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“A
terra” e “as águas” originais
história e linguagem mítica em Gn 1,1-3
Osvaldo Luiz Ribeiro[2]
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Osvaldo
Luiz RIBEIRO, A "terra”
e “as águas” originais. História
e linguagem mítica em Gn 1,1-3. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n.
80, p. 40-48, 2003.
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hû´-yibnè
`îrî wügälûtî yüšallëªH
x:Lev;y>
ytiWlg"w> yrIy[i hn<b.yI-aWh
Ele,
sim, construirá a minha cidade,
e
os meus exilados (ele é que) reconduzirá
Is 45,13
As
águas estavam e estão presentes. Onipresentes. Dizer que “a terra
e os céus” saíram das águas ainda é pouco. À luz de Gn 1,1-3, “a
terra” é “as águas”. Águas das criações (Criação), e
águas das destruições (Dilúvio) – o mundo de Jerusalém, o mundo do
Templo de Jerusalém, o mundo do povo do Templo de Jerusalém – tudo isso é
uma metáfora mítico-poética e político-religiosa de águas originais...
“A
terra” “é” “Jerusalém”[3]
Estou
começando a gostar da possibilidade de ler Gn 1,1-3 mais ou menos na esteira de
Rashi[4].
No momento, “testo” ler assim:
(1a) No princípio do criar de
´élöhîm (1b) os
céus e a terra,
(2a) então a terra era um deserto e uma desolação,
(2ba) e treva sobre as
faces do Abismo,
(2bb) e um vento
tempestuoso soprava sobre as faces das águas.
(3a)
E disse ´élöhîm: “Seja a luz”. (3b) E a luz foi.
Se
esse “teste” de vocalização de br’
como “criar” (e não “criou”) estiver correto[5],
a relação sintática entre as orações assume um contorno específico. A
oração do v. 2a funciona como uma oração principal.
“A terra era um deserto e uma desolação” é o marco zero da
narrativa. É o “cenário”. “Cenário”, não – é a
própria “cena”, onde tudo começa. A oração do v. 1a serve-lhe em
termos de subordinação adverbial temporal. “No princípio do criar de ´élöhîm
...” é o idiomatismo judaico para dizer “quando ´élöhîm
começou a criar...”. O v. 1a representa a “instalação”
circunstancial de 2a: a terra era, “então”, um deserto e uma
desolação, isto é, ali “quando” ´élöhîm
começou a criar “os céus e a terra”. As duas orações dos v.
2ba e 2bb
funcionariam como orações substantivas apositivas, cuja função seria “descrever,
explicando” aquela situação de deserto (não há habitantes) e
desolação (devastação) da terra. Elas dizem que a terra era, “então”,
um töhû wäböhû
, dizendo que a escuridão
estava lá, e que um vento tempestuoso soprava, um vento violentíssimo,
um vento de ´élöhîm
... Diante desse “caos”,
não em sentido “grego”, mas desse “caos” no mesmo
sentido que se pode depreender de Jr 4,5-31*[6], “então”
´élöhîm
abre a boca: “Seja a luz”. E,
claro, “a luz foi”. É por isso que se pode tomar o v. 2a (“a
terra era um deserto e uma desolação”) como temporal em
relação ao v. 3 (“Haja luz. E a luz foi”), porque o v. 3 é um
paralelo do v. 1: quando ´élöhîm
começou a criar os céus e a terra, isto é, quando ele disse “haja
a luz”, tendo aí a luz vindo a ser, nesse momento, então, a terra era um
deserto (desabitada) e uma desolação (devastada). Dois imperadores estão
sentados nesses três versículos: Nabucodonozor, no v. 2, e Ciro, nos v. 1 e 3.
Nabucodonozor destrói. Ciro constrói (cf. Is 45,13).
Nesse
contexto, o oráculo de ‘Adonay Yahweh em Ez 26,19-21 pode servir como
arrimo para os argumentos acima. Particularmente, interessam aqui os v. 19-20a:
(Ez 26,19-20a)
Porque assim disse ‘Adonay Yahweh:
quando te puser uma cidade
devastada, como as cidades que não são habitadas;
quando fizer subir contra ti o abismo, e cobrirem-te as muitas águas,
então (eu) te farei descer com os descedores da cova para o povo de
outrora,
e te farei habitar em uma terra de profundidades,
como as devastações de outrora, com os descedores da cova.
Chamo
atenção para a estrutura de tempo organizada entre as orações, que se pode
comparar a de Gn 1,1-3: há uma oração principal (“então te farei descer
com os descedores da cova para o povo de outrora”, etc.), antecedida por
duas orações subordinadas adverbiais temporais (“quando te puser uma
cidade devastada...” e “quando fizer subir contra ti o abismo, e...”).
Ocorre o mesmo em Gn 1,1-2, com a diferença que ali há apenas uma oração
subordinada adverbial temporal, que, nesse caso da mesma forma que em Ez
26,19-20a, antecede a oração principal. Nos dois casos, a oração principal
é introduzida por um vav (w>), cuja função, nos dois casos, é
ligar à principal a oração subordinada precedente. É verdade que Gn 1,1-3
descreve uma cena passada, enquanto que Ez 26,19-21 pressupõe uma cena futura
– contudo, essa distinção não interfere na construção sintática, de modo
que se pode ver a mesma estrutura narrativa nas duas passagens. Ez 26,19-21 tem
ainda uma série de outras relações com Gn 1,1-3, que adiante serão
analisadas.
Em
Gn 1,3, a luz que nasce da boca de Elohim afasta a treva. “A terra”
começa a ser criada depois de a escuridão
ser afastada, e, naturalmente, depois de o vento ser acalmado[7].
Era o vento, agente da desertificação e da
desolação da terra, que a mantinha assim como estava, töhû wäböhû
. O
vento, tempestuoso que era (porque era um rûªH
’´élöhîm
,
cf. Jr 4,11-12), soprava violentamente sobre as águas. Essas “águas”
violentamente sopradas pelo vento tempestuoso são as “águas
originais” – mas “originais” num sentido muito específico,
porque, na narrativa, essas “águas originais” de Gn 1,2ba são ao mesmo
tempo “a terra” de 1,2a – esse deserto e essa desolação que, “então”,
ela era. “As águas” e “a terra” são a mesma coisa. Na
narrativa, representam a mesma grandeza, de tal forma que se poderia estruturar
Gn 1,1-3 da seguinte forma:
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v. 1
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“quando”
a terra era um deserto e uma desolação ´élöhîm
começa a criar
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v. 2a
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a terra descrita como deserto e desolação
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v. 2b
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a explicação do estado de desertificação e de
desolação da terra
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v. 3
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a “ação”
de criar de
´élöhîm
, “quando”
a terra era um deserto e uma desolação
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“A
terra” é o centro das
atenções em Gn 1,1-3, o “prólogo”
de Gn 1,1-2,4a, e o será também em Gn 1,28-2,4a (“enchei a terra”),
seu “epílogo”. É assim na narrativa porque está justamente sendo
assim “por trás”
dela. Digamos que enquanto Gn 1,1-2,4a está sendo escrito, Elohim está “criando
a terra”. Essa terra é Jerusalém. Na Sião “construída” (bnh),
um povo “criado” (br’) louvará Yâh
(cf. Sl 102,13-23). E, ([apenas] também) para louvá-lo, esse “povo”
redige sua cosmogonia...
“A
terra” é “as águas”
O
que se disse acima não faz mais do que recapitular os dois artigos da “série” Vento Tempestuoso[9].
Gn 1,1-2,4a consistiria numa peça político-religiosa, litúrgica, para a
inauguração do Templo de Jerusalém, ou, de qualquer forma, relacionada à
reconstrução de Jerusalém. Peça pós-exílica na sua redação, descreveria
a criação da cidade, do templo e do povo de Jerusalém à luz do tema
cosmogônico, mítico, porque esse era o jeito de se fazer a coisa, à época[10].
Nesse
momento, o que deve nos interessar é a correlação “‘a terra’ – ‘as
águas’”, discernível em Gn 1,1-3. Se “a terra”, ali
(e até 2,4a), representa “Jerusalém”, “o templo”, “o
povo”, então a expressão “as águas” comporta-se como uma
surpreendente metáfora mítica para a cena e o cenário da “criação”.
Tente-se um ensaio de estrutura:
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A
(1a) No princípio do criar de
´élöhîm
(1b) os
céus e a terra,
|
criação
|
|
B
(2a) então a
terra era um deserto e uma desolação,
|
a terra
|
|
C
(2ba) e treva
sobre as faces do Abismo,
|
treva
|
|
B’
(2bb) e um
vento tempestuoso soprava sobre as faces das águas.
|
as águas
|
|
A’
(3a)
E disse
´élöhîm
: “Seja a luz”.(3b) E a luz foi.
|
criação
|
Segundo
o ensaio de estrutura, A e
A’ são molduras externas cujo tema é a criação de ´élöhîm
, o seu ato
criador. C descreve o elemento negativo a ser superado, a treva,
que deve ser debelada pelo produto do ato criador, a luz. B e B’
descrevem o status quo da terra quando ´élöhîm
começa a criar. Aí “a terra” e “as águas”
são termos paralelos, e de 2a para 2bb dá-se o salto mítico: “a
terra”, que é
“a terra de Israel”, pelo ato de linguagem mítica de estrutura
político-religiosa em que consiste a cosmogonia, converte-se hipostaticamente
em “as águas”
originais. “A terra” em 2a ainda é pura história,
ainda é “a terra de Israel”, e só vai deixar de o ser – não que “deixe
de ser”, mas que assume dimensões mítico-fundantes – quando a linguagem
mítico-poética transportar leitor público e ouvintes para o mundo dos
deuses, in illo tempore[11].
Aqui e agora, a criação dá-se sobre a terra,
“a terra” é “Israel”, mas lá, no mundo dos deuses, na
dimensão da linguagem mítico-poética de fundação das cidades[12],
a criação deve se dar a partir das “águas”. Por isso “a terra”
deve tornar-se em “as águas”, porque o que vale na linguagem mítica
é o fundamento.
Outra
vez Ez 26,19-21a empresta ilustração para o argumento que venho de fazer.
Trata-se de um oráculo relacionado à cidade de Tiro[13].
A cidade será devastada; será deixada como as cidades sem habitantes. Isso
quer significar, em contexto de confronto, a devastação física da cidade, sua
destruição, o que, para o caso de Tiro, se sofreu considerável destruição
pelas mãos de Nabucodonozor durante um cerco de treze anos, efetivamente só se
consolidou pelas mãos de Alexandre, bastante mais tarde. De qualquer modo,
trata-se da referência à destruição causada pela guerra, de resto o mesmo
cenário que posso ver em Gn 1,2 – a terra devastada e desabitada, nesse caso
rigorosamente por conta de Nabucodonozor.
Agora
se deve dirigir os olhos para a coincidência de termos “míticos”
entre Gn 1,2 e Ez 26,19: “abismo”
(~AhT.
- tühôm)
e “águas” (~yIM;h; -
hammäyim).
E mais do que a coincidência dos termos, deve ser foco de nossa atenção a função
mítico-histórica que assumem nas duas passagens. O abismo e as
águas, sempre paralelos, tornam-se descrição do estado resultante da
devastação. Em Ez 26,19, devastação e desertificação da cidade, anúncio
de guerra, são acompanhados da ameaça de submersão no abismo e nas “grandes
águas” – quando a cidade for devastada, e quando for deixada sem
habitantes, ao mesmo tempo será ela submergida em tühôm,
e afundada sob as “grandes águas”, porque uma coisa – a
devastação pela guerra – é a maneira histórica de dizer a outra – a
submersão nas águas – que consiste na maneira mítica de referir-se ao mesmo
evento histórico, mas relacionando-o ao espaço-tempo mítico, onde
efetivamente as coisas ganham ou perdem sentido. Em Gn 1,1-2 acontece a mesma
coisa, sendo que tudo descrito como evento passado. Houve uma devastação pela
guerra, e por causa disso Jerusalém/Judá
é deixada devastada e desabitada (história). Isso significa, então, que toda
a terra (de Jerusalém/Judá) foi submergida no abismo, afundada nas águas.
Nesse ponto, sob tühôm,
debaixo das águas, o destino de Jerusalém/Judá e de Tiro é/foi num dado
momento, por assim dizer, o mesmo – a destruição pela guerra. Terras que
foram, e cidades, encontraram um termo. As duas terras tiveram seu tempo de
solidez...
Por
mais sólida que seja, a terra, contudo, é sustentada pela dinâmica, a um
tempo frágil (a se lhe depender) e poderosa (a se estar submetido aos
caprichos) das águas... Como disse Mircea Eliade, “As águas encontram-se no
começo e no fim de todo o acontecimento cósmico (...) o destino mítico das
águas é abrir e fechar ciclos cósmicos”[14].
Das
“águas” de Abzu às “águas” de Tiamat – e das “águas”
à “terra”
Porque
Jerusalém é uma montanha longe das águas; porque a tecnologia de retenção
de água nessas montanhas pode estar ligada à origem da “nação”
israelita em seus primórdios históricos; porque nem lagoa há, nem aluvião
pode haver ali; por tudo isso é surpreendente que, para o compositor da
cosmogonia israelita representada em Gn 1,1-2,4a, “a terra”
(história) seja “as águas” (mito[15]).
É, pois, justificável que tantos exegetas remetam esse tema a uma origem
não-israelita.
Para
nações como o Egito e a Mesopotâmia, e ainda mais para o oriente, na Índia,
já é natural que o tema da água esteja relacionado ao tema da cosmogonia. É
que, num primeiro momento, essas nações “nascem”
das águas[16] – literalmente.
Enchentes (periódicas ou não) no Egito e na Mesopotâmia são literalmente
dragões a serem derrotados para que a “civilização” se erga. O
clima de “monções” da Índia representa outra versão “natural”
para a onipresença da água. Traiçoeiras são as águas: logo se descobre
quão úteis podem ser, para a vida, e tão próximas estão, para a morte.
Derrotá-las é preciso. Mais do que derrotá-las, controlá-las, pô-las a
serviço da civilização, ultrapassá-las, canalizá-las, aprender delas para
as dominar.
Em
Mesopotâmia, a invenção da cidade, a
antropóloga Gwendolyn Leick faz algumas declarações muito interessantes a
respeito de uma determinada laguna de água doce situada originalmente na antiga
cidade mesopotâmica de Eridu:
Eridu
é o antigo topônimo de um lugar hoje conhecido como Abu Shahrein (...)
importante, porém, era o fato de a cidade ter o controle do seu ecossistema,
por estar edificada sobre uma colina, dentro de uma depressão de cerca de 6
metros abaixo do nível do terreno circundante, o que permitia a acumulação das
águas subterrâneas. Esse lugar pantanoso pode ainda converter-se num lago de
dimensões consideráveis nos meses de cheia. Os mais antigos textos
mesopotâmios, datando do começo do terceiro milênio, destacam a importância
dessa laguna. Em sumeriano, isso era conhecido como abzu (Apsu em acadiano). Nas regiões meridionais quase sem chuva, a
mais e óbvia crucial manifestação de água era o abzu. Em Eridu, assim rezam os textos, ele circulava o centro
religioso e tornou-se seu sinônimo. De acordo com a noção mesopotâmia de cosmo,
a terra era uma extensão sólida, semelhante a um disco no interior de um corpo
gigantesco de água. Abaixo da terra estava o abzu, acima da terra o céu formava uma abóbada mais ou menos
impermeável que retinha o corpo superior de água, o qual, em certas épocas e
lugares, caía como chuva através dos buracos no teto celeste. Eridu era o
centro do culto para o deus ou deusa da água doce[17].
Gwendolyn
afirma que “a plataforma que surgiu do Apsu tornou-se a primeira morada dos
deuses; na seqüência arqueológica, a simples cabana construída na areia foi
continuamente reconstruída e ampliada até converter-se num dos mais
veneráveis santuários do país”[18]. Na Mesopotâmia, a onipresença
da água, e a sua condição sine qua non para o surgimento histórico
da civilização, converteu-se em elemento fundante do mito. Se com
Eliade podemos afirmar que “as águas simbolizam a totalidade das
virtualidades; elas são o fons et virgo, a matriz de todas as
possibilidades de existência”, talvez se possa aprofundar a
afirmação, pelo menos no que diz respeito à Mesopotâmia (e ao Egito e à
Índia), que tal simbolismo é “conseqüente” – historicamente as
águas foram o berço das “possibilidades de existência”.
Com isso se poderia fazer entre a “cabana construída na areia” e “um
dos mais veneráveis santuários do país” o mesmo paralelo que, em Gn
1,1-2,4a, se pode fazer entre “a terra” e “o templo”,
tanto quanto se pode fazer o mesmo paralelo entre a lagoa abzu de Eridu
(história), que “vira” Apsu, deus das águas doces da cosmogonia babilônica do Enuma elish
(mito), e o paralelo na cosmogonia israelita de “a terra”
(história) que “vira” “as águas” (mito – observe-se a “desdivinização”
do elemento “águas”). No centro do “prólogo” da “criação
de Elohim”, história e mito se entrelaçam: “e treva sobre as faces
de tühôm
”.
A
transposição do espaço geofísico para a linguagem mítico-fundante da
cosmogonia transformou as águas em “deuses” e “deusas”
– Apsu (águas doces) e Tiamat (águas salgadas) são essas representações
na cosmogonia babilônica:
Quando no alto o
céu não se nomeava ainda
e embaixo a
terra firme não recebera nome,
foi
Apsu, o
incipiente, que os gerou,
a causal
Tiamat que a todos deu a luz[20].
Aquilo
que representa, na história, a possibilidade de surgimento da civilização
– o controle das águas naturais – torna-se, na narrativa mítica, a causa
divina do céu e da terra. As águas viram deuses e deusas, e esses deuses
e deusas são desde logo criadores, assim como as águas criam a
possibilidade de vida civilizada. Mas não se perca de vista o fato de que não
se trata de “litania” para ser cantada se olhando estrelas –
trata-se de pronunciamento político-religioso de fundação da grande Babilônia.
Assim como “a terra” é, em Gn 1,1-3, “Jerusalém”, “céu
e terra”
nas cosmogonias mesopotâmicas igualmente “significam” grandezas
históricas miticamente hipostasiadas, como se pode depreender da “oração
encantatória” – a rigor, “cosmogonia” – “Encantação
para o estabelecimento da casa de um deus”, de que se podem citar alguns
fragmentos:
Nenhuma casa santa, casa de deuses, fora
construída em um lugar santo (...) nenhuma cidade tinha sido feita (...) Nipur
(...) o Ekur (...) Uruk (...) Apsu (...) Eridu (...) [não haviam sido (ainda)
feitos/construídos] o conjunto das regiões era apenas mar, a fonte que está no
meio do mar não passava de um riacho, então Eridu foi feita, o Esagil foi
construído, o Esagil que Lugaldukunga veio habitar no meio do Apsu. Babilônia
foi feita, o Esagil, terminado. Ele (Marduk) fez (...) Marduk (...) formou a
humanidade (...) animais selvagens (...) o Tigre e o Eufrates (...) o caniço
seco, o caniço verde (...) a vaca (...) a cabra (...) [etc.][21].
As
cosmogonias não são “cânticos” apenas religiosos: são
político-religiosos, porque funcionam como fundamento mítico para o
estabelecimento do poder temporal, da dinastia, do rei, da cidade-estado, do
Império. Esse “estabelecimento” dá-se mediante o enfrentamento da “desordem”,
a que deve seguir a ordem”: a luz segue a treva, a
construção, a destruição, a criação, o dilúvio
– as águas
seguem as águas. É porque a história próximo-oriental consiste no
soerguimento de uma civilização literalmente do meio das águas – mas do
meio tumultuoso de águas tumultuosas – que a síndrome civilizatória de
construção (enfrentamento da desordem e instalação da ordem) e manutenção
da construção (manutenção da ordem diante de constante enfrentamento da
desordem), de conquista e defesa, transformou agora em nova metáfora a velha
metáfora das águas-deuses(as). Enquanto as “águas originais”, históricas
e tempestuosas, convertem-se mítico-metaforicamente, hipostaticamente, nas
águas míticas da criação in illo tempore, essas águas míticas
tempestuosas, agora, passam a representar as forças hostis à marcha
triunfante, instauradora e mantenedora, da “criação” – quer
dizer, da “civilização”. Quem diz “cosmogonia”
diz “civilização”. Quem diz Gn 1,1-2,4a diz “Jerusalém”
– ano (c.) 520 a.C. “A terra” é “as águas”, assim
como “abzu” é “Apsu”. Ou, se quisermos traçar um
exercício de crítica da tradição desde abzu, a lagoa, até “as
águas” de Gn 1,2bb, talvez pudéssemos escrever:
|
Abzu ®
Apsu (Tiamat) ®
ameaça(s) à civilização babilônica
“as
águas” ® Tehom
® a terra desertificada e desolada de
Israel
|
Essa
“terra desertificada e desolada de Israel” (Gn 1,2a) é mais do que “ameaça
à civilização” – é mesmo a descrição, sob determinada ótica
político-partidária (a da golah agora instalada em Jerusalém; cf. Is
45,13), da “quebra” da civilização – o “dilúvio”
(cf. Gn 6,5-9,17 [P], que cabe inteiro dentro de Gn 1,1-3[22]). A “quebra”
da civilização israelita, o preciso evento histórico de 587 a.C., é lida
pela golah
como o enfrentamento das águas ameaçadoras, o vento que soprou sobre elas,
Nabucodonozor, foi um vento tão forte, tão violento, que deixou “a terra”
um deserto e uma desolação. História e mito se encontram – escuridão sobre
Tehom. Desdivinizadas, mas não desmistificadas, as águas assumem agora a
proporção da própria terra, e, como abzu se tornara em Eridu, o Apsu
das águas, “a terra” converte-se nas “águas originais”.
O compositor de Gn 1,1-2,4a bebeu das águas das cosmogonias próximo-orientais,
mas temperou-as a seu gosto. Entretanto, as bebeu, e até a última gota. Se
Gwendolyn Leick pôde considerar que “as idéias associadas ao Apsu demonstram
como um determinado cenário geofísico
inspirou um conceito religioso e metafísico (...) [o que] foi consubstanciado
nas construções da cidade de Eridu”[23], talvez não se vá além das
sandálias ao se propor a consideração de que o mesmo princípio esteja
presente em “as águas” e tühôm, em Gn 1,2bab – “águas”
é uma forma mítico-poética de, remontando-se à prática e à forma
próximo-oriental de se fundamentar a instalação e a manutenção de
determinada “civilização”
através da formulação de uma cosmogonia, referir-se à própria “terra”
de Israel, entre 587 e 515 a.C., aos olhos da golah, um deserto e uma
desolação. A expressão “as águas” são, a um só tempo, um termo
mítico, político e histórico-social de referência à criação do povo (Sl
102,19b), um povo que será criado quando Jerusalém for reconstruída
(Sl 102,17a). O povo foi criado. Jerusalém foi (re)construída[24]. “As
águas” são a desordem de que emergiu esse povo[25] e essa cidade, “águas” sobre
as quais soprara um vento... tempestuoso.
Observações hermenêutico-metodológicas à guisa de antecipações críticas
É
natural que, diante de uma afirmação da espécie da que vim de fazer, uma
primeira possível reação seja a de considerar o exercício uma “alegoria”
sobre Gn 1,1-3: interpretando-se “alegoricamente”
Gn 1,1-3, então seria possível dizer algo parecido. Deve-se, contudo,
advertir quanto a improcedência da reação. Não se trata, absolutamente, de “alegoria”.
Trata-se do pressuposto teórico-metodológico de partida de que, originalmente,
portanto histórico-socialmente, a cosmogonia israelita, a cosmogonia sacerdotal,
tenha sido o pronunciamento político-religioso da golah, no momento em
que assume o papel de governo em Jerusalém. Histórico-socialmente a golah
descreve a reconstrução de Jerusalém – ou seja, a reconstrução do
complexo da Grande Organização Templo-“Palácio”[26],
mas também da “nação” (província persa) e do
“povo” – através do expediente da moda: a “cosmogonia”. Originalmente cosmogonia e fundação
de dinastia eram “equivalentes” instrumentais. É possível que
somente a “desinstalação” da peça litúrgica de seu contexto
original, e seu inevitável trânsito por ambientes filosófico-sapienciais,
tenha convertido a chave original mítico-fundante em chave de releitura “ontológica”,
ou, pelo menos, arrimo de reflexão teológica (cf. Pr 30,4; 2Mc 7,28).
Uma
outra questão a ser considerada é a “coincidência”
entre a história – a assunção da civilização próximo-oriental
do meio das águas – e a paleontologia – o surgimento da “vida” a
partir da água[27].
No que concerne às aproximações transdisciplinares no coração da pesquisa
contemporânea, cada vez mais incontornáveis na abordagem aos objetos de
estudo, quaisquer que sejam, nada há que se obstar quanto ao “exercício”
reflexivo facultado por conseqüência dessa relação história–paleontologia.
Em termos teórico-metodológicos, contudo, e se o objetivo exegético precípuo
é o de se determinar o sentido original do texto bíblico, empreender um
esforço concentrado em perspectiva histórico-social estritamente “arqueológico”
(no sentido da determinação tanto do sentido quanto da intenção desse
texto) é, para dizer o mínimo, simplesmente prioritário[28].
As demais aproximações, relevantes todas e cada vez mais[29], se devem, contudo,
deixar-se fazer à luz das (pressuposições “argumentadas” apresentadas
como) conclusões histórico-sociais que a abordagem propriamente histórica às
narrativas preconiza[30].
A
hipótese deste artigo, portanto, é a de que, em Gn 1,1-3, “águas”
representem uma metáfora para “a terra de Israel”, “Jerusalém” mais
especificamente, no contexto da “restauração pós-exílica”. Essa
metáfora, porém, não teria sido criada pelos sacerdotes judeus responsáveis
pela elaboração da cosmogonia, mas tomada do substrato cultural do Crescente
Fértil (e além), onde “água” consiste no motivo histórico-traditivo da
“origem” (história) e da “essência” (fenomenologia) da “civilização”.
Em termos especificamente judaicos, as “águas” de Gn 1,1-3 representam o
estado “desintegrador” das formas sócio-culturais anteriores ao “marco
zero” da “criação”, bem entendido, a re-construção
de Jerusalém. Essas “águas” devem passar, ser superadas, “vencidas”, a
fim de que a “criação” possa emergir, consolidar-se e prevalecer sobre
elas...
É
curioso que hoje, dois mil e quinhentos anos depois, ainda sob os portais do
século XXI, a sobrevivência da “civilização” humana dependa das águas
– talvez não tanto da vitória sobre elas, mas da sua utilização sábia e
prudente. O que nos levaria a considerar que a intuição primária das águas
como gérmen da civilização não tenha sido apenas uma questão de gênio, mas
de sensibilidade...
Referências Bibliográficas
BOUZON, Emanuel. Gn 2,4b-24 e os relatos
mitológicos do Antigo Oriente, em Perspectivas Para uma Nova Teologia da
Criação. Petrópolis: Vozes, 2003.
CARDOSO, Ciro
Flamarion. Os festivais divinos
no Antigo Egito, em CHEVITARESE, André Leonardo, ARGÔLO, Paula Falcão, e
RIBEIRO, Raphaela Serrador (org). Sociedade e Religião na Antigüidade
Oriental. Rio de Janeiro: Fábrica de Livros: SENAI, 2000, p. 8-33.
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Notas
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