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Intuições
programáticas sobre monoteísmo ético-profético
Osvaldo
Luiz Ribeiro
04/09/2008
III
Congresso da ABIB
Mesa
– Imaginários da Divindade
Senhores,
senhoras, colegas da mesa.
1. O
conceito de monoteísmo ético-profético é um dos últimos –
se não o último – mito programático da tradição
judaico-cristã – que, como o quer Gianni Vattimo, corresponde
à tradição ocidental. Moisés como autor do Pentateuco; a
elaboração político-programática de um Israel e uma Judá étnico-socialmente
distintas de uma Canaã; o caráter idiossincrático da fé
israelita-judaíta, em face do seu entorno próximo-oriental; a
condição monolátrica e anicônica da população
israelita/judaíta desde a sua emergência retórico-sinaítica
– todos esse mitos caíram. Moisés não escreveu o
Pentateuco. Israel é Canaã. A fé e a tradição israelitas e
judaítas respondem às perspectivas culturais do Crescente Fértil.
Israel e Judá foram originalmente polilátricos e icônicos.
Desenterra-se, finalmente, a Bíblia Hebraica.
2.
Todavia – um mito permanece intocado: os profetas seriam os
“criadores”, “defensores”, “pregadores”, primeiro,
da monolatria, e, conseqüentemente, do monoteísmo. Minhas
intuições programáticas sobre monoteísmo ético-profético têm
por objetivo postular, como hipótese de trabalho, a ser
heuristicamente, indiciariamente, investigada, o seguinte insight
– o monoteísmo não está ligado à tradição profética,
mas decorre de programas institucionais relacionados à
reconfiguração político-religiosa de Judá, sob a Pérsia,
entre os séculos VI e IV, cuja sistematização filosófica
ocorrerá, naturalmente, no contexto helênico-judaico tardio,
onde A República, de
Platão, funciona como “modelo” para A
Cidade de Deus, de Agostinho, respectivamente, portal de
entrada e de saída da configuração histórico-social do
Ocidente monoteísta.
3. A
persistência do mito de um monoteísmo ético-profético, nesse
caso, derivaria do regime retórico-político ocidental, segundo
o qual o monoteísmo é filosófica e teologicamente superior ao
politeísmo, bem como do desdobramento histórico-político do
Ocidente, a partir da peculiaridade histórica de que, aí, o
Poder constitui-se sobre o fundamento político-teológico da
doutrina monoteísta. Política, Teologia e Filosofia
articularam-se para a manutenção do regime. A História, hoje,
pode pôr fim ao “grande acordo” Deus e Estado, acordo que
nenhuma República, até agora, ousou denunciar – ao contrário,
imprimem-no em dólar ou, por meio dele, abrem-se Constituições.
4.
No campo apologético, o mito do monoteísmo ético-profético
é sustentado por meio de duas estratégias. Primeira – o
“modelo” weberiano da dicotomia “carisma” e “instituição”
– isto é, “profetas” (carisma) e “sacerdotes”
(instituição). Vinculado ao movimento profético, reserva-se
uma essência platônica – carisma, oráculo, revelação –
ao monoteísmo, asseverando-se a sua origem na própria
manifestação oracular de Deus e da Verdade. O raciocínio é
extraordinariamente simples: Deus é bom, os profetas são bons,
o monoteísmo é bom, logo, o monoteísmo é ético, é profético,
é, mesmo, divino. Recentemente, Ilya Prigogine denunciou o
mesmo argumento em Newton: Deus é atemporal e eterno, a Verdade
é atemporal e eterna, logo, o Tempo é uma ilusão humana, uma
variável dispensável na matemática e na física. Por sua vez,
Julius Wellhausen interpreta a História de Israel numa
perspectiva anti-hegeliana e próximo-weberiana – a Era de
Ouro de Israel constitui a Era do Profetismo ético-monoteísta,
ao passo que a Era do Judaísmo Sacerdotal e Rabínico tardio
corresponde à corrupção das Origens. No que diz respeito à
pesquisa das origens do monoteísmo, ou o pesquisador dá-se
conta de que opera sob a força noológica do mito fundante de
um monoteísmo ético-profético, ou, por recusar-se à sua
problematização crítica, sujeita-se a reproduzi-lo cada vez
que abre a Bíblia Hebraica e publica artigos.
5.
É verdade que a montagem dos Profetas, bloco central do Tanak, a princípio, legitima o mito. Não
penso que seja por razões muito distantes desse fato que,
atualmente, defende-se a abordagem da “canonical approach”
às Escrituras. A leitura canônica dos Profetas
assegura a pretensão de que os profetas foram os sustentadores
do monoteísmo “mosaico”, monoteísmo mosaico esse que,
todavia, caiu, porque Moisés é perfeitamente dispensável para
o mito, mas, não, os profetas enquanto patriarcas do monoteísmo.
Um monoteísmo ético-profético sustenta-se como essencialmente
bom, ao passo que um eventual monoteísmo
institucional-sacerdotal revelar-se-ia cínico demais para a
consciência moderna. Soube que semana passada, na PUC-Rio,
eminente teólogo europeu, de inquestionável erudição,
afirmava que Ásia e África não chegaram à revelação do
monoteísmo porque não tiveram profetas!
6.
Entretanto, uma aproximação crítica, de um lado, à história
social dos movimentos proféticos, seja no Crescente Fértil,
como um todo, seja na Bíblia Hebraica, revela que, nos Profetas, estão misturadas, como única voz, a voz de diferentes
modalidades de profetismo – críticos, cúlticos, carismáticos.
Não há um movimento
profético em Israel – há muitos. De outro lado, deve-se ter
em mente que a montagem, seja dos Doze,
seja do bloco inteiro dos Profetas
Posteriores – Isaías,
Jeremias, Ezequiel e Os
Doze – tem maior probabilidade de ter-se dado em período
pós-exílico – o que disso tinha ciência já Espinosa. Parêntesis
– a crítica bíblica, em Espinosa, dá-se em seu Tratado Teológico-Político.
Espinosa quer discutir Ética e Direito, e, ele sabe, tem de
aplicar uma crítica radical ao fundamento ontológico-metafísico
do Direito ocidental. E o faz. Recentemente, Franz Crüsemann,
na contra-mão, postula que “o caminho da Lei até o Sinai”
tenha tido, e ainda tenha, por objetivo a instalação da esfera
do Direito e da Ética na órbita do “divino”, longe e a
salvo de todo poder temporal. Não me surpreende que quem
defenda tamanha tese platônica seja exatamente aquele que
postula uma ligação indissociável entre Elias
e o Monoteísmo. Deve-se investigar, imparcialmente,
indiciariamente, se o mito que aqui se denuncia não opera,
invisível, o programa de Crüsemann. Fecha Parêntesis.
7.
Se forem considerados os profetas críticos – Amós,
Miquéias e algum ou alguma
coisa do Primeiro Isaías, revelar-se-á muito curioso que não se poderão
identificar muitas passagens em que se deixariam flagrar, lado a
lado, polêmica em torno do direito e polêmica em torno da
monolatria. Ou faltam absolutamente polêmicas religiosas, ou
elas, raras, quando encontradas, constituem perícopes
independentes das perícopes crítico-socialmente engajadas. A
meu entender, nenhum desses profetas manifesta indiscutivelmente
retóricas de apologia monolátrica. Para torná-los monolátricos,
é necessário, das duas uma: ou, como faz Frank Crüsemann,
recuperar um suspeito Elias (a meu ver, na forma como se
encontra, hipóstase sacerdotal), ou, como faz mesmo Israel
Finkelstein, postular a plausível historicidade de um Oséias
monolátrico – como se o Livro
de Oséias constituísse objetivação de consciência de um
profeta do século VIII, antes que cooptação da profecia pela intelligentsia
judaíta da Restauração.
8.
Sabe-se que a tropa de bigas do exército assírio era constituída
e treinada por contingentes militares israelitas, e que, quando
Samaria foi destruída, essa mesma tropa, em vez de aniquilada,
teria sido anexada à guarda pessoal do rei. Isso significa a
absoluta inserção de Israel no círculo do poder do Crescente
Fértil – com tudo o que isso significa, e, principalmente,
para os “empobrecidos”. De fato, os argumentos da exegese
latino-americana, que têm explicado um Amós
a partir da denúncia “profética” – a rigor, político-partidária
– da opressão do povo sob o peso das coroas, encontram, aí,
seus melhores fundamentos. Nesse sentido, parece que explica-se
bem, assim, o surgimento da profecia crítica em Israel. Mas –
e eis o centro nervoso das minhas “intuições programáticas
sobre monoteísmo ético-profético” – até que ponto esse
movimento “crítico” postulava efetivamente uma “culpa”
polilátrica da opressão, e logo, uma “saída” monolátrica
para a justiça? Até que ponto encontrar, aí, as origens do
monoteísmo não constitui exemplo da mesma rotina que permite
encontrar Jesus de Nazaré nos oráculos de Isaías –
retroprojeção ideológico-programática engajada?
9.
Na outra ponta, a crítica histórica do monoteísmo permite
questionar seu alegado fundamento e caráter ético. Parece não
ser arriscado postular que a vitória do monoteísmo deu-se de
forma cronológica e geograficamente sobreposta à vitória da
Instituição Ocidental – a unificação do Estado e da Igreja
– um Império, uma Igreja, um Imperador – um Deus.
Eventualmente, não teriam faltado profetas na Ásia e na África
– “Deus” é que lá não pode pôr as garras (o que,
contudo, está longe de significar que, também lá, os deuses não
são como o de cá). Construiu-se um Mundo, um Mito, um Monoteísmo.
E ele, agora, controla-se a si mesmo – e, eventualmente, nossa
própria leitura dele.
10.
Finalmente, assim como soa incompreensível que o Ocidente
Republicano se tenha promovido sob a bandeira da Liberdade, ao
passo que arrastava, internamente, milhões de escravos, e,
externamente, milhões de colonizados, sempre sob a égide da ética
profética monoteísta, deveríamos nos perguntar se os valores
éticos da sociedade construída sob os pressupostos do Estado
Democrático de Direito não soam anacrônicos e cínicos,
quando olhados sob a perspectiva mítica do monoteísmo em sua
base político-teológica. O monoteísmo é compatível? Com que
valores? Com os valores de quem?
11.
Não se trata de um último mito da Bíblia Hebraica. Trata-se
do último Mito cristão no Ocidente, que sequer os Mitos dos
Estados Nacionais, sua liturgia mitológica da Pátria-Deusa,
conseguiram superar – e isso porque, desconfio, é ainda aí
que da mística do controle social por meio do controle do
sagrado se nutra a Ordem Ocidental. Vattimo terá consciência
disso quando postula a definitiva identificação entre
Cristianismo e Ocidente – Metáfora e Tradição?
12.
A pesquisa que postulo sabe que o que está em jogo é o próprio
fundamento retórico da Teologia Política do Ocidente. A
tarefa, no entanto, será levada a termo, seja por nós, seja
pelos que vêm atrás de nós. Não a terminaremos, se começarmos
agora. Mas teremos facilitado o trabalho das gerações futuras.
13.
No II Congresso da ABIB, em 2006, perguntei a Norman K.
Gottwald, naquele momento de perguntas e respostas, se ele
acreditava na possibilidade de uma utopia da justiça não-teologicamente
manipulada. Ele não me respondeu. Eu, contudo, continuo a me
fazer a pergunta – nós, que dizemos defender a justiça,
servimo-nos do monoteísmo, como estratégia, porque estamos
ainda mergulhados nós mesmos nesse mito, ou, antes, para alcançar
o direito, acreditamos ser mais eficiente usar a mesma estratégia
dos nossos inimigos retóricos – a manipulação do sagrado, o
espelho onde esquerda e direita se reconhecem?
Obrigado
pela atenção.
Osvaldo
Luiz Ribeiro |