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Sangue e vômito:
Reinscrições transgressivas em Is 4,2-6
Osvaldo
Luiz Ribeiro
12/08/2006
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“(...) todo discurso
retroage sobre os elementos que o constituem. Assim, para que as palavras
assumam um sentido na frase que elas formam, não basta que seus
significados estejam enumerados entre outros no dicionário, não basta
que elas estejam organizadas de acordo com a gramática e a sintaxe, é
preciso ainda que haja retroação da frase sobre a palavra ao longo da
sua formação até a cristalização definitiva das palavras pela frase e
da frase pelas palavras”
Edgar Morin, O
Método 1 - a natureza da natureza, p. 160.
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Aprendi
uma coisa com Haroldo[1],
meu professor de Antigo Testamento e Hermenêutica no Mestrado em Teologia, que
é sempre uma demonstração de maturidade exegética (logo, hermenêutica)
manter sempre a dúvida de se ter verdadeiramente
apreendido o sentido de um texto. Ao final das exegeses que ele dirigia na
classe, ele sempre perguntava, nada retoricamente: “Será se isso que estamos
vendo está no texto mesmo... ou será
se, no fundo, estamos pondo isso lá?”.
Na verdade, Haroldo perguntava-se, e nos levava a nos perguntarmos, se estávamos
mesmo, na hipótese metodológica de ser isso possível (SIMIAN-YOFRE, p. 122),
“ouvindo” o que o escritor do texto tentara dizer havia séculos, ou se, no
fundo, por qualquer razão, essencial
ou circunstancial, estrutural
ou metodológica, estávamos, Deus nos livrasse, ouvindo nossa própria
voz...
No
presente artigo, ensaio uma apresentação de um jeito de olhar para Is 4,2-6
que exige mais do que nunca aquele
exercício de humildade acadêmica. É
trabalhar ousadamente e, ainda cansado, olhar para o resultado da exegese e
deixar-se tomar pela pergunta: será
mesmo?
Traduzi
eu mesmo o texto hebraico:
Is 4,2-6
2 Naquele
dia, será o rebento de Yahweh para jóia e para glória,
e o
fruto da terra, para orgulho e para honra para o resto de Israel.
3 Pois
haverá o resto de Sião e o restante de Jerusalém –
santo será chamado ele, todo o que está
escrito para a vida em Jerusalém.
4
Quando tiver lavado o Senhor o vômito das filhas
de Sião,
e o sangue de
Jerusalém ele tiver esfregado de dentro dela –
com espírito de justiça e com espírito
de extirpar –
5
criará Yahweh sobre todo lugar
da montanha de Sião,
e
sobre as assembléias dela
uma nuvem de dia
e uma fumaça e um resplendor de fogo de
labareda de noite,
para que, sobre toda glória, um
baldaquino
6
e uma tenda seja para sombra de dia por
causa do calor,
e para abrigo e para amparo por causa da chuva e por causa do aguaceiro.
Eu
considero esse um poema difícil de ser lido. Sua estrutura sintáxica não é
linear. Ela se desenvolve mantendo sempre uma dependência sintáxica, o que
exige do leitor jamais deixar a ponta da linha enquanto desfia o rolo. Mas não
é apenas difícil – o poema é também ambíguo, porque está carregado de
termos próprios de uma determinada perspectiva teológica. Quando tomados esses
termos como indício de que o poema deva, por causa deles, ser lido sob a ótica
dessa perspectiva teológica, funcionam como uma verdadeira armadilha, porque,
se leio corretamente o poema, dispersam o sentido mais bem amarrado que a
sintaxe permite perceber. Talvez não seja uma armadilha, mas um disfarce...
Is 4,2 – o rebento de Yahweh é o fruto
do trabalho do camponês
Naquele dia, será o rebento de Yahweh
para jóia e para glória,
e o
fruto da terra, para orgulho e para honra para o resto de Israel.
A
expressão “naquele dia” dá a falsa impressão de que o poema está ligado
ao que vem antes. Não, não está. Is 4,2-6 é uma peça independente no
conjunto de Isaías. Não está ligado
ao que vem antes, nem ao que vai depois. Provavelmente foi colocado ali por
conta do eco de termos comuns com os poemas anteriores ou posteriores, o que se
deve reputar, então, à percepção do redator do conjunto.
“Naquele
dia”, contudo, denuncia uma projeção de expectativas. O poema constrói-se
sob o signo da esperança. Uma esperança que, contudo, sabe o que espera...
Em
hebraico, língua original do poema, a conjunção sintáxica do verbo ser
com a preposição lamed (“para”)
exige que o resultado seja a leitura servir
de. Sendo assim, a frase “será o rebento de Yahweh para jóia e para glória”
deve ser lida como “o rebento de Yahweh servirá
de jóia e de glória”. A frase não pára aí. Ela é interrompida por
uma outra frase: “e o fruto da terra,
para orgulho e para honra para o resto de Israel”. Essas duas frases
precisam ser lidas uma dentro da outra, cabeça – cabeça, cauda – cauda,
sendo que uma tem a cabeça, a outra, a cauda, e a cabeça que uma tem ela a
empresta à outra, de quem empresta, por sua vez, a cauda. Observe-se o quadro:
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Naquele
dia
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o
rebento de Yahweh servirá de jóia e de glória
|
para
o resto de Israel
|
|
(e)
naquele dia
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o
fruto da terra servirá de
orgulho
e de honra
|
para
o resto de Israel
|
Reconstruindo-as
cabeça – cabeça e cauda – cauda, podem-se ler as duas frases como expressão
de uma mesma proposição intencional. O modo como o poema diz que se trata de
uma mesma afirmação desdobrada em duas, mas de tal modo desdobrada que, não
obstante, ainda está enroscada, é o modo de usar apenas uma cabeça
(“naquele dia”) e uma cauda (“para o resto de Israel”) para as duas
frases. Pode-se ver:
|
Naquele
dia
|
|
o
rebento de Yahweh servirá de jóia e de glória
|
|
(e)
o fruto da terra servirá de orgulho e de honra
|
|
para
o resto de Israel
|
Ou
seja, naquele mesmo dia, o rebento de
Yahweh servirá de jóia e de glória, e o fruto da terra, naquele mesmo dia, servirá de orgulho e de honra para
o mesmo referente: o resto de Israel.
O que isso significa?
Bem,
o que quer que isso signifique, tem a ver com o agente significante: “o resto
de Israel”. De modo que qualquer imprecisão quanto à identidade desse
agente, transbordará em imprecisão quanto ao sentido do conjunto das frases.
Talvez a identidade desse agente significante fique clara no próximo verso.
Aqui, não. De todo modo, é aqui que está a frase significante, e é oportuno
olhar para ela já desde agora, e retornar mais tarde.
Essas
duas frases, essa uma-frase-em-duas, está construída com equivalência
estrutural. Dois construtos, “rebento de Yahweh” e “fruto da terra”,
abrem, cada um a seu tempo, a sua parte da uma-frase-em-duas. Em outros lugares
se chamaria essa modalidade de construção de paralelismo.
Mas não quero pretender que um modelo dedutivo me encaminhe – antes, gostaria
de acreditar que faço o possível, e com sucesso, para, independente de
“modelos” fechados, abrir o botão da rosa, pétala a pétala. Depois da
cada um dos construtos, segue-se um objeto indireto. Se considerarmos o agente
significante, “resto de Israel”, a relação entre o(s) sujeito(s) e o(s)
predicado(s) dá-se na forma de predicação bitransitiva: nesse caso,
duplamente indireta.
As
duas construções são, pois, perfeitamente paralelas. Em termos sintáxicos. Não
necessariamente, contudo, em termos semânticos, logo denunciarei. Seja como
for, não pode constituir mera formalidade essa redundância. Ou melhor:
trata-se mesmo de redundância? Os
predicativos “jóia” e “glória” estão para o sujeito “rebento de
Yahweh”, assim como os predicativos “honra” e “orgulho” estão para o
sujeito “fruto da terra”. Vejo um jogo sutil nesses dois sujeitos, um
remetendo ao outro, um sobredeterminando o outro. Não mutuamente,
contudo.
“Fruto
da terra” é um termo menos complexo. Metafórico, mas claramente indica para
o produto do trabalho agrário. Daí ser possível dizer que esse resultado do
trabalho agrário, esse fruto da terra, a cevada, a oliva, a uva, essas coisas
que brotam do chão, se a gente cuida dele, justamente isso constituirá
“honra” e “orgulho”. Uma vez que o período se faz reger pela locução
adverbial “naquele dia”, e se, naquele dia, o que haverá será o orgulho e
a honra que o trabalhador terá do seu trabalho, resulta que, hoje, isto é,
durante o “hoje” constituinte da narrativa a percepção do poema é que uma
coisa como tal inexista.
Bem,
do sujeito “fruto da terra” é possível transitar um pouco suavemente para
“rebento de Yahweh”. A relação pode ser apenas de redundância
resignificante: o fruto da terra é, na verdade, o rebento de Yahweh.
“Rebento”, enquanto aquilo que “sai”, e, tomando-se a terra como dádiva
de Yahweh, logo, tratando-a como uma metonímia, tanto faz dizer que o fruto da
terra ou rebento da terra, quanto rebento de Yahweh ou fruto de Yahweh.
Essa
passagem suave de um sujeito, o
segundo, para o outro, o primeiro, esse como sinônimo, redundância, daquele,
somente é possível caso se desconsidere o fato de que, no universo noológico
de Judá/Israel, no conjunto das representações político-teológicas do
Antigo Testamento, o termo “rebento de Yahweh” constitua termo
significativo. Inicialmente aplicado ao rei, depois ao sacerdote[2].
Estaria esse termo aí justamente porque ele é um termo aplicado ao
“sacerdote”? Se for, seria justificado perguntar pela possibilidade, então,
de ele estar sendo esvaziado, desteologizado, despolitizado (nesse caso,
politicamente despolitizado...), através de uma reinscrição
transgressiva – o termo é usado, mas para dizer o seu contrário?
Se,
quando entramos no poema, adentramos espaço da ordem campesina, espaço de
interesse estratégico do Templo (estamos no século VI? V? aposto neste),
estamos ouvindo uma voz que, de posse da voz do Templo, repetindo-a na forma de
seus termos-chave, transgride-a, reinscrevendo em outra ordem ideológica?
Aposto que sim. E, se sim, então, nesse caso, a pompa do termo, o significado
do termo, a sua dimensão política, a sua coação e coerção imagéticas,
noológicas, são todas arrebentadas contra o chão: rebento de Yahweh? Esse aí?
Justamente esse aí (recordo-me aqui,
do sumo sacerdote Josué enfrentando o(s) adversário(s) em Zc 3,1ss)? Para nós,
rebento de Yahweh é aquilo que a gente tira do chão, cuidando dele, arando a
terra. Daí brota nossa honra, daí arrebenta nosso orgulho, e é desse fruto
que extraímos nossa jóia e nossa glória!
Finalmente,
se o fruto da terra será orgulho para o resto de Israel, esse resto de Israel
quem é? Alguém que, podendo ser descrito pelo termo “resto de Israel”, naquele
dia, há de não apenas se tornar camponês, mas, inclusive, orgulhar-se
disso? Ou temos, também aí, um esvaziamento do termo? Vamos ver o que (nos)
diz a próxima estrofe.
Is 4,3 – o resto de Israel é o camponês
Pois haverá o resto de Sião e o restante
de Jerusalém –
santo será chamado ele, todo o que está escrito para a vida em Jerusalém.
Essa
segunda estrofe começa com uma referência àquele agente significante com que
terminara a primeira estrofe: resto. Lá,
o autor usara a expressão “resto de Israel”. Aqui, a redundância: “resto
de Sião” e “restante de Jerusalém”. No hebraico, são três termos
diferentes. À luz do raciocínio do v. 2, ainda estamos naquele
dia. É naquele dia que haverá um
resto. E esse resto, parece bastante genérico, em termos geográficos – ele
é o resto (três termos diferentes) de Jerusalém, de Sião, de Israel.
Esse
resto será chamado “santo”. Esse é um outro termo relacionado ao Templo,
além de “rebento de Yahweh”. O mesmo se deve considerar de “resto”.
Essa é a forma como a golah, os
deportados da Babilônia, de qualquer modo os que voltam, os que assumem o
“poder” na Judá em reconstrução referem-se a si mesmos: os que
sobreviveram, aqueles que Yahweh preserva do grande castigo (GALLAZZI, p. 31).
Bem entendido, “resto” não é aquele que sobrevive do
cativeiro, aqueles que, levados para a Babilônia, lá conseguem sobreviver. Não:
resto é um termo mais técnico –
refere-se àquele que foi preservado através
do cativeiro (RIBEIRO, 2002). O castigo não é o cativeiro, mas a destruição
de Jerusalém. Os que então perecem, perecem por castigo; os que vão levados
para a Babilônia, como Noé na arca, são preservados, porque são justos.
Justos,
logo, e cedo, santos... A estrofe que analiso diz que esse resto de Israel será
chamado santo. E, assim, todos os termos que o poema usara até agora vão se
entrelaçando. E como o sentido das palavras é sempre aquele com que são
usados, é sempre a perspectiva semântico-intencional de quem as usa que
determina o sentido que as sustentam, pergunto-me sob qual perspectiva todas
essas palavras são usadas. Naturalmente que, consideradas na qualidade de
“termos técnicos”, como eu venho informando, têm seu sentido muito específico,
de tal sorte que aquele que se serve deles serve-se desse
sentido, mais do que dessas palavras. Quer dizer, isso se quem se serve delas
se serve do sentido delas...
Há,
contudo, o caso das reinscrições
transgressivas: usar palavras “carimbadas”, empregando-as, contudo, com
sentido(s) diferente(s), mesmo contrário(s) àquele(s) da dimensão do(s)
seu(s) uso(s) técnico-ideológico(s). Eu confesso que tenho uma sensação de
que essas palavras estão sendo empregadas exatamente fora de seu contexto ideológico:
não é a voz do Templo, usando-as, mas a voz de alguém, servindo-se de termos
próprios do Templo, para dizer o que tem a dizer. Noutras palavras: estamos
diante de um enxame de reinscrições transgressivas.
Eis
o que vejo: já o primeiro dos termos técnicos, “rebento de Yahweh”, é
esvaziado de sua ideologia ao ser posto lado a lado com “fruto da terra”. Se
leio correto, Is 4,2 está afirmando que chegará um dia (“naquele dia”) em
que o camponês baseará o seu orgulho e sua honra no fruto de seu trabalho.
Essa construção sintáxica denuncia que a estrofe parte do princípio de que
tal coisa não acontece no presente, além de denunciar um discurso circundante,
aposto que do Templo, cuja pressão se dá sobre o camponês, reportando-o a
outras leituras existenciais. O poema mostra-se recalcitrante: não acede à
ideologia, ainda que o uso que faz dos termos sugere que o poema se faz no
interior da sua esfera de hegemonia.
Sempre
na condição de eu ler corretamente os versos, o camponês, de novo, esvazia o
termo técnico “resto de Israel”. O resto de Israel já é, no v. 2, aquele
que trabalha a terra e retira dela o seu sustento. Há aí, já, um
enfrentamento do discurso oficial do Templo, para quem “resto” são eles, os
que vieram, e, se os que “ficaram”, esse povo da terra, o camponês, quer
ser assimilado a esse conceito de “resto”, deve ser assimilado através da
ideologia do Templo. Mas o camponês,
a crer no poema, tem outros planos, agarra-se a outras expectativas.
O
esvaziamento do termo “resto” continua no v. 3. O conceito é assumido, mas
generalizado: Sião – Jerusalém – Israel. Nesse ponto, outro termo técnico
é sacado: “santo”. É claramente um termo do Templo, um projeto do Templo.
O que a estrofe afirma é que todo esse “resto” será chamado “santo”
– nova generalização. Se descuidarmos da leitura, chegaremos a tomar essa
identificação do “resto” com o “santo” com a ipssissima
vox sacerdotal. Mas não! Eis que, imediatamente, o poema dá a sua definição para o termo: “santo” é “todo o que está
escrito para a vida em Jerusalém”.
Mais
uma generalização, mas, agora, tendo embutida uma contra-ideologia. Santo é o
vivo – estar vivo, eis o que basta para que seja considerado santo aquele que
será o “resto”. Uma vez que o caráter de “santo”, no discurso do
Templo, consiste num juízo de valor a partir da aplicação de preceitos e
receitas dadas pelo próprio centro religioso, afirmar a identidade da vida e do
caráter de santo é romper com a autoridade sacerdotal.
E
mais: o modo de se referir aos “vivos” não parece ser apenas uma questão
de estilo. A expressão “o que está escrito para” me faz relacionar esse
discurso àquele que apresenta as listas de nomes dos deportados da Babilônia,
agora que voltam, chegando, instalando-se. Os livros de Esdras, Neemias e Crônicas
constroem-se fazendo múltiplas referências a tais listas de nomes. O escrito
parece ter adquirido um papel interventor em Judá. Talvez seja forçado, aqui,
lembrar 2 Re 22,8 e a chamada “farsa santa” do achado do Livro da Lei, amiúde
relacionado, na pesquisa, ao Deuteronômio. Mas seria forçado lembrar, então,
de Ne 7,5, onde se declara, pelos mesmos termos que os da “farsa santa” de 2
Re 22,8, através do mesmo verbo hebraico (“encontrar”), contar-nos Neemias
– na verdade, ao povo que o ouve – que “achei o livro da lei”? Penso ser
produtivo considerar que o termo “escrito” em Is 4,3 consista numa reinscrição
transgressiva do termo designativo para as “listas genealógicas”, as listas
que determinavam quem era quem, quem era dono do que. Nesse caso, Is 4,3 rasga
as listas, porque os nomes daqueles que são o “resto de Israel” não estão
escritos em listas sacerdotais, governamentais, mas na vida. Está vivo? Está
escrito. É santo. É resto. Quem? Tu, camponês, tu mesmo. Ou “eu”, camponês,
se é um deles a escrever o poema... Acho que não.
Em
resumo, os termos técnicos “rebento de Yahweh”, “resto de Israel” (e
seus paralelos), “santo” e “escrito”, todos do Templo, são, sim,
empregados em Is 4,2-3. Mas não a partir da ideologia em que estão
mergulhados, nem do sentido que sustentam quando é o próprio Templo que os
emprega. No poema, Quem os emprega deforma-os, e, claro, segundo o interesse próprio
dessa contra-ideologia. Todos os termos são assumidos na perspectiva presumida
do camponês em sua vida diária, cuidando da terra, e vivendo dela, vivendo.
Esses termos técnicos do Templo não interessam. Não dizem nada a ele(s). As
palavras de autoridade e legitimação em que se constituem são noologicamente
inócuas, ainda que materialmente eficientes. Mas o que realmente importa para a
esperança poética é a própria condição existencial dessa comunidade agrária,
secular, que deseja a sua vida assim como estava antes de chegarem. Para
que sua flor vivesse, danificaram e engoliram nossa flor...
Cristianizaram-nos... E que não venha (mas veio) um bando de paramentados,
cheios de palavras de ordem, determinar-lhes as condições de vida.
Interessa-lhes a terra – e nada mais.
Is 4,5-6 – a glória? Ora, ela é o próprio
camponês!
criará Yahweh sobre todo lugar da
montanha de Sião,
e sobre as assembléias dela
uma nuvem de dia
e uma fumaça e um resplendor de fogo de
labareda de noite,
para que, sobre toda glória,
um baldaquino e uma tenda seja para
sombra de dia por causa do calor,
e para abrigo e para amparo por causa da chuva e por causa do aguaceiro.
Deixo
Is 4,4 para o final. É nitroglicerina pura, aquilo... E, de qualquer modo, há
muito que fazer com Is 4,5-6. Imperdoável não assinalar, contudo, que o quer
que signifique esse turbilhão sintáxico em que consistem os versos 5 e 6, isso
tudo depende do que signifique Is 4,4.
É que Is 4,4 constitui uma oração subordinada adverbial temporal, cuja oração
principal é o longo período, a longa encadeação constituída por Is 4,5-6.
É
necessário um longo fôlego para ler Is 4,5-6. As palavras se sucedem em relação
de dependência sintáxica, e exigem do leitor – do ouvinte, nos termos da época
– uma atenção absoluta. Além disso, até onde sei, é o maior conjunto de
termos técnico-teológicos da Bíblia Hebraica. Arrisco dizer que não há
outro lugar onde se concentre, em tão pouco espaço, tão grande número de
termos próprios do (Segundo) Templo de Jerusalém. Não vale pensar no Êxodo, claro, porque lá o espaço é muito amplo – é todo um
deserto a ser atravessado... Em todo caso, não é coincidência que os termos
sejam justamente aqueles com que a golah
reconstruiu seu retorno na forma de uma “saída” para a Terra Prometida...
O
v. 5 exibe os termos teológicos do Templo: o verbo “criar”, que abre a
cosmogonia do Templo de Jerusalém (Gn 1,1-2,4a)[3];
“nuvem”, “fumaça” e “resplendor de fogo de labareda”, próprios das
hierofanias de Yahweh nas sagas do Êxodo;
“glória” – termo designativo para a própria presença de Yahweh em
diversas tradições sacerdotais; e, finalmente, “baldaquino” e “tenda”,
que podem tanto constituir endíade, ou seja, constituírem uma unidade semântica,
ou constituírem partes sinônimas em uma construção sintática dobrada.
Quem
está escrevendo esse poema está olhando para o Templo. Pudesse, contudo, não
olharia... Está construindo um discurso a partir de outro discurso,
transgredindo-o, porque este o coage. Demonstro-o, tomando-o a partir de “glória”.
Chamo atenção para o escândalo do texto hebraico, que a tradução de A
Bíblia de Jerusalém ou negligencia ou esconde[4].
Ela traduz: “com efeito, sobre todas as coisas sua glória será um
abrigo...”. Equívoco grosseiro, eu lamento (porque minha versão de
cabeceira, por questões afetivas, é justamente ela).
A expressão al-kal-kavod, por nenhum
malabarismo, por mais polissêmico que seja um texto, pode sustentar uma inversão
do tipo que A Bíblia de Jerusalém
faz. Al-kal-kavod significa, apenas, e
literalmente, sobre toda glória. A glória
está embaixo. Ela não cobre coisa
alguma! Ela é que é coberta...
Eu
julgo que os tradutores dA Bíblia de
Jerusalém não perceberam esse “detalhe”, e acho que isso, porque se
deixaram tomar pelo sentido técnico-teológico de kabod
– glória. Quer dizer, em Is 4,2-6, com tantos termos teológicos sacerdotais,
só pode ser o Templo que fala, ou uma
hipóstase gelatinosa, algo como um “pequeno Israel pós-exílico”, citado
alhures... Como o Templo usa “glória” para representar Yahweh, e Yahweh é a
proteção, a sua versão deve colocar as coisas em seus termos próprios, lógicos
e esperados...
Mas
o que está escrito é “sobre toda glória”. Repito: a glória está em
baixo! Preparo-me para ouvir desde já o poema me dizer que, para ele – e, no
que me diz respeito enquanto exegeta, até onde posso ir como tal, para o escritor ou a escritora do poema – “glória” é o
camponês. E, se ele transgride o termo do Templo, eu o ouço dizer: o quê?
Yahweh no Santo dos Santos? Ta bom! Quer ver Yahweh? Olhe pra nós! Ei-lo, em nós,
Yahweh, isso se já não ei-nos, Yahweh...
Mostro
o olho com que ouço esse discurso. “Glória” divide os dois versos. O
segundo vai esvaziar radicalmente, semanticamente, o primeiro, dissolvendo a
ideologia dele, mais uma vez, mediante a referência ao camponês. Is 4,5 começa,
continuando o raciocínio de Is 4,4 (cf. adiante), dizendo que Yahweh criará
sobre todo lugar da montanha de Sião, e sobre as assembléias dela, uma nuvem
etc. Há, já aí, uma ampliação, porque Sião é, está certo, o lugar do
Templo, mas o discurso que se desenvolve ali considera que a nuvem estará sobre
todo lugar da montanha, e não mais – discurso do Templo – no Santo dos
Santos, e ainda precisa essa expressão genérica, “todo lugar”, por outra não
definitivamente unívoca: “assembléias dela”. Esse todo lugar corresponde
ao lugar das assembléias dela...
Desse
lugar já se pode dizer muita coisa. O
poema poderia ter-se servido de maqom,
se queria designar um lugar qualquer.
Em quase 380 ocorrências, a Bíblia Hebraica nos mostra como maqom
está à mão nos discursos judaicos, contemporâneos ou não. Mas não. O poema
– corrijo: o poeta ou a poetisa (aposto nela[s]) – utiliza o termo maqon.
Maqon é muitas vezes mais raro que maqom,
e infinitamente mais preciso: das 17 ocorrências, em 16 designa, adivinha, o
lugar da morada da divindade... Sim, senhores, não estamos diante de um poema
ortodoxo. Longe disso! Ouço o poema recusar-se a aceitar a clausura de Yahweh
no Templo. Seu lugar – seu maqon –
é todo lugar, isto é, todo lugar é maqon, e, veja-se lá, justamente o lugar das assembléias dela...
Se a identificação das assembléias dela com o lugar da presença de Yahweh já
parece heterodoxa, espere-se até a poetisa dizer, e dirá, que a própria glória
é o camponês!
O
que Yahweh está criando aí, sobre o maqon,
sobre as assembléias dela, é descrito através das figuras da “nuvem”, da
“fumaça” e do “esplendor de fogo de labareda”. Nuvem, de dia; os
demais, de noite – o que me lembra (e talvez a você) as cenas da Nuvem e da
Coluna acompanhando o “povo”, no êxodo que Êxodo
descreve...
Há
uma intenção em Yahweh ao criar isso que criará. O poema, já se sabe, a
poetisa, diz que isso será criado “para que” (ki, em hebraico). Naturalmente que estamos dentro do universo teleológico
do poema. É a utopia poética – e como poemas não têm utopias, é a utopia
do poeta (ou da poetisa? não me decido) quem dá um sentido a essa criação, já
ela, um caso de reinscrição transgressiva.
Para
que, diga-se logo, Yahweh criará o que criará? Há um nó que precisa ser
desatado. Apenas uma caminhada muito, muito atenta, e sem que a ponta do fio
seja largada, responde – e com que resposta! Essas coisas serão criadas ki
al-kal-kavod, ou seja, essas coisas serão criadas “para que, sobre toda
glória”... e, então, abre-se novo período. Esse novo período, todo o v. 6,
é a explicação do para que Yahweh vai criar aquelas coisas todas. E o que ele diz?
Diz
que o que importa é que um baldaquino e uma tenda sejam para, isto é, sirvam
de proteção contra o calor e contra a chuva: seja
para sombra de dia por causa do calor, e para abrigo e para amparo por causa da
chuva e por causa do aguaceiro. Esse baldaquino e essa tenda – aquelas
mesmas da Festa das Tendas, com
significados litúrgicos claramente político-teológicos – devem servir para
proteger do calor e da chuva. Isso é o que importa. Claro, mas proteger quem
está debaixo deles. Quem? O camponês! O que Is 4,6 quer é, mais uma vez,
fazer voltarem todas as atenções para o que importa: o trabalho do camponês
no campo, na lavoura, sob todas as intempéries e o calor escaldante do sol. É
isso que lhe interessa. O valor de todo o resto depende de sua relação com
essa necessidade.
Entrando
um pouco mais no discurso dos versos 5 e 6, no centro está “glória” – reinscrição
transgressiva das reinscrições
transgressivas. Esse termo, porém, funciona tanto como eixo dos versos 5 e
6, eixo em torno do qual os dois versos giram semanticamente,
transgressivamente, quanto como, sob outro aspecto, componente essencial e
estrutural do v. 5, cujos componentes, no conjunto e nas partes, encontram
correspondência gritantemente transgressiva no v. 6.
Observe-se
o quadro:
|
(...)
criará Yahweh
|
para
que
|
|
A
|
B
|
|
A’
sobre todo lugar da montanha de Sião, e sobre
as assembléias dela
|
B’
sobre toda glória
|
|
A’’
uma nuvem de dia e uma fumaça
e um resplendor de fogo de labareda de noite,
|
B’’
um
baldaquino, e uma tenda seja para sombra de dia por causa do calor, e
para abrigo e para amparo por causa da chuva e por causa do aguaceiro.
|
O
que transparece? A e B estão inter-relacionados, como estiveram, e na mesma
dimensão de esvaziamento teológico, os termos, tanto os internos quanto os
estruturalmente correspondentes, de Is 4,2 e 4,3. Em Is 4,5-6, B esvazia o
sentido teológico de A, ao mesmo tempo em que B’’ acentua o escândalo de
B’: no seu conjunto, o v. 6 determina a leitura do v. 5. B’ constitui a
chave de acesso ao encadeamento desteologizante do discurso. Seja em B
(explicitamente), seja em A (implicitamente, transgressivamente), objetiva-se,
como igualmente se objetivara nos v. 2 e 3, o “camponês”. É ele que está
debaixo da tenda, protegendo-se, no trabalho árduo do dia a dia no campo, do
sol e da chuva. Ora, no v. 6, está claro que ele, o camponês está debaixo
daquele baldaquino e daquela tenda, e que essa tenda e esse baldaquino o
protegem a ele, camponês, do sol e da chuva. Isso está claro em B’’, que
é parte do v. 6. Em B, isto é, no conjunto B’ e B’’, o camponês passa a
ser designado pelo termo “glória”. Acompanhe: “sobre toda glória” um
baldaquino e uma tenda seja(m) para, sirva(m) de proteção. Para quem? Para a
glória, que, se o baldaquino e a tenda lhe estão em cima, a glória, claro,
está em baixo, sendo protegida. Do quê? Já se viu: do sol e da chuva. Mas não
é o camponês quem é protegido do sol e da chuva... pela tenda? Sim. Mas, então...
Então o quê? Camponês e glória... Isso: o camponês é a glória! Isso a
versão dA Bíblia de Jerusalém não
pôde dizer...
Mas
o poema o diz, no seu hebraico não difícil de traduzir. Ainda que muito
subordinativamente encadeado, rigoroso no fôlego sintáxico que exige, o
hebraico de Is 4,5-6 é mesmo bastante primário. E, se agora for possível um
olhar para A, pode-se ver que A’ está para B’, assim como A’’ está
para B’’, da mesma forma como todo o A está para o B inteiro. “Glória”,
então, equivale a “todo lugar [maqon!]
da montanha de Sião” e “assembléias dela”. A “glória”, em A’,
deixa o Templo e se espalha por todo o monte, a ponto de, em B’, já a vermos
na qualidade do camponês debaixo da tenda... Bravo!
Bravíssimo!
Essa
mesma tenda de B’’ esvazia os sentidos dos termos teológicos de A’’:
nuvem? fumaça? esplendor de fogo de labareda? Senhores, o que nos interessa é
uma boa tenda no campo para nos proteger do sol e da chuva... Se essa nuvem aí,
essa fumaça toda, esse esplendoroso fogo de labaredas consumidoras e terríveis,
não servirem para a proteção no trabalho no campo, não têm mesmo
serventia... Discurso que salta à vista quando se percebe a relação
transgressiva entre A’’ e B’’, e que, não obstante, se perde, claro, à
custa de equívocos gravíssimos de tradução do hebraico, quando se descuida
dela. Is 4,2-6 é um enxame de reinscrições transgressivas. Uma extraordinária
ironia, uma ironia genial, uma ironia genial tecida em alvéolos
transgressivos...
Ironia,
sim, não fosse, contudo, o tom melancólico. A esperança arranca a ironia das
gargantas que declamam (cantam? ouço mais música que poema quando leio Is
4,2-6) o poema: mas ela sai de lá com um tom de profunda melancolia. Uma
consciente melancolia, eu diria.
Is 4,4 – camponeses em volta de mulheres
Quando tiver lavado
o Senhor o vômito das filhas de Sião
e o sangue de
Jerusalém ele tiver esfregado de dentro dela –
com espírito de justiça e com espírito
de extirpar –
Não
tenho dúvidas de que tudo quanto se diz em Is 4,5-6, se diz na dependência de
Is 4,4. É quando o v. 4 se concretizar, e só então, que as esperanças dos v.
5 e 6 poderão se concretizar também. Acho que não forço as coisas se
considero que o “naquele dia” de Is 4,2 igualmente se circunscreva nesse
espaço-tempo poético: “naquele dia (...) quando Yahweh tiver lavado (...)
Yahweh criará (...) e, então...”
tudo o mais se dará. A esperança melancólica que ressoa de cada verso tem uma
consciência política clara: Is 4,4 é a condição de todo o resto. Se
Is 4,4 se der (o “se” foi por minha conta, porque no poema ele não está
presente), quando se der, então se
darão, automaticamente, Is 4,2-3 e Is
4,5-6.
Por
isso Is 4,4 é fundamental. Sangue e vômito... Introduzo o que quero dizer
desse sangue e desse vômito recordando a maneira latino-americana de se referir
precisamente ao sangue. Trata-se, para o olhar teológico preocupado com os
pobres do Cone Sul, do sangue da violência contra
eles. É, por exemplo, a leitura de Croatto – de resto ilustrativa das
demais – que, apresentando sua percepção do significado de sangue em Is 4,4,
ao mesmo tempo desautoriza a minha:
Num
primeiro momento pareceria que o redator deste texto está pensando na purificação
do sangue feminino, já que Sião é representada como mulher. Mas tal referência
não é motivada pelo contexto; o texto, ao contrário, ‘lembra’ o sangue
dos crimes mencionados em 1,15. Dessa mancha de sangue Javé purificará Jerusalém
(CROATTO, p. 48).
Naturalmente,
para Croatto, “contexto” não é o contexto de Is 4,2-6, mas o contexto do
que ele trata como costura redacional pós-exílica do conjunto de Is 1-39.
Assim, Croatto pode “saltar” do sangue de Is 4,4 para o sangue dos crimes de
Is 1,15, assumindo os riscos. É o problema gravíssimo, ainda não
suficientemente discutido, sobre qual seja o contexto de fato das perícopes da
Bíblia Hebraica. Soubemos, no Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica, em
setembro de 2004, na Universidade Católica de Goiás, que há mesmo certo
“cansaço” histórico-crítico na Alemanha, onde alguns exegetas passaram a
olhar para o conjunto ou para grandes porções da Bíblia Hebraica. Os
norte-americanos já vinham nessa batida. Nesse mesmo Congresso, em outra conferência,
senti-me incluído na crítica de “chegar atrasado à pesquisa bíblica”,
pelo fato de usar (ainda?!) o método histórico-crítico – coisa dita
ultrapassada, démodé... Tudo isso é muito instrutivo. Eu mesmo poderia citar
Marcel Detienne que, em 1981, podia (já?!) falar assim: “vinte anos depois da
onda estruturalista[5]”
(DETIENNE, p. 9), isso entre confessando-se e desculpando-se, honestamente,
“por termos acreditado, em boa e cordial companhia, que, nesse campo, uma nova
reflexão teórica nos iria permitir escrever uma verdadeira gramática da
linguagem mítica”. Observou-se, ali, o “por termos acreditado”?
É
legítimo sentir cansaço, e mesmo adotar uma nova moda, inclusive uma alhures já
démodé (moda não é questão de
marketing?). O que não se pode é prescindir de determinar, para certa
comunidade de interpretação, o fundamento epistemológico e heurístico que
embasa uma investigação. Talvez Croatto esteja certo ao considerar a
possibilidade de um redator ter tomado o sangue de Is 4,4 como outro exemplo de
sangue derramado por meio da violência, e ter, por isso mesmo, colocado Is
4,2-6 justamente aí. Isso, contudo, não se pode depreender de
Is 4,2-6. Assim, Croatto pode estar correto quanto à montagem de Is 1-39 (o que
precisa ser sempre verificado[6]);
mas, até onde vejo, diferente do que ele afirma, não há nenhum elemento em Is
4,4 que possa, por um lado, vincular univocamente o sangue daí ao de Is 1,15,
quanto menos de interditar a sua vinculação semântica à fisiologia feminina.
Pelo contrário!
Por
exemplo: onde Croatto pôs o vômito? Certo. O termo hebraico pode não
significar vômito. Nesse caso, significa fezes. Seja vômito (minha aposta),
seja fezes (não apostaria nisso), o que isso tem a ver com a “violência”
de Is 1,15, sem que recorramos ao artifício de imaginar que, violentados, os
pobres, digamos, se esvaem em fezes? Ora, isso sequer passa pela plástica do
poema, e tanto que Croatto deixa o termo de lado, e trabalha com o argumento da
violência como chave de leitura de “sangue”, decisão, de resto, essa é
minha leitura de seu gesto, propícia à leitura latino-americana.
Croatto
o nega, mas o que acontece se ousarmos considerar a possibilidade de esse sangue
de Is 4,4 relacionar-se, sim, à fisiologia feminina? O que resulta daí?
Resulta uma referência à menstruação. Chamo a atenção do leitor para uma
passagem de Ezequiel (36,16ss): “a palavra de Yahweh me foi dirigida nestes
termos: filho do homem, a casa de Israel, que habitava a sua terra, contaminou-a
com o seu comportamento e com as suas ações, como
a impureza de uma mulher no seu incômodo. Tal foi o seu comportamento
diante de mim. Então derramei sobre eles a minha cólera, em virtude do
sangue que derramaram na terra...”. Alguma dúvida? Um povo menstruado, um
deus irado. A purificação está prevista (v. 25), mas nos termos, claro, dos
próprios acusadores... De qualquer forma, sangue derramado na terra, trazendo a
ira de Yahweh, e em contexto pós-exílico, pode, claramente, referir-se ao
sangue menstrual, resignificado, pelo Templo, como imundície e impureza.
Olho
Is 4,4 mais de perto, e vejo que há três termos aí relevantes: “vômito”,
“sangue” e “vento/espírito” (ruah).
Se, por hipótese, considero que esse sangue de Is 4,4 é o sangue feminino,
logo, menstrual, que acontece à volta dele? Sangue é o elemento central? Há
alguma relação espacial entre “sangue”, no centro, e “vômito” e “ruah”
nas bordas?
De
minha parte, cheguei à conclusão de que esse sangue é o sangue menstrual,
sim. A caminhada foi longa, e exigiu-me a análise das ocorrências de dam
(sangue) em toda a Bíblia Hebraica. Gastei muito tempo em Lv 15, e concluí
pela hipótese, já defendida em comunicação[7],
tratar-se, em resumo, da menstruação tratada político-ideologicamente pelo
Templo como justificativa para a interdição da intermediação feminina do
Sagrado. Pressupunha eu, então, a existência de uma liderança campesina
constituída de mulheres, a seu tempo e modo, profetisas e sacerdotisas. Fácil
imaginar que o contingente populacional remanescente em Judá durante o
“cativeiro” da golah,
relativamente maior em relação ao significativamente menor número dos
deportados, tenha politicamente se reconstituído a partir de sistemas locais de
liderança religiosa. Penso, por exemplo, em Ne 6,14: a “profetisa Noadias”
intimidando os esforços de Neemias, e não tiro os olhos das mulheres com asas[8].
Assim, entrevi, em Is 4,4, indicativos que, à luz de outros, apontavam para uma
liderança feminina organizada, político-religiosamente ativa.
Eu
antevia nessa liderança mulheres em papel de liderança. Logo, a disputa Templo
– campo passaria necessariamente por ela (por elas) sem que constituísse,
necessariamente, uma “guerra dos sexos”. Tratar-se-ia, se estou certo, de
disputa pela exclusividade de acesso ao Sagrado. Bem, se eram profetizas e/ou
sacerdotisas[9],
seu universo vital era a “religião”.
A
“religião” foi o espaço através do qual obtive a possibilidade de
relacionar, então, liderança feminina, interdição dessa liderança por meio
de uma teologia negativa do sangue menstrual, e a referência a “vômito”. A
saída foi tratar esse vômito como resultado fisiológico da prática
religiosa, o que poderia, caso que exige ser muito melhor aprofundado, ser
explicado pelo uso, na prática religiosa, de substâncias promotoras de
comportamentos extáticos. Há referências esparsas na Bíblia Hebraica, sempre
relacionando, em determinado nível, práticas proféticas e, ou ingestão de
“bebida forte”, ou vômitos: Is 29,9-10; 19,14; Mi 2,11. Em todo caso,
reconheço a fragilidade dos argumentos, nem tanto pela sua própria insuficiência
na qualidade de argumentos, mas pelo fato de não constituírem (ainda?) um
quadro mais “evidente”. Seja como for, não procuro contornar o termo “vômito”,
e proponho conciliá-lo com “sangue” por uma operação perfeitamente possível
histórico-socialmente. A hipótese tem a seu favor o fato de que, considerado o
“sangue” como indicativo da menstruação, e o “vômito” como o
resultado da ingestão de bebidas promotoras de estados alterados de consciência,
o conjunto sangue – vômito pode ser adequadamente situado na mesma grandeza
envolvida pela hipótese: o corpo das mulheres profetisas/sacerdotisas, líderes campesinas na
Judá exílica e pós-exílica.
Além
disso, se “vômito” deve denunciar a presença de um componente profético
na composição do poema, na outra borda, depois, de “sangue”, a dupla
presença de “ruah” poderia ser, assim, também justificada – trata-se da
profecia, nesse caso, feminina, interditada pela menstruação, acusada de
falsidade, inclusive, pela sua promoção induzida por meio de ingestão de
“bebidas”.
Se
o conjunto “vômito”, “sangue” e “ruah” estiver relacionado mesmo à
profecia feminina interditada pelo Templo, a cena desenhada por Is 4,4 é mesmo
“forte”: uma mulher menstruada, escorre-lhe o sangue, desde dentro, pernas
abaixo, enquanto, além disso, se vê também tomada pelos golfos do vômito,
resultado de sua indução extática... Se a cena é chocante, não deve ser
tomada como autodescrição que essa suposta profecia feminina faz de si mesma,
claro. Tratar-se-ia, antes, da descrição sarcástica e depreciativa que o
Templo faz da profecia feminina: um bando de mulheres ensangüentadas e
vomitadas, dupla imundície intolerável!
Se
leio correto o que leio, devo assumir que a resposta que Is 4,4 pareceria ser a
esse sarcasmo apresenta-se ainda mais aguda. A julgar por Lv
15, a
mulher menstruada, quando “limpa” de seu sangue, deveria apresentar-se ao
sacerdote, que, então, realizaria o rito de purificação (cf. Lv 15,28-30).
Quando se compara esse rito, o da purificação da mulher, com o outro que lhe
equivale, o da purificação do homem, salta aos olhos que, ali, no caso da
purificação do homem, diz-se que esse homem “virá diante de Yahweh, à
entrada da Tenda da Reunião” (Lv 15,13-15). Chama a atenção que dois ritos,
no resto idênticos, destoam, na letra, justamente no quesito ideologia teológica:
o homem comparece diante de Yahweh; a mulher, não. Por quê? Porque a menstruação
é tomada pelo Templo como a imundície das imundícies. Como essa mulher pode
imaginar-se diante de Yahweh?
O
quê? Imaginar-se diante de Yahweh? Não,
amigos – quem quer que escreva Is 4,4 vai mais longe, muito, muito mais longe:
Quando
tiver lavado o Senhor o vômito das filhas de Sião
e o sangue de Jerusalém ele tiver
esfregado de dentro dela.
O
Senhor, isto é, Adonay, vai lavar o vômito das filhas de Sião, ele mesmo vai
“esfregar” o sangue de Jerusalém de dentro dela! Se a imagem desenhada por
Is 4,4 é a de uma mulher suja de seu próprio vômito e de seu próprio sangue
menstrual, imagem de escarnecimento do Templo, então esse mesmo Is 4,4 devolve
a imagem, descrevendo essa mulher ensangüentada e vomitada, mas
sendo lavada e esfregada pelo próprio Yahweh. Sente-se o poder da imagem? Não
vos comove isto?
E
há mais: o verbo que traduzo por “esfregar” no verso “e o sangue de
Jerusalém ele tiver esfregado do meio dela” é um verbo raríssimo na Bíblia
Hebraica. A sua raiz ocorre apenas em quatro versos: 2 Cr 4,6; Is 4,4; Jr 51,34
e Ez 40,38. Prescindindo-se de Jr 51,34, um texto poético difícil de traduzir,
as duas outras ocorrências usam o verbo para descrever um ritual de lavagem de
partes do animal sacrificado para o principal sacrifício do Templo: o ‘olah
(holocausto). 2 Cr 4,6 diz o
seguinte: “Fez dez bacias; pôs cinco à direita e cinco à esquerda. Nelas
lavava-se o material dos holocaustos”. Ez 40,38 diz: “Havia um quarto que
comunicava com o vestíbulo da porta. Era o lavadouro das vítimas dos
holocaustos”. Nessas duas traduções que extraio da Peregrino, as formas “lavava-se” e “lavadouro” constroem-se
com a mesmíssima e raríssima raiz de Is 4,4, que traduzo esfregar, tentando deixar implícita aquela ação de, mais do que
deixar a água passar sobre a peça que se lava, esfregar essa peça enquanto se
deixa a água correr sobre ela: quer-se certificar de que ela está mesmo bem
limpa!
Essa
observação traz para a cena de Yahweh esfregando o sangue menstrual dessa
mulher, o sangue dela ainda dentro dela,
sequer derramado, ainda, o máximo é vê-lo descer-lhe pernas abaixo para o
espaço da comparação imagética ao cerimonial de lavagem dos pedaços do
animal a ser consumido em holocausto. Quem diria: essa mulher, dada por ensangüentada
e vomitada, menstruada e imunda, seja, é o que se dirá dela, vê-se a si
mesma, agora, no poema, como oferta a Yahweh, que ele
mesmo prepara para si, esfregando as
carnes dela... Caramba! Querem reinscrições transgressivas? Então toma!
Is
4,2-6 – reinscrição transgressiva como esperança na boca da liderança
feminina campesina da Judá pós-exílica
Agora
fica claro por que depende de Is 4,4
tudo o que se espera em Is 4,2-3 e Is 4,5-6. Sem ingenuidades políticas,
tratar-se-ia do discurso dessa liderança
campesina, liderança de mulheres,
que vêem na sua liderança o bem-estar do camponês. Não me parece, esse
poema, o canto do camponês, a lamúria do agricultor. Canto até pode ser.
Chego a imaginar homens e mulheres cantando essa música em algum momento de seu
trabalho, ou em torno da fogueira, à noite, nos vilarejos, enquanto esperam...
por aquele dia. Mas, se cantam os camponeses também, cantam porque elas os
ensinam a cantar, alguém sempre há de dar o tom...
Expulsas
dos espaços políticos institucionais, impedidas da prática pública da
liderança campesina, destituídas do papel de liderança político-religiosa do
povo dos campos, do “povo da terra”, essas mulheres articulam sua melancólica
esperança. Articula-se, nela, o seguinte quadro:
a)
a sua destituição
implica na usurpação dos espaços, dos poderes, das prerrogativas que, tendo
sido todos delas, agora estão em poder do Templo;
b)
o Templo tem
controle sobre os pronunciamentos, vigiando-os, o que explicaria o encadeamento
de reinscrições transgressivas com que se constrói o poema; esse encadeamento
dificulta sobremodo a leitura do
poema, porque pode levar-nos a engano, tomá-lo na suam dimensão de disfarce...
Se essa leitura (que vim de fazer) é (de algum modo) a leitura “original”
do poema, a dificuldade fica explicada: uma espécie de A
Banda dos camponeses de Judá...
c)
o bem-estar
dos camponeses é vinculado ao retorno ao status
pré-hierocrático: (ess)as mulheres
devem retornar ao poder; querem retornar ao poder – esperam por isso;
d)
a resistência
noológica dessa liderança apropria-se dos termos técnico-teológicos do
Templo, e, destituindo-os de sua carga ideológica, esvazia-os contra a expressão
ideológica da comunidade que pretendem tornar a liderar. Os valores pelos quais
anseiam é a relação cotidiana do camponês com a terra, seu orgulho e honra,
e vêem como necessidade institucional a providência de estruturas de proteção
e cuidado dessa gente. É na condição de plenamente satisfazerem tais
necessidades que as práticas religiosas têm relevância. Daí considerarem
ilegítimas as proposições e imposições do Templo, e, dada a esperança que
arrostam em canto, chegam mesmo a considerar que a situação destituiu dos
camponeses quer sua dignidade, quer sua proteção;
e)
a teologia
oficial do Templo é atacada: Yahweh, contudo, é raptado da clausura do Santo
dos Santos, e “encarnado” em cada camponês: “para que, sobre toda a glória...”.
Curiosíssima (o que significa) a ausência de qualquer apelo à deusa. Estamos
para muito além do século VI? Adentramos para lá do meio do século V? A
deusa já dorme seu sono, até que Maria desperte?
f)
entendem,
contudo, que a luta, no momento, não pode ser vencida. Nem o será pelo
enfrentamento puro e simples: apelam a Yahweh. Sabem que o golpe de misericórdia
do Templo foi a transformação do tabu da menstruação em impureza
interditante: formidável ação estratégica do Templo de Judá, com repercussões
milenares no Ocidente cristão! Ao lado dessa estratégia genial, a desvalorização,
e mesmo a exposição ao ridículo, da profecia – bêbadas! Naturalmente que
nada disso funcionaria sem o enclausuramento de Yahweh no Templo, sua marmorização
no aspecto litúrgico-teológico da “glória”, trancafiada no Santo dos
Santos e, de vez em quando chamada, por necessária questão de ordem, à Porta
da Tenda da Congregação. A saída é apostar na retratação do Templo, na
transformação das condições atuais – é como leio o brado melancólico,
mas esperançoso, o mármore de Yahweh lavando-lhe as partes ensangüentadas, o
colo vomitado... Não que aceitem a pecha. Nada disso. Não se tomam por sujas e
vomitadas, imundas e impuras. É que antevêem sua restituição pelo mesmo
recurso poderoso de mover a divindade. Ela interditara (movida pelo Templo); ela
desinterdita (movida, agora, por elas). Nesse estado de coisas, as idéias movem
homens e mulheres. “Não são apenas os
humanos que guerreiam por deuses e religiões, são, ao mesmo tempo, os deuses e
as religiões que guerreiam através dos homens” (MORIN, p. 45).
Tenho
tratado esse poema, no todo, como um cântico de melancólica esperança. Julgo
ser necessário acrescentar um termo à expressão, e dizer: uma melancólica
esperança frustrada. O Templo, até quando durou, jamais se retratou.
Reerguido depois, dos escombros judaicos, constituiu-se impassível Catedral
sobre os dois milênios do Ocidente. Mesmo quando se esfacela, mercê das Reformas,
cada tijolo desdobra-se em tantos outros templos... Neles, a menstruação ainda
pinta de vermelho muitos altares e púlpitos. Melancolia, esperança, frustração...
Não sem momentos de profunda alegria, aqui e ali, que talvez valham para esses
momentos mesmos, singularidades históricas desdobradas na irreversibilidade do
tempo (PRIGOGINE, 1996), mas talvez não para a história inteira... Esta, como
aquelas, ainda olham para frente, quem sabe, para
aquele dia...
Aquelas
mulheres devem ter achado seu lugar, bem como também os seus respectivos
lugares devem ter achado os camponeses “delas”, no sistema proposto pelo
Templo. Elas chegarão (não bem elas, mas seu vestígio estrutural) a arrancar,
de dentro da divindade, a figura da própria “deusa”, Maria, expondo-a ao
mundo como Mãe de Deus, depois da vitória romana do clero sacerdotal
masculino. Mas aquele sonho, aquele específico sonho, bem, era querer demais,
eu acho... Eram audaciosas demais aquelas mulheres. Yahweh não chegou a
tanto...
Notas
de referência
[1]
Dr. Haroldo Reimer, atualmente docente da Universidade Católica de Goiânia.
Refiro-me ao Mestrado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul
do Brasil, concluído em 2002. Atualmente (2006) curso o Doutorado em
Teologia, área de Antigo Testamento, na PUC-Rio.
[2]
Considere-se, nessa ordem, o recorte Jr 23,5 – Jr 33,15 – Zc 6,12 – Zc
3,8. O conjunto das ocorrências é: Gn 19,25; Sl 65,11; Is 4,2; 61,11; Jr
23,5; 33,15; Ez 16,7; 17,9.10; Os 8,7; Zc 3,8; 6,12.
[3]
Sugiro a leitura de meus artigos da série Vento
Tempestuoso, todos disponíveis em minha página de trabalho: www.ouviroevento.pro.br.
[4]
Custo crer que o comentário de Croatto não só tenha transcrito como
“texto” essa tradução equivocada, quanto a reproduza na sua interpretação:
“esta (a sua [sic] glória), por
sua vez, servirá de toldo protetor para o povo” (CROATTO, p. 49). Insisto
se tratar de equívoco de tradução e, conseqüentemente, de interpretação.
[5]
Detienne escreve essa frase em 1981, o que equivale a dizer que, na França,
em 1981, já se podia dizer que a “onda estruturalista” já havia
passado desde 1961. Nem fazíamos exegese histórico-crítica direito aqui
(começávamos), e o “estruturalismo” já se tornava pretérito lá...
Isso não prova nada. Mas é instrutivo no sentido de dizer que os doces são
comidos conforme o paladar, e a cronologia das escolas é sempre relativa
aos relógios e aos navios, porque a velocidade de importação às vezes
concede um ar de atualidade ao que, sob outra perspectiva geográfica, já
é anacrônico. Voltemos, pois, ao valor metodológico das abordagens, antes
que à sua maquiagem institucional.
[6]
De minha parte, temo que o esforço para a evidenciação das
macro-estruturas dos superconjuntos de perícopes venha se dando amiúde à
custa da atenção, diria, rigorosa, com as micro-unidades. O jeito com que
Croatto trata kabod em seu comentário
a Is 4,2-6 já deveria nos alertar sobre isso... Reconheço que é uma tentação,
vejo-me também tomado por ela, essa de escrever um comentário sobre todo
um livro ou mesmo sobre o conjunto deles. Mas o preço qual é? O de fazer
sangrar cada perícope, obter total controle sobre cada palavra de cada perícope,
ao mesmo tempo que sobre o sentido dessa perícope como um todo orgânico,
circularmente, recursivamente, o
todo dependendo do rigor das partes, as partes sustentando o todo, sempre
maior que elas.
[7]
V Simpósio Nacional da Associação Brasileira de História das Religiões,
acontecido em Juiz de Fora/MG, em maio de 2003. O texto da comunicação
pode ser lido em minha página de trabalho: http://www.ouviroevento.pro.br/congressosepalestras/interdicaofeminina.htm
[8]
Cf. a nota seguinte.
[9]
Para a presença de mulheres profetisas/sacerdotisas em Judá, quando do
retorno da golah, cf. meu artigo As mulheres do efa... disponível
em minha página de trabalho: http://www.ouviroevento.pro.br/textosacademicos/asmulheresdoefa.htm.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
CROATTO,
José Severino. Isaías. I: 1-39. O
profeta da justiça e da fidelidade. Trad. de Jaime A. Clasen. Petrópolis,
São Leopoldo, São Bernardo do Campo: Vozes, Sinodal, Imprensa Metodista,
1989. 247 p.
DETIENNE,
Marcel. A Invenção da Mitologia.
Trad. de André Telles e Gilza Martins Saldanha da Gama. 2 ed. Brasília:
UnB, Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. 248 p.
GALLAZZI,
Sandro. A Teocracia Sadocita
– sua história e ideologia. Macapá: edição do autor, 2002. 274 p.
MORIN,
Edgar. O Método 1 - a natureza da natureza. Trad. de Ilana Heineberg.
2 ed. Porto Alegre: Sulinas, 2003. 479 p.
MORIN,
Edgar. O Método 5 – a humanidade da humanidade: a identidade humana.
Trad. de Juremir Machado da Silva. 2 ed. Porto Alegre: Sulina, 2003. 312 p.
RIBEIRO,
Osvaldo Luiz. Vento Tempestuoso: um ensaio sobre a tradução e a interpretação
de Gn 1,2 à luz de Jr 4. Fragmentos
de Cultura, Goiânia, v. 12, n. 4, p. 573-598, jul./ago. 2002.
PRIGOGINE,
Ilya. O fim das certezas. Tempo, caos e as leis da natureza. Trad. de
Roberto Leal Ferreira. São Paulo; UNESP, 1996. 199 p.
SIMIAN-YOFRE,
Horário (co.); GARGANO, Innocenzo; SKA, Jean Louis e PISANO, Stephen. Metodologia
do Antigo Testamento. Trad.
João Rezende Costa. São Paulo: Loyola, 2000. 199 p.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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