Blogdosvaldo

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Encantamento

A ânfora do meu peito até é forte, mas guarda, relicário, frágil flor. Encanto os teus olhos. Se guardam bondade, abre-os sobre o dente-de-leão, e derrama-a. Se não, fecha-os longe daqui, e deixa-me só, que me basta o vento na carne.

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1 Rabiscos primeiros (entre 26/08 e 03/10/2006):

I. As Folhas da Paraná   II. Boas lembranças da Pobreza   III. Meu amigo de plástico   IV. Cabeça de cera   V. Um guepardo na savana   VI. Ah, o amor...   VII. Me arrependo, sim   VIII. Minha vó   IX. Meu avô   X. Meu pai   XI. O quintal   XII. No MOBRAL   XIII. Quero meu Brasil de volta   XIV. Um menino solitário

 

2 Rabiscos segundos (a partir de 18/10/2006):

XV - Um cadim de tristeza   XVI - Ensinar teologia é ruim   XVII - Mas, como assim, meia-verdade?   XVIII - Educação teológica e política   XIX - Olho de mim   XX - Mais uma disciplina, menos uma disciplina   XXI - Vinte anos, e quero mais   XXII - E nós, pastando... XXIII - Graças a Deus não sou engajado!   XXIV - 06/08/2008 - sou Doutor!

 

 

 

 

(XV)

Um cadim de tristeza

Ando já há mais de um pequeno punhado de dias com um cadim de tristeza. É depressão. Nome "novo" para uma velha companheira.

Minha adolescência foi marcada pela tristeza de fundo. Já devia ser depressivo, e não sabia. Àquela altura, achava-me tomado pela nostalgia própria da adolescência (daquela época). Qualquer música em tom grave me arrepiava, me deixava macambúzio, taciturno, lúgubre, soturno, todas essas palavras que ia colhendo no dicionário, atrás de um nome para a tristeza. Hoje, a chamaria blues. Como sempre, démodé.

Não saberia dizer se minha companheira, a tristeza, era tópica. Não saberia dizer se ela era consciente do chão de e em que brotava. Apenas sei que ela estava lá, em todos os momentos.

Mas o curioso é que, apesar dela, sempre tive um profundo desejo de ser feliz. A felicidade é, ainda hoje, a minha meta. Ainda que, vá lá entender, a tristeza faça parte do projeto - ser feliz, sem ser triste, não me parece, a mim, possível...

Penso que esse desejo de ser feliz tenha sido um dos responsáveis pelo "sucesso" de meu casamento. Nada, absolutamente nada, é mais importante do que minha felicidade. Assim, aquelas pequenas arengações, ou as grandes, aquelas mínimas escaramuças, ou as grandes, aqueles corriqueiros maus-humores, e os extemporâneos, nada, absolutamente nada, até hoje, foi mais forte do que meu projeto de ser feliz.

Bel deve ter a receita dela. Eu, a minha. E ela é essa: triste, sim, por definição e conjunção dos astros - mas, independentemente disso, feliz.

Loucura? Maturidade? Lucidez? Eu tenho para mim que se trata, sob algum nível, de um excesso de honestidade pessoal, de percepção. Tá, lucidez. Não negocio com o real, não o minimizo, não o disfarço, não o escondo, não o contorno. E tanto que, é verdade, tenho do real uma noção sempre hiperbólica. Os problemas são hiperbólicos. Os pecados, paquidérmicos. Os medos, colossais. Não me permito menos. Hiperbólicos, paquidérmicos ou colossais que sejam, não os contorno. Sofro deles até a última estocada.

Ainda que peça ao vento que os leve embora, para bem longe. Dificilmente sou atendido. E, então, remédio?, enfrento meu medo, chorando, mas de pé.

Não sei quem sou. De que massa se constitui meu núcleo. De que cor, a minha alma. De que elemento químico da Tabela Periódica, meu corpo. É líquido, como o boro e o mercúrio? É gasoso, como o nitrogênio? Sólido, como o carbono? Ou, no fundo, é um sintetizado, como o último elemento produzido em Berkeley, o 118? Minha consciência pessoal seria uma paródia físico-sociológica do ciclotrom? Não sei quem sou eu.

Sei que vivo. Cada dia. Triste, sempre, mas buscando, inexoravelmente, a felicidade. Relevando muita coisa, por causa da felicidade. Minha mente esquece facilmente das coisas. E talvez isso seja um indício metodológico bio-psicológico de minha existência. Para que alguma coisa ocupe minha memória, tem que ter sido muito profundamente bom ou muito profundamente mal. Mais do que uma marcação cognitiva, tem que ter exercido em minha experiência uma marcação afetiva.

De vez em quando, peço a Bel que me conte, de novo, partes de nossa vida. É que esqueço. E Bel tem uma memória incrível para o dia-a-dia. No início, ela se aborrecia com minha amnésia. Hoje, não mais. Ela sabe que esse sou eu, e não é uma questão de querer. É uma questão de ser. Sou assim.

Não obstante, não sei quem sou.

O que é, meu Deus, que está acontecendo comigo? Que dias são esses que vivo? Que cortina se prepara para ser desvelada?

Tristeza, que me contas?

18/10/2006 9:29

 

 

 

 

(XVI)

Ensinar teologia é ruim

Deus vai me perdoar, mas ensinar teologia é muito ruim. Digo aí que Deus vai me perdoar, fórmula que, em língua portuguesa, tem efeito de jussivo, de pedido, e equivaleria à fórmula "que Deus me perdoe", não pelo fato de achar que Deus tenha dado incumbência a nós outros, que ensinamos teologia, e que, tendo-o feito, agora cobre índices de produtividade, como no Sl 53, onde, tendo entregue aos filhos de Adão, isto é, ao rei e aos seus oficiais, o governo da cidade, agora se debruça desde seu templo celeste para fiscalizar o serviço, para desgosto seu. Para mim Deus não tem nenhum interesse particular por teologia. Pelo menos não nenhum além daquele que tem, por exemplo, por gastronomia, latim ou paleontologia.

Gosto de pensar que Deus se interesse, pura curiosidade excêntrica, por tudo quanto interesse a nós, seus bichinhos. Nesse caso, ele até se interessa por teologia - porque teologia nos interessa. Mas não é que teologia tenha lá alguma coisa de especial. É o que é - teologia. Não é a mesma coisa que filosofia, por exemplo. É teologia. É diferente. Mas não é especial. Ainda que haja quem pense que seja. Eu até aceitaria a tese de Barth de que Deus nos conte a teologia tal qual ela é, tirada a retórica com que a gente finge que é pra não confundir revelação com teologia, mas somente se eu pudesse aceitar, por exemplo, que Deus nos tenha contado o que sabemos sobre numismática. Posso até aceitar que ele nos dê uma mãozinha enquanto trabalhamos, numismatas e teólogos, mas que ele exerça a profissão, faz-me rir.

Deus vai perdoar, então, é um modo de dizer que tudo debaixo desse sol amarelo de quinta grandeza passa debaixo dos olhos dele, e não fica bem que eu me ache a resmungar das coisas que faço, justamente no instante em que a carruagem celeste passa sobre minha cabeça.

Eu não precisava dizer aquilo, porque Deus e eu nos entendemos muito bem. Somos como aquele casal, casados de anos, muitos anos, que, sentados em sofás, na sala, lêem, por, digamos, três, quatro horas, e não dizem nada um ao outro, entre si, simplesmente porque não precisam dizer, não há mais palavras a dizer, apenas subir das páginas os olhos, lançá-los em direção ao corpo amado, sorrir pra dentro, e sorrir pra fora, e voltar a ler, até que o outro, levantando, vá até a pia, peque dois copos de café quente, um pra cada, servido após um beijo.

Não há mais muita coisa para ser dita entre nós. Não tanto porque não haja segredos entre nós - sempre há segredos. Mas pelo fato de termos chegado àquela altura do relacionamento em que as palavras são supérfluas. Os olhos dizem tudo. As palavras de nossas conversas são pronunciadas pelo músculo cardíaco - até que pare, um dia, de escrever sintaxes vermelhas.

Se eu disse que Deus vai me perdoar, disse pra você ouvir, e não ficar aí pensando asneiras a meu respeito. Verá o rio de pecados que flui da minha insônia, se já não viu, vai ficar excitadíssimo de ver tanto pecado, se já não ficou, mas, então, vai lembrar que Deus é bom, que disso a gente sempre se esquece, e que, afinal, eu pedira seu perdão antes do vômito, que ele dá, não o vômito, mas o perdão.

Você me dá mais trabalho do que Deus.

E essa é uma razão, dentre muitas, por que eu considero ensinar teologia uma coisa ruim. Veja: não seja tonto! Não disse que teologia é ruim. Eu, simplesmente, adoro teologia. Disse, isso sim, que ensinar teologia é ruim. E a principal razão é pelo fato de parecer que você está empurrando um caminhão, ladeira acima. O caminhão tem dois pneus furados. Os outros dois, estão tentando vencer um pedregulho cada um. A marcha foi deixada em ré. E lá estou eu, criatura inútil, fazendo força. Quando será que o caminhão vai subir a colina? Quando ele quiser. E, pelo que estou vendo, ele não quer. Tem dias em que o caminhão pára ali mesmo, e canta aquela marchinha do Paquito e do Romeu Gentil. Aí, nem Jesus empurrando, meu amigo... E nem me venha achando que a heresia é isso aqui, porque a gente mesmo crê, e até hoje, que houve um monte de caminhões judeus que Jesus não pode empurrar, quando esteve aqui. Pois então...

É ruim, porque tenho que fazer força. Conversar sobre teologia com Deus é fácil. Basta fechar os olhos, e passar o dia pensando, que pensar é falar com Deus, se me entende. Na rua, andando, na rodovia, dirigindo, em casa, fazendo isso ou aquilo, é só querer, e Deus ouve você. Coisa incrível, Criador de Tudo e de Todos, ocupadíssimo que deveria estar, nunca está, para te ouvir. E te ouve. Sempre. Vai ver não é Criador de Tudo e de Todos, e tem todo tempo do mundo. Sei lá. Esse é um dos segredos que ele guarda de mim.

Mas dar aulas de teologia, não. Aí é uma força danada, uma canseira dos diabos. Tivesse eu índole messiânica, espírito místico-carismática, ou alguma esquizofrenia pseudo-espiritual, contentar-me-ia, para gozo da alma, em considerar que, quando dou aulas de teologia, proferindo tantas e tão contundentes verdades, que sequer os anjos cogitam, apavoradíssimos, os diabos todos entram e saem pelos ouvidos dos alunos, fazendo-os moucos. Não seria genial essa perspectiva? Eu, contra todos os diabos daqueles céus lá que Paulo disse haver, mas que, a gente sabe, quem disse pra ele foram os apócrifos, daí, a gente ficar sem saber se exatamente eles estão lá ou não, que Paulo até saberia, mas, tendo aprendido dos apócrifos, vai ver eles tiveram foi alucinação. Eu, ali, dando a aula de teologia, enfrentando todos os diabos, tornar-me-ia um escolhido, um ungido, logo ascenderia à condição de arcanjo - não passaria pela graduação de pastor e apóstolo, coisas já banalizadas no banalizado Novo Mundo Evangélico nacional, tantos apóstolos que logo um há de meter o dedo na cara do outro, que é assim que se faz, quando começam a dar cabeçada. Quanto a mim, iria direto para a categoria de Miguel.

Mas essa baboseira não me convence mais. É a idade, ainda que, é verdade, Don Quixote não fosse um púbere a transpirar de hormônios. Ali, dando aulas, sou um inútil mortal, com um cérebro de enzimas e carbono, produzindo descargas sinápticas e elucubrações noológicas. Um cego, ávido por luz, tateando no escuro, porque não tomo por luz o que a teologia assim considera. Logo, não posso fazer-me demiurgo a mim mesmo, porque sou, pelo menos, honesto comigo mesmo.

Dar aulas de teologia é, então, ensaiar vôos. As asas têm que bater, fortes. Mas os pés nunca podem sair do chão. E é difícil, porque, diferentemente de uma aula de matemática, em que o professor diz pro João que um mais um é dois, e João aprendeu que um mais um é dois, em teologia não há o que ensinar, nem o que aprender, só o que observar, criticamente, dizer, criticamente, apontar, criticamente, insinuar, criticamente. E, quando você faz isso, quando se tenta pensar, dói. Ou dói, porque o pensamento balança as estruturas, e todo confessional sofre de labirintite aguda, ou dói, porque há confessionais que  se consideram guerreiros, e ver a cidadela sob ataque, que é como entendem a situação, é afronta demais - ainda mais vindo de quem!

Às vezes é um saco. Se pelo menos eu tivesse uma visão do futuro! Se pelos menos eu soubesse que valeria a pena! Mas nem sei do futuro, nem sei se vale a pena. Às vezes, é pelo arroz e pelo feijão que saio de casa. Vivesse eu de luz, não ensinaria teologia. Maldito pássaro aquele que deu comida pra Elias, mas só pra ele. Nossa caverna não comporta um homem e um passarinho.

Outros dias, não. Outros dias as coisas parecem melhores. Não é que recebo aplausos, não se trata disso, mas parece que, naquele dia, pensar foi uma proposta acatada. Talvez seja um daqueles dias em que recebemos salário, todos da sala; ou em que as famílias nos beijaram a cada um; ou em que vimos um filme, e estávamos, ainda, lá; ou que o sol foi particularmente quente e sorridente, e, então, tudo parece bom e confortável, e a aula do Osvaldo seria um excelente modo de fechar esse maravilhoso dia. Uma distração!

Nesses dias, até esqueço que gostaria de não dar mais aulas de teologia. A lucidez, contudo, me recorda que vai passar a calmaria, o Setentrião vai soprar, e as telhas da cabana do Cícero voarão para todos os lados. Teologia voltará a ser um esforço. Bel diz que isso é doença, que, em vez de eu ficar, durante a alegria, lembrando que a dor vem pela manhã, deveria curtir a alegria, que a dor se dane, quando chegar. Ela é sábia. Por isso não dá aulas de teologia.

Uma solução era poder dizer sim e não. Quando um aluno qualquer desse um chilique, eu, então, do alto da propriedade irrefutável da verdade, posse genética dos gênios e ungidos, poria o dedo carismático em riste, e colocaria o menino ou a menina no seu devido lugar. Mas não posso fazer o que não posso fazer. Não há como "mostrar". Só, dizer. E digo. Ou fico só olhando, e rindo. O retorno adequado seria o diálogo, mesmo quando o que eu digo não combina muito, vá lá, para dizer pouco, com as opiniões pessoais, religiosas, teológicas - que estudante de teologia é o único estudante que já sabe tudo antes de se formar (teologia não é curso, é iniciação! É ritual de passagem!). Mas não. Às vezes, sinto chamas ardendo nos olhos. Às vezes, dor. E uma dor inútil. Porque vejo que sofrem alunos que não precisavam sofrer, porque a dor que sentem, eles mesmos a produzem, ferindo-se, como aquele moço, coitado, do Código da Vinci, que achava que o quadro de Jesus estava ali para testemunhar sua flagelação, ou aquele padre de Carnevalle, que também acha que o sangue das costas é caro ao Cristo da cruz, que quer, na carne dos outros, a mesma dor que ele teve. Ele, justo ele, que nem a dele queria, mas é bem mandado.

Geralmente, professores de teologia têm uma aura messiânica. Os alunos, de defensores da verdade. Ou é uma correição de discípulos, todos às barras do manto sagrado da cátedra e do catedrático, ou um corredor polonês, a dar murros retóricos na besta do mestre. Tudo, lá e cá, em nome da verdade, sob a égide de Deus, mercê da graça de Jesus, pela ação do Espírito. E o que eu queria era apenas falar de teologia, criticamente. Tá, até sei que há alunos que pagam o que pagam, e, ainda assim, não querem ouvir nada que já não saibam, ou que, ouvindo algo novo, que seja tão-somente o desdobramento natural das verdades que já trazem na barriga. Têm seu direito. E seu dinheiro. Mas eu não quero isso pra mim - nem como aluno, nem como professor. O que eu quero, é dizer o que penso, criticamente, seriamente, honestamente, dignamente, transparentemente. Nada de falseamentos retórico-homiléticos. Nada de velamentos racionalizadores. Nada de silogismos viciados. Nada de andarmos sem roupa em sala de aula, fiscalizando se, nela, não entrou um menino que, por profissão, tem por encargo dizer o óbvio - ei, vocês estão pelados por quê?

Não, não sei se vale a pena.

E, justamente por que não sei, ainda vou continuar. O dia em que obtiver minha resposta, talvez, se ela for sim, eu permaneça, talvez, se ela for não, eu pare. Mas só talvez. Amanhã está longe demais. A insônia é um ser alienígena, que nos possui, e faz sofrer delírios. É melhor esperar.

Enquanto espero, dou aulas. Entro na sala de aula, conto as cabeças, e pergunto a Deus: que me tens reservado hoje, amigo? Vou sangrar mais um pouco? Aí, talvez ele me dissesse - nunca disse, não sei por que: pára de se lamuriar, rapaz. Não quer fazer, não faz. Se faz, cala a boca e faz.

E, tendo ouvido o que acabo de ouvir, deixa eu sangrar mais um pouco. Deus está num mal dia. Eu, numa noite mal-dormida.

19/10/2006 4:58 

 

 

 

 

(XVII)

Mas, como assim, meia-verdade

 

"A problemática da verdade não é eliminável. Quando Chatelet escreve imprudentemente que não há verdade, ele formula a sua verdade, a da ausência de verdade, isto é, uma verdade em segundo grau, uma metaverdade mais verdadeira que as (aparentes) verdades. A noção de verdade, mal foi expulsa, ressurge de modo novo, com um estatuto novo" 

Edgar Morin, Para sair do século XX, p. 199.

 

Às vezes dá vontade de sair correndo e largar tudo. Sei, é pura imaturidade. Mas, raios, dá pra ser maduro o tempo todo? A maturidade é nunca querer sair correndo? Ou é, ainda que a porta esteja aberta, os pés saberem que têm que ficar?

Deixe-me começar de novo. Há um provérbio bíblico. Ei-lo: "mais vale um cão vivo, do que um leão morto". Interessante. O que significa? Digo: depende. Depende de quê? Depende de quem disse, de quando e por que disse. Explico. Se quem diz tem interesse em manter vivos os cães, mas os pode matar, se quiser, o ditado significa: lambam meus pés, cães vadios, ou eu os chuto a cara agora mesmo com essa bota. O cão vai decidir se mete o rabo entre as pernas, e lambe, e vive, ou se morde o canalha, e morre.

Agora, se quem disse o ditado é a mãe do cachorro, tudo muda. Ela vê a bota do canalha na cabeça do filho. Sabe que o cão vai morder a canela da escória, porque o filho, que parece cão, é um leão, disfarçado. Não vai render-se, humilhar-se. Não vai lamber a bota. E vai morrer. Mas ela, a mãe, o ama. Não quer que ele morra. Não morde, não, meu filhinho. Vive. Fica vivo. Mas mãe, viver como cão? Sim, meu filho, melhor do que morrer como leão, e, eu, só...

Onde está, aí, a verdade? A verdade está na relação interna do discurso, no seu nível pragmático. Fora do nível pragmático, não há verdade no ditado. Assim, flutuando fora do eixo práxico da vida, o ditado é como uma palavra num dicionário: é tudo, é nada, depende.

Digo isso depois de ler esse poema do Carlos Drummond de Andrade: Verdade.

 

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

 

Não fui ao Oráculo checar se era do Andrade mesmo. Tomei-o do blog do Noblat, postado lá, ontem de noite, às 23:45. Ele costuma pôr poemas lá. E eu costumo lê-los. Esse, merece comentários.

Seja do Andrade, seja do Noblat, está fora de seu contexto "original". Não sabemos exatamente o que se quis dizer com esse poema, e, agora, nós, quando nos aproximamos dele, temos de o fazer falar.

Independentemente de seu contexto, quando era "texto", esse poema, agora, constitui nada mais do que uma "narrativa". Sua estrutura sintáxica está tecida, disponível, mas seu eixo hermenêutico de entrada, que revelaria à sintaxe o eixo epistemológico de leitura da "narrativa" como "texto", não está mais disponível. Em que o autor estava pensando?, o que o motivou?, qual o referencial sintagmático que abrirá o silêncio arqueológico do poema?

Deixo a questão pra lá. E entro no poema com outra pergunta. E sobre a verdade. Na verdade, sobre a meia-verdade. Porque o poema parece inteligente. E deve ser. Mas só pela metade. Porque, veja, ele fala da grande surpresa que espera aqueles que tentam vencer a impossibilidade de serem vistas as coisas na sua plenitude. O que cada um vê, é parte da coisa - é meia-verdade. Querendo que tudo seja visto, ao mesmo tempo, arromba-se a porta, e, lá dentro, eis que as coisas são sempre metade das coisas. Não há coisas-inteiras, só coisas-metades.

Pois bem: se o poema diz a verdade, quando ele diz que só há meias-verdades, então só há meias-verdades e, conseqüentemente, o que ele próprio diz é uma meia-verdade. Sim, pois se só há meias-verdades, dizer que só há meias-verdades é uma meia-verdade. Logo, a declaração do poema, de que só há meias-verdades torna-se, por sua vez, uma meia-verdade.

Mais: se o poema diz que só há meias-verdades, e, quando diz isso, pretende estar dizendo uma verdade, então o poema mente. Sim, porque acredita ser verdade (e verdade inteira) que só haja meias-verdades. O que não é possível, porque, se só há meias-verdades, o poema não pode mais crer em verdades que não sejam meias.

Das duas uma, então: ou 1) o poema mente, quando diz que só há meias-verdades (sim, porque, nesse caso, concordando com a intenção do poema de dizer uma verdade, há, de fato, verdades que não sejam meias), ou 2) mente quando diz que isso que diz é uma verdade (devendo ter dito que isso que diz, isto é, que só há meias-verdades, não é verdade, é meia-verdade).

Está bem, 1) o poema mente quando diz que só há meias-verdades. Porque o poema faz que haja, pelo menos, uma verdade, a saber: a do próprio poema, que pretende saber, como verdade, que só há uma verdade, a sua ("só há meias-verdades"), sendo, as demais, meias-verdades. Mas se a única verdade que há é o que ele diz, que é que só há meias-verdades, como essa única verdade pode ser uma mentira - já que existe pelo menos uma verdade? Que tipo de verdade se pretende essa que, para constituir-se, deve tornar-se mentira logo que sai da boca, logo que nasce na mente?

Se o poema mente quando afirma que só há meias-verdades, mas o que ele está dizendo não é verdade, é uma meia-verdade, então não faz sentido dizer que só há meias-verdades, porque essa própria afirmação é uma meia-verdade, que anula o caráter de verdade do que se pretendera dizer com o tal.

Está bem: 2) se o que o poema diz é meia-verdade, e ele diz que só há meias-verdades, então não é de todo verdadeiro que só haja meias-verdades. Ora, se não existem apenas meias-verdades, o que existe? Para responder, deveríamos saber onde está o acento: na expressão meia-verdade, a tônica está em "meia" ou em "verdade"?

Se a tônica está em "meia", então o poema mente ao dizer que só há "meias"-verdades. Se ele mente aí, então há verdades que não são "meias" - são "inteiras". E o poema não é uma delas, porque mente. E mente, porque, se há verdades inteiras, ele diz que só há verdades pela metade.

Se, agora, a tônica está não em "meia", mas em "verdade", então o que o poema diz é que não há (nem) meias-"verdades". O que há são mentiras inteiras, ou não-verdades. Nesse caso, o poema, dizendo que só há meias-verdades, está dizendo uma não-verdade.

É bonito ver as palavras escorrendo no papel, Andrade. Mas é só bonito. Não têm substância.

De mim mesmo, penso o seguinte sobre a verdade, sejam meias, sejam inteiras, sejam mentiras, travestidas. A questão da verdade é uma questão pragmática, que deve ser resolvida dentro de um quadro epistemológico fechado. É a partir de um referencial concreto, assumido, tópico ou meta-tópico, que a avaliação da verdade se realiza.

Os dicionários não dizem verdades. Nem mentiras. Os ditados não dizem verdades. Nem mentiras. Quando um de nós usa uma palavra do dicionário, diz uma verdade, ou uma mentira, ou, vá lá, uma meia-verdade, ou uma meia-mentira. Quando um de nós dita um ditado, se não está em gincana de memória, mas aplicando sintaxe à vida, a este momento aqui, agora, diz uma verdade, ou uma mentira.

A verdade é relativa. Não gosto dessa palavra, porque há quem a use contra quem se utiliza dela. Prefiro o modo com Nietzsche dizia a mesma coisa - perspectivista. A verdade é perspectivista. É questão de perspectivismo. Não significa que depende de quem olha. Depende do ponto a partir do qual se olha. Qualquer um, nesse mesmo meta-ponto, pode ver o que o outro vê.

Para que a verdade seja decidida, é necessário recortar o real, a cena, o evento. É necessário desmembrar as partes constitutivas desse evento. É necessário reconstituir, dinamicamente, complexamente, quem diz, pra quem diz, quando diz, onde diz, por que diz, pra que diz, a partir de que diz, sob que condições diz. Feito isso, a afirmação será enquadrada dentro de seu referencial práxico, e, então, poder-se-á dizer se isso que se diz, aí, e só aí, é verdade ou não.

Uma verdade absoluta existe? Uma verdade não planetária, mas maior, universal, como quer a teologia clássica, existe? Minha resposta: se pudéssemos apreender todos os elementos da "cena" - mas como, se a cena é o Universo, e, no que tange à Astrofísica moderna, o Universo intra e extra Big Bang (podemos?); se pudéssemos apreender a "fala" sob análise, mas pragmaticamente, praxicamente (podemos?); se pudéssemos nos colocar num meta-ponto a partir do qual abarcássemos Tudo e Todos e Sempre, de uma só vez, sem enlouquecer (podemos?), então faria sentido perguntar pela verdade absoluta. Podemos?

Não, não podemos. A saída de Barth, faz-me rir. Fideísmo não resolve a questão da verdade. Cala a questão. Fecha os ouvidos. É palavra de ordem. Não reflexão honesta. Seja como for, ela é uma verdade restrita ao universo neo-ortodoxo barthiano, que não me diz (mais) respeito. Mas ela não é uma meia-verdade, afirmação com a qual eu teria que confrontar a verdade acima da dele. Posso? Não, não posso.

Posso saber como ele chega à verdade dele, que, dentro do universo dele, é verdadeira, desde que a casca fideísta não seja rompida. Escolheu sua bolha, vive nela, ele e sua verdade. Que o é, mas apenas lá, para os que lá vivem.

As verdades todas que existem são relativas aos seus respectivos sistemas genésicos, sintáxicos, pragmáticos, racionalizadores. E valem tanto quanto valem seus sistemas. E, aí, saíamos da questão da verdade, e entramos noutra: a do valor. Que não aceito discutir, agora.

Interessa-me sair do redemoinho insensato da Verdade. Interessa-me entrar na complexa tentativa de compreender as relações complexas dos discursos da vida, internamente a seus nichos eco-organizacionais, todas, inteiramente, verdadeiras.

A nossa condição planetária, contudo, exige, gritantemente, que, todos, você e eu, e todos os outros, saiamos de nosso nicho ecológico pessoal, comunitário, e aceitemos o jogo planetário do perspectivismo da verdade. É necessário, como no Direito, que estabeleçamos um ponto, um meta-ponto comum de observação, a partir do qual, negociemos nossas verdades. É necessário reconhecer que nossos discursos precisam encontrar-se numa dimensão em que se dissolvam de seu relativismo pessoal, para enquadrar-se no relativismo do Planeta - nossa Casa.

Não é mais possível aferrar-se às verdades (apenas) pessoais. É necessário compreendermos como constituímos nossas verdades pessoais, e, desde aí, deixando de operar dentro delas, operemos nelas, alterando o eixo gravitacional em que circulam, fazendo-o mover-se da pragmática pessoal-comunitária, para a pragmática da Terra.

Não se trata de "comunismo" - besteira. Não se trata de "ecumenismo" - besteira. Não se trata de pan-nacionalismo - besteira. Não é que comunismo, ecumenismo e pan-nacionalismo sejam besteira: considerar que proponho isso, aí, sim, é besteira. O que proponho, e acho que Karl-Otto Apel e Edgar Morin propõem o mesmo, é darmos um passo dentro da História da Consciência.

É assumirmos que vivemos em nossos discursos, e que, neles, somos tão verdadeiros quanto eles mesmos. Compreender que o mesmo vale para todos os homens e mulheres do Planeta, ainda que, confrontados os discursos fora de seus respectivos eixos gravitacionais práxico-ideológicos, denunciem-se mutuamente como mentira. A mentira, aí, é a incapacidade de mover-se no eixo do outro.

Não proponho que adquiramos empatia, que aprendamos a compreender a verdade do outro. Isso é pouco. É mesmo nada, esforço nenhum, avanço nenhum, porque não leva a nenhum avanço. Proponho, sim, que aprendamos, que queiramos, pensar não mais a partir de nosso eixo gravitacional, mas a partir do eixo gravitacional da família humana - não, mais ainda, do Planeta.

Há uma verdade no Planeta, diante da qual, as nossas, podem aparecer como terror e mentira. Valiosas para nós, amantíssimas e carinhosas de nossas faces, talvez não passem de vontade de poder, verdadeira ação humana, biológica, forte, renovada a cada vez que o coração bombeia sangue.

Que verdade é essa? E eu sei lá? Como saberei, se não a construirmos juntos? Quando chegarmos lá, se chegarmos, teremos a resposta. E aí, Andrade, mais uma vez, me perguntarei: mas , como assim, meia-verdade?

Duvido, Andrade, que tenha vivido com isso. Duvido, Poeta, que tenhas morrido com isso.

20/10/2006 06:47

 

 

 

 

(XVIII)

Educação teológica e política

O título que escolhi tem um problema. Quem o lê não sabe se "política" é adjunto adnominal, ou, ao lado de "educação teológica", sujeito. É sujeito. Não se trata de "educação política", ao lado de "educação teológica" - daí, uma suposta "educação teológica e (ao mesmo tempo, também, educação) política". Pretendo falar sobre a relação entre a educação teológica, que é o espaço onde estou profissionalmente inserido, e a política.

Eu me sinto bastante "perdido" nessas eleições. Na verdade, desde que me entendo por gente, política, para mim, é um problema. Não tenho problema com os valores políticos - justiça social, ética política, desenvolvimento social, nacionalismo, representatividade, democracia etc. Sei exatamente o que quero para o Brasil, e para mim, no Brasil. E não se trata de nada mirabolante, uma vez que muitas nações do mundo conseguiram grande parte dos avanços que desejaria ver implantados no Brasil.

Queria casa para todos, saúde para todos, educação universal, gratuita ou não, desde que universalizada, empregos para todos, cultura e diversão etc. Uma nação forte, alegre, saudável, pujante, robusta, fraterna.

O problema é escolher quem, entre os políticos, representa melhor a esperança de ver um sonho assim concretizado. A utopia desfaz-se diante da urna, porque o direito de eu imaginar um Brasil "perfeito" é-me roubado pela exigência de optar, aqui e agora, sem mais um segundo de tempo, entre José e João. Um José ou um João vestidos de mídia. Meu sonho tem de se tornar José - ou João. Meu sonho tem que encarnar. Nascer. Tem que ganhar até um número na tela da urna eletrônica. Sonho que era, utopia, é carne, osso e programa, agora.

Difícil escolher com certeza, salvo por partidarismo inconseqüente. Uma coisa é o discurso, outra, a prática. E não me engano. Mesmo quando voto, sei o risco que estou correndo. O "sistema" pode estar sendo favorecido, no sentido de que a democracia, enquanto modelo, ganha, quando eu voto. Mas pode ser que aquele meu gesto, paradoxalmente, e contrário às minhas expectativas, faça meu sonho andar para trás. José pode mentir sobre meu sonho, encantar-me, para enganar-me.

Meu discurso somente estaria errado, caso fôssemos videntes. E não somos. As melhores "leituras" político-sociais das campanhas não passam de tradução de gostos e desgostos, uns mais, outros menos, e, a rigor, ninguém pode garantir coisa alguma. Ainda que haja discursos que beiram ao ridículo profético - porque, em pleno século XXI, discursos proféticos são ridículos. Para dizer pouco deles...

Como alguém perdido pode comportar-se diante de seus alunos? Levantar bandeira de ideal libertário é o mesmo que indicar para tomadas de posição concretas? A meu ver, não. Recebo todos os dias "cartas", pedindo votos para a esquerda (não recebi nenhuma carta que pedisse voto para a direita). Os signatários são sempre pessoas importantes do cenário religioso nacional, mormente, católicos, mas não só. Bispos e ex-bispos, pastores, assessores populares. Um monte deles.

Fico pensando nos riscos. E sinto-me alguma coisa entre covarde e lúcido. Eu comungo os sonhos desses signatários. Quando falam dos projetos, em si, vejo-me em cada um deles. Minha principal diferença com Nietzsche, de quem, de resto, endosso a maioria das teses, é justamente essa: seu naturalismo. Porque meu amigo considera a força a característica da vida. E é - mas não da vida humana, cuja característica, a meu ver, é a possibilidade de dizer "não" à força da Natureza. O sonho da fraternidade é justamente o enfrentamento da Natureza. Filhos dela, somos, contudo, passíveis de misericórdia. Ela, não.

Não é com olhos naturais que olho a pobreza do Brasil, mas com olhos humanos. E me constrange crescer alheio à pobreza, sobre ela, apesar dela. Gostaria que todos tivessem as mesmas oportunidades, as mesmas portas e janelas. Nisso, comungo com as cartas que recebo.

Até mesmo, no risco, chego a concordar, porque meu voto está orientado na direção em que todas elas apontam. Mas não posso afirmar de meu voto, o que elas afirmam do voto que indicam. Na hora da urna, a utopia dá lugar ao risco, e eu tremo.

Tremo como tremeria diante de qualquer voto meu, porque não há garantias, absolutamente, de que meu voto coloque em curso meu sonho. O fato de que a força política que recebe meu voto farfalhe bandeiras onde rezam frases de minha cartilha não garante, absolutamente, nada. Porque não há garantias, de nenhuma espécie. E quem as crê visíveis, fabrica-as, como à fé.

E, contudo, é preciso correr o risco.

Ainda hesito diante da orientação do voto. Talvez isso seja reflexo de minha cada vez mais refletida tendência rogeriana - psicologia de não-diretividade. Nenhuma orientação religiosa, nenhuma orientação política, nenhuma orientação filosófica, salvo a discussão crítica, o diálogo, o risco de correr o risco.

O espaço da cátedra teológica, mais propriamente exegética, mas, nem por isso, não-teológica, que ocupo, tento ocupá-lo de forma transparente, deixando o mais claro possível minha posição, sua força, sua fraqueza. Mas faço isso, alertando, sempre, que cada aluno deve, em última análise, posicionar-se, livremente, a partir de suas próprias convicções, forjadas através da reflexão pessoal autônoma.

Poderia orientar para práticas concretas: façam exegese, e não teologia sistemática. Mas não posso fazer isso. Não tenho direito. É, de fato, o que penso: teologia sistemática vale o que vale história do pensamento, e só. É heurística, e quanto!, mas só. Já a exegese é arqueológica, elucidativa, iconoclasta. Mas é meu direito ocupar a cátedra e "orientar" meus alunos? Não acredito que tenha esse direito, ainda que saiba que a maioria dos alunos fica à espera de mestres que lhes digam o que pensar, dizer e fazer.

Não serei eu a fazê-lo.

Vale o mesmo para a política? Ou eu me acovardo? Mas, como assim, me acovardo? É covardia saber os próprios limites? Não, mas talvez o seja não arriscar-se para além deles. Mas alto lá! Arriscar-me para além dos meus riscos, isso o faço, porque compareço eu mesmo diante das urnas, e lá deixo minha escolha, arriscada, frágil, insegura. Arriscar-me para além de meu risco é levar comigo outros nesse risco, disfarçando o risco pela manifestação da massa? Não. Uma manada em pleno estouro ainda é o que é - manada estourada, por mais  que se saiba que ela vai por ali.

Minha coragem é arriscar-me. Minha responsabilidade, assumir meu risco. Meu respeito para com meus alunos é permitir que vejam-me nos estertores da angústia, sem disfarces de clarividência política. Não existe clarividência política. Existe força para garantir as decisões políticas que se fazem. Não tenho força para isso. Minha decisão é puro risco. Em sala de aula, é deixar claro o quanto minhas pernas tremem. E o quanto é ridículo disfarçar que tremem.

Depois de ter escrito esse texto, encontrei os seguintes artigos na Internet. O que leio neles, me agrada. Mais do que isso. Me entusiasmo. Mais: esperança! Mas, ao lado do agrado, do entusiasmo e da esperança - medo. E se estivermos errados? Mas, como saber, antes...?

Luiz Carlos Azenha

Ivana Bentes

Mas ainda continuo com medo...

23/10/2006 14:23

 

 

 

 

(XIX)

Olho de mim

Há uma patologia em mim. Só pode ser uma patologia. E não sei se é particular de mim, se é minha doença pessoal, meu tesouro patológico. Eu me olho o tempo todo.

Não sei como definir "eu" nessa frase aí acima. Porque, no fundo, um "eu" olha, constantemente, um outro "eu". Eu olho pra mim, o tempo todo. Há um olho em mim. Um olho de mim. Que me olha. O dia todo.

Quando escrevo, agora, ele me olha. Eu me olho. Eu me analiso. Não paro de analisar. Não. Nem agora.

Não há nada que faço, absolutamente nada, que faça, sem que me olhe a mim mesmo, fazendo. Eu olho para mim fazendo, e de um jeito tão estranho, que esse eu que me olha não está fazendo o que ele me vê fazendo - ele está olhando eu fazer. Sou um eu disjuntivo. Sou dois eus. Sou duas pessoas em mim.

O momento mais dramático é quando eu choro. Meio-eu chora, ou, sei lá, não sei mais nada, um dos meus dois eus chora. O outro, não. Ele não chora. Ele me vejo chorando. E quando ele me vejo chorando, eu me analiso, enquanto choro. Vejo meus olhos cheios de sal, a boca entregue a esgares, os músculos, retesados, a carranca, encenando a plástica das lágrimas. Eu analiso meu corpo, meus músculos, meus hormônios, desde dentro. Desde dentro, olho para dentro, e para fora. Olho-me por dentro. Olho-me por fora.

Eu sofro, chorando. Eu analiso. Não posso dizer jamais que um dia realmente chorei, porque, se eu sou dois, só um de mim chorou - o outro, sempre, olhou para o choro de mim.

Esse eu que me olha chorando, é cruel. Ele até gosta de me ver chorando, porque quer ver como é o choro, como é a lágrima. Há uma patologia de querer saber como é, o que é, o que é que é. Esse olho heurístico de mim me investiga inteiramente, o tempo todo.

Ele não tem sentimento. Nenhum. Ele tem uma caderneta. Ele anota. Tudo. A vida dele é anotar. A vida dele é anotar-me. Anotar sobre mim. Anotar o que eu faço. E ele põe nomes do lado de tudo que eu faço. Eu transforma o que eu faço, tudo que eu faço, em nomes. E escreve os nomes na caderneta. E denuncia para mim isso que faço. Tem horas que diz que sou descarado, que sou falso, que o que estou fazendo é pura encenação. Ele não mente pra mim.

É no campo dos sentimentos, no campo das relações, no campo das ações, que ele mais me olha. Eu sinto, ele anota que eu senti, e classifica, e esquadra, e perscruta, e escreve. Eu converso com alguém, ele analisa minha fala, desde a intenção que a move, até a que eu escondo, enquanto me movo, fazendo parecer ser movimento o que não é exatamente. Ele não deixa passar nada.

Quando dou aulas, ele me olha. Esse olho de mim anota o que eu disse, por que eu disse, se eu devia ter dito, o que raios significa isso que eu disse, se faz sentido isso que eu disse, e, se faz, que diabos interessa viver a partir de coisas que (se) fazem sentido, e me cutuca, a boca de mim falando, e minha cabeça já pensando outra coisa, inclusive a possibilidade da impossibilidade do que minha boca vomita, automaticamente. Há dois cérebros nessa cabeça. Dois homens moram em mim.

Nunca estive só. E, no entanto, nunca tive paz. Jamais pude ficar só. Nunca, no escuro. Sempre, esse olho de mim, sobre mim, maldito. Mas é impressionante como, conquanto ele caiba a ele melhor do que eu, que eu me sinta mais ele do que eu mesmo. Eu é fraco. Ele, forte. Eu, tropeça, fraqueja. Ele, não. Eu, ora. Ele, questiona a oração. Eu sofro. Ele, pondera a dor. Eu gozo, ele, mede a freqüência das ondas hertzianas. Eu canto, ele conta as notas. Eu vivo, ele computa.

Queria saber quem é ele. Quem sou eu.

Vou rir, agora, das teologias, porque elas nunca se fazem sabendo dele. Fazem-se para mim, mas é ele quem as destrói. As teologias querem me engolir, querem injetar-se no meu córtex, inoculando-se como véu mítico. Ele as vê, espreitando-se, como um corvo de mau augúrio, no galho, na sombra, e faz barulho, para que voem para longe.

O que me faz pensar que ele nasceu não desde sempre. Foi a partir de algum momento. Quando? Foi quando olhei-me a mim pela primeira vez? Quando?

Parece um espírito possessivo. Um íncubo. Será uma doença? Ou esse é o estado da maturidade? Esse, o preço da autonomia. Essa, a condição da vigilância?

11/11/2006 22:45

 

 

 

 

(XX)

Mais uma disciplina, menos uma disciplina

Ontem à noite concluí mais uma disciplina - Fenomenologia da Religião. Sou professor dela já há três anos. E temos história.

Inicialmente, ela salvou-me de mim mesmo. Risível para mim, Anselmo não me convencia mais com sua estratégia de primeiro crer, para depois entender, ou seja, domesticar o credo, e racionalizar sobre ele, a partir dele. Há quem goste. Vai ver ainda tem até alguma serventia. Mas, como o que serve para alguma coisa, serve para alguém, não mais para mim.

A alternativa, até então, era Feuerbach, e sua tese incontornável de que Teologia é Antropologia. A Essência do Cristianismo foi um livro que me agradou ler - foi hierofânica a sua leitura. Mas me resolvia a superfície da mente, onde as idéias se articulam, controlando-me, sendo controladas por mim.

Lá, contudo, onde não mais idéias, mas estruturas profundas emergem da escuridão biológica do cérebro, onde a experiência do sagrado estava marcada a ferro e fogo, Feuerbach não chegava - nem pode chegar. A percepção do "sagrado", silenciosa, não é linguagem - mas apreensão hermenêutica inefável. Logo, qualquer tentativa de revesti-la com linguagem é adulterá-la - é idolatria, para usar uma metáfora, nesse caso, imprestável.

Foi a Fenomenologia da Religião quem me deu a mão. Na verdade, Mircea Eliade. Especificamente, Tratado de História das Religiões. E fiz-me a minha dicotomia: experiência do sagrado, de um lado, inefável, e Teologia, do outro. Aquela, o máximo que poderia chegar do "pensamento" sobre o "sagrado" - inefável. Esta, nada mais de "divino" - pura humanidade travestida em mito. Racionalizado. Mas mito.

Psicologia da Religião, no Seminário, em 90, eu acho, e Fenomenologia da Religião, no chão da sala lá de casa, em Belford Roxo - foram as duas maiores descobertas de minha grave alma religiosa. Emergi homem, depois de ter sido criança desde 1984. Essas duas disciplinas deviam ser ensinadas na classe de catecúmenos. Que nome.

Considerei que a Fenomenologia da Religião fosse importante para a maturidade religiosa. A auto-compreensão é condição sine qua non para a maturidade. Quando me vi, então, por um golpe da vida, elevado à condição de Coordenador do Curso de Teologia do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, na qualidade de responsável pela discussão do Projeto Pedagógico a ser proposto ao MEC, presidi aos debates para a elaboração da Grade Curricular.

Minha estratégia foi elaborar uma Grade provisória, e, a partir dela, através da análise crítica dos professores, primeiramente em colegiados, e, depois, abertamente, chegar a uma proposta de consenso. Na Grade provisória, lá coloquei Fenomenologia da Religião.

Na verdade, valorizei a área de Bíblia, e incluí Fenomenologia da Religião. Nisso resumiria o que teria propriamente de mim aquela Grade. Se passasse.

Passou. Houve críticas. Umas, entendi, preocupadas com a conseqüência dela na Grade - afinal, aquele é um curso "confessional", pelo menos no sentido de ser um órgão oficial da Convenção Batista Brasileira. O fato de constituir-se aquela uma Grade a ser apresentada ao MEC parece, nesse caso, ter amenizado as preocupações.

Outras críticas, não as saberia precisar, porque não poderia garantir que as palavras usadas nos debates, nesse caso, eram consoantes às intenções psicológicas de seus professores. Mas se tratava de uma questão relacionada à dependência da Fenomenologia da Religião da Antropologia. No fundo, esses críticos faziam questão de dizer que tudo aquilo - Grade, Projeto, o Curso - era uma "porcaria". Ouvi isso ontem de novo. Despeito puro.

O fato é que o MEC avaliou tudo, e com nota 10 em cada item. O PDI foi aprovado depois de exigências pontuais. Mas foi aprovado exatamente como foi elaborado. As pendências sequer eram da responsabilidade da Coordenação. O Projeto Pedagógico foi aprovado in toto, e como veio ao mundo. A Grade, elogiada. Senti-me orgulhoso, ainda que, quando da visita da Comissão - notadamente constituída de filósofos! - já não era eu mais o gestor do processo.

Se aqueles que eu devia agradar, em última análise, era minhas convicções, o corpo de professores, que aprovou a Grade e o Projeto, e o MEC, que avaliou com nota máxima, a opinião de um ou outro, segundo meu juízo por puro despeito, não é importante.

E lá está minha querida Fenomenologia da Religião.

No primeiro semestre de 2004, depois da nova Grade, acabei transformando a disciplina, na prática, numa proposição de terceira via às correntes do século XX - secularismo ateu, teologia clássica (Barth), e, então, Fenomenologia da Religião. Mas muito mais como mediação entre a experiência de fé, teológica, do que propriamente como uma expressão existencial em si mesma.

Estava cru. Mas nu.

Desde então, venho refletindo. Nesse meio tempo, chegou-me às mãos artigo do Dr. Frank Usarski, denunciando o que ele ali considera(va), reportando-se a outros escritores, equívocos do ramo clássico da Fenomenologia da Religião - na verdade, uma resenha de O Sagrado.

Por dois semestres, usei o artigo em sala de aula, para desmontá-lo. Esse semestre, escrevi uma crítica ao próprio Frank, que a detestou, e, entre outras coisas, tratou-a como "uma vergonha", e, a mim, como "profundamente ignorante", recomendando-me, não sei por que, alemão e um Mestrado em Ciência da Religião. Acho que fui irônico demais. Podia até dizer que não tinha intenção de ofendê-lo, mas, aos quarenta anos, doutorando, usar esse tipo de desculpa é ridículo. Devia saber que o magoaria, de alguma forma, ainda que, doutor, ele devesse agüentar. Não agüentou, e eu me vi numa crise depressiva dentro de outra crise depressiva.

Esse semestre em particular, tornei-o muito mais propositivo. Cheguei a definir, provisoriamente, sempre, "experiência do sagrado", transferindo sua área de acesso epistemológico para a Hermenêutica. Isso já vinha fazendo há dois anos em Nova Iguaçu, com os alunos de Hermenêutica - cobaias. Tenho que amadurecer a idéia. Os textos estão na página principal:

Experiência do Sagrado e Fenomenologia da Religião

Experiência(s)

(Primeiros) rabiscos sobre Hermenêutica

Do Silêncio à Solidão

Eu não sei o que exatamente aconteceu esse semestre. Os sinais são difíceis de decifrar. De uma turma de cinqüenta, menos de vinte cinco compareciam às aulas. Não faço chamada, e deixo claro, explicitamente claro, que só precisa ir à minha aula quem quiser. Quem não quiser, faz-se o favor, e a mim, de não comparecer. Insuportável, para mim, a idéia de um aluno obrigado a ser aluno. Detestável, para mim, a idéia de um ouvinte odiando me ouvir. Há quem aceite minha orientação, e só aparece para assinar a pauta da ATA de provas, e levar sua nota combinada.

Esses que lá não vão, não servem para minha avaliação. O fato de lá não irem não significa nada, diretamente relacionado à disciplina. Significa um monte de coisas - são confessionais, e não querem esse tipo de discussão. Não querem simplesmente estudar. Não gostam de mim. Detestam Fenomenologia da Religião, quando ensinada por um idiota ignorante. Ainda não se descobriram. Não dá pra saber, mas nada disso valeria numa avaliação da disciplina.

Resta analisar os que ficavam, e. a disciplina, por eles. Religiosamente, lá estavam. Isso é interessante. Os debates eram abertos. Nem sempre "amistosos", porque havia resistências de todos os lados, e de todo tipo. Confessionais resistiam, tanto porque se mantinham assíduos, quanto porque contra-argumentavam.

Os demais, uma experiência difícil de avaliar. Saio desse semestre sem uma percepção adequada, se é que isso seja possível, de ter consciência do que aconteceu ali. O futuro dirá.

No fundo, não acho que aquela seja uma disciplina apenas acadêmica. No sentido da denúncia da self-deception que faz Edgar Morin, propor que o que pensemos de Deus seja propriamente cultural, e somente cultural, é uma boa tarefa. Mas vai na contra-mão.

Às vezes, sinto-me apertado de todos os lados. Confessionais desgostam de mim, porque minhas orientações acadêmicas os ameaça - ainda que haja confessionais que gostam de mim, porque respeito sua maneira de pensar, e não exijo que passem para "o meu lado". Acadêmicos das Ciências Humanas, ou me consideram imbecil, ou lunático. Preciso, urgentemente, achar meu ninho.

Um grupo razoavelmente pequeno, razoavelmente grande, depende da ótica, de alunos da turma de Fenomenologia da Religião, do STBSB, em 2006, foi extremamente carinhoso comigo. A eles, a vocês, meu muito, muito obrigado.

Precisamos recomeçar tudo de novo. Porque nada está pronto. Nada, acabado. A vida só tem porta de entrada.

22/11/2006 15:43

 

 

 

 

(XXI)

Vinte anos, e quero mais

Eu e Bel acabamos de fazer vinte anos de casados. Vinte anos. Dois de maio - bem, já faz uns dias. Foram os melhores vinte anos de minha vida, e ela, até agora, tem quarenta. Tá, quarenta e um. Tá, e meio. Mas aqueles primeirinhos, eles não contam, porque eu, pelo menos eu, não me lembro de nada. Se foram bons, não sei. Se foram ruins, não sei. Sei é que os últimos vinte foram muito bons.

Bel e eu nos conhecemos, e eu de costas. É o que ela me diz. Era dez de agosto de mil novecentos e oitenta e quatro. Esse foi, também, o dia em que me tornei um batista. Era dia de culto especial, em comemoração ao Dia do Homem Batista, e pregava alguém, não me lembro mais o nome, da Primeira Igreja Batista de Niterói. Não me lembro de nada da pregação dele.

Ele terminou a pregação, fez o apelo, algumas pessoas foram à frente, como se diz, decidindo-se, orou-se, os conselheiros levaram-nos para a sala de aconselhamento e, antes de o pregador devolver a palavra ao pastor da igreja, a Primeira Igreja Batista de Mesquita, ele falou um versículo. Era Is 55,6: "Buscai ao Senhor, enquanto se pode achar, invocai-o, enquanto está perto". Eu costumo contar que ele pegou um frasco de Novalgina, e disse que Deus não era remédio pra dor de cabeça, pra gente procurá-lo apenas quando precisa, mas eu não sei mais se isso é verdade, ou se, com o tempo, eu acabei inventando isso. O que eu sei é que não sei mais se isso que é memória é memória mesmo.

O fato é que, de repente, eu me levantei, e fui lá na frente. E estou aqui. No momento que eu me levantei, Bel, ela diz, me viu. De costas. E pensou: "que cara corajoso". Naquele momento, os olhos dela me marcaram. Não sabíamos, mas fomos levados ali para isso.

Já disse, era agosto. O Marcos Dourado, que me convidara, aconselhou-me, naquela noite. Apresentou-me Bel na mesma noite, porque ela era da equipe de evangelização, da qual ele era presidente. Quando a vi, jamais imaginei que um dia estaria perdidamente apaixonado por ela. Os cabelos dela eram gigantescos e armados. Eu digo a ela que ela parecia um guarda-chuva, magra como um palito, e com aquela carapaça de cabelos crespos que só arame. Bel era tudo que eu nunca havia sonhado.

Marcos me levou para a mesma equipe. Passamos a trabalhar juntos, evangelizando, nos finais de semana. Eu trabalhava na Dallari, a fábrica de frios, derivados de carne bovina. O dono tinha fazendas. Em novembro, ele me mandou para São Paulo, tomar conta de tratores, que fariam curvas de nível nos campos de uma de suas fazendas, em Iacanga, interior de Bauru. Na despedida, Bel me deu dois cartões. Um, em nome da equipe. Outro, pessoal. Já fui chorando de paixão, bobo que era, no ônibus.

Passei aquele mês cantando uma música do Roberto. Não sabia a letra toda, mas a cantei tantas vezes quantas as estrelas que contava, de noite. Era final de 1984. Eu tinha dezoito anos, ainda. Era minha primeira vez fora de casa, era minha primeira paixão, porque nunca havia namorado, e eu estava derretido de saudades, nostalgia, tristeza, solidão, depressão, tudo.

Mandei-lhe uma carta. Não me lembro exatamente o que dizia. Mas assentava compromisso. E, então, eu voltei. Era quase Natal de oitenta e quatro. Nos encontramos no salão dos jovens, na igreja. Mas eu estava estranho. Os sentimentos de São Paulo estavam confusos. Eu era um poço de imaturidade. Começamos um namoro esquisito. Bel estava ressabiada. Não durou muitos dias. Desmanchamos.

Bel ficou sem falar comigo. Me deu gelo. Pouco a pouco, minha cabeça foi se acertando, depois de algumas burradas entre o retiro de carnaval de oitenta e cinco e maio do mesmo ano. Nesse período, eu escrevi dezenas de cartas para ela, tentando, de todo jeito, reconquistá-la, ela, a Fortaleza Inexpugnável.

No retorno de uma viagem de evangelização a Miguel Pereira, no ônibus, ela estava sentada, e eu de pé, e fiz carinho nos dedos dela, cujas mão de canela pousava sobre o ferro de recosto do banco da frente. Havia milímetros entre meus dedos e os dedos dela, e demorou séculos até que eu vencesse a distância.

Reatamos naquele maio. Noivamos no maio seguinte. Casamos em 87, mesmo ano em que eu entrei para o Seminário. É curioso que tenhamos nos conhecido no ano de minha conversão, e que tenhamos casado no ano de minha entrada para o Seminário. De certa forma, a Teologia está por trás de nós.

Casamos muito pobres. Não tínhamos quase nada. Um colchão, mas não a cama, um fogão e uma geladeira. Ah, e um rádio relógio, que o Josué deu de presente de casamento. Em 88, junho, nasce Israel. Em 90, dezembro, Jordão. E, hoje, lá se foram vinte anos. Israel tem 19, Jordão 16,5.

Bel e eu amadurecemos muito. Administramos, em todo esse tempo, nossa relação, que é nosso maior tesouro. Somos o casal mais feliz que nós conhecemos, o mais bem resolvido que conhecemos. No início, até arengávamos. Mas tanto ela quanto eu sabíamos, e sabemos, que o que queremos é nossa felicidade, juntos.

Não fazemos pirraças inúteis. Uma vez fiz, e foi ridículo. Morávamos em Belford Roxo. Discutimos por alguma coisa, que não sei mais qual. Saí porta a fora, e quando estava na rua, lembrei que não tinha pra onde ir, e que não sabia o que fazer. Peguei um ônibus, fui até o ponto final, sentei no banco, pequei o ônibus de volta, e voltei pra casa. Dias depois, ríamos disso, e Bel zombava de mim.

Cuidamos muito um do outro. Tivemos momentos difíceis, crises financeiras enormes, mas isso nunca nos abalou. Acho até que pelo contrário. O início foi terrível, sem dinheiro nenhum, e ainda por cima, um ano e meio de licença no INPS, por causa de uma micobacteriose que quase me leva o pé. Bel foi uma heroína. Nunca reclamou. Mesmo grávida.

Essa crise durou de 1987 a 1990. Em 1990, as coisas começaram a mudar, lentamente. Passei num concurso, passei a trabalhar num banco, e comecei a poder alugar casas melhores, e comprar mobílias - uma TV!, três anos depois de casados. Ouvimos a novela Pantanal pela rádio Manchete, sentados no chão da cozinha.

Fui sendo promovido, apesar de nunca ter sido feliz naquele emprego. Com o tempo, juntamos dinheiro e, em 94, compramos um Gol 91, nosso primeiro carro. Descobri que o cara do banco me passara um carro batido, mas, pelo menos viajamos com ele, nossas primeiras viagens juntos, Parati, coisa linda.

Eu trabalhava feito um cachorro, e dava aulas no Seminário. Saía cedo, voltava tarde, mas namorávamos muito, sempre, porque nos amávamos. Cheguei à gerência, juntei mais um dinheiro, e demos entrada em nossa casa, onde hoje moramos, aqui em Mesquita.

Em 2000, uma crise terrível abateu-se sobre nós. Uma crise para pôr à prova qualquer um. Saímos dela com muita dificuldade, apesar de ela ainda não ter sido de todo resolvida. Custou uma depressão violenta à Bel, difícil de tratar. Custou-me noites sem dormir, mas superamos. Bel, como sempre, foi valorosa, uma Amazona. Devo-lhe o resto de minha vida, e mais além.

Os problemas dos últimos anos, desde 2000, nos uniu ainda mais. Os desafios são visgo, grude, cola, piche. As coisas entre nós estão melhores hoje do que em qualquer outra época. Elas sempre foram alguma coisa entre natural e orquestrada. É como se ela e eu tivéssemos sido criados desde pequenos, e fôssemos gêmeos. Por outro lado, aprendi a abrir mão de coisas tolas. Ela também. E a cada vez que abríamos mão de coisas tolas, a distância entre nós, mínima, ficava ainda menor, como se fosse possível tal coisa.

Se o dedo de Deus estiver nessa história, e não vou dizer que esteja, pelo simples fato de haver tanta gente infeliz, e isso me deixaria triste, porque teria de admitir que Deus me ajudou, e não ajudou tanta gente, e, então, prefiro calar-me, mas, se o dedo dele estiver, de alguma maneira, nessa história, ele deve estar feliz à beça, em ter descoberto que esse seu joguinho de amor deu certo, que o nosso casamento é feliz, e nossa relação, profunda.

A você, Bel, minha gratidão, que lhe dedico, em palavras e carinho, todos os dias. Você é meu amor, com o que quero dizer que meus olhos procuram você, na luz e na sombra, no vento e na chuva, perto ou longe. Meus olhos buscam a paz de olhar você, de ver esses olhos desenhados à óleo, nigérrimos do Universo insondável que é a sua alma, em torno de cujo sol eu gravito, feliz de ter seu colo morno para nele pousar a cabeça.

Teus cabelos, heim!, quem diria?! Uma beleza. Fosse eu a escritora ou o escritor de Cantares, diria que eles são como as crinas das éguas atreladas ao carro de Deus. Mas erraria, porque, fosse tu como as éguas de Cantares, não estarias atreladas a carro algum, sequer ao de Deus, posto que és libérrima, e eu te veria correndo sobre as planícies, sorvendo o vento, saltando e marcando a terra, e escrevendo nela que estiveste aqui, para que a Terra não esqueça o parto telúrico, do qual nasceu Izabel, filha da Terra, filha do Vento, filha da Liberdade, que abriu a mim as portas das torres mais altas, e pôs-me a ver a vida do alto das janelas ancestrais, da sacado do Tempo.

É tarde, amor, durma. Tens pouco tempo, que o sol a essa altura corre, na urgência de te ver de manhã, porque é para ti o dia que ele me concede.

09/06/2007 04:03


Como vai você?
Eu preciso saber da sua vida
Peça alguém pra me contar sobre o seu dia
Anoiteceu e preciso só saber

Como vai você?
Que já modificou a minha vida
Razão de minha paz já esquecida
Nem sei se gosto mais de mim ou de você

Vem que a sede de te amar me faz melhor
Eu quero amanhecer ao seu redor
Preciso tanto te fazer feliz

Vem que tempo pode afastar nos dois
Não deixa tanta vida pra depois
Eu só preciso saber...
Como vai você?

 

 

 

 

Cumplicidade

Luis Fernando Verissimo

19/07/2007

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a "guerra de mentira" que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo - inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

(Luis Fernando VERISSIMO, Cumplicidade, Zero Hora, Porto Alegre, ed. n. 15309, 22/07/2007, disponível aqui em 22/07/2007)

 

(XXII)

E nós, pastando...

Há dois espetáculos extraordinários – mas bem ordinários, mesmo – acontecendo diante dos nossos olhos. O que eles têm em comum é a capacidade da desfaçatez exacerbada, já não mais dissimulada, exsudando, patologicamente, a sensação de que não têm mais a mínima vergonha de serem pegos em flagrante delito. Ou não acreditam mais na capacidade de percepção das massas, que pretendem manipular – e manipulam. Ou não acreditam mais na capacidade da reação de uma massa que, se percebe o jogo baixo e rasteiro que se joga ali, apenas remói, como rês de campo, o capim mal digerido, com aquele olhar bovino próprio da profecia de Zé Ramalho, ou da contra-profecia de Nietzsche – besta de carga sempre tem vida de gado. Ou entraram num azáfama patológico tão profundo, num torpor tão inescapável, que, sabendo do contado dos dias, querem encher as burras o mais que se possa, o mais rápido possível.

Falo da mædia, em seus dois tentáculos contemporâneos: o “jornalismo” – criptopolítica, e o “pastorado” pseudo-evangélico – criptosimonia.

 

A grande mædia criptopolítica perdeu toda a vergonha. Se um dia a teve. As TV viraram arenas políticas, onde a política reduz-se a campanhas engajadas e a estratégias de derrota do inimigo, custe o que custar, mesmo que a verdade. Os fatos são pisados, distorcidos, manipulados, para que a grande mædia, que uma rede de blogs chama de “mídia conservadora (e golpista)” e “mídia partidarizada”, possa alcançar seus objetivos político-econômicos: poder e dinheiro.

 

Há algum tempo que venho tendo uma sensação muito desagradável em relação à mædia de modo geral. Começaram com o discurso monocórdio da classe “artística” – entenda-se, a classe de artistas que controla a face de exposição da grande mædia – de que a cultura não tem espaço, nem recurso etc. Achei sempre muito pouco confortável que a mædia usasse de seu poder em benefício próprio. Mas talvez eu estivesse percebendo mal a situação.

 

Em seguida, alguns setores dessa mædia passaram a empunhar discursos políticos partidarizados – escancaradamente. O campeão dos campeões, o José Eugênio Soares, advindo do SBT, e sentindo-se o próprio Zeus. 2006 foi deplorável.

 

Ao mesmo tempo, essa mesma classe dita “artística” – cheia de pequenos deuses e deusas, carros de luxo e apês na Barra – puseram-se na ponte aérea, desesperados, mas muito bem articulados, para espinafrarem da política de destinação de verbas de patrocínio, que até então eram todas mordidas pelos “pobres” operários do showbiz, coitados, tão pobres, e que agora também seriam destináveis ao esporte. Ver e ouvir a “grande dama” do teatro, na “sua” TV, em pleno aeroporto, clamando por justiça, quase em prantos, vão nos tirar os bocados, vão nos tirar os bocados, foi uma das cenas mais amadurecedoras da minha vida. Cena grotesca. Reveladora dos intestinos dessa classe político-econômica.

 

Esses dois anos, 2006 e 2007, dão mostras à exaustão do trabalho de politicagem baixa e rasteira da mædia. Primeiro, as eleições. As aves de agouro – e de rapina – emplumaram-se, empoleiraram-se nos escândalos alimentados por manobras partidárias de todo tipo e espécie, num conluio de interesses alinhados, e apostaram todas as fichas na tomada do poder – "democraticamente”. Estão ainda tontos do direto de direita que levaram. Mas já se recobraram – ainda que não tenham aprendido absolutamente nada. Embarcaram no “apagão aéreo” – primor da sanha jornalística de quinta categoria, amostra grátis da qualidade profissional da mædia, e passaram a sangra, dia a dia, noite a noite, o quadro político da situação, com olhos já em 2008 – e 2010.

 

Agora, finalmente, a gota d’água – e não que eu ache que essa foi a última, que o balde  do golpismo dissimulado e assanhado ainda transborda muita inundação pornográfica. A mædia não vai deixar barato tanta derrota. O que se fez por conta do desastre aéreo beira o despudoramento. A manipulação do acidente – e não a manipulação dos dados reais, que sequer ainda estão disponíveis, mas a manipulação de invenções, de palpites, de desejos diabólicos de vingança e desgraça, o malabarismo e a prestidigitação retóricas – chegou à insensatez. Quanta maldade, negligência, politicagem, corrupção – na mædia. Deplorável. Sinto-me enojado.

 

De outro lado, a miséria doméstica – evangélico-protestante. A mædia pastoral. Oh, Deus, que desgraça. Não vou dizer que o “clero” evangélico-protestante histórico-tradicional seja santo. Nem de longe. Endosso em todos os sentidos a declaração de Nietzsche, em O Anticristo, de que todo cristão seria como uma besta de carga, carregando – sempre para outros, os "boiadeiros" – um peso imposto. Não vou passar a mão por cima, nem de minha própria tradição batista, cuja história tem tudo para ter construído a mais lúcida relação pastor–ovelha, mas cuja prática eclesiástica desmente toda esperança.

 

Mas, cá entre nós, o que o “clero” carismático, próspero-teológico, neopentecostal, também os criptoneopentecostais, ou seja, os “tradicionais” enciumados, arrastando seu ciúme que exsuda em “modelos” de igreja, hum, contemporâneos, está aprontando beira a náusea, a indecência, a improbidade, o crime. Eu protesto com todos os meus pulmões, fracos, coitados, de uma bronquite até os dezoito anos, que, como veio, foi embora. Eu grito que estou farto. Minha indignação está se tornando maior que minha indiferença.

 

É o cúmulo do descaramento, do cinismo. Tudo quanto está próximo deles – a teologia, a Bíblia, a fé, contamina-se, perde-se, corrompe-se, esvai-se. Não consigo entrever na história dos movimentos evangélico-protestantes – no Brasil e no Mundo – nada tão lamentável quanto a absoluta deterioração da matriz crítico-educativa protestante. No Brasil, ela converteu-se em alienação e manipulação, desde sempre, e, agora, hoje, fonte de enriquecimento de Simões Magos reencarnados, para desgraça da tradição cristã.

 

Para onde quer que eu olhe, engano e engodo. O que faz de "jornalistas" e "pastores" - do tipo que aqui denuncio - é que apostam na imbecialização dos seus ouvintes e leitores. Transferem-lhes sua própria imbecialização - porque o poder pelo poder é imbecialização de último grau, uma vez que contribui, em todos os aspectos, para a regressão da humanidade ao seu estado animal. Cada gesto humano contra a inteligência, contra o bom senso, contra a reflexão crítica, empurra a humanidade inteira de volta para as savanas originais, com o agravante de que, lá e então, animais, não tínhamos consciência. Aqui e agora, temos.

 

Quando portais de mædia conservadora - e golpista - escrevem o que escrevem, e quando pastores da simonia pregam o que pregam, sob e sobre cada palavra dita/escrita por eles, vai uma aposta, um desejo: eu não serei analisada, eu não serei criticada, eu não sofrerei resistência reflexiva, antes, eu serei engolida como uma aspirina santa, eu serei assimilada como moda adolescente, eu serei abraçada como um ursinho de pelúcia, eu serei tomada pela encarnação angelical da verdade. À esquerda e à direita de cada uma dessas palavras, gestadas no ventre, ainda vai outro desejo - e convicção: quem me ouvir/ler, se tiver capacidade crítica de perceber que sou engano e engodo travestida de luz, assumirá que o objetivo maior da "libertação" e da "pregação da verdade" vale uma manipulação, vale um disfarce, vale uma dissimulação, vale um suicídio da consciência, porque, afinal, estamos em guerra, e lutando, assim, pela nossa vitória.

 

É por isso que nenhum dos dois lados é autocrítico - antes, são ambos criptodivinos, segundo lhes parece ao espelho. Não querem reflexão crítica, querem ladainha mântrica. Não querem análises profundas, querem embebedamento místico-retórico. Não querem perguntas, querem palavras de ordem, chavões, reverberamentos de slogans montados pelo primeiro gênio-apologista de plantão. E lá vai a turba atrás.

 

Eu tenho uma palavra para isso: indecência. No primeiro caso, a indecência é golpe. No segundo, simonia.

 

E eu só vejo duas possibilidades – ou a reação quixotesca ou brancaleônica, a encarnação do “espírito profético”, que, contudo, é igualmente enxovalhado por criptopoliticagens dissimuladas em ética profética, ou, alternativamente, resistir, resistir bravamente, como quem segura uma luz bruxuleante, e deve passá-la à geração seguinte.

 

Não, não me considero Quixote ou Brancaleone. Apenas inspiro-me neles, na minha passividade práxica, e em minha atividade literária. Escrevo para mim, e para as futuras gerações. Escrevo para o amanhã, para que, quando ele chegue, saibam que não se pode dizer que, hoje, tudo era covil de canalhas, ainda que a resistência mantivesse-se tão apagada, tão apagada, que era como se não houvesse. E, contudo, eu resisto.

 

Penso que estamos – é assim que me sinto e me vejo – cruzando um grande vale. Não saímos, ainda, do sopé da Idade Média, seja na política brasileira, seja na igreja brasileira. Ainda a barbárie, agora com etiqueta e grife, nos alcança os calcanhares, e às vezes – mesmo – nos lanha as costas, mais um dedo e teríamos sucumbido sob o peso de suas garras. Nossos próprios pecados nos assustam, e, como ogros, ciclopes, demônios fantasmagóricos, nos assombram as noites mal dormidas. Quando, a muito custo, emergimos da depressão, o “real” nos afronta, debochadamente. Esse vale nos leva para algum lugar. Talvez ainda seja mais extenso do que gostaríamos. Ou talvez, não. Talvez – quem sabe? – para além daquela neblina lá na frente, contra todas as previsões, uma montanha altaneira e aprazível desencrave-se das profundezas da terra, e nos indique novas alturas civilizatórias. Quem sabe?

 

Por enquanto, apenas lamento, e, enquanto lamento, deixo escrito, para as gerações futuras, para minha esposa, Bel, para meus filhos, Israel e Jordão, para meus amigos, para os de perto, para os de longe, que eu, Osvaldo Luiz Ribeiro, brasileiro, (ainda) batista – apenas por conta de seus “princípios” – não concordo, em nenhum grau, nem com a mædia golpista que aí está, nem com a simonia clerical que está aí. Não posso evitar que falem, e continuarão falando, que debochem, e continuarão debochando, mas posso evitar que me marquem a ferro e fogo.

 

Sento-me na varanda de meu sonho, deito-me na rede de meu mito, e espero. Pelo quê? Pelo vento que os levará a todos, para longe, para sempre, deixando atrás de si uma brisa, na qual se poderão, outra vez, ouvir passos.

19/07/2007 15:04

 

 

 

 

XXIII

Graças a Deus, não sou engajado!

 

Acabei de dizer isso, depois de ler um texto num blog. Não interessa o texto, nem o blog. Interessa meu sentimento, lendo-o. Zombei dele, num primeiro momento, porque vi coisas nele, no texto, que, de fato, não me pareceram, de todo, honestas. É o risco de você ler textos de amigos, de amigas. Eles dizem coisas que a vida deles, delas, não dizem, propõem coisas que, quando você vai pensar seriamente a respeito delas, são políticas. Nada errado, necessariamente, com política. Quando ela se diz política. Detesto é as políticas que se disfarçam, transformam-se em outra coisa, para não precisarem anunciar que são mesmo é políticas.

Mas depois, passou-me um outro pensamento. Que eu não ligasse. Que eu até achasse bom de estar ali, o texto, porque, enquanto aquele estiver ali, o meu pode estar aqui. É ter paciência. É esperar. É aguardar, com esperança, que um dia novo chegue, como Rain, do Breaking Benjamin.

Esse meu duelo de sentimentos fez-me olhar para mim mesmo - para meu primeiro pensamento/sentimento: "mas que matreira!", e para meu segundo sentimento/pensamento: "ah, que seja, melhor que todos possam dizer o que querem, como querem, para que eu mesmo possa aborrecer o mundo com minha próstata".

Percebi-me, então, ainda sob ameaça de não somente achar-me "certo", mas de ter ímpetos de agir segundo minha certeza de estar certo. E tive medo.

Aí agradeci a Deus por eu não ser uma pessoa engajada. Com isso não quero dizer que não me intrometa no mundo - eu escrevo uma página! -, mas que eu não vou querer forçar o mundo a comportar-se do jeito que eventualmente eu gostasse, ainda que me permitirei resmungar, como um velho, ao ler coisas que me desagradam, ao observar incoerências, hipocrisias, de que, vai ver, sofro também.

No fundo, tenho medo de errar. Não tenho conseguido segurar meu ímpeto de dizer. Talvez, se fosse mesmo necessário, uma vez que não se constitui em mim, ainda, um vício, mas um gosto, um impulso, quase erótico, eu diria, eu poderia, se quisesse, parar definitivamente de escrever, ou de, pelo menos, publicar. Porque eu não escrevo mais nada que não tenha ácido, e, não obstante, quero que todos leiam, e chego a publicá-las num órgão oficial dos batistas. Logo, brinco com fogo, porque não posso fazer de outro jeito. Carinho, só na Bel, naquela pele. Em todos os outros, um olhar crítico, de solidariedade crítica. Minha contribuição, se quiserem, será essa, de arrancar pedaços de carne, de fazer feridas, porque não há parto sem sangue: "o que é que vem a ser amor, o que é que vem a ser deus, quando deixam de ter uma gota de sangue?..." (Nietzsche, A Gaia Ciência, Aforismo 372).

No fundo, fico rabugento diante de textos que assopram - mas não mordem. Estratégias de não trazer à luz as crises, mas de contorná-las, para achar-se um jeito de se enfiar ali. Meu corpo recusa isso. Devo sofrer de uma patologia grave, a de ter que meter sempre o dedo na ferida, ou de sentir-se sempre como tendo metido o dedo na ferida, como se minha consciência hiper-crítica, meu Superego hiper-crítico (hiper-cristão!) me obrigasse, pobre de mim, a não repousar nunca, e a entrever em tudo e em todos os jogos de acomodação, os encaixes programados e programáticos.

Ah, se eu fosse poderoso! Seria um tirânico! Porque alguém como eu não pode, nunca, curvar-se, e, para amar, terá que tiranizar-se hipercriticamente, assumindo como diálogo ético um dever psicológico de ser bom. Mas sem ser bom. Minha bondade é puro egoísmo - querer que todos estejam bem, para não ter que me ocupar com ninguém, senão comigo mesmo. Se não fosse um tirânico, seria um ectoplasma, espelhando, tão somente, a vontade tirânica do povo. Não engajando-me, posso travar minha batalha titânica comigo mesmo, ser baixo e vil comigo mesmo, ferir-me, por extremado amor que tenho a mim.

Ah, que energia não consumo, mantendo-me lúcido - mantendo-me crente que lúcido. A muita alegria me é completamente perigosa. Preciso de tristeza, para conter-me. Preciso de uma dor profunda, de fundo, para além de dores de feridas na pele, para manter-me sob controle.

Ah, alunos meus que me queriam ver pastor. Não sabem o mal que eu faria à vida! Há uma outra pessoa aqui dentro, que eu mantenho dia e noite, presa. Não sei se ela é o Id ou o Superego. Não sei mais. Não sei mais se as pulsões cegas me seriam piores do que as urgências éticas. Não tenho medo de minha desrazão. Apavora-me a minhas razão. As pulsões são, sem porquês. A razão sempre tem uma razão. Não há cegueira na pulsão. Toda, na razão.

Assim - melhor para o mundo que eu sofra de um mal da mente, e que sofra, para manter-me contido. Contido assim, já me porto intoleravelmente, desrespeitosamente, iconoclasticamente. Imagine-se isso solto!

Então, amiga, escreve o que tem que escrever, brinca aí de dizer coisas, que é meu olho mal que vê o jogo que você joga, os acordos que buscas. Talvez o meu jeito crítico incorrigível de ser constitua a forma como aprendi eu mesmo a jogar meu jogo de estar. De ser fiel à minha insanidade - e mendigo da compaixão do mundo.

Mas, havemos de convir - como joguei bem até aqui esse jogo. Oxalá seja sábio para não pôr tudo a perder - para não perder-me. Oxalá seja sábio para ser eu. E deixar que sejam.

20/06/2008 17:52

 

 

 

 

 

XXIV

06/08/2008 - sou Doutor!

 

Finalmente, chegou o dia. Aliás, ele já passou. Lá estava eu, naquela mesma sala, onde Bouzon me recebeu, onde quase fui jubilado, e onde, então, finalmente, venci...

 

Foi assim que fiz. A bolinha branca, acima, tratada a la samurai, representa todos os obstáculos, todas as dificuldades, todas as ameaças, todas as barreiras. Samurai, mantive-me firme, resoluto, nobre - e enfrentei e lutei e sofri e venci. E chorei. De alegria.

É muito curiosa a história de minha entrada na PUC-Rio. Na prática, entrei sem nada. Minha formação - Teologia - era "livre". Minha graduação em Teologia dera-se entre 1987 e 1992, no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, onde leciono desde 1993 e onde, por um tempo (2001-2006), fui Coordenador do Curso de Graduação em Teologia. Hoje o curso é autorizado - presidi a Comissão que elaborou o Projeto em vigor. Mas eu mesmo, minha formação era livre. Assim, também, meu mestrado. Fiz mestrado em Teologia, também lá, no STBSB, também livre. Haroldo Reimer, o Prof. Dr. Haroldo Reimer, formado na Alemanha, então nosso professor, lá, e, agora, professor na Universidade Católica de Goiás, ele foi meu orientador. Mas o curso, em si, era livre. Logo, não "existo" como Mestre. E, se não existia, então, como graduado, e também não como mestre, então, não existia.

Mas lá estava eu, mexendo no site da CAPES, por conta de meus afazeres de Coordenador. Quando dei or mim, estava na página dos cursos de pós-graduação em teologia. Quando vi, estava na página da PUC-Rio. Quando vi, lá estava, aberto, o processo de ingresso para o doutorado. Quando vi, lá estava, na forma de link, o nome de Bouzon. Quando vi, á estava eu escrevendo um e-mail, dizendo de mim, dos meus escritos publicados, de Haroldo como meu orientador. Quando vi, lá estava eu, encaminhando o e-mail. Quando vi, lá estava eu, recebendo uma resposta de Denise, secretária do Departamento de Teologia, confirmando reunião entre Bouzon e eu.

Bate, louco! Bate, e, se vai me matar, mata logo, porque, se me deixar viver eu vou até o fundo, lá, onde apenas a ponta dos dedos, com esforço, arranha...

Lá fui eu. Reuni um caminhão de papéis. Cópia de Nehushtan, cópia de quase todos os meus artigos publicados. Bouzon recebeu-me. Gentil. Conversamos. Disse que tinha que resolver problemas internos. Precisávamos de tempo. Isso, para decidirmos se eu podia concorrer ao ingresso. Volta daqui a uma semana, Osvaldo.

Uma semana de nervosismo, estresse, ansiedade - essas coisas que não me definem, hauhauhau... Voltei. Boa notícia. A situação estava contornada no Departamento, mas era necessário contorná-la na Câmara Geral da Pós-Graduação. Espera mais uma semana.

Voltei. Osvaldo, entra com o Projeto. Entrei. Banca. Lembro-me bem dela. Bouzon, eu já sabia o que pensava dele. Alguém não lhe deu muito valor. Mas, apesar disso, foi aprovado meu Projeto. Lembro bem dessa banca. Desse dia. Chegou-se a rir da bibliografia que eu reuni. 

Estou dentro, Bouzon? Não. Temos que fechar definitivamente todas as questões burocráticas. Espero? Sim. Uma semana. Nada? Não, Osvaldo. Aguarde, sim? Duas. Nada? Estou com algumas dificuldades, Osvaldo. Precisamos de mais uma semana. Não falo nada no Seminário? Não. Espere. E, finalmente, o aviso - Osvaldo, disse-me Bouzon, seja bem-vindo!

Que dia! Sentei-me nos bancos da pracinha da PUC, perto da pontezinha entre o prédio Leme e o guichê de pagamento de estacionamento, e fiquei ali, olhando as árvores, sorrindo, feliz, abobalhado. Não, não me belisquei, não. Mas podia. Cabia o gesto.

Bouzon não chegou a orientar-me diretamente. Na prática, o que ele fez, e com justiça, foi cortar e cortar e cortar, até que chegamos a um escopo literário que lhe pareceu adequado - Gn 1,1-2,4a. E, quando ao conteúdo, em três ou quatro reuniões conjuntas entre Bouzon e seus orientandos, apresentei minhas hipóteses. Bouzon ria, quem escutava um louco. Mas nada falava. Insistia, apenas, em que eu reconstruísse a história da pesquisa do Pentateuco. E fiz. 700 páginas.

Bouzon morreu. Não sabia. Quem me avisou, por telefone, de Goiânia, foi Jimmy - como ele pôde saber antes de mim? Fiquei arrasado. Uma tristeza profunda me tomou. Eu não soubera que ele estivera doente. Ele não me contou. Mas colegas de turma, agora, me diziam saber, e, até, freqüentar-lhe a casa. Senti muito, muito triste.

E medo.

Passaram-se os dias. As semanas. Os meses. Depois de seis, sete meses da morte de Bouzon, procurei o Departamento. Esta a pouco mais de um ano da defesa, e sem orientador. Vamos resolver - não há razão para preocupações. Uma semana depois, Isidoro Mazzarolo era meu orientador.

As 700 páginas que Bouzon encomendou foram pro lixo. As 270 que estavam sendo escritas, deviam ser revistas. Revi. Era final de 2006. No início de 2007, matrícula. Fiz. Exame de qualificação seria em 2007/2. Fiz a matrícula. Em junho, fui cobrado. Ora, mas é só em novembro. Não, você tem quinze dias.

Medo.

Escrevi. Três avaliações. Isidoro eu já sabia o que pensava. Estávamos ensaiando nossos acordos. Ludovico foi reticente. Serve-lhe, aí, a metáfora do copo meio-cheio, meio-vazio. O espírito geral do tempo me dizia que estava meio-vazio.

Mas Teresa Cavalcante escreveu delícias de carinho. Porei na moldura suas palavras. Eram ela, estampada, no papel que ela imprimira. Não apenas fonemas e signos, mas coração, pulsando - um amável coração pulsando.

Os dias passavam, eu escrevia. Os encontros com Mazzarolo não eram o que eu esperava - ou eram o que eu esperava. Os acordos teciam-se de forma difícil. Chegávamos a acordos. Mas eles não pareciam deslizar uns sobre os outros. Pareciam termos de aproximação.

Chega outubro - e eu caio de cama. Sem ler, sem escrever. Fui medicado. Remédios pesados. Fizeram-me tremer por duas semanas. Dias terríveis. O que podia fazer era jogar jogos de PC. Inventei Navarre. Joguei. Fecharam o site do jogo - Navarre morreu. Chorei.

Mas voltei à ativa em fevereiro. Não dá mais tempo - melhor você ser jubilado. O quê?? Mas nem que todos os infernos me atormentem! Eu consigo. Não consegue. Consigo! Ele não consegue. Consegue!, grita e crê-me a leoa que comigo dorme todas as negras noites de nossa vida, a fortaleza à porta da qual eu durmo desde que, um dia, ela me abriu a janela - que a porta, essa é segredo dela, que o coração dela é lugar sagrado, e dela, e só dela (oh, não considereis que é pouco dormir ao pé da porta do castelo - ninguém alcançou um dia sequer a curva da estrada, lá longe).

Está bem. Sob seu risco. Sob meu risco. Faltam muitas referências. Anotadas todas, lá vou eu. Reúno mais de trezentas obras, todas, atualizadas - entre 2000 e 2008. Escrevo, acerto, corrijo. O penúltimo capítulo me aproxima de Nietzsche, eu quero dizer, é prosa?, é poesia?, é Tese?, é Literatura? É lindo! Ludovico teve a sensibilidade: disse-o publicamente, durante a defesa. Leu três parágrafos que releio várias vezes, porque lindos. Saíram-me da carne, do gosto, do gozo, que não escrevo forçado, mas por puro prazer.

Entregues as cópias. Montada a banca. Boatos de que Ana Maria Tepedino havia trabalhado nos bastidores, anjo da justiça. Fiquei nos boatos. Mas - coincidência? - lá estava ela, no dia da banca - ela, que nem da área é (e, aqui, digo muito mais do que as palavras dizem, que as ausências falam por si só!). Vê-la, amainou-me os medos todos. Ela, ali, e Teresa Cavalcante, tendo escrito-me aqui.

Ah, e claro, o exame de pré-qualificação, o segundo. Mais uma vez, Mazzarolo foi conciso. Já sabíamos o que um diria para o outro. Ludovico escreveu, agora, coisas belíssimas. Cito-o: uma das melhores teses de teologia bíblica que ele já lera. Quase chorei, porque uma carga enorme de tensão saiu do meu peito, quarenta e duas lobas ferozes que me comiam o fígado. E aquela figura, depois de ter-me mandado estudar hebraico, de público, no Congresso da ABIB, agora me dizia - parabéns, menino!, que lindo!, mereces o título, e, se queres, dou-to agora...

Leonardo, não. Bateu feio e pesado. E esse foi o medo que permaneceu. Vou apanhar na banca. Mas lá estarão Haroldo, que, se discordar de mim, saberá ser gentil (mas Jimmy me fofocava, após uma viagem a Goiânia, que Haroldo gostara do que lera). Ludovico, dissera-me na avaliação, que estava tudo lindo. Carlos Frederico, que eu não conhecia, era uma incógnita. Ele é uma amor, disseram-me. De fato, minhas fontes estavam certas. Mais que um amor, ele leu a Tese, e entendeu, e entendeu-me. Foi uma honra tê-lo na banca.

Apanhei um pouco. De Leonardo. Isidoro disse uma ou duas coisas, assim, passando. Mas fez elogios à Tese. Ao fim e ao cabo, aprovado.

Até onde posso controlar o que estou dizendo na Tese, até onde posso apostar onde isso vai dar, na dinamite que tenho nas mãos, no tesouro que os examinadores tiveram diante de si, confesso que esperava mais do que aprovação. Mas, para todos os efeitos, é o Título aquilo de que tanto preciso. E, agora, mais uns dias, e pego-o, no papel.

Fui bolsista do CNPq, o que significa que, logo, obrigatoriamente, a Tese estará disponível para leitura on-line. Minha leitora/meu leitor, aguarde, se deseja ler. Até lá, já terei escrito coisas. Dito coisas. Desdito coisas.

Quatro agradecimentos devem ser registrados, em relação à PUC. Ao Bouzon - mas ele não me ouve mais. Saiba, contudo, o mundo, que sou grato a Bouzon, e imagino que ele fez por mim, lá dentro, muito, muito mais do que imagino. Dorme, Bouzon. Não lhe posso chamar de amigo, porque você nunca me contou nada de você, nem que morria, e que eu seria entregue às feras. Tomo-o por protetor, ao menos, porque empresou-me seu nome - o que você tinha de maior valor.

Agradeço, também, ao meu segundo orientador, Isidoro Mazzarolo. Apesar de todas as nossas diferenças, apesar de tudo, eu tenho que admitir que Mazzarolo foi além do que lhe cabia. Não era ele o titular da área de minha pesquisa - havia titular na Casa. Mas, por razões que deverão ficar soterradas no mistério das coisas inconfessáveis, ele é quem teve de me assumir. Isso faz de seu gesto, mesmo de suas "negociações", gestos significativos de honra. Registre-se que tolerou um pesquisador abusado, independente, a dizer coisas contrárias às que ele mesmo, orientador, escrevera e publicara. Obrigado, Mazzarolo. Foi uma luta para você, também, certamente - e a sua honra foi não ter usado contra mim armas que eu mesmo não pudesse usar, e delas me defender, como você usou, eu usei, e ambos nos defendemos. Obrigado.

Restam dois agradecimentos. E vão a Ana Maria Tepedino e Teresa Maria Cavalcante. Guardarei com carinho a lembrança de nossas aulas. E com saudade a imagem do rosto de vocês, dos gestos de vocês duas, que me fizeram lembrar das mulheres em torno do nazareno, eu, uma espécie de Zaqueu, numa árvore trepado, a ver passarem ele e elas. Em dois momentos Teresa apareceu gigante. Na minha primeira avaliação - que fofa! - e quando estava para enfrentar uma reunião, aquela em que seria jubilado e nem sabia, e ela me disse coisas simples de encorajamento. Tepedino, em dois momentos. Pequenos encontros aqui e ali, e na banca, preocupada com cadeiras, comigo (talvez deva incluir aqui o que teria feito, a crer nos boatos - e, se fez, sou grato). Naquela reunião quase-fatídica, se eu não cresço, se eu não me faço leão, se eu não finco os pés na terra, se eu, samurai, não desembainho a espada, se eu não grito os anjos e demônios todos, aos deuses e diabos todos, quem sabe, se, por detrás disso, elas não tivessem operado, meus gritos de nada tivessem valido... Mas também é verdade que, se elas trabalharam por mim nos bastidores, e, na hora h, eu recuasse, que tristeza. Mas quis a vida que todos nós agíssemos e honrássemos nossas ações. Obrigado, minhas irmãs.

Na Tese, agradeço, ainda, a Élcio, a Haroldo e a Bouzon/Mazzarolo. Cada um orientou-me num momento - graduação, mestrado e doutorado. Sempre, AT - Bíblia Hebraica (no fundo, só não me torno um "judeu" porque não há, em nossos dias, diferença entre sonhos metafísicos, mesmo que tão diferentes, e, quer-me parecer, o caminho é para frente, para a construção de mim mesmo, nessa nova aurora vinte-e-uma.

Agradeci à PUC, claro. Ao CNPq. 

Não esqueci da Bel e de meus dois filhos. Os três são os únicos que realmente sabem o quanto foi difícil e o quanto foi fácil escrever essa Tese.

E, agora, sou Doutor.

Preciso, agora, transformar isso em sustento. Com urgência. Nossas economias vão-se consumindo. Ontem, na TV, vi uma reportagem sobre as cidades do interior. Vi uma cortadora de cana. Vi a casa dela. Bela, bela, bela, toda tirada do corte. Olhei pra Bel e disse, com o mesmo sentimento estranho que aqui me consome, ainda - se eu não transformar logo esse esforço todo, em sustento para nós, largo tudo, e vou cortar cana no interior de São Paulo. Porque tudo é mercadoria, diria Mennochio, até esse doutorado. Mas a vida, a honra, o sustento da mulher e dos filhos, o pão, a terra, isso é - apenas isso é - a vida. O mais é enfeite.

Amanhã saberei.

09/09/2008, 18/07

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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– página atualizada em 09/08/2008 18:35:12