Encontro-me
engajado num processo, que me auto-determinei, de reflexão crítica sobre
o estatuto epistemológico da teologia. Tenho disponível na ouviroevento
uma série de aproximações iniciais ao tema, bem como um ensaio mais
denso, elaborado na forma de crítica – e defesa de uma teologia pós-metafísica
– da última conferência de Tillich. Na fase atual, pretendo analisar
criticamente qualquer pronunciamento formal sobre o assunto.
E
encontro três deles na Estudos Teológicos,
revista da Faculdade Superior de Teologia (EST). Trata-se do Volume 47, n.
2, publicado em 2007. Os três textos encontram-se disponíveis no site da
revista, e transcrevo, aqui, os respectivos resumos, à título de passo
inicial.
I.
Rudolf von Sinner, Teologia
como ciência, Estudos Teológicos,
v. 47, n. 2, 2007, p. 57-66 (Texto
completo). Segundo o site, o autor é professor de Teologia Sistemática,
Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso e Pró-Reitor de Pós-Graduação e
Pesquisa da Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. O artigo constitui o
texto de palestra proferida no VI Salão de Pesquisa da Faculdades EST, em
28 de agosto de 2007. Resumo: a teologia no seu caráter científico está
sendo questionada tanto por parte de outras ciências, quanto por parte
dos fiéis que temem perder sua fé ao estudar a teologia academicamente.
Definindo a teologia como a reflexão metodologicamente responsável sobre
o falar de Deus, este artigo defende que seja encarada como jogo de
palavras, a ser feito com humor, com paixão e com-paixão, com esmero
acadêmico e no reconhecimento de sua responsabilidade pública.
II.
Júlio Paulo Tavares Zabatiero,
Do Estatuto Acadêmico da Teologia: pistas para a solução de um problema
complexo, Estudos Teológicos,
v. 47, n. 2, 2007, p. 67-87 (Texto
completo). Segundo o site, o autor é professor na Faculdades EST, em
São Leopoldo, RS. Resumo: o ensaio descreve a teologia como um saber
racional público e não como um saber científico. Discute os conceitos
de cientificidade, racionalidade e publicidade, do ponto de vista da
teologia cristã pós-metafísica, em diálogo com autores como Rorty,
Habermas e Vattimo. Defende a necessidade da teologia manter o vínculo
indissolúvel com a fé vivida pela comunidade crente e, a partir desse vínculo,
assumir o papel de intérprete entre saberes sobre a vida humana no
planeta, com vistas a apoiar o desenvolvimento de sociedades
caracterizadas por uma rica e justa participação de seus cidadãos e
suas cidadãs na esfera pública, que deverá incluir também a natureza não-humana
em suas deliberações morais.
III.
Enio R. MUELLER, A
teologia e seu estatuto teórico: contribuições para uma discussão
atual na universidade brasileira, Estudos
Teológicos, v. 47, n. 2, 2007, p. 88-103 (Texto
completo). Segundo o site, o autor é professor e pesquisador na
Faculdades EST, em São Leopoldo, RS. O ensaio constituiria a síntese de
um projeto de pesquisa em andamento (EST/CNPq). Resumo: O reconhecimento
dos cursos de Teologia no Brasil coloca teólogos e teólogas diante da
responsabilidade de definir com a maior clareza possível o seu estatuto
teórico. Este texto representa a contribuição de um pesquisador para
essa discussão em andamento na universidade brasileira. Sua proposta
construtiva é compreender a teologia como interpretação da realidade à
luz da esperança. Cada um dos elementos dessa definição é discutido de
forma programática, delineando um projeto de pesquisa a ser
sistematicamente aprofundado.
Li
os três ensaios. Minha posição é a seguinte. Quanto à proposta de
Rudolf von Sinner de uma teologia relacionada ao “falar de Deus”, não
acompanhá-la. Considero-a inadequada à epistemologia das Ciências
Humanas e, conseqüentemente, ao espírito heurístico universitário. Da
mesma forma, mas por razões de ordem um pouco diferente, não
acompanharei as conclusões de Zabatiero. Não julgo que o caminho que
passe por Rorty e Vattimo ajude a estabelecer o caráter científico de
uma teologia legitimamente universitária.
Mas
minha posição será mais aberta às conclusões de Mueller. Com uma
ressalva importante, mas difícil de ser decidida imediatamente. Mueller
defende que a teologia constitua interpretação da realidade à luz da
esperança. A fórmula me parece apropriada para o registro epistemológico
científico-humanista (teologia é método – “interpretação da
realidade”), e possuiria um caráter utópico distintivo (“à luz da
esperança”). O risco – e grave – é o que pode estar
“escondido” sob o termo “esperança”. Se, aí, atualizarem-se,
consubstanciarem-se, materializarem-se, subrepticiamente, as formulações
milenares da “fé cristã”, põe tudo a perder.
De
teologia científica e deus(es) mudo(s)
|
I.
Rudolf von Sinner, Teologia
como ciência, Estudos Teológicos,
v. 47, n. 2, 2007, p. 57-66 (Texto
completo). Segundo o site, o autor é professor de Teologia Sistemática,
Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso e Pró-Reitor de Pós-Graduação e
Pesquisa da Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. O artigo constitui o
texto de palestra proferida no VI Salão de Pesquisa da Faculdades EST, em
28 de agosto de 2007. Resumo: a teologia no seu caráter científico está
sendo questionada tanto por parte de outras ciências, quanto por parte
dos fiéis que temem perder sua fé ao estudar a teologia academicamente.
Definindo a teologia como a reflexão metodologicamente responsável sobre
o falar de Deus, este artigo defende que seja encarada como jogo de
palavras, a ser feito com humor, com paixão e com-paixão, com esmero
acadêmico e no reconhecimento de sua responsabilidade pública. |
–
“Definindo a teologia como a reflexão metodologicamente responsável
sobre o falar de Deus”. A vantagem do artigo é que os pressupostos estão
dados: “a teologia é feita, ao mesmo tempo, a partir de uma tradição
confessional específica, no nosso caso da luterana, e dentro do conjunto
ecumênico das tradições cristãs. Ainda situa o cristianismo dentro das
religiões do país e do mundo” e “a teologia se distingue claramente
(das ciências da religião) em que enfoca a religião cristã e trata de
questões normativas, além de descritivas” (p. 63). Sua vantagem,
contudo, é sua – a mim me parece – maior dificuldade.
Que
teologia é essa? Que definição de teologia é essa? Como colocar dentro
dela a Faculdade Umbandista de Teologia?
É legítimo circunscrever, agora, a teologia ao cristianismo? Não, não
é. A “teologia” – sempre cristã, até agora, porque sempre
desconsiderando a reflexão teológica fora de suas fronteiras – podia
ter levado a sério o século XIX, e ter feito sua reavaliação epistemológica.
Não fez. No campo evangélico-protestante, Karl Barth deixou bem claro
que a teologia não deve satisfações ao Romantismo, e perpetuou o
discurso público da teologia como “diálogo” com Deus. Agora, desde
que nós mesmos – ah, ironia – convencemos o MEC a oficializar a
teologia, deparamo-nos com uma situação constrangedora – qualquer
tradição religiosa pode, como nós, abrir e manter cursos de
“teologia”, e, nesse caso, a definição de teologia, se provinciana,
revelará o caráter dissimulado da abordagem.
Não
é mais cabível que a palavra teologia seja articulada como vínhamos de
fazer – restrita ao Cristianismo e relacionada a “Deus” (ou o
“falar de Deus” – qual a diferença?). Doravante, se queremos levar
a sério a presença de outras tradições na “teologia”, bem como a
articulação – honesta – das Ciências Humanas”, resulta inadmissível
que ainda manejemos o discurso teológico como “jogo” doméstico. Não
é mais a teologia cristã quem deve dizer o que é teologia, mas o
conjunto das abordagens possíveis e acadêmicas à teologia.
Nesse
sentido, a definição de von Sinner é impraticável para a academia.
Teologia – na academia – tem de ser outra coisa. Não importa que a
teologia tenha sido algo parecido com a formulação de von Sinner, ou
que, ontem ainda, Barth a tenha articulado (e justamente para tentar calar
o Romantismo [que, contudo, ele instrumentalizou para a defesa de sua
“teologia” eclesiástico-sacramental – provinciana]). Se já foi
deplorável para Barth tê-lo feito – o “herói”, aí, foi
“criminoso” –, quanto mais hoje, cem anos depois, ainda labutarmos
– e dentro do MEC – na defesa dessa “tradição”.
O
que estamos entendendo da situação da teologia no MEC? Que cada
faculdade faça o que lhe der na telha? Que nós, cristãos, brinquemos de
casinha, com nossos bonecos e bonecas, enquanto os umbandistas – e logo
virão (que venham!, e rápido, por que demoram?) outros – com os
bonecos e bonecas deles? É essa paródia de academia que estamos
imaginando? O quê? Trazer para dentro da Universidade o circo de horrores
que é a relação entre as religiões monoteístas e as não-monoteístas?
Mas nem pensar! A Universidade não pode admitir que nós, “teólogos”,
finquemos bandeiras num território noológico, e convertamos isso em
“academia” – isso é pura política.
É
preciso rasgar muito do que foi escrito sobre teologia, e re-escrever
tudo. Não há como trazer Paulo, Agostinho, Anselmo, Barth, para a
academia, e, com eles, “decidirmos” o que é teologia. Na
Universidade, temos de, antes, refletir, epistemologicamente, sobre o
estatuto da teologia – não defender a teologia como ela está e
arranjar-lhe uma cadeirinha lá, entre as outras –, e Paulo, Agostinho,
Anselmo e Barth que fiquem lá, como ícones de seu tempo. No nosso, outro
é o jogo, outras são as regras, outro é o tabuleiro. Metafísica? Não
mais. Ontologia? Não mais. Apologia? Não mais. Regra de fé? Não mais. Analogia
fidei? Não mais. Não há mais lugar para “Deus” na teologia acadêmica,
desde que, para esse recorte histórico-social – não aprendemos? –
ele está “morto”. Há lugar – apenas – para as nossas idéias a
respeito de um possível, de possíveis, de nenhum possível. Não podemos
– sob nenhuma hipótese – instrumentalizar a nossa fé em sala de
aula. A sala de aula é cética, mesmo quando lida com a teologia. Porque
a teologia acadêmica ou é cética, ou não é teologia acadêmica.
Von
Sinner, contudo, tem uma opinião absolutamente contrária. É justamente
na sessão “Uma Teologia Acadêmica” (p. 61-63), que ele defende que o
“objeto da teologia acadêmica, então, não é propriamente Deus, mas o
falar de Deus” (p. 63). O “propriamente” seria dispensável, já
que postular “o falar de Deus” pressupõe tanto “Deus” quanto o
acesso a ele. Resulta numa retórica de legitimação do discurso
tradicional – metafísico-ontológico – da “teologia”. A(s)
Igreja(s) – Barth, Vaticano I e The Fundamentals – rechaçaram
radicalmente a cultura epistemológica científico-humanista, e mantiveram
bolsões medievais nas repúblicas. Direito delas. Mas nós – a academia
[a meu juízo] – mas nem em sonho!
Na
Universidade, a teologia não poderia postular – não tem direito de fazê-lo!
– uma “brecha” no firmamentum,
muito menos um mito do Advento. Na academia, cujo jogo tem regras muito
claras, isso beira àquela reflexão de Huizinga sobre desmancha-prazeres
e batoteiros:
O
jogador que desrespeita ou ignora as regras (do jogo) é um
‘desmancha-prazeres’. Este, porém, difere do jogador desonesto, do
batoteiro, já que o último finge jogar seriamente o jogo e aparenta
reconhecer o círculo mágico. É curioso notar como os jogadores são
muito mais indulgentes para com o batoteiro do que com o
desmancha-prazeres; o que se deve ao fato de este último abalar o próprio
mundo do jogo (HUIZINGA, p. 14).
Ora,
não é a teologia quem vai ditar as regras do jogo. O jogo já está aí,
inventado desde o século XIX, e chama-se “Ciências” – no
“nosso” caso, Ciências Humanas. As regras, ei-las postas. Não se
trata de a teologia, convidada a jogar, inventar regras próprias – e o
postulado de um “falar de Deus” na teologia fere frontalmente as
regras da “Academia”. Não resta, à teologia, nada mais do que
adaptar-se, seu discurso, suas atitudes, suas práticas, seus postulados,
sua epistemologia situada, à regra das Ciências Humanas. Caso contrário,
se ainda pretender permanecer no jogo, assume o papel do trapaceiro.
O
artigo de von Sinner está dividido em partes: a) uma introdução (p.
57-58), b) “uma ‘theologia
ludens’” (p. 58-59), c) “uma teologia gramática” (p. 59-61), d)
“uma teologia acadêmica” (p. 61-63), e e) “uma teologia pública”.
Na
introdução, von Sinner assinala o caráter de “encomenda” do artigo
– deveria responder à pergunta “teologia é ciência”, posta no
contexto da CAPES. Soma-se o registro de que teme-se uma possível
“perda da fé” em face do estudo “científico” da teologia, o que
resultaria em aridez técnica na academia,
até que se “possa respirar” a fé, de novo, findo o “curso”. Há
uma preocupação “pastoral-acadêmica” aqui.
Iniciam-se
as respostas. “Theologia ludens” (p. 58-59). Reivindica-se paixão e
compaixão para o fazer teológico – que é “jogo de palavras
(Wittgenstein)”. É por isso que aí se diz ter a teologia um caráter lúdico:
“enxergar a teologia como jogo – e não como brincadeira”. Não se
trataria de “não levar a sério a teologia, muito menos desprezar a fé”
– fé esta que “norteia” “a grande maioria dos estudantes e
professores da Faculdades EST”. Nesse caso, a teologia procura dar
expressão adequada à fé em determinado contexto” ( ← p. 58 | p.
59 →). “Ouçam os cientistas”, recomenda von Sinner, porque,
assim, podem-se escolher palavras mais adequadas para “aquilo que não
tem palavras, ultimamente – mas que representa ‘a’ Palavra”.
Percebe-se a “confusão” da fé doméstica, subjetiva, normativa, com
a academia: “somos, precisamente, uma religião (...) da Palavra, do logos,
do Cristo presente mediante o Espírito Santo”. E, se, com Paulo, von
Sinner diz, então, que “‘a fé vem da pregação’, ou melhor, ‘do
ouvir’ (Rm 10,17)”, cá digo eu – então fé, academia e pregação
tornaram-se “compatíveis. E são? Não. Só quando a teologia
“brinca” de academia, subverte as regras do jogo, trapaceia. Aí ela
é o que sempre foi – apologia racionalizadora. Essa
teologia – juízo meu – não tem o menor direito a sentar-se à mesa
com as demais “ciências”. Esse jogo é viciado. Há pesos nos dados
que ela joga. Não é o que significa, a citação, aqui, da Confissão de
Augsburgo?
Minha
análise: o conceito de jogo, aplicado à teologia, não muda a aparência
dela (essa teologia “jogo” defendida no artigo continua a mesma de
Paulo, Agostinho, Anselmo, Lutero, Barth) – deve mudar a dinâmica da prática.
Sugeriria uma consulta a Homo Ludens,
de Johan Huizinga, que se muito bom grado classificaria a “teologia”
como jogo – já que, para ele, a própria cultura atualiza-se sob a dinâmica
estrutural do jogo. Mas isso quer dizer que as próprias regras são
estabelecidas pelos parceiros, por exemplo. O artigo de von Sinner
pretende considerar válido que a teologia passe a jogar no tabuleiro das
“ciências”, mas segundo suas próprias idiossincrasias confessionais
tradicionais. Os cientistas serviriam, então, para “colaborar” com
“nomes” – novos – para “verdades” – velhas. Nem eu – como
teólogo – posso aceitar a plataforma operacional proposta – porque
ela quer fazer da teologia acadêmica reflexão da fé!, uma Escola Bíblica
de luxo. Imagino o que não dirá dela um representante legítimo do
“jogo” das ciências.
“Uma
teologia gramática” (p. 59-61). Mais uma vez, a teologia é apresentada
como “suporte” para a fé: “isto produz identidade na fé cristã”.
Dois graves – incontornáveis – problemas numa única definição: a)
faz-se imiscuir-se a fé nas ciências, e b) cogita-se a exclusiva essência
“cristã” da teologia. Quanto a mim, rejeito ambos os pressupostos.
Nem a fé tem lugar na teologia acadêmica, nem a teologia é “cristã”.
Não a do MEC. Ela pode debruçar-se sobre a noosfera cristã, mas, também,
sobre a umbandista, por exemplo. Penso que von Sinner ainda não tenha se
dado conta do que é que a teologia está fazendo no MEC, e que acredite,
honestamente, que é possível “brincar de igreja” em sala de aula. Se
em pleno século XXI, mesmo na igreja, é constrangedor o registro homilético
e pedagógico da “fé”, imagine-se esse anacronismo teórico-metodológico
transportado para a cátedra, para a academia, para a Universidade (p.
59). Deus nos livre!
A
sessão prossegue. Aplica-se ao estudo das Escrituras. Recusa-se a intentio
autoris – von Sinner conhece (menciona) o Croatto de 1984, mas
desconhece (não menciona) o Croatto dos três volumes de Isaías
e da Fenomenologia da Religião. Para ele, o “autor” desaparece. Some,
também, a estrutura. O que resta? A verdade – “ela se encontra atrás
ou embaixo do texto (...),
estando lá o axioma que rege nosso
falar de Deus” (grifo meu). Justino – Apologia
I – não o diria melhor: o Antigo Testamento não é mais
“texto”, dissolve-se na “interpretação” cristológica de
Justino, de modo que as Escrituras não são (mais) dos judeus, porque
eles não as sabem interpretar. Von Sinner desmaterializou a única base
material disponível para sua própria fé – e isso depois que o
Vaticano II recomenda a aplicação do método histórico-crítico, uma década
depois de Hans Küng ter dito que apenas uma teologia (bíblica e cristã)
histórico-crítica deveria ter assento na Universidade. O artigo de von
Sinner vai na contra-mão. É possível uma teologia assim – ela infesta
as comunidades. Mas não na academia. Na academia, quando tomássemos a
citação que Mateus faz de Oséias – “do Egito chamei meu filho” –, assumiríamos o caráter
rabínico (alegórico-midráshico) da retórica. Nunca – como? –,
desviando da posição inexoravelmente crítica e distante –
metodologicamente cética – entraríamos na dinâmica da intenção
apologética situada, acatando domesticamente o “jogo” de Mateus.
Mas é o que von Sinner faz – e recomenda (p. 60). Pode? Na academia, não.
A
teologia que o artigo de von Sinner esboça não é histórico-cultural
– quero dizer, o artigo não a olha com olhos científico-humanísticos.
Ele a olha “tomado” por ela, pelo seu espírito hegeliano: “a
teologia é católica neste sentido amplo, ou seja, universal no tempo e
no espaço, através dos séculos e englobando o cristianismo e suas
vertentes no mundo inteiro” (p. 60). Essa “catolicidade”
“equipara-se (...) à ecumenicidade
da fé e da teologia” (p. 61). Teologia – fé – cristianismo: um
efeito “trindade” na reflexão do artigo. Mas, a meu juízo, para que
o primeiro termo possa ser articulado na cátedra acadêmica – MEC –,
os dois seguintes devem ser retirados da fórmula. Teologia nada mais tem
a ver com fé, nem, necessariamente, cristianismo – na cátedra acadêmica.
Se tiver, se achar que tem, “perdeu o juízo”. Se o teve, um dia.
Sim,
no jogo das ciências, a “teologia” terá de tornar-se “católica”
e “ecumênica” – mas enquanto método, e não enquanto conteúdo
partilhado. As “ciências” – todas – não se consubstanciam-se na
forma de conteúdos católico-ecumênicos, mas em métodos universais.
Teologia, doravante, é método, não mais, conteúdo. Fé? Não, não.
Salvo na fórmula: “fé no(s) método(s)”, na articulação da qual
penso encontrar-se em excelente companhia – “os métodos, cumpre dizê-lo
dez vezes, são o essencial, e
também o mais difícil, e também o que há mais tempo têm contra si os
costumes e a preguiça” (Nietzsche – O Anticristo).
“Uma
teologia acadêmica” (p. 61-63). Eis a função de teólogos e teólogas
acadêmicas, para o von Sinner que se pronuncia no artigo: “apresentarem
e discutirem argumentos teológicos sobre determinado assunto de fé”
(p. 61). A teologia é ciência – dirá von Sinner – não porque se
aproximará ceticamente da “fé” – “que não destrua a fé num
ceticismo sem fim” –, mas porque “está sempre à procura da
verdade, ainda que não a possua nem a possa encontrar de forma
absoluta”. É sutil o raciocínio. A teologia não tem a verdade
absoluta. Ela “apresenta o que dela percebe
com argumentos que podem ser criticados e discutidos” (grifo meu). Mas
como assim, “percebe”? Se von Sinner nos disse tudo o que ia em sua
mente, tenho que admitir que a teologia percebe
a verdade na fé, e a procura compreender, sustentar, explicar, evitando
dois extremos: o ceticismo generalizado, destrutivo, e um “dogmatismo
auto-reprodutivo”. É assim que von Sinner vê a identidade científica
da teologia, porque, de um lado, ela “está sempre à procura da verdade
etc.”, e, de outro, porque “são estes dois perigos que qualquer ciência
enfrenta: cair no ceticismo ou no dogmatismo”.
Minha
análise: essa teologia defendida por von Sinner não se encontra em condições
de ser articulada entre as ciências, muito menos de receber a classificação
de “ciência”. Ela é confessional, traditiva, normativa, metafísica,
ontológica e provinciana. A verdade católica e ecumênica cristã está
na fé católica e ecumênica cristã, que, contudo, precisa ser
“esclarecida” pela teologia católica e ecumênica cristã. Ouço
Agostinho e Anselmo aqui. Tenho que crer, e, então, compreender. Mais uma
vez – na Universidade isso soa constrangedor.
Eis
onde o magma se deixa entrever: “todos somos teólogos, significa cada
cristão” (p. 61). Reveladora a citação de Lutero. Compreensível em
Lutero, eventualmente. Mas não no contexto de um artigo que pretenda
discutir o caráter científico da teologia. Só é verdade que todo cristão
é teólogo no sentido em que o termo “teologia” pode ser usado como
referindo-se ao fato de que todos os homens e mulheres cristãos
“pensam” sobre Deus. Mas esse regime semântico está interditado à
academia. É absolutamente impossível que a teologia, sob regime acadêmico,
pense em Deus – nem ainda que pense “sobre o falar de Deus”. Na
academia, Deus está morto, e a fé não o ressuscita. Se nós teólogos não
reconhecemos isso, se tapamos os olhos, os ouvidos, o nariz, a tudo quanto
se disse – e muito bem alto – no século XIX ([o primeiro] Kant,
Schopenhauer, Feuerbach, Nietzsche, Marx, Freud – Dilthey, “pai” das
Ciências Humanas!), o que é que estamos fazendo na casa construída por
eles? Deus pode estar mítica, profunda, significativamente vivo na experiência
pessoal subjetiva de cada “crente” – mas deve ser considerado
“morto” – Zaratustra – na academia, porque o está, no Estado. Do alto de
minha posição de teólogo, grito: não!, essa teologia, não! Porque a
queremos assim, mantra tradicional cada vez mais anacrônico, que seja,
mas lá fora das salas de aula, nos templos, que seja, onde as ovelhas não
têm a mínima idéia – romântico-esclarecida – do que
“acontece”. Mas em sala de aula? E mais – eu, teólogo, articulando esse
discurso? Não posso. Na academia, posso estudar, como teologia, o que nós
pensamos, na história e na vida, sobre Deus, e isso, contudo, de uma
forma cética e distante, metodologicamente controlada. Mais, não. E
lutarei contra isso. Porque o que no artigo se chama de “ponte do viver
da fé para o pensar sobre a fé” (p. 61-62) traduz-se em racionalização
apologética, fideísmo voluntarista engajado. De direito? Alhures. Na
heurística acadêmica, não.
Eu
confesso que fico atordoado com o tipo de raciocínio sinuoso que encontro
no artigo. Parece, às vezes, que os registros propriamente acadêmicos e
aqueles propriamente eclesiástico-doutrinários estão misturados. Por
exemplo, se eu leio a frase “pessoas (...) refletem sobre a fé (...) de
forma crítica e distanciada, de fora”, ou “é possível falar sobre a
fé de forma acadêmica, descritiva, exploratória”, quase chego a
considerar que interpreto equivocadamente a proposta do artigo. Afinal,
essas palavras definiriam certamente uma teologia acadêmica que eu mesmo
definisse. Mas ei-las em seu contexto:
Pessoas
não profissionais em teologia refletem sobre a fé, seja de forma
apaixonada, de dentro, ou de forma crítica e distanciada, de fora. Embora
se compreenda a fé, afinal, apenas de dentro, e assim também a teologia,
é possível falar sobre a fé de forma acadêmica, descritiva, exploratória.
Precisamente por isso é que a teologia tem seu direito na academia,
porque consegue fazer esta ponte do viver da fé para o pensar sobre a fé.
Nisto, ela precisa da filosofia para articular-se, pois esta providencia
um instrumentário analítico útil para o afazer teórico-científico da
teologia (p. 61-62).
Mais
uma vez, fé e teologia fundem-se – na prática: somente “de dentro”
é possível compreender-se a fé e a teologia. Está-se, aí, na esteira
de Agostinho, de Lutero, de Barth – da própria fé. O que quer dizer
que a fé só existe enquanto alienação – ponto para Marx – e ópio
– de novo – e neurose – agora, para Freud. Porque “de dentro”
significa isso: através da própria auto-legitimação da fé/teologia.
Feuerbach já disse tudo quanto a isso. Mas a teologia é surda. Seu mundo
é apenas o “interno”. Não ouve ninguém. Mas gosta de falar – é
tagarela. Menos boca, teologia, e mais ouvidos, e estaríamos melhor
preparados para a academia. A “ponte” que a teologia faz do viver para
o pensar não se traduz em crítica e investigação, mas em apologia e
legitimação. Ouvir os cientistas (p. 59) e recorrer à filosofia (p. 62)
constituem tão-somente estratégias retóricas – palavras e jeitos
novos de dizermos as velhas verdades. Mas deixar que as “ciências”
metam a mão nesse lodo e virem nossas tripas ao avesso, isso não,
porque, ai, destruiria a fé. Não posso acompanhá-lo nessa retórica,
Rudolf – e bem quisera.
As
páginas 62 e 63 pretendem “melhor definir de que estamos falando” (p.
62). “Teologia (...) significa literalmente o falar sobre Deus e falar de
Deus”. Por sua vez, “a fé é nossa reação à palavra de Deus”. É
apenas de forma mediada que se pode “falar sobre Deus”. Se há risco
de blasfêmia no conceito de Deus (Gregório de Nissa), resta ao cristão
os testemunhos da Bíblia – “a Bíblia nos fala de Deus”. Ou seja
– a fé dirige-se ao falar de Deus na/da
Bíblia, e demanda “explicação” (Anselmo – eu sabia!). Fecha-se o
ciclo. Von Sinner não toma nenhum desses elementos de forma científico-humanista,
mas, desde dentro deles, sob sua regência, domesticamente. São axiomáticos.
Como não partir deles? Isso destruiria a fé! Ah, chegamos à porta,
abrimo-la, deparamo-nos com o diabo, e, cruz credo, fechamos a porta. Mas
as “ciências” – e a teologia-enquanto-ciência – quer justamente
os diabos!
Essa
teologia pseudo-acadêmica é do mesmo tipo dos Pais Apostólicos. Von
Sinner o confessa: “os Pais da Igreja visaram defender a fé (apologia)
contra os questionamentos dos filósofos, desta forma criando uma explicação
da fé a partir de uma postura de fé, mas em interação com os
argumentos filosóficos” (p. 62). O uso que a teologia faz da razão tem
um fim – “dar conta da fé” (p. 63). Não há dúvidas mais – a
teologia da academia tem de ser a mesma “teologia” da Igreja – nem das, mas da mesmo: “o
cristianismo, mais do que nunca, é uma religião universal (católica),
tanto no sentido geográfico (o movimento centrifugal), quando no sentido
teológico (o movimento centripetal), pela universalidade da proclamação
de Jesus” (p. 63). Assim, a teologia deverá ser confessional – sim,
mesmo na academia, ela deverá ser confessional! Enquanto estivermos
pesquisando, é ainda a serviço da fé que estaremos. Von Sinner
“sabe” a conseqüência disso? Se eu “entro” nas Escrituras com
essa plataforma, saio com o resultado encomendado pela “lógica”
apologética que a anima, assim como, entrando com ela na Universidade,
torno a cátedra púlpito. Mas e exatamente isso que von Sinner entende
por teologia acadêmica e quer. Eu, não. E quero uma teologia acadêmica
absolutamente diferente. Cética, crítica, metodológica, indiciária,
emancipada, científico-humanista, romântica. Não gosto mais dessa
teologia nem mais no púlpito – ela não me diz nada! – quanto mais na
cátedra. Quanto ao púlpito, parece que ele tem dono. Pois que cada dono
escreva seu sermão. Mas a academia, não. Ela não é um braço da Igreja
– nem deve ser – mas do Estado Democrático de Direito, laico,
humanista. Fé, aqui, é objeto de estudo.
“Uma
teologia pública” (p. 64-65). Não posso concluir sem marcar minha posição
também em face do argumento de que “deferentemente da época quando era
preciso libertar a ciência, a política e a lei da prepotência da
igreja, e se começou a argumentar etsi
deus non daretur (‘como se Deus não existisse’), é preciso,
hoje, argumentar precisamente etsi
deus daretur, pressupondo a existência de Deus e explorando o que
isto significaria para nossa percepção do mundo” (p. 64). Não,
Rudolf! Não posso aceitar isso. Não como cidadão, não como teólogo. O
que aconteceu com o “safanão” que sofremos no século XVIII (1789) e
XIX (Romantismo)? A ciência, a política e a lei, sim, ad maioren dei gloriam, foram, sim, libertadas. Mas a(s) Igreja(s),
não – consultem-se, para cada caso, o Vaticano I, a “teologia” de
Karl Barth e The Fundamentals. A(s) Igreja(s) – quero dizer, seus
“cabeças pensantes” fecharam-na dentro de sua própria lógica (sim,
é verdade que as religiões, de modo geral, encontram-se todas na mesma
situação de alienação científico-humanista, mas, cá entre nós,
Rudolf, fomos nós, cristãos, nós, protestantes, quem inventamos a
Reforma, o Iluminismo, o Romantismo, e saímos correndo, de medo!).
Duzentos anos depois – Brasil –, a teologia “volta”, e quer voltar
como sempre foi – metafísica, ontológica, “ciosa”. Devia voltar
humilhada, e pedir ajuda e abrigo. Não quer. É divina. Devem-lhe
persignações e genuflexões atemorizadas.
Deixe-me
dizer o que é uma teologia pública – se é que ela nascerá.
Estaremos, conto os dias, nós, teólogos, todos, à mesa. As cadeiras têm
números. Na um, um cristão. Na dois, um umbandista. Na três, um
budista. Na quatro, um kardecista. Na cinco, um ateu. Na seis, um
animista. Na sete, um politeísta. Na oito, um agnóstico. Na nove, na
dez, na onze. À essa mesa far-se-á teologia pública. Todos eles,
manejando a mesma metodologia. Todos eles, diante deles, o mesmo objeto.
Todos eles, em sendo o caso de terem fé, pondo sua respectiva crença na
bolsa. Se me equivoco em dizer que qualquer coisa muito diferente disso
constitui a importação de templos e agremiações religiosas para dentro
do MEC, saberei ouvir os argumentos.
Eu
talvez entenda a preocupação pastoral de Rudolf von Sinner,
eventualmente, sua continência funcional. Quanto a mim, sinto-me mais
livre para, de um lado, recusar a proposta – teologia como reflexão
metodologicamente responsável sobre o falar de Deus –, e, de outro,
afirmar, segundo meu juízo, sujeito, claro, à crítica pública, de que,
para aproveitar a fórmula, “a teologia como reflexão metodologicamente
responsável sobre o discurso humano sobre o sagrado”.
(Continua)
II.
Júlio Paulo Tavares Zabatiero,
Do Estatuto Acadêmico da Teologia: pistas para a solução de um problema
complexo, Estudos Teológicos,
v. 47, n. 2, 2007, p. 67-87.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
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