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A
Ciência Numa Era de Transição
Ilya
Prigogine
(http://www.mct.gov.br/cee/revista/Parcerias3/ciencia.htm)
No século XX, o mundo
experimentou a maior expansão da sua população e da sua capacidade produtiva,
um fenômeno que provocou um crescimento em escala de todas as atividades
humanas. Um outro elemento foi a emancipação de todos os povos não-europeus
do mundo. Em todos os campos, temos que enxergar além da
tradicional visão eurocêntrica.
No século XIX, testemunhamos a fragmentação das Ciências Humanas e o
surgimento da Economia, da Sociologia e das Ciências Políticas. Está claro
que, agora, temos de superar essas barreiras. Acima de tudo, em cada área do
conhecimento, as ideologias tradicionais estão postas em questão. A humanidade
vive em uma era de transição.
Neste curto artigo,
gostaria de enfatizar que a ciência igualmente está numa era de transição.
Também, aqui, temos que ir além da
visão eurocêntrica
e da fragmentação do conhecimento, herdada do passado.
Muitos historiadores
concordam que um papel essencial no surgimento da ciência ocidental, que
predominou desde o século XVII, foi desempenhado por uma visão teológica, na qual Deus foi
concebido como legislador onipotente. O modelo para a ciência foi a física
newtoniana, segundo a qual existe uma completa simetria entre o passado e o
futuro. Essa foi uma visão quase
teológica: da mesma forma que Deus, não necessitamos
distinguir o passado do futuro e, também como
Ele, podemos chegar a certezas. A descoberta das leis determinísticas da
natureza, as leis de Newton para a física quântica, trouxe, assim, o
conhecimento humano para mais perto do ponto de vista divino e atemporal. Mas,
esse conceito do mundo como um autônomo levou ao dualismo que ainda aflige a
cultura ocidental. Como reconciliar a visão newtoniana
com a experiência humana? Essa é a origem das duas culturas como foram
descritas por Snov. O conceito de uma natureza passiva submetida a leis determinísticas
e reversíveis é muito específico do mundo ocidental. Na China e no Japão, a
natureza representa "aquilo que existe por si só". Grandes cientistas
japoneses, como H. Yukawa, sempre se sentiram estranhos quando confrontados com
a visão ocidental
da natureza.
Em outubro de 1984, foi
lançado em número especial o "Scientific American", dedicado ao tema
"Vida no Universo". Em todos os níveis, seja na Cosmologia, na Química,
na Biologia ou nas Ciências Humanas, observamos instabilidade, flutuações e
evolução. Quem poderia ter sonhado, no começo do
século XX, que as partículas mais elementares são instáveis e que o nosso
universo tem sua história?
A ciência também
está num período de transição.
Partimos da visão geométrica clássica na direção de uma nova descrição da
natureza na qual o elemento narrativo é essencial. A natureza nos conta uma
"história". Mas ela exige novas ferramentas operacionais e novas visões
com relação ao espaço e
ao tempo. Acredito que começamos a ver a direção em que teremos que ir para
nos capacitarmos a incluir esses novos aspectos narrativos em nossa descrição
fundamental da natureza.
Um outro campo de
estudo relevante é o da física do não-equilíbrio. Próximo do equilíbrio,
um sistema é estável - um exemplo simples é um pêndulo com atrito. Quando
você o impulsiona, ele retorna ao estado de energia potencial mínima, que
constitui seu estado de equilíbrio. Mas, em muitos outros campos, seja na Química
ou no estudo dos fluidos, estamos interessados nas condições de desequilíbrio.
Existem restrições que impedem um sistema de alcançar o equilíbrio. Um
exemplo simples é a ecosfera. A radiação solar a impede de alcançar o equilíbrio.
O ponto importante é que, estando muito afastado do equilíbrio, não há mais nenhuma garantia de que o
sistema impulsionado voltará a seu estado inicial. Ao contrário, o sistema
começa a
explorar novas estruturas e novas espécies de organizações espaço-tempo, as
quais chamo de estruturas dissipativas. Uma nova coerência surge, e conduz, por
exemplo, a propriedades ondulatórias, como as que são encontradas
nas reações químicas oscilatórias. Nesse caso, todas as moléculas se tornam
simultaneamente "azuis" e depois todas se tornam
"vermelhas", e assim por diante. Isso é espantoso porque, para haver
a mudança de
cores, você necessita de processos coerentes que envolvem bilhões de partículas.
Costumo descrever esse comportamento dizendo que a matéria "próxima do
equilíbrio" é cega, e cada molécula só pode ver os seus vizinhos.
Distante do equilíbrio, entretanto, você tem correlações de longo alcance
essenciais na construção de novas estruturas. A vida seria impossível na ausência
desses processos de equilíbrio.
Agora podemos ir mais
além e
classificar a figura atômica ou molecular que conduz a tais fenômenos. A física
tradicional estava concentrando a pesquisa em trajetórias individuais (ou funções
oscilatórias na teoria quântica). Agora chegamos ao conceito de "populações".
As populações de trajetórias adquirem novas propriedades. Nesse caso, mais
uma vez, o total é maior do que a soma de suas partes. É no nível das populações que
emerge a distinção entre o passado e o futuro, a "flecha" do tempo.
Mas, agora, as "leis da natureza" não mais
se referem a certezas e, sim, a possibilidades.
Desde o alvorecer da
racionalidade, os filósofos estão discutindo
acerca da visão de
natureza que adotamos. Nós somos, como K. Popper imaginou, espectadores de um
filme já feito e concluído? Nós não sabemos
quem será assassinado e quem é o assassino. Mas, o produtor sabe. Estamos em
um mundo em que o futuro é uma constante edificação?
Acredito que fatos
recentes aos quais já aludi mostram que a segunda concepção está correta.
Mas isso significa que agora podemos suplantar o dualismo que mencionei
anteriormente. Isso reduz a distinção entre as Ciências Exatas e sua busca
das certezas e entre as Ciências Humanas, com suas limitações de
previsibilidade. Essa redução de contradições não implica,
como frequentemente ocorria com as tentativas de unificação praticadas no
passado, entendermos a humanidade como um mecanismo, mas, em vez disso,
entendermos a natureza em suas atividades e criações. Nesse sentido, essa
concepção da ciência vai além do
ponto de vista eurocêntrico e conduz a uma mensagem mais universal, mais aceitável
para outras culturas.
Eu também
acredito que a mudança de um ponto de vista determinístico
para outro que reconhecerá o
papel central desempenhado pela probabilidade e pela irreversibilidade está
associado a uma visão mais
otimista da natureza e das atividades dos seres humanos. Em um ponto Einstein
formula a questão intrigante:
"Quem faria a ciência?" A sua resposta seria: "pessoas que não gostam de viver em ambientes
superlotados, pessoas que gostam de ir para altas montanhas e beneficiar-se do
ar fresco, e de estar em harmonia com a natureza". Para Einstein,
considerado o maior representante da ciência clássica, essa era a maneira de
transcender a tragédia do tempo. Einstein estava vivendo um difícil momento
histórico, caracterizado por guerra e anti-semitismo. Para ele, a ciência era
a maneira de escapar das desgraças da história. É esse
ainda o papel da ciência? Não será
o papel da ciência atual mais voltado para a limpeza de cidades poluídas do
que para a fuga nas montanhas?
Qual é pois, o papel
da ciência hoje em dia? Permitam-me concluir com uma observação pessoal e utópica.
Sempre estive interessado em civilizações neolíticas. Enquanto as civilizações
neolíticas marcharam no sentido das civilizações históricas, notam-se o
surgimento não somente
da grande arte, mas também da
divisão do
trabalho, e aumento da violência e das desigualdades. Isso está evidente na natureza das
sepulturas. No período neolítico, as sepulturas eram iguais para todos.
Compara-se essa uniformidade com as pirâmides dos faraós ou com as câmaras
mortuárias dos imperadores da China nos tempos históricos. De certa forma, a
civilização sempre caracterizou-se por um duplo aspecto: a criação de
valores que são benefícios, mas que só se tornaram possíveis pela implementação
de um processo sistemático de violência. Esse problema ainda não foi resolvido. É
minha esperança que, graças à ciência e ao
aperfeiçoamento das comunicações, possamos construir um mundo que apresente
menos iniqüidades, menos violência implícita, e, ao mesmo tempo, preservar os
benefícios da civilização.
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