Chove
Nesse momento. Minha janela me deixa ver. A chuva cai.
Um dia, logo, tarde, tomara tarde, tomara muito tarde, vou morrer. Ela continuará, caindo.
Mas quem é ela? Ela é a gota solitária, em salto suicida? Ela é a massa de água dessa nuvem que passa? Ela é todas as águas de todas as chuvas de todos os tempos? Quem é ela?
Quem sou eu? Eu sou esse homem-menino que nesse momento quase chora? Eu sou minha família? Eu sou a humanidade?
A chuva é minha irmã. Ela é muitas. Ela é uma só. Ela é. Ela passa. Eu sou um. Eu sou muitos. Eu sou. Eu passo.
Talvez ela e eu nem sejamos ela e eu. Talvez ela e eu sejamos ele, o Universo.
Mas por que eu choro, enquanto ela, é só o choro? Por que eu sei, e ela não? Por que, Deus, só eu sofro, enquanto ela, cai?