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Teólogos,
é disso que estais falando? Osvaldo
Luiz Ribeiro 29/08/2008
Achei
um prato cheio para análise/crítica da “epistemologia” teológica
com que a própria Teologia se vê: os números de março
e junho da Rever,
Revista de Estudos da Religião, do Departamento de Pós-Graduação em
Religião da PUC-São Paulo. Dedicarei algum tempo à leitura de alguns
dos artigos de ambos números, e comentarei a autocompreensão que a
Teologia, que ali fala, tem de si. Começo
com o artigo em epígrafe. Dele, leia-se: Enquanto
o objetivo geral da ciência é conhecer a natureza do mundo, o objetivo
geral da teologia cristã tradicional é conhecer a natureza trina de
Deus, especialmente a encarnação e a ressurreição de Jesus e a nossa
relação com Deus através de Cristo. Os objetivos da ciência geralmente
são afirmações epistêmicas sobre os fenômenos naturais expressas em
leis ou teorias científicas. Já os objetivos teológicos, em geral, são
afirmações epistêmicas sobre o Deus trino expressas em dogmas ou
doutrinas teológicas. Para alguns, os objetivos da teologia também
incluem a compreensão da Igreja, de sua missão e da “transformação
da pessoa” (...). Para outros, no entanto, os objetivos teológicos
podem ser expressos independentemente da existência de Deus, como na
teologia da morte de Deus (p. 39). “Explorando
as Fronteiras Racionais” – é assim que o artigo é intitulado.
Agora, alguém me responda: em que sentido se pode dizer “racional”
“conhecer a natureza trina de Deus, especialmente a encarnação e a
ressurreição de Jesus e a nossa relação com Deus através de
Cristo”? Quem estiver interessado na resposta possível, poderia ler O
Método, de Edgar Morin – portal incontornável para uma Teologia
que – de fato, sem subterfúgios – pretenda constituir-se como uma das
Ciências da Religião – e, de fato, o ser. O que Marcum chama de
“fronteira racional”, aí, não vai além de uma “racionalização”
com base em mitos e doutrinas metafísicas, histórico-condicionadas,
plasmadas a partir da história da recepção da tradição israelita/judaíta
em solo helênico ocidental. Não
se pode levar essa Teologia,
mais, a sério. Mesmo nas Igrejas, ela só é levada a sério à custa da
absoluta interdição da crítica. Não digo que se o processo educacional
eclesiástico adotasse um modelo humanista e libertário, todos, lá,
migrariam para a compreensão da Teologia Sistemática, da Doutrina, da Fé,
como mito racionalizado. Pareto nos adverte quanto às constantes sociológicas
invariáveis. Mas tenderia a ocorrer dentro
das igrejas o mesmo fenômeno que ocorreu – e ocorre, ainda – no
Ocidente: a crítica da metafísica, da ontologia, da tradição, a emergência
de uma postura epistemológica autônoma e crítico-heurístico-indiciária. Mas
essa Teologia de Marcum, essa tem os pés, os dois, na Metafísica – e,
nesse caso, sem a distração (retórica) da Metáfora. Marcum pretende
fazer-me acreditar que a Teologia tem algo a dizer sobre o que ele diz ter
ela a dizer alguma coisa. Feuerbach já deixou muito claro do que se trata
esse “algo a dizer”, e a surdez teórico-metodológica de Marcum não
abafa o oráculo da quenosis
antropológica. Nem
mesmo quando Marcum tenta “epistemologizar” a Teologia metafísica,
numa tentativa provinciana de estabelecer algum tipo de equivalência
entre essa Teologia e as Ciências
(quase chego a pensar que Marcum esteja pregando uma peça nos teólogos,
e que seu artigo tenha sido uma zombaria disfarçada): “Os objetivos da
ciência geralmente são afirmações epistêmicas sobre os fenômenos
naturais expressas em leis ou teorias científicas. Já os objetivos teológicos,
em geral, são afirmações epistêmicas sobre o Deus trino expressas em
dogmas ou doutrinas teológicas”. O que seriam “afirmações epistêmicas
sobre o Deus trino”? Puras racionalizações – fideístas
voluntaristas, de caráter ontológico-metafísico-normativo. É
possível retroagir um discurso “epistemológico” desse tipo até Platão.
A epistemologia platônica permite uma proposição dessa natureza –
afinal, tratava-se de puro mito, rigorosamente como, anacronicamente,
contudo, o dessa
“epistemologia”. A verdade platônica vem de fora, da Providência –
naturalmente que, A República não nos deixa mentir – instrumentalizada pelo Estado
e seus mitólogos/mitoplastas. Os homens, cabe-lhes receber, sempre
passivamente – aos poetas, pontapés nos traseiros! – os mitoplasmas,
nos quais se esboçam reverberações mnemônicas da verdade providencial.
Ora – a “revelação”
constitui, ainda, a base da Teologia metafísica. Daí que Marcum sente-se
muito em casa ao considerar uma “epistemologia” peculiar à Teologia.
Nesse caso, é providencial, para a Teologia, que os livros escolares
escondam a condição de mitólogo de Platão, apresentando-o
positivamente como “filósofo” – para a Teologia, é uma boa maneira
de emprestar ares “filosóficos”, “epistemológicos”, às suas
racionalizações mitológicas. O
artigo de Marcum constitui-se de partes: 1. Introdução, 2. As Fronteiras
entre os Objetivos Científicos e Teológicos, 3. As Fronteiras entre os Métodos
Científicos e Teológicos, 4. As Fronteiras Metafísicas entre Ciência e
Teologia, 5. Valores Epistêmicos e não Epistêmicos e 6. Discussão. A
Introdução abre-se com a querela entre as Ciências da Natureza e as Ciências
Humanas, que, de fato, marcaram – e ainda marcam – o século XX e esse
início do XXI. A partir daí, Marcum diz pretender tratar das fronteiras
entre “as ciências naturais e a teologia cristã” (p. 35). Para
relacionar as duas plataformas – a meu ver, ainda irreconciliáveis, e,
nos termos em que Marcum pretende, inexoravelmente irreconciliáveis –,
apela-se para o “modelo reticulado de racionalidade científica de Larry
Laudan” (p. 36). Segundo a leitura de Marcum, trata-se de estabelecer
uma posição epistemológica para as ciências, com base na demarcação
teórico-metodológica de “uma “rede triádica”: os objetivos ou
metas da ciência; os métodos utilizados pelos cientistas para alcançar
esses objetivos ou metas, e as teorias ou afirmações factuais que
resultam da aplicação dos métodos” (p. 36). Marcum
afirma que o modelo permite uma aproximação entre as ciências, de um
lado, e a Teologia. Mas como opera sua estratégia retórica? Primeiro,
assinalando que o “modelo reticulado” de Laudan defendia a
“racionalidade” das ciências naturais em face das críticas (“românticas”)
das ciências humanas: “é com esse propósito que me aproprio do modelo
reticulado de racionalidade científica de Larry Laudan, proposto para
salvar a racionalidade científica da morte durante a revolução
historiográfica dos anos 1960” (p. 36). No passo seguinte, Marcum
acrescenta, programaticamente, a “metafísica” ao conjunto dos
“valores” e “teorias” pressupostos na proposta de Laudan:
“Amplio o escopo desse último componente da racionalidade para a análise
da metafísica tanto da ciência quanto da teologia, o que inclui não
apenas os valores epistêmicos e cognitivos que justificam as afirmações
epistêmicas, como também as lealdades e pressuposições básicas
empregados para formular tais afirmações” (p. 36). Não se trata,
naturalmente, de um passo “inocente”. É aí que reside o coração da
retórica do artigo: “Essa noção ampliada de racionalidade serve não
apenas para avaliar as afirmações epistêmicas da ciência e da
teologia, mas também para entender as origens dessas afirmações.
Afinal, as hipóteses e compromissos metafísicos fundamentais da ciência
e da teologia são delimitações importantes que guiam a formulação das
teorias científicas e das doutrinas teológicas” (p. 36). A partir do
que, então, pode-se compreender os objetivos de Marcum: “Minha tese é
a de que, para uma interação proveitosa entre cientistas e teólogos, é
necessário analisar as estruturas de racionalidade das ciências naturais
e da teologia cristã no que diz respeito às fronteiras entre seus
objetivos, métodos e metafísica” (p. 36). O
que se consegue com esse programa, pode-se observar, constrangedoramente,
eu diria, no parágrafo de encerramento da seção 2. As Fronteiras entre
os Objetivos Científicos e Teológicos: As
diferenças nas fronteiras entre os
objetivos científicos e teológicos são consideráveis. A primeira
diz respeito aos objetos da
pesquisa. Para os cientistas
naturais, os objetos de pesquisa são os fenômenos
naturais; para os teólogos
cristãos, são a natureza trina de
Deus e a relação humano-divino. Apesar de diferentes, os objetos das
pesquisas científica e teológica estão relacionados, sendo que Deus
criou a natureza e a natureza testemunha – embora silenciosamente –
sua origem divina (Salmo 19). Além dos próprios objetos de investigação,
as explicações atribuídas aos objetos científicos e teológicos também
se mostram divergentes. Para a ciência, trata-se do conhecimento mecânico
das redes causais e explicáveis de fenômenos naturais (expressas em
teorias e leis); para a teologia, trata-se do conhecimento das relações
do Deus trino que se faz conhecer pela revelação divina (expressa em
doutrinas e dogmas). Embora existam diferenças entre as explicações da
ciência e da teologia, elas também compartilham algo. Esse algo é a análise
causal: para os cientistas, os eventos naturais são causas próximas,
enquanto que, para os teólogos, Deus é a causa última. Por fim,
enquanto as afirmações científicas são, em parte, justificadas por
meios empíricos, a aceitação da auto-revelação de Deus vem através
da experiência pessoal da fé. Nesse caso, o objetivo da ciência é
explicar os fenômenos naturais em termos naturalistas, e o objetivo da
teologia é acreditar em Deus por meio da fé religiosa. Deve-se notar,
entretanto, que os cientistas também exercitam a fé, uma fé secular de
acordo com Michael Polanyi, nos seus colegas e na regularidade dos eventos
naturais (p. 40-41). Um
teólogo tradicional – metafísico-ontológico – sentir-se-ia animado
com as afirmações de Marcum. Um “cientista” – articulando-se a
partir da plataforma epistemológica das “ciências” –
experimentaria um conter-se de riso, se, não, um aborrecimento. Um teólogo
que aceitasse a regra do jogo científico-humanista simplesmente
consideraria essa citação um exemplo notório do anacronismo epistemológico
dessa Teologia, julgando seu
conteúdo impróprio para a Constituição epistemológica da Teologia
acadêmica. É o meu caso. Marcum
não apenas quer que eu aceite – impossível
– que o objeto da Teologia seja “a natureza do Deus trino” (é o próprio
Karl Barth falando), mas que haja alguma relação entre isso como objeto e os objetos das “ciências”. Ora, mesmo para
as Ciências Humanas, cujos objetos são “imateriais” em amplo
aspecto, quantas vezes seres de espírito e de organização, antes que
serem físicos, seus objetos são histórico-condicionados. Já esse
objeto da Teologia, conforme o quer Marcum, é pura imaginação humana
– mito milenar. Conquanto a fé
possa lidar com ele, não uma Teologia acadêmica: salvo na academia da
Idade Média. Uma Teologia acadêmica poderia lidar com as objetivações
da fé nesse objeto, na História
– mas não, sob nenhuma hipótese, com o “próprio” objeto, como se
objeto o fosse. Marcum
não consegue admitir que seu objeto é uma invenção antropológica.
Sim, em grande parte, as teorias e os métodos, mesmo, em certo sentido, o
“objeto” das “ciências” – sejam as “duras”, sejam as
“moles” – são “invenções” teórico-metodológicas. Mas as ciências
debruçam-se sobre grandezas universalmente objetiváveis – seres de matéria,
de espírito e de organização – como elementos do “mundo”. Uma ciência
poderia, eventualmente, estudar a fé
em duendes e em Deus – mas não “duendes” e “Deus”. Sim, até
poderia estudar a modalidade de dispersão e de manutenção
formal/material do estereótipo “duende” e “Deus” nas tradições
humanas (é impressionante como os mitos, e, mais recentemente, os MMORPG,
resguardam a “forma” traditiva dos seres de espírito e organização
com que lidam), mas, jamais,
“duendes” e “Deus” como objetos extra
fidei. Uma Teologia como a que Marcum me oferece exigiria de mim um
regressão ao obscurantismo mitológico. Não posso sair de dentro dos
mitos – jamais (Morin). Mas tenho de viver neles, tendo consciência de
que são o que são – mitos. Se
não se trata de obscurantismo mitológico, que nome daríamos a uma
descrição do método teológico como essa: Na
investigação dos fenômenos naturais, os cientistas empregam
determinados protocolos experimentais. Tais protocolos permitem controlar
e manipular diretamente o fenômeno de interesse, o qual pode ser
percebido pelos sentidos ou com o auxílio de instrumentos. Não é assim
para os teólogos, que dependem
da auto-revelação de Deus ou de uma outra fonte de autoridade. Para
eles, os objetos de investigação são o Deus trino, que não
obrigatoriamente é acessível aos sentidos – com ou sem auxílio de
instrumentos–, e a nossa relação com Ele. Deus pode servir como objeto
de investigação para os teólogos, mas não pode ser diretamente
manipulado ou controlado através de experimentos a exemplo do que fazem
os cientistas ao investigar os fenômenos naturais. Embora os métodos de
cada disciplina sejam diferentes, a ciência e a teologia compartilham uma
abordagem crítica comum (...). Por fim, alguns teólogos têm se
apropriado de métodos científicos para utilizá-los em sua disciplina
(p. 43-44). Lendo
esse parágrafo, sinto-me como num templo cristão, durante uma missa ou
um culto evangélico-protestante, diante de um pastor e sua homilia
milenar. Em negrito, assinalei ali a retórica própria do evangélico-protestante
– “Deus” – e católico-romana – “autoridade”. Ao fim e ao
cabo, alhos e bugalhos. O curioso é que a “consciência” metodológica
de Marcum admite que “Deus trino” constitua objeto de pesquisado teólogo,
mas que, ao contrário dos objetos das ciências, não se deixe manipular.
Ora, ora, ora – o único objeto possível de estudo da Teologia que
eventualmente tivesse por nome o termo “Deus” é exatamente aquele
mesmo que, manipulado retoricamente pela Teologia, constitui “mundo”
– a Igreja – heterônomo. Definitivamente, não se pode levar a sério
uma proposta desse tipo. Não se o que queremos é uma Teologia científico-humanista.
Não é legítimo “colar”, justapor, a Teologia metafísico-ontológica
às ciências. Não é tolerável uma conversão das ciências à
catequese cristã. Deve-se esperar que a Teologia desça do Olimpo, e
sente-se à mesa, à roda dos escarnecedores. Pois
bem, paro por aqui. O leitor deveria, naturalmente, ler todo o artigo de
Marcum. Desdobrá-lo, seria, para mim, entedioso. Despeço-me, pois, com
um último comentário, à luz da insofismável retórica teológica de
Marcum: O
propósito de explorar as fronteiras racionais da ciência e da teologia
é aumentar nosso conhecimento da complexidade e riqueza da natureza ou
realidade, pois as visões de mundo científica e teológica, sozinhas, são
quadros empobrecidos do mundo. A
teologia cristã sem a contribuição das ciências naturais pode se
tornar imaginária, enquanto as ciências naturais sem a contribuição
da teologia cristã podem se tornar desprovidas de sentido (p. 54). “Pode
se tornar”? Não, Marcum, não, não. Sem a contribuição das “ciências”,
não é que a Teologia “pode se tornar imaginária” – ela continuará
a ser imaginação, mitologia, quimera, delírio, a ipssissima
neurose que Freud diagnosticou, e transparece, febril, eu seu artigo. O
que as ciências podem, eventualmente, é trazer um pouco de lucidez ao teólogo
– e, nesse caso, permitir que ele tenha a coragem de proceder à necessária
Transformação da Teologia –
o que implica em começar tudo de novo. E, dessa vez, com os pés – e a
cabeça – no chão.
© Osvaldo Luiz Ribeiro – autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto – |
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