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Projeto
CIRET-UNESCO
Evolução transdisciplinar da Universidade
1997
(síntese
do documento)
I
- Introdução
O
presente projeto estratégico transversal Evolução
transdisciplinar da Universidade é
elaborado pelo Centro Internacional de Pesquisas
e Estudos Transdisciplinares (CIRET), em
colaboração com a UNESCO (contrato inscrito no
programa 28 C5 da UNESCO). Ele consiste em uma síntese
do documento e em várias contribuições
escritas pelos membros do CIRET (ver Anexo
). Este projeto é apresentado como documento de
trabalho para o congresso internacional Que
Universidade para o amanhã? Em busca de uma
evolução transdisciplinar da Universidade (Locarno,
Suíça, de 30 de abril a 02 de maio de 1997),
subsidiado pela UNESCO e pelo governo do Tessin
e organizado pelo CIRET, em colaboração com a
Associação Internacional para o Vídeo nas
Artes e na Cultura (AIVAC).
Durante
todo o tempo de sua elaboração, o projeto foi
dirigido por Madeleine Gobeil, Diretora da Divisão
de Artes e da Vida Cultural da UNESCO
(atualmente consultora do Diretor Geral da
UNESCO) e por Basarab Nicolescu, Presidente do
CIRET. Na primeira fase de elaboração do
projeto (outubro de 1995 - setembro de 1996),
foi constituído um grupo de direção. Eis a
composição desse grupo:
Coordenadores:
Madeleine Gobeil (UNESCO), Basarab Nicolescu (CIRET);
Membros: René Berger, professor honorário da
Universidade de Lausane, presidente de honra da
Associação Internacional dos Críticos de Arte
e da AIVAC; André Bouriguignon, professor honorário
de psiquiatria da Faculdade de Medicina de Créteil,
co-diretor da publicação das obras completas
de Freud em francês; Michel Camus,
vice-presidente do Comitê de Iniciativa do
Instituto Internacional para a Ópera e a Poesia
de Verona, escritor, filósofo, diretor da
Editora "Letras Vivas",
produtor-delegado na França-Cultura; Ubiratan
d'Ambrosio, matemático, professor emérito da
Universidade de Campinas, membro da Academia de
Ciências de São Paulo; Giuseppe Del Re, químico
teórico e epistemólogo, professor da
Universidade de Nápoles; Marco António Dias,
diretor da Divisão de Educação Superior da
UNESCO; Pablo Gonzalez Casanova, ex-reitor da
Universidade Nacional Autônoma do México,
diretor do Centro de Estudos de Ciências
Humanas; Pierre Karli, Neurobiologista de
comportamentos, professor emérito da
Universidade de Estrasburgo, membro da Academia
de Ciências; Jacques Lafait, físico, diretor
de pesquisas no CNRS, Universidade Pierre e
Marie Curie, Paris; Christine Meddeb, escritora
tunisiana, professora da Universidade de
Nanterre, diretora da revista "Dedale";
Edgar Morin, filósofo e sociólogo, diretor de
pesquisas no CNRS; René Passet, economista,
professor da Universidade de Paris I (Panteão-Sorbone);
Philippe Quéau, diretor da Divisão de Informação
e Informática da UNESCO; Andreù Sole,
especialista em circunspeção, professor do
Grupo Autos Estudos Comerciais (HEC).
Ainda
na primeira fase da elaboração do projeto, uma
jornada de estudo foi organizada pelo CIRET para
a UNESCO em 29 de março de 1996, tendo como
tema principal a evolução transdisciplinar da
Universidade.
II
- Finalidade do projeto
Na
elaboração do projeto, o CIRET teve como
cuidado principal evitar qualquer duplo emprego
no que diz respeito à grande quantidade de
projetos, congressos e colóquios que ocorrem e
ocorrerão sobre a educação, afirmando sua
originalidade: fazer o pensamento complexo e
transdisciplinar penetrar nas estruturas, nos
programas e na irradiação da Universidade do
amanhã. Assim, este projeto se posiciona
como o complemento transdisciplinar do Relatório
Delors
, elaborado pela Comissão
Internacional Sobre a Educação Para o Século
XXI junto à UNESCO. O projeto será
apresentado, sob uma forma ou outra, na conferência
Mundial sobre o Ensino Superior de 1998,
organizado por iniciativa da UNESCO.
O
objetivo do projeto CIRET-UNESCO a curto prazo
é fazer com que a Universidade evolua para a
sua missão, hoje esquecida, de estudo do
universal , em nosso mundo caracterizado por
uma complexidade que cresce de maneira
incessante. O pensamento estilhaçado é
incompatível com a busca da paz na Terra. A idéia
central do projeto é a de que há uma relação
direta e não contornável entre paz e
transdisciplinaridade .
Um
outro objetivo do projeto CIRET-UNESCO é
convencer, também a curto prazo, alguns
reitores de universidades do mundo a aplicar as
nossas proposições em caráter experimental,
considerando a Universidade não apenas como um
lugar de aprendizado de conhecimentos, mas também
como um lugar de cultura, de arte, de
espiritualidade e de vida. Nesse sentido, o
projeto optou por ter um andamento
experimental . No mesmo espírito, temos a
intenção de propor este projeto aos "décideurs"
- aos que têm o poder de decisão - do mundo
inteiro nas diferentes áreas da educação, da
política, da economia, da ciência, da arte, da
religião e da ação social, sob forma de um
livro, elaborado depois do Congresso de Locarno.
III
- Pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e
transdisciplinaridade - distinções necessárias
O
crescimento sem precedentes dos saberes em nossa
época torna legítima a questão da adaptação
das mentalidades a esses saberes. O desafio é
de grande porte, pois a contínua expansão da
civilização de tipo ocidental para todo o
planeta tornaria sua queda equivalente a uma catástrofe
planetária de proporções muito maiores do que
as das duas primeiras guerras mundiais.
A
harmonia entre as mentalidades e os saberes
pressupõe que esses saberes sejam inteligíveis,
compreensíveis. Porém, na era do Big-Bang
disciplinar e da especialização sem limites
ainda pode haver compreensão?
Um
Pico de la Mirandola é inconcebível em nosso
tempo. Hoje, dois especialistas da mesma
disciplina encontram dificuldade para
compreender seus próprios resultados recíprocos.
Isso nada tem de monstruoso, na medida em que é
a inteligência coletiva da comunidade ligada a
essa disciplina que a faz progredir e não um único
cérebro que teria forçosamente de conhecer
todos os resultados de todos os seus colegas-cérebros,
o que é impossível, pois hoje há centenas de
disciplinas. Como um físico teórico de partículas
poderia dialogar verdadeiramente, e não sobre
generalidades mais ou menos banais, com um
neurofisiologista; um matemático com um poeta;
um biólogo com um economista; um político com
um especialista em informática? E, no entanto,
um verdadeiro homem de ação - um " décideur"
- deveria poder dialogar com todos ao mesmo
tempo. A linguagem disciplinar é uma barreira
aparentemente intransponível para um neófito,
e todos nós somos neófitos em relação aos
outros. Então a Torre de Babel é inevitável?
Esse
processo de "babelização" não pode
continuar, sem colocar em perigo nossa própria
existência, pois ele faz com que um " décideur"
se torne cada vez mais incompetente, apesar
de ser o detentor da decisão. Os maiores
desafios da nossa época, como por exemplo, os
desafios de ordem ética, clamam cada vez mais
por competências. No entanto, a soma dos
melhores especialistas em suas respectivas áreas
só pode engendrar uma incompetência
generalizada, pois a soma de competências não
é a competência: no plano técnico. A interseção
entre os diferentes campos do saber é um
conjunto vazio. Ora, o que é um " décideur"
, individual ou coletivo, senão aquele que é
capaz de levar em conta todos os dados do
problema que ele examina?
A
necessidade indispensável de vínculos entre as
diferentes disciplinas se traduz pelo
surgimento, na metade do século XX, da
pluridisciplinaridade e da
interdisciplinaridade.
A
pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de
um objeto de uma única disciplina por diversas
disciplinas ao mesmo tempo
. Por exemplo, um
quadro de Giotto pode ser estudado pelo enfoque
da história da arte cruzado com o da física,
da química, da história das religiões, da
história da Europa e da geometria. Ou a
filosofia marxista pode ser estudada pelo
enfoque da filosofia entrecruzada com a física,
a economia, a psicanálise ou a literatura. O
objeto em questão sairá, assim, enriquecido
pelo cruzamento de várias disciplinas. O
conhecimento do objeto em sua própria
disciplina é aprofundado por um fecundo aporte
pluridisciplinar. A pesquisa pluridisciplinar
enriquece a disciplina em questão (a história
da arte ou a filosofia, em nossos exemplos), porém
esse enriquecimento está a serviço apenas
dessa disciplina. Em outras palavras, a
abordagem pluridisciplinar ultrapassa as
disciplinas, mas sua finalidade permanece
inscrita no quadro da pesquisa disciplinar .
A
interdisciplinaridade
tem uma ambição
diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela
diz respeito à transferência dos metodos de
uma disciplina à outra . É possível
distinguir três graus de interdisciplinaridade:
a)
um grau de aplicação . Por exemplo,
os métodos da física nuclear transferidos à
medicina conduzem à aparição de novos
tratamentos de câncer;
b)
um grau epistemológico . Por exemplo,
a transferência dos métodos da lógica
formal ao campo do direito gera análises
interessantes na epistemologia do direito;
c)
um grau de geração de novas disciplinas
. Por exemplo, a transferência dos métodos
da matemática ao campo da física gerou a física-matemática;
da física de partículas à astrofísica, a
cosmologia-quântica; da matématica aos fenômenos
metereológicos ou aos da bolsa, a teoria do
caos; da informática à arte, a arte-informática.
Como a pluridisciplinaridade, a
interdisciplinaridade ultrapassa as
disciplinas, mas sua finalidade também
permanece inscrita na pesquisa disciplinar
. Seu terceiro grau inclusive contribui para o
big-bang disciplinar.
A
transdisciplinaridade,
como o prefixo "trans" o indica, diz
respeito ao que está ao mesmo tempo entre as
disciplinas, através das diferentes disciplinas
e além de toda disciplina. Sua finalidade é a
compreensão do mundo atual, e um dos
imperativos para isso é a unidade do
conhecimento.
Há
algo entre, através e além das disciplinas? Do
ponto de vista do pensamento clássico, não há
nada, absolutamente nada. O espaço em questão
é vazio, completamente vazio, como o vazio da física
clássica. Mesmo quando se renuncia à visão
piramidal do conhecimento, o pensamento clássico
considera que cada fragmento da pirâmide,
engendrado pelo big-bang disciplinar, é uma pirâmide
inteira; cada disciplina afirma que o campo de
sua pertinência é inesgotável. Para o
pensamento clássico, a transdisciplinaridade é
um absurdo, pois ela não tem objeto. Por outro
lado, para a transdisciplinaridade o pensamento
clássico não é absurdo, mas seu campo de
aplicação é tido como restrito.
Diante
de diversos níveis de realidade, o espaço
entre e além das disciplinas é cheio, como o
vazio quântico é cheio de todas as
potencialidades: da partícula quântica às galáxias,
do quark aos elementos pesados, que condicionam
a aparição da vida no universo.
Os
três pilares da transdisciplinaridade: os níveis
de Realidade, a lógica do terceiro termo
incluso e a complexidade determinam a
metodologia da pesquisa transdisciplinar.
A
estrutura descontínua dos níveis de Realidade
determina a estrutura do espaço
transdisciplinar, que, por sua vez, explica por
que a pesquisa transidisciplinar é radicalmente
distinta da pesquisa disciplinar, embora sendo
complementar a ela. A pesquisa disciplinar
diz respeito, no máximo, a um único nível de
Realidade . Na maioria dos casos, ela só
diz respeito a fragmentos de um só nível de
Realidade. Por outro lado, a
transdisciplinaridade interessa-se pela dinâmica
gerada pela ação de diversos níveis de
Realidade ao mesmo tempo. A descoberta dessa dinâmica
passa necessariamente pelo conhecimento
disciplinar. A transdisciplinaridade, embora não
sendo uma nova disciplina ou uma nova
hiperdisciplina, alimenta-se da pesquisa
disciplinar, que, por sua vez, é clareada de
uma maneira nova e fecunda pelo conhecimento
transdisciplinar. Nesse sentido, as pesquisas
disciplinares e transdisciplinares não são
antagônicas, mas complementares.
Como
no caso da disciplinaridade, a pesquisa
transdisciplinar não é antagônica, mas
complementar da pesquisa pluri e
interdisciplinar. A transdisciplinaridade, no
entanto, é radicalmente distinta da
pluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade
quanto a sua finalidade, pois a compreensão do
mundo atual não pode ser inscrita na pesquisa
disciplinar. A finalidade da pluri e da
interdisciplinaridade é sempre a pesquisa
disciplinar. Se a transdisciplinaridade é freqüentemente
confundida com a interdisciplinaridade e com a
pluridisciplinaridade (como, aliás, a
interdisciplinaridade é freqüentemente
confundida com a pluridisciplinaridade), isso se
explica em grande parte pelo fato de que todas
as três ultrapassam as disciplinas. Essa confusão
é muito nociva, na medida em que ela oculta as
diferentes finalidades dessas três novas
abordagens.
Embora
reconhecendo o caráter radicalmente distinto da
transdisciplinaridade com relação à
disciplinaridade, à pluridisciplinaridade e à
interdisciplinaridade, seria muito perigoso
considerar essa distinção como absoluta, pois
com isso a transdisciplinaridade seria esvaziada
de todo o seu conteúdo e a eficácia de sua ação
seria reduzida a nada.
A
disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a
interdisciplinaridade e a transdisciplinariade são
as quatro flechas de um único arco: o do
conhecimento.
Se
a pluridisciplinaridade e a
interdisciplinaridade entraram timidamente em
certas universidades, sobretudo a partir de
1950, a transdisciplinaridade, por sua vez, está
ausente das estruturas e programas da
Universidade, salvo em algumas exceções notáveis.
Apesar de sua irrupção no mundo universitário,
as experiências pluridisciplinares e
interdisciplinares não são consideradas em
geral como muito convincentes. Os poucos
departamentos pluridisciplinares e
interdisciplinares criados em várias
universidades, especialmente nos EUA,
conduziram, na maioria dos casos, a uma simples
justaposição passiva, não interativa, dos
professores ou dos estudantes. Sob o ponto de
vista desenvolvido no presente projeto, esse
impasse parcial é compreensível: é justamente
a transdisciplinaridade a condição sine qua
non de uma interação fecunda e duradoura
entre a disciplinaridade, a
pluridisciplinaridade e a interdisciplinaridade.
Sua ausência equivale à ausência de orientação
, à falta de direção das abordagens que
ultrapassam as fronteiras disciplinares. Essa
orientação está claramente explicitada na Carta
da Transdisciplinaridade,
adotada no Primeiro Congresso Mundial da
Transdisciplinaridade, ocorrido no Convento de
Arrábida, em Portugal, de 02 a 06 de novembro
de 1994 (ver Anexos).
IV
- Pontos de referência da evolução
transdisciplinar da educação
O
surgimento de uma cultura transdisciplinar, que
poderia contribuir para eliminar as tensões que
ameaçam a vida em nosso planeta, é impossível
sem um novo tipo de educação que leve em conta
todas as dimensões do ser humano.
As
diferentes tensões econômicas, culturais,
espirituais, são inevitavelmente perpetuadas e
aprofundadas por um sistema de educação
fundado em valores de outro século, em
descompasso acelerado com as mudanças contemporâneas.
A guerra larvária entre as economias, as
culturas e as civilizações não deixa de
conduzir à guerra fria aqui e acolá. No fundo,
toda a nossa vida individual e social é
estruturada pela educação.
Apesar
da enorme diferença entre os sistemas de educação
de um país para outro, a mundialização dos
desafios da nossa época leva à mundialização
dos problemas da educação. Os abalos que
sacodem o campo da educação em um ou outro país
são apenas os sintomas da fissura entre os
valores e as realidades de uma vida planetária
em mutação. Se não há, por certo, nenhuma
receita milagrosa, há, no entanto, um centro
comum de interrogação que convém não
ocultar se desejamos verdadeiramente viver em um
mundo mais harmonioso.
O
Relatório
Delors
elaborado pela Comissão
Internacional Sobre a Educação para o Século
XXI, ligada à UNESCO e presidida por Jacques
Delors, ressalta nitidamente os quatro pilares
de um novo tipo de educação: aprender a
conhecer, aprender a fazer, aprender a viver
junto e aprender a ser.
Nesse
contexto, a abordagem transdisciplinar pode dar
uma importante contribuição para o surgimento
desse novo tipo de educação.
Aprender
a conhecer significa antes de mais nada o
aprendizado dos métodos que nos ajudam a
distinguir o que é real do que é ilusório e
ter assim acesso aos fabulosos saberes de nossa
época. Nesse contexto, o espírito científico
, uma das mais altas aquisições da aventura
humana, é indispensável. A iniciação precoce
na ciência é salutar, pois ela dá acesso,
desde o início da vida humana, à inesgotável
riqueza do espírito científico, fundado no
questionamento, na não-aceitação de qualquer
resposta pré-fabricada e de qualquer certeza
que esteja em contradição com os fatos. No
entanto, espírito científico não quer dizer
um aumento desmesurado do ensino de matérias
científicas e a construção de um mundo
interior fundado na abstração e na formalização.
Um tal excesso, infelizmente corrente, só
poderia conduzir ao extremo oposto do espírito
científico: as respostas prontas de antigamente
seriam substituídas por outras respostas
prontas (que por sua vez, ganhariam uma espécie
de brilho "científico") e, afinal de
contas, um dogmatismo seria substituído por
outro. Não é pela assimilação de uma enorme
massa de conhecimentos científicos que se tem
acesso ao espírito científico, mas pela
qualidade do que é ensinado. E
"qualidade" quer dizer fazer com que a
criança, o adolescente ou o adulto penetrem no
próprio coração da abordagem científica, que
é o permanente questionamento relacionado com a
resistência dos fatos, das imagens, das
representações e das formalizações.
Aprender
a conhecer também quer dizer ser capaz de
estabelecer pontes entre os diferentes saberes,
entre esses saberes e suas significações na
nossa vida cotidiana, entre esses saberes e
significados e nossas capacidades interiores. A
abordagem transdisciplinar será o complemento
indispensável da abordagem disciplinar, pois
ela conduzirá a um ser continuamente
unificado , capaz de adaptar-se às exigências
mutáveis da vida profissional e dotado de uma
grande flexibilidade, embora permanecendo sempre
orientado para a atualização de suas
potencialidades interiores.
Aprender
a fazer significa, certamente, a aquisição de
uma profissão, bem como dos conhecimentos e das
práticas associadas a ela. A aquisição de uma
profissão passa necessariamente por uma
especialização.
No
entanto, em nosso mundo em ebulição, no qual o
terremoto "informática" é anunciador
de outros terremotos futuros, fixar-se por toda
a vida em uma única profissão pode ser
perigoso, pois corre-se o risco da condução do
ser humano ao desemprego, à exclusão, ao
sofrimento desintegrador do ser. A especialização
excessiva e precoce deve ser banida em um mundo
que vive transformações muito rápidas. Quando
se quer verdadeiramente conciliar a exigência
da competição e a preocupação com a
igualdade de oportunidades para todos os seres
humanos, qualquer profissão no futuro deveria
ser uma profissão a ser tecida , uma
profissão que estaria ligada, no interior do
ser humano, com os fios de outras profissãos.
É evidente que não se trata de aprender
diversas profissões ao mesmo tempo, mas de
edificar interiormente um núcleo flexível
capaz de permitir um rápido acesso a outra
profissão.
Nesse
caso, a abordagem transdisciplinar também pode
ser preciosa. Afinal de contas, "aprender a
fazer" é um aprendizado da criatividade.
"Fazer" também significa criar algo
novo, trazer à luz as próprias potencialidades
criativas. É esse aspecto do "fazer",
que é o contrário do tédio sentido,
infelizmente, por tantos seres humanos, que são
obrigados, para suprir as suas necessidades, a
exercer uma profissão que não está em
conformidade com suas predisposições
interiores. "Igualdade de
oportunidades" também quer dizer realização
de potencialidades criativas diferentes das
dos outros seres humanos.
"Competição"
também pode significar harmonia das
atividades criadoras no seio de uma única
coletividade. O tédio, causador da violência,
do conflito, da desordem, da abdicação moral e
social, pode ser substituído pela alegria da
realização pessoal, qualquer que seja o lugar
em que essa realização se dê, pois para
cada pessoa, a cada momento, esse lugar só pode
ser único.
Edificar
uma verdadeira pessoa também quer dizer
assegurar-lhe condições máximas de realização
de suas potencialidades criadoras. A hierarquia
social, tão freqüentemente arbitrária e
artificial, poderia ser assim substituída pela cooperação
dos níveis estruturados , em função da criatividade
pessoal . Esses níveis serão níveis de
ser e não níveis impostos por uma competição
que não leva de modo algum em conta a essência
do homem. A abordagem transdisciplinar está
fundamentada no equilíbrio entre o homem
exterior e o homem interior. Sem esse equilíbrio,
"fazer" não significa nada mais do
que "sofrer a ação",
"submeter-se".
Aprender
a viver junto significa, em primeiro lugar,
respeitar as normas que regulamentam as relações
entre os seres que compõem uma coletividade.
Porém, essas normas devem ser verdadeiramente
compreendidas, admitidas interiormente por cada
ser e não sofridas como imposições
exteriores. "Viver junto" não quer
dizer simplesmente tolerar o outro com suas
diferenças de opinião, de cor de pele e de
crenças; submeter-se às exigências dos
poderosos; navegar entre os meandros de incontáveis
conflitos; separar definitivamente a vida
interior da vida exterior; fingir escutar o
outro embora permanecendo convencido da justeza
absoluta das próprias posições; assim,
"viver junto" transforma-se
inevitavelmente em seu contrário: lutar uns
contra os outros.
A
atitude transcultural, transreligiosa, transpolítica
e transnacional pode ser aprendida. Ela é inata
na medida em que há em cada ser um núcleo
sagrado, intangível. No entanto, essa atitude
inata é apenas potencial e pode permanecer para
sempre não atualizada, permanecer ausente na
vida e na ação. Para que as normas de uma
coletividade sejam respeitadas, devem ser
validadas pela experiência interior de cada
ser.
Há
um aspecto capital da evolução
transdisciplinar da educação: reconhecer a
si mesmo na face do outro . Trata-se de um
aprendizado permanente, que deve começar na
mais tenra infância e continuar por toda a
vida. A atitude transcultural, transreligiosa,
transpolítica e transnacional permitir-nos-á,
então, aprofundar mais a nossa própria
cultura, defender melhor nossos interesses
nacionais, respeitar mais nossas próprias
convicções religiosas ou políticas. A unidade
aberta e a pluralidade complexa, como em todos
os outros campos da Natureza e do conhecimento,
não são antagônicas.
Aprender
a ser parece, a princípio, um enigma insondável.
Sabemos que existimos, mas como aprender a ser?
Podemos começar aprendendo que a palavra
"existir" quer dizer, para nós,
descobrir os nossos condicionamentos, descobrir
a harmonia ou a desarmonia entre nossa vida
individual e social, sondar as fundações de
nossas convicções para descobrir o que está
por baixo delas. Em uma edificação, a etapa da
escavação precede a das fundações. Para
fundamentar o ser, é preciso antes escavar as
nossas incertezas, as nossas crenças, os nossos
condicionamentos. Questionar, questionar sempre.
O espírito científico também é para nós um
precioso guia. Isso é aprendido tanto pelos
educadores como pelos educandos.
É
evidente que os diferentes lugares e as
diferentes idades da vida pedem métodos
transdisciplinares extremamente diversificados.
Mesmo que a educação transdisciplinar seja um
processo global e de grande fôlego, é
importante encontrar e criar lugares que poderão
iniciar esse processo e assegurar seu
desenvolvimento.
A
Universidade é o lugar privilegiado para uma
formação apropriada às exigências de nosso
tempo; além disso, é o pivô da educação
destinada às crianças e aos adolecentes. A
Universidade poderá, portanto, tornar-se o
lugar ideal para o aprendizado da atitude
transcultural, transreligiosa, transpolítica e
transnacional, para o diálogo entre a arte e a
ciência, eixo da reunificação entre a cultura
científica e a cultura artística. A
Universidade renovada será o lugar de um novo
tipo de humanismo.
V
- Mudar de sistema de referência
Diante
da imensa diversidade dos problemas com que são
confrontadas as universidades em diferentes países,
seria presunçoso tentar estabelecer um catálogo
de receitas, inevitavelmente ilusórias e
inoperantes. Além do mais, a própria noção
de receita é contrária ao espírito
transdisciplinar.
Com
efeito, na medida em que a transdisciplinaridade
corresponde a um novo modo de conhecimento, não
redutível ao conhecimento disciplinar, gera uma
nova teoria e uma nova prática da decisão. Na
abordagem transdisciplinar, não há mais condições
iniciais bem definidas do problema a resolver.
Mais precisamente, conseqüência imediata da
complexidade intrínseca do mundo em que
vivemos, essas condições "iniciais"
mudam continuamente. Em nossa vida universitária,
deparamo-nos com isso todos os dias e, no
entanto, ainda não perdemos a ilusão de uma
"reforma", de um milagre capaz de
eliminar todos os males que atingem as
universidades. Se as condições iniciais dos
diferentes problemas mudarem incessantemente e
se uma reforma milagrosa for simplesmente impossível,
estamos, então, condenados a assistir,
impotentes, à decadência progressiva, mas
certa das universidades? A resposta será
certamente "não", se aceitarmos mudar
de sistema de referência , isto é:
1.
considerar cada problema não mais a partir de
um único nível de Realidade, mas situando-o
simultaneamente no campo de vários níveis de
Realidade;
2.
não mais esperar encontrar a solução de um
problema nos termos de "verdadeiro"
ou "falso" da lógica binária, mas
recorrer a novas lógicas, particularmente à
lógica do terceiro termo incluso: a solução
de um problema só pode ser encontrada pela conciliação
temporária dos contraditórios ,
ligando-os a um nível de Realidade diferente
daquele no qual esses contraditórios se
manifestam;
3.
reconhecer a complexidade intrínseca do
problema, isto é, a impossibilidade da
decomposição desse problema em partes
simples, fundamentais. Na ausência de
fundamentos, ausência que caracteriza o mundo
atual, "mudar de sistema de referência"
também quer dizer tomar como fundamento
precisamente a ausência de fundamentos. Em
outras palavras, substituir a noção de
"fundamento" pela coerência deste
mundo multidimensional e multireferencial.
A
consideração simultânea desses três pilares
metodológicos da transdisciplinaridade em cada
ato da nossa vida universitária pode parecer de
uma extrema exigência e, portanto, irrealizável.
Além disso, ela pode desencadear todo tipo de
fantasmas e de medos: o apagamento de territórios
disciplinares, a dissolução do local na
globalidade, a aniquilação da eficácia em um
mundo em que a competitividade reina soberana
etc. Por isso, essa metodologia só deve ser
aplicada gradualmente, de maneira pragmática,
com grande prudência e rigor, tomando como
finalidade imediata a formação de
formadores . Com efeito, a inexistência de
educadores animados de por uma atitude
transdisciplinar faz com que não possa haver
evolução transdisciplinar e nem mesmo evolução
da Universidade.
Apesar
das dificuldades metodológicas que acabamos de
salientar, é possível, no entanto, identificar
os eixos da evolução transdisciplinar da
Universidade:
1.
Educação intercultural e transcultural,
visando a edificar o fundamento da paz e da
compreensão internacional e transnacional.
2.
Considerar o diálogo arte/ciência como um
dos maiores eixos da nova educação, visando
à reunificação das duas culturas
artificialmente antagônicas: a cultura científica
e a cultura artística, pela sua ultrapassagem
mediante uma nova cultura multidimensional,
condição prévia para uma transformação
das mentalidades.
3.
Integração da revolução informática na
educação universitária.
4.
Educação inter-religiosa e transreligiosa,
tendo em vista o ensino do conhecer e do
apreciar a especificidade das tradições
religiosas e não-religiosas que nos são
estranhas, para perceber melhor as
estruturas comuns que as fundamentam, para
chegar, assim, a uma visão transreligiosa do
mundo . Esse eixo concerne não só aos
crentes e aos ateus, como também aos agnósticos.
5.
Educação transdisciplinar, tendo em vista
alcançar a flexibilidade da formação dos
jovens e a abertura de espírito , em
um mundo em que estão presentes a exclusão,
a não-realização das aspirações dos
jovens, a desigualdade de oportunidades de
auto-realização e a ruptura entre a vida
individual e a vida social.
6.
Educação transpolítica tendo em vista o
respeito dos interesses dos estados e das nações
em um mundo caracterizado por uma globalização
cada vez maior.
7.
Tomar as medidas institucionais concretas em
vista de uma transdisciplinaridade vivida na
relação entre educadores e educandos.
Outra
dificuldade surge com isso, pois é evidente que
há uma forte correlação entre todos esses
eixos, uma interdependência, um condicionamento
recíproco.
Essa
dificuldade também pode ser vencida, se
mudarmos de sistema de referência, isto é, se
identificarmos a mutação contemporânea do
espaço e do tempo em que vivemos e, portanto,
das relações de causalidade que regem nossa
vida e nossas ações.
O
espaço territorial de antigamente foi substituído
pelo espaço informal, de natureza quântica e
planetária. O tempo local de antigamente, por
sua vez, foi substituído por um tempo mundial,
cada vez mais estudado pelos sociólogos e filósofos,
tempo esse que está ligado ao mesmo tempo à
natureza e ao imaginário e que determina o
encadeamento de fenômenos aparentemente
desconectados. O espaço informal e o tempo
mundial podem ser unificados pela visão
transdisciplinar. Esse espaço-tempo
transdisciplinar está ligado a um novo tipo de
causalidade que transcende o local e o global,
unificando-os em um outro nível de realidade.
Compreende-se assim por que qualquer solução
local, específica a um ou outro país, que não
leve em conta a dimensão planetária, está
destinada de saída ao impasse. Uma verdadeira
evolução da Universidade requer a recusa de se
deixar encerrar na oposição binária
mundialização/fechar-se em si. No fundo, a
Universidade de hoje pode reencontrar sua dimensão
universal (na ausência da qual
"Universidade" não passaria de um
nome abusivo e enganador) se souber pôr em
movimento a dinâmica transdisciplinar da
unidade na diversidade e da diversidade pela
unidade, recusando seja o extremismo de um
pragmatísmo auto-destrutor, seja o extremismo
de uma utopia sem eficácia alguma.
Enfim,
uma última dificuldade que queremos sublinhar
nessa revisão metodológica está ligada à própria
natureza deste documento. Enquanto documento
sobre a evolução transdisciplinar da
Universidade, ele mesmo deve ser
transdisciplinar em sua estrutura e seu conteúdo
e propor que o leitor tenha ele próprio uma
atitude transdisciplinar. Em outras palavras,
este documento pressupõe um acordo prévio
sobre a linguagem utilizada, condição que não
pode ser cumprida automaticamente, pois ela pede
uma mudança de sistema de referencia na própria
linguagem. Esta última dificuldade pode ser
ultrapassada pela consulta dos Anexos
ao presente documento e da bibliografia que está
incluída neles.
VI
- Em busca de uma evolução transdisciplinar da
Universidade
A
evolução transdisciplinar da Universidade é
um processo de grande fôlego e, conseqüentemente,
para não destruir o imenso potencial dessa
evolução, é desejável e mesmo necessário
começar com pequenos passos, levando em conta,
a cada instante, a sua finalidade. Neste capítulo,
iremos esboçar algumas propostas, que se
encontram desenvolvidas nas contribuições ao
presente documento (ver Anexos):
1.
Criação de ateliês de pesquisa
transdisciplinar (ART) nas universidades
Como
a transdisciplinaridade não é uma nova
disciplina, não se trata de criar novas
cadeiras "transdisciplinares". Por
outro lado, é muito desejável criar, em
algumas universidades pilotos, verdadeiros pólos
de excelência: ateliês de pesquisa
transdisciplinar . Esses ateliês terão
como missão fazer eclodir o espírito
transdisciplinar através de propostas concretas
sobre a coordenação transversal de programas e
as medidas institucionais internas a serem
tomadas a fim de favorecer a interação
transdisciplinar entre os educadores e os
educandos. Os ateliês assumirão o papel de um
verdadeiro terceiro termo entre os
educadores e os educandos. Na ausência de um
verdadeiro terceiro termo, a interação entre
os educadores e os educandos se tornará,
inevitavelmente, cada vez mais mecânica,
limitando-se a uma transmissão de um saber cada
vez mais evasivo e sem nenhuma ação sobre a
vida individual e social.
Os
ateliês devem ser estruturas abertas que
integrem os pesquisadores exteriores à
Universidade (músicos, poetas, artistas), os
representantes do mundo das associações e dos
municípios. Assim, com o tempo, os ateliês
poderiam tornar-se lugares de reflexão e
proposição transdisciplinares a respeito do
desemprego, da exclusão, da fratura social, do
trabalho, da integração das minorias.
A
composição desses ateliês deve ser variável
no tempo , em função das necessidades do
momento, embora mantendo sempre uma rigorosa
orientação transdisciplinar. Assim, a hierarquia
não será mais pessoal, mas distributiva
e fundamentada exclusivamente na autoridade
ontológica e não na administrativa. A
reponsabiliade desses ateliês poderia ser
confiada a uma estrutura ternária: um
representante das ciências exatas, um
representante das ciências humanas e um
representante dos estudantes. Para manter um
estatura propícia à reflexão e à pesquisa, a
admissão nesses ateliês poderia ser feita por
meio de cooptação .
Os
ateliês de pesquisa transdisciplinar poderão
com isso ser o lugar criativo da arte de viver e
aprender junto, em todos os níveis. Esses ateliês
poderiam constituir verdadeiros modelos ,
estimulando a criação de outros ateliês
similares em qualquer outra coletividade:
empresa, instituição nacional ou instituição
internacional.
2.
Criação de unidades de formação e pesquisa
transdisciplinar (UFRT)
Num
nível mais formal, certas universidades
poderiam sentir a necessidade de criar uma unidade
de formação e de pesquisa transdisciplinar
, tendo autoridade de decisão no plano
universitário e encarregada de conceber,
disseminar e coordenar o conjunto de cursos,
seminários e conferências de abertura
transdisciplinar.
As
UFRT terão como missão harmonizar os ensinos
de caráter disciplinar, multidisciplinar e
interdisciplinar. Elas poderão decidir pela
criação de ensinos de sensibilização para
os desafios sociais, culturais e éticos ,
pelo desenvolvimento de cursos abordando os
fundamentos históricos e epistemológicos das
diversas disciplinas, embora evitando
cuidadosamente todo desgarramento ideológico ou
reducionista.
Numa
etapa mais avançada, é possível supor que uma
ou outra Universidade, através de sua UFRT,
decida que a habilitação para dirigir
pesquisas seja condicionada pelo
comparecimento num seminário ou curso de história,
filosofia ou sociologia das ciências, coroado
por uma dissertação sancionada pela decisão
de um júri transdisciplinar.
3.
Criação de um fórum transdisciplinar
permanente de história, filosofia e sociologia
das ciências (FPT)
A
ART (no plano da reflexão e da pesquisa) e as
UFRT (no plano da atividade universitária
concreta e de decisão) poderão constituir os
dois pólos complementares capazes de permitir o
surgimento de um fórum permanente de história,
filosofia e sociologia das ciências, no qual
duas direções privilegiadas poderão ser o
estudo da filosofia da Natureza e o estudo dos
aspectos antropológicos. Esse fórum poderia
ter um campo muito amplo de atividade, indo
desde cursos e trabalhos dirigidos até debates
públicos destinados à população da cidade em
que a Universidade estiver instalada.
As
três novas estruturas que propomos, as ART, os
UFRT e os FPT, poderiam ter, a longo prazo, um
impacto considerável sobre a sociedade de hoje,
tratando de frente a crise de representação
que atravessamos. Nossos meios de representar o
mundo estão, de fato, ultrapassados e esse
descompasso pode ter um efeito destrutivo
incalculável. O fim dos dogmas, o reinado
absoluto do mercado, as guerras tribais, as
poluições globais e a desorientação genética
são signos maiores dessa crise de representação.
O pensamento transdisciplinar é capaz de
avaliar toda a dimensão dessa crise radical e
inventar os meios de ultrapassá-la. Nesse
contexto, a Universidade é um lugar
privilegiado do desenvolvimento do pensamento e
da experiência transdisciplinares.
4.
A criação de centros de orientação
transdisciplinares (COT)
Com
relação aos estudantes, esses centros
transdisciplinares de orientação (COT) terão
uma função complementar em relação aos
centros tradicionais de orientação. Se a
aquisição dos saberes de uma disciplina
continua sendo uma prioridade indiscutível,
também é importante levar em conta a vida da
pessoa lançada num mundo que parece ter como único
critério de valor a eficácia a qualquer preço.
A transdisciplinaridade tenta levar em conta
simultaneamente as duas pontas do bastão, o
homem interior e o homem exterior, unidos por um
terceiro termo que ela se esforça por decifrar.
Os COT poderão aconselhar os estudantes na direção
de uma flexibilidade interior e de um
auto-aprendizado que poderiam permitir-lhes
mudar de profissão em qualquer momento de sua
vida, não só para suprir as necessidades da
vida material, mas também para atualizar suas
potencialidades.
Os
COT também poderão assumir o papel de orientação
dos educadores , uma vez que eles devem
igualmente se adaptar a um mundo em plena mutação,
a fim de evitar a esterilização intelectual e
espiritual. Esses COT poderiam desempenhar a função
de verdadeiros observatórios ,
especialmente no que concerne à evolução do
sistema educativo sob a influência da revolução
informática.
Os
COT poderão criar não só um espaço de
despertar e de renascimento dos diferentes níveis
de inteligência e de espírito criativo, como
também um espaço de relação entre uma
democracia cognitiva e o espírito vivo.
5.
Criação de lugares de silêncio e de meditação
transreligiosa e transcultural
À
imagem das monstruosas megalópoles, certas
universidades são, do ponto de vista
arquitetural e de distribuição de espaços,
gigantescos supermercados do saber, desprezando
qualquer sentido estético e poético, tão
necessários a uma vida real. Em tais espaços,
o espírito de exclusão, de desprezo, de ignorância
do outro, de indiferença para com tudo o que é
diferente de si mesmo só pode acentuar-se e
propagar-se na vida do adulto ativo que o
estudante irá tornar-se no fim de seus estudos.
Nesse
contexto, a criação de lugares destinados
exclusivamente ao silêncio e à meditação
poderá desempenhar um importante papel na geração
do espírito de tolerância. Evidentemente devem
ser, de acordo com o espírito laico da
Universidade, lugares transreligiosos e
transculturais, onde cada um poderá comungar
com o outro no silêncio nutrido por sua própria
religião e sua própria cultura. Na perspectiva
transdisciplinar, o silêncio põe em jogo um nível
extremamente rico de informação, a partir do
qual uma comunicação e mesmo uma comunhão
podem se estabelecer.
6.
Em busca da partilha universal dos
conhecimentos: religar a Universidade da área pública
do ciber-espaço-tempo
O
surgimento do ciber-espaço-tempo representa,
mais que uma queda do muro de Berlim, uma
fabulosa oportunidade para a democracia, para o
desenvolvimento individual e social e para a
partilha universal dos conhecimentos. Com a
condição, é claro, de que esse ciber-espaço-tempo
não seja pervertido numa imensa pompa
financeira. O suporte das criações difundidas
no ciber-espaço-tempo é da textura das
profundezas da matéria, está na proximidade do
mundo quântico. Em outras palavras, do ponto de
vista científico, o espaço cibernético é de
uma natureza radicalmente diferente do nosso
espaço habitual. Se a terra pode ser dividida
em territórios, cujas fronteiras separam os
diversos estados-nações e os diversos povos do
mundo, uma tal divisão do espaço cibernético
seria simplesmente contra a natureza. Esse é o
fundamento científico da necessidade de uma visão
resolutamente nova sobre a evolução da área pública,
quanto a seus fins, sua extensão e sua
qualidade. No ciber-espaço-tempo , a área
pública é de natureza planetária e não
nacional.
Se
as organizações nacionais e internacionais
tiverem coragem e inteligência de fazer emergir
uma nova visão do domínio público, o ciber-espaço-tempo
poderia tornar-se um fabuloso reservatório
energético e dinâmico de desenvolvimento das
universidades do mundo inteiro. Uma Universidade
de qualquer país, desenvolvido ou em
desenvolvimento, deveria ter a possibilidade de
conectar-se com todas as bases de dados do ciber-espaço-tempo
. Poder-se-ia com isso transferir ao
ciber-espaço-tempo todas as funções mecânicas
do ensino, operando assim uma verdadeira liberação
dos educadores, pemitindo que eles se
concentrassem na criatividade, no diálogo e na
interação com os estudantes. Aprender a
aprender poderia ser a missão do educador
de amanhã: aprender a pensar, aprender a criar,
aprender a reunir o que está disperso e a
eliminar o que é contingente. Substituir assim
o saber pela compreensão, a possessão rígida
dos saberes pela capacidade de religação e de
invenção, o curriculum mortis pelo curriculum
vitae .
A
liberação dos educadores também significa a
liberação dos estudantes; eles serão livres
para buscar seu justo lugar na sociedade e no
interior deles mesmos , em vez de
permanecerem escravos de um sistema econômico
indiferente a seu ser real.
O
impacto social de tal metamorfose da
Universidade é considerável, pois com isso um
novo laço social também pode estabelecer-se.
Os conceitos novos como os de transcultura,
transreligião, transpolítica ou
transnacionalidade, forjados pelos pesquisadores
transdisciplinares do CIRET e de outros lugares,
poderiam assim germinar no mundo da educação
universitária e em seguida encarnar-se e
propagar-se numa escala planetária.
Uma
nova solidariedade
está perto de nascer. As
universidades do mundo inteiro, através de sua
conexão com o ciber-espaço-tempo ,
tornar-se-ão os elos de uma gigantesca e
virtual Universidade das universidades,
verdadeiro lugar do universal. Graças à nova
educação universitária, o perigoso e
explosivo fosso entre os info-ricos e os
info-pobres (ricos e pobres em informática)
também poderia reduzir-se progressivamente.
Além
do mais, esse processo é um processo circular;
ele se auto-alimenta e se auto-organiza. A criação
dos fóruns de discussão sobre a evolução
transdisciplinar da universidade na Internet
, que preconizamos, é muito desejável. O
Observatório para o Estudo da Universidade do
Futuro (OEUF), criado pela Escola Politécnica
Federal de Lausane, em colaboração com o CIRET
(http://www-uf.epfl.ch/UF/), é o lugar virtual
capaz de mediar tal fórum. E de um tal OEUF
talvez saia æ o que invocamos com todo nosso
coração e nossos esforços æ a Universidade
do Futuro.
Enfim,
o ciber-espaço-tempo permitiria a
germinação virtual das universidades em busca
de sua evolução transdisciplinar.
7.
Conclusões
Rigor
, tolerância e abertura são três
conceitos colocados em destaque pela Carta
de Transdisciplinaridade
(ver Anexos). No presente documento, tentamos pôr
esses três conceitos "na vida".
Neste
documento, limitamo-nos voluntariamente a
algumas referências da evolução
transdisciplinar da Universidade. As propostas
que apresentamos foram concebidas longe de todo
espírito de "metodolatria", deixando
cada um fazer seu próprio caminho.
Certo,
a transdisciplinaridade não é neutra, pois ela
opta pelo sentido. Uma educação neutra e
objetiva não passa de um fantasma que nos foi
legado pela ideologia cientificista. A
transdisciplinaridade tem como ambição a
unificação, em suas diferenças, do Objeto e
do Sujeito: o sujeito-conhecedor faz parte
integrante da Natureza e do conhecimento.
A
evolução transdisciplinar da Universidade não
é nem um luxo, nem um arranjo cosmético de uma
instituição ameaçada, nem uma decoração
agradável mas supérflua num velho e verdadeiro
edifício, e sim uma necessidade. A vocação
transdisciplinar da Universidade está inscrita
na sua própria natureza : o estudo do
universal é inseparável da relação entre os
campos disciplinares, buscando o que se encontra
entre, através e além de todos os campos
disciplinares.
Basarab
NICOLESCU
Presidente do CIRET
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