Sobre Sexualidade
A
sexualidade é uma invenção moderna?
A dimensão erótica do relacionamento homem – mulher, é um precipitado moderno?
A crer na Bíblia, não! E um não com n maiúsculo:
Não!
Por
que o digo? Por conta, por exemplo, de Cântico dos Cânticos. Fiquemos na
dimensão do beijo. O livro se abre com uma referência ao beijo. Essa referência
de abertura do livro é muito boa, e tanto melhor que seja a voz de uma mulher
que fale ali: “que me beije (ele) com os
beijos de sua boca” (Ct 1,1). Ela, a amada, deseja os beijos dele. Bastaria essa referência, e um pouco de boa
vontade e uma pitada de bom senso, para que tirássemos da cabeça qualquer
sentimento negativo em relação: a) à sexualidade; b) à sexualidade erótica;
c) à sexualidade feminina. Afinal de contas, o livro bíblico se abre com puro
desejo erótico feminino...
Uma
segunda referência a beijo em Cantares, e tanto mais explícita quanto erótica,
está em Ct 4,11, a cena que interpreto como a “lua de mel” do casal: “teus
lábios são favo escorrendo, ó noiva minha, tens leite e mel sob a língua”.
Os lábios da amada são um favo escorrendo, mas ele descobre o mel sob
a língua dela. Como? Beijando-a, e beijando-a de um jeito tal a encontrar o
mel... sob a língua...
Penso
que é salutar a leitura de Cantares, um livro para casais. O beijo é a porta
de entrada de Cantares, e, depois do beijo, há lugar não só para a boca, no
livro, mas também para olhos, ouvidos, nariz e mãos. Os sentidos todos estão
totalmente explorados em Cantares.
Olhos,
nariz, boca, ouvidos, mãos... Deve ser (também) para isso mesmo que Yahveh
modelou o homem do barro da terra, e soprou nele... “Vai, meu boneco animado, vai descobrir para que (também) te
fiz...”