|
Da
necessidade de um pensamento complexo
Edgar
Morin
(tradução
de Juremir Machado da Silva)
–
Extraído
do site do Geccom
–
|
|
Edgar
MORIN. Da necessidade de um pensamento complexo. In: Francisco
Menezes Martins e Juremir Machado da Silva (org), Para navegar no
século XXI. Porto Alegre: Sulina/Edipucrs. 2000.
|
Política
de civilização e problema mundial
Vou
tentar descrever, de maneira breve, o problema do desafio da complexidade.
Começarei
pela idéia de que toda e qualquer informação tem apenas um sentido em
relação a uma situação, a um contexto. Se, por exemplo; eu disser
"amo-te", esta palavra pode ser a expressão de um apaixonado
sincero e deve ser tomada nesse sentido; mas pode ser também a farsa de
um sedutor e nessa altura será uma mentira.
Pode
ser ainda, numa peça de teatro, a palavra de um herói, e não do ator
que desempenha o papel do personagem; o sentido das palavras muda,
portanto, necessariamente, segundo o contexto em que as empregamos; é por
isso que, em lingüística, como todos sabemos, o sentido de um texto é
esclarecido pelo seu contexto. Por exemplo: quando ouvimos as informações
na televisão ou as lemos
nos jornais, a palavra Sarajevo, a palavra Hezbollah e a palavra Kabul não
têm sentido se não as situarmos no seu contexto geográfico e histórico,
o que quer dizer que, para conhecer, não podemos isolar uma palavra, uma
informação; é necessário ligá-Ia a um contexto e mobilizar o nosso
saber, a nossa cultura, para chegar a um conhecimento apropriado e
oportuno da mesma.
O
problema do conhecimento é um desafio porque só podemos conhecer, como
dizia Pascal, as partes se conhecermos o todo em que se situam, e só
podemos conhecer o todo se conhecermos as partes que o compõem. Ora, hoje
vivemos uma época de mundialização, todos os nossos grandes problemas
deixaram de ser particulares para se tomar mundiais: o da energia e, em
especial, o da bomba atômica, da disseminação nuclear, da ecologia, que
é o da nossa biosfera, o dos vírus, como a Aids, imediatamente se
mundializam.
Todos
os problemas se situam em um nível global e, por isso, devemos mobilizar
a nossa atitude não só para os contextualizar, mas ainda para os
mundializar, para os globalizar; devemos, em seguida, partir do global
para o particular e do particular para o global, que é o sentido da frase
de Pascal: "Não posso conhecer o todo se não conhecer
particularmente as partes, e não posso conhecer as partes se não
conhecer o todo".
Deveríamos,
portanto, ser animados por um princípio de pensamento que nos permitisse
ligar as coisas que nos parecem separadas umas em relação às outras.
Ora, o nosso sistema educativo privilegia a separação em vez de praticar
a ligação. A organização do conhecimento sob a forma de disciplinas
seria útil se estas não estivessem fechadas em si mesmas,
compartimentadas umas em relação às outras; assim, o conhecimento de um
conjunto global,o homem, é um conhecimento parcelado. Se quisermos
conhecer o espírito humano, podemos fazê-Io através das ciências
humanas, como a psicologia, mas o outro aspecto do espírito humano, o cérebro,
órgão biológico, será estudado pela biologia.
Vivemos
numa realidade multidimensional, simultaneamente econômica, psicológica,
mitológica, sociológica, mas estudamos estas dimensões separadamente, e
não umas em relação com as outras. O princípio de separação
torna-nos talvez mais lúcidos sobre uma pequena parte separada do seu
contexto, mas nos torna cegos ou míopes sobre a relação entre a parte e
o seu contexto.
Além
disso, o método experimental, que permite tirar um "corpo" do
seu meio natural e colocá-Io num meio artificial, é útil, mas tem os
seus limites, pois não podemos estar separados do nosso meio ambiente; o
conhecimento de nós próprios não é possível, se nos isolarmos do meio
em que vivemos. Não seríamos seres humanos, indivíduos humanos, se não
tivéssemos crescido num ambiente cultural onde aprendemos a falar, e não
seríamos seres humanos vivos se não nos alimentássemos de elementos e
alimentos provenientes do meio natural.
Por
outro lado, durante muito tempo, a ciência ocidental foi reducionista
(tentou reduzir o conhecimento do conjunto ao conhecimento das partes que
o constituem, pensando que podíamos conhecer o todo se conhecêssemos as
partes); tal conhecimento ignora o fenômeno mais importante, que podemos
qualificar de sistêmico, da palavra sistema, conjunto organizado de
partes diferentes, produtor de qualidades que não existiriam se as partes
estivessem isoladas umas as outras. É isto que podemos chamar “emergências".
Por
exemplo, somos a vida. Um ser humano é constituído por moléculas, moléculas
químicas, moléculas de ácidos, ácidos nucléicos e aminoácidos.
Nenhuma destas macromoléculas tem, por si só. as qualidades que dão a
vida; a organização viva, feita destas moléculas, organização
complexa, tem um certo número de qualidades que emergem. qualidades de
autoprodução. auto-reprodução, autodesenvolvimento, comunicação,
movimento etc. Não podemos, portanto, compreender o ser humano apenas
através dos elementos que o constituem. Se observarmos uma sociedade,
verificaremos que nela há interações entre os indivíduos, mas essas
interações formam um conjunto e a sociedade, como tal, é possuidora de
uma língua e de uma cultura que transmite aos indivíduos; essas
"emergências sociais" permitem o desenvolvimento destes. É
necessário um modo de conhecimento que permita compreender como as
organizações, os sistemas, produzem as qualidades fundamentais do nosso
mundo.
Tratemos
agora do fenômeno da auto-organização. O ser humano é autônomo, mas a
sua autonomia depende do meio exterior. Se temos necessidade de nos
alimentar, é porque o nosso organismo trabalha continuamente, degrada a
sua energia e tem necessidade de renová-Ia, extraindo-a do mundo exterior
sob a forma já organizada dos alimentos vegetais ou animais. Por isso,
para ser autônomo, tenho de depender do meio exterior; para ser um espírito
autônomo, tenho de depender da cultura de que alimento os meus
conhecimentos. a minha faculdade de conhecimento e a minha faculdade de
julgar. Assim, somos levados a pensar conjuntamente em duas noções que
até agora se encontravam separados, porque durante muito tempo não podíamos
compreender a autonomia do ponto de vista científico, visto que o
conhecimento científico clássico só conhecia o determinismo. A
autonomia só podia ser pensada do ponto de vista puramente metafísico,
quer dizer, excluindo qualquer laço material. Por um lado, tínhamos uma
ciência com dependência, mas sem autonomia, e por outro lado uma
filosofia com autonomia, mas sem conceber a dependência. Ora, penso que o
pensamento complexo deve ligar a autonomia e a dependência.
A
nossa educação nos habituou a uma concepção linear da causalidade.
Temos causas que produzem efeitos. Ora, uma das idéias mais importantes
que me parecem ter surgido nos últimos 50 anos foi a da circularidade,
cristalizada pela primeira vez por um especialista em cibernética. Para
compreender a idéia de circularidade retroativa, podemos imaginar um
sistema de aquecimento central: uma caldeira alimenta os radiadores;
quando se atingiu a temperatura desejada, um termostato faz parar o
funcionamento da caldeira; se a temperatura baixa, o termostato faz
funcionar a caldeira de novo. Há, em conseqüência, um sistema onde o
efeito atua retroativamente sobre a causa.
Passamos
de uma visão linear a uma visão circular. A causalidade retroativa
possibilita compreender um fenômeno de autonomia térmica: quando faz
frio lá fora, o compartimento fica quente e, paradoxalmente, quanto mais
frio faz lá fora, mais quente fica o interior do compartimento. Esta
autonomia, provocada pela regulação (circularidade retroativa), é ela
própria produzida por uma circularidade mais intensa, chamada
circularidade autoprodutiva. Em que consiste esta circularidade? Consiste
no fato de produtos e efeitos serem necessários ao produtor e ao
causador.
Tomemos
dois exemplos: a vida e a sociedade. A vida é um sistema de reprodução
que produz os indivíduos. Somos produtos da reprodução dos nossos pais.
Mas, para que este processo de reprodução continue, é necessário que nós
próprios nos tomemos produtores e reprodutores de nossos filhos. Somos,
portanto, produtos e produtores no processo da vida. Da mesma maneira.
Somos produtores da sociedade, porque sem indivíduos humanos não
existiria a sociedade mas, uma vez que a sociedade existe, com a sua
cultura, com os seus interditos, com as suas normas, com as suas leis, com
as suas regras, produz-nos como indivíduos e, uma vez mais, somos
produtos produtores.
Produzimos
a sociedade que nos produz. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que
somos não só uma pequena parte de um todo, o todo social, mas
que esse todo está
no interior de nós próprios, ou seja, temos as regras sociais, a
linguagem social, a cultura e normas sociais em nosso interior. Segundo
este princípio, não só a parte está no todo como o todo está na
parte. Isto acarreta conseqüências muito importantes porque, se
quisermos julgar qualquer coisa, a nossa sociedade ou uma sociedade
exterior, a maneira mais ingênua de o fazer é crer (pensar) que temos o
ponto de vista verdadeiro e objetivo da sociedade, porque ignoramos que a
sociedade está em nós e ignoramos que somos uma pequena parte da
sociedade. Esta concepção de pensamento dá-nos uma lição de prudência,
de método e de modéstia.
Devo
indicar, neste momento da minha exposição, que o pensamento complexo nos
abre o caminho para compreender melhor os problemas humanos. Em primeiro
lugar, não devemos esquecer que somos seres trinitários, ou seja, somos
triplos em um só. Somos indivíduos, membros de uma espécie biológica
chamada Homo sapiens, e somos, ao mesmo tempo, seres sociais. Temos estas
três naturezas numa só. Penso que é importante sabê-Io, porque, de uma
maneira geral, o nosso modo de pensamento mais habitual nos toma difícil
conceber um elo entre estas três naturezas e saber se existe unidade na
humanidade ou diversidade, heterogeneidade e, conseqüentemente, ausência
de unidade. Tema polêmico a partir do século XVIII. Há quem diga que a
natureza humana é una, e que os chineses ou africanos têm uma natureza
igual à nossa e por isso, como nós, amores, tristezas, alegrias,
felicidades. Outros pensadores, como os culturalistas, dizem que somos
diferentes de cultura para cultura, não existindo verdadeira unidade
humana.
Foi
muitas vezes difícil fazer compreender que o "um" pode ser
"múltiplo", e que o "múltiplo" é suscetível de
unidade. Que, por exemplo, do ponto de vista do ser humano, há certamente
unidade genética, que todos os seres humanos têm o mesmo patrimônio genético
e há unidade cerebral; por essa razão, todos os seres humanos têm as
mesmas atitudes cerebrais fundamentais. É também certo que os seres
humanos têm uma identidade profunda pelo fato de poder desenvolver a sua
nacionalidade e por serem afetivos, capazes, todos eles, de sorrir, de rir
e de chorar. A observação de um etnólogo alemão sobre uma jovem surda,
muda e cega de nascença demonstrou que, por ela rir, chorar e sorrir, não
tinha aprendido, através do seu meio cultural, estas manifestações
afetivas.
Há,
logo, a unidade fundamental do ser humano; mas, ao mesmo tempo, sabemos
que certas civilizações inibem as lágrimas, enquanto outras permitem a
sua expressão; que sorrimos em condições diferentes numas e noutras; o
riso, as lágrimas e o sorriso são diferentemente modulados segundo as
culturas, mas devemos saber sobretudo que, a partir da mesma estrutura
fundamental da linguagem, se criou uma diversidade inacreditável de línguas
ao longo do desenvolvimento da espécie humana, e que as culturas geraram
riquezas extraordinárias; o tesouro da humanidade é a sua diversidade.
Esta não só é compatível com a unidade fundamental, mas produzida
pelas possibilidades do ser humano.
Compreender
a unidade e a diversidade é muito importante hoje, visto estarmos num
processo de mundialização que leva a reconhecer a unidade dos problemas
para todos os seres humanos onde quer que estejam; ao mesmo tempo, é
preciso preservar a riqueza da humanidade, ou seja, a diversidade
cultural; vemos, por exemplo, que as diversidades não são só as das nações,
mas estão também no interior destas; cada província, cada região, tem
a sua singularidade cultural, a qual deve guardar ciosamente.
Há,
no mesmo sentido, o problema com o qual estive confrontado quando quis
escrever meu livro "O Homem e a morte": a multidimensionalidade
humana. A interrogação que me coloquei desde o início foi a seguinte: o
homem está, como todos os seres biológicos, submetido à morte; por
isso, no domínio da morte, é semelhante a todos os outros seres vivos;
mas o homem é o único ser vivo que acredita existir uma vida após a
morte, que pratica ritos fúnebres, que tem uma mitologia da morte, porque
acredita que a morte existe, quer um renascimento, quer a sobrevivência
de um fantasma, quer a ressurreição etc. A realidade humana é. pois,
por um lado, biológica e, por outro, autobiológica, quer dizer, mitológica.
Um
dos traços importantes do meu trabalho foi deixar de subestimar os
aspectos imaginário e mitológicos do ser humano. Algo que me tinha
deveras impressionado quando assisti a uma cerimônia de Candomblé no
Brasil, e da qual participei, foi constatar que, num momento determinado,
os participantes, os crentes, invocam os espíritos ou deuses tais como
Iemanjá; num dado momento, um dos espíritos encama num dos participantes
e fala através deste. Além disso, é possível a presença de vários
espíritos. O que significa tudo isto? Significa que os deuses têm uma
existência real; essa existência é-lhes conferida pela comunidade dos
crentes, pela fé, pelo rito. Mas uma vez que o deus existe, é capaz de
nos possuir, e é essa a relação particular que nutrimos com os
"deuses", ou com o nosso "Deus", ou as com nossas idéias.
Isso
significa ainda que damos vida às nossas idéias e, uma vez que lhes
damos vida, são elas que indicam o nosso comportamento, que nos mandam
matar ou morrer por elas; vale dizer que tais produtos são os nossos próprios
produtores, e que as realidades imaginária e mitológica são um aspecto
fundamental da realidade humana.
Do
mesmo modo, penso que devemos considerar a história humana de maneira
complexa. Ora, entre as maneiras não complexas de considerar a história
humana, a primeira foi a de que esta era uma sucessão de batalhas, de
golpes de Estado, de mudanças de reino, de acontecimentos importantes, de
acidentes, de guerras. Uma segunda maneira consistiu em julgar que os
acidentes, as guerras, as mudanças de reino, eram acontecimentos
superficiais enquanto, na realidade, existiria um movimento ascendente, o
do progresso; as leis da história estariam escritas no decurso da
humanidade e, se surgissem acidentes, seriam provisórios.
Primeiramente,
é necessário unir estas duas concepções: a dos acidentes, das perturbações,
aquilo que Shakespeare chamou "o barulho e o furor" e, por outro
lado, as determinações, os determinismos. Isto se aplica também à história
do Universo, que começamos a conhecer como uma história que nasceu,
talvez, de uma catástrofe gigantesca, da qual surgiu o nosso mundo,
criado através de enormes destruições, porque se pensa que desde o início
a matéria provocou o genocídio da anti-matéria ou, ao menos, essa
anti-matéria desapareceu. Em seguida, houve o choque das estrelas, a
colisão das galáxias, explosões...
Ora,
o mundo produz, por um lado, galáxias, estrelas, ordem no céu e, ao
mesmo tempo, forma-se por entre a desordem; da mesma maneira, a história
da terra é uma história atormentada. Pensa-se que, na origem, foram os
detritos de um sol anterior que explodiu que se aglomeraram, tendo-se, a
partir daí, produzido um fenômeno de auto-organização da terra, com,
num dado momento, o aparecimento da primeira célula viva. Mas a
verdadeira história da vida ocorreu através de convulsões e catástrofes;
houve um acidente no final da era primária em que 97% das espécies vivas
dessa época desapareceram; houve o famoso acidente em que os dinossauros
morreram, e que parece ser a conseqüência de um meteorito conjugado com
uma enorme explosão vulcânica. A história da nossa terra é acidental,
e através desses acidentes houve a extraordinária proliferação de
formas vegetais e animais, das quais, de um ramo de um ramo de um ramo...
da evolução animal surgiu o ser humano e, finalmente, a consciência
humana.
O
sentido da evolução não era o de produzir por todo lado a consciência.
Foi o ramo de um ramo de um ramo que produziu a humanidade. Somos,
portanto, um produto "desviado" da história do mundo; isto nos
permite compreender que a evolução não é qualquer coisa que avança
frontalmente, majestosamente, como um rio, mas parte sempre de um
"desvio" que começa e consegue impor-se, toma-se uma grande
tendência e triunfa, o que se aplica à história das idéias; no início,
Moisés é um egípcio "desencaminhado" ou "desviado"
que se afastou da sua religião quando fundou o judaísmo; o
"desencaminhamento" de Jesus foi acrescido pelo de Paulo, quando
este disse não haver nem judeus, nem gentios. Maomé, Karl Marx e Lutero
foram seres "desencaminhados" ou "desviados"; certos
"desencaminhamentos" enraízam-se e transformam-se em tendências
fortes.
Isso
deve tornar mais complexa a nossa visão da história e levar-nos a
compreender a incerteza do nosso tempo, visto que não há progresso
necessário e inelutável; sabemos que todos os progressos adquiridos
podem ser destruídos pelos nossos inimigos mais implacáveis: nós
mesmos, dado que hoje a humanidade é a maior inimiga da humanidade.
Sabemos, atualmente, que o progresso deve ser regenerado; sabemos ainda
que a barbárie constitui uma ameaça, e vivemos mais do que nunca na
incerteza, porque ninguém pode adivinhar o que será o dia de amanhã. O
nosso destino é, pois, incerto, e ninguém sabe qual o destino do Cosmos.
Devemos,
porém, poder situar-nos nesta incerteza. A nossa situação é, em
virtude desta constatação, extremamente complexa, porque somos,
integralmente, filhos do Cosmos e estranhos a esse mesmo Cosmos. Poderia
exemplificar com o organismo humano, mas vou tomar simplesmente o exemplo
de um copo de vinho do Porto. Se pegarem um copo de vinho do Porto e o
interrogarem, podem ter a certeza de que nesse vinho do Porto há partículas
que se formaram nos primeiros segundos do Universo, ou seja, há cerca de
sete a quinze bilhões de anos; há também o hidrogênio, um dos
primeiros elementos a ser formado no Universo, e produtos do átomo do
carbono, formado quando da existência do sol anterior ao nosso. No copo
de vinho do Porto, há a conjugação de macromoléculas que se juntaram
na terra para dar origem à vida e há ainda a evolução do mundo
vegetal, a evolução animal, até o homem, e a evolução técnica que
permitiu ao ser humano extrair o sumo da uva e transformá-Io, através da
fermentação, em vinho. Hoje, existem técnicas mais evoluídas, mais
sofisticadas, da informática, que permitem controlar, nos depósitos, a
fermentação desse vinho que vai transformar-se em vinho do Porto. Dito
de outra maneira, num copo de vinho do Porto temos toda a história do
Cosmos e, simultaneamente, a originalidade de uma bebida encontrada apenas
na região do Douro.
Somos
filhos da natureza viva da terra e estrangeiros a nós próprios. Esta
reflexão leva-nos a abandonar a idéia que considerava o ser humano como
centro do mundo, mestre e dominador da natureza, defendida por grandes filósofos
ocidentais como Bacon, Descartes, Buffon, Karl Marx. Hoje, essa ambição
parece-nos completamente irrisória, porque vivemos num planeta minúsculo,
satélite de um pequeno sol de segunda classe, que faz parte de uma galáxia
extremamente periférica; estamos, por essa razão, perdidos no Universo.
Mas,
se devemos abandonar a visão que faz do homem o centro do mundo, devemos
salvaguardar a visão humanista que nos ensina que é necessário salvar a
humanidade e civilizar a terra. Abandonemos a missão de Prometeu e
tomemo-nos seres terrestres, quer dizer, cidadãos da terra, o que nos
remete à idéia por mim desenvolvida no livro Terra-Pátria; para
compreendê-Ia, é necessário refletir sobre a palavra "Pátria".
A palavra "Pátria" significa três coisas: identidade comum,
comunidade de origem e de destino e comunidade de idéias.
-
Comunidade
de origem e comunidade de destino, segundo os dados do conhecimento da
hominização e da pré-história: parece haver uma origem comum da
humanidade - o continente africano. É possível que o Homo sapiens
tenha partido da África e povoado o mundo, assim como é possível
que os antepassados do Homo sapiens, através do processo de mestiçagem,
tenham suscitado na Europa, na Ásia e na África, o aparecimento da
nossa espécie; de qualquer maneira, há uma comunidade de origem
pertencente ao ramo particular da evolução dos seres vivos.
Comunidade de destino: fazer parte de uma Pátria significa participar
de um destino comum; ora, esse destino relacionado com a pátria é um
destino que nos vem do passado. Participa-se da Pátria Portuguesa
porque se aprende a história de Portugal e toma-se parte nas suas
dificuldades, nos seus sofrimentos, nas suas grandezas e nas suas glórias;
incorpora-se o destino comum dos antepassados. A idéia de comunidade
de destino terrestre é uma idéia recente. Vem da era planetária,
quer dizer, do momento em que os fragmentos dispersos da humanidade
começaram a encontrar-se; no início, de maneira extremamente
violenta e brutal, através das conquistas e da colonização. Hoje,
todos os seres humanos, apesar de viverem situações diferentes, têm
os mesmos problemas fundamentais de vida e morte. Temos necessidade de
nos proteger de desastres que podem destruir o homem.
-
Comunidade
de idéias: esta noção faz-nos abandonar a alternativa banal segundo
a qual, no caso de sermos cosmopolitas, não teríamos raízes e, no
caso de termos Pátria, seria uma Pátria singular fechada sobre ela
própria. A idéia de "Terra-Pátria" não nos desenraíza,
ao contrário; estamos enraizados em nosso destino terrestre, o qual
engloba e respeita todas as Pátrias. Podemos ser membros de várias Pátrias
concêntricas. Sinto-me profundamente membro da pátria francesa,
mediterrâneo, europeu e cidadão da Terra. Podemos viver diferentes Pátrias
de maneira concêntrica em vez de negar uma, privilegiando outra. O
pensamento complexo conduz-nos a uma série de problemas fundamentais
do destino humano, que depende, sobretudo, da nossa capacidade de
compreender os nossos problemas essenciais, contextualizando-os,
globalizando-os, interligando-os: e da nossa capacidade de enfrentar a
incerteza e de encontrar os meios que nos permitam navegar num futuro
incerto, erguendo ao alto a nossa coragem e a nossa esperança.
Vencer a especialização
Enquanto
a cultura geral comportava a possibilidade de buscar a contextualização
de toda informação ou idéia, a cultura científica e técnica, por
causa de sua característica disciplinar e especializada, separa e
compartimenta os saberes, tomando cada vez mais difícil a colocação
destes num contexto qualquer. Além disso, até a metade do século XX, a
maioria das ciências tinha por método de conhecimento a redução (do
conhecimento de um todo ao conhecimento das partes que o compõem), por
conceito fundamental o determinismo, isto é, a ocultação do acaso, do
novo, da invenção, e a aplicação da lógica mecânica da máquina
artificial aos problemas vivos, humanos e sociais.
A
especialização abstrai, extrai um objeto de seu contexto e de seu
conjunto, rejeita os laços e a intercomunicação do objeto com o seu
meio, insere-o no compartimento da disciplina, cujas fronteiras quebram
arbitrariamente a sistemicidade (a relação de uma parte com o todo) e a
multidimensionalidade dos fenômenos, e conduz à abstração matemática,
a qual opera uma cisão com o concreto, privilegiando tudo aquilo que é
calculável e formalizável.
Assim,
a economia, a ciência social matematicamente mais avançada, é também a
ciência social e humanamente mais fechada, pois se abstrai das condições
sociais, históricas, políticas, psicológicas, ecológicas etc, inseparáveis
das atividades econômicas. Por isso, os seus experts
são cada vez mais incapazes de prever e de predizer o
desenvolvimento econômico, mesmo a curto prazo.
O
conhecimento deve certamente utilizar a abstração, mas procurando
construir-se em referência a um contexto. A compreensão de dados
particulares exige a ativação da inteligência geral e a mobilização
dos conhecimentos de conjunto.
Marcel
Mauss dizia: "É preciso recompor o todo". Acrescentemos: é
preciso mobilizar o todo. Certo, é impossível conhecer tudo do mundo ou
captar todas as suas multiformes transformações. Mas, por mais aleatório
e difícil que seja, o conhecimento dos problemas essenciais do mundo deve
ser tentado para evitar a imbecilidade cognitiva. Ainda mais que o
contexto, hoje, de todo conhecimento político, econômico, antropológico,
ecológico etc, é o próprio mundo. Eis o problema universal para todo
cidadão: como adquirir a possibilidade de articular e organizar as
informações sobre o mundo. Em verdade, para articulá-Ias e organizá-Ias,
necessita-se de uma reforma de pensamento.
A
falsa racionalidade
A
falsa racionalidade – a racionalização abstrata e unidimensional –
triunfa atualmente por toda parte. As mais monumentais obras-primas dessa
racionalidade tecnoburocrática foram realizadas na URSS, onde, por
exemplo, desviaram-se o curso dos rios para irrigar nas horas mais quentes
hectares sem árvores de cultivo de algodão, gerando a salinização do
solo, a volatilização das águas subterrâneas, o esgotamento do mar de
Aral. Infelizmente depois do desabamento do Império, os novos dirigentes
recorreram a experts liberais
do Oeste que, ignorando deliberadamente a necessidade de instituições,
de leis e de regras numa economia competitiva de mercado, não elaboram a
indispensável estratégia complexa. Entretanto, Maurice Allais –
economista liberal – havia indicado que seria necessário planificar a
desplanificação e programar a desprogramação. O resultado de tudo isso
são as catástrofes humanas, cujas vítimas não são contabilizadas e não
têm as garantias dos atingidos pelas catástrofes naturais.
A
inteligência parcelar, compartimentada, mecânica, disjuntiva,
reducionista, quebra o complexo do mundo, produz fragmentos, fraciona os
problemas, separa o que é ligado, unidimensionaliza o multidimensional.
Trata-se de uma inteligência ao mesmo tempo míope, presbita, daltônica,
zarolha. Elimina na casca todas as possibilidades de compreensão e de
reflexão, matando assim todas as chances de julgamento corretivo ou de
visão a longo termo. Quanto mais os problemas se tomam multidimensionais,
mais há incapacidade para pensar essa multidimensionalidade; quanto mais
a crise avança, mais progride a incapacidade de pensá-Ia; quanto mais os
problemas se tomam planetários, mais se tornam impensados. Incapaz de
considerar o contexto e o complexo planetário, a inteligência cega
produz inconsciência e irresponsabilidade.
Compreendemos
então um problema essencial: complementar o pensamento que separa com
outro que une. Complexus significa
originariamente o que se tece junto. O pensamento complexo, portanto,
busca distinguir (mas não separar)
e ligar. Ao mesmo tempo, impõe-se, como vimos acima, outro problema
crucial: tratar a incerteza. Por quê? Porque por toda parte, nas ciências,
o dogma de um determinismo universal desabou, enquanto a lógica,
chave-mestra da certeza do raciocínio, revelou incertezas na indução,
impossibilidades de decisão na dedução e limites no princípio do
terceiro incluído. Assim, o objetivo do pensamento complexo é ao mesmo
tempo unir (contextualizar e globalizar) e aceitar o desafio da incerteza.
Como?
Princípios
Podemos
estabelecer alguns princípios, complementares e interdependentes, como
guias para pensar a complexidade.
-
Princípio
sistêmico ou organizacional: liga o conhecimento das partes ao
conhecimento do todo, conforme a ponte indicada por Pascal e
mencionada antes: "Tenho por impossível conhecer o todo sem
conhecer as partes, e conhecer as partes sem conhecer o todo". A
idéia sistêmica, oposta à reducionista, entende que "o todo é
mais do que a soma das partes". Do átomo à estrela, da bactéria
ao homem e à sociedade, a organização do todo produz qualidades ou
propriedades novas em relação às partes consideradas isoladamente:
as emergências. A organização do ser vivo gera qualidades
desconhecidas de seus componentes físico-químicos. Acrescentemos que
o todo é menos do que a soma das partes, cujas qualidades são
inibidas pela organização de conjunto.
-
Princípio
"hologramático" (inspirado no holograma, no qual cada ponto
contém a quase totalidade da informação do objeto representado):
coloca em evidência o aparente paradoxo dos Sistemas complexos, onde
não somente a parte está no todo, mas o todo se inscreve na parte.
Cada célula é parte do todo – organismo global – mas o próprio
todo está na parte: a totalidade do patrimônio genético está
presente em cada célula individual; a sociedade como todo, aparece em
cada indivíduo, através da linguagem, da cultura, das normas.
-
Princípio
do anel retroativo: introduzido por Norbert Wiener, permite o
conhecimento dos processos de auto-regulação. Rompe com o princípio
de causalidade linear: a causa age sobre o efeito, e este sobre a
causa, como no sistema de aquecimento no qual o termostato regula a
situação da caldeira. Esse mecanismo de regulação permite a
autonomia do sistema, neste caso, a autonomia térmica de um
apartamento em relação ao frio exterior. De maneira mais complexa, a
"homeostase" de um organismo vivo é um conjunto de
processos reguladores fundados sobre múltiplas retroações. O anel
de retroação (ou feedback) possibilita,
na sua forma negativa, reduzir o desvio e, assim, estabilizar um
sistema. Na sua forma mais positiva, o feedback
é um mecanismo amplificador; por exemplo, na situação de
apogeu de um conflito: a violência de um protagonista desencadeia uma
reação violenta que, por sua vez, determina outra reação ainda
mais violenta. Inflacionistas ou estabilizadoras, as retroações são
numerosas nos fenômenos econômicos, sociais, políticos ou psicológicos.
-
Princípio
do anel recursivo: supera a noção de regulação com a de autoprodução
e auto-organização. É um anel gerador, no qual os produtos e os
efeitos são produtores e causadores do que os produz. Nós, indivíduos,
somos os produtos de um sistema de reprodução oriundo do fundo dos
tempos. Mas esse sistema só pode reproduzir-se se nós mesmos nos
tomamos produtores pelo acasalamento. Os indivíduos humanos produzem
a sociedade nas – e através de – suas interações, mas a
sociedade, enquanto todo emergente, produz a humanidade desses indivíduos
aportando-lhes a linguagem e a cultura.
-
Princípio
de auto-eco-organização (autonomia/dependência): os seres vivos são
auto-organizadores que se autoproduzem incessantemente, e através
disso despendem energia para salvaguardar a própria autonomia. Como têm
necessidade de extrair energia, informação e organização no próprio
meio ambiente, a autonomia deles é inseparável dessa dependência, e
torna-se imperativo concebê-Ios como auto-eco-organizadores. O princípio
de auto-eco-organização vale evidentemente de maneira específica
para os humanos, que desenvolvem a sua autonomia na dependência da
cultura, e para as sociedades que dependem do meio geo-ecológico. Um
aspecto determinante da auto-eco-organização é que esta se regenera
em permanência a partir da morte de suas células,conforme a fórmula
de Heráclito, "viver de morte, morrer de vida", e que as
duas idéias antagônicas de morte e de vida são aí complementares,
mesmo permanecendo antagônicas.
-
Princípio
dialógico: vem justamente de ser ilustrado pela fórmula
heraclitoniana. Une dois princípios ou noções devendo excluir um ao
outro, mas que são indissociáveis numa mesma realidade. Deve-se
conceber uma dialógica ordem/desordem/organização desde o
nascimento do universo: a partir de uma agitação calorífica
(desordem) onde, em certas condições (encontros ao acaso), princípios
de ordem permitirão a constituição de núcleos, átomos, galáxias
e estrelas. Tem-se ainda essa dialógica quando da emergência da vida
através dos encontros entre macromoléculas no interior de uma espécie
de anel autoprodutor, que terminará por se tornar auto-organização
viva. Sob as formas mais diversas, a dialógica entre a ordem, a
desordem e a organização, através de inumeráveis inter-retroações,
está constantemente em ação nos mundos físico, biológico e
humano. A dialógica permite assumir racionalmente a associação de
noções contraditórias para conceber um mesmo fenômeno complexo.
Niels Bohr reconheceu, por exemplo, a necessidade de ver as partículas
físicas ao mesmo tempo como corpúsculos e como ondas. Nós mesmos
somos seres separados e autônomos, fazendo parte de duas
continuidades inseparáveis, a espécie e a sociedade. Quando se
considera a espécie ou a sociedade, o indivíduo desaparece; quando
se considera o indivíduo, a espécie e a sociedade desaparecem. O
pensamento complexo assume dialogicamente os dois termos que tendem a
se excluir.
-
Princípio
da re-introdução daquele que conhece em todo conhecimento: esse
princípio opera a restauração do sujeito e ilumina a problemática
cognitiva central: da percepção à teoria científica, todo
conhecimento é uma reconstrução/tradução por um espírito/cérebro
numa certa cultura e num determinado tempo.
Eis
alguns dos princípios que guiam os procedimentos cognitivos do pensamento
complexo. Não se trata, de forma alguma, de um pensamento que expulsa a
certeza com a incerteza, a separação com a inseparabilidade, a lógica
para autorizar-se todas as transgressões. A démarche
consiste, ao contrário, num ir e vir constantes entre certezas e
incertezas, entre o elementar e o global, entre o separável e o inseparável.
Ela utiliza a lógica clássica e os princípios de identidade, de não-contradição,
de dedução, de indução, mas conhece-Ihes os limites e sabe que, em
certos casos, deve-se transgredi-Ios.
Não
se trata portanto de abandonar os princípios de ordem, de separabilidade
e de lógica – mas de integrá-Ios
numa concepção mais rica. Não se trata de opor um holismo global vazio
ao reducionismo mutilante. Trata-se de repor as partes na totalidade, de
articular os princípios de ordem e de desordem, de separação e de união,
de autonomia e de dependência, em dialógica (complementares,
concorrentes e antagônicos) no universo.
Em
suma, o pensamento complexo não é o contrário do pensamento
simplificador, mas integra este; como diria Hegel, ele opera a união da
simplicidade e da complexidade e, mesmo no meta-sistema constituído, faz
aparecer a sua própria simplicidade. O paradigma da complexidade pode ser
enunciado não menos simplesmente que o da simplificação: este impõe
separar e reduzir; aquele une enquanto distingue.
O
pano de fundo filosófico
Encontram-se,
na história da filosofia ocidental e oriental, numerosos elementos e
premissas de um pensamento da complexidade. Desde a Antigüidade, o
pensamento chinês funda-se sobre a relação dialógica (complementar e
antagônica) entre o yin e o yang e, segundo Lao Tsé, a união dos contrários
caracteriza a realidade. No século XVII, Fang Yizhi formula um verdadeiro
princípio de complexidade. No Ocidente, Heráclito estabeleceu a
necessidade de associar termos contraditórios. Na idade clássica, Pascal
é o pensador chave da complexidade. Mais tarde. Kant pôs em evidência
os limites e as "aporias" da razão. Leibniz formula o princípio
da unidade complexa, da unidade do múltiplo.
Spinoza
aporta a idéia de autoprodução do mundo. Em Hegel, essa autoconstituição
torna-se o romance épico no qual o espírito emerge da natureza para
atingir a sua realização, e sua dialética, prolongada pela de Marx,
anuncia a dialógica. Nietzsche anunciou a crise dos fundamentos da
certeza. No meta-marxismo, tem-se, com Adorno, Horkheimer e o Lukács
tardio, não somente numerosos elementos de uma crítica da razão clássica,
mas muitos alimentos para uma concepção da complexidade.
No
século XIX, enquanto a ciência ignorava o individual, o singular, o
concreto e o histórico, a literatura e singularmente o romance revelaram
a complexidade humana, de Balzac a Dostoievski e Proust.
Na
época contemporânea, o pensamento complexo elabora-se nos interstícios
das disciplinas, a partir de pensadores matemáticos (Wiener, von Neumann,
von Foerster), especialistas em termodinâmica (Prigogine), biofísicos (Atlan),
filósofos (Castoriadis). As duas revoluções científicas do século só
podiam estimulá-lo. A primeira revolução introduz a incerteza com a
termodinâmica, a física quântica e a cosmofísica, desencadeando as
reflexões epistemológicas de Popper, Kuhn, Holton, Lakatos. Feyerabend;
estes mostraram que a ciência não era a certeza, mas a hipótese; que
uma teoria provada não o era definitivamente, e permanecia "falseável",
que havia do não-científico (postulados, paradigmas, themata) no coração da própria cientificidade.
A
segunda revolução científica – mais recente, ainda inacabada –, a
revolução sistêmica, introduz a organização nas ciências da terra e
a ciência ecológica; ela se prolongará, sem dúvida, em revolução de
auto-eco-organização na biologia e na sociologia.
O
pensamento complexo é, portanto, essencialmente aquele que trata com a
incerteza e consegue conceber a organização. Apto a unir, contratualizar,
globalizar, mas ao mesmo tempo a reconhecer o singular, o individual e o
concreto.
O
pensamento complexo não se reduz nem à ciência, nem à filosofia, mas
permite a comunicação entre elas, servindo-Ihes de ponte. O modo
complexo de pensar não tem utilidade somente nos problemas
organizacionais, sociais e políticos, pois um pensamento que enfrenta a
incerteza pode esclarecer as estratégias no nosso mundo incerto; o
pensamento que une pode iluminar uma ética da religação ou da
solidariedade. O pensamento da complexidade tem igualmente seus
prolongamentos existenciais ao postular a compreensão entre os homens.
Por
uma reforma da universidade do pensamento
A
complexidade exige uma reforma de pensamento, o que pressupõe mudar a
universidade. Como fazê-Ia? Há uma dupla missão: a universidade deve se
adaptar à sociedade ou a sociedade deve se adaptar à universidade? Todos
adivinharão que recusarei a escolha e tentarei ultrapassá-Ia de forma
complexa. Ainda que tenha antecedentes em Bagdá e em Fez, a universidade,
como se disse com freqüência, é o grande presente da Europa medieval à
Europa moderna. Em menos de dois séculos, uma constelação de
universidades jorrou de Bolonha a Upsala, de Coimbra a Praga. A
universidade é conservadora, regeneradora, geradora. Conserva, memoriza,
integra, ritualiza um patrimônio cognitivo; regenera-o pelo reexame,
atualizando-o, transmitindo-o; gera saber e cultura que entram nessa herança.
A
esse título, a universidade tem uma missão e uma função transecular
que, via presente, vai do passado para o futuro; missão transnacional que
guardou a despeito
da tendência ao fechamento nacionalista das nações modernas. E dispõe
de uma autonomia que lhe permite realizar essa missão.
Segundo
os dois sentidos do termo conservação, o caráter conservador da
universidade pode ser vital ou estéril. A conservação é vital se ela
significa salvaguarda e preservação, pois só se pode preparar um futuro
salvando um passado, e estamos num século em que múltiplas e potentes
forças de desintegração cultural atuam. Mas a conservação é estéril
se dogmática, congelada, rígida. Assim, a Sorbonne condenou todos os
progressos científicos do século XVII, e a ciência moderna formou-se em
grande parte fora das universidades ao longo desse século.
Mas
a universidade soube responder ao desafio do desenvolvimento das ciências
operando sua grande mutação no século XIX. Ela se laicizou, isto é,
abriu-se à grande problematização generalizada e fundamental oriunda do
Renascimento, que diz respeito ao mundo, à natureza, à vida, ao homem, a
Deus. A universidade tomou-se o lugar por excelência da problematização,
recolhendo nela a essência da cultura européia moderna, e através disso
se inscreveu mais profundamente na sua missão transecular, reatando com a
Antigüidade grega e romana, e inclinando-se para um futuro cognitivo a
descobrir ou conquistar.
A
primeira mutação institucional se opera em Berlim, em 1809, quando
Humboldt conta com o apoio de um "déspota esclarecido". A
laicização é a base da reforma; ela estabelece a autonomia da
universidade em relação à religião e ao poder; instaura a liberdade
interior (o princípio da livre consciência); instala de maneira geral a
problematização.
A
reforma introduz as ciências modernas, com a criação de departamentos
que vão se multiplicar com as novas ciências. A universidade vai desde
então fazer coexistir – infelizmente apenas coexistir, e não comunicar
– duas culturas, a cultura das humanidades e a cultura da
cientificidade.
Ao
criar os departamentos, Humboldt tinha muito bem visto o caráter
transecular da integração das ciências na universidade. Para ele, a
universidade não podia ter por vocação direta uma formação
profissional (conveniente para as escolas técnicas), mas uma vocação
indireta pela formação de uma atitude de pesquisa.
De
onde a dupla função paradoxal da universidade: adaptar-se à modernidade
científica e integrá-Ia, responder às necessidades fundamentais de
formação, fornecer professores às novas profissões técnicas e outras,
mas também fornecer um ensino meta-profissional, meta-técnico.
-
Inocular
na sociedade uma cultura que não é feita para as formas provisórias
ou efêmeras do hic et nunc, mas
que é, contudo, feita para ajudar os cidadãos a viver o destino hic
et nunc.
-
Defender,
ilustrar e promover no mundo social e político os valores intrínsecos
à cultura universitária: autonomia da consciência, problematização
(com sua conseqüência, que é a manutenção da pesquisa aberta e
plural), primado da verdade sobre a utilidade, a ética do
conhecimento.
De
onde a vocação expressa na dedicatória do frontão da Universidade de
Heidelberg: "Ao espírito vivo".
Há
complementaridade e antagonismo entre as duas missões: adaptar-se à
sociedade e adaptar a si a sociedade – uma remete a outra, num círculo
que deveria ser produtivo. Não se trata somente de modernizar a cultura,
trata-se de culturalizar a modernidade.
Os desafios
do século XX
O
século XX impôs vários desafios à dupla missão. Há antes de tudo a
pressão super-adaptativa que força a conformar o ensino e a pesquisa às
demandas econômicas, técnicas, administrativas do momento, a se
conformar aos últimos métodos, às últimas receitas no mercado, a
reduzir o ensino geral, a marginalizar a cultura humanista. Ora, sempre na
vida e na história, a super-adaptação a condições dadas foi não
signo de vitalidade, mas anúncio de senilidade e de morte, pela perda da
substância inventiva e criadora.
Existe,
além disso, a compartimentação e a disjunção entre cultura humanista
e cultura científica, acompanhadas pela compartimentação entre as
diferentes ciências e disciplinas. A não comunicação entre as duas
culturas determina graves conseqüências para ambas. A cultura humanista
revitaliza as obras do passado; a cultura científica só valoriza as
aquisições do presente. A cultura humanista é uma cultura geral que,
via filosofia, ensaio, romance, expõe os problemas humanos fundamentais e
reclama a reflexão. A cultura científica suscita um pensamento fadado à
teoria, mas não uma reflexão sobre o destino humano e sobre o futuro da
própria ciência. A fronteira entre as duas culturas atravessa, de um
extremo a outro, a sociologia, mas esta se deixa esquartejar em vez de
tentar uma ponte de ligação.
Tudo
isso exige uma reforma do pensamento. O saber medieval era demasiado bem
organizado e podia tomar a forma de uma "suma" coerente. O saber
contemporâneo é disperso, separado, fechado. Já há uma reorganização
do saber em curso. A ecologia científica, as ciências da terra, a
cosmologia etc, são ciências pluridisciplinares que têm por objeto não
um território ou um setor, mas um sistema complexo: o ecossistema e, mais
amplamente, a biosfera para a
ecologia, o sistema terra para as ciências da terra e, para a cosmologia,
a estranha propensão do universo a formar e arruinar os sistemas galácticos
e solares.
Por
toda parte, se reconhece a necessidade de interdisciplinaridade, esperando
o reconhecimento da relevância da transdisciplinaridade, seja para o
estudo da saúde, da velhice, da juventude, das cidades. Mas a
transdisciplinaridade só é uma solução no caso de uma reforma do
pensamento. É preciso substituir um pensamento que separa por um
pensamento que une, e essa ligação exige a substituição da causalidade
unilinear e unidimensional por uma causalidade em círculo e
multi-referencial, assim como a troca da rigidez da lógica clássica por
uma dialógica capaz de conceber noções ao mesmo tempo complementares e
antagônicas; que o conhecimento da integração das partes num todo seja
completada pelo reconhecimento da integração do todo no interior das
partes.
A
reforma do pensamento permitirá frear a regressão democrática que
suscita, em todos os campos da política, a expansão da autoridade dos experts,
especialistas de todos os tipos, estreitando progressivamente a
competência dos cidadãos, condenados à aceitação ignorante das decisões
dos pretensos conhecedores, mas de fato praticantes de uma inteligência
cega, posto que parcelar e abstrata, evitando a globalidade e a
contextualização dos problemas.
O
desenvolvimento de uma democracia cognitiva só é possível numa
reorganização do saber, a qual reclama uma reforma do pensamento capaz
de permitir não somente a separação para conhecer, mas a ligação do
que está separado.
Trata-se
de uma reforma muito mais profunda e ampla do que a de uma democratização
do ensino universitário e da generalização da condição de estudante.
Trata-se de uma reforma não programática, mas paradigmática, que diz
respeito à nossa atitude em relação à organização do conhecimento.
Toda
reforma desse tipo suscita um paradoxo: não se pode reformar a instituição
(as estruturas universitárias) sem a reforma anterior das mentes; mas não
é possível reformar as mentes sem antes reformar a instituição. Eis
uma impossibilidade lógica, mas é justamente desse tipo de
impossibilidade lógica que a vida zomba. Quem educará os educadores? É
necessário que eles se auto-eduquem, e se eduquem prestando atenção às
gritantes necessidades do século, as quais são encarnadas também pelos
estudantes.
Certo,
a reforma se anunciará a partir de iniciativas marginais, freqüentemente
aberrantes; mas caberá à própria universidade realizar a reforma. No
seu relatório anual de 1986, o reitor de Harvard declarou: "Nem o
jogo da concorrência, nem os esforços deliberados dos reformadores
externos foram capazes de garantir um constante nível elevado de
atividades. É a Universidade que deve encarregar-se dessa tarefa
vital".
Sim,
precisa-se de idéias externas, críticas e contestações de fora, mas é
fundamental, sobretudo, a reflexão interna. A reforma virá do interior,
através do retomo às fontes do pensamento europeu moderno: a
problematização. Hoje, não basta problematizar o homem, deve-se
problematizar a ciência, a técnica – o que acreditávamos ser a razão
e era, com freqüência. uma abstrata racionalização.
Uma
psicologia cognitiva elementar nos lembra algumas evidências que não
deveríamos nunca esquecer:
-
O
cérebro humano é, como o dizia H. Simon, um g.s.p., General Setting Problems e
também General Solving
Problems.
Mais potente é a sua atitude geral, e maior será a sua
atitude para tratar de problemas particulares.
-
O
conhecimento progride, principalmente, não por sofisticação na
formalização e na abstração, mas através da capacidade em
contextualizar e em globalizar. Essa capacidade necessita de uma
cultura geral e diversificada, e, estimulada essa cultura, o pleno
emprego da inteligência geral, isto é, o espírito vivo.
Eis
a perspectiva para o novo milênio. A universidade deve ultrapassar-se
para se reencontrar.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
|