Trata-se
de Lc 24,12. A cena toda, como agora se encontra redigida, dá conta de que
era o “primeiro dia da semana” (24,1), quando Maria Madalena, Joana, e
Maria, mãe de Tiago, bem como outras mulheres (24,10), “mulheres que tinham
vindo com ele da Galiléia (23,55), de madrugada (24,1), “foram ao sepulcro,
levando as especiarias que tinham preparado” (24,1). A pedra, contudo,
estava removida (24,2) e, dentro do túmulo, não acharam o corpo de Jesus
(24,3). Eis que, enquanto elas ainda estão perplexas, dois varões se
aproximam, “varões em vestes resplandecentes” (24,4), aproximam-se delas,
e, elas atemorizadas, eles lhes perguntam: “por que buscais entre os mortos
aquele que vive? Ele não está aqui, mas ressurgiu” (24,5-6a). Eles instam
a que elas se lembrem das palavras dele
(24,6b-7), e elas se lembraram (24,8). Elas, então, “voltando do sepulcro,
anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais” (24,9). Diz-se,
então, que, quando as mulheres contaram estas coisas aos tais que as ouviram
– os onze e todos os demais – “pareceu-lhes como um delírio as palavras
das mulheres e não lhes deram crédito” (24,11). Segue, então, o v. 12,
citado acima, segundo o qual, Pedro, porém, sim, teria dado crédito, e
tanto, que correra até lá, e pôde ver, com os próprios olhos coisa tão
admirável.
De
fato, essa particularidade é do conhecimento dos redatores de outro
Evangelho. Segundo Jo 20,1-10, Pedro voltou mesmo. Com isso
concorda João. Mas faz questão de
acrescentar sua parte da versão. Que é a seguinte. Maria Madalena (não se
fala das outras mulheres, só dela) foi ao sepulcro, ainda estava escuro, e
percebeu que a pedra havia sido removida (20,1). Maria Madalena, então,
correu “e foi ter com Simão Pedro e o outro discípulo, a quem Jesus
amava”: “tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram”
(20,2). A partir desse ponto, o leitor depara-se com um episódio muito
curioso. Eis o texto: “Saíram então Pedro e o outro discípulo e foram ao
sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais ligeiro
do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro; e, abaixando-se, viu os panos de
linho ali deixados, todavia não entrou. Chegou, pois, Simão Pedro, que o
seguia, e entrou no sepulcro e viu os panos de linho ali deixados” (20,4-6).
A seguir, então, o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, entra:
“e viu e creu” (20.8).
É
muito sugestivo que as duas histórias, a rigor, não se encaixam, com exceção
– justamente – da “informação” de que Pedro teria corrido ao
sepulcro, depois de avisado pela(s) mulher(es).
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Lucas
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João
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“Elas”
(24,1), ou seja, “as mulheres que tinham vindo com ele da Galiléia
(23,55), ou seja, Maria Madalena, Joana, Maria, mãe de Tiago mais as
outras (24,10)
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Maria
Madalena (20,1)
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No primeiro
dia da semana, de madrugada, elas (Lucas)/ela (João) percebem a pedra
removida do sepulcro (Lc 24,1-2; Jo 20,1)
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As
mulheres entram no sepulcro (24,3)
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Maria
Madalena não entra no sepulcro...
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As
mulheres, entrando, não acham o corpo de Jesus, admiram-se,
aparecem-lhes dois varões de vestes resplandecentes, que lhes informam
sobre Jesus estar vivo, e insta-lhes a se lembrarem das palavras de
Jesus, de que deveria ser crucificado, morrer e, ao terceiro dia,
ressuscitar, com o que elas se lembram (24,3-8)
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As
mulheres voltam do sepulcro e anunciam “estas coisas” aos onze e a
todos os demais (24,9)
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...
mas corre, imediatamente, para avisar Pedro e João (20,2)
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Todos,
tanto os onze quanto os demais, não dão créditos às mulheres,
considerando tratar-se de “um delírio” (24,11)
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Pedro,
sozinho (Lc 24,12)/acompanhado de João (Jo 20,3), levanta-se e vai ao
sepulcro
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João
chega na frente, mas não entra. Pedro chega a seguir, e entra. Depois
de Pedro ter entrado, João entra, e viu e creu (20,6-8)
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É
ou não é curioso? Além da informação tradicional – no primeiro dia da
semana – a única informação comum às duas narrativas é a de que Pedro
foi ao sepulcro. Se tomarmos a série Lc 24,11, Lc 24,12 e Jo 20,4,
deparamo-nos com a seguinte seqüência: 1) os apóstolos (os onze) e os
demais discípulos não creram nas mulheres, 2) mas Pedro creu, e foi até o
sepulcro, 3) com João, que, contudo, correu mais rápido, e chegou na frente
– ainda que Pedro tenha entrado primeiro, se bem que isso
porque João não quis entrar de imediato.
Curioso,
não?
Lc 24,11
> Lc 24,12 > Jo 20,4
A
cada avanço na seqüência, é como se a história fosse “corrigida”, se
já não “recontada”: eles não creram, quem?, os onze e os discípulos,
ah, sim, mas Pedro creu, porque Pedro voltou, ah, sim, é verdade, Pedro
voltou, mas não sozinho, João voltou com ele, e, aliás, chegou até
primeiro, e Pedro só entrou primeiro porque João deixou que entrasse.
Até
aqui, parece que essa história foi contada por Lucas e por João. Somando os
dois, temos esse enredo curioso.
Mas,
voltemos à passagem com que abri esse ensaio – Lc 24,12, conforme editada
pela Melhores Textos. Observe-se que
há um hagazinho, um pequeno h
suspenso, uma nota de referência. Pois bem, no rodapé da Melhores
Textos, pode-se ler:
h Em alguns manuscritos antigos não consta o versículo 12
Com
efeito, as edições menos confessionais
– ou, pelo menos, que se pretendem legitimadas por bases razoavelmente sólidas
de pesquisa – são unânimes em registrar – ou acusar – o fato: Lc 24,12 não consta do conjunto dos manuscritos gregos mais
antigos. O que significa isso? Significa que o autor de Lucas não escreveu isso que, agora, encontra-se no verso doze desse
Evangelho. Trata-se de um acréscimo, de uma glosa. Alguém acrescentou ao
texto de Lucas todo o conteúdo de Lc 24,12.
Muda
alguma coisa o fato de Lc 24,12 não ser original?
Naturalmente que sim, porque aquele enredo que extraí da soma de Lucas e João
passa a ser um roteiro escrito não a duas mãos, mas a três. O texto de Lucas
termina com a afirmação de que os onze e os demais não creram nas mulheres.
Alguém, um interventor desconhecido, acrescenta sua glosa política –
“mas Pedro, levantando-se, correu ao sepulcro etc.”. Ou seja, se os outros
apóstolos e os demais discípulos não creram, que seja, mas Pedro, Pedro não,
Pedro creu, sim senhor, e tanto que foi até o sepulcro e testemunhou – ele
mesmo – o admirável acontecimento.
Mas,
vamos com calma. Se não foi Lucas quem escreveu isso, se essa história de
Pedro correr até o sepulcro não é de responsabilidade de Lucas, se não está
em Marcos, nem em Mateus, como João
“sabe” disso? Sim, porque o Evangelho de João conhece esse episódio.
Bem, esse é um ponto controvertido. Lc 24,12 não se encontra em todos os
manuscritos mais antigos, mas encontra-se em alguns manuscritos muito, muito
antigos. Tão antigos, que se poderia imaginar até a possibilidade de duas
versões de Lucas correndo pelas
cristandades – uma, original, sem Lc 24,12, e outra, glosada,
com o acréscimo que transforma Pedro na exceção de fé dentre os apóstolos
e discípulos de Jesus. É que a glosa
foi feita muito cedo, provavelmente logo nos primeiros anos, na pior das hipóteses,
nas primeiras décadas, de circulação do Evangelho de Lucas. Uma vez que a
redação do Evangelho de João é bastante tardia – final do século
primeiro, início do século segundo, há aí um período de tempo considerável
entre a redação de Lucas (década de 60?, de 70?, de 80?), a glosa
de Lc 24,12 (década de 70?, de 80?, de 90?) e a redação de João
(a década de 90?, a primeira década do século II?, a segunda década?). Há
um espaço mínimo de uns vinte, e um máximo de uns cinqüenta anos entre as
duas redações, de Lucas e de João. Nesse meio tempo, alguém alterou Lucas, alteração essa que, mais tarde, terá servido bem a João.
Por
quê? Por que a glosa serve a João?
Porque não adiantaria nada – na eventualidade de a comunidade joanina
conhecer a versão lucana original de um Pedro incrédulo da ressurreição,
principalmente se, segundo tal versão (supostamente) original lucana, também
João conta-se entre os incrédulos - desmentir a glosa. Mas se eu, membro da comunidade joanina,
quero ter de meu herói-fundador, João, uma idéia heróica, é-me
extremamente interessante, oportuno e eficiente acatar a glosa
petrina – Pedro foi até o sepulcro! – e, inserindo-me dentro dela –
Pedro foi, sim, mas eu fui junto – fazer recair sobre minha comunidade a
vantagem de ser descendente daquele que primeiro lá chegou, mesmo antes de
Madalena, já que, segundo a tradição de João,
Madalena viu a pedra, mas deu a Pedro e a João – a João e a Pedro – a
primazia de entrar, ver e crer. Ela só entrará mais tarde, precisamente,
depois dos dois. É o que que - agora - se diz.
Eu
não me admiraria de, inclusive, toda a seção de Jo 20,2-10 não ser
exatamente da pena da comunidade joanina, e que a história contada ligasse Jo
20,1 diretamente aos versos 11 e seguintes, uma Maria Madalena heroína, a
primeira a falar com o Senhor Ressuscitado (20,14-17), anunciando a ressurreição
aos discípulos (Jo 20,18). Mas essa possibilidade levar-me-ia a uma digressão
maior do que aquela que já me permiti (dizem-me prolixo, e talvez o seja,
afinal). Seja como for, alguém conhece a história de Pedro, e alguém se
serve dela para, por meio dela, dar, também a João, o ar da primazia. Sinto
um cheiro de “acordo” em Jo 20,2-10 – um chega na frente, o outro entra,
e as duas “comunidades” fazem as pazes. Talvez estejamos diante de uma
clericalização regional, uma coalizão de comunidades, um rearranjo de tradições.
Pedro, enfim, entrou primeiro.
Interessa-me,
contudo, Lucas. Se não foi Lucas
quem escreveu Lc 24,12, se esse verso foi escrito por terceiros, resulta dizer
que a história de Lucas termina com a incredulidade dos apóstolos – todos,
Pedro e João, inclusive. O que isso significa, em Lucas
e para Lucas?
Testemunhas
oculares confundidas
Persigo
uma pista. Desde Lc 24, até At 1, Lucas – que a ele é atribuída a redação
de ambos livros – insiste em pôr em constrangimentos o conjunto – inteiro
– das testemunhas oculares, aquelas que teriam supostamente presenciado os
eventos relacionados à vida de Jesus.
Primeiro,
Lucas teria – em sendo verdadeira a afirmação de que ele não conhece uma
credulidade petrina, mas encerra a primeira parte do relato da ressurreição
com os onze e todos os demais considerando delírio a narrativa das mulheres
– confinado todos os discípulos de Jesus – testemunhas oculares – em um
cadinho de confusão e incredulidade: simplesmente não creram, quando as
mulheres lhe contaram que Jesus ressuscitara. Isso teria significado o quê? -
um "pobres discípulos, tão cansados", como quem diz -
"coitados, tão desanimados, a fé lhes parece faltar", ou, antes,
um "pobres discípulos, heim!", como quem diz - "que papelão,
heim, senhores, e logo de quem!, de quem se diz herdeiro das tradições, as
senhoras testemunhas oculares!"?
Segundo,
na seqüência da narrativa, descreve-se a descida triste dos dois discípulos
que se dirigiam a Emaús. Jesus – em pessoa – é posto a aproximar-se
deles. Eles, tão íntimos foram de Jesus, contudo, não o reconhecem, e,
quando vão dar contas de sua tristeza, mais, de sua frustração, surpreendem-se de que o forasteiro não
saiba que aquele que, eles esperavam, seria o remidor de Israel, jazia, agora,
morto, e sepultado. Sim, eles ouviram falar das mulheres e de seu relato admirável,
bem como do fato de que “alguns” haviam, de fato, instados pela narrativa
das mulheres, ido até o sepulcro, mas que, contudo, também eles não teriam visto Jesus lá. Ou
seja – eles sabem, mas, ao mesmo
tempo, nada sabem. Têm os dados –
a morte de Jesus, o sepultamento, tratar-se já do terceiro dia, o
desaparecimento do corpo de Jesus –, mas esses dados não se reorganizam,
dando corpo à informação fundamental: Jesus ressuscitou. Eles estão
confusos, aturdidos, perplexos, admirados. Perdidos. Um Jesus redivivo lhes
abre, então a Escritura e, subitamente, seus olhos se abrem. Jesus
desaparece. Eles correm de volta a Jerusalém – aí, os onze e os discípulos
estão reunidos, e, quando chegam os advindos de Emaús, descobrem, trocando
experiências, que “realmente o Senhor ressurgiu e apareceu a Simão” (Lc
24,13-35). Eles, então, finalmente, entederam? É isso que Lucas está
dizendo?
Aparentemente,
a narrativa parece avançar para deixar as coisas claras – ah, eles (os onze,
os discípulos, todos) creram. Mas ela continua. No meio deles, aparece o próprio
Jesus, e os saúda. Lucas diz que eles, então – quem teria contado a Lucas?
–, os onze, os discípulos advindos de Emaús, todos, ficaram
espantados, atemorizados – “pensavam que viam algum espírito”. Não,
não entenderam. Jesus
lhes mostra as feridas, mas, ainda assim, eles têm dificuldades para crer.
Não entendem, ainda. Jesus insiste – “tendes aqui alguma coisa que comer?”. Têm peixe. Ele
come. Jesus, então, diz Lucas, “lhes abriu o entendimento para
compreenderem as Escrituras”. Ah, talvez agora eles entendam. Posteriormente, Jesus ascende aos céus, os
discípulos, então, depois de o adorarem, voltam, jubilosos, para Jerusalém,
e passam a estar continuamente reunidos no templo (Lc 24,36-53).
O
segundo volume dessas narrativas, Atos,
acrescentará mais declarações constrangedoras para a "memória" dos
discípulos - das "testemunhas oculares". Depois de os
anjos terem aberto o entendimento das mulheres (Lc 24,6-8), depois de Jesus
ter aberto o entendimento dos discípulos, em Emaús (Lc 24,31-32), depois de
o próprio Jesus ter-se manifestado ao conjunto dos discípulos – os onze,
aqueles de Emaús, os restantes todos –, ter mostrado as feridas, ter comido
peixe, ter-lhes aberto o sentido das Escrituras, ter subido aos céus, ei-los,
agora, esses mesmos discípulos – e eis, novamente, Lucas, a constranger sua
memória – agarrados a velhas expectativas, rotas, equivocadas: "Senhor, é
nesse tempo que restauras o reino a Israel?” (At 1,6). Não lhes compete,
contudo, saber dos tempos e das eras, reservadas a Deus. Hum. Nesse momento,
Jesus sobe aos céus – e esses mesmos discípulos ficam com os olhos
estatelados, olhando as nuvens, por dentro das quais desaparece um Jesus
desenhado como incompreendido. Lucas não explicitara esse “detalhe” no epílogo do
Evangelho, mas, agora, faz questão de deixar claro que os discípulos, mesmo
Jesus tendo acabado de ordenar que seriam revestidos de poder para uma missão,
poder do alto – em Lucas, Jesus, inclusive, mandara que ficassem na cidade
–, permanecem ali, olhando para cima, como que, derradeiramente, confusos,
sem saber o que fazer. Um Jesus ressuscitado, ascendido, incompreendido. Uma
comunidade de discípulos, que viram, que ouviram, que viram e ouviram tudo de
novo, antes e depois da ressurreição, que viveram os fatos, que ouviram as
interpretações teológicas autorizadas desses fatos – ei-los ali, agora,
parados, olhando para cima, tão confusos que é necessário, diz Lucas, que
dois varões se aproximem – Lucas gosta de anjos e do Espírito! –: “Varões galileus, por que ficais aí olhando para o céu?”.
Novos
olhos, novos ouvidos – Pentecoste!
Lucas,
então, redige o capítulo triunfal – nascimento da Igreja paulina. A historia é suficientemente conhecida – uma leitura de
At 2 é suficiente para trazê-la à memória. O poder – prometido em Lc
24,49 e At 1,8 –, o poder, não, o Poder, desce do alto. Pedro é tomado –
literalmente. Prega o sermão inaugural da Igreja. Começam as conversões.
Pedro e João tornam-se líderes (os mesmos Pedro e João de João). A comunidade prospera. Enfrentam as
primeiras dificuldades sérias – internas e externas. Complexifica-se.
Organiza-se. Martiriza-se. Espalha-se. E surge Paulo.
É
o Senhor, pessoalmente, quem arranca Saulo de seu caminho, e faz dele Paulo. Não,
Paulo não foi – jamais – testemunha de coisa alguma. Mas qual a
necessidade disso? Os onze não o foram? E de que lhes valeu isso? Creram?
Compreenderam? Quer dizer, lá, enquanto viam e ouviam? Não – somente
depois, no derramar Deus, desde os céus, o Espírito, que puseram-se a falar,
a pregar, como se assim tivessem crido e sabido desde o início. Mas não –
Lc 24 e At 1 deixam claro que não creram, não, não sabiam, não, estavam
perdidos, confusos, incrédulos, vacilantes, e foi – apenas – a unção do
alto, o Espírito, Pentecostes, quem os encheu de fé e sabedoria, de força,
de ousadia. O Espírito, naquele dia – e desde então – arrancou-lhes os
olhos cegos da cara, os ouvidos moucos das orelhas, e lhes deu olhos de ver e
ouvidos de ouvir. Os mesmos que Paulo recebeu, pessoalmente do Senhor, na
estrada para Damasco
(...).
O
conjunto Lc 24-At 2 aparece-me como não apenas uma acusação de que, afinal,
ser ou não ser testemunha ocular de Jesus nada significa, e que o poder do
Evangelho se manifesta no e pelo Espírito, mas, também, e principalmente,
uma defesa do apostolado paulino – ou das comunidades originadas desse
apostolado –, apóstolo do Espírito, pelo Espírito, no Espírito – e
convocado pessoalmente pelo Cristo Ressuscitado.
Essa
forma plástica de retórica denuncia uma possível crise de autoridade,
baseada na crítica de que, afinal, Paulo nada sabia de Jesus, pelo fato –
óbvio – de que não o conhecera, não testemunhara absolutamente nada de
sua vida, de sua morte, de sua ressurreição – prerrogativa, está implícito,
dos apóstolos. O final do Evangelho
de Lucas e o início dos Atos dos Apóstolos parece constituir a resposta paulina
– que seja: da comunidade paulina – a essa crítica, a esse escárnio.
Se
Lc 24,12 constitui, de fato, uma glosa – é mais fácil admitir que foi
acrescentado muito cedo às cópias de Lucas,
do que admitir que alguém, em sã consciência, quiçá por equívoco, e nem
assim, suprimisse a informação então
lucana, tão importante, dum Pedro crédulo e, desde sempre, líder das
cristandades –, e se essa glosa deve ser explicada por meio da hipótese que
acabo de esboçar, então resulta plausível admitir que são representantes
das testemunhas oculares, lideradas por “Pedro” – conflitos políticos
internos das cristandades plurais e multi-clericais do primeiro século –,
os que produziem a glosa petrina: Pedro, o primeiro herói. O resto da história, já
esbocei, se ela foi mesmo assim como imagino.
É
checar, e ver. O que deve estar bem à vista é a possibilidade dos conflitos
políticos entre as comunidades – quantas! – cristãs – de todos os
tipos – do primeiro século terem esboçado mesmo o conteúdo das narrativas
que, agora, compõe o cânon. A ser correta uma tal hipótese, rotinas no
estilo de “Breve Harmonia dos Evangelhos” devem ser consideradas obstáculos
indesejáveis à adequada compreensão da histórica cristã tal qual ela
efetivamente se deu. Não se pode somar, tem-se que dividir, separar, pôr
cada pronunciamento em seu contexto, em seu conflito, e observar o conjunto
tal qual ele se dá à nudez dos olhos críticos – conflito, front,
estratégias, negociações..
Oh,
sim, Jesus veio mesmo trazer a espada a terra. Com uma, Pedro arrancara a
orelha de um Malco. Com outra, podemos estar cortando as nossas próprias,
quando, no afã de somar tudo, de tudo manter na harmonia amorosa do céu,
dissimulamos o calor mais infernal da história humana, os conflitos, as
disputas – claro, também o encontros, por que não?, mas, por favor, sem
esconder as rusgas, essas, sim, fundamentais –, que marcam definitivamente a
agenda dos discursos bíblicos. Não, não. A agenda não é celeste. É
humana, demasiadamente humana.
É
que somos assim. Sabemos o que dizemos, quando insistimos que Deus fez questão
de fazer-se, também ele, assim?
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –