XII
SEMANA TEOLÓGICA DO CETERJ
As Grandes Doutrinas da Bíblia
Predestinação
- contra
Topografia
teológica – posicionamento teológico-epistemológico
A
rigor, falar contra ou a favor da doutrina da predestinação exige uma
posição a partir da qual se possa falar da doutrina da predestinação
em termos positivos. Para uma teologia de caráter cognitivo-representativo, tal
posição é possível, porque uma tal teologia parte do pressuposto clássico e
tradicional de que a teologia consiste num depósito de proposições objetivas,
às vezes analógicas, a respeito das coisas concernentes a Deus, quando
não ao próprio Deus.
Uma
tal teologia, que chamarei teologia proposicional de representação,
desenvolveu-se também no século XX. Na Europa, desenvolveu-se sob a orientação
de Karl Barth, nos desdobramentos da teologia neo-ortodoxa. Nos Estados Unidos
da América, desenvolveu-se numa teologia de caráter bastante fundamentalista,
quando radical, ou mais ou menos conservadora, ou moderada, proposicional e
representativa, ainda, contudo. No Brasil, herdeiro que somos de correntes evangélicas
norte-americanas e protestantes européias, essa teologia neo-ortodoxa, evangélica,
evangelical, dê-se a ela o nome que se queira dar, tudo são cômodos do mesmo
apartamento, encontrou ampla aceitação, e se pode tomá-la como representativa
do contingente eclesial nacional.
Não
foi nem é a única corrente teológica, contudo, essa de caráter renovador da
ortodoxia. Uma corrente secular desenvolveu-se nas academias, e, ali, religião
(logo, teologia) tornou-se objeto de estudo, mesmo para aqueles que nada têm em
comum com a experiência religiosa que “estudam”. Não vai aqui qualquer
avaliação crítica a tal corrente. Ela é correta sob certo aspecto, uma vez
que se desenvolveu a partir da crítica à metafísica levada a termo desde
Kant, mas, sobretudo, por meio de
Uma
terceira via, como a primeira, a neo-ortodoxa, também à semelhança dela,
dialoga com a crítica à metafísica, mas, diferente da saída barthiana,
recusa-se um retorno à ortodoxia, justamente porque a ortodoxia constrói-se
inteiramente a partir de representações cognitivas de precipitados metafísicos.
A terceira via pretende-se “religiosa”, mas, ao mesmo tempo “secular”,
com o que se quer dizer que tal corrente assume, sim, a realidade do Sagrado (daí
ter um pé no continente “religioso”), mas assume, igualmente, com graves
repercussões para a reflexão teológica, os postulados limitadores, no que
concerne à metafísica, da filosofia desde Kant, e, principalmente, das reflexões
de
Como
quer falar, mas não pode falar do Sagrado – quer, porque o concebe enquanto
realidade, mas não pode, porque se compreende como produto de um ser
contingente, histórico, condicionado, limitado (sem que se aproveite a chance
para, como uma cunha teológica, enfiar-se aqui a mesma doutrina histórica e
tradicional de linha agostiniana, com seus derivados calvinistas e dorthianos).
Esse paradoxo foi enfrentado, fora da teologia, pela fenomenologia da religião,
principalmente com os trabalhos de R. Otto e Mircea Eliade. Uma teologia de caráter
fenomenológico, nesse sentido, vem tentando ser construída, e o teólogo Paul
Tillich é um dos representantes dela, ainda que seu trabalho tenha sido
interrompido quando muito, muito ainda havia por ser feito. Lamentavelmente.
Neste
momento, a rigor, desde 1993, um novo fenômeno pode estar em desenvolvimento.
Em sessão solene, Roma homologou um pequeno tratado, A Interpretação da Bíblia
na Igreja, produzido pela Pontifícia Comissão Bíblica. Trata-se de um
manual quase prático para facilitar a degustação da encíclica Dei Verbum,
elaborada pelo Concílio Vaticano II, na década de 60. Os dois documentos
tratam das Escrituras, e aquele primeiro, o manual, assume como
metodologicamente positivo, recomendável e primário o uso do método histórico-crítico
como método privilegiado de leitura da Bíblia. Não deixa de recomendar, como
úteis, outros métodos contemporâneos, não recomendando, dentre eles, tão
somente os métodos fundamentalistas, mas é absolutamente clara a sua predileção
pelo método histórico-crítico.
Não
só isso: o mesmo manual recomenda que a teologia seja, doravante, secundária,
no sentido de que se deva submeter elegantemente e de boa vontade à exegese
histórico-crítica. Ou seja, preconiza-se uma teologia também histórico-crítica,
inédita, ainda, em termos institucionais, ainda que não o fosse/seja em relação
a pesquisadores autônomos, pensadores, teólogos, e nas academias não
confessionais.
Meu
pronunciamento, aqui, cabível dentro do título PREDESTINAÇÃO (Contra),
deve ser ouvido e analisado à luz dessas informações. Não se trata de uma
reflexão de linha neo-ortodoxa (seja fundamentalista, evangélica ou
evangelical), nem de linha secular (isto é, como se se pretendesse
existencialista na linha sartreana, nem mesmo bultmanniana). Trata-se de um
pronunciamento na linha da reflexão teológica a partir da perspectiva da
fenomenologia da religião. Se, filosoficamente, a filosofia da religião
sustenta a reflexão teológica, em sentido exegético, o suporte se faz
mediante as ferramentas da exegese histórico-crítica.
Se
o ouvinte tiver em mãos essas informações, terá facilitado a sua compreensão
das proposições apresentadas, bem como maior facilidade no diálogo.
I.
PREDESTINAÇÃO (Contra): primeira parte – razões decorrentes do caráter
das Escrituras
1)
A Bíblia não é um livro
Isso
todo mundo sabe. Não é propriamente uma novidade. O próprio nome biblia
deriva de um plural grego, e significa, literalmente, livros.
Dizer que a Bíblia não é um livro não significa negar que se trate, afinal,
de literatura, pois é justamente isso que a Bíblia é – mas é dizer que não
se trata de um livro, mas de vários livros. Não é apenas que sejam os 66 livros: a rigor, não se pode
dizer ao certo quantos livros tem essa biblioteca, já que “livros” bíblicos,
no sentido canônico do termo “livro bíblico”, um Jeremias, por exemplo, é
constituído por várias partes independentes.
A Bíblia é, pois, uma biblioteca. E a Bíblia é
uma biblioteca não por ela mesma, porque cada pedaço dela construiu-se
independentemente dos demais, e mesmo aqueles que foram construídos, escritos,
com ciência dos anteriores, o foram a partir de princípios e objetivos próprios,
e, se recorreram àqueles, foi apenas para assumir deles a sua autoridade, a
para a aplicarem a si próprios – e isso somente porque os destinatários
desse último livro que se escreve à luz dos primeiros ainda tinham em alta
contam justamente eles, e não outros.
A frase “a Bíblia diz” consiste num equívoco.
O mesmo valeria para afirmações do tipo “Jeremias
diz”, porque, a rigor, não sabemos mais quem escreveu o que. O máximo que
poderíamos fazer seria reportamo-nos a uma passagem com a especificação técnica
consensual: “Jr 1,1 diz”. Nesse sentido, o termo Bíblia consiste numa
abstração, num objeto equívoco.
Minto. O termo Bíblico consiste num objeto
confessional. É dentro de uma confissão religiosa, qualquer que seja,
calvinista, arminiana, agostiniana, pelagiana, qualquer uma, que a Bíblia se
configura como a
Bíblia, e é aí, e só aí, que passa a ser um
livro. É
a voz autoritária dos fundadores dessas correntes religiosas, dessas
“denominações”, que circunscreve a biblioteca histórica judaico-cristã
num livro, no sentido de que ela, plural que era, torna-se, agora, porta-voz de
uma única perspectiva. Bíblia, é pois, invenção dos credos. Sem credos, a Bíblia
volta a ser o que era no princípio: ta
biblia, os
livros...
Daí que não se pode afirmar que os livros da Bíblia
fundamentem uma doutrina. Não, não fundamentam. É até possível, com alguma
analogia, com alguma adaptação, com alguma inferência, com alguma
ultrapassagem, fazer com que uma afirmação aqui, de um livro, e outra ali, de
outro livro, sustentem essa ou aquela proposição calvinista – como, também,
arminiana, pelagiana. Mas o que se ganha com isso é um incremente de apologética,
desnecessário a quem crê, desnecessário a quem não crê.
Como não existe Bíblia,
mas os livros, não existe doutrina, mas doutrinas. Doutrina, no sentido de sistema em
mono-perspectiva, só existe dentro de confissões, que criam uma Bíblia para
si, cada uma delas, lendo em mono-perspectiva textos plurais, seculares,
milenares, judaico-cristãos.
Por isso, porque tomo a Bíblia como livros, e não
como livro, que não posso ser a favor da doutrina da PREDESTINAÇÃO. Mas,
assim, a rigor, não posso ser a favor de qualquer doutrina que se pretenda bíblica
nesse sentido.
2) A Bíblia consiste em pronunciamentos histórico-condicionados
O que cada livro da Bíblia tem a dizer, o diz a
partir de seu chão e de seu tempo. É a forma simples de dizer que os
escritores da Bíblia estavam sempre e incontornavelmente ligados à sua própria
cultura, fé, economia, filosofia, sociedade, etc. Cada livro, portanto, tem a
dizer algo que se explica somente em função do lugar e do tempo em que o diz.
Muda-se o tempo, altera-se o lugar, e são transformadas as proposições.
Porque são proposições históricas. Históricas, são assim porque são
humanas. Humanas que são, o são em seu sentido mais profundo.
(É curioso como acabamos de encenar o nascimento de
Jesus, e não nos pegamos assustados afirmando a sua absoluta humanidade.
Achamos que podemos pensar a divindade encarnada, orgulhamo-nos disso, ensinamos
isso aos nossos filhos, alguns de nós repetem desde Nicéia a máxima do
verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mas quando chega a hora de dizer o mesmo da Palavra,
trememos todos desde os ligamentos dos calcanhares até as têmporas, e só não
nos persignamos porque fomos ensinados a ser diferentes dos católicos. Humano,
só Deus, a sua palavra, não... Sinto que há algo de político nisso...)
Os pronunciamentos bíblicos, tomados como são, não
se pretendem na altura em que foram alçados pelas teologias que se desdobraram
deles. Nenhum livro bíblico é calvinista – só Calvino. Nenhum livro bíblico
é arminiano – só Armínio. Os livros bíblicos têm outras chaves de
leitura, as suas próprias, discerníveis à luz do momento histórico em que são
produzidos, e não, absolutamente, como queremos, à luz dos nossos momentos
vivenciais.
Não é a teologia quem deve ler a Bíblia. É a
exegese. A teologia não lê a Bíblia, vai pedir socorro, vai fazer a Bíblia
dizer que ela, a teologia, essa teologia, essa minha, não a dele, está certa.
A Bíblia torna-se depósito de confirmações escriturísticas, ainda que todo
mundo prove qualquer coisa por essa metodologia.
É necessário deixar que a exegese diga o que é,
afinal, que dizem os textos bíblicos. Isso não levará a nenhuma unidade
doutrinária, a nenhum consenso teológico. Antes, revelará um mundo de
conflitos! um universos de batalhas! Não, a Bíblia nem é um livro, muito
menos um livro de um só – é uma biblioteca cujos livros pertenciam a muita
gente diferente, e tão diferente que pensavam mesmo mais do que diferente,
pensavam um em oposição ao outro. Apenas a nossa mania de fazer a Bíblia
dizer o que queremos que ela diga nos impede de ver o que ela de fato diz. Ale,
do que dá um trabalho enorme parar para ouvir...
Por isso não posso, se exegeta sou, ser, ao mesmo
tempo, calvinista. Até posso, se uma hora sou calvinista, e outra hora,
exegeta: mas, enquanto exegeta, não, não posso. Porque, enquanto exegeta,
tenho que estar disposto a deixar a Bíblia dizer quanto ela tenha para dizer, e
dirá, decerto, uma hora, “vem”, outra hora, “vai”, porque tem hora que
é um que diz, e ele diz “vem”, e, outra hora, é outro que diz, e ele diz
“vai”. Assim, não há uma boca na Bíblia, mas muitas, e se vamos querer
fazer por essas bocas falar o próprio Deus, não será fazendo delas bocas
desnecessárias, porque, se fossem desnecessárias, Deus usaria uma só... Eu
acho...
II. PREDESTINAÇÃO (Contra):
segunda parte – razões decorrentes do caráter da teologia
1) A teologia nada sabe de Deus
A teologia nada sabe de Deus. Ao contrário do que
muito se diz, teologia não é o estudo de Deus, como se tal coisa fosse possível!
Não, não é. Nem é possível isso de estudar Deus, quanto teologia não é
isso. Teologia é, antes, o conjunto histórico das afirmações sobre Deus, do
que se tem dito sobre ele – e quanto se tem dito! Por isso a teologia tem que
ter compartimentos, porque não se fala de Deus apenas no cristianismo, mas em
todas as religiões, e teologia não é propriedade privada dos cristãos.
Assim, se há – e há, teologia cristã, também há teologia judaica, e,
mesmo, teologia budista.
E é preciso ir mais a fundo. Se a teologia é um
grande apartamento, como a Bíblia, tendo as duas, a teologia e a Bíblia, inúmeros
aposentos – e cada dia se vão construindo mais –, não se pode esquecer que
também esses aposentos têm suas divisórias, porque a teologia cristã, por
exemplo, tem suas salinhas reservadas – uma é a teologia cristã católica,
outra, a luterana, outra, a batista, outra, a presbiteriana, e outra, e outra, e
outra... Não importa que cada uma se diga “bíblica”, não o é. O que são
é tradicionais, mesmo. Alguém postula uma mono-perspectiva doutrinárias, faz
discípulos, e os discípulos perpetuarão o movimento, que se dirá bíblico, e
se outros se dirão, também, sejam anátema, porque bíblico mesmo, só há um,
o meu, claro!
Essas teologias não têm, nenhuma delas, qualquer
acesso a Deus. Não, não têm. Têm acesso a suas próprias reflexões sobre
Deus, e isso nada significa de absoluto, somente que lhes gosta de pensar Deus
dessa forma, e não daquela. Em nada se lhes diz que, no início, o cristianismo
pensavam não só Deus, mas o próprio Cristo, de formas diversas, e que somente
Nicéia veio pôr um termo (sob uma ótica) nesse estado de coisas, a variedade
tornando-se heresia, naturalmente, que é assim que se resolvem as coisas num
universo plural e, ao mesmo tempo, onde cada parte se toma como absoluta.
Queremos crer. Precisamos crer. E cremos. Mas
tornamos a fé em discurso representativo, descritivo, normativo, e aí Deus se
torna uma proposição, que se pode ensinar na escola, e quem não aprende é
porque é infiel mesmo.
Uma teologia assim se explica na patrística, era
fortemente apologética – mas não de fuga da cultura, pelo contrário, uma
apologética para provar que o cristão era digno dela! Uma teologia assim se
entende na Idade Média, período de forte domínio eclesial da cultura, da política,
da filosofia: a igreja desenhou uma cosmovisão e dançou sobre ela, fazendo com
que todos dançassem também. Uma teologia assim foi tornando-se tolerável na
época moderna, em que a emancipação da cultura e da igreja fazia pressentir
que a música tinha seus dias contados. Uma teologia assim se admite hoje?
Compreendo Barth, mas não gosto de sua saída – a mesma da de todos os séculos
do cristianismo. Penso que a manutenção dessa teologia, a longo prazo, implica
nos mesmos movimentos, nos mesmos atos, nas mesmas conquistas, o que a história
pode dizer em que consistem.
Vivemos numa era em que as reflexões devem
construir-se a partir da história. As especulações devem ser assumidas como
tal, e, dentre elas, todas as teologias, que todas elas são especulações. Se
especulações exegeticamente mediadas, podem converter-se em interpretação de
textos históricos; se nem isso, alucinações e utopia, que perpetuarão a
desarmonia entre os homens, manterão as guerras, tudo, claro, em nome de Deus.
As igrejas precisarão aprender a viver sem saber
nada sobre Deus. Crer em Deus deve ser reaprendido – ou desaprendido.
Desaprender a forma proposicional, e reaprender uma forma nova, compatível com
a impossibilidade de uma representação objetiva, sequer analógica, dele.
Por isso não posso defender a doutrina da
PREDESTINAÇÃO, porque precisaria, primeiro, conhecer Deus, saber Deus, como é,
como pensa, o que quer, e isso, confesso, não sei. Ser teólogo, para mim, não
é saber dessas coisas. E aqui nos igualamos, teólogos de diploma e os
agricultores da roça – meu diploma em nada me aproximou de Deus, não mais do
que já estava antes, e do quanto estarei perto amanhã, e nem eu estou mais
perto de Deus do que aquele velhinho lá na roça que, agora, descansa a mão de
calos. E não porque Deus goste mais dele do que de mim, mas simplesmente porque
não cabe a nós saber nem onde, nem quando, nem por que...
Se me perguntarem: é possível que Deus controle a
vida de todos, decida o destino de todos, esse pra aqui, aquele pra ali, direi
que, sim, quem sabe, é possível que seja assim mesmo. Se me perguntarem
diferente: se me perguntarem se acredito que seja assim, direi que não sei, que
às vezes fico pensando, às vezes balanço a cabeça e digo, não, não é
assim, não. Se em lugar de me perguntarem se é possível, ou se eu acredito,
me perguntarem se sei, logo eu, um teólogo, direi sem pestanejar: não tenho a
mínima idéia. Agora, se me perguntam o que é que determinada passagem bíblica
diz sobre isso, direi: sobre isso, nada, que não é um tema “bíblico”. Os
livros da Bíblia tinham outras preocupações... Naturalmente que aqui e ali o
tema resvalava, mas tangencialmente, e, principalmente, não entre os teólogos,
mas entre os sábios, justamente os que afirmam saber que nada sabiam...
2) A teologia histórico-crítica é exegética, não
teológica
Esse subtítulo constitui uma afirmação que
precisa de esclarecimentos. Uma teológica conforme estou disposto a conceber
como prática pessoal, é uma teologia exegética, isto é, secundária em relação
ao estudo das Escrituras. O estudo das Escrituras, novamente conforme o concebo,
é também uma prática histórico-crítica, não ingênua, não heterônoma, não
confessional, não dogmática, não fundamentalista. Ora, se a teologia que
concebo é exegética, e se a exegese que concebo é não dogmática, segue que
a teologia que concebo é não dogmática. Não está interessada no rol de
doutrinas que desde Nicéia se desdobra como que num varal de roupas lavadas. Não
me interessa a sistemática, nem a dogmática, nem a fundamental. Reconheço-as
como tópicos da história da teologia, há bons livros sobre elas, mas, no que
me diz respeito, acabou-se o seu tempo, e não tem mais nada a dizer.
Deixarão de dizer, contudo, o que têm a dizer?
Quem sabe? A história o dirá. Se voltamos aos dias do império dos demônios,
como no tempo da literatura apócrifa do antigo testamento, como no tempo do
Novo Testamento, como na Idade Média, o que nos custa manter aí a sistemática
dando as cartas? Nada. E nada garante que surgirá um novo tempo em que as
cartas serão dadas pela exegese. O que eu quero dizer, e o digo, já que para
isso fui convidado, é que a sistemática não é bíblica, é eclesial, é
doutrinária. E não é bíblica pelas razões que já apresentei.
Uma teologia histórico-crítica, portanto,
reconhecendo que nada pode dizer sobre Deus, tenderá a dizer sobre o que dele
disseram os escritores sagrados, todos eles, e dirá o que quer que tenham dito,
ainda que um tenha dito que ele é bom e só faz o bem, e outro tenha dito que
ele é bom e mau, e que faz o bem e o mal. Não quererá ela modificar nada,
unificar nada, harmonizar nada. Não quererá, portanto, procurar textos na Bíblia
para ver se existe ou não isso de predestinação, porque o roteiro de leitura
não será dado pela malha eclesial, mas pela malha literária.
Se quiser falar da vida, em sentido amplo, terá de
levantar os olhos, essa teologia histórico-crítica, dos textos, e terá que
olhar para a própria vida, como o fizeram os próprios escritores da Bíblia,
ou das
Bíblias.
Como não reina mais sozinha, se é que reina, mas vê sentadas ao seu lado uma
série de Ciências dita Humanas, outra série dita Exata, e outra da Natureza,
terá que dialogar, ceder. Em comum têm todas os limites, e o limite é a história,
o que é humano, o que é vivo, o que é físico.
O que estiver além disso é silêncio.