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Três
pronunciamentos acerca do estatuto epistemológico da teologia - III
O
suspense em torno da identidade da esperança
–
será o mordomo o culpado?
Osvaldo
Luiz Ribeiro
14/06/2008
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Enio R. MUELLER, A
teologia e seu estatuto teórico: contribuições para uma discussão
atual na universidade brasileira, Estudos
Teológicos, v. 47, n. 2, 2007, p. 88-103 (Texto
completo). Segundo o site, o autor é professor e pesquisador na
Faculdades EST, em São Leopoldo, RS. O ensaio constituiria a síntese de
um projeto de pesquisa em andamento (EST/CNPq). Resumo: O reconhecimento
dos cursos de Teologia no Brasil coloca teólogos e teólogas diante da
responsabilidade de definir com a maior clareza possível o seu estatuto
teórico. Este texto representa a contribuição de um pesquisador para
essa discussão em andamento na universidade brasileira. Sua proposta
construtiva é compreender a teologia como interpretação da realidade à
luz da esperança. Cada um dos elementos dessa definição é discutido de
forma programática, delineando um projeto de pesquisa a ser
sistematicamente aprofundado. |
Venho
de recusar gravemente as primeiras duas das três propostas de definição
do caráter “científico” – ou não-científico, mas na universidade! – apresentadas pela Estudos Teológicos 47/2. Depois de uma primeira leitura do terceiro
ensaio – de Mueller –, minha tendência é de abrir-me para um
acatamento cauteloso da proposta de definição teórico-metodológica de
teologia como “interpretação da realidade à luz da esperança”.
Minha abertura constituiria uma condescendência à revista, dado um peso
de consciência em face de meu julgamento severo dos dois postulados
anteriores? Negociações psicológicas? Chegarei a encontrar, de fato,
elementos razoáveis para a minha concordância, agora, durante minha
segunda e mais pausadamente crítica leitura do artigo? Rigor “filológico”
(Nietzsche) e crítico? Concluirei que, de fato, tentara salvar, ao menos,
uma das três propostas, mas que, a rigor, as três estariam fadadas a
merecer minha reprovação? O leitor e a leitora devem estar inteirados de
tais possibilidades, porque, como leitor e leitora, precisam estar atento
às condicionantes psicológico-conjunturais em que um ensaio – os meus,
sem dúvida – se insere. E devo confessar, leitor, leitora, que não
estou seguro quanto a que termo chegarei. Esse segundo encontro entre o
ensaio de Mueller e eu será decisivo.
Ao
ensaio, então. Mueller o dividiu muito criativamente. São quatro seções,
sendo a primeira – 1. A Teologia no concerto das ciências (p. 89-90)
– uma espécie de introdução para cada uma das outras três. As três
seguintes são: 2. Teologia como
interpretação da realidade à luz da esperança (p. 91-93); 3. Teologia
como interpretação da realidade à luz da esperança; e 4. Teologia
como interpretação da realidade
à luz da esperança. A intitulação criativa de Mueller tomou a própria
tese como roteiro para a discussão de sua proposta. “Teologia”,
“interpretação” e “realidade”, como termos-chaves da tese
“teologia como interpretação da realidade à luz da esperança”
apresentam-se para avaliação. Perfeito. A princípio, contudo, chama
atenção o fato de que o elemento mais distintivo da proposta – “à
luz da esperança” – esteja fora da agenda de controle. Adiante-se que
é justamente nessa cláusula “hermenêutico-referencial” – “à
luz da esperança” – que reside o maior risco de improcedência científico-humanista
do postulado de Mueller.
As
primeiras palavras de Mueller são muito – quase totalmente –
pertinentes. A rigor, são dois parágrafos (p. 89), que explicitam o Sitz im Leben do ensaio. Segundo Mueller, a Teologia (com “T”
maiúsculo) teria sido “convidada oficialmente (termo de Mueller) para o
grande concerto da academia no Brasil”. Não me consta ter sido
“convite”, contudo. Até onde posso reconstruir os passos político-burocráticos
que redundaram no “reconhecimento” da Teologia pelo Sistema Federal de
Ensino (MEC), nesse caso, especificamente no nível da graduação, nosso
ingresso deveu-se a movimentos de bancadas (estaduais e federais) de políticos
evangélicos, em colaboração aos quais agiram não poucos setores da
academia e da eclesiologia cristã brasileira. Não me recordo de ter
havido audiências públicas, ou grupos de discussão minimamente
interdisciplinares que fossem, inter-camerais e inter-departamentais. A
“negociação” deu-se entre os representantes da “Teologia” e do
MEC. Não?
Não
é justamente por isso que a segunda observação de Mueller deixe-se
carregar de absoluta pertinência? Por que a “Teologia” “busca
definir seu estatuto”? Não é por que “ingressou” politicamente,
sem diálogo com as disciplinas que já compunham o “concerto da
academia no Brasil”? Julgo que sim. Mas isso apenas relativista a
premissa inicial de Mueller – fomos convidados! (a meu juízo, não, não
fomos convidados) –, sem, contudo, nem por um momento, diminuir a força
de sua declaração seguinte: “o que exatamente faz com que ela se sinta
no direito a ter um lugar como protagonista deste concerto” – ou seja,
qual seu “estatuto teórico”. Esse verdadeiro buraco, esse fosso,
parece-me testemunha de que não apenas dialogamos com os representantes
das “ciências”, antes de e para entrar, mas nem entre nós mesmos
trocamos uma única palavra a respeito de quem fomos/éramos/somos/seremos.
Mudos estávamos, enquanto a política discutia nossa posição. Mudos
estamos há já dez anos. Ao menos agora – e por quanto tempo achávamos
que íamos nos manter aqui, sentados, sem dizer a que viemos? – começamos
a discutir quem somos, o que somos.
Mueller
responsabiliza “em parte” a Teologia por isso. Ela considera que a
Teologia, até hoje, não sentiu necessidade de “pensar seu estatuto teórico”.
De fato. Antes de nosso ingresso na academia, a “Teologia” mantinha-se
como que na vigência daqueles
tempos em que era ela quem “pensava” o mundo. Para a “Teologia”,
antes de nosso ingresso no concerto das ciências, o mundo era o que ela
dizia que era. Ela “sabe”, contudo, que, agora, no meio da sala, assim
como lhe arrancaram o mundo real das mãos de forma revolucionária, agora
ela corre o risco de ter que abrir mão de seu “mundo”, e ainda ter de
sentir-se confortável com isso. Enquanto estivera fora da academia,
perdera a matéria, mas mantivera cativo o espírito. Agora, até o espírito
ela pode ter de entregar no altar de sacrifícios das “ciências”. Von
Zinner e Zabatiero já recorreram ao recurso juridicamente legitimo do juris
sperniandi. Von Zinner quer de volta os tempos míticos da
“Teologia” – brincar de falar de/com Deus”. Zabatiero quer o
mesmo, mas como se quisesse uma coisa nova – vinho velho, odre novo (mas
o odre rasga!). Mueller, que há de querer?, de dizer?, de fazer?
De
“1. A Teologia no concerto das ciências” (p. 89-90)
Duas
declarações de Mueller, a que fecha a introdução e a que abre a
primeira seção, assentam o caráter evidentemente epistemológico de sua
preocupação – o que é muito louvável. Primeiro, “o que a Teologia
vê ‘que só ela vê’”?, e, em seguida, “uma das conseqüências
do diálogo interdisciplinar ao qual a teologia se expõe é sua própria
redefinição”. Isto marca a perspectiva distintiva do ensaio de Mueller
em face dos ensaios de von Sinner e Zabatiero – lá, quisera-se deixar a
“Teologia” ser o que ela diz ser antes de entrar no concerto das ciências,
mesmo agora, depois de ela ter aí entrado. É a inegociável – do ponto
de vista das ciências – vontade de trazer deus(es) para dentro da
academia (se chegarem a vir, será para serem estudados, dissecados,
virados do avesso, desnudados, denunciados – coisa que já se fez há
cem anos [refiro-me, naturalmente, a Feuerbach, que, quando citado pela
“Teologia”, é para condenação sua, claro – deixo dúbia a
sintaxe, de propósito]). Mueller reconhece, logo de saída, que a
Teologia tem de redefinir-se, o que deve, necessariamente, dar-se sob a
rubrica teórico-metodológica das ciências – jamais da “fé”.
Mueller
vai investir uma série de parágrafos para ilustrar modelos de relação
paradigmática entre as ciências (p. 89-90). O que ele pretende é dizer
que o modo como as ciências se vêem, hoje, e, portanto, como, na prática,
elas “funcionam”, comporta uma metáfora “orgânica”, o que
significaria que grupos mais ou menos próximos de disciplinas do concerto
das ciências testemunhariam uma interação respectivamente mais ou menos
mutuamente transformadora – o que, em termos epistemológicos,
traduziria o conceito de “compatibilidade”, referido por Barkow.
Não basta que a “Teologia” tenha algo para ver e que somente ela veja
– é ainda mais importante que isso que somente ela veja seja compatível
com tudo quanto todas as demais ciências, por sua vez, vêem. Sem
compatibilidade, não há concerto – há barulho. Ou monólogo.
Não
vou discutir o fato de Mueller ter optado por assentar a questão por meio
de metáfora – metáfora do prédio versus
metáfora do organismo. Não estou seguro quanto ao significado desse
recorte retórico para Mueller. Seja com o for, o resultado obtido me
interessa – o reconhecimento tanto político quanto epistemológico de
que a Teologia, para estar no MEC – e não está? – tem
de (não é questão de “opção”) passar pelo “rebaixamento”
(quenosis) científico-humanista, fazer-se interativa, deixar-se
comprometer, transformar, compatibilizar-se. Se, no todo, já passou da
hora de a “Teologia” falar sozinha – monólogo de um fantasma! –,
agora, no MEC, tal síndrome permitiria um diagnóstico político (a
“Teologia” quer-se) e psicológico (a “Teologia” quer-se). A “Teologia” de Mueller, essa que ele esboça – e da qual
vou gostando – não é, definitivamente, mais, aquela velha Teologia.
Morta na Crítica da Razão Pura,
ressuscitada na Crítica da Razão
Prática (que custou a Kant severas críticas de Schopenhauer e de
Nietzsche), denunciada como “mito” pelo Romantismo e re-divinizada por
Barth, ela não tem modos suficientemente elegantes para portar-se à
mesa. Ela não pode. Ela só cede para dar o bote. A Teologia de Mueller,
contudo, tem de ceder, primeiro, diante de si mesma, converter-se,
primeiro, por si mesma, e, então, sentar-se à mesa, entre as co-irmãs,
como irmã. Vai ser interessante vê-la praticar o que prega a dois mil e
quinhentos anos (a conversão dos outros a si). Converter-se vai ser um
parto. E é só esse parto que eventualmente interessa às ciências.
Ponto
pra Mueller. Se o li direito. Será?
De
“ 2. Teologia como interpretação
da realidade à luz da esperança” (p. 91-93)
Um
leitor que se deixasse marcar por minha fixação na necessidade de consciência
quenósica da “Teologia”, tão logo entrasse na seção dois do
ensaio. Mueller faz alguma coisa como uma “teologia, como ciência”
ter seu núcleo “há muito tempo”. Essa “teologia” (sim, com
“t” minúsculo, agora) sabe-se muito próxima da filosofia, por
exemplo. O seu problema epistemológico constituiria, então, o fato de
ela ter estabelecido fronteiras com as demais disciplinas quando o jogo
operava segundo o regime da metáfora do prédio, e não da célula viva
(p. 91). Eu não endossaria uma simplificação dessa natureza – e
preocupa-me que Mueller não ponha explicitamente o dedo na ferida. Mesmo
essa teologia que Mueller apresenta como que constituindo um núcleo científico
jamais chegou perto de ser “ciência”, e mesmo quando se achava próxima
da filosofia, era mais a filosofia que se fazia fé racionalizada do que a
teologia que se fazia argumento epistemológico lógico/analógico. Sequer
a escolástica – seja a “clássica”, seja a protestante (pós-reforma)
foram ciência ou tiveram núcleo científico. Foram tão somente sistemas
racionalizadores/racionalizados de conteúdos de fé – doutrina, dogma.
Nada mais. Mueller deveria ter sido mais severo em sua declaração. Faz
parecer que, para estar na academia, basta a ciência uma leve correção
de rumo, quando, a meu juízo, para aí permanecer – já que entrou sem
méritos – terá de aceitar passar por uma radical transformação. Terá
de sofrer a “descoberta” psicológico-epistemológica de sua eidética
– ela é nada mais que atividade humana, desdobrando-se sobre reflexões
humanas, sem que haja janelas metafísico-ontológicas para uma
“verdade” teológica supra-humana, que a demais disciplinas devessem
aprender de seu sacerdócio.
A
partir do parágrafo central da página 92, Mueller recorre à origem
grega da “teologia”. Põe-na ao lado da filosofia, e reconhece que,
naquela época, contudo, “as distinções não fossem tão severas como
hoje” (p. 92). Mais do que isso, Mueller – o que se chama, hoje, de
filosofia, à época constituía, a rigor, alguma coisa muito mais próxima
do que hoje é – ainda! – a “teologia: racionalização mítico-doutrinária,
especulativa e normativa. Também a filosofia sofre sua quenosis, o que a
possibilita possuir cadeira cativa entre as ciências. E não foi com Platão,
Aristóteles, Agostinho ou Tomás de Aquino que ela, a filosofia,
“transformou-se” – mas, tão somente, após o primeiro Kant. Logo,
aquela filosofia e aquela teologia são marcos terminológicos de uma pré-história
da filosofia e da teologia como ciência. Mas tanto uma como a outra,
enquanto ciências, não nasceram senão há duzentos anos. Quer dizer,
uma delas, porque a Teologia, enquanto ciência, ainda não nasceu. Ia
nascendo, a Barth a empurrou pra dentro, de novo. E o século XX – teológico
– gostou disso. Há fórceps para nascer, e há fórceps pra não deixar
nascer. Não é nem aborto. É sutura do útero mesmo.
Mas
voltemos a Mueller. Mais desconforto. Mueller está interessado em
descrever o modo como gregos e judeus pensavam “Deus”, porque, para
ele, esses dois modos distintos comprometem até hoje a identidade da
teologia, e estabelecem-lhe uma tensão epistemológica de fundo. Os
gregos viam “Deus” de forma impessoal, ele diz, ao passo que, os
judeus, como “pessoa”. Quanto ao “logia” de “teologia”,
Mueller considera que também aí havia distinções marcantes. Os gregos,
relacionando o termo à razão, e, os judeus, à eficiência do ato de
fala (p. 93). A teologia “cristã” atual, segundo Mueller, responderia
a esses dois impulsos – grego e judaico –, constituindo-se, ao mesmo
tempo, em recorte ontológico e “racional”, de um lado, e de outro,
homilético e normativo (p. 93).
De
minha parte, considero a seção prejudicada. Uma história do termo
“teologia”, pior ainda, em seu recorte restritivo “cristão”, que
tem a dizer sobre uma teologia acadêmica epistemológica e
metodologicamente procedente? Nem ontológica nem homilético-normativa
pode ser uma teologia que sente-se à mesa com as demais ciências, de
modo que toda essa digressão serve, apenas, para dizer o que, sob nenhuma
hipótese, a teologia pode ser, hoje, quando ingressa no MEC. Seria o
mesmo que defender-se uma química moderna baseada na metalurgia mágico-mitológica
dos primórdios, ou, ainda, na alquimia. Entre a primeira fase –
metalurgia primitiva, marcada pelo mito e pelas práticas mágicas –, a
segunda – alquimia – e a terceira fase da “história da química”
não há negociações. Não apenas a química moderna representa uma
quenosis radical dos primórdios de sua “história”, quanto compreende
o recorte mítico-mágico-simbólico de suas origens. A “teologia”
cristã está, para a teologia acadêmica, como a metalurgia primitiva e a
alquimia estão para a química moderna. Ou a teologia reconhece isso, ou
não deixou-se passar pelo crivo científico-humanista que se lhe exige
hoje – porque quis estar aqui, onde está. Não há negociações.
Dispa-se. Lave-se. Nasça. A teologia acadêmica deve sair do útero de
onde Barth a impediu, há cem anos, de sair.
As
últimas declarações, contudo, de Mueller, não sei, parecem-me
insinuantes de um descuido epistemológico, ou de uma negociação política:
“a tensão daí decorrente (isto é, do caráter ao mesmo tempo “harmônico”
e “tensional” da eidética ao mesmo tempo helênica e judaica da
teologia cristã) marca indelevelmente o que se chama hoje de ‘teologia
cristã’. E certamente marcará toda teologia que se ensaie em nosso
mundo globalizado, pela força histórica com que o ocidente cristão o
marca” (p. 93). Difícil de “digerir” uma declaração desse tipo,
porque há porções dela com que alguém como eu poderia lidar, ao passo
que há outras porções que, ao contrário, nos arrepiam. Eu concordaria,
por exemplo, com a expressão “o que se chama hoje de ‘teologia cristã’”,
e marcaria, acentuaria, escreveria em itálico, o termo “hoje”. Por
outro lado, não posso dar um passo na direção de concordar com a sentença
alguma coisa entre profética e programática: “certamente marcará toda
teologia que se ensaie hoje em nosso mundo globalizado”. Não
necessariamente.
Explico.
As “ciências” não são um mundo – são um tabuleiro. As “ciências”
não são “vida” – são jogo (e mesmo a “vida” é mesmo um
extraordinário jogo, já escreveu Huizinga). Trata-se de um jogo mesmo de
“compreender/explicar” – instrumentalmente, funcionalmente,
semioticamente, humanamente, culturalmente, historicamente (numa palavra,
hermeneuticamente) – o mundo. Para lidar nele e com ele. As “ciências”
escreveram suas regras – e tais regras, ainda que sob discussão
epistemológica e metodológica, não estão em negociação. Não há
sequer um único elemento da “teologia” – cristã, medieval, dogmático-traditiva,
conteudística, normativa, homilética, racionalizadora (nunca, racional!)
– que possa ser aproveitado pelo jogo
das “ciências”. Porque esse jogo não é jogo de conteúdos e revelações,
mas de métodos e procedimentos. E o problema grave, delicadíssimo, da
teologia é justamente seu método, que, quando não dogmático-metafísico
(von Sinner), quer-se fazer lingüístico-pragmático (Zabatiero), ambos,
no frigir dos ovos, cuidados de não quebrar ovos. Mas não, Mueller –
uma teologia como ciência não quer os ovos da caixa velha. Antes, há de
quebrar todos para ver como são por dentro, que a “ciência” não é
nem gozo de conteúdos – ela é iconoclasta –, nem norma ético-hierocrática
– ela é mesmo transgressora das normas, cuidado com ela!
Num
sentido, contudo, essas últimas palavras de Mueller podem conter uma
“verdade”, ainda que enviesada. Essa – toda teologia que se vier a
fazer “em nosso mundo globalizado” deverá ter a mesma marca. Que
sejam essas marcas-modelo, helênicas e judaicas. Mas não apenas elas.
Nenhuma das duas é suficiente para fazer emergir as ciências, maduras,
como marcos distintivos do mundo que estamos construindo – não menos mítico
do que todos os anteriores, mas consciente de si também como mito. Platão
e Aristóteles, de um lado, e o “judaísmo”, de outro, são iguais num
sentido: crêem numa “verdade” ontológica não apenas disponível ao
homem, mas disponível lá fora. Não há semiótica aí. Há posições
políticas – dedução e indução, autoridade e competência,
passividade e atividade. O distintivo das ciências maduras – ou em
processo de maturação, seria mais prudente dizer, e refiro-me aos
movimentos de transdisciplinaridade e de cognitividade, que marcam as ciências
desde a década de setenta – é justamente a compreensão de que elas
constituem rotinas metodológicas negociadas, de um lado, entre as
diversas ciências, e de outro, entre esse conjunto e o real. Sim, todas
as teologias – a cristã, a umbandista, a budista, a kardecista,
qualquer uma, todas elas – que se vierem a fazer “em nosso mundo
globalizado” (e mais, sob o regime do concerto das ciências) – serão
marcadas por essa quenosis científico-humanista,
e não por uma inflexão inexorável greco-judaica do que se costumou
chamar “teologia cristã”.
Uma
antropologia como ciência, faz-se sempre a mesma, seja no Brasil, seja na
China. Ou não é antropologia. Uma psiquiatria como ciência, faz-se a
mesma, seja na índia, seja no Gabão. Porque essas disciplinas não
constituem os conteúdos que elas geram, mas os métodos em que elas se
resumem, os pressupostos em que elas se constituem, as regras internas do
jogo em que se desdobram, as jogadas que se fazem. Assim, se a
“teologia” chegar a ser “ciência” – e ciência legítima, antes
que condescendência constrangedora ou imposição político-econômica
–, ela será a mesma em todo canto do planeta. E não será, certamente,
“cristã”. Porque uma “teologia” cristã “científica” é
impensável, conquanto seja absolutamente natural esperar-se uma análise
científico-teológica da teologia cristã – e ela teria muito, muito a
dizer.
Ou
seja, saio frustrado da seção dois. A seção um anunciou nuvens de
chuva. Até aqui, gotejaram respingos.
De
“3. Teologia como interpretação
da realidade à luz da esperança” (p. 93-98).
Essa
é a maior seção do ensaio. Mas temos paciência. Começo a desembrulhar
o conteúdo da seção por meio da citação de uma citação – que,
contudo, no corpo do ensaio não vai como citação – localizada bem no
meio da seção: “humana, demasiado humana” (p. 96). Não há aspas.
Logo, são palavras de Mueller. Mas é muito difícil que não se reportem
às palavras de Nietzsche – ao livro de Nietzsche, Humano,
Demasiado Humano, publicado em comemoração ao centenário da morte
de Voltaire, livro que o próprio Nietzsche dirá que, quando o diz
dedicado “aos espíritos livres”, quis dizer “aos espíritos
libertados” – e libertados, aí, da metafísica, do idealismo, “espírito
que retomou o domínio de si mesmo”.
Ora, se Mueller faz eco das palavras – do livro – de Nietzsche, não
se encontra mais escusado de esquivar-se das conseqüências do
pronunciamento delas. Diante delas, ou se está com elas, ou contra elas.
A dita “teologia cristã” – Barth é seu campeão moderno, e o século
XX não passa muito de um concurso para Sanchos Panzas (uma teologia científica
pode por fim ao concurso, e recomeçar desde onde Barth começou, mas sem
Barth) persigna-se diante delas: vade
retro. Mas uma teologia científica, acadêmica, as transformaria em
lema.
É
preciso, pois, saber em que sentido a proposta de Mueller articula as
palavras mágicas de Nietzsche (a posição pessoal de Mueller não está
em jogo – sua proposta para a teologia acadêmica, sim!). Mueller chega
a elas depois de abrir a seção com uma discussão, por meio de Claude
Geffré, entre “dogmática” e “hermenêutica” (p. 93-96). Nosso
coração de leitores sente-se em excitação, porque, no primeiro ensaio,
von Sinner pende para o primeiro termo (“teologia como reflexão
metodologicamente responsável sobre o falar de Deus”), e, no segundo,
Zabatiero pende para o segundo (“teologia como discurso racional público”).
Para onde penderá Mueller? Bem, depois de expor de modo
compreensivelmente conciso a posição de Geffré, que toma partido pela
“hermenêutica”, mas, segundo seu julgamento, à custa de uma
“adjetivação” do substantivo “dogmática”, o que emprestaria a
esta uma aura coercitiva por parte do magistério, ao passo que
resultaria, à teologia hermenêutica, “‘uma concepção não-autoritária
da autoridade, (...) uma concepção não-tradicional da tradição e uma
noção plural da verdade cristã’”, Mueller circunscreve tanto a
escolástica católica quanto protestante ao “círculo mágico” (o
termo é meu, que o recolhe em Huizinga, a respeito da cultura como jogo) da revelação, desdobrada, contudo, numa retórica conceitual
de theologia archetypa (uma espécie
de “primeiridade” peirceana, se aplicada impertinente e
improcedentemente aqui – a saber, “a teologia que só Deus vê”, p.
96) e theologia ektypa (a contra-parte peirceana – a secundidade -, mais
uma vez improcedente, contudo: “o esforço humano por refletir, como em
espelho, do modo mais fiel possível esta teologia divina originária”,
p. 96) [ouço Platão tocando harpa no céu! Alguém mais? Ou é preciso
ser louco e solitário, ainda hoje, para perceber o anacronismo de tais fórmulas?].
Mueller, contudo, ainda não se pronunciou. Pelo contrário – ele
problematiza (tinha de fazê-lo, sob o risco de absoluta perda de substância
acadêmica, mas é isso que se pretende buscar com um ensaio sobre o
estatuto teórico da teologia!):
Como
esta teologia divina originária não se encontra escrita em lugar algum,
como evitar a pretensão humana, demasiado humana, de que a nossa
teologia seja a que realmente ou que melhor reflita a mesma? E dali é só
um passo, negado no discurso mas efetivado na prática, a conceder foros
de autoridade divina a esta nossa teologia (p. 96).
O
modo como Mueller decide a questão é construído por meio de uma retórica
bem marcada. Sem afirmar explicitamente que a teologia, na academia, a ela
só resta a profissão de fé cética – ouviremos Mueller dizê-lo? –,
Mueller prefere advertir, e com razão, que aí se encontra o ponto nevrálgico
– e como dói tocar aí! – do estatuto teórico da teologia. Na superfície
de sua retórica, na espuma das palavras medidas e contadas, pode-se dizer
que Mueller esteja avançando para dizer que a teologia científica não
sabe nada – nem pode saber – sobre Deus. Mas ele não o dirá. Pelo
contrário. Ele mesmo “sabe” de Deus. Ou, de outro modo, como poderia
escrever – a saber, num ensaio sobre o estatuto teórico da teologia –
o seguinte: “a pergunta de fundo é se Deus precisa de teologia” (p.
96). Pergunta da qual ele extrai o “risco” que teólogos e teólogos
correm – idolatria.
Mas
o postulado de Mueller sequer pode ser pronunciado na academia! Por quais
meios acadêmicos a pergunta que ele fez – “se Deus precisa de
teologia” – pode ser respondida. Apenas a fé poderá brincar com essa
espuma. Sim!, dirá um teísta, teólogo profissional. Não!, dirá, de um
lado, um teísta carismático, e, do outro lado da rua, mas por outras razões,
um ateu, que ateísmo e teísmo igualam-se da força da fé que professam,
conquanto em vetores de sentido contrário: “não!,que sequer existe
Deus!”. Mas um acadêmico, contudo, enquanto acadêmico, o que ele pode
fazer com uma questão dessas? Nada. Tem-se aí aquilo a que o primeiro
Wittgenstein tratava – nesse caso, apenas nesse tipo de caso,
acertadamente – como jogo de palavras (mas, ainda assim, mais do que
jogo de palavras, porque tais palavras fazem mover gestos e práticas político-burocráticas,
fazer abrir cofres, riscarem-se nomes de listas, promoverem-se cabeças.
Nada, no mundo humano, é meramente jogo de palavras).
Por
que penso que Mueller mede as palavras? Forneço um exemplo. Depois de
sair desse parágrafo em que argumenta ex
catedra quanto ao interesse de “Deus” na “teologia”, Mueller,
agora, declara: “teologia é empreendimento humano” (p. 96). Essa
seria sua fraqueza e sua glória, ele diz. Porque, argumenta, pode-se crer
numa revelação, e, ainda assim, não submeter-se, necessariamente, a
“um conjunto de conteúdos propositivos que se querem espelho da visão
que Deus tem do mundo” (p. 96-97). Sim, isso é fenomenologicamente
verdadeiro, mas isso nada tem a ver com “teologia como ciência”,
porque o teólogo, como cientista, não tem necessidade nenhuma de crer em
revelação alguma, porque sua profissão não se desdobra a partir da
adesão existencial a uma revelação, mas sobre grandezas naturais, históricas
e/ou noológicas – para o teólogo profissional, tanto faz se Deus
existe ou não. Não é sua missão decidir sequer saber. Se,
eventualmente, alguma vez, a idéia passar pela sua cabeça, não será
por meio de rotinas acadêmicas que a formulará. Muito menos, a resolverá.
A “teologia” como ciência não é apenas empreendimento humano, mas
tem de ser empreendimento humano cético. Porque empreendimento humano
toda e qualquer teologia o é – a cristã e a umbandista, ambas,
presente, já, no MEC, mas, nem por isso, necessariamente “científicas”.
Mas, se quer-se científica, faça-se cética. Não se fez? Fez da cátedra,
púlpito, da sala de aula, classe de catecúmenos, da pesquisa, apologia.
Mueller
concorda. Talvez seja mais sutil, enquanto, eu, impaciente. Chega a dizer
que a teologia é essencialmente interpretação (p. 97) – “como
empreendimento humano” e “porque aos humanos não é dado mais do que
interpretar”. Por outro lado, a sutileza de Mueller, das duas uma: ou
deixa pontas soltas, delicadas demais, e perigosas, ou, ao contrário,
representa apenas uma forma mais branda, pseudo-quenósica de
racionalidade. De outro modo, como conciliar, num projeto de estatuto
epistemológico, a declaração de que “crer numa revelação não
significa automaticamente crer num conjunto de conteúdos propositivos
etc.” – o que significa assentar a crença na revelação como
persistindo de uma forma não-coercitiva (não-conteudística?) – com a
declaração de que “a teologia é essencialmente interpretação”? O
que está “escondido” nessa proposta – que eu não consigo pegar
(ou, antes, minha mente me prega peças, e eu vejo sombras onde há,
apenas, retórica escorregadia?). Seja como for, é aqui que Mueller
considera encontrar-se a chave para atravessar o rio que separa a condição
das teologias pré e científica: “compreender o até aqui discutido
significa estar realizando a ‘passagem da dogmática para a hermenêutica’
da qual Geffré falava” (p. 97). O que me dá medo, contudo, porque, no
fundo, pode-se apenas estar labutando no campo político da quebra da
autoridade normativa da “Igreja” (as expressões político-normativas
católica e protestantes), mas, não, o caráter “mítico” da
“verdade” teológica. Eu insisto, contudo – Deus não é objeto da
teologia acadêmica. Se existe(m), se não existe(m), não interessa a nós,
teólogos científico-humanistas – considero ter feito a travessia de
uma teologia metafísico-ontológica (fui fideísta entre fideístas e
esbravejei conteúdos verdadeiros desde púlpitos e praças) para uma
teologia pós-metafísica (e não em sentido vattimoniano, por favor! –,
e julgo-me em condições de exprimir-se nessa condição existencial e
programática –, ainda que, eventualmente, na mística da existência mítico-noológica
humana o(s) contemplemos ludicamente, entre o riso e a lágrima
cotidianas. O que nos interessa – e, eu cuido, deveria ser do interesse
de uma teologia como ciência, logo, pós-metafísica, pós-ontológica
– são os construtos noológicos humanos do tipo “sagrado”, que,
conquanto o homem de fé reconheça como “real” – em sentido ontológico”
– apresenta-se, para nós, tão somente em sua dimensão e condição de
“pensamento”. A teologia como ciência, se for teísta, não é ciência.
Se for ateísta, não é ciência. Tem de ser ignorante. Burra mesmo.
Displicente. Dar de ombros. Não se me dá. Tenho outras urgências,
senhores, que é ver por que meios e com vistas a que fins esses homens
aqui e essas mulheres aqui fabricam para si suas crenças e se esquecem de
que as criaturas são, a rigor, os criadores, que, contudo, fazem-se de
criaturas, para, por meio dos criadores que criaram, criar o mundo – seu
mundo, se estamos diante de uma experiência estética, o de todos, se
diante de uma estratégia política. E eu mesmo, as minhas.
E,
então, Mueller chega à hermenêutica: “interpretação” é um rio
que deságua no mar “hermenêutica”. Postula-se, com cuidado, uma
hermenêutica universal, de caráter filosófico, e chega-se – surpresa?
– a Ricoeur e Vattimo, cujas reflexões são considerados,
explicitamente, “pontos de chegada destes debates” (p. 97). Quanto a
Ricoeur, Mueller diz “deve ser seguido em sua exigência de
completamento do duplo movimento da hermenêutica, da epistemologia à
ontologia e da ontologia de volta à epistemologia, que se reencontra
enriquecida pela reflexão ontológica” (p. 97). De Gadamer, que “deve
ser ouvido com atenção em sua ênfase no ser humano como diálogo” (p.
97-98). Daí, avança para propor uma superação dessa hermenêutica –
que aí se classifica in re – para uma paradigmática in
spe, sugeridas, segundo Mueller, por Adorno e Ernst Bloch (p. 98).
Mueller diz in re da hermenêutica
que opera “ao modo” da “realidade como se apresenta à razão e aos
sentidos”, ao passo que, funcionando “ao modo” in
spe, a hermenêutica desdobrar-se-ia sob a “realidade como se
apresenta a um olhar movido pela esperança” (p. 98).
Trata-se,
até aqui, do momento mais importante de ensaio. Mas eu pediria licença a
Mueller para intrometer-me em seu projeto, como alguém com intenções de
co-partícipe. Sua apresentação de Ricoeur me “balança”, e me
convida a um re-exame da história de minha recepção de sua obra. É a
segunda vez que isso ocorre. A primeira, foi a surpresa que senti quando
li François Dosse tecer favorabilíssimos comentários ao filósofo – e
Dosse não desperdiça pétalas à toa. É uma anotação que me permito
em minha agenda – reler Ricoeur, e, durante a releitura, perguntar-me
por sua epistemologia. Quanto a Gadamer, não faço nenhuma correção à
sua descrição. Não fosse, contudo, sua descrição de Ricoeur – que não
posso contrariar, conquanto me sinta desarmado diante do breve quadro que
você pinta –, eu questionaria a relação de Gadamer com um “modo”
hermenêutico in re (minha
eventual fragilidade em relação à epistemologia de Ricoeur me faz,
igualmente, questionar que também ele opere sua hermenêutica nesse
diapasão, mas esse ponto, não leve em consideração, pela razão que
venho de expor). Com efeito, será a terceira vez que menciono isso nessa
empreitada crítica aos três ensaios da Estudos
Bíblicos – Karl-Otto Apel (A
Transformação de Filosofia) dedica-se a superar justamente o caráter
“não-fundacional” das correntes próprias da filosofia analítica
(Wittgenstein, Rorty) e hermenêutica (Gadamer), pela impossibilidade
epistemológica de tais correntes legitimarem-se internamente. Noutras
palavras, Karl-Otto Apel denuncia o caráter “meramente propositivo”
de tais abordagens, acrescentando que os recortes retóricos em que elas
se desenvolvem recusa toda e qualquer verificação “empírica” de
seus postulados, porque, de um lado, converte-se o “real” em jogo
de palavras e, de outro, em diálogo.
Ambas correntes não podem, sequer, postular como se constroem jogos de
palavras e/ou diálogos – e que eles funcionem tão bem – sem que se
tenha de, necessariamente, considerar uma plataforma reflexa fora dos jogos de palavras e/ou dos diálogos tomados como
fundamento não-fundacional da “realidade”. Essa é uma questão científica
central – as condições de conhecimento e comunicação da espécie
humana, os critérios de verificação desse conhecimento e comunicação
–, e mesmo Apel não logrou alcançar uma solução.
Há
toda uma considerável gama de aproximações científico-humanistas que
ainda recente-se de uma tradição disjuntiva milenar (platônica,
cartesiana) entre “pensamento” e “matéria”. Somente há cerca de
cinqüenta anos – as “ciências cognitivas” têm empreendido esforços
no sentido de superar a disjunção. Há cem anos, assumiu-se – em
termos científicos – que “energia” e “matéria” são intercambiáveis,
o que significa dizer que são expressões sistêmicas, de diferentes níveis,
da mesma realidade. O mesmo se pôde dizer, por meio das “ciências
cognitivas”, da relação entre “pensamento” e matéria”.
Conquanto matéria não possa converte-se em pensamento, o que é,
contudo, verdadeiro para a energia e a matéria, o pensamento constitui
uma emergência material (física,
biológica, animal, cerebral, sináptica, química, elétrica, psíquico),
na condição de “sistema noológico” (Edgar Morin recolheu o termo de
Teilhard Chardin) que “emerge” do sistema cérebro-psíquico humano,
nutre-se (energeticamente, via mitocôndrias e consumo de calorias) dele,
e retroage sobre ele (inclusive organizacionalmente, sob a forma do marco
estrutural das sinapses, histórico-culturalmente formado por meio das
experiências do bebê, da criança, do adolescente, do jovem. Não se
pode mais – nunca mais, Mueller – falar de uma “hermenêutica filosófica”,
porque ela constitui um recorte disjuntivo, neoplatônico, cartesiano,
idealista, ao passo que o pensamento humano é biológico, animal,
cerebral, orgânico, organizacional, histórico, cultural, imaginativo –
tudo ao mesmo tempo. Uma hermenêutica que valha como paradigma para as ciências
será complexa (termo que encerra em si toda a discussão que venho de
fazer, e ainda mais do que ela), ou estará fadada à simplificação.
Sim,
a teologia deve ser, sim, interpretação, como, de resto, toda ciência
é. Penso que aqui está a contribuição mais importante de sua proposta
– a guinada metodológica, tão cara a Nietzsche, ao contrário do que
muito se tem dito. A hermenêutica, portanto, é mesmo o coração, a
alma, o fígado, da teologia – se ela vai ser ciência –, porque é o
é toda e qualquer ciência. Ponto pra você.
Mas
cuidado – na esteira de Gadamer, chega-se a Vattimo, e o real
transforma-se em acordo dialogal – e só. O real, para Vattimo, é a
tradição. Ser ocidental é ser cristão, ele concluirá – como você
chegou a dizer, quando sugeriu que toda teologia que se fizer hoje estará
marcada pela cristã. Gadamer não é bom conselheiro, quando lido
sozinho. A contribuição de Gadamer – somos homens e mulheres de tradição
e de cultura – não pode servir, sozinha, de núcleo referencial para as
ciências. É preciso que as ciências duras e as ciências moles
articulem-se, fecundem-se – mutuamente –, a fim de que o conhecimento
humano seja assumido como “diálogo histórico cultural” sobre e a
respeito de, também, sua própria base material. Você trouxe Gadamer
para sua arena. Com ele, Ricoeur, Adorno, Bloch. É preciso trazer, rápido,
também um Edgar Morin, depois de convencer-se da urgência da tarefa
assumida – e não terminada – por Karl-Otto Apel.
Depois
disso, aí, sim, está na hora de dar, também, a guinada que você
pretende dar à teologia, como distintivo dela – a esperança. Mas veja,
que será de uma esperança baseada em “discursos” e “tradição”,
se não estiver, ela, alicerçada ecologicamente na terra? O risco de uma
utopia ingênua e delirante – no caso de ser não-conteudisticamente
doutrinária – é tão grave quanto o risco de uma utopia escatológica
cristã, se ambas se disfarçarem de “esperança”, e nortearem seu
projeto. Lá, crianças delirantes, brincando de futuro, voluntariosas,
crendo que o mundo, porque a “hermenêutica” constitui tradição e
jogos de palavra, se curva a jogos de palavras e à tradição. A utopia
das crianças quebra-se com os primeiros impulsos sexuais. Guardemos dela
a pureza, a inocência, a criatividade, a curiosidade, a mágica, a magia,
o encanto. A utopia dos adultos dura e é dura, constrói-se à força de
palavras e armas. Guardemos dela o engajamento necessário, a lição de
que, na prática, o mundo é o que nós fazemos dele, e que não há
utopias reais senão aquelas que nós fazemos reais. A utopia dos velhos
é cansada e nostálgica, tranqüila e dialogal. Guardemos dela a consciência
de que o jogo está sempre próximo do fim, que nós passamos, e elas, as
utopias, ficam. Como os Muros de Ediru, que Gilgamesh constrói para,
neles, manter-se vivo, viveremos em nossas utopias, através delas, quando
nos tivermos ido para o caminho de todo homem sobre a terra. O caráter
distintivo da teologia como ciência, Mueller, se for, então, a
“esperança” – a utopia –, que ela seja utopia científico-humanista,
a um só tempo como que de crianças, de adultos e de velhos. Agarrados à
ilusão – ao lúdico! – como as crianças, à terra, como os adultos,
à história, como os velhos.
Fará
bem molhar também essa plantinha com as ciências duras. Gadamer sozinho
não pode cuidar dela, e a esperança de Adorno e Bloch, como haverá de
vingar, se a plantinha sequer tem raiz na terra?
De
“4. Da Teologia como interpretação da realidade
à luz da esperança” (p. 99-102)
Tenho
receios noturnos ao deparar-me com sua quarta e última seção. Você
retorna aí àqueles dois modos hermenêuticos – in
re e in spe. Já tratamos
disso, e já apresentei minhas advertências, na condição, de um lado,
de observador crítico, e, de outro, de colega teólogo. Aqui, contudo,
você caminha para dizê-lo explicitamente – e isso me assusta – que,
diferentemente da filosofia, que interpreta o mundo a partir do próprio
horizonte em que se situa, a teologia, conquanto interprete esse mesmo
mundo da filosofia – e de todas as ciências, você diz, é o mesmo
mundo, sempre, apesar de aqui e ali haver pressões inflacionárias! –,
“seu olhar, porém, enxerga aí o que transcende tal horizonte,
expressando-se dentro dele” (p. 99).
Há
um risco grave rondando seus argumentos, Mueller. Ou os meus. Você
insistirá na distinção in re
e in spe. Dirá, recorrendo a
Lutero – bom conselheiro? – que “o que distingue a teologia da
filosofia (...) é que esta olha para a realidade in
re, ou seja, tal como ela aparece aos nossos sentidos e percepções.
A teologia, por sua vez, olharia para a realidade in
spe, ou seja, tal como ela aparece à luz da esperança” (p. 99). E,
então, você desfere um golpe certeiro em minha esperança: “‘Esperança’
aqui significa, em última análise, a realidade como aparece à luz da
revelação”, que manifesta como a realidade é vista sub
specie aeternitatis, ou, em linguagem mais religiosa, ‘no coração
de Deus’ e portanto como, animada pela revelação e pela esperança, a
teologia quer aprender a percebê-la em nosso cotidiano” (p. 99). Ai.
Achei que podia caminhar na estrada que esse projeto abriria. Nos termos
desse anunciado programático, não posso.
Não
posso mais acompanhar seus argumentos, Mueller, não como um menino
embirrado, mas como um teólogo consciente de que os mitos pessoais,
eventualmente tradicionais, institucionais, não têm lugar na academia.
No mundo, sim. Na cátedra, não.
Tento-me
justificar. A esperança que você desenha, é ideologia. Eu poderia –
estava esforçando-me, Mueller – a acompanhar um projeto utópico de
esperança aberta e humana, demasiado humana. Talvez fosse mesmo um critério
distintivo para a teologia. Mas, ai, você vem falar de “revelação”
e – pior –, falar de “no coração de Deus”! Nem entre aspas,
Mueller, nem como metáfora. Deus está fora. Não pode entrar, nem
poeticamente, porque o diabo tem muitas máscaras, se me entende. Esse
Deus, que você sub-repticiamente introduz à mesa dos comensais é um
demiurgo matreiro. Não pode estar aí. Ele faz da teologia que você
defende uma brincadeira provinciana. Mais do que isso, uma brincadeira de
teístas – e a ciência, a teologia como ciência, não é coisa de teístas.
Como você vai resolver o “problemas” de Deus nessa retórica de
esperança, Mueller, quando um teólogo enxergar Buda, aí, ou Ogum, ou os
sempre mencionados milhões de deuses na Índia, os orixás impessoais do
candomblé, e os personalizados da umbanda, o não-deus de um budismo nirvânico,
e o não-deus dos ateus? O quê? Ateus estão fora dessa teologia? Pois não?
Como poderão interpretar a realidade à luz da esperança, ops, da
“revelação”, aprender com ela,
meu Deus!, se não acreditam nela? Bem se dizia, antes dessa ciência que
você acaba de inventar, Mueller, que só um crente para entender
teologia!
No
fundo, a teologia que você defende só pode ser política. Com boa
vontade, estética. Não há a mínima possibilidade de uma coisa dessas
tornar-se heurística, disciplina científica, que possa, ao mesmo tempo,
ser operada por pretos e brancos, homens e mulheres, ateus e teístas. Ela
já é fruto de uma cosmovisão – a da revelação. Qual? A “minha”
– ir a Lutero é beber no tacho dele! Uma teologia “científica”
desse tipo é um empreendimento retórico pior do que a tentativa de diálogo
inter-religioso, mantendo-se cada deus verdadeiro.
Eu
posso articular uma revelação qualquer – sempre é qualquer, não
importa se eu a considere especial ou única (a alienação que Marx
denunciou permanece na inconsciência cristã de que sua fé é mito – e
você pretende fazer do mito o coração da teologia). Posso ter com um
mundo uma experiência estética a partir dessa identificação dele com
meu mito a respeito dele. Posso considerar que esse mito que eu tenho
sobre o mundo, e com o qual experimento o mundo, foi-me dado por Deus.
Posso tudo isso. Mas tudo isso é puro mito. A validade da experiência
estética que aí se experimenta não é menor do que aquela que se
permite por intermédio de uma pintura ou do nascer do sol, mas é
puramente estética. Não se presta a rotinas programáticas da academia
– conquanto acadêmicos possam entregar-se, não enquanto acadêmicos, a
elas.
Eu
posso assenhorear-me da consciência autônoma de terceiros. Posso
construir aquela mesma interpretação do mundo. Posso dizer que ela é
fruto de “revelação”. Posso fundir tudo numa mística e traduzi-la
em conteúdos doutrinários. Posso fazer disso norma. Disso, pregação.
Disso, verdade. E posso levar muitos a viver nesse mundo que eu inventei
– dizendo-lhes revelado (se eu creio ou não nisso, não faz diferença,
o santo santo e o santo canalha lidam com o mesmo mito, e agem da mesma
forma, não é menor a ilusão que promovem). Isso, contudo, é mito,
instrumentado pela política, com fins políticos. Todas as religiões o
fazem. Que seja. Mas, na academia, defendê-lo? Por favor, Mueller –
retifique sua proposta. Para o bem da teologia acadêmica. Para sua (dela)
sanidade.
Um
risco de eu interpretar equivocadamente o proposta de Mueller reduz-se
sensivelmente quando me deparo com uma afirmação assim: “uma hermenêutica
teológica ao modo da esperança já é sempre uma hermenêutica informada
pela fé e animada pelo amor” (p. 99). Assim, ratificam-se os mil e mil
anos de dogmas: “o intellectus
spei não descarta, mas inclui um intellectus
fidei” (p. 99). Constrangido, de um lado, de o ouvir em plena
proposta elaborada no âmbito do CNPq,
e, de outro, de cuidar necessário explicitar o significado de uma tal
declaração, desenvolvo-a: a esperança,
distinção crítica dessa teologia proposta por Mueller, primeiro,
informa-se na fé (cf. a expressão “a teologia quer aprender a percebê-la
em nosso cotidiano”, p. 99, isto é, aprender a “realidade” à luz
da revelação), para, depois, interpretar a realidade. A fé, ex
catedra, dá a saber ao teólogo na cátedra, a “informação”, na
posse do que o teólogo, movido por essa esperança (a esperança aí
confunde-se com a informação da fé), interpreta a realidade. Talvez
Mueller consiga um formidável grupo de teólogos para carregar essa
bandeira – afinal, ela tem os mesmos elementos da proposta de von Sinner
(um acerto com Zabatiero não seria difícil, porque essa teologia saberia
receber a mais acanhada proposta de uma teologia racional pública, não
científica, quem sabe, até, batendo-lhe carinhosamente no ombro:
“Levanta a cabeça, companheiro, somos todos da mesma família”. De
minha parte, contudo, fico sem chão. Não posso seguir von Sinner, não
quero seguir Vattimo, digo, Zabatiero, e, que pena, achei que era possível,
mas não posso seguir Mueller.
Pois
bem, para não se ter dúvidas – Mueller propõe um terceiro olho para o
teólogo, mesmo esse que ele pretende fazer cientista (Zabatiero ao menos
reconheceu que não há nada de científico nesse teólogo, e se eu não
posso seguir Zabatiero é tão somente porque ele quer manter a teologia
resguardada num envelope de conhecimento, e essa teologia ontológica é
tudo, menos isso). Assim como a teologia de von Sinner, a de Mueller tem
aquele implante pressionando a glândula pineal (refiro-me aqui ao clássico
A Terceira Visão, do monge
tibetano Lobsang Terça-Feira Rampa, que adorava ler na minha adolescência).
Não se duvide: “a teologia (...) pensa e sente tudo desde um olhar que
não tem aí sua origem [a saber, “no horizonte das percepções
humanas”], mas que supõe a presença neste horizonte de algo que, desde
as percepções da filosofia/ciência, lhe é estranho” (p. 100). Essa
distinção entre teologia e filosofia – uma tem olho biológico e outra
tem olho metafísico – arranca de Mueller a seguinte afirmação:
“nesta maneira de ver as coisas, teologia e filosofia/ciência, mesmo
compartilhando do terreno comum, têm cada qual sua especificidade, seu próprio”
(p. 100). O que não significa, absolutamente, o que Mueller pense ou diga
que signifique – que essa diferença de olhar estabelece a distinção
entre elas. Não. A distinção é radical, é eidética, é epistemológica
– e reduz-se a isso: essa teologia de Mueller não é ciência, nem tem
lugar algum à mesa das ciências. Eu, enquanto teólogo, não somente não
a endosso, como a rejeito como proposta epistemológica pertinente e
procedente para satisfazer aquela necessidade de reflexão sobre o
estatuto da teologia com que Mueller abriu o ensaio, e que por uma leitura
inteira e boa parte de uma segunda, quase, quase me enganou. Por isso é
bom – sempre – ler duas vezes.
Conclusão
Com
o que, então, o suspense acaba. A esperança de Mueller é a velha
esperança, que, em termos científico-humanistas, e no que diz respeito
ao concerto das ciências, está morta há duzentos anos. Pode animar espíritos
estéticos e políticos, pode encantar comunidades heterônomas, seduzir,
encantar, enfeitiçar, como o “mito”, em A
República, deve seduzir, enfeitiçar e encantar. A vida é
eventualmente dura e cruel, a dor, muita, a fonte, lancinante – para
isso ajuda esse mito. Mas na academia, não. Na academia ele é veneno e
peçonha. A “esperança” não passa de mito narrativo, cuja condição
para funcionar como esperança, contudo, é não confessar-se mito, é
crer-se Advento, quando, sabemos, é do ventre que sai – inteiro.
Não
é que a esperança não faça parte da vida. Faz. Não é que ela não
possa estar na universidade. Deve. Se o leitor retornar à introdução da
presente série, há de testemunhar que, por um momento, honestamente,
deixei-me enamorar pela proposta de Mueller, crendo, que ingênuo fui!,
que “esperança”, aí, constituiria uma abertura estética e política
em face de um futuro incerto e aberto, do qual nada sabemos, nem podemos
saber. Mas, não – ela era um demiurgo, a velha e encarquilhada teologia
medieval, morta, insepulta, disfarçando-se de palavras amenas, mas lá
vejo seu nariz adunco e sua verruga de bruxa, seu olho mau de vilão. Foi
duro demais tirar essa teologia da vida da gente, e foi grande gesto,
nobilíssimo, deixá-la, ainda, corroer-nos os fundamentos em suas sessõezinhas
de veneno dominical. Mas ela – essa malsã teologia velha, não está
satisfeita com o que tem. Sua missão é ganhar o mundo – e ela achou um
jeito de infiltrar-se. A cátedra. Ah, só falta, agora, a Presidência da
República, e terrores noturnos hão de me assaltar. Como não? Se os
profissionais de teologia podem fazer seu louvor da defunta agourenta,
eles, que deviam ser rigorosos, que deviam ter aprendido alguma coisa –
qual nada, não aprendemos foi é nada! – imagine-se um “missionário”
da “revelação” sentado, de novo, no trono de Pedro (entenda-se a metáfora,
falo de um eventual presidente da República achacado dessa febre crente)!
Deus nos livre!
Deus,
contudo, parece ser um voyeur. O que ele pensa do que vê, não faço a mínima
idéia – mas torna-se cada dia mais difícil imaginá-lo como alguma
coisa além disso: ou sofre conosco, ou debocha de nós, ou tem coisas
mais importantes com que se ocupar.
Niilista,
eu? Não, não. Acredito na vida. Não acredito é nesses mitos políticos
que inventamos para com eles não apenas dormir de noite, mas movermos a
roda da fortuna. O que não posso mais é jogar esse jogo. Como bem me
classificou Johan Huizinga, sem, contudo, nunca ter me visto – não
posso trapacear. E, como não posso jogar o jogo, resta-me o destino dos
desmancha-prazeres.
Game
over.
Retornar
para: Três
pronunciamentos acerca do estatuto epistemológico da teologia - I
Retornar
para: Três
pronunciamentos acerca do estatuto epistemológico da teologia - II
Notas
Entrevista de Jérôme H.
Barkow a François Dosse, em François DOSSE, Império
do Sentido, Bauru: EDUSC, 2003, p. 265.
Cf. Nietzsche, Ecce Homo –
como cheguei a ser o que sou. 4 ed. São Paulo: Edições e
Publicações Brasil, s/d, p. 117.
Mueller, se forem apertados contra a parede, os teólogos clássicos
acabam, todos, confessando-o, inclusive, no discurso. Não exigir a
confissão, e articularem-se diálogos – na academia, inclusive!, na
CAPES! – sem a profissão de fé científico-humanista ou humanístico-científica
explícita é do que mais deselegante se faz na teologia, hoje. Vejo
homens e mulheres de fé, crentes na sua “verdade” como
“verdade”, articulando discursos cripto-racionalizado(s/res), na
forma de pseudo-racionalidades retóricas. Vejo a(s) “Igreja(s)”
invadirem as salas de aula, hipostasiadas de cima para baixo na boca
de “crentes”, cujo pecado não é ser crente, mas é fazer-se de
acadêmico, ainda sendo, no fundo, crente, e querendo a academia também
crente. Fazer-se judeu, para os judeus, grego, para os gregos, acadêmico,
para os acadêmicos – para capturar todos. Não sei quanto a você,
Mueller, meu colega – mas, quanto a mim, estou profundamente cansado
desse “circo”.
Lê-se a seguinte nota: “Dr. Enio R. Mueller é professor e
pesquisador na Faculdade EST, em São Leopoldo, RS. Este texto é uma
síntese de um projeto de pesquisa em andamento (EST/CNPq)” (p. 88).
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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