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(Um) literato, eu? Que nada, ainda que (um) meu sonho o fosse. Ah, fazer vergarem as palavras, tangerem as frases! mas acima de tudo, chorarem as almas, enquanto riem, chorando, aparvalhadas. Que a poesia é mesmo u'a mão que nos arranca... |
Deles e delas |
Meus |
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Florbela Espanca
Minh'alma,
de sonhar-te, anda perdida (Livro de Soror Saudade, 1923) [enquanto a ouve cantada por Fagner]
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Florbela Espanca
Eu
sou a que no mundo anda perdida,
(Livro das Mágoas, 1919)
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Manuel Bandeira
Enfunando os papos, saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra Berra o sapo-boi: --"meu pai foi à guerra!" --"Não foi!" --"Foi!" --"Não foi!".
O sapo-tanoeiro, Parnasiano aguado, Diz: -- "Meu cancioneiro É bem martelado.
Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos.
O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio.
Vai por cinqüenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A formas a forma.
Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia Mas há artes poéticas..."
Urra o sapo boi: --"Meu pai foi rei" -- "Foi!" --"Não foi!" --"Foi!" --"Não foi!".
Brada em um assomo O sapo-tanoeiro: --"A grande arte é como Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário. Tudo quanto é belo, Tudo quanto é vário, Canta no martelo."
Outros, sapos-pipas (Um mal em si cabe), Falam pelas tripas: --"Sei!" --"Não sabe!" --"Sabe!".
Longe dessa grita, Lá onde mais densa A noite infinita Verte a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo, Sem glória, sem fé, No perau profundo E solitário, é Que soluças tu, Transido de frio, Sapo cururu Da beira do rio 1918 De Carnaval (1919)
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Olavo Bilac XIII
"Ora
(direis) ouvir estrelas! Certo
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– complexidade romântica da alma Osvaldo Luiz Ribeiro 07/06/2007 Quem diria?, libertar Deus. Quem diria? Primeiro tê-lo morto, depois dizê-lo morto, e, então, libertá-lo. Morto e livre, volta a ser Inefável, como convém ao Ancião de Dias – na condição de que seja deixado morto, seja dito morto, e seja livre. Tirarmos as correntes de seus tornozelos, desafivelarmos a coleira de seu pescoço, desamarrarmos os nós da camisa de força, abrirmos as algemas de seus punhos, taparmos seus ouvidos a nossos encantos mágicos, a nossos gritos de dor. Deixá-lo chorar, sozinho, nossas misérias. Olhar para dentro de nós, para nossa história, biologicamente, antropologicamente, sociologicamente, sempre, epistemológica e noologicamente – conscientemente. Não mais esconderijos, por medo que seja, pelo poder, porque sempre se fez assim, por ignorância. Olhar no espelho, e apenas sentir saudades. Como Bohr olhou para o abismo, e sorriu incertezas, deixar que Deus jogue seus dados, de mil faces, em cada qual um rosto humano, rolando sobre si mesmo, entre acasos e dor, entre fogos e gozos, todavia. Mas, ah, tragédia, ah, solidão, olhar sempre as estrelas, lá em cima, e a pele e a carne e os ossos e o sangue, e sorrir para o Ancestral... Mas, ai, se ele sorrir de volta, tornar a matá-lo, gritar que ele morreu, e deixá-lo livre. Não, tu não podes dizer: “_ Tu estás morto!”. Crê-me, não o podes. Mas, sim, é teu dever, gritar, sobre os montes, dentro do teu coração, sob a gordura do teu fígado: “_ Ele está morto, ele está livre, por nós”. Tu o deves. Tu deves isso a ele.
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Olavo Bilac
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Osvaldo Luiz Ribeiro 19/07/2007 Há uma poesia aqui, eu quero dizer, o dito no não-dito, que o dizer não diz e que o papel não conta. Há uma poesia aqui, uma metáfora aí dentro, olhando de soslaio, a ver se vai ser pega, se não vai, tremendo de medo de ser, de não ser. Há uma poesia aqui, que não quer a culpa de não ter culpa, o peso da expressão, a clareza da água, pelo que se esconde, e cose folhas de figueira. Há uma poesia aqui. Sente-se-lhe o cheiro, pura libido líquida, emulsão erótica de corpo e sonho na penumbra. Há uma poesia aqui, flor exposta – impudica, à fecundação dos olhos, ao inebriar de ouvidos, ávidos de ouvir e ver – mas tão somente – que tocar ela não deixa. Há uma poesia aqui, adormecida e bela. Vê o arfar dos peitos, subindo e descendo, prenúncio ancestral do que se chama amor? Não se espere mais – que se aproxime da boca entreaberta, da língua insinuada, da carne morna, da saliva doce, um beijo excitado. Boca sobre boca, tropeça e cai, a alma incauta, capturada, que sobretudo, no centro da poesia, vê-se Aracnes de olhos de poço e teias de visgo. Prudência, moço, prudência, que, se ela pega um, é para ter nele um escravo, que seu desejo é por imberbes. Há, sim, moço, uma poesia aqui. Por isso, cuidado, por isso, temor, que as deusas, mais que mães, são mortais, posto que a vida, moço, cuidado, é pulsão de morte.
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Osvaldo Luiz Ribeiro 24/08/2007
Desses de espada e lança, Desses de montaria imponente, Desses de livros antigos, De pergaminhos e papiros, Módulos de São Jorge, Don Quixote E Brancaleone, Desses visionários – a teologia é oftalmológica! – me arrancasse do peito o nó, O dragão dos instintos, O moinho mítico, Os campos de trigo. Ah, eu dormiria em paz, Sem o vento em minhas pás, Sem o sopro ígneo de meu hálito, Sem meu ondular amarelo de van Gogh. Ah, eu perambularia sob as estrelas, Sem que o peso delas, Sem que o som das vozes delas, Esmagassem-me carne e tímpanos. Ah, eu sonharia à beira-mar, Que eu era as ondas, Indo e vindo, Sem nunca sair da ponte que eu sou – outro louco me chega à boca... Mas chegam-me apenas homeopatas. A cura me virá de meu veneno? Jogarem-me à cara minha, A violência minha que fiz, A loucura minha que inventei, As pantomimas minhas de domingo, Fazem deles outra coisa Que não o outro lado de mim? E de mim outra coisa, Que não esse pote de mistério? Ah, eu conto a minha dor, De dormir, de perambular, De sonhar, sob o peso. Eu não consigo, Mestres de Furnas, Apagar a luz.
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Osvaldo Luiz Ribeiro 26/08/2007 Deus tem que ter os olhos dela! E, se não, está em desvantagem – quase posso entrar nos olhos dela, enquanto os dele são miragem... Bem que eu li num livro de viagem: foi-me arrancada uma costela, as mãos de Deus sobre ela agem, vindo à luz o ser que ele modela. Isso talvez soe uma bobagem, Mas, nascida, corre em desatino, a meter-se, nua, entre a folhagem. Não me pega mais, é meu destino, Foi preciso, sim, muita coragem, Eu furtar pra mim o olhar divino.
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© Osvaldo Luiz Ribeiro
– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –
– página atualizada em 13/09/2007 01:10:20 –