaico e cristão”,
e que “o termo niHamTî, no nifal, significa ‘sinto dor’ ou compaixão’ (Jz
21,6; Sl 90,13; 106,45; Jr 20,16; Jl 2,14; Zc 8,12), donde um sentido derivado:
‘eu mudo de atitude’ (...). A significação do termo é muito diferente da
do verbo (...) arrepender-se”.
Mas não lhe serve para quebrar a leitura tradicional:
“a resposta do herói não é (...) negativa, como na resposta ao primeiro
discurso de Yahweh (40,5-6). Ele está salvo de sua angústia, porque não está
mais alienado de Deus”.
E “salvo”, contudo, de quê? Ele compreendera, diz Terrien, que “seu crime
é uma acusação titânica dirigida à divindade”.
Talvez se pudesse esperar de Georg Fohrer – serei
exigente demais, mesmo com Fohrer, que, aposentando-se da cátedra, na Alemanha,
migrou com família e tudo para Israel?
– uma postura diferente. Afinal, ele descreve um Jó que “percebe o absurdo
de toda resposta aparentemente sábia ao enigma da existência e da dor”.
Esse mesmo Jó, contudo, “deixou de lado todas as suas necessidades e os seus
sofrimentos, certo de que Deus tem a resposta para todos os problemas. E mais:
encontrou a solução precisamente na consagração incondicional e na plena
comunhão com Deus”.
Vai ver é porque “Jó supera o esquema da sabedoria antiga. No lugar da
confiança em uma lei inerente ao mundo, segundo a qual o bem devia trazer
felicidade e toda infelicidade seria conseqüência de uma culpa, entra a fé na
insondável mas infalível fidelidade, bondade e justiça do Deus pessoal”.
Quem sabe?
Jack Miles, contudo, não concordará com absolutamente
nada disso. Após seus argumentos exegéticos, assim traduzirá Jack Miles os
seis versículos:
Então,
Jó respondeu ao Senhor:
“Sabes
que tudo podes.
Nada
o pode deter.
Perguntas:
‘Quem é esse desordeiro ignorante?’.
Bem,
falei mais do que sabia, maravilhas além de meu alcance.
‘Tu
ouves, eu falarei’, dizes,
‘eu
perguntarei e tu responderás’.
Ouvira
falar de ti,
Mas
agora que meus olhos o viram,
Estremeço
de pena pelo barro mortal.”
Segundo Jack Miles, toda a resposta – todos os seis versículos
– é irônica e sarcástica. E conclui-se com uma afronta direta, um juízo
teológico pesado, severo. Jó conhecia Yahweh de ouvir falar – e, porque só
o conhecia de ouvir falar, atreveu-se a levantar a voz, enquanto sofria,
enquanto, sofrendo, tinha, ainda, de ouvir as justificativas “teológicas”
de seus “amigos”. Ah, mas Jó apenas conhecia Yahweh de ouvido. Mas agora, não.
Agora ele o conhece – e não pelo sofrimento, mas por conta da “resposta”
que recebeu, diretamente, dele. E, justamente porque recebeu a resposta que
recebeu – “eu sou o Criador, você, criatura, então, coloque-se no seu
lugar, e reconhece que eu sei o que faço –, Jó, então, declara o que
declara: “pobres dos homens”. Se Yahweh é esse Yahweh que fala a Jó, Jó só
podia arrepiar-se. E, acuado, impotente, pó e cinza ao vento, serve-se da arma
própria dessas circunstâncias – a ironia, o sarcasmo, o escárnio. Não é
efetivamente uma “vingança”, mas a mente acaba convencendo-se de que
vingou-se de seu algoz.
Ironia
e sarcasmo na estrutura de Jó
Admitir a leitura de Jack Miles, admitir que Jó, em sua
última fala, no núcleo poético, expressa-se contra
a resposta de Yahweh, é admitir que há uma ruptura teológica intransponível
entre o Prólogo e o Epílogo, de um lado, e o Núcleo Poético, de outro. Sim,
porque o Prólogo e o Epílogo pressupõem que Jó rendeu-se, que Yahweh ganhou,
e, tendo ganho de Jó, recompensa-o, e estão certas e liquidadas as
“contas” – teologia da retribuição, no frigir dos ovos, ou, o que dá no
mesmo, para se fazerem omeletes, há que se quebrar alguns ovos. Mas a galinha
sempre há de pô-los mais. Não é a mesma coisa, para um ocidental do século
XXI d.C., receber “novos” filhos de Deus, depois de Deus ter autorizado a
morte dos filhos “velhos”. Na contabilidade moderna, um “novo” filho não
paga a vida de um “velho” filho. Na cultura judaica mais antiga, contudo,
mulher e filhos são propriedade do “senhor”, senhor meu marido, senhor meu pai, e
faz todo sentido que a recompensa, afinal, venha, também, na forma de
“novos” filhos, porque, o que importa, afinal, é que o varão encha deles a
sua aljava.
A moldura, portanto, independente de sua constituição
unitária ou compósita, isto é, independentemente de o Prólogo e o Epílogo
terem sido escritos de uma vez, ou por meio de várias etapas, não faz diferença,
sua teologia é conservadora. Yahweh manda, Jó obedece. Obediente, submisso,
fiel, tem sua meritória e merecida recompensa. O que me leva a ver insinuada aí
uma teologia sacerdotal, melhor do que uma “sabedoria” – salvo se, aí,
Templo e Sabedoria confabulam. Seja como for, a moldura prega uma homilética de
retribuição, recheada com repercussões insinuantes de prosperidade: o fiel,
se fiel, e quando fiel, não importando o preço que pague pela fidelidade,
chega uma hora em que ele é, finalmente, certamente, recompensado, e em que,
por isso, prospera. Se, no prólogo, pode-se dizer que Jó, tendo a vida toda
aceitado o “bem” de Yahweh, agora aceitará o “mal”, no Epílogo, depois
de ter aceito – e porque aceitou – o “mal”, agora receberá o “bem”.
Cem por um.
O que fazer com os seis versículos, então?, isto é, na
hipótese de Jack Miles estar certo. Se, por um lado, as molduras são,
indiscutivelmente, conservadoras (teologia da retribuição, certamente, e,
possivelmente, também de prosperidade), por outro lado, o Núcleo Poético, não.
Depois de toda a sua defesa contra os
“amigos”, e, depois de ouvir a resposta “terrível” de Yahweh, Jó
responde com ironia e sarcasmo.
Se
Jó responde assim – “ai de nós, homens mortais, cujo Deus é um déspota
insensível, que estamos mortos” –, sob nenhuma circunstância se poderia
admitir que a intenção do Núcleo Poético
é teologicamente conservadora. Pelo contrário. O que se quer, nesse caso, é
arrasar com todas as respostas “teológicas” para o problema do “mal”,
do “sofrimento”. Num sistema cultural teísta, como o ia se tornando a
cultura judaica, o “sofrimento” do “justo” era uma chaga aberta e pútrida.
O verdadeiro Jó da história é Yahweh, lazarento de chagas – isto é, com a incurável chaga do mal que corrói a vida humana,
indistintamente. Por trás desse Jó revoltado, irônico, debochado, estará um
escritor revoltado, irônico, debochado, recusando-se a engolir as pílulas mágicas
da Doutora Teologia, apresentadas na bandeja da senhorita enfermeira, Dona
Teodicéia.
É possível. Também é possível outra leitura. Advindo
de uma cultura monista – em que Yahweh faz tanto o bem quanto o mal, alguém
está gritando contra a tentativa – finalmente vencedora – de estabelecer
uma ruptura ontológica na divindade israelita, fazendo dela uma divindade
exclusivamente “boa”. Se a divindade é exclusivamente boa, não há como
“explicar” o sofrimento humano, e a questão moral terminará por domesticar
o Criador. Dito e feito – Satanás acabará por transformar-se quase, ah, mas
por muito pouco mesmo – num Deus “mau”, ao lado do Deus “bom”.
Seja como for, a tradução que Jack Miles propõe para Jó
42,1-6 quebra a relação pacífica entre o Núcleo Poético e a moldura. Ela
exige, se for levada em conta, que o Livro
de Jó seja explicado como resultado de um processo compósito. Nesse caso,
uma hipótese incontornável. Se o Núcleo Poético fosse tão conservador
quanto certamente são as duas molduras, todos os argumentos em favor da hipótese
de composição gradual da obra tornam-se, afinal, pouco relevantes. No máximo,
um acúmulo por aluvião. Entretanto, se Jó disse o que Jack Miles disse que
ele disse, então há uma pedra no caminho. Jó
é – nesse caso – necessariamente compósito.
É, afinal, a hipótese de Ludger
Schwienhorst-Schönberger, suja Introdução uso como roteiro para meu ensaio.
Nesse caso, uma vez que ele trabalha com a hipótese “conservadora”, o
processo que ele defende reduz-se a uma sedimentação gradual de detritos da
mesma espécie, do mesmo rio. A “teologia” que se encontraria, então, em Jó,
condiz muito compreensivelmente com o discurso teísta conservador:
Assim,
os discursos de Deus de certa forma livram (redimem) Jó, ainda antes da sua
‘restauração’ explícita, de um antropocentrismo fechado em si próprio.
Desse modo correspondem, de modo previsível-imprevisível, ao seu anseio por
uma resposta do Todo-Poderoso. O movimento aqui desenvolvido pode ser descrito
como uma evolução do antropocentrismo pelo cosmocentrismo até o teocentrismo.
Difícil perdermos o costume da “defesa” de Deus:
“suas perguntas e queixas não são respondidas por terceiros impassíveis,
mas saciadas pelo Deus que misteriosamente está presente na Criação e lhe dá
respostas (42,5)”.
Nesse caso, a “informação” quanto à gradual composição de Jó pode ser tranqüilamente descartada, porque, seja cá, seja acolá,
seja no texto original, seja em cada uma das camadas de redação que sedimentarão
o aluvião teológico, Deus estará invicto.
Se,
contudo, Jack Miles está correto – (“se Deus derrota Jó, Jó deixa de ser
um evento sério na vida de Deus e Deus pode esquecer a arrogância falante de Jó.
Mas, se Jó derrota Deus, Deus não pode esquecer Jó, nem nós tampouco. Tendo
a criatura colaborado a tal ponto na criação do seu criador, os dois ficam,
doravante, permanentemente ligados”)
–, é (digo?) certa a ruptura teológica entre a moldura e o núcleo, ruptura
essa que traduz-se (digo?) necessariamente em composição gradual da
“obra”.
Quem
quer calar quem?
E nem aí, resolveram-se os problemas. Fiquemos com a metáfora
do aluvião e, com ela, também com a hipótese do caráter compósito de Jó. Qual o efeito? Em termos gráficos:
|
Prólogo
|
Núcleo Poético
|
Epílogo
|
|
+
|
+
|
+
|
Em termos históricos, como o quer
Ludger Schwienhorst-Schönberger:
|
Prólogo mais
Epílogo
|
Núcleo Poético
|
|
+
|
+
|
Não faria, entretanto, diferença alguma o inverso:
|
Núcleo Poético
|
Prólogo mais Epílogo
|
|
+
|
+
|
O aluvião – isto é, a sedimentação da obra,
crescendo gradualmente – evidencia-se pelo fato de serem os sedimentos tributários
da mesma “corrente”, o que, no gráfico, ilustra-se pelo sinal ( + ).
Pense-se, contudo, agora, na polarização dos
“estratos” sedimentares. Digamos que o Prólogo e o Epílogo sejam positivos
e, o Núcleo Poético, negativo. Nesse caso temos o quê? Ou
|
Prólogo mais
Epílogo
|
Núcleo Poético
|
|
+
|
–
|
Ou
|
Núcleo Poético
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Prólogo mais Epílogo
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–
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+
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Que, diferentemente da série ( + ) ( + ), a série
polarizada ( + ) ( – ), ou ( – ) ( + ), tem relevância histórico-social
para além da questão mais simples da Introdução ao Livro
de Jó resulta do fato de se depreender que os sinais contrários implicam
em teologias contrárias, o que exigiria uma aproximação menos weberiana ou
durkheimiana e mais marxiana ou detienneiana ao fenômeno histórico-social que
subjaz à série polarizada. Com isso quero salientar menos o fenômeno simbólico-agregador
da “história da redação de Jó”
– “obra de Israel” – e mais seu caráter mais conflitivo, mais
confrontador. Menos “assembléia”, e mais front.
Mais contra menos. Menos contra
mais. Ou seja: quem quer calar quem?
Digamos, por exemplo, que, quanto à hipótese compósita,
Ludger
Schwienhorst-Schönberger esteja duplamente certo – Jó
não apenas é compósito, quanto o Prólogo e o Epílogo são primários,
originais, em relação ao Núcleo Poético secundário e redacional. Dada a hipótese
milesiana de uma ironia sarcástica, a série resultante da hipótese de
Schwienhorst-Schönberger seria ( + ) ( –
). Implicaria em dizer que, tendo por base uma plataforma teológica
conservadora – teologia da retribuição (e da prosperidade [?]) –, um
redator JóR questiona-a.
Mais que isso, enterra-a, bem fundo, numa cova irônica e sarcástica. Nesse
caso, o Núcleo Poético Crítico
(Jack Miles) teria sido composto para ser inserido naquilo que, agora, é sua
“moldura”? Ou se tratava, à época, apenas de uma crítica periférica? Ou,
não, já na sua origem – secundária, contudo, em relação à base prosaica
conservadora – esse Núcleo Poético Crítico
concebera-se para enquadrar-se, enfiando-se entre as suas metades, na base
prosaica conservadora, inutilizando sua teologia clássica retributiva? Questões
a serem decididas, naturalmente. Seja como for, à primeira vista, não me parece muito compreensível que uma longa poesia teologicamente
crítica, revolucionária, contestadora, irônica e sarcástica fosse planejada
para funcionar (de que forma?) como
“núcleo” de uma composição que, ao fim e ao cabo, “culminaria” na
retribuição de Jó, depois de suas lamúrias – nesse caso, pacientes? Salvo
se a própria inserção dessa poesia crítica, aí, fosse, já, puro deboche.
Por outro lado, se,
de fato, a poesia é crítica, irônica e sarcástica, e se,
realmente, estamos diante de um caso de conflito
histórico-social, polarizado sobre um foco político-teológico – político-teológico,
porque a teologia da retribuição (e da prosperidade) são facultadoras de
instrumentalização política da teologia –, então talvez se pudesse pensar
numa hipótese serial que seria justamente o inverso daquela que Ludger
Schwienhorst-Schönberger defende. Em lugar de postular-se uma composição Prólogo
mais Epílogo (originais) e Núcleo Poético [Crítico] (redacional) – ( + ) ( – ) –, pode-se (deve-se?)
postular uma seqüência histórica invertida – a uma base crítica, irônica
e sarcástica, a poesia crítica do Jó
que, tendo “ouvido” o próprio Deus falar, consome-se de compaixão pelos
pobres homens, todos, coitados, na mão de um Deus intempestivo, temperamental e
solipsista – e, sobretudo, Todo-Poderoso, em todos os sentidos –,
acrescentam-se, na forma de moldura, duas peças contra-críticas – pense-se,
por exemplo, em Nicéia, contra Ário,
ou numa Contra Reforma, de Trento, ou
nas reações ditas neo-ortodoxas, mas, a rigor, ortodoxas mesmo, de um Karl
Barth protestante-europeu, um Vaticano I católico, e um Fundamentalismo evangélico-estadonidense,
todos, sem exceção, reagindo ao “liberalismo” teológico, ao
“secularismo”, à emancipação cultural do Ocidente, à perda de sua condição
eidética de plataforma universal da cultura, relegados todos, que foram, a instâncias
culturais, como quaisquer outras dentre as que constituem a civilização
ocidental moderna e secular.
As
peças contra-críticas (o Prólogo e o Epílogo) teriam, assim, a função de
sublimar a crítica, de recalcá-la, de contorná-la, de amarrar um pano à boca
sarcástica de um Jó rebelde, e fazê-lo cordeiro da teologia retributiva.
Bem,
uma vez que pára seu jogo literário
e ensaia um jogo exegético, Jack
Miles recorre a argumentos. Um deles consiste na ambigüidade do texto hebraico
de Jó 42,1-6, particularmente o do v. 6. Que ele mesmo o diga:
De
fato, porém, o versículo não sugere arrependimento a não ser pelo acréscimo
gratuito de um objeto reflexivo. Em outras palavras, só quando um objeto
reflexivo e com ele o arrependimento são acrescentados da cabeça do tradutor
é que eles aparecem na tradução. Sem o acréscimo de um objeto como “a mim
mesmo” ou “minhas palavras” nesse ponto, qualquer sentido de abjuração
desaparece dessa passagem. Basta não suplementar o significado de ´em´as na direção tradicional para permitir que o resto do curto discurso
mergulhe em radical ambigüidade e, portanto, recupere a sua ironia original. Os
tradutores, em geral, têm de procurar eliminar a ambigüidade, mas a ironia
constitui um desafio especial: ela exige a ambigüidade.
Se
tal ambigüidade constitutiva da ironia e, conseqüentemente, do texto, pôde e
pode ser, eventualmente, contornada pelos “tradutores, em geral”, talvez não
tenha sido, afinal, muito difícil que uma cooptação contra-crítica,
atualizada na forma do emolduramento conservador-reacionário do núcleo crítico-político
– político, sim, porque, em qualquer situação, responder a Deus, à altura,
significa responder, à altura, a certa instância que se pretende e se assume
hierocrática –, contornar a mesma ambigüidade constitutiva de Jó 42,6.
Quanto mais se é historicamente procedente a afirmação de que, à época, não
se liam os textos, mas se lhes ouviam. Uma cooptação não apenas do texto, mas
das leituras, institucionalizando-as, e, à moda de Ne 8,4-8, seja um Esdras
traduzindo/lendo, publicamente, e interpretando, publicamente, o “rolo”,
diante da congregação (v. 8), sejam já os levitas, didático-catequeticamente
inculcando o sentido (v. 7),
emprestaria bastante historicidade potencial à hipótese de um emolduramento
conservador programático de um núcleo original crítico.
Difícil saber com certeza, onde não há como erigir
certezas, senão hipóteses – plausíveis, eventualmente históricas, prováveis,
mas, incontornavelmente (assim é a exegese), inverificáveis em termos
absolutos. Nem por isso passíveis de serem contornadas por um desinteresse
metodológico. Oh, sim, aquele leitor teórico-metodologicamente desinteressado
pode passar por cima de tudo isso. Leitores epistemologicamente despertos para a
condição histórico-social dessa literatura secular, não. E, contudo, meterão
a mão na terra, recolherão torrões, e, quando os forem mostrar, à platéia
que os aguarda, eles ter-se-ão esvaído por entre os vãos dos dedos, dust
in the wind. Resta ao aturdido leitor mostrar aos eventualmente
interessados, como ele fez, como agiu, que caminho seguiu, que ferramentas usou,
que hipóteses tangeu, que instrumento vibrou, que teoria erigiu, que visão
teve. Desnudar-se em público, a si, a sua fragilíssima constituição metodológica,
e a sua criação técnico-artística. E já será preciso ser metade esse
leitor para compreendê-lo.
Esvaíram-se, por entre meus dedos, todos os torrões. O
caminho que esbocei, contudo, deixei-o marcado nas pedras, para que outro possa
seguir por ele, e ver se vai dar onde cuidei ter dado. Mais que isso, não me
compete. Nem à exegese.
Não posso afirmar, portanto, com certeza. Mas posso fazer
afirmações como hipóteses. Hipóteses de trabalho, que devem ser, a partir
delas mesmas, ultrapassadas.
Apostaria, então, numa origem compósita para o Livro de Jó. Não tenho como descer até as perícopes, porque não
estou pronto para a investigação espeleológica profunda que uma tal tarefa
exige. Seja como for, uma exegese inteira, um comentário inteiro, se errar em Jó
42,6, errou em Jó. Os seis versículos
– aqui está o axis mundi do livro.
É daqui que se levanta a montanha sobre a qual sustenta-se todo o enredo de Jó.
Assumo, ainda, com todos os riscos, que o núcleo é crítico.
Aceito a lição exegética de Jack Miles, a quem agradeço. O Núcleo Poético
é um núcleo que se compõe – na sua origem, bem entendido – desde a
primeira linha da composição primária, até o trovão surdo da
contra-teologia de Jó 42,6, consciente de que esse corpo ferido, esse coração
magoado, essa vida pisada, não se curvará. Sua carne, sim, e de que jeito, não?,
mas não seu espírito, nem seus olhos, que terminam pousados no barro mortal,
seus iguais, a quem não apela, que podem eles fazer?, mas de quem se dói,
ainda que do fundo de sua dor solidária. A última palavra de Jó, nessa poesia
crítica, nessa elegia política, é comiserar-se do homem que sofre, ele entre
eles, e recusar toda instrumentalização da dor em face de estruturas
sufocadoras da dignidade humana, travestidas de apelos retórico-teológicos ao
Poder, mas dentro de cujas vestes balançam corpos políticos, excitam-se intenções
políticas, movimentam-se, ágeis, pés políticos, mãos políticas. Jó,
contudo, não cede. Não quer. Não pode. “Quando Jó diz em 13,15 que clamará
por justiça até o último alento, ele sabe exatamente o que está dizendo”.
Finalmente, arriscaria, ainda, assumir, provisoriamente
que seja, a hipótese de que o Prólogo e o Epílogo respondem a uma estratégia
deliberada de inviabilizar a leitura intencional original do poema. Vivo está
ainda seu poeta? Morto? Acha-se o texto no furacão das releituras, no vórtice
da castração? Seja como for, “vejo” mãos ágeis transfundindo todo o
sangue de Jó, e enterrando-o. O Jó que sobrevive, agora, nessa montagem, não
é mais o Jó da poesia. É outro. Marionete nas mãos de Deus e do diabo, um a
lhe puxar uma perna, o outro, os cabelos – a disputá-lo. Leva o corpo, mói e
rói, mas deixa a alma, admitiriam as consciências evangélico-platônicas, que
corpo é nada mesmo, mas a alma, ah, essa, como Deus a ama. O que ganha? Pústulas
e dor. Uma mulher blasfema – que não podia faltar. Cinzas. O que perde?
Propriedades – que mesmo os filhos são é isso. Sofre como o cão lazarento.
Mas Deus espera. Deus sabe. Quando a dor é infinita, ela fala. Ah, e sua fala
é doce. Tão doce que o quase defunto Jó percebe o quanto havia de tolice em
suas lamúrias. Por que, ó parvo, não dançaste de alegria, enquanto o verme
lhe mordia a carne da coxa, e o bicho, um olho? Mas sempre é tempo, e Jó,
contrito da contrição dos arrependidos, reconhece o Poder. Era tudo que Deus
queria. Justíssimo que é, ralha com quem deve ralhar – quem há de ralhar
com ele? Não se fala nada a respeito do “tinhoso”, mas nem precisa, que já
se sabe o que lhe espera, e, se ainda não, é só esperar por Enoque
que a bula será publicada. Mas Jó, esse recebe tudo de volta. Tudo. Menos, é
verdade, a dignidade. Mas essa é, afinal, a lição dessa montagem teológica
– arrastar-se, prostrar-se, emascular-se, lacerar-se, sufocar-se,
extinguir-se, sublimar-se, heteronomizar-se. Não o diria melhor do que o disse,
mas em enlevo, Samuel Terrien: “Diante do Ser que ele reconhecia como a fonte
e o motor de sua existência, Jó perde o desejo de afirmação de si mesmo”.
Conclusão
O leitor atento há de perdoar os arroubos retóricos que
se pronunciaram desde as tripas minhas. Um ensaio despretensioso de Introdução,
arrancado de mim por meio de uma aula em Nova Iguaçu, não poderia escorregar
para a crítica às teologias instrumentalizadoras da heteronomia humana. Jó há
muitos. Não o primeiro, assassinado por um gesto retórico. Em multidão, só
os há do segundo. O famoso e modelar Jó da paciência. Bem, esse nunca existiu
em Jó.
Talvez o Jó rebelde, de dura cerviz, causasse temor aos
catequistas judeus daqueles séculos alguma coisa entre a reconstrução de Judá
(finais do século VI, início do V) e a aproximação grega (século IV). Não
acredito numa data anterior ao século VI, nem posterior ao IV. Mas sempre se
pode estar errado. Mas eu dizia que, talvez, tenha sido por temor de que os bons
meninos judeus, completando sua idade de homem, aprendessem a pôr em riste o
dedo. Como a Lilith, que, como pode?, recusa-se a deitar por baixo,
esse Jó que se recusa a abaixar a cabeça “precisa” – é o que acham os
pedagogos, então – ser eliminado. Lilith sai de cena, e cria-se Eva, que
aceita deitar por baixo. Quanto a Jó, figura eminente, citada pelo famoso
“profeta” da golah, Ezequiel (Ez
14,14), mercê da mãozinha que a poesia dá, carregada de ambigüidade justo
ali, justo no seu coração, ah, é muito mais fácil “convertê-lo”, e
recompensá-lo. Pura preocupação “paterna”. Pode ser.
Quanto a mim, dirijo-me à varanda – que não tenho –
de minha casa (o leitor percebe que, nesse exato ponto, avanço para dentro de
meu mito pessoal?), e sento-me na cadeira de balanço que balança na
ouviroevento. É fazê-lo, e ele vem, meu amigo pessoal. Não, ele não sabe de
tudo. Eu lhe conto. E digo que acabei de ler – de novo – a história de Jó.
E ele – qual deles? Eu, sorrindo, vendo que meu amigo está inteirado da
pesquisa, os dois, mas não gosto do segundo. Por quê? Porque, coitado,
mentem-lhe. Sobre mim? Sim, sobre você. É, eu sei. Mas você sabe que eu não
posso fazer nada a respeito, não sabe?
Eu me levanto, e me recosto à coluna da minha varanda,
que não tenho. Sim, eu sei. Mas não muda coisa alguma, porque o pobre do Jó,
coitado, quebram-lhe a coluna, a dele e a de todos os Jós. É verdade. Mas não
haverá algo de bom aí? De ópio? Que seja de ópio – vira e mexe você
recorre ao velho Marx. Mas é como o prazer. Como assim? Para que seja possível
o prazer, fiz, com ele, a dor. Na verdade, quando fiz um, o outro veio junto.
Acho que são dois lados da mesma moeda, ainda não entendi direito. Se você
pode extasiar-se, pode angustiar-se. Noite e dia. Sol e chuva. Chorar e sorrir.
Sento-me no parapeito de minha varanda, que não tenho.
Entendo. A religião, como tudo o mais, pode ser corrente, e pode ser asa. Pode
prender, e pode libertar. Pode ser ópio – e pode ser labareda. E você não
faz nada? Não. Já fiz. Eis a vida. Fez os dois Jós? Não, não. Os dois se
fazem. Vocês se fazem. E eu observo. Não faz muito sentido que se fique
observando. Sentido? Não são vocês, também, seus criadores?
© Osvaldo Luiz Ribeiro
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autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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