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Por
que é preciso desinventar a Bíblia
–
resistência pessoal à espera
do futuro
Osvaldo
Luiz Ribeiro
18/07/2007
Naquela
que ficou conhecida como Segunda Carta de Paulo a Timóteo, Paulo pedia a
um distante Timóteo que, quando de sua vinda combinada, não deixasse de trazer consigo ta. bibli,a ma,lista ta.j membra,naj
– “os rolos, principalmente os pergaminhos” (2 Ti 4,13b). Nessa frase, a
expressão ta.
bibli,a significa “os rolos” (ou “os livros”, como se tem preferido). A
transliteração da palavra grega
bibli,a – Bíblia – acabou se tornando o “nome” do
conjunto das Escrituras Sagradas Cristãs.
A
própria expressão Escrituras Sagradas ainda guarda a memória da pluralidade
original dessa biblioteca – ta. bibli,a: “os rolos”. Entretanto, o nome “Bíblia” já não
guarda mais qualquer idéia de pluralidade. Enquanto ta. bibli,a evoca
um cesto de rolos e pergaminhos, cada qual de uma cor envelhecidamente própria,
de uma textura peculiar, de um tamanho específico, com sua própria história,
sua idiossincrática caligrafia, o “nome” Bíblia evoca um monólito, uma unidade, um pronunciamento, um
livro. ta.
bibli,a abre. Bíblia fecha. ta. bibli,a é reticências. Bíblia é ponto final.
Não
se dá muita importância a isso hoje. Coisa normalíssima “uma” Bíblia. O
processo que levou a tanto, contudo, nada tem de “inocente”, muito menos de
"natural", ainda que,
admita-se, não deve ter sido, pelo menos não inicialmente, premeditado.
As coisas acontecem, é verdade. E, quando começam a acontecer, aí, sim,
imediatamente são tomadas a cabresto pelos especialistas em domesticar a
história e em tornar o mundo o seu quintal de casa.
Da
pluralidade floral de ta. bibli,a para a unicidade monolítica de Bíblia, contam-se, a meu
ver, quatro passos. Apresento-os didaticamente.
Primeiro,
deu-se o passo tecnológico. Inventou-se o “códice”. Consta ter-se dado a
sua invenção no século I da era cristã. Constava de fólios
– folhas de papiro ou pergaminho – costuradas na forma de “brochura”.
Eram mais práticos do que os rolos, porque, além de conterem uma quantidade
muito maior de textos, estes localizavam-se mais facilmente do que quando
escritos em rolos. Quando se lê Lc 4,17, não se deve
imaginar um Jesus recebendo uma Bíblia de capa preta, procurando com as mãos o
"livro" do profeta Isaías, abrindo-o, procurando o capítulo sessenta
e um, e, então, lendo-o de um púlpito. Uma imaginação assim está
absolutamente equivocada. Dão-lhe um rolo, o rolo do profeta Isaías, que deve
ter mais ou menos sete metros de comprimento, quando desenrolado. Lucas informa
que Jesus avnaptu,xaj to. bibli,on,
vale dizer, "desenrolou o rolo", e que, desenrolando o rolo, Jesus eu-ren
to.n to,pon ou- h=n gegramme,non - "achou o lugar em
que estava escrito". Como o texto lido corresponde a Is 61,1, e como Is
61,1 está no final do livro de Isaías, Jesus tomou o rolo na mão, rolou sobre
ela mesma a parte superior do rolo, e desenrolou um pedaço de mais ou menos
sessenta centímetros, no topo do qual achou a passagem que queria. É um pouco
trabalhoso lidar com rolos, mas acostuma-se. Em poucos séculos,
contudo, os códices substituíram definitivamente
os rolos. Assim, costurados numa só peça, aquilo que antes eram ta. bibli,a
– os rolos – agora transformava-se em
bibli,a – Bíblia. O que dantes eram muitas mãos e bocas, agora
eram uma só. E se, hoje, lhe dão o livro do profeta Isaías, vão juntos todos
os outros.
O
segundo passo é paralelo ao primeiro, aquele, tecnológico, este, terminológico.
A transliteração de bibli,a – Bíblia – mantém-se como referência ao “códice”
cristão. Assim como a transliteração de baptismo,j –
batismo – continua a referir-se ao “rito” eclesiático. Não se trata de traduções,
já que, de um lado, baptismo,j
significaria
mais propriamente mergulho, e bibli,a,
“rolos” ou “livros”. bibli,a e baptismo,j são
terminus
tecnicus, ou seja, “termos técnicos”, cujo significado transmite-se
traditiva e normativamente. Traditivamente, enquanto o rito de iniciação sacramental cristã torna-se
“batismo”, o “cânon” torna-se Bíblia. Normativamente, contudo, cada
igreja tem "sua" Bíblia - a católica, a ortodoxa, a
protestante-evangélica, e cada "denominação", seu batismo - por
aspersão, do tipo católico ou presbiteriano, por imersão, do tipo batista.
Seja numa ou noutra tradição cristã, trata-se, sempre, de um
"fechamento" semântico. Há sempre "um" referencial. Quando o cristão falava – e
fala – Bíblia, ele não pensava mais – nem pensa – numa biblioteca. Ele,
agora, pensa num livro.
O
terceiro passo corresponde à determinação política do cânon. O cânon,
assumo, oficializa-se em Nicéia, 325 d.C. A “igreja cristã”, aí, caminha
para a sua oficialização., estatização e imperialização. Aí em Nicéia já se encontra oficiosamente
estatal-imperial, uma vez
que o “presidente” do concílio é o próprio Constantino, Imperador de
Roma. Naturalmente que, para aí ser oficializado, o que veio a ser assumido
como “cânon” já existia pré-canonicamente em determinadas jurisdições
eclesiásticas. Não havia, contudo, consenso. Nenhum. Cada “jurisdição”
eclesiástica tinha suas próprias coleções de bibli,a sagrados. O – hoje – canônico Judas, por exemplo, cita, pelo menos, três “apócrifos”: Enoque,
O Testamento dos Doze Patriarcas e Ascensão de Moisés. Isso significa, necessariamente, que, ou o próprio
Judas – autor da carta – ou a comunidade de destino dela, tinham nesses
livros – nesses bibli,a – a figura de livros sagrados. Depois de Nicéia é que
eles foram considerados não-sagrados, e, mais do que sem-valor, perigosos.
Impôs-se que assim fosse. O
que hoje parece óbvio ao bom cristão, à época constitui uma violência
sagrada. O cânon, portanto, consistiu numa decisão normativa e política sobre
quais bibli,a
eram
a Bíblia. Aquilo que até esse dia
eram “rolos”, agora torna-se, por uma decisão oficial, o
cânon. E é tão política a sua determinação, que não se chega a
perceber seu fundamento puramente tradicional. Quando, por exemplo, se recorre a
2 Pd 1,20-21 para a apresentação retórica do "cânon", esquece-se
(?) de que, por meio desse verso - e de qualquer outro das Escrituras - não se
pode chegar à lista "canônica", seja dos homens santos, seja dos
livros sagrados. Porque aí fala-se de "homens" inspirados - quais? -
e de "profecias" - quais? -, mas não se diz quais fossem. Quando se
quer afirmar quais eram, vai-se até Nicéia, pega-se a lista canônica de lá,
e põe-na na boca desse Pedro de 2 Pd 1,20-21. Pecado. Ignorância, negligência
ou má fé - em qualquer caso, dana-se o coitado que vai de cabresto e cangalha,
a lembrar a imagem evocada por Nietzsche em O Anticristo. Para se ler 2
Pd 1,20-21 com Nicéia, tem-se que somar Escritura e Tradição, ambas,
como normativas, e, ainda assim, dissimular que uma coisa é o que esse dito
Pedro tinha em mente - sua coleção pessoal de rolos sagrados - e outra o que
os 318 cavaleiros de Nicéia determinaram. Unir as duas pontas do fio é
conectar os fios do detonador da bomba ideológica.
O
quarto e último passo, o filosófico, sempre didaticamente, porque, a rigor, os quatro se
confundem tanto ideológica quanto cronologicamente, deu-se quando se chegou à
“ortodoxia” doutrinária. Esse passo deu-o a
Igreja, quando julgou ter poder para o fazer, e, de fato, teve forças para
tanto. Um grupo cristão, politicamente forte e militarmente respaldado,
legitimado pelo Estado, decidiu-se pela “doutrina verdadeira”. Não apenas
disse haver uma doutrina verdadeira, mas disse qual era ela. E disse-o com uma
voz tão alta, que todos ouviram, e quem ouvir não podia, recebeu orelhas
bastante prudentes. Quando o cânon nasceu de parto violento, tudo quanto não
cabia nele foi abortado. A placenta da história foi jogada no lixo. Quando a “doutrina da verdade” emergiu da garganta
profunda do clero romano-cristão, todas as vozes calaram – foram caladas.
O
percurso é extraordinário – a genealogia de um monólito. Na natureza,
geralmente os ventos, as ondas, as chuvas, fragmentam as rochas, esfarelam-nas,
transformam-nas em areia, e, delas, se enchem as praias morenas. Na história
– pelo menos nessa história – os
grãos foram colados, os polens, reunidos, cresceu gigantesca sequóia,
engendrou-se brutíssima penha. ta. bibli,a são disputados. Acirram-se ódios eventualmente
sanguinolentos, verborrágicos certamente. Das disputas seculares, nasce o cânon
– por força de lei, e sem sursis.
Costuram-se os rolos, e o cânon vira um códice. Esse códice, diz-se, fala uma
só língua – o latim – e por uma
só boca – a do clero. E essa boca fala uma só doutrina, do primeiro ao último
rolo. Uma só doutrina, um só cânon, um só livro, um só nome – a
Bíblia. Tecnologia, terminologia, política e filosofia - o
itinerário de uma era.
Há
décadas, nos Estados Unidos, e recentemente, na Alemanha, tem-se falado de
“leitura canônica da Bíblia”. Eu diria que se trata de uma forma polida e
supostamente politicamente correta de se assumir uma leitura traditivo-normativa
da Bíblia, ou, para o dizer nos termos desse ensaio, uma maneira de tornar
palatável ao espírito “pós-crítico”, posto que “pós-moderno” do establishment
bíblico internacional a gadameriana tradição inescapável – e, agora,
domesticada. Não me apetece. Quando a tradição transforma-se - ainda que sub-repticiamente
- em norma, em superestrutura necessária, incontornável, em teia de aranha
divina, ah, meus pêlos todos se arrepiam, e minha alma crítica se desespera,
porque sabe que, aí, vem uma ave de mau agouro.
Por
quê? Porque o que se chama de “leitura canônica da Bíblia” não vai além,
para dizer pouco, da assunção – legítima, vá lá – de um recorte não
especificamente “escriturístico”, mas da história da recepção de ta. bibli,a.
Seja o cânon, seja o códice, seja a “regra de fé”, seja o
nome-transliteração “Bíblia” – nada disso é pertinentemente
“escriturístico” – é tão somente “eclesiástico”. Invenção da
“igreja” – que pode inventar o que quiser inventar, mas não pode, sob
nenhum argumento, transformar o que eram esses “rolos” antes
dessa invenção – a Bíblia-cânon-códice-dogma cristã – nessa peça político-teológica
chamada Bíblia. Se o fizer - e
fez (e faz) - assuma ter feito. Mas não se vá além disso, sugerindo,
indicando, instruindo, a seguir-se-lhe os passos. As lâmpadas das naves têm de
servir para a boa leitura.
O
que Nicéia decidiu sobre ta. bibli,a não apenas nada tem a dizer sobre ta.
bibli,a, mas, pior, e malgrado as contemporâneas e contemporizadoras propostas de
“leitura canônica”, estorvam a boa leitura, a leitura histórica, a leitura
histórico-crítica, a leitura histórico-social, única capaz de prover meios
de se tentar ouvir ta.
bibli,a como foram falados. Nicéia e afins entulham de pedra os vales, e nivelam
tudo – sob a regra de seu prumo. Nicéia e sua encíclica de dogmas normativos
desbastam os altos picos, e nivelam tudo – sob a regra de seu prumo. Nicéia
atrapalha, cega, ensurdece, embrutece. Nicéia é uma afronta à
inteligência histórica, ainda que se possa brincar de casinha com os
soldadinhos de chumbo - os 318 (!) - que lá ensaiaram o jogo do poder.
É
preciso desinventar a Bíblia. Quero dizer, se o que se quer não é justamente
essa invenção de políticos – que não importa que recebam por nome alcunhas
latinas hierárquico-eclesiásticas, bíblico-metafóricas, ontem e hoje, políticos são todos. A Bíblia
política, aos políticos, seus pais. ta.
bibli,a, àqueles que têm o desejo de sentar-se com um rolo de cada vez, um texto de
cada vez, mesmo os de sete metros. O cânon, aos pais. Não aos leitores de ta. bibli,a,
que, não se suspeitava, mas já aí se gestava o grande Leviatã,
ainda eram vistos nos primeiros anos da nossa era, e ainda eram mencionados aqui
e ali. O dogma, aos reis, aos sacerdotes, aos apóstolos – onde vamos parar? -
não aos curiosos da história, àqueles que experimentam o estranhamento de pisar
terra estranha, de ouvir voz estrangeira, de ver rostos tisnados do sol
palestino, de levantar pedras e ver o que tem embaixo. Porque a verdade
está sempre embaixo - e por isso tanto se insta a que se olhe para cima.
Nada
de iconoclástico. Deixa a Bíblia aí, nas lojas, vendidas a tantos reais e
tantos centavos, paga no cartão de crédito, anunciadas nos outdoors das
estradas, com largos sorrisos, ternos da moda, e cifrões aguardados. Deixa aí enriquecerem
os comentaristas de teologias de rodapé ao gosto da pós-modernidade mítico-carismática.
Deixa aí terem o que carregar proselitistas e prosélitos, um sinal de pertença,
ainda que – quantas vezes, não? – o sinal sirva de espada e pistola. E,
sobretudo, deixa a Bíblia nas devoções pessoais, nas litanias madrigais e
noturnas, nas vigílias, nos oratórios. Deixa. Não
é preciso uma campanha de transformação da Bíblia. Absolutamente. Basta que
o leitor – no papel de leitor – pessoalmente, conscientemente,
inteligentemente, metodologicamente, desinvente Nicéia, ria-se de tudo aquilo,
perdoe-se pelo riso, avance no tempo, para aqueles momentos em que cada texto
era escrito por aquela autêntica mão. Nicéia - essa invenção - é como
o bicho-papão: existir, existe, mas se você cresce, vira história de
criança. É preciso, pois, nesse caso, tornar-se um estraga prazer, e, quando
mamãe e papai vierem com sustos didáticos, é sorrir, que o monstro dilui-se
em fumaça onírica. Deixa ele - deixa ela- debaixo da cama, que ele fica lá -
para sempre.
É
preciso que o leitor se torne um Brancaleone, ele e só ele, sozinho. Não se
vai mais transformar o mundo, mas transformar-se a si mesmo, contra o mundo. Nadar contra a correnteza. Caminhar para o outro
lado. Resistir. Talvez, um dia, a direção, afinal, mude, e a resistência
mostre-se, ora vejam só, “ortodoxa”. Não é fazer pelo prazer de ser contra
– mas o fazer pelo dever de resistir. A Bíblia – enquanto essa invenção política
da igreja, a ela eu digo não. E, na condição de general do exército de um
homem só, lá vou eu atrás dos rolos – ta. bibli,a – ancestrais. É dessa tradição que quero me nutrir,
é desse vinho velho que quero me embebedar.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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