Introdução
Esse ensaio
deve ser tomado como uma segunda parte do artigo Vento Tempestuoso: um ensaio sobre a tradução e a interpretação de Gn
1,2 à luz de Jr 4 (RIBEIRO, 2002b). Penso que é chegado o momento de
acrescentar mais algumas palavras àquelas. Naquele artigo inaugural, defendi algumas idéias:
a) propus que a
tradução de
würûªH ´élöhîm
müraHepet `al-Pünê hammäyim (Gn 1,2) fosse “um
vento tempestuoso soprava sobre as faces das águas” (RIBEIRO, 2002b, p.
575-588; ISHOYN, 1962, p. 120s);
b)
acompanhei a
possibilidade levantada pela pesquisa de que, no texto, rûªH (vento) consistisse não num agente da criação, mas justamente
num agente da desolação e do vazio da terra (RIBEIRO, 2002b, p. 579-588);
c)
propus que a redação de Gn 1,2 tenha sido elaborada em resposta à
crítica profética de Jr 4,5-6,30*[1]
(especificamente Jr 4,23-26; cf. v. 11-12; RIBEIRO, 2002b, p. 588-598).
|
Concluí aquele
artigo propondo a intuição de que Gn 1,2 constituía parte de uma resposta
teológica da golah à crítica
profética de que a destruição de Jerusalém (587 a.C.) tenha sido causada como
castigo aplicado por Yahweh sobre, também, a
classe sacerdotal da cidade[2]. Uma vez que
Jerusalém efetivamente foi destruída – não havia como se negar a realidade incontestável da desolação e do vazio da terra
(Jr 4,23-26) – a contra-crítica sacerdotal em que consistiria Gn 1,1-2,4a teria
sido elaborada[3] a partir da
descrição dessa desolação e desse vazio
nos termos de Jr 4,23-16. Teria sido por essa razão que o(s) autor(es) de Gn
1,1-2,4a teria(m) empregado praticamente todas as expressões de que Jr 4,23-26
se servira para construir a descrição plástico-poética da desolação e do vazio
da terra, desolação e vazio cujo agente fora descrito em Jr 4,11-22 como a
passagem de um vento violento[4].
Desde a
publicação do ensaio, tenho empregado algum tempo no aprofundamento
hermenêutico daquela intuição. No presente ensaio, gostaria de testar as
reflexões que tenho desenvolvido a partir de então. São basicamente duas as
reflexões: 1) uma tentativa de fundamentar a intuição a partir da Fenomenologia
da Religião com base na específica questão do mito[5], e 2) a
perspectiva de, com base em crítica da tradição, desenvolver uma pesquisa sobre
o tema da criação aplicado a Yahweh[6].
1. Mito como projeção
hermenêutica da realidade
|
|
As idéias associadas ao Apsu demonstram como um
determinado cenário geofísico inspirou um conceito religioso e metafísico.
Isso foi consubstanciado nas construções da cidade de Eridu.
(LEICK, 2003, p.
43).
|
Quando Haroldo
Reimer concluiu seu artigo da Fragmentos,
ele escreveu:
|
Gênesis
1 é uma narrativa mítica que, a partir das experiências históricas de Israel e
da utilização de elementos culturais de outras culturas, projeta uma
representação contracultural sobre as origens da humanidade desde a perspectiva
própria de Israel” (REIMER, 2001, p. 760). |
Quero partir
de uma definição desta envergadura, e agora ampliá-la, mas para dentro. Quero somar a ela, primeiro, o meu próprio artigo
da Fragmentos e, num único movimento,
tentar compreender o que significa essa
projeção. O ponto da
Fenomenologia da Religião que tomo para a partir dele analisar a intuição de
que Gn 1,1-2,4a expresse-se como contra-crítica sacerdotal à crítica profética
que os acusava pela destruição de Jerusalém é aquele em que a Fenomenologia da
Religião afirma que as construções teológicas são expressões humanas (ELIADE,
1990, p. 23-63). Tomada a sério como pressuposto epistemológico, significa
então dizer que no discurso de Gn 1,1-2,4a, respectivamente o v. 2, encontra-se
um núcleo proposicional humano – e como tal, intencional. Não é de outro tema –
e sob outra perspectiva – que se pronuncia E. O. James:
|
A
função do mito consiste em consolidar e estabilizar a sociedade; sobre a base
da psicologia da massa e a lealdade inquestionável a um chefe ou a um grupo,
dotados de uma autoridade sobrenatural ou quase divina, cumpre seu objetivo
como uma força cultural ou uma carta constitucional sociológica[8] (JAMES, 1973,
p. 110). |
A pesquisa tem
se aproximado de Gn 1,1-2,4a encarando a narrativa enquanto mito ou enquanto grandeza que gravita em
torno da linguagem[9] mítica
(REIMER, 2001, p. 745-7; KAPELRUD, 1974, p. 178-186; WESTERMANN, 1962, p. 8).
Com efeito, Gn 1,1-2,4a carrega em si todos os elementos indispensáveis à
classificação de um texto como mítico[10]. Não é aqui o
lugar em que se vai decidir se Gn 1,1-2,4a seja ou não efetivamente um mito. No
que tange os seus objetivos, o ensaio toma Gn 1,1,2,4a, respectivamente Gn 1,2
como mito[11].
Concomitantemente
à publicação do ensaio inicial, tive a oportunidade de ler uma obra recente de
José Severino Croatto: As Linguagens da
Experiência Religiosa – introdução à metodologia da pesquisa. Uma afirmação
dentre tantas me chamou a atenção:
|
O histórico do mito não é o acontecimento
exemplar (que é imaginário), mas a realidade humana que ele quer interpretar na forma de uma conexão com o mundo
transcendente dos Deuses. Tal realidade histórica está ‘refletida’ no relato
mítico; está ali como em um negativo de fotografia; o positivo da fotografia é
o feito primordial (CROATTO, 2001, p. 301s). |
Quando li essa afirmação de Croatto, estava de
viagem num ônibus intermunicipal. Era noite alta. Fechei Croatto e fiquei rindo
sozinho. Através da grande janela de vidro do ônibus fiquei um bom tempo
olhando as estrelas e refletindo. E se...?
Convém,
contudo, precisar o sentido da citação de Croatto. Ela está inserida na seção Mito e História, segundo o próprio
Croatto, “quase no fim da análise do mito” (CROATTO, 2001, p. 300). Ali a
discussão desenvolve-se em torno do problema da historicidade do mito, e
Croatto afirma que “a alternativa ‘mito/história’ supõe uma falsa visualização
do tema” (idem, p. 301). Nessa
altura, Croatto declara:
|
O
mito pretende ser ‘história verdadeira’, como dizia Rafael Pettazzoni (...),
assim como todos os fenomenólogos da religião. Acontece que o mito não está
localizado no plano dos acontecimentos contingentes, que são estudados pela
historiografia. Sabemos que imagina
um acontecimento primordial, que evidentemente nunca existiu do ponto de vista
da história fática e, portanto, não é um acontecimento recuperável por meio dos
monumentos culturais, entre eles, a escritura. O mito pertence a um tempo e um
espaço diferentes (...), que não correspondem a (sic) historiografia
determinar. O que o mito narra é um transacontecimento
que tem a função de ser o modelo exemplar de acontecimentos históricos
(CROATTO, 2001, p. 301). |
É depois dessa
argumentação que Croatto introduz aquela afirmação que me fez parar e ouvir
estrelas. Não saberia dizer, agora, se essa teria sido a primeira vez que lia
uma afirmação sobre o mito que o
definisse nesses termos – é provável que no meio dos vários textos de Mircea
Eliade que até ali já havia lido encontre-se alguma afirmação nesse sentido[12]. O que
certamente nunca houvera acontecido era o insight
– a possibilidade de visualizar, na prática, e a partir de minhas próprias
reflexões, a contundência da afirmação de Croatto. É que naquele banco de
ônibus, olhando estrelas, imediatamente recordei-me de Vento Tempestuoso, respectivamente, de Gn 1,1-2,4a: e se...?
Noutro lugar,
Croatto afirmara que “o mito é um relato
sobre uma ação ou acontecimento dos deuses, que se dá no princípio (do mundo físico ou da
história) e expressa o sentido de uma
realidade, instituição ou costume do presente” (CROATTO e outros, 1985, p. 42)
– afirmação semelhante a de Pixley: “criação (...) não é um mero começo das
coisas em um passado distante. No rito da criação o mito se faz uma experiência
presente” (1971, p. 50). Croatto ainda dirá mais a respeito do mito. Num artigo
de RIBLA, Croatto ratificará seus
argumentos. Em Quem pecou primeiro?,
Croatto afirmou:
|
(...)
mito que é, fala de um acontecimento ‘sucedido’ in illo tempore, mas o que verdadeiramente faz é ‘interpretar’
sucessos vividos no horizonte da produção
do próprio texto, ou seja, da vida de Israel, num momento determinado de
sua história. Remontar ‘às origens’ significa buscar o sentido, orientar-se,
explorar possibilidades, pôr em jogo a divindade, conectar-se com o absoluto.
Cada mito está configurado para ‘dizer’ algo sobre o presente, não sobre o
passado. O ‘passado’ do mito é o sentido do ‘presente’ vivido (CROATTO, 2000,
p. 15s). |
Essa nova afirmação de Croatto – talvez mais amadurecida por tanto mais tempo de
reflexão – explicita um dado não explícito nas declarações de seu curso de
fenomenologia e que não é de todo claro em seu artigo de 1985: os sucessos reais constantes do mito situam-se no “horizonte da produção do próprio texto”!
É verdade que se pode ler assim já
desde 1985 e 1994[13], mas lá então
não se dizia assim tão explicitamente – mas agora está dito: o que há de
histórico no mito é a realidade do horizonte da produção do texto – realidade
essa que se projeta para dentro do mito com objetivos tanto fundantes quanto,
como se verá, ideológicos[14]. Nas palavras
de James (1973, p. 108): “a mitologia surge a partir das realidades concretas
do presente”.
Se
acrescentarmos ainda algumas palavras que Croatto apresentará logo depois
daquelas – “os mitos mostram como são
as coisas mediante o recurso a um sucesso imaginário das origens” (CROATTO,
2000, p. 16) – estaremos caminhando na direção da possibilidade de fundamentar
agora hermenêutica e fenomenologicamente a intuição de que Gn 1,1-2,4a seja uma
contra-crítica sacerdotal, ambientada nos últimos momentos do século VI e que,
enquanto mito, deve necessariamente
se construir a partir da projeção da realidade histórica do “horizonte da produção do
próprio texto” (CROATTO, 2000, p. 15). A pergunta, então, deve ser: que[15] realidade histórica do século VI Gn 1,1-2,4a projeta,
interpretando-a?
Se for
permitido um parêntesis ainda relacionado ao tema do mito enquanto projeção de
contextos situados no horizonte da produção do texto, aproveitá-lo-ia para
remontar às declarações recém-traduzidas da antropóloga Gwendolyn Leick. Em Mesopotâmia, a invenção da cidade[16], Gwendolyn
Leick faz algumas declarações muito interessantes a respeito de uma determinada
laguna de água doce situada originalmente na antiga cidade mesopotâmica de
Eridu. Vamos deixá-la falar por si mesma:
|
Eridu
é o antigo topônimo de um lugar hoje conhecido como Abu Shahrein (...)
importante, porém, era o fato de a cidade ter o controle do seu ecossistema, por
estar edificada sobre uma colina, dentro de uma depressão de cerca de 6 metros
abaixo do nível do terreno circundante, o que permitia a acumulação das águas
subterrâneas. Esse lugar pantanoso pode ainda converter-se num lago de
dimensões consideráveis nos meses de cheia. Os mais antigos textos
mesopotâmios, datando do começo do terceiro milênio, destacam a importância
dessa laguna. Em sumeriano, isso era conhecido como abzu (Apsu em acadiano).
Nas regiões meridionais quase sem chuva, a mais e óbvia crucial manifestação de
água era o abzu. Em Eridu, assim
rezam os textos, ele circulava o centro religioso e tornou-se seu sinônimo. De
acordo com a noção mesopotâmia de cosmo, a terra era uma extensão sólida,
semelhante a um disco no interior de um corpo gigantesco de água. Abaixo da
terra estava o abzu, acima da terra
o céu formava uma abóbada mais ou menos impermeável que retinha o corpo
superior de água, o qual, em certas épocas e lugares, caía como chuva através
dos buracos no teto celeste. Eridu era o centro do culto para o deus ou deusa
da água doce (LEICK, 2003, p. 25, os negritos e o itálico são do texto). |
E mais:
|
Na
narrativa babilônica, a plataforma que surgiu do Apsu tornou-se a primeira
morada dos deuses; na seqüência arqueológica, a simples cabana construída na
areia foi continuamente reconstruída e ampliada até converter-se num dos mais
veneráveis santuários do país (LEICK, 2003, p. 31). |
E como se
falasse diretamente para nós a partir
do tema que diretamente nos interessa, Gwendolyn Leick afirma: “as idéias
associadas ao Apsu demonstram como um determinado cenário geofísico inspirou um conceito religioso e metafísico. Isso
foi consubstanciado nas construções da cidade de Eridu” (LEICK, 2003, p. 43[17]).
É
impressionante como as declarações de Gwendolyn Leick adaptam-se perfeitamente
às afirmações de José Severino Croatto a respeito da projeção dos mitos[18]. Croatto
afirma que os mitos apresentam como história
o horizonte de produção do próprio texto, sendo que os sucessos do mito
constituem obra de imaginação sobre essa
realidade, que interpretam na forma de “uma história sagrada, (...) um
acontecimento que teve lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso dos
‘começos’” (ELIADE, 1989, p. 12; 1992, p. 55-86).
Poderíamos
dizê-lo também com as palavras de Kolakowski:
|
Todos
os fundamentos em que se enraíza a consciência mítica, tanto em sua versão
inicial quanto em seus prolongamentos metafísicos, são, portanto, atos de
afirmação de valores. Podem ser frutíferos na medida em que satisfaçam a
necessidade real de dominar o mundo da experiência por meio de sua
interpretação compreensiva, referindo-a a um ser incondicionado (KOLAKOWSKI,
1975, p. 15 [tradução em KOLAKOWSKI, 1981, p. 12]). |
Ou podemos ser
ainda mais precisos, reportando-nos a uma citação agora de Milton Schwantes,
que fala por si mesma:
|
Os
eventos que são articulados em Gn 1-11 não
estão no passado (...). Estes textos articulam e elaboram situações e
circunstâncias presentes. A partir delas esboçam o passado. Em Gn 1-11 há um
retrocesso do presente para o passado (SCHWANTES, 1982, p. 44s). |
Com isso,
Schwantes quer sugerir a classificação de etiologia
para essas narrativas de Gn 1-11 (SCHWANTES, 1982, p. 45). Entretanto, penso
que no que diz respeito à cosmogonia, etiologia
não seria exatamente uma classificação precisa, porque a etiologia tem a função de explicar,
enquanto que, no caso em questão, a cosmogonia
tem a função de assentar, de fundar, de instaurar. Trata-se de outro instrumento
e de outra intenção: presente, sim, mas não explicação – fundação!
Por esse
caminho, penso termos dado passos ainda mais largos do que os dera W. H. R.
Rivers (em GEORGES, 1968, p. 31), quando propunha que dados incidentais da
realidade estão presentes no mito[19]; ou ainda que
os de Clyde Kluckhohn, Myths and Rituals:
a general theory (em GEORGES, 1968, p. 137-167): “mitos e rituais são
produtos culturais, parte da hereditariedade social de uma sociedade” (p. 167).
Com tudo isso
– o que temos? Temos a hipótese epistemológica que lê o mito como uma explicação da realidade do horizonte de
produção do próprio mito, a partir da imaginação fantástica e de sucessos
acontecidos in illo tempore, quando
então e onde os próprios deuses – ou o próprio Deus – dão assim sentido àquela
realidade[20]. Não
deixando, contudo, de trazer à mente (sempre) a advertência de E. O James – já
agora incontornável:
|
(...)
Porém a função do mito segue sendo a de estabilizar a ordem existente
conferindo-lhe sacralidade[21].
‘Assim foi no Alcheringa, ou outra
expressão análoga, é uma referência transcendente que confere valor permanente
e prestígio ao costume e à crença. Em conseqüência, os mitos miram à passada
Idade de Ouro, buscando a razão de ser das instituições atuais (JAMES, 1973, p.
111). |
Façamos,
então, de uma vez, a fundamental pergunta metodológica: se Gn 1,1-2,4a é mito, consiste assim em projeção de um
horizonte histórico contemporâneo à produção da narrativa mítica; constitui
imaginação fantástica ambientada no mundo dos deuses – a propósito, no mundo de
‘Elohim – e cujo objetivo é dar sentido à realidade de onde se projeta e
da qual constitui o positivo de um negativo fotográfico (CROATTO, 2001, p.
301). Pois bem – com essa afirmação metodológica, aprofunda-se a compreensão de
Gn 1,1-2,4a? Em que direção?
2. Gn 1,1-2,4a como
projeção
hermenêutica da realidade
|
|
Olhei a terra,
e eis desolação
e vazio,
e para os céus,
e não há a luz
deles.
(Jr 4,23)
Uma compreensão
político-histórica sugere que o caos (tohu-bohu) seja a situação de desarraigamento do exílio (...) assim, a criação é a restauração da terra.
(WOLLF e
BRUEGGEMANN, 1984, p. 133s).
|
Sempre por
hipótese, se Gn 1,1-2,4a deve ser datado no século VI (CROATTO, 1974, p. 22;
SCHWANTES, 1989, p. 26s; LANE, 1963, p. 66), raciocinando pelas afirmações a
respeito do mito de que viemos de ler, e considerando-se, ainda, que Gn
1,1-2,4a possa ser de alguma forma caracterizado como mito, então o horizonte da produção do texto é o
século VI[22], e a
realidade histórica que Gn 1,1-2,4a, enquanto mito que se propõe explicar uma
realidade histórica quer explicar, é a realidade histórica do século VI. Agora
a questão é: que realidade histórica?
Afirmei acima
que já em Vento Impetuoso (RIBEIRO,
2002b) o vento é um agente da desolação e do vazio da terra. rûªH não é ainda, como será considerado
mais tarde em Jó 26,13, um agente de Yahweh para
a criação. rûªH
é um agente da
destruição[23] – não, para
sermos mais rigorosamente precisos, rûªH é a causa de a terra estar (ou ter-se
tornado!) töhû wäböhû
– desolação e
vazio[24] (Gn 1,2; Jr
4,23). Já lá dizia que um vento violento
passara sobre Jerusalém, desde a Babilônia, e a tornara um deserto, uma
desolação, um vazio[25] (RIBEIRO,
2002b, p. 589s).
Observe-se,
contudo, que quando se afirma que rûªH
é um vento violento que destrói
Jerusalém, com isso ainda estamos na crítica profética de Jr 4,6.9.12.23-26. Aí não se trata de mito, mas oráculo profético[26] – uma
descrição plástica da passagem terrível de Nabucodonozor sobre as cidades de
Israel, até a catástrofe inconcebível da destruição da cidade e do templo de
Yahweh[27]. Com Gn
1,1-2,4a, porém, o centro teológico não é o vento destruidor, mas a luz
(CHOURAQUI, 1995, p. 29; cf. ORLINSKY, 1985, p. 208[28]). Como bem
captou o escritor de Pr 30,4, o vento
é capturado pelo deus poderoso, e então a criação é possível (RIBEIRO, 2002b,
p. 581-585):
|
30,4a
Quem subiu os
céus e desceu?
30,4b
Quem aprisionou
o vento em seus punhos?
30,4c
Quem encerrou as
águas no manto?
30,4d
Quem levantou
todo o confim da terra?
30,4e Qual o nome dele? (RIBEIRO, 2002b, p.
581).
|
Com Pr 30,4
tocamos em cheio na diferença fundamental entre a crítica profética de Jr
4,6.9.12.23-26 e a contra-crítica sacerdotal de Gn 1,1-3(4-2,4a): lá estamos
diante da destruição da terra,
enquanto que aqui estamos diante da construção
do mundo. Mas a questão é – construção de que mundo[29]? E a resposta
que imediatamente me vem à mente é: a
terra – ‘erets Israel – ou mais
precisamente: Jerusalém,
respectivamente, o Templo[30]!
Que já a
formulação sintática de Gn 1,2a faz recair toda a atenção sobre a terra pode-se depreender do fato de
que o sujeito antepôs-se ao verbo: wühä´ärec
häytâ töhû wäböhû – e a terra era desolação e vazio. O sujeito
antecipado ao verbo traduz ênfase[31] (KELLEY,
2000, p. 118; cf. GENTRY, 2002, p. 8[32]). A possível
intencionalidade da ênfase torna-se mais evidente na medida em que nos damos
conta de que em Gn 1,1 o escritor não tenha dado ênfase ao sujeito – logo
´élöhîm
– mas ao advérbio – Bürë´šît. Se
em Gn 1,1 o escritor quer nossos olhos em Bürë´šît,
em Gn 1,2 ele quer nossos olhos sobre hä´ärec – a terra. É
hä´ärec que está um
deserto e uma desolação (Gn 1,2a = Jr 4,23a), um vazio devastado[33], uma
destruição só (para recordar a passagem de Nabucodonozor, sim, como dissera o
profeta [Jr 4,5-22]). Há trevas[34] por toda
parte (Gn 1,2b) – não há luz em parte alguma, a luz dos céus não se vê (Jr
4,23b). Um vento violento (Jr
4,11-12) passou sobre a terra (Gn
1,2c = Jr 4,11-22). O resultado? O resultado é que a terra está desolação e
vazio (Gn 1,2a), olha-se e é isso que se vê (Jr 4,23-26). Uma vez que a
“criação” se dará a partir desse status
quo, é compreensível que a argumentação sacerdotal seja, parafrasicamente[35]: “Sim, é a partir dessa terra (Gn 1,2), sim,
desolada e deserta, tomada de treva e devastada pelo vento impetuoso de
Yahweh que os céus é a terra são[36] criados – ´élöhîm, basta que diga: ‘A luz seja’, e eis que
a luz é!”
Não é que Jr 4,5-31 se baseie em Gn 1,1-2,4a – antes, parece mais razoável
(ainda que na contra-mão da teologia tradicional) imaginar que é antes P que
toma a imagem da crítica profética[37], reconhece-a,
devolve-a em dobro na força da própria criação. Concordando com a crítica
profética, P pode ultrapassá-la, buscando na própria crítica o silêncio dela.
O escritor
sacerdotal, contudo, somente até aqui repete a crítica profética – justamente
porque não pode negá-la no ponto em que ela descreve a realidade histórica ou o
horizonte da produção do próprio texto de Gn 1,1-2,4a. A terra foi mesmo destruída. Tanto quanto o profeta
olhou a terra e eis desolação e vazio, também os sacerdotes e todo o povo
remanescente na terra olharam para ela, e ela era deserto e vazio[38]. Não há como
negar o fato histórico. Contudo, Gn 1,1-2,4a recorda o fato histórico apenas
para ultrapassá-lo – porque quando Gn 1,1-2,4a está sendo escrito, o horizonte da produção do texto não é
mais o horizonte do töhû
wäböhû, mas
o horizonte da ‘ôr. Como traduz
Chouraqui: “Elohîms diz: ‘Uma luz será’. E é uma luz” (CHOURAQUI, 1995, p. 37).
O horizonte da produção de Gn 1,1-2,4a é o horizonte da criação[39], não da
destruição. A terra está sendo criada debaixo de Gn 1,1-2,4a, não destruída. O
que nos remete, agora, à pergunta – mas que criação? Ou de outro modo, mais
denunciador – o que está sendo criado, efetivamente – digamos, historicamente –
no horizonte da produção de Gn 1,1-2,4a, a saber, no século VI? Numa palavra: o Templo de Jerusalém[40].
3. A Criação como projeção da reconstrução de Jerusalém
|
|
Para garantir a realidade e a
durabilidade de uma construção, existe uma repetição do ato divino da
construção perfeita: a Criação dos mundos e do homem. Como primeiro passo, a
‘realidade’ do lugar é garantida por intermédio da consagração do terreno,
isto é, por sua transformação em um Centro (...). A construção de um
santuário ou altar de sacrifícios repete a cosmogonia.
(ELIADE, 1992, p. 28, 71s).
|
A idéia de
que, em termos históricos, com a criação em Gn 1,1-2,4a se esteja narrando na
verdade a reconstrução de Jerusalém, respectivamente do Templo[41], não é
absurda em si mesma[42]. Aliás, nem
necessariamente nova, dependendo da amplitude com que a tomamos. Em 1965, Loren
R. Fisher já antecipava[43] que
“conflito, monarquia, ordenação do caos e construção do templo estão todos
relacionados a um tema superestrutural (overarching) que eu chamaria de ‘criação’”
(FISHER, 1965, p. 316[44]). Por sua
vez, Clifford (1985, p. 513) chama atenção para o fato de que o tema criação e templo (ali descrito como em ruínas)
está presente no Sl 74(1-3).
A idéia está
de certo modo presente em Sl 102,13-23. Primeiro mencionam-se as pedras e o pó
de “Jerusalém, em ruínas” (ALONSO-SCHÖKEL e CARNITI, 1998, p. 1253). Então a
esperança se fundamenta na reconstrução de Sião. O contexto da narrativa
dirige, pois, o olhar do leitor – os ouvidos do ouvinte – para Jerusalém
destruída.
Sl 102,13-23
consiste numa oração. O desejo é que
Sião seja reconstruída. E em conseqüência dessa reconstrução, aparece a figura de “um povo criado” (verbo Br´,
nifal). Em tradução pessoal, a
leitura seria a seguinte:
|
E
tu, Yahweh, para sempre governas,
e tua memória (é) de geração em geração.
Que tu te levantes e te compadeças (de) Sião,
porque tempo (é) para ter piedade dela, porque chegou a
hora;
porque sentem pena[45] os teus servos das pedras dela,
e do pó dela se apiedam.
Então temerão os povos o nome de
Yahweh,
e todos os reis da terra a tua glória,
porque
reconstruiu Yahweh Sião,
revelou-se na sua glória;
voltou-se para a oração do desamparado,
e não desprezou a oração deles;
serás gravado assim para (a) geração vindoura,
e (o) povo criado louvará
Yah,
pois assomou da altura do seu
santuário Yahweh,
dos céus à terra (ele) olhou
para ouvir a lamentação do cativo,
para libertar os filhos da morte,
para proclamar em Sião o nome
de Yahweh,
e o louvor dele em Jerusalém
no reunir-se dos povos todos,
e dos reinos para servir a
Yahweh[47].
|
A argumentação
do salmista é interessante. Sião está em ruínas (v. 15 [pedras e pó] e 17
[reconstruiu[48]]). O salmista
aproxima-se de Yahweh para requerer que se levante e se compadeça de Sião (v.
14a), já que é Yahweh (“tu” enfático) quem (ainda) governa (v. 13). A razão
para que Yahweh se levante é que chegou a hora da piedade (v. 14b); a piedade
já toma conta também dos servos de Yahweh (v. 15). O salmista argumenta que com
o apiedar-se de Yahweh por Sião, os povos o temerão (v. 16), porque Yahweh então teria reconstruído Sião (v. 17a), revelando (assim) sua glória (v. 17b);
porque, ainda, Yahweh teria se voltado para os desamparados[49] (v. 18). De
forma inteligentemente plástica, o salmista argumenta que com a reconstrução de
Sião, Yahweh estaria sendo assim “gravado” para a geração futura (v. 19a), além
de que um povo criado o louvaria (v.
19b), porque, desde o seu santuário celeste (v. 20) Yahweh ter-se-ia posto a
atender a oração do cativo e dos filhos da morte[50] (v. 21), o
que resultaria na proclamação do louvor ao nome de Yahweh em Sião e Jerusalém
(v. 22) e na reunião dos povos para o serviço a Yahweh (v. 23).
Gravitam em
torno da oração[51] do salmista
(v. 18) como moldura superior o tema da reconstrução de Sião (17a) e da
revelação de Yahweh na sua glória (17b), e como moldura inferior o tema da
gravação de Yahweh para a geração vindoura (19a) e do louvor do povo criado
(19b). À reconstrução de Sião corresponde a criação do povo[52]. Yahweh, reconstruindo Sião, cria[53] o povo. Estamos diante de descrições que em
todos os sentidos lembram as declarações de Richard Clifford a respeito das
cosmogonias[54]
próximo-orientais antigas, particularmente aquela que descreve essa espécie de
cosmogonia como estando “particularmente interessada na emergência de uma
sociedade particular, organizada com deuses patronos e sistemas de culto, um
rei divinamente apontado (ou algum outro tipo de líder), e um sistema
monárquico” (CLIFFORD, 1985, p. 510). Essa é a mesma idéia que pode estar
presente em Is 43,21:
|
Povo esse (que eu) formei[55] para
mim,
o meu louvor ele proclamará.
|
Se o verbo ali
usado é o verbo formar, pouco antes
(Is 43,15) Yahweh seria apresentado como o
criador de Israel – e aí o verbo é o mesmo de Gn 1,1 (Br´):
|
Eu,
Yahweh, o vosso santo,
o criador de Israel, o vosso rei.
|
E mais (Is 43,7):
|
Todo o que é chamado pelo meu nome,
e que para a minha glória (eu) os criei,
(eu) os formei, sim, (eu) os fiz.
|
Esse povo
criado é Jacó, e esse povo formado é
Israel (Is 43,1)[57]. O contexto
pós-exílico – e mais, a indicação de que Jerusalém está reconstruída – parece ser possível depreender de Is 43,6 (o norte e
o sul devem entregar os filhos de Yahweh que estão distantes[58]) e de Is
45,18-19 e 20-25[59]. Yahweh não
criou a terra como um vazio[60], mas para que
a terra seja habitada. Trata-se de
certa forma do mesmo tema das três primeiras visões de Zacarias (RIBEIRO,
2002a, p. 12-15). Yahweh quer a sua casa reconstruída, porque deseja o retorno
para Jerusalém, para residir com seu povo (primeira visão); ele convoca os harashim para a construção do templo
(segunda visão) e agora pode convocar seu povo espalhado pelos quatro ventos
(terceira visão) – mas fundamentalmente, os de Babilônia. Além disso, ecos da
relação imediata entre criação do céu e
da terra e a reconstrução de Jerusalém estão ainda presentes em Is 45; 48;
65,17-25 – todos
oráculos pós-exílicos.
Outra
recorrência na literatura pós-exílica, e especialmente em Is 40-66, é o tema de
rûªH
como instrumento de destruição
ou catástrofe: Is 40,7[62]; 41,16[63]; 57,13[64]; 63,10[65], 64,5; ou
como instrumento de Yahweh para a criação: Is 40,13[66] ou
libertação: Is 59,19, 63,14[67], ocorrências
essas entremeadas de referências a rûªH
como fonte de vida[68] e inspiração[69], ou à
contrição do espírito. Poderíamos
supor que a recorrência de rûªH derive das reflexões da catástrofe de 587 por meio da figura de um grande vento
tempestuoso que passou por Israel, devastando tudo, deixando atrás de si um
vazio e uma desolação. Dentro do universo conceitual israelita, onde todos os
acontecimentos históricos têm sua origem numa decisão do próprio Yahweh – sejam
as alegrias, sejam as desgraças[70], essa particularíssima desgraça é
reportada ao próprio Yahweh. De tal sorte que essa relação entre destruição e criação[71] pode estar na
origem das releituras posteriores – ora rûªH
é agente da criação (Jó 26,13), ora é agente da destruição e causa do vazio e
da desolação da terra (Pr 30,4)[72].
O que se está
dizendo vai além da afirmação de Walter Brueggemann:
|
O
versículo distintivo de Gn 1,2 já há muito foi reconhecido como tendo
precursores mitológicos. Mas nosso argumento sugere que este versículo também
pode ser entendido em termos político-históricos, sem negar, sem dúvida, seus
antecedentes mitológicos. Uma compreensão político-histórica sugere que o caos
(tohu-bohu) seja a situação de
desarraigamento do exílio. E o espírito que paira no ar, dando ordens, talvez
seja o ato de Iahweh reconduzindo o povo à sua terra com toda a bênção e
prosperidade (...) assim, a criação é a restauração da terra (WOLLF e
BRUEGGEMANN, 1984, p. 133s). |
Sua afirmação
já é profundamente intuitiva, e em seus fundamentos é preciosa para a
argumentação deste artigo: a situação da terra em Gn 1,2 é na verdade a descrição da
terra historicamente falando e no horizonte da redação do texto, para
recordarmos a expressão de Croatto (2000, p. 15s). Contudo, penso que é
necessário propor correções para sua afirmação:
|
a) primeiro
acrescentar a ela as proposições da fenomenologia[73] da religião
de que ela se ressente, principalmente quando é categórica em afirmar a
procedência dos antecedentes míticos da descrição de Gn 1,2;
b) segundo
corrigir a tradução “caos”, contaminada que está pela releitura de Gn 1,2 à luz
das mitologias helênicas e a absoluta historização[74] do tema na
leitura cristã posterior. Não se trata de caos,
se trata de “desolação (destruição) e vazio (despovoamento)”;
c) terceiro,
corrigir que a expressão töhû wäböhû
não
descreve a situação de desarraigamento do povo exilado[75]; pelo
contrário, descreve a terra deixada para trás, sob cuja catástrofe padeceu a terra – para referimo-nos sempre à
narrativa sacerdotal do dilúvio que deve necessariamente ser lida em conjunto
com Gn 1,1-2,4a e vice-versa[76];
d) quarto,
corrigir depressa a afirmação de que rûªH em Gn 1,2 represente o “espírito que paira no ar” (cf. RIBEIRO, 2002b, p.
575-588) e ainda a dar ordens! Da forma como vejo, e como tenho tentado
argumentar no primeiro artigo e neste, rûªH
é a apropriação sacerdotal do agente de destruição[77] presente no
oráculo de Jr 4,5-31* - rûªH
não é
agente de criação[78] ou bênção,
mas agente (de Yahweh) de destruição e castigo.
|
Feitas as
observações corretivas – e corretivas, claro, a partir da perspectiva a partir
da qual aqui se entendem os fatos – Brueggemann pode ter já antevisto que,
assim como na Mesopotâmia, o Apsu (lagoa de água doce de Eridu) tornou-se Apsu (o deus das águas doces do Enuma-Elish), assim também a terra de Israel tenha se convertido no
Cosmo, e sua destruição, no Caos[79]. A diferença
fundamental entre a proposição deste artigo e a opinião de Brueggemann é que
aqui se acata a proposta metodológico-hermenêutica de tratar o mito como projeção de grandezas
geográfico-históricas[80] a título de
elaboração de sentido e de intervenção históricos, com o que se poderia afirmar
que o que há de histórico em Gn 1,1-2,4a é a reconstrução de Jerusalém[81], hipostasiada
no mito israelita da criação;
Brueggemann por sua vez se defende: “não sugiro que a linguagem da criação seja
simplesmente uma linguagem em código para a restauração da terra” (WOLFF e
BRUEGGEMANN, 1984, p. 136). O que parece faltar na afirmação de Brueggemann é
tanto a dimensão do conflito histórico[82] quanto a
percepção possível de que o mito é, sim, linguagem[83] – forma de
dizer a história antes que a própria
história ou figura dela[84].
Depois de
todas as correções, e ainda as tendo sob os olhos, poderíamos reescrever a
seguinte afirmação de Brueggemann “a maneira em que o Israel do exílio
vivenciou o caos e a criação, foi na forma de exílio e restauração” (p. 136) da
seguinte maneira: a maneira como a golah
encontrou para enfrentar a crítica profética de Jr 4,5-31* foi tratar a
restauração de Jerusalém e a reconstrução do Templo como o sim de
Yahweh para o
retorno da (antiga e novamente) elite político-religiosa para o comando da nação.
4. O oráculo de Jr 4,5-31
|
|
Se for verdade que os sacerdotes
da golah são os
compositores redatores de Gn 1-11 (...), a relação terminológica e teológica
entre Jr 4 e Gn 1,1-2,4a pode ser explicada pela seguinte afirmação: ‘Gn
1,1-2,4a é a resposta da golah à
crítica profética’.m termos literários, Gn 1,1-2,4a compõe-se à luz de Jr 4!
(RIBEIRO, 2002b, p. 593).
|
Se a hipótese
de fundo é que Gn 1,1-3 tenha sido redigido como resposta à crítica profética
da destruição de Jerusalém como resultado do castigo de Yahweh aplicado sobre a
liderança da nação, é necessário reportamo-nos ao oráculo de Jr 4,5-31[85].
O oráculo
inicia anunciando a desgraça: a trombeta deve ser tocada (Jr 4,5); deve-se
fugir depressa para Sião e para as cidades fortificadas (v. 6), porque o
destruidor de nações pôs-se em marcha (v. 7). A terra (= o país) será arrasada;
as cidades ficarão despovoadas (v. 7). É o incêndio da ira de Yahweh (v. 8). É
Yahweh[86] quem traz a
desgraça – é sua ira que queima (v. 6.8). Reis e príncipes, sacerdotes e
profetas ficarão apavorados (v. 9). Esperava-se paz – e eis a espada ao pescoço
(v. 10). Nesse preciso momento, a descrição da passagem dos exércitos de
Nabucodonozor muda – de leão e destruidor de nações (v. 7), agora o oráculo
introduz a figura do vento (rûªH):
|
Um vento sopra
das dunas do deserto
para a capital
do meu povo:
não vento de
aventar nem de peneirar,
mas um vento
de furacão às minhas ordens:
agora cabe a
mim pronunciar sua sentença.
Olhai-o
avançar como uma nuvem,
seus carros
como um furacão,
seus cavalos
mais rápidos que águias;
ai de nós,
estamos perdidos! (Jr 4,11b-13)
|
O tema de
rûªH
conduz a cena – lá vem o vento, a
tempestade, os carros, os cavalos: lá vem a desgraça. Yahweh a traz[87] (v. 6.8.12).
Uma digressão (v. 14-18) trata da culpa de Jerusalém, sem, contudo deixar claro
se o objeto da culpa é a liderança da cidade (como no v. 9) ou se o próprio
povo[88]. Jr 4,19
continua o lamento de Jr 4,13b: a guerra chega às portas. A terra é devastada
(v. 20); ela é longa (v. 21) – tão longa que dá tempo para mais uma digressão
(v. 22)[89]. Saltando a
digressão do v. 22, teríamos a seqüência: lamento pela guerra – guerra às
portas – terra destruída – descrição da terra destruída. É especificamente a
descrição da terra devastada por Nabucodonozor que nos interessa:
|
Olhei a terra, e eis desolação e vazio,
e para os céus, e não há a luz deles.
Olhei os montes, e eis que tremem,
e todas as colinas saltam.
Olhei, e eis que não há o homem,
e toda ave dos céus fugiram.
Olhei, e eis o vergel é o deserto,
e todas as cidades dele foram destruídas,
por causa de
Yahweh,
por causa do ardor da ira dele
(Jr 4,23-26).
|
As figuras
plásticas de Jr 4,23-26 estão todas presentes em Gn 1,1-2,4a (RIBEIRO, 2002b,
p. 590): terra, desolação e vazio[90] (töhû
wäböhû), céus, luz, o homem (hä´ädäm), aves, vergel. Não é necessário
muito esforço de imaginação para que uma tal coincidência de temas[91] – e de termos
– seja tratada no nível da dependência
literária[92]. O que
transporta a questão para o âmbito da crítica literária – se houve dependência
literária, que texto baseou-se no outro? Jr 4,5-31* baseou-se em Gn 1,1-2,4a[93], ou, ao
contrário, Gn 1,1-2,4a baseou-se em Jr 4,5-31? A resposta depende da datação
tanto de Jr 4,5-31 quanto da datação de Gn 1,1-2,4a[94]. Se a
narrativa sacerdotal da criação é exílica – ou pós-exílica, mais provavelmente,
a meu ver – e se Jr 4,5-31 é pré-exílica – ou exílica, não pelo fato de ter
sido produzido no exílio, mas durante o período do exílio
(Jerusalém já foi destruída) – é
razoável propor-se e tomar a sério a possibilidade de os autores de Gn 1,1-2,4a
terem redigido a narrativa mítica a partir do oráculo profético de Jr 4,5-31[95].
Se
considerarmos Jr 4,23 a partir do contexto em que a própria narrativa o insere
– a descrição dos efeitos da devastação da terra por Nabucodonozor – a primeira
constatação seria dizer que não se trata da descrição da essência da terra, mas da sua situação
circunstancial. A terra não é desse
jeito que o profeta vê; a terra está assim por causa da guerra. A terra tornou-se assim por causa da guerra. A
terra ainda está lá, e sobre ela, “eis desolação e vazio”, noutras palavras – a
destruição por toda parte e o desaparecimento das populações. O mesmo se
poderia dizer das demais descrições de que o texto se serve para poeticamente
descrever a plástica do cenário. Não é necessariamente um apocalipse – o profeta mesmo está ali para ver, e ele escreve para seu lido (ouvido) – nem necessariamente uma
catástrofe cósmica. É possível que a
tendência a se tomar assim a descrição derive do fato de que nós a lemos a
partir de Gn 1,1-2,4a. São, contudo descrições que independentemente de Gn
1,1-2,4a podem ser tomadas em si mesmas como a descrição da perplexidade do
alcance da desgraça.
Quando Jz
5,4-5.19-21 descreve também em termos meteorológicos a batalha entre Yahweh e
os exércitos dos reis de Canaã, tais descrições são tomadas como apocalípticas
ou cósmicas? Não são antes derivadas da plasticidade narrativa do texto e da
interpretação do próprio fenômeno meteorológico como tendo sido causado por
Yahweh? Descreve-se ali que a terra tremia (Jz 5,4), os montes se agitam (v.
5), as estrelas mesmas lutam a favor das tribos e contra Sísara (v. 19), as
águas arrastam os exércitos inimigos (v. 21). Águas arrastando, terra tremendo,
montes se agitando são descrições da tempestade – ali provavelmente real – que,
como evento de casualidade e causalidade histórica pode ter determinado uma
reviravolta inesperada nos eventos da batalha, causa imediatamente referida ao
sair de Yahweh de Seir e a seu galopar desde o campo de Edom (Jz 5,4). A
vitória aconteceu por causa de Yahweh (v. 5), assim como em Jr 4,26 é por causa
de Yahweh que a derrota é fragorosa. Dessa vez também os montes tremem (Jr
4,24), mas as estrelas não lutaram a favor de Israel (Jr 4,23b – não há luz!). E por quê? Porque dessa
vez Yahweh estava contra Israel – ardeu a sua ira (Jr 4,26).
Não estou com
disso dizendo (aqui) que Jr 4,23-26 depende literariamente
de Jz 5. Mas estou, sim, dizendo, que a ligação entre Jr 4,23-26 e Gn 1,1-2,4a
num sentido tal que o oráculo deva ser tomado como uma referência à criação às
avessas só é possível ser feita porque
já temos o texto da criação em que os elementos de Jr 4,23-26 também lá estão.
Ou seja – não se pode depreender de Jr
4,23-26 necessariamente que dependa de Gn 1,1-2,4a. E não é absurda também
a afirmação de que igualmente nem o tema criação
esteja presente em Jr 4,23-26. Caso
fosse interesse do oráculo afirmar que com a desgraça de 587 a.C. a criação
teria sido desfeita, teologicamente
seria necessária a elaboração da nova
criação. Ora – esse é um tema das narrativas do dilúvio: destruição da
terra e reconstrução da terra. Lá estão presentes, aí sim, a perspectiva
sacerdotal da criação, a perspectiva da criação às avessas e a perspectiva da
nova criação. Em Jr 4,23-26, contudo, não. Trata-se apenas da descrição histórico-poética
do estrago feito na terra por Nabucodonozor, cuja descrição é relacionada a Yahweh
e a sua determinação nesse sentido. Ou não?
Por essa via
de argumentação, penso que a hipótese de que Jr 4,23-26 como peça integrante de
Jr 4,5-31*, que a seu tempo constitui peça integrante de Jr 4,5-6,30*, que por
sua vez se insere na macro-estrutura de Jr 1,25 – penso pois que Jr 4,23-26
pode ser tomado como uma narrativa de redação anterior a Gn 1,1-2,4a – e ainda
imaginar que, diante da coincidência iniludível de termos, Gn 1,1-2,4a tenha se
servido de Jr 4,23-26. E para quê? Para, tomando a descrição da desolação e do
vazio em que a terra se converteu depois da passagem de Nabucodonozor, tomando
ainda a afirmação de que essa desolação e esse vazio derivam da determinação do
próprio Yahweh, partindo dessa situação
– a um tempo poética (enquanto narrativa) e histórica (enquanto o reflexo dos
acontecimentos concretos desde as primeiras invasões dos babilônicos até a
derradeira em 587) – elaborar uma contra-crítica na forma de um programa teológico de culpa e castigo[96]. Esse
programa teológico, elaborado à luz das cosmogonias babilônicas, estabelece a
criação do mundo como projeção da reconstrução de Jerusalém (Gn 1,1-2,4a[97]) e retoma a
crítica profética da destruição de Jerusalém (Jr 4,5-31*) no programa de
contra-crítica realizado pela atualização da narrativa babilônica do dilúvio
convertida em peça teológica para a determinação da culpa da terra – a narrativa sacerdotal do
dilúvio (Gn 6-9*[98]).
5. Crítica profética e contra-crítica da golah
|
|
Para
Jeremias, ‘resto’ eram os
pobres que tinham ficado na terra (Jr 40,11.15), para Ezequiel, ‘resto’ eram
os exilados (Ez 5,4-17; 11,17-21.
(GALLAZZI, 2002, p. 31).
O conflito é a matriz básica da
profecia. Conflito de profetas contra (...) sacerdócio (...). Em uma palavra:
conflito contra o Estado.
(ZABATIERO, 1991, p. 15).
|
É necessário
delimitar-se mais precisamente a relação entre a crítica profética e a
contra-crítica da golah. A presença
da “mentalidade profética” entre os remanescentes campesinos de Judá durante o
exílio (GALLAZZI, 2002, p. 22) pode significar a presença dos círculos
panfletários (SCHWANTES, 1985, p. 26-39; ZABATIERO, 1991, p. 15) relacionados à
atividade profética – eminentemente política na sua estrutura de relação com o
poder governamental[99]. Em a terra, portanto, teriam permanecido
os campesinos e alguma estrutura profética. Gallazzi, porém, chama a atenção
para o fato de que “aos olhos de Ezequiel, os que ficaram em Judá foram todos
destruídos junto com Jerusalém” (GALLAZZI, 2002, p. 30). Essa leitura da golah pode denunciar já conflitos
ideológicos[100] que estão na
base da crítica profética e da contra-crítica a ser elaborada pela golah. O próprio Gallazzi intui que “o
exílio é considerado, por Ezequiel, dilúvio e arca da salvação” (p. 30). É
nessa afirmação[101] que podemos
entrever a complexa resposta da golah
às afirmações proféticas que arrostavam aos exilados toda a responsabilidade
pela desgraça. Não, dirão – dirá a golah
– o exílio é salvação, é arca (narrativa sacerdotal do dilúvio), é mesmo
encontro de amor (Os 2,16-25).
Pode-se falar
pelo menos da “experiência extremamente negativa com a realeza” (KLEIN, 1990,
p. 66) ao pensarmos nas relações de Jeremias com o poder[102], ou se pode
ir até o ponto de afirmar com José Luís Sicre (1996, p. 467) que Jeremias
“critica os reis concretos muito duramente”. É que a “vocação (profética) é
orientada para o povo” (CODINA e ZEVALLOS, p. 17). Ao lado da crítica à coroa
propriamente dita, devemos trazer sempre à mente a não menos complexa questão
da relação entre a profecia e o culto
(WILLI-PLEIN, 2001, p. 133-140)[103] que a sua
maneira Von Rad trata como conflito entre as funções sagradas e o carisma no
Antigo Israel (VON RAD, 1986a, p. 101-110)[104]. Nem assim
estaríamos liberados da referência ao conflito entre povo e povo da terra no
contexto de Jeremias (DE SOUZA, 1994,
p. 58)[105]. A relação
entre Jeremias e o povo da terra
teria sido conturbada justamente porque o profeta teria tomado o partido da
população mais pobre – o remanescente da terra (idem, p. 58). A citação de Gallazzi ilustra a situação: “para
Jeremias, ‘resto’ eram os pobres que tinham ficado na terra (Jr 40,11.15), para
Ezequiel, ‘resto’ eram os exilados (Ez 5,4-17; 11,17-21)” (GALLAZZI, 2002, p.
31[106]). E com isso
nem ainda terminamos a lista de conflitos em torno dos quais a profecia pré-exílica se insere desde há
muito tempo e até o ponto em que adentra o século VI, e que é nesses termos
apresentada: “o conflito é a matriz
básica da profecia. Conflito de profetas contra: ‘falsos’ profetas[107]; sacerdócio,
sábios da corte; juízes corruptos, exército. Em uma palavra: conflito contra o
Estado” (ZABATIERO, 1991, p. 15)[108].
Importa,
porém, para efeito da análise do confronto entre a crítica profética e a
contra-crítica da golah, reconhecer
que a crítica tenha permanecido na terra[109]. Porque se a
contra-crítica sacerdotal realmente aconteceu[110], é natural
que seja imagina como confronto no presente,
razão pela qual a idéia das comunidades de suporte, mantenedoras das tradições
(literárias) proféticas, é relevante[111]. Se a
literatura profética instaura esperanças e perspectivas, é justamente sobre
essas esperanças e perspectivas, se conflitantes com a perspectiva do novo regime[112] sacerdotal
pós-exílico que a golah deverá reagir.
Primeiro, tirando de sobre si a culpa
e imediatamente transferindo-a para a comunidade da terra – a terra. Depois, será a ocasião para os
aprofundamentos teológicos necessários à sistematização político-religiosa do novo regime e de Judá. Penso que é
exatamente nesse momento que a
possibilidade da fundamentação teológico-litúrgica da reconstrução de Jerusalém
no mito se apresenta como
perfeitamente viável – e impressionantemente eficaz.
Nos termos em
que o coloca Mircea Eliade,
|
A
memória popular encontra dificuldade em guardar a imagem de acontecimentos
individuais e figuras reais. As estruturas por meio das quais ela funciona são
diferentes: categorias, ao invés de episódios, arquétipos, em lugar de
personagens históricos. Um personagem histórico se confunde com seu modelo
mítico (heróis, etc.), enquanto que o evento acaba sendo identificado com a
categoria de ações míticas (...) A memória da coletividade é aistórica”
(ELIADE, 1992, p. 43s). |
Nesse sentido,
a interpretação da devastação da terra como ação de Yahweh contra a polilatria da própria terra – ao contrário da
interpretação profética da deportação da elite
governamental como condenação – é naturalmente reforçada pela afirmação de que
Yahweh agora restaura[113] a terra a
partir da golah, e de tal modo que
cabe a terra renovar a aliança[114]. É ainda
nesse contexto de revisão hermenêutico-traditiva que se deve imaginar a
possibilidade de que Gn 1,1-2,4a possa ser inserido confortavelmente no que
Eliade descreve como “repetição da cosmogonia” (p. 26):
|
Através
da repetição do ato cosmogônico, o momento concreto, no qual a construção tem lugar, é projetado para
o tempo mítico, in illo tempore,
quando ocorreu a fundação do mundo. Assim,
a realidade e a durabilidade de uma construção ficam garantidas, não apenas
pela transformação do espaço profano em espaço transcendental (o Centro), mas
também pela transformação do tempo concreto em tempo mítico (ELIADE, 1992, p.
29). |
Mircea Eliade
está tratando do tema das construções de
templo e de cidades[115] nas culturas
antigas[116] (p. 19). Fala
da concepção dualista da realidade[117] – a realidade fenomênica e a realidade da idéia “platônica” (p. 20s): a validade do mundo
fenomênico decorre da realidade do mundo ideal
(p. 21s) que lhe serve fundamental e necessariamente de modelo[118]. Esse mundo ideal ou platônico configura-se na expressão do modelo mítico, sendo “por
isso que, quando se toma posse de um território – isto é, quando começa sua
exploração –, são realizados rituais que repetem de maneira simbólica o ato da
Criação” (p. 21; cf. p. 74). As cidades orientais, dirá, são sempre o centro do mundo (p. 24) e mesmo a
tradição da Mishnah chegará a conceber a construção de Jerusalém diretamente
sobre o tühôm
(p. 25[119]). Com o
retorno da golah, a restauração de
Jerusalém e a reconstrução do templo, temos, reunidos, todos os temas
importantes para a orientação mítica da concepção do axis mundi (ELIADE, 1990, p. 444) e para a ritualização do ato
cosmogônico – numa palavra, para levar a sério a redação de Gn 1,1-2,4a como esse mito instaurador da validade e da
durabilidade de Jerusalém[120]. E não é
absurdo, antes estamos atrasados nessa tarefa, considerar que a Gn 1,1-2,4a
correspondesse um ritual de fundação
e de fundamentação[121] do Templo[122]: “quem diz
construção de altar diz, ao mesmo tempo, repetição da cosmogonia” (ELIADE,
1990, p. 441). Em outro lugar, Mircea Eliade insiste: “os rituais de construção
pressupõem, igualmente, a imitação mais ou menos explícita do ato cosmogônico”
(ELIADE, 1992, p. 71). Com os rituais de construção, segundo Eliade, estamos
diante da “reatualização da cosmogonia” (ELIADE, 1992, p. 71). E se nessas duas
citações de Eliade, seu foco são as construções quaisquer que sejam, agora nos
deparamos com o tipo de construção que caracteriza o templo de Jerusalém: “a
construção de um santuário ou altar de sacrifícios repete a cosmogonia” (ELIADE
1992, p. 71s)[123].
É sempre muito
curioso perceber como se pode passar mesmo arrancando farpas do tema, sem
explicitá-lo – ou, dito de outro modo, sem que intuição venha à tona. Em um recente
artigo da Harvard Theological Review, Jonathan Klawans (2001) usa os
argumentos de Jon D. Levenson[124], que por sua
vez se baseia em O Mito do Eterno Retorno,
de Mircea Eliade, a fim de argumentar a favor de sua teoria do sacrifício como
uma imitatio Dei. Klawans está
interessado em informar que “Levenson demonstra que as tradições sacerdotais
compreendem a construção do tabernáculo e do templo como um ato de imitatio Dei” (KLAWANS, 2001, p. 143).
Segundo Klawans, Levenson teria notado que “a linguagem e a estrutura da
narrativa da construção do tabernáculo cuidadosamente remonta à linguagem e
estrutura de Gênesis 1” (p. 143). E, então, assumindo da teoria de Levenson que “the building of
the temple can be understood as an act of imitation
Dei” (p. 143), argumenta a favor do sacrifício de animais em Israel como uma também forma de imitation
Dei. Poderíamos
propor que a estrutura da duas narrativas comparadas por Levenson e assumida
por Klawans derive do fato de que ambas
se referem à construção da mesma grandeza: o Templo[125].
É curioso
observar que Pixley tenha passado tão perto – na verdade tenha tocado com as
mãos o tema – da relação genética entre a redação do mito cosmogônico de Gn
1,1-2,4a e a reconstrução de Jerusalém. Trata-se de uma breve série de
argumentos em PIXLEY, 1971, p. 56. Em resumo, o tema da criação seria
decorrente do templo jebuseu de Jerusalém, enquanto que o tema israelita par excellence seriam as tradições anfictiônicas proféticas – o
tema do êxodo[126]. Pixley
argumenta “que o prestígio da Cidade Santa terminou vencendo”. Nesse ponto, Pixley declara: “irónicamente, la victoria
no fue total, en cuanto a los mitos de creación se refiere, sino hasta después
de la destrucción de la ciudad, en el siglo sexto” (PIXLEY, 1971, p. 56). À luz dos
argumentos que vimos analisando, parece ser forçoso admitir que os mitos
cosmogônicos tornam-se relevantes depois da destruição da cidade não por conta
da sua destruição em si, mas pela contingência histórica da sua reconstrução. Como o próprio Pixley dissera
páginas antes sobre a construção do palácio de Baal: “sua construção (é) uma
repetição simbólica da criação” (PIXLEY, 1971, p. 53; 56s[127]). E ainda
mais: “Este templo que Baal constrói é um microcosmo” (FISHER, 1965, p. 318[128]). E não
deverá nos surpreender a essa altura se nos disserem – e Pixley no-lo diz – que
Baal leva exatos sete dias[129] para a
construção de seu “templo” (PIXLEY, 1971, p. 61). Depois de o dizer, Pixley
recorda que “Yahweh, no mito de Gênesis, também toma sete dias para construir o
mundo”[130] (p. 61).
Podemos mais uma vez, a fortiori,
recorrer a Loren Fisher[131]:
| O
templo de Baal e o Templo de Jerusalém são ambos construídos em termos de sete
– sete dias e sete anos.Se
estes templos eram construídos em termos de ‘sete’, não é de se maravilhar que
o poema da criação de Gn 1 seja inserido numa moldura de sete dias. Ele deve
falar da ordenação do caos em termos de sete dias, assim como a construção do
microcosmo deve estar de acordo com o mesmo modelo. Portanto
o novo rei tem um templo que é um microcosmo, e a ordenação desse templo
assemelha-se à criação do cosmo (FISHER, 1965, p. 319[132]). |
É de espantar
porque Fisher não o tenha dito[133]: Gn 1,1-2,4a
tem, em Judá, o mesmo papel que o mito de Baal teve em seu tempo e lugar[134] – a
cosmogonia é a encenação fundante da fundação do mundo, do templo[135], da casa do
Deus e do novo povo que o serve, rei[136].
Seja como for,
se Marduk e Baal, depois de construídos os seus templos[137], participam
de um grande banquete com os deuses (KAPELRUD, 1974, p. 184s; PRITCHARD, 1958,
p. 192; FINEGAN, 1954, p. 53), isso se deve à concepção politeísta em que as
duas narrativas foram elaboradas. Como a percepção dos redatores sacerdotais
pós-exílicos judeus responsáveis pela redação de Gn 1,1-2,4a é, ao contrário, monoteísta, ´élöhîm
não tem com quem se banquetear, senão descansar (PIXLEY, 1971, p. 61; KAPELRUD, 1974, p. 185[138]). Ora – se a
coincidência histórica entre a reconstrução de Jerusalém e da eclosão dos mitos
cosmogônicos em Judá é perceptível, e se a Fenomenologia da Religião nos dá
precisas informações sobre a relação entre construção significativa e mito
cosmogônico, resta-nos aceder às evidências e enfrentar a hipótese com
seriedade: Gn 1,1-2,4a deve ser lido como narração mítica da reconstrução de
Jerusalém e do Templo (respectivamente, do
povo) – numa palavra, o mundo.
A ligação
imediata entre a reconstrução do complexo de Jerusalém e a cosmogonia[139] de Gn
1,1-2,4a pode, pois, primeiramente ser ligada à proposta de derivação da
mentalidade mítica contemporânea aos eventos, assim expressa por Eliade: “em
contextos culturais extremamente variados, reencontramos sempre o mesmo esquema
cosmológico e a mesma encenação ritual: a
instalação num território equivale à fundação de um mundo” (ELIADE, 1985,
p. 60), ou, conforme expresso por Pixley: “qualquer empresa nova e importante
pode ser interpretada como uma nova criação” (PIXLEY, 1971, p. 50). Esse mundo
equivale à argumentação de Jean-Pierre Vernant sobre o canto das Musas, “que
fala do começo de tudo” (VERNANT, 1973, p. 76):
|
As
Musas cantam, com efeito, começando pelo início – ex arches – o aparecimento do mundo (...) o nascimento da
humanidade. O passado revelado deste modo é muito mais que o antecedente: é a sua fonte. Ascendendo até ele, a
rememoração não procurar situar os acontecimentos em um quadro temporal, mas,
atingir o fundo do ser, descobrir o original, a realidade primordial da qual
saiu o cosmo (VERNANT, 1973, p. 76s). |
Nos termos em
que propõe Mircea Eliade, a recitação[140] do mito
cosmogônico teria essa função fundante
(WRIGHT, 1969, p. 71s[141]). Para os
fins da fundamentação do Templo sagrado[142] no tempo sagrado, “a realidade
primordial da qual saiu o cosmo” – leia-se, o Templo e com ele o cosmo – está
situada in illo tempore, lá e então, no princípio: Bürë´šît... ´ôr
– no
princípio... a luz! O presente
artigo assume a proposição de Mircea Eliade. E com isso pensa também fazer eco
à memória traditiva de Is 66,8:
|
Por acaso se faz nascer[143] uma terra em um único dia?
Ou se gera uma nação de uma vez só?
Pois pariu e gerou Sião os filhos dela!
|
O comentário
de Croatto a respeito dessa passagem[144] é relevante
para o argumento:
| Se
a referência aos ‘filhos’ de Sião estabelece um enganche com oráculos-chave do
Dêutero-Isaías (cf. 49,14-26 e 54,1-10), a novidade deste oráculo está
justamente em dizer que tais filhos constituem a nova nação na nova terra (v. 8). Já não é preciso falar de novos
céus. É a terra, o país, o eixo do
pensamento. Lido a partir da situação de diáspora (ou, antes disso, de exílio),
um oráculo como este só podia produzir um farto impacto emocional (CROATTO,
2002, p. 367). |
Se a isso
somarmos a declaração de Lisbeth S. Fried de que “a restauração do templo é o
ponto auto, a culminação, dos escritos do profeta [o Dêutero-Isaías]” (2002, p.
377[145]), obteríamos
assim uma concentração de temas relacionados à restauração do povo e reconstrução
do templo justamente, e naturalmente, no tempo em se presume tenha ocorrido
a redação de Gn 1,1-2,4a. Há ainda uma outra percepção que julgo
relevante. Na falta de indicativos diretos e indiscutíveis de que Gn 1,1-2,4a
consista efetivamente numa composição litúrgico-teológica e político-ideológica
para a reconstrução do Templo de Jerusalém, resta-nos recorrer a possíveis
analogias[146] – ainda assim
indiretas[147]. É o caso do Enuma elish, o mito cosmogônico
babilônico para a “criação”[148]. O texto é
conhecido na pesquisa, e penso podermos prescindir de detalhes[149], indo direto
ao ponto. Para tanto, indica-se para a tabuinha VI, linhas 45-73 (HEIDEL, 1954,
p. 48s; LEICK, 2003, p. 272). A tabuinha narra a construção do Templo de Marduk
– e a essa altura é muito conveniente para os objetivos do presente ensaio
assinalar que a construção do Templo
segue-se à narrativa da cosmogonia. Na tradução constante de LEICK, 2003, p.
272[150], eis o texto:
|
‘Qual
será o sinal de nossa gratidão para contigo?
Vem,
e faremos (algo) cujo nome será chamado
‘Santuário’’.
(...)
Quando
Marduk ouviu isso, seu rosto brilhou intensamente, como a luz do dia, (e ele
disse:)
‘Assim será Babilônia, cuja construção
desejais,
Que tijolo seja a alvenaria, e
chamemos(-lhe) um santuário’.
Os Anunaki empunharam as enxadas,
Durante um ano fizeram tijolos para
isso,
Quando o segundo ano chegou,
Ergueram a cabeça de Esagila bem alto,
ao nível do Apsu.
Depois de terem construído a imponente
torre escalonada do Apsu,
Aí estabeleceram residência (?) para
Marduk, Enlil (e) Ea.
Diante deles sentou-se em majestade.
(...)
Depois que tinham completado a
construção de Esagila, os Anunaki construíram santuários para si próprios.
...
deles foram reunidos.
Sentaram-se
no elevado santuário que tinham edificado como sua residência.
Promoveram
a descida dos deuses seus pais para um banquete.
‘Eis aqui Babilônia, vosso lugar de
morada favorito.
Fazei
música em [seu] lugar (e) tomai assento em sua praça (?)’
|
A narrativa é
bastante clara: Esagila, o Templo de Marduk, mas mais extensivamente a própria
Babilônia – o complexo Templo-Babilônia, afinal, constitui o ápice da criação (PIXLEY, 1971, p. 54; cf. p. 56s[151]). A respeito
da instalação de Baal no palácio ou templo[152] cósmico que
havia edificado para sua morada, diz o mesmo Pixley: “há claras indicações no
texto de que o palácio é uma imagem do mundo e sua construção, uma repetição
simbólica da criação” (PIXLEY, 1971, p. 53; cf. p 56s). A caracterização
político-ideológica do Enuma elish pode
ser captada no comentário de Gwendolyn Leick: “a posição central que Marduk e a
cidade de Babilônia têm na obra sugere que esta foi, pelo menos, adaptada para
um período em que Babilônia se tornou não só o centro político, mas também
religioso e cerimonial do país” (LEICK, 2003, p. 272; JAMES, 1973, p. 125[153]), com o que
concordaria prontamente Alexander Heidel, segundo quem um dos propósitos
políticos do Enuma elish, que teria
sido composto por sacerdotes babilônicos[154] – exatamente
como parece ser o caso de Gn 1,1-2,4a, nesse caso composto por sacerdotes
judeus provenientes da golah[155] – era remontar a fundação de Babilônia às origens: os deuses
Anunaki a teriam construído (HEIDEL, 1954, p. 11[156]). “Nosso
épico é assim não somente um tratado religioso, mas também um tratado político[157]” (HEIDEL,
1954, p. 11): o mito cosmogônico funda
o templo e homologa a cidade –
respectivamente, o novo regime[158]. Com o que
poderíamos recorrer à intuição de Nietzsche: “o próprio Estado não conhece lei
não escrita mais poderosa do que o fundamento mítico” (NIETZSCHE, 1994, p.
179). E para citar alguém que nesse mesmo sentido cita Nietzsche, recorramos a
Carlo Ginzburg: “a legitimação do poder remete necessariamente a uma história
exemplar, a um princípio, a um mito fundador” (GINZBURG, 2001, p.83). Não era
por razões muito distantes dessas que “era recitado anualmente por ocasião do
festival do Ano-Novo” (LEICK, 2003, p. 273; JAMES, 1962, p. 246s[159]). É
conveniente somar a essas a informação de E. O. James sobre o caráter igualmente litúrgico de Gn 1,1-2,4a:
|
Considerando
em conjunto as semelhanças e as diferenças, o relato sacerdotal parece haver
sido traçado, sob influências babilônicas, por redatores que reuniram e
interpretaram os materiais e as fontes, de acordo com sua teologia monoteísta e
para responder às necessidades, se, somo é muito provável, a história se
recitava no templo de Jerusalém para exaltar a obra de Yahweh como criador
vitorioso (JAMES, 1962, p. 256). |
Ainda segundo
James, “o caráter didático do mito e seu estribilho reiterado indicam uma
utilização litúrgica” (JAMES, 1962, p. 256), ou: “(...) o mito é uma narrativa
ritual orientada propriamente a fins práticos” (JAMES, 1973, p. 110); se
preferirmos a linguagem de Westermann: “almost like a litany[160]” (WESTERMANN,
1967, p. 20; 1962, p. 8). A cada passo parece mais provável a hipótese de que a
narrativa litúrgica da criação de Gn 1,1-2,4a descreva no mito a construção da
cidade e do templo – Jerusalém e o Templo de Yahweh (= o horizonte de produção
do texto) – remontando a construção hipostática e miticamente à própria criação
do mundo. Com a recitação da
narrativa durante as solenidades, responsáveis que eram pela redação do texto,
pela administração da cidade e do Templo e pelas solenidades instauradoras de
sentido mítico – litúrgico-religioso e político-ideológico – por um lado fundamentavam a reconstrução na própria
criação[161], tanto quanto
afirmavam a autoridade de Yahweh, respectivamente, de Jerusalém, isto é, do
Templo de Jerusalém[162]; numa palavra
– da sua (dos sacerdotes) própria representatividade fundamental[163]. Em Gn
1,1-2,4a, descreve-se a criação de uma terra, de uma nação, de um povo[164].
Para suspender
neste ensaio a argumentação, vale recorrer a Is 65,17-18:
|
Porque eis-me (que) crio novos céus e nova terra,
e não serão lembrados os antigos,
e não subirão sobre o coração.
Mas antes exultai e alegrai-vos, porque eu crio!
Porque eis-me (que) crio Jerusalém – exultação!
E o povo dela – alegria!
|
Numa só
expressão tradicional, e empregando-se o mesmo verbo[165] (Br´)[166] e na mesma
forma (qal particípio), por três
vezes se afirma que Yahweh cria –
cria novos céus e nova terra, cria
absolutamente, cria Jerusalém e o povo dela[167]! E isso tudo
num único dia (Is 66,8).
A terra – a nação – os filhos: nascidos todos num dia! E que dia! Sim,
não é sem certa emoção que se acata a proposição de Mircea Eliade para
aplicá-la à leitura de Gn 1,1-2,4a. Acato-a,
sim, mas para a ultrapassar, contudo,
quando se afirma que paralelamente à estrutura mítica da fundamentação das
fundações do Templo, trava-se em Gn 1,1-2,4a uma disputa ideológica entre a profecia tradicional e sua tremenda má
vontade para com a golah e sua
relação com o poder pré-exílico e a própria concepção de novo regime da golah. Gn
1,1-2,4a funciona perfeitamente como mito,
e enquanto mito cabe-lhe também perfeitamente bem a projeção
hermenêutico-ideológica da situação.
Se levarmos em conta a afirmação de Croatto (1989, p. 25) de que interessava à
Pérsia mais a construção do Templo do que a própria reconstrução de Jerusalém,
a importância sempre crescente da golah
– e especialmente da sua porção sacerdotal[168] – se tornará
evidente. O Templo é instrumento imperial
e religioso; o sistema religioso
encontra-se a serviço do Império[169]. Como foi Yahweh
quem pelas próprias mãos trouxe Ciro para a restauração de Jerusalém – a
golah é em última instância a
representação desse Yahweh que vem
desde a Babilônia para revelar a sua glória no Templo.
Registre-se,
porém, que para ultrapassar o tratamento da reconstrução do Templo de Jerusalém
apenas no nível do imaginário mítico, pode-se e deve-se recorrer ao próprio
Mircea Eliade. No capítulo da “utilização política da religião” situado no
verbete do Dicionário das Religiões
que trata das Religiões da Mesopotâmia (ELIADE
e COULIANO, 1995, p. 231-235), afirma-se: “O templo sumeriano era uma
instituição simultaneamente religiosa, política e administrativa” (p. 232[170]). É de se
perguntar pela possibilidade de a golah
ter-se justamente inspirado – por conta própria ou por determinação política do
próprio Império – no modelo mesopotâmico para a funcionalidade do Templo de
Jerusalém. Tanto mais razão para pressupor-se uma funcionalidade
político-religiosa para Gn 1,1-2,4a.
Além disso,
não se pode negligenciar a funcionalidade ideológica presente no mito[171]. Croatto dá
contas dessa funcionalidade, apresentando o mito como possível de fundamentar
mudanças culturais e sociais – e não apenas o mito enquanto narrativa, mas
igualmente os rituais e as festas derivados da sua expressão litúrgica (CROATTO
e outros, 1985, p. 62-64).
É nesse
contexto de imposição imperial e de restauração de Jerusalém e da reconstrução
do Templo, permeada pelas fundamentações míticas de que nos informa a
Fenomenologia da Religião, e de enfrentamento das tradições proféticas críticas
presentes entre o povo campesino que a golah
dará cabo da redação de Gn 1,1-2,4a: a terra foi devastada pelo vento de Yahweh. Com a vinda da golah, agora,
contudo, Yahweh criará o mundo – o
Templo – e com o mundo, o novo homem.
Tudo quanto em Jr 4,23-26 se descreve como a devastação da terra por conta do
castigo aplicado sobre a elite governamental, a redação de Gn 1,1-2,4a
transforma em instantes da criação, instaurando uma nova história, um novo regime,
um novo mundo. A contra-crítica sacerdotal
não pára aí, mas se estende até a narrativa do dilúvio. É possível mesmo que a
primeira grande estrutura sacerdotal de Gn 1-11 seja, a um só tempo, os
estatutos teológicos do novo mundo e a afirmação categórica de que a desgraça a
que se pretende imediatamente pôr termo decorre, inequivocamente, da
infidelidade do povo à aliança – sua infidelidade e polilatria, sua impureza e
desobediência, para cuja cura é imprescindível a adesão à aliança (Gn 9,7-17;
cf. CRÜSEMANN, 2002, p. 401ss). Mas cuidado! Tomar toda a estrutura como
expressão da teologia de Judá pode ser um equívoco[172] – na sua
macro-envergadura, Gn 1-11 é a expressão partidária, ideológica, e
político-religiosa de uma facção
dentre os constituintes populacionais de Judá[173]. Como bem
parece perceber Robert Carroll quanto ao que concerne à reconstrução do Templo:
|
A
comunidade do segundo templo era, portanto somente a criação dos benê haggôlâh ou ‘am haggôlâh (‘o povo da deportação’) e o enclave sagrado pertencia
somente a eles. O mito da terra vazia deve ter sido produção e propriedade
desse grupo de pessoas com sua base de poder na corte imperial (CARROLL, 1992,
p. 85). |
Que essa constituinte seja coincidentemente a
constituinte governante não homologa a sua correção – senão que ilustra a força
que o poder tem de fazer-se impor contra tudo e contra todos[174], ainda que
não alcance, nunca, a completa hegemonia: vozes destoantes, curto-circuitos
sociais, personagens e estruturas comunitárias, mais cedo ou mais tarde
conseguirão, contra todas as expectativas, furar o bloqueio e fazer eclodir
novas expressões culturais.
De outro lado,
deve-se procurar distinguir metodológica e necessariamente a narrativa político-ideológica e litúrgico-teológica em que
originariamente (pode) ter-se constituído a redação de Gn 1,1-24a da história dos seus efeitos[175]. Com isso não
nos espantaremos de encontrar séculos mais tarde, que discutindo a “teologia
natural” dos chineses, particularmente a sua cosmogonia, Leibniz possa
recordar, quando assinala que os chineses desconhecem a “revelação”, que “há
pessoas que acreditam que, recuando o começo do seu Império até ao tempo dos
patriarcas, os chineses poderiam ter aprendido com eles a criação do mundo”
(LEIBNIZ, 1991, p. 55).
Conclusão
|
|
A reconstrução da terra é a
nova cosmogonia, e a golah é o novo Noé. Israel é um novo povo e um novo mundo.
(RIBEIRO, 2002b, p. 595).
|
O presente
artigo acompanha a tradição de Vento
Tempestuoso, um ensaio sobre a tradução e a interpretação de Gn 1,2 à luz de Jr
4 (RIBEIRO, 2002b). De lá recebe a tradução de rûªH
´élöhîm müraHepet como “um
vento tempestuoso soprava”, assimilando sua interpretação na forma de um
agente de Yahweh para a destruição da terra[176]. Em termos
político-ideológicos, dá continuidade à afirmação de que Gn 1,1-2,4a serviu de
resposta – contra-crítica sacerdotal – à crítica profética que lia na
catástrofe de 587 a.C. o castigo de Yahweh sobre a liderança corrupta da terra,
impondo a ela uma terrível devastação a ponto de transformá-la num deserto.
Essa crítica estaria textualmente representada pela perícope de Jr 4,5-6,30 –
particularmente Jr 4,5-31. Segundo essa particular expressão profética, a
passagem do exército babilônico é comparada à passagem de um vento violento,
uma grande tempestade (Jr 4,11-12) que vem do norte (4,5-10) e que, passando,
devasta tudo a sua volta (4,13-22). O resultado da tempestade é descrito no
oráculo de Jr 4,23-26: o profeta olha e descreve poético-plasticamente a
devastação e o deserto em que agora se resume a terra. É precisamente nesse
oráculo que se apresentam termos paralelos à cosmogonia de Gn 1,1-24a.
O principal
objetivo do presente artigo foi acrescentar pressupostos e afirmações da
fenomenologia àquelas argumentações de caráter mais exegético e hermenêutico[177]. A partir de
algumas formulações teórico-metodológicas de José Severino Croatto a respeito
da funcionalidade das narrativas do mito, chega-se a afirmar que, enquanto
mito, Gn 1,1-24a deve corresponder igualmente a uma projeção de eventos
históricos situados no horizonte da produção do texto. A historicidade do mito
é, logo, sua própria existência – e no que tange a sua função, ela decorre da fundamentação e da interpretação de
acontecimentos precisos do final do século VI.
Do recente
trabalho de Gwendolyn Leick a respeito de Eridu, tratamos por analogia a
projeção de Apsu como deus das águas
doces no mito Enuma Elish
mesopotâmico a partir da projeção do acidente geofísico homônimo – a laguna de
águas doces situada em torno da antiga cidade de Eridu, lago que ainda é
possível ver, segundo a antropóloga, na época das chuvas na moderna Abu
Shahrein.
A partir das
afirmações de Mircea Eliade sobre a relação entre a construção de templos e
cidades, e a conquista de novos territórios e a recitação do mito cosmogônico,
intuiu-se até o ponto da afirmação de que Gn 1,1-2,4a tenha sido redigido
também nesse contexto – a inauguração do Templo de Jerusalém pelos anos de 520
a.C. O Templo de Jerusalém é o axis mundi.
A essa altura,
já se podia entrever uma série de conexões político-ideológicas e litúrgico-teológicas
em Gn 1,1-2,4a:
|
a) Gn 1,1-24a é
uma narrativa mítica redigida como contra-crítica da golah restaurada à crítica profética contra a golah exilada;
b) Gn 1,1-24a é
um mito judaico, e como tal, deve
consistir na projeção de realidades judaicas contemporâneas a sua redação;
c) Gn 1,1-24a,
enquanto mito, tem a função
litúrgico-teológica de dar sentido à restauração de Jerusalém (e Judá) e à
reconstrução do Templo como começo –
Bürë´šît – e criação (Br´): da
terra de desolação e vazio Yahweh tira, agora, o mundo;
d) Gn 1,1-24a,
enquanto mito cosmogônico, tem a função[178] de
fundamentar in illo tempore os
alicerces do Templo de Jerusalém, sendo recitado, provavelmente, durante a sua
reconstrução/inauguração.
|
Tivemos a
oportunidade de analisar alguns aspectos de Sl 102,13-23, onde justamente o
tema da reconstrução de Jerusalém e do retorno da golah são relacionados ao tema da criação de um povo (ou do povo),
tema que faz eco com inúmeras expressões particularmente do Dêutero-Isaías[179] e dos Salmos[180].
Finalmente, a relação
entre Gn 1,1-24a e a situação histórica de Judá no século VI já havia sido
mencionada – sem aprofundamentos mais radicais – por autores como Walter
Brueggemann e Gerhard Von Rad. A cosmogonia judaica estaria de alguma forma
ligada – não restrita (Brueggemann) – à situação do exílio, consistindo mesmo
numa etiologia[181] de Israel
(Von Rad). Com o presente artigo, dando seqüência à percepção de Brueggemann e
de Von Rad, e aprofundando-a até o ponto de relacioná-la às formulações sobre o
caráter imaginário da narrativa mítica no nível dos sucessos narrados in illo tempore, cuja função é
estabelecer o fundamento, então sim, do histórico
contemporâneo objetivado e projetado nessa narrativa.
No caso
específico de Gn 1,1-24a, dos eventos significativos da segunda metade do
século VI – libertação da golah pelas
mãos do ungido de
Yahweh, liberação
da comunidade exilada para o retorno à sua terra, reconstrução do altar e do
Templo, e início das reconstruções de Jerusalém produziu-se o fenômeno mítico
de fundamentação da tomada de novos territórios, construção de cidades e de
templos mediante a recitação do mito cosmogônico. Judá não tinha o seu – salvo a memória das recitações
públicas babilônicas durante o Festival de Ano Novo[182] – isso se
escribas israelitas não estiveram durante longo tempo inseridos nas agora já
famosas escolas de escribas mesopotâmicas[183]. Não
possuindo seu próprio mito cosmogônico[184] – a golah produz o seu e quem sabe até não o
recite na “grande celebração” de inauguração do Templo em 515 a.C. (FOHRER,
1982b, p. 413), ocasião de “grande alegria” (BRIGHT, 1978, p. 504)?
Prudentemente
precavidos do caráter hipotético da hipótese do presente ensaio, não devemos
ceder à tentação de aplicar a toda a comunidade judaica o exercício de
recitação do mito cosmogônico durante a reconstrução do Templo de Jerusalém. É
muito provável que apenas uma pequena parte da comunidade – justamente os
recém-chegados representantes da golah
– tenha espontaneamente se envolvido com a atividade de reconstrução e
fundamentação mítico-literária do complexo templário. A grande parcela
campesina da população, quando não cooptada político-ideologicamente para a
funcionalidade tributária do Templo – e por que não a despeito disso – desenvolveu em franca reação dispositivos
culturais e teológicos próprios[185], que ainda
poderiam ser localizados aqui e ali no complexo canônico da Tanak, para dentro
dela catalisada por processos que ainda se devem discutir e em períodos quando esse conflito Templo – campo ou
“normalizou” ou assumiu dimensões sociais mais “administráveis”.
No que diz
respeito, porém, à golah sacerdotal,
à sua política e ideologia[186], a seu
projeto de fundamentação do sacerdócio em torno do complexo templário de
Jerusalém, pode-se dizer que, até onde se podia à época, agora está tudo bem:
Jerusalém está fundada; o mundo está criado; foi criado o novo homem; é dia de descanso.
Claro que, à
luz de Ne 5, valeria aceder à insistência da pergunta: descanso – para quem?
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[1] Para a seção
estrutural, cf. TORREBLANCA, 2000, p. 82; GAILEY, 1955, p. 294-309.
[2] Mark A.
Smith defendeu a idéia de que, apesar de um longo período de culto a Asherah tanto no norte quanto no sul,
período entrementes entrecortado por momentos de reforma javista exclusivista, o cativeiro babilônico teria
constituído um acontecimento absolutamente radical, que teria levado à revisão
da história da religião de Israel (SMITH, 1987, p. 337). O que parece faltar na
análise de Smith é considerar que “Israel” não é uma grandeza, e que essa “revisão” não é tanto uma revisão quanto uma ratificação e
homologação de uma determinada
leitura já presente na teologia de
uma das representações histórico-sociais da nação. É provável que a maior parte
do povo, representada pela crítica profética, não tenha sido abalada pelo exílio, permanecendo com
sua religiosidade campesina. É, contudo, verdade que uma percepção dessas
esbarra na declaração categórica de Kaufmann de que, por exemplo, o monoteísmo
em Israel não teria sido elaborado por um ou por poucos homens de “gênio”, mas
teria, antes, constituído uma “‘intuitive folk-creation’,
the work a whole people” (JBL 70, 1951, p. 179-197, apud
MCKENZIE, 1952, p. 324), a que se poderia responder que Kaufmann simplesmente
despreza a leitura da história de Israel como conflito, tratando-a como o drama de um povo. Até que ponto a
história do povo de Israel depois da
era Cristã não está influenciando a leitura da história de Israel antes dessa era?
[3] Deve-se
fazer um esforço necessário para distinguir entre Gn 1,1-2,4a no momento de sua
redação e em sua funcionalidade litúrgico-teológica e político-religiosa
original, e a história de seus efeitos, bem como sua instrumentalização
literária posterior quando da montagem definitiva do Pentateuco. Porque parece
ter Richard Clifford descuidado desse detalhe, afirma que Gn 1,1-2,4a seja o
preâmbulo de Gn 2-50 (CLIFFORD, 1985, p. 522). Um bom exercício de crítica da
redação provavelmente corrigiria a declaração de Clifford. De resto, o artigo
de Clifford é relevante, e será citado algumas vezes neste ensaio.
[4] Sem me deter
nos detalhes, de certa maneira a seguinte afirmação de Caros Mesters é
relevante nesse contexto: "nesta intuição de fé de Jeremias (sobre o tema
da ‘criação’) está a semente que gerou a primeira página da Bíblia: ‘No
princípio criou Deus o céu e a terra’”(Gn 1,1-2,4a) (MESTERS, 1994, p. 22). Com
temor, diante do mestre Mesters, gostaria de lhe propor uma hipótese de
reformulação: de Jeremias não teria saído o germe do tema da criação, mas a
polêmica em torno de Jr 4,23-25, da qual nasce, aí sim, "a primeira página
da Bíblia"; o tema da criação em Jeremias poderia ser tomado como
desenvolvimento posterior, nesse caso, sobre o tema, agora, da criação, a
partir de Gn 1,1-2,4a.
[5] Para uma
breve análise da interpretação do mito na cultura ocidental, cf. CASSIRER, s/d,
p. 5-22 (cf. o comentário religioso de Michel Maslin à teoria do mito em Ernest
Cassirer [MESLIN, 1978, p. 234s]); cf. ainda WACH, 1966, p. 65-68, para um
brevíssimo resumo de perspectiva a respeito dos conceitos defendidos por Wundt,
Jung, Lang, Frazer, Malinowski, Cassirer, Urban, Langer, Tillich e Eliade;
também, JAMES, 1973, p. 108ss.
[6] Já
suspeitada por VON RAD, 1986a, p. 144-171; cf. HAAG, 1981, p. 275. Pixley chama a atenção para o fato
de que “la doctrina de la creación del mundo no figura em la gran obra
histórica de los deuteronomistas, ni en las colecciones de los dichos profetas
pre-exílicos” (PIXLEY, 1971, p. 55). A pesquisa está sendo desenvolvida
por grupo de pesquisa do Curso de Pós-graduação em Teologia do Seminário
Teológico Batista do Sul do Brasil.
Quando Haroldo afirma que "esses textos não
querem ser um 'relato histórico' (REIMER, 1996, p. 10), ele está insistindo na
condição de “histórias de fé” de que se reveste o texto. Poderíamos presumir
que a condição histórica dessa narrativa esteja, por outro
lado, aí sim, não no passado que conta, mas no presente que hipostasia.
[8] Para sua
função desintegradora tanto quanto integradora, cf. Edmund Leach, Myth as a
Justification for Faction and Social Change (GEORGES, 1968, p. 184-198).
[9] Com Roland
Barthes, por exemplo: “O mito é uma fala
(...) Naturalmente, não é uma fala qualquer. São necessárias condições
especiais para que a linguagem se transforme em mito (...). Mas o que se deve
estabelecer solidamente desde o início é que o mito é um sistema de
comunicação, é uma mensagem. Eis porque não poderia ser um objeto, um conceito,
ou uma idéia: ele é um modo de significação, uma forma” (1978, p. 131).
[10] A ação da
divindade; a ambientação do sucesso no mundo das origens – in illo tempore; a explicação do “presente” à luz do sucesso
inaugural; etc.
[11] Expressões
relativas a Gn 1,1-2,4a como a de Pedro Trigo (1988, p. 118) – “o texto
desmitologiza ao máximo” – ficam a dever. Pedro Trigo imagina que o fato de a
narrativa polemizar com os astros – sol, lua e estrelas, o que é então
entendido como uma polêmica com as divindades astrais – deva apontar
necessariamente para uma desmitologização. Não é essa, contudo, uma inferência
exclusiva. O mito de Gn 1,1-2,4a é um mito extremamente complexo, em que se
cruzam questões como a inauguração do Templo de Jerusalém (cf. adiante), a
contra-crítica sacerdotal à crítica profética (cf. adiante), a polêmica com a
polilatria a partir do programa de monoteização masculina implantado pela golah
e a apresentação do novo ´ädäm. Diferentemente da Assíria, que simplesmente
aplica a figura de seu deus Assur ao mito de Marduk – cooptando-o –, o mito
cosmogônico de Gn 1,1-2,4a é milimetricamente pensado, projetado e promulgado.
Em que pese tamanha programação ideológica, é ainda assim um mito (cf. CROATTO,
1974, p. 19: “El Gênesis es el libro que más paralelos mitológicos há
herdado”. Nem por isso Croatto de furta a falar de “mensaje inspirado” (p. 19)
e de “’historia salutis’” (p. 21), o que, no entanto, para Croatto, vê-se
revestido de “lenguaje mitológico” (p. 20)); polêmico, se comparado a Von Rad:
“el lenguaje (de Gn 1) es extremamente a-mítico” (1977, p. 56). Fico, contudo,
com a declaração de Haroldo Reimer: “narrativa mítica, assumida como
testemunho” (2001, p. 753). Israel teria se servido dos mitos comuns dos
semitas, e teria desenvolvido suas próprias composições míticas – Gn 1, por exemplo
–, sendo que, entretanto, o "gênio religioso" israelita teria
convertido em monoteísmo o que era politeísta, e em moral o que
era imoral (BALDWIN, 1929, p. 34, essa última
observação por conta e risco do próprio Baldwin). E mais: "o mito da
Criação do começo de Gênesis" é obra de P, "escrito por um
sacerdote" que "indubitavelmente estava familiarizado com a forma que
o mito tinha assumido na Babilônia" (BALDWIN, 1929, p. 35).
Antes de Croatto, por exemplo, Michel Meslin já
o havia dito. No que diz respeito à minha intuição, contudo, o caminho foi de
Croatto a (até aqui, por enquanto) Maslin. A citação de Michel Maslin é grande,
mas relevante:
|
Certamente, o relato mitico se apresenta sob a
aparência de um discurso persuav\sivo, paradigmático. E disso poderia
deduzir-se que está orientado melhor até o futuro do homem
que até um tempo primordial, mas carregado de virtualidades e de
potencialidades que de referências a um passado original.
Para explicar essa realidade que o homem não pode apreender racional e
cientificamente, o mito inventa uma situação, com
freqüência personalizada, que localiza em um tempo e um espaço dados. Esta
situação adquire, assim, valor de experiência singular. E por conseguinte pode
ser proposta como modelo de ação ou como tipo de explicação, e o mito que a
propõe resulta, por conseguinte, mediante uma operação de sobredeterminação
totalmente análoga à operação simbólica, carregado de um dinamismo apto para
suscitas umas atividades humanas. Poderia dizer-se que um mito é uma história
que refere pedagogicamente uma realidade ainda (aun) misteriosa a uma
experiência singular que explica um estado de coisas existente no cosmos ou
umas relações estabelecidas na sociedade humana" (MESLIN, 1978, p. 229s). |
[13] 1994 é a
data de publicação do original argentino de As Linguagens da Experiência
Religiosa.
[14] O conceito
de mito tem sofrido modificações (cf. BARTHES, 1978, p. 131ss). Loyal Rue, por
exemplo, pretendeu definir o mito de
forma ampla, de modo que pudesse o termo ser empregado sem que necessariamente
falasse apenas de acontecimentos in illo
tempore, mas uma “big-picture”,
através da qual os homens pudessem construir sua orientação no cosmo. Já com
Kolakowski (1973) estávamos nos acostumando a uma definição mais genérica do
mito – e mesmo a identificá-lo nas percepções e proposições da modernidade. Requer-se, contudo, que não
se perca de vista que os mitos não
sendo “coisas”, mas linguagem
(BARTHES, 1978, p. 131), devem necessariamente refletir na sua linguagem particular, relativa à
cultura, ao momento histórico, à funcionalidade sócio-religiosa a que se
destina, em fim, por conta de sua condicionalidade histórico-social, intencionalidade e projeções peculiares. Cada
mito deve ser compreendido à luz de sua projeção histórico-social – caso contrário,
corremos o risco de criar uma ontologia do mito como foi criada uma ontologia
teológica na história do cristianismo.
[15] Aqui, a
intuição do presente ensaio difere de
Croatto, tão relevante na argumentação teórico-metodológica. Em seu recente
exercício hermenêutico, ele assim se expressa sobre Gn 1: “Da mesma maneira,
Gênesis 1 não é ‘palavra de Deus’ enquanto descrição de um ato real, senão
enquanto interpretação do mundo, do
ser humano nele, e do descanso
humano. Na maneira como Deus é mostrado na cosmogonia, o ouvinte atento do
texto entende quem é ele, que sentido tem o mundo tal como o experimentamos, a
criação dos seres humanos a sua imagem e o trabalho humano ‘completado’ com o
descanso” (CROATTO, 2002, p. 18). Trata-se da descrição de uma, se existe, “ontologia hermenêutica” da divindade.
Parece-me, contudo, que precisamente essa é a intenção da narrativa – mas não me apetece a idéia de que a leitura dela deva ser um exercício de
submissão à intenção do narrador; é preciso, antes, apreender o sentido e a
intenção dessa narrativa, analisá-la, julgá-la sob a perspectiva da ética e da
justiça. O conteúdo que diz é função
da razão por que diz.
[16] O © é de
2001.
[17] Cf. ainda
JAMES, 1962, p. 245s, que trata do tema sob a mesma perspectiva.
[18] O fato de
que os mitos constituem expressão do ambiente onde são elaborados pode ser
observado em duas afirmações de E. O. James: primeiro, a de que as festas
estacionais no Egito seguiam os ritmos das enchentes regulares do Nilo (JAMES,
1962, p. 157s) - o que conseqüentemente determinava as configurações
redacionais dos mitos relacionados à festa; segundo, que os rituais
correspondentes na Mesopotâmia tanto eram diferenciados nos detalhes quanto na
expressão mítica por conta da irregularidade das cheias do Tigre e do Eufrates
(p. 163ss); terceiro, que os mesmos festivais e mitos na Síria eram adaptados
de acordo com as condições do clima próprias daquela região (p. 170).
Poder-se-ia pensar nesses mitos como grades estruturais
cujo conteúdo - as recitações - correspondiam às especificidades locais.
[19] “I
propose, then, to accept without question the value, as historical evidence, of
incidental references to social conditions and of the social setting of
mythical narratives” [“Eu proponho, então, aceitar sem questão o valor, como
evidência histórica, de referências incidentais a condições sociais e de
cenário social de narrativas míticas] (The Sociological Significance of Myth,
GEORGES, 1968, p. 27-45).
[20] Para uma
análise de fenômeno semelhante, mas agora em solo grego, cf. o capítulo III (A
Organização do Espaço) em VERNANT, 1973, p. 113-206, mas aí agora já na aurora
das decodificações alegórico-idealistas dos mitos.
[21] Cf. o
entendimento que Vítor Westhelle extrai de Ernst Cassirer: “Ernst Cassirer
(...) vê o mito, em analogia ao princípio kantiano do a priori transcendental, como sendo um princípio poiético que a mente utiliza para
organizar os dados da experiência. Aqui o mito não leva a conotação de estória,
ou de fábula. As estórias, os mitos concretos, são expressão deste princípio
sintético da razão em dados concretos sociais” (WESTHELLE, 2000, p. 16). O
próprio Westhelle, contudo, é da opinião de que “o mito não é uma forma de
cartografia, é antes de uma forma de detectar a realidade construindo uma rede
de significados que dependem de sua articulação narrativa” (DESTHELLE, 2000, p.
16). “Detectar”, contudo, aponta para um procedimento filosófico, enquanto parece ser razoável supor que o mito seja mais
do que filosófico – o mito é
linguagem política. Quando, por exemplo, discutindo sobre a afirmação de
Hölderlin (Friedrich Hölderlin, Gesammelte
Werke: Philosophische Nachlass, Übersetzungen. Postdam: Gustav Kiepenheuer,
1921, apud WESTHELLE, 2000, p. 18) de
que “’de acordo com sua essência a religião é poética’, mas enquanto fenômeno é
mítica”, Westhelle afirma que “no entanto, definir o religioso como
essencialmente poético dificilmente explica o fenômeno religioso, a saber, a submissão
do crente ao misterioso poder do mito” (WESTHELLE, 2000, p. 18), parece haver
uma certa ausência da percepção de que o crente
não se submete necessariamente ao misterioso poder do mito, mas a um outro
poder – o mágico-institucional personificado no sacerdote-(inter)mediador – para o qual o mito, aí sim, é instrumento político-religioso. Isso que aqui trato
como uma “ausência de percepção” torna-se incontornável se nos damos conta
desse outra afirmação de Westhelle na seqüência de seus argumentos: “o tom
ingênuo é caracterizado, assim como a religião, por uma atitude de união
contemplativa e harmônica entre o sujeito que crê e o objeto mitológico” (WESTHELLE, 2000, p. 19) – mais uma vez Westhelle não parece preocupado com a
simplificação do esquema sujeito – objeto, ainda que as estruturas funcionais
religiosas tornem patente o triplo relacionamento sujeito – (inter)mediador –
objeto. Mesmo numa suposta relação sujeito – objeto [para manter a terminologia
de Westhelle] como a pressuposta na relação homem – Deus (logo leitor – Escrituras) pressuposta nos
argumentos de Lutero contra Erasmo, testemunha-se o inapelável recurso de
Lutero (em última análise) a si mesmo enquanto (inter)mediador hermenêutico
entre o “verdadeiro crente” e o “sentido das Escrituras” (POPKIN, 1997, p. ).
Um enfrentamento da questão do mito não pode prescindir de sua análise a partir
de suas operações funcionais in loco.
Uma ontologia mítica presta-se ao
mesmo papel que uma ontologia teológica.
Afinal, nesse preciso caso da instrumentalização, mito e teologia são
estrutural e funcionalmente equivalentes: não são elaborados em si e por si mesmos, mas a fim de
que. Não são fim, são meio. Especialmente ilustrativo nesse
sentido é o artigo de Claudio Prado Mello, A
Noção da Persona Divina do Rei Egípcio na XVIII Dinastia: Aspectos
Político-Sociais e Religiosos. Claudio Mello argumenta que o sistema
cosmogônico egípcio tinha por objetivo a sustentação da Ordem (p. 37): “neste
sentido, as formas do Estado egípcio, tão desiguais, tendiam a não serem
questionadas”. É que a base desse sistema era, nos termos em que Claudio Mello
o apresenta, eram “as águas primordiais, descritas como um oceano de movimentos
caóticos e a necessidade de estabilidade e ordenação” (p. 37). O papel do rei
nesse sistema é descrito da seguinte maneira: “através da propaganda da sua
própria imagem, o Poder Central (...) procurava manter a sociedade tal como os mitos de criação sugeriam
que ela devesse ser” (p. 40). Esse Poder Central, era representado pelo rei,
que era rei, mas “não somente um Rei, mas também Sumo Pontífice, já que o Rei
era o principal sacerdote da Religião do Estado e teoricamente era ele que
oferecia o mais importante ritual – o Ritual Diário” (p. 35), ritos esses que
representam “o constante estabelecimento da Ordem e a manutenção do equilíbrio
sobre a terra” (p. 38). Vê-se assim a relação entre cosmogonia – manutenção do status quo do poder e da sociedade.
Sobre o tema da criação em Israel, por exemplo, ainda que nem de longe toque na
perspectiva aqui adotada, Helmer Ringgren reconhece que, conforme estabelecido
nas narrativas de criação, “God protects the world against a renewed invasion of chaos;
therefore man can live in safety” (RINGGREN, 1962, p. 109). Lendo em chave hermenêutica histórico-social, deparamo-nos com a
mesma função político-religiosa que aqui se defende para a cosmogonia de Gn 1,1-2,4a. Não seria por outra razão, quem sabe,
que se poderia dizer, com Ringgren, que “creation is a continuous activity, which man gratefully accepts” (RINGGREN, 1963, p. 109).
Baldwin, por sua vez, estabelece a diferença entre lenda e mito da seguinte
maneira: primeiro, lenda traduz um desenvolvimento fabuloso sobre um núcleo
histórico (conseqüentemente, faltaria ao mito esse núcleo
histórico) [BALDWIN, 1929, p. 32). Discorrendo sobre o mito de Pandora, por exemplo, Baldwin concluiu
generalizando que o mito carrega em si a dimensão
da "imaginação criativa" (. p. 32), funcionando simbolicamente.
A segunda diferença que aponta seria a seguinte: "enquanto a lenda é um
desenvolvimento imaginativo de algum coisa histórica, o mito
é sempre uma primitiva explanação de algum fenômeno natural" (BALDWIN, 1929, p. 33). Nessa última definição, que soa ontológica,
faltaria o aspecto da funcionalidade
político-religiosa que me parece fundamental como característica do mito.
[22] A partir
das afirmações de Eliade adiante sobre a relação entre mito cosmogônico e
construção de templos, poderemos chegar a uma datação para Gn 1,1-2,4a próxima
de 520 a.C., imaginando assim que tenha sido lida a narrativa como rito de
fundação do Templo de Jerusalém.
[23] É
interessante trabalhar com a hipótese de que rûªH enquanto agente da destruição
tanto em Jr 4,11-12 quanto por isso mesmo em Gn 1,2 tenha permitido à golah
superar a teogonia – o mundo é criado pela superação do vento tempestuoso e
pela supressão da treva. A ausência de teogonia em Israel é denunciada por
KAUFMANN, 1989, p. 64-66: “O repertório de lendas bíblicas carece do mito
fundamental do paganismo: a teogonia. Todos os motivos teogônicos estão
semelhantemente ausentes” (p. 64; cf. RINGGREN, 1965, p. 106). Gn 1,2 pode consistir
na reformulação mítica das origens à luz de uma des-teogonização dos mitos com
que tiveram contato em Babilônia os seus redatores. A estrutura teogônica de
fundo, contudo, está latente na redação sacerdotal: “e um vento tempestuoso
soprava sobre a face das águas”. O fato de que Pr 30,4 refere-se à estrutura
cosmogônica – a meu ver – refletida em Gn 1,1-2,4a, mas tratando-a nos termos
da teogonia (a divindade [não nomeada] enfrenta e vence o rûah, condição pela
qual é possível agora estabelecer a terra [RIBEIRO, 2002b, p. 581-585]) pode
ter sua explicação no fato de que, mesmo contrapondo-se à teogonia,
transmutando-a (KAUFMANN, 1989, p. 66), os escritores de Gn 1,1-2,4a apenas
des-divinizaram o elemento teogônico, podendo-o indicar na presença destruidora
de rûªH
soprando sobre as águas. É interessante observar que conquanto Gn 1,2
dê conta explicitamente da supressão das trevas pelo o fato – e ato – de
‘Elohîm, pela palavra, dar existência à luz, a cosmogonia simplesmente silencia
a respeito do que acontece com rûah. Nesse silêncio podem estar tanto o esforço
para superar a teogonia num complexo mítico monoteísta (FOHRER, 1982a, p. 168),
quanto a consciência de que rûªH era, desde sempre, e precisamente em Jr
4,11-22 – objeto referencial para a contra-crítica sacerdotal – agente
destruidor de Yahweh. Pr 30,4 está distante dessa consciência quando toma
literalmente rûªH como grandeza a ser enfrentada, vencida e subjugada como
condição para a criação? Ou o escritor de Pr 30,4 está mais próximo do ambiente
mítico teogônico a ponto de ler sob essa perspectiva a narrativa mítica
cosmogônica de Gn 1,2 justamente o elemento teogônico mesopotâmico original que
a redação de Gn 1,1-2,4a quisera ultrapassar? Pixley defende a idéia de que o
mito teogônico fosse muito mais antigo em Israel, sendo derivado do tronco
semítico comum aos mitos mesopotâmicos e cananeus desde o terceiro milênio (PIXLEY, 1971, p. 57-59). Teria Pr 30,4 lido Gn 1,2 à luz do tronco semítico
teogônico? Conclua-se a argumentação com o registro de que, apesar da diferença
de perspectiva, respectivamente, de interpretação, Von Rad chegue a perceber e
afirmar: “el enunciado concierne pues a la descripción de ló caótico y no entra
aún dentro Del proceso de la creación” (VON RAD, 1977, p. 58s).
[24] Razão pela
qual, logo se vê, dessa forma não há como concordar com o comentário de
STRAUBINGER (1951, p. 17): “El
Espíritu Santo es el artífice que sacó de este caos un
mundo bien ordenado”. Da
forma como vejo, “o mundo” – a terra – até era relativamente “ordenada”, pelo
menos até que rûah sopre violentamente sobre ela, deixando-a uma desolação,
tornando-a um deserto. Repare-se o sentido de “vazio” como “deserto de
habitantes (governantes) presente na ocorrência de Is 34,11. Para uma análise
de tohû e vohû a partir de seus possíveis cognatos aramaicos, então
significando “to wander” [vagar, errar], “be conduced” [estar/ser confuso], “be
alarmed” [estar/ser alarmado/assustado] e “emptiness (?)” [vazio] – o que a meu ver reforça a tese de que tohû vâvohû signifique a descrição do
estado físico da terra de Judá depois
da passagem do exército de Nabucodonozor – cf. ARBEZ e WEISENGOFF, 1948, p.
146, ainda que eles mesmos permaneçam no nível da interpretação clássica dessa
passagem.
[25] A
dificuldade de Von Rad de compreender o conceito de “caos creado” (VON RAD, 1977, p. 57) decorre do
fato de que ele toma “ontologicamente” a descrição da narrativa. Mas caso se
tome a descrição como histórica, faz todo sentido que haja um “caos” – que
“caos" mesmo não o é – “criado”: o que teologicamente e tradicionalmente
tem se tratado por caos deriva, segundo posso perceber, da descrição profética
da terra desolada e deserta, realidade que a teologia sacerdotal toma para a
partir dela, como efetivamente é a partir dela, elaborar a cosmogonia da
“criação” – espelho histórico da reconstrução de Jerusalém, respectivamente, do
Templo. É por isso ainda que Von Rad vê com dificuldade o enredo teológico na
dependência subordinativa de Gn 1,1 aos v. 2 e 3, preferindo tratar o v. 1 como
um verso separado. Von Rad raciocina a partir da teologia.
[26]
Ringgren,
contudo, registra opiniões de que haja “semi-mythological concept” em Jr
4,23-25. Obviamente, considera que a figura descreve um retorno ao caos
existente antes da “criação” (RINGGREN, 1966, p. 276).
[27] Cf. DA
SILVA, 1992, p. 24, conquanto ali se afirme tratar-se da invasão de 605/604
a.C. Bright afirma que não se pode datar com segurança nenhum dos oráculos de
Jr 4-6 (“they constitute a long editorial unit”, p. 33), admitindo que alguns
deles podem ser tão tardios quanto a época da invasão babilônica de 598/7 (BRIGHT, 1965, p. 34); por sua vez, BRUEGGEMANN (1983, p. 68) trata
especificamente Jr 4,23-26 como sendo de Jeremias; o mesmo vale para VON RAD,
1986b, p. 184-187.
[28] A “luz” é a
primeira coisa a ser criada, levando-se em consideração a relação temporal
entre Gn 1,1 e 1,3, Gn 1,2 funcionando como cláusula parentética. A perspectiva
atende à afirmação de que na crítica profética, é a luz que desaparece dos
céus. Logo, a “criação” deve começar por ela, uma vez que o “vento” é agente de
destruição, sim, mas do próprio Yahweh. Não é, pois, o “vento” o inimigo, mas a treva.
[29] Clifford
(1985, p. 509), citando a definição de “criação” proposta por Arvid Kapelrud
(Creation in the Ras Shamra Tablets, Studia
Theologica 34 (1980) 3, apud
CLIFFORF, 1985, p. 509) para a mentalidade do Oriente Antigo – “criação é
quando alguma coisa que não existia antes é produzida” percebe que, com tal
definição, “criação” passa a referir igualmente qualquer ato criativo, seja divino, seja humano. No caso das cosmogonias do tipo Baal, as construções culturais e
religiosas são projetadas para o mundo dos deuses e das origens. São a um
tempo, atos criativos humanos e divinos – esse o Sitz im Leben desse tipo de cosmogonia, em que Gn 1,1-2,4a deve
ser, a meu ver, classificado. Interessa
ainda recordar, a fortiori, que Jakob
H. Groenbaeck (1985) já afirmava que, no que tange o Antigo Oriente Próximo,
“creation was a feature of the mythic realm, and as such its home was in the cult
whose sacred words and deeds (myths and rites, respectively) were intended to
ensure the continued existence of the world, rather than explain the origin of
things” (GROENBAECK, 1985, p. 27). Na seqüência, Groenbaeck não chega a
constatar que seria precisamente essa
a função de Gn 1, antes, chega a denunciar sua ausência ali (loc. cit.). Penso que a percepção
defendida no presente ensaio pode corrigir a intuição: Gn 1,1-2,4a é um texto cúltico de renovação, e mesmo de criação de um novo mundo, como
se verá adiante. O próprio Groenbaeck, contudo, reporta-se à mesma citação de
Kapelrud acima, para tratá-lo como “too restrictive” tanto para a literatura de Ugarit, quanto para o Antigo
Testamento (GROENBAECK, 1985, p. 29). Insistiria, contudo, que se Gn 1,1-2,4a
for tomado como uma cosmogonia de funcionalidade cúltica nos termos que o
presente ensaio a define, Kapelrud estaria absolvido da crítica de Groenbaeck.
O leitor o julgue.
[30] Para dizer
o que bastaria inverter a afirmação de Frederico Dattler: “não admira que o
hagiógrafo tenha encarado a criação do mundo como primeiro passo da criação de
seu próprio povo” (DATTLER, 1984, p. 26). Para usar uma certa figura, se
Dattler olhar “em espelho”.
[31] “A ordem
normal das palavras numa oração verbal em hebraico é a seguinte: primeiro vem o
verbo, segue o sujeito (e seus complementos) e, por fim, são mencionados o
objeto direito e outros complementos do verbo (...) Quando a ordem das palavras
é diferente da descrita acima, tenciona-se enfatizar a parte da oração colocada
no início”.
[32] Cf. ainda o
excelente argumento de William Lane sobre a determinação de cláusula temporal
nesses casos (LANE, 1963, p. 70s).
[33] Essa a
descrição de Pfeiffer da terra: “the country was desolate” (1962, p. 105).
[34] Para uma
leitura de treva como manifestação da divindade na cosmogonia, antes que
elemento negativo, cf. Nicolas Wyatt, 1993, p. 543-554: “inchoate médium of revelation: the darkness” (p. 550).
[35] Mas de
certo modo acatando a sugestão de Rashi: br’ como infinitivo em Gn 1,1 (cf. CHOURAQUI, 1995, p. 29; também, e
principalmente, LANE, 1963, p. 63). ALLIS (1958, p. 9), VON RAD (1977, p. 60) e
HOMBURG (1984, P. 20) concordariam que a paráfrase é gramaticalmente possível,
mas não a sua adequabilidade teológica ao tema da criação ex nihilo. Para uma
discussão mais técnica sobre a vocalização de Br´
como infinitivo em Gn 1,1, cf. CHÁVEZ, 1988, p. 482-484. O
comentário de Rashi a respeito de Gn 1,1-3 seria o seguinte: "But
if you are going to interpret this passage in its plain sense, interpret it thus: at the beginning of the creation of heaven and
earth, when the earth was
(…) God said (…)” (apud
ORLINSKYY,
1983, p. 208)". Cf. ainda ARBEZ e WEISENGOFF, 1948, p. 140-150, para
quem “não há suficiente razão para abandonar a construção tradicional dos
versos” (p. 143).
[36] Com o que
poderíamos remeter à argumentação de William Lane (1963, p. 67) que,
acompanhando Paul Humbert (“Trois notes sur Genesi I”, Interpretationes ad Vetus Testamentum Pertinentes Sigmundo Mowinckel
Septuagenario Missae, Oslo, 1955, p. 85-96, apud LANE, loc. cit.),
afirma que em Gn 1,1, bereshîth não
se refere ao tempo absoluto (o princípio),
mas a um tempo a partir do qual a criação seria iniciada. Esse momento é o século VI.
A coisa, Jerusalém – o Templo.
[37] Lane
enfatiza que a presença, que se poderia dispensar, de hâytâh em Gn 1,2a deve ser tomada como explicitação de tempo passado (LANE, 1963, p. 71). Penso que, naturalmente; porque sugiro que o
referencial para a terra era desolação e
vazio seja justamente o acontecimento
histórico de 587 a.C. O que agora se tem diante dos olhos (539? 520? Século
V?) é a criação, presente. Jerusalém
é reconstruída – seu templo e seu povo (a golah)
– sobre os escombros do passado!
[38] A fortiori
para a comunidade da golah, para quem a terra fora totalmente dizimada até o
ponto de não haver mais lá nenhum “israelita” digno de menção (GALLAZZI, 2002,
p. 30). A tradução “um deserto e um vazio” é defendida para Gn 1,2 por Enrico
Galbiati, Gênesis, em BALLARINI, 1975, p. 152, argumentando tratar-se de uma
endíade. Cf. em Robert Carroll (1992, p. 79) sobre o que ele chama de “mito da
terra vazia”, considerando-se a perspectiva com que Crônicas descreve
ideologicamente a situação da terra durante o exílio; Carroll agrega a essa
ideologia, o tema da “contaminação” da terra pelos cananeus (p. 79s).
[39] Nesse
sentido, apresenta-se convenientemente a proposição de VON RAD, 1986a, p. 145:
“(...) Israel associou esta crença à sua fé na salvação, baseada em fatos
históricos”. Ainda, a
fortiori, vale o registro da seguinte afirmação de Kitchen (1966, p. 89): “in
the Ancient Near East, the rule is that simple accounts or traditions may give
rise (by accretion and embellishment) to elaborate legends, but not vice versa.
In the Ancient Orient, legends were not simplified or turned into
pseudo-history (historicized) as has been assumed for early Genesis”.
[40] Por ainda
mais pretensioso que pareça – e logo se verá por que – talvez seja possível
precisar ainda mais a afirmação de VON RAD, 1986a, p. 146: “por mais pretensioso
que pareça, devemos afirmar que a criação pertence à etiologia de Israel”. Essa
afirmação, dentre outras conseqüências adiante tratadas, explicaria, em parte,
a ausência do tema da criação nas declarações de fé veterotestamentárias, o que
foi assinalado, por exemplo, por Richard J. Clifford (1985, p. 507).
[41] A
reconstrução do Templo de Jerusalém ter-se-ia transcorrido desde 537 até
515, desde imediatamente após o retorno, e tendo sido impulsionado por
Zorobabel, Ageu e Zacarias (JOIN-LAMBERT, 1957, p. 47).
[42] Perceba-se
a proposição intuída já nos comentários de Brueggemann sobre Gn 1,1-2,4a como
“surpreendentemente apropriada a um povo no exílio” (WOLFF e BRUEGGEMANN, 1984,
p. 125). O que temos de fazer é mais do que apenas pressupor que na redação de
Gn 1,1-2,4a esteja presente a “teologia” sacerdotal, a consciência de um “povo
no exílio” – como é igualmente a afirmação de Schwantes. O que temos de fazer,
agora, é perceber que não é apenas o como se diz que traduz a percepção de um
povo no exílio, mas igualmente – e a fortiori – o que se diz se diz justamente
a partir daí: a criação é a restauração da vida sob a perspectiva desse grupo.
O que se narra em Gn 1,1-2,4a são os sucessos desse povo no seu retorno, na sua
obra de reconstrução e na sua tarefa de domínio. Cf. ainda, adiante, a
discussão a respeito da recitação ritual da cosmogonia durante as construções
de templos, cidades ou da tomada de um novo território. Não se aplica
diretamente à tese em foco, mas a afirmação a seguir de Karl Rahner traduz a necessidade
de se tratar a narrativa de forma não literal: “Hoje todos estão de acordo em
que o primeiro capítulo do Gênesis não tem a intenção de oferecer uma descrição
de como nasceu o mundo” (RAHNER, 1972, p. 6). Relevante, ainda, a afirmação de
Jakob Groenbaek de que a relação entre os mitos de Baal e de Marduk com a
construção dos seus respectivos templos encontra paralelo no Antigo Testamento,
em Ex 15 e Sl 93, onde a presença do Templo está relacionada aos atos de poder
criador e mantenedor da ordem de Yahweh. Pena que Groenbaek não se tenha dado
conta de que o mesmo se poderia dizer de Gn 1,1-2,4a – ‘Elohim ‘descansa’ em
seu templo (GROENBAEK, 1985, p. 33). Para uma representação iconográfica do
tema da luta entre os deuses e a construção do templo, cf. o cilindro metálico
constante em PRITCHARD, 1954, p.221, fig. 690.
[43] Sua
discussão está propriamente relacionada ao mito de Baal; sua aplicação a Gn
1,1-2,4a por inferência vai por nossa conta.
[44] Comentando
a batalha entre Marduk e Tiamat, Pritchard escreve: "no mito, o conflito é
inseparável da criação, que segue imediatamente" (PRITCHARD, 1958, p.
189). Concordaria com Pritchard quando ele afirma que o tema da batalha entre a divindade e o dragão "have been
scrupously avoied by the author of the biblical account of Creation in the
first chapter of Genesis" (PRITCHARD, 1958, p. 190), mas somente para
completar que o tema foi substituído pelo conflito
(tão caro ao tema da criação, segundo Pritchard) entre profecia
e templo presente em Gn 1,2.
[45] Acompanha-se
aqui a sugestão de Alonso-Schökel, Dicionário, p. 630; embora Alonso-Schökel e
Carniti optem por “teus servos amam suas pedras” (op. cit. p. 1251).
[46]
Alonso-Schökel (Dicionário, p. 189): “uso adverbial (...) modal: assim, deste
modo”; mas em seu comentário se traduz: “fique isso escrito” (ALONSO-SCHÖKEL e
CARNITI, 1998, p. 1251).
[47] Tradução do
autor a partir do texto hebraico da Biblia Sacra, 1994.
[48] As versões
traduzem arqui o completo como futuro (“quando reconstruir”) provavelmente por
conta do fato de que Sião esteja em ruínas e a tradução do completo como
pretérito perfeito resultaria confusa. O efeito aparentemente confuso, contudo,
resulta provavelmente do fato de que as traduções deixam de tomar a imagem da
reconstrução de Sião dentro da argumentação do salmista, que se dirigindo a
Yahweh a fim de convencê-lo da reconstrução, já a descreve construída. Assim o
salmista leva Yahweh a imaginar Sião reconstruída – momento em que, na
narrativa, o fato é passado.
[49] A golah?
Cf. “cativo” e “filhos da morte” no v. 21.
[50] Na lógica
da argumentação, porque os cativos estariam, então, na Sião reconstruída,
louvando o nome de Yahweh. Esses cativos são eles mesmos o povo criado? O povo
criado é a golah?
[51] Duas vezes
citada em 18a e 18b.
[52] Pixley
segue argumentos diferentes dos presentes, mas acaba percebendo uma relação
entre mito cosmogônico e criação do povo, naturalmente tendente às tradições do
êxodo, leitmotiv compreensível de sua teologia (PIXLEY, 1971, p. 60): “Não
surpreende então que temas do mito da criação comum aos povos semitas do Antigo
Oriente Próximo se tenham associado com o que era o mito de criação autônomo de
Israel, não a criação cósmica, mas a criação por Yahweh de um povo para si”.
Pixley refere-se textualmente a Is 51,9-10, e chega a afirmar que Gn 1,1-2,4a
funciona como uma censura sacerdotal à utilização do tema teogônico nas
tradições exílicas. Também Loren Fisher relaciona as perspectivas do êxodo e da
criação. Seu argumento é o de que a criação de um povo não é necessariamente
igual à criação do mundo, mas que uma vez que os temas são tratados juntos,
deve-se acatar a sua inter-relação (FISHER, 1965, p. 321). Sobre Gn 1, Fisher
não consegue afirmar que se trate de uma cosmogonia do tipo Baal – conflito,
reinado da divindade, ordenação do caos, construção do templo – porque sua
perspectiva é a de que o êxodo esteja na base da reflexão teológica. Além
disso, Fisher não parte do conflito entre sacerdotes e profetas; antes, parece
abarcar com o olhar toda a grandeza Israel, como nessa afirmação: “minha tese é
de que a criação de tipo Baal era mais proveitosa e significativa para os
hebreus do que a criação do tipo El ou teogonia” (FISHER, 1965, p. 321, grifo
meu; cf. ainda p. 322, 323). No que concerne ao século VI, criação e êxodo
estão relacionados não aos hebreus – seja lá o que esse termo a essa altura
signifique, mas à golah; são os exilados que participam do retorno, do êxodo
para casa, e é a golah quem dirige a reconstrução do mundo – da cidade, do
templo, da casa de Yahweh, o microcosmo que garante a fundação do mundo e do
povo. Fisher, por exemplo, afirma que os “hebreus” olharam para trás, do êxodo
para a criação (p. 323). Sua perspectiva de visão, histórica, trata a criação
de forma ontológica – o fato “histórico-ontológico” em si mesmo – e, o êxodo,
de forma histórico-traditiva, além de situar a perspectiva como evento
relacionado à grandeza hebreus. Mude-se a perspectiva, contudo, considere-se a
grandeza golah, efetivamente o agente histórico do êxodo (retorno do cativeiro)
e da criação (construção do templo) e o que teremos é a ordem inversa: primeiro
êxodo, depois criação. É que o êxodo encontra a terra um deserto e uma
desolação – acatamento teológico da idéia teológica da golah a respeito da
terra (Canaã) durante o cativeiro, e perfeitamente de acordo com o momento
histórico (mas não o posterior) pressuposto por Jr 4,23-26. A afirmação
classifica Gn 1,1-2,4a na segunda característica apontada por Richard Clifford
para as cosmogonias do Oriente Próximo Antigo: elas falam do “produto” que
emerge da criação, e, segundo suas próprias palavras, “a sociedade humana
organizada em determinado lugar era o
emergente” (CLIFFORD, 1985, p. 509).
[53]
Bärä´,
como
em Gn 1,1-2,4a, especialmente v. 1 e 27 – criação dos céus e da terra e criação
do homem.
[54] Para uma
aproximação fenomenológica ao tema da cosmogonia enquanto “ontologia” arcaica,
cf. o capítulo Ano, Ano Novo, Cosmogonia em ELIADE, 1992, p. 55-86 (cf. p. 81).
[55] “Formei”
(yâtsartî).
[56] “Eu” –
enfático, explícito e antecipado em relação ao verbo.
[57] Pedro Trigo
interessasse igualmente por essas referências, e as trata a todas como
reflexões proféticas na dimensão da salvação-criação (TRIGO, 1988, p. 74-80).
Para uma análise das perícopes de criação no Dêutero-Isaías, cf. HAAG, 1981, p.
263-286).
[58] Cf. 48,20; 65,21-22. Cf. ainda
WESTERMANN, 1969, p. 119: “a perfectly clear promise of the return of the
diaspora from exile”. Cf. ainda as primeiras três visões de Zacarias.
[59] Para
empregar a estrutura textual proposta por Westermann (1969, p. 171-176).
[60] Isto é, ele
não tem planos de que a terra fique um vazio; são todos termos de Gn 1,1-3 –
criar, terra, vazio.
[61] Com o que
Pedro Trigo aponta para uma intuição profética: “através destes acontecimentos
irá sendo formado um novo Israel e através dele será renovada toda a humanidade
e o universo inteiro” (TRIGO, 1988, p. 78).
[62] O vento de Yahweh
sopra na era, e a erva seca. Repare-se a conclusão do verso: “o povo é
erva”. Na lógica do verso, o povo seca pelo vento de Yahweh. O vento de Yahweh
é responsável pela desgraça do povo – é possível que “vento de Yahweh” seja
aqui uma referência a Gn 1,2, e que “a terra” ali seja traduzida para a
referência ao “povo” (cf. a narrativa sacerdotal do dilúvio).
[63] Conjugação
de rûah e se’ârâh – vento e tempestade.
[64] O vento que
sopra e leva embora.
[65] Irritado, o
rûah torna-se inimigo de Israel, e guerreia contra ele (referência a Gn 1,2?
cf. v. 14).
[66] Estou
inclinado a tomar o conflito entre as tradições de rûah ora como força negativa
contra qual Yahweh tem de lutar para dar conta da criação do mundo (Pr 30,4) e
rûah enquanto agente cooperador de Yahweh na criação (Jó 26,13) como produto de
interpretações de Gn 1,1-3 em diferentes contextos e por diferentes grupos
sociais a partir da redação do texto (Cf. RIBEIRO, 2002b, p. 588ss).
[67] Nesse caso,
visivelmente uma descrição do retorno da golah. Repare a seqüência de emprego
de rûah em Is 63,10-14: uma referência à destruição no v. 10 (destruição de
Jerusalém); uma referência à vida concedida pelo rûah no passado (v. 11); uma
menção à condução do povo depois da desgraça no v. 14 (repare a conjugação do
nome glorioso que Yahweh faz com essa condução, recordando a conjugação de
reconstrução de Jerusalém e da manifestação da glória de Yahweh e do louvor do
seu nome, por exemplo, no Sl 102, 13-23).
[68] Is 42,5;
44,3 (terra seca, mais água, mais rûah)
[69] Is 42,1;
48,16; 59,21; 61,1; 63,11.
[70] Quanto a
isso, cf. RIBEIRO, 2002c, p. 17s .
[71] Presente
inclusive na acepção do verbo bârâ’ de Gn 1,1-2,4a, a um tempo (qal) criar e
(piel) devastar.
[72] Cf RIBEIRO,
2002b, p. 590ss.
[73] Concordo
com William Lane de que a porta de entra ao texto de Gn 1,2, se o objetivo é
descobrir do que está falando, é a sintaxe.
É o texto que deve falar. Contudo,
não nos esqueçamos que o texto vai falar do que é possível a partir da visão de
mundo do seu escritor (ou escritores). Logo, sintaxe e Fenomenologia da
Religião são ferramentas indispensáveis para a tarefa: esta, para acessar a
estrutura religiosa por trás do texto; aquela, para alcançar essa estrutura de
forma minimamente objetiva – sem positivismos hermenêuticos, naturalmente.
[74] Croatto
trata essa historização como leitura literalista (2000, p. 16), chegando a
afirmar seu erro (p. 26). Von Rad, contudo, registre-se, gosta dela, e a usa
abundantemente (VON RAD, 1977, p. 56-58 e passim).
[75]
Boyce, à
semelhança de Brueggemann, vê na descrição de Gn 1,1-5 o contexto babilônico
projetado (1996, p. 395).
[76] “Criação e
dilúvio completam-se mutuamente” (WESTERMANN, 1987, p. 75; cf. RENDTORFF, 2002,
p. 96). Mircea Eliade defende a mesma idéia de relação entre dilúvio e
cosmogonia em ELIADE, 1992, p. 59 e passim.
[77] Com o que a
descrição de Gn 1,1-2,4a se comporta bem no que tange a primeira exigência
apontada por Clifford (1985, p. 509) para um conceito de criação característico
do Oriente Próximo Antigo – o enfrentamento de duas forças antagônicas, uma das
quais vence. Em Gn 1,2, contudo, a força é antagônica à criação, mas é lida com instrumento de destruição do próprio Deus. Isso se deve ao
particularíssimo momento histórico-social em que o mito foi elaborado e
empregado. Se tomado Gn 1,1-3 como a descrição de um drama histórico hipostasiado, também a terceira característica da
definição de Clifford estará presente (p. 511). Clifford encontra dramas criacionais em diversas passagens
do Antigo Testamento, mas nunca se refere a Gn 1,1-2,4a nesse sentido, salvo
quando afirma que Gn 1 aponta para “a humanidade como um todo” (p. 512); mas
aqui Clifford tomou a história dos efeitos da narrativa, antes que a cosmogonia
próximo-oriental antiga em que se resume Gn 1,1-2,4a. Quando insistir no tema,
dirá que essa é justamente a diferença entre a cosmogonia de Gênesis e a do
Dêutero-Isaías, porque este fala da criação
do povo, enquanto aquele, da criação de tudo e de todos (p. 519): uma
ligeira correção de perspectiva e Richard Clifford teria antecipado a afirmação
de fundo do presente ensaio: em Gn 1,1-2,4a o
que está sendo criado é um povo, e não todos,
e um lugar, e não todos – a
cosmogonia de Gn 1,1-2,4a é a criação de Judá (golah), de Jerusalém, do Templo.
[78] Contra
Kapelrud, 1974, p. 183.
[79] Como se
tomássemos a afirmação de Homburg (1984, p. 25): “o v. 2 (...) descreve a
situação do mundo, antes que Deus iniciasse a criação” e a revertêssemos para a
historicidade do horizonte de produção do texto: o mundo é a terra de Israel e
a criação é Jerusalém, seu Templo de seu povo.
[80] O fato de
que os mitos constituem expressão do ambiente onde são elaborados pode ser
observado em duas afirmações de E. O. James: primeiro, a afirmação de que as festas
estacionais no Egito seguiam os ritmos das enchentes regulares do Nilo (JAMES,
1962, p. 157s) - o que conseqüentemente determinava as configurações
redacionais dos mitos relacionados à festa; segundo, que os rituais
correspondentes na Mesopotâmia tanto eram diferenciados nos detalhes quanto na
expressão mítica por conta da irregularidade das cheias do Tigre e do Eufrates
(p. 163ss); terceiro, que os mesmos festivais e mitos na Síria eram adaptados
de acordo com as condições do clima próprias daquela região (p. 170).
Poder-se-ia pensar nesses mitos como grades estruturais
cujo conteúdo - as recitações - correspondiam às especificidades locais.
[81] Com a
conseqüente necessidade de contrariar, assim, a opinião de Arvid Kapelrud
(1974, p. 186) de que Gn 1,1-2,4a teria sido composta para a comunidade no exílio, para precavê-la de
influências babilônicas.
[82] “Os
escritores sacerdotais entenderam profundamente as necessidades de seus
contemporâneos” (p. 137). Da forma como vejo, não; suas expressões teológicas
são afirmações a partir de sua própria expectativa de readaptação hegemônica
sobre a comunidade restaurada, contra as proposições de resistência
provenientes do remanescente da terra. Numa palavra: conflito. Para uma
reflexão – em outro momento e chão – a respeito da relação entre
campesinato,
experiência religiosa e resistência, cf. Tomás BALDUÍNO, A dimensão religiosa
nas mobilizações do campesinato, em CHEVITARESE, 2002, p. 257-267.
[83] Por
exemplo, mas não sem aprofundamentos, CASSIRER, s/d, p. 31-55.
[84] Em que pese
a parcialidade das afirmações de Walter Brueggemann, que não chega,
efetivamente, mas por um triz, a quebrar o olhar tradicional com que se tem
analisado Gn 1,1-2,4a, algumas reações têm sido apresentadas às suas
manifestações (por exemplo, J. Richard Middleton, Is Creation Theology
Inherently Conservative? A Dialogue with Walter Brueggemann, Harvard Theological Review, 87:3, p.
257-277, julho 1994), a que o próprio Brueggemann tem respondido (por exemplo,
Response to J. Richard Middleton, loc.
cit. p. 279-89).
[85] Para as
referências, cf. Bíblia do Peregrino, Paulus, 2002. Para uma abordagem
concêntrica à estrutura, cf. OLSON, 1997, p. 81s.
[86] Com pronome
’ânî enfático.
[87] Com
Alonso-Schökel e Sicre Diaz: “o vento de furacão é como o carrasco que executa
a sentença de Deus” (Profetas I, p. 456).
[88] Da forma
como imagino os acontecimentos, o oráculo profético objetiva a culpa na
liderança, finalmente deportada. A contra-crítica devolverá a crítica,
objetivando a culpa na própria “terra”, termo coletivo que designa a população
(cf. a narrativa sacerdotal do dilúvio). É provável supor que as afirmações de
culpa do povo como razão para a catástrofe derivem do que KLEIN, 1990, p. 69
chama de “redação deuteronomística de Jeremias (D)”, e que poderia ser tomado
como a expressão da própria contra-crítica da golah. Para Klein, a mensagem de
fundo da redação D de Jeremias é afirmar que “587 é a resposta de Javé ao
pecado do povo” (p. 70).
[89] “Meu povo é
insensato”. Pode-se perguntar, contudo, se “meu povo” designa a população
(então estaríamos diante da provável contra-crítica sacerdotal, já intervindo
redacionalmente no oráculo) ou designa, nos termos de Sl 53, a liderança
opressora e corrupta da cidade (quando então estaríamos ainda diante do oráculo
original).
[90] Na esteira
clássica de considerar Jr 4,23-26 como reflexão sobre Gn 1,1-3, Katherine Hayes
chega a sugerir que a endíade em Jr 4,23 seja resultado do acréscimo de um vohû
não originalmente presente (1997, p. 249).
[91] Já
antecipada, por exemplo, em FISHABANE, 1971, p. 152.
[92] Para uma
discussão sobre a relação entre Gn 1 e Jr 4,23-26, cf. a tese de doutorado do
Doutor Ágabo Borges de Souza, 1993, p. 79-87, onde se conclui que Jr 4,23-26
seja pós-exílico, e, assim, posterior a Jeremias: “Darum ist anzunehmen, das Jr
4,23-26 viel später als die Zeit Jeremias zu datieren ist, also nach dem
P-Schöpfungsbericht, spätexilisch-nach-exilisch” (p. 86). Da mesma forma,
SELLIN e FOHRER, 1977, p. 599, indo mais longe, e tratando Jr 4,23-26 como
parte de “oráculos de outros autores introduzidos no livro de Jeremias”,
caracterizando o texto como “apocalíptico”. De minha parte, comungo com a
opinião de BENTZEN, 1968, p. 135 (de resto lamentavelmente breve): um suposto
rolo primitivo de Jeremias deveria conter “palavras de desgraça” (p. 134;
Bright argumenta que há, sim, “oracles
of doom”, mas que igualmente se constatam “oracles of hope” [1955, p. 263s;
Bright vê um processo redacional por trás de Jr 1-25 (p.
273)]), e que a base desse rolo estaria nos capítulos 1-25 de Jeremias. Além do
critério de Bentzen – palavras de desgraça – tenho sido tentado a afirmar que
os profetas pré-exílicos não polemizavam com a polilatria (contra, por exemplo,
FITIZGERALD, 1972, p. 404); seria esse, então, outro critério, ao lado daquele,
para auxiliar na datação dos oráculos de Jeremias. A afirmação, por exemplo, de
Wolff de que a OHD (DtrH) seja fruto da profecia deve ser tomada com suspeita
pela razão de que ela é essencialmente monolátrica e anicônica –
características que não me parecem adequadas à descrição da profecia crítica.
Se a literatura profética está agora eivada de condenações à polilatria e ao
iconismo, deve-se nesse sentido pressupor que mais do que tomar o poder, a
golah tornou-se interventora da tradição, cooptando-a a seu serviço – a serviço
do monoteísmo e do aniconismo político-religioso. Um exemplo de cooptação desse
nível pode ser verificado na inserção da profetiza Hulda (2 Cr 34,22-28). A
permanência da perícope na redação cronista me parece derivada dos seguintes
argumentos: Hulda é mulher, Hulda é profeta: com isso, afirma-se que tanto a
liderança feminina quanto a profecia já condenavam a polilatria – e mais, foi
por conta da polilatria que Yahweh destruiu Jerusalém (2 Cr 34,25). Essa é a
mesma afirmação da redação da OHD (2 Re 22,16-18), o que significa que já no
momento de sua redação (que Wolff coloca no século VI) a teologia e a política
da golah manifestam-se na literatura. Como Hulda, cooptada, também a literatura
profética deve ter sido completamente “revista”, o que é efetivamente muito
mais eficaz em termos político-religiosos do que o “combate”. Não chega a
afirmar tanto, mas as linhas gerais da cooptação profética pela revisão
“deuteronomista” pode ser consultada em PERLITT, 1981, p. 306s. Por sua vez,
CRÜSEMANN, 2003, p. 49: “O pecado de Israel e de seus reis, que finalmente
conduz à perda total da terra, como é descrito em 2 Re 25, consiste, no fundo,
em levar uma vida em seguimento aos cananeus”.
[93] É, por
exemplo, o que se deve depreender da seguinte afirmação de Alonso-Schökel e
Sicre Diaz sobre Jr 4,19-26: “ao sétuplo olhar de Deus, contemplando satisfeito
o surgir da criação (Gn 1) opõe-se este quádruplo olhar contemplando o retorno
ao caos. Porque é isso que dizem e conjuram os versos: céu e terra, caos informe
(tohu bohu) homens, pássaros, plantas... a ira de Deus desfaz a criação ao
destruir Judá e Jerusalém” (1988, p. 457). Não há, contudo, in loco, qualquer
observação em perspectiva crítico-literária, de modo que somente podemos
presumir que os autores trabalham com a tese de que Jr 4,19-26 seja posterior a
Gn 1,1-2,4a. Registre-se, contudo, que ficam indicadas tanto a proximidade
temática, quanto a coincidência de termos já apontadas. É respeitável a força
da tradição, que se faz notar no comentário de Alonso-Schökel e Sicre Diaz. É
oportuno, porém, registrar que a hipótese de uma redação posterior de Jr 4,5-31
em relação a Gn 1,1-2,4a força tanto uma datação, se exílica, ainda nos seus
primeiros momentos, um tempo de relativa dispersão do texto, e, finalmente, uma
redação tardia para o oráculo profético. Nesse caso, quando? Para uma
aproximação semelhante a de Alonso-Schökel e Sicre Diaz, cf. ROSSI, 2002, p.
28s: “ele vê a criação às avessas! O que na ocasião da criação ficou ‘bom’ pela
presença e ação divinas, agora está transformado em ‘desolação’ pela mesma
presença e ação divinas. Ele equipara a prática da injustiça ao retorno aos
caos”. Assim como Alonso-Schökel e Sicre Diaz, Rossi fica a nos dever
explicações na perspectiva crítico-literária. Cf. ainda BRIGHT, 1965, p. 32s,
nota sobre Jr 4,23: “it is as if the earth had been ‘uncreated’”; também em
BRUEGGEMANN, 1983, p. 68, que citando textualmente Jr 4,23-26 afirma tartar-se
da “imagem cósmica do fim da criação”. Ainda PERRY, 1993, p. 6.
[94] Da mesma
forma, Willi-Plein pode argumentar que inferências a respeito das relações de
Jeremias com o culto “dependem também de suposições gerais, implícitas, sobre a
maneira como um profeta podia se expressar” (WILLI-PLEIN, 2001, p. 133).
[95] Penso que
dois temas são fundamentais para uma proposta de datação relativa dos oráculos
proféticos – a polêmica com a polilatria e as explicações teológicas, ao nível
da culpa e dos responsáveis, da catástrofe de 587. Por hipótese, tomo como fato
que a profecia pré-exílica não polemizava com a polilatria e que se inscrevia
entre os que interpretavam a catástrofe como castigo aplicado por Yahweh contra
a liderança de Jerusalém. Da primeira hipótese, decorre que textos inseridos na
literatura profética na forma de polêmica contra a polilatria devem ser tomados
como intervenção posterior. Sempre sob hipótese, o processo histórico-literário
teria sido o seguinte: a profecia lê a catástrofe a partir de seus próprios
termos – a culpa é da liderança; por sua vez, a liderança, apropriando-se
desses textos, contra-argumentará que a culpa é do povo, e que o pecado é tanto
o afastamento da lei, quanto a polilatria, teses essas que serão
apropriadamente inseridas na literatura profética com vistas a silenciar a sua
crítica anterior.
[96] Uma vez que
no épico de Atrahasis o dilúvio
deriva de problemas de superpopulação (FRYMER-KENSKY, 1977, p. 150), a tônica
na culpa e no castigo presente nos
dísticos sacerdotais e “javistas” de criação e dilúvio (particularmente no
dístico sacerdotal [Tivka Frymer-Kensky o assinala, in loco], a meu ver cronologicamente anterior ao dístico “javista”)
torna-se relevante e deve necessariamente apontar para um centro teológico na
estrutura teológica da narrativa.
[97] Repare-se a
ênfase sintática aplicada sobre o sujeito na estrutura do texto hebraico de Gn
1,2a: vehâ’ârets hâytâh tohû vâvohû – e a terra era desolação e vazio. Na
redação sacerdotal, a terra está sob o foco. Perceba-se que a transição entre
os termos que objetivam a criação em Gn 1,1-2 são diferenciados:
|
1,1 os
céus e a terra
1,2a a
terra
1,2b tehôm/as
águas
|
É provável que a primeira referência seja introdutória
(na perspectiva mítica da criação de todas as coisas), e que entre a terra e
tehôm/as águas haja a transposição da realidade histórica (a terra era desolação
e vazio) para o nível do mito (tehôm/as águas; cf. KITCHEN, 1966, p. 89s para a
ocorrência de thm na literatura ugarítica, com o sentido de “deep”). É
possível, porém, que se for adotada a leitura proposta por Rashi (apud
CHOURAQUI, 1995, p. 29) para a raiz br’ em Gn 1,1 – lido como infinitivo
mediante a vocalização bero’ em lugar do atual completo decorrente da
vocalização bârâ’ – a relação entre Gn 1,1 e Gn 1,2 sofreria uma interessante
alteração. Na própria formulação de Chouraqui (in loco): “’no princípio do ato
de criação’, o versículo 2 seria desse modo, um inciso circunstancial, enquanto
o versículo 3, Elohîms diz, seria a proposição principal”. É tentadora a
proposta: “No princípio do criar de ‘Elohîm os céus e a terra, a terra era
desolação e deserto – treva sobre o abismo, e um vento tempestuoso soprava
sobre a face das águas. Então ‘Elohîm diz: “Seja a luz”, e a luz é”. Segunda
essa vocalização da raiz br’, a terra desolada e deserta, conseqüência da
destruição babilônica, é ela o ponto zero e mesmo o cenário da criação.
[98] Cf. por
exemplo o interessante artigo de Edwin Firmage sobre a agenda sacerdotal de Gn
1 (1999). Segundo o artigo, a segunda criação de Gn 9 tem paralelo em Gn 1,
onde a criação do homem à imagem de Deus é o clímax da narrativa. Isso se
afirma porque o interesse fundamental do escrito sacerdotal não seria a
apresentação proposições teológicas (p. 99); nem produzir uma polêmica com o
entorno cultural (p. 100); nem ainda apresentar uma sinopse da história de
Israel (p. 100). A partir dos argumentos de Firmage, sentir-me-ia (ainda mais)
confortável para, concordando com suas afirmações, propor, contudo, que o
objetivo seja fundamentalmente prático – nos termos da crítica das formas, a
cosmogonia de Gn 1,1-1,24a tem seu Sitz in Leben na construção do espaço
sagrado. Gn 1,1-2,4a seria uma cosmogonia que, seguindo a sugestão de L. R.
Fisher, poderíamos classificar de “Baal type” (FISHER, 1965, p. 316; para uma
tentativa de classificação de Gn 1,1-3 a partir dos estudos de Vladimir r
Propp, cf. Élcio Sant’anna, A Criação em
suas Formas Literárias. Uma averiguação da forma literária dos mitos
cosmogônicos em Gn 1,1-3. STBSB, Rio de Janeiro, 1997. 58 p (trabalho
monográfico não publicado) O trabalho do professor Élcio Sant’anna mantém-se na
análise do mito em si mesmo, e não
como projeção de grandezas históricas presentes no horizonte de produção do
texto. Chega a traduzir assim Gn 1,1-3: “Na Antiguidade criou Elohim os céus e
a terra. A Terra era desolada e vazia. Havia trevas sobre a face do abismo
(oceano). O vento de Elohim agitava sobre a face das águas. E disse Elohim haja
luz e houve luz” (p. 34). Para uma análise do épico de Atrahasis e sua relação com Gn 1-9 (logo, Gn 1 e 6-9), cf.
Tivka Frymer-Kensky, 1977, p. 150).
[99] No que diz
respeito pelo menos a Jeremias, PIXLEY e BOFF afirmam que “esperava a
restauração de uma sociedade mais modesta, centrada nos camponeses” (p. 64,
grifo meu).
[100]
Falando do contexto exílico da redação de Gn 1, Haroldo Reimer afirma que
“Gênesis 1 precisa ser lido a partir desse contexto de encontro e desencontro
cultural e religioso” (2001, p. 748). Pediria ao doutor professor se permitiria
avançar por meio de sua formulação e compreender que esse contexto de
“conflito” também se desse intramuros – golah
versus a terra, para o que poderíamos
recorrer a Robert Carroll, 1992, p. 91 e passim.
Importante recorrer a Burke O. Long (1981, p. 32), segundo cuja afirmação é
fundamental a identificação dos fatores histórico-sociais do horizonte de
instalação do conflito (profético) para sua compreensão. Se não nos esquecermos
de Othmar Keel, segundo quem "pesquisas da duas últimas décadas
mostram que Israel deve ser entendido como parte da população autóctone e que a
polêmica contra os povos que estavam nessas terras antes de Israel deve ter
sido inicialmente uma polêmica israelita interna" (KEEL, 1995, p. 17).
Logo adiante, Keel vai afirmar que os deuteronomistas
foram os responsáveis pela diferenciação artificial de Israel do povo
autóctone.
[101]
Que Gallazzi, contudo, não desenvolve. Ela permanece ali, como uma intuição a
ser explorada.
[102]
Klein afirma que várias passagens que provêm em Jeremias um papel para a
monarquia no futuro da nação derivam da redação que trata como deuteronomística
(p. 66ss).
[103]
No que diz respeito a Jr 7, Ina Willi-Plein afirma que à crítica original ao
culto oficial foi acrescentada a referência ao culto à Rainha do Céu, como a
dizer que “foi o culto estrangeiro da Rainha do Céu que tornou o templo impuro
e o entregou à aniquilação. Aí temos portanto uma interpretação a posteriori”.
[104]
“Infelizmente a questão das relações dos antigos nebiim (profetas) com o culto,
isto é, a questão da relação entre a função e o carisma, não é nada clara” (p.
105). PIXLEY e BOFF (1987, p. 60s) seguem mais ou menos por aí: “como fenômeno
religioso, profeta é o homem ou a mulher que proclama uma mensagem que recebeu
por inspiração direta de um deus, à margem da instituição religiosa”. Com o que
concordaria TOYNBEE (1978, p. 231): “um profeta acredita e afirma que suas profecias
são inspiradas diretamente por seu deus, e não por qualquer meio social”.
[105]
“O ‘povo da terra’ é um grupo completamente distinto dos ‘mais pobres da terra’
ou ‘dos mais pobres do povo’ (...) Estas observações deixam – a meu ver – claro
de que se trata não somente de grupos distintos, mas opostos”.
Mais entusiástica é a opinião de Vasconcellos:
"A maior parte da população permaneceu na terra (...). O livro de
Jeremias nos mostra isto (Jr 39-40). Assim, a vidas dos camponeses de Judá
na época do exílio parece que se organizou em moldes tribais, sem interferência
de estado ou corte. O povo da terra estava simplesmente livre!" (VASCONCELLOS,
1994, p. 60).
[107] Cf. CERESKO, 1996, p. 219-221. Convém
ter em mente a ressalva de Ceresko: “não se trata tanto da questão abstrata da
verdade x falsidade, como se o enigma pudesse ser resolvido por critérios
puramente intelectuais. Acima de tudo, é uma questão de ponto de vista e de
diferentes visões da mesma situação, fundadas na posição social” (p. 219).
[108]
Incluir ainda o comentário de Wolff sobre “a crítica social dos profetas –
sociedade, direito, culto, política” (1978, p. 76-83), onde, lamentavelmente –
a meu ver – Wolff trate na mesma perspectiva tanto Amós e Jeremias quanto Ageu.
Deve-se a rigor perguntar-se pela possibilidade traditiva de serem inseridos na
esteira da profecia crítica os chamados “profetas” (?) pós-exílicos. Em franca
contradição com a idéia de conflito, SOUZA e CARAVIAS, 1988, p. 195s, que
coloca lado a lado “profetas, sacerdotes e especialistas na lei, que conduzem
física e moralmente o povo para a terra e a reconstrução (...) no momento da
volta, se manifestam determinadas tendências, fomentadas pelos dirigentes (...)
Comum a todos eles foi o vivo desejo de criar uma sociedade mais justa”.
Fiquemos, contudo, com REIMER e REIMER, 1999, p. 103: “nestes tempos de
reconstrução social e construção de identidade pós-exílica, que se situam
conflitos”.
[109]
Causa uma estranha sensação perceber que nos seis partidos em que Fohrer divide
a comunidade israelita (na Palestina e na Diáspora) falte absolutamente
qualquer referência ao campesinato (FOHRER, 1982b, p. 414), e que trate com
naturalidade o fato de que as atividades da “primitiva profecia pós-exílica”
(p. 415), nomeadamente Ageu e Zacarias se dirijam a “esse resto, isto é, os que
retornaram” (p. 416). Para Fohrer, a profecia está ligada aos movimentos
escatológicos surgidos entre os retornantes (p. 419). É, contudo,
metodologicamente possível levantar a hipótese de que essa “profecia” pós-exílica
não constitua movimento social da mesma monta que a profecia pré-exílica, essa
sim relacionada ao campesinato.
[110]
Gerstenberger, por exemplo, é da opinião de que nem sequer a transmissão da lei
estava a cargo dos sacerdotes, mas a cargo da “classe emergente de escribas e
transmissores da lei religiosa; esta nova classe claramente se impôs à elite
sacerdotal antiga” (GERSTENBERGER, 2002, p. 29).
[111]
Nesse contexto, recordar as afirmações de Pixley sobre “o confronto entre a
Golá e o povo da terra” (PIXLEY, 1989, p. 94).
[112]
O caráter de "novo regime" com que se pode classificar a Judá
pós-exílica pode ser ilustrada pela seguinte afirmação de Shigeyuki Nakanose:
"A Pérsia determinou a reconstrução do Templo, dando inclusive ajuda
material para as obras (Esd 6,1-12). Isso aconteceu porque o império tinha
interesse na organização do povo, ao redor do Templo, para reconstruir a
economia de Judá" (NAKANOSE, 2000, p. 51). Não se trata da própria opinião
de Nakanose, quero crer, mas sua afirmação evidencia que a reconstrução do
Templo de Jerusalém, sob a hegemonia persa e sob o controle da elite sacerdotal
é a ascensão de um novo poder, um novo regime. Em termos
de crítica das formas, Gn 1,1-2,4a poderia, então, ser tomado como
cosmogonia de fundação de um novo regime - o Templo, a cidade, o povo - novos céus e nova terra. Observe-se a referência à
supressão à "ideolatria" em Is 66,3-4, que Nakanose apresenta como
citação (p. 50). Talvez a perícope não seja uma voz apocalíptica, mas uma peça
teológica de ratificação das operações monolátricas e anicônicas do templo.
Falariam em Gn 1,1-24a tanto quanto em Is 65,17-66,4, tanto o
"templo" quanto o império, porque o fato de o protagonista ser o
próprio Yahweh (ou 'Elohim) não retira a sombra da
pérsia: "O Imperador da Pérsia não unificava suas conquistas pela
imposição de sua própria religião. Nesse sentido, ele respeito o deus Marduk,
da Babilônia, e o Deus Javé, de Judá, com os costumes religiosos locais"
(NAKANOSE, 2000, p. 51). Nesse caso, o "templo" é uma instituição
persa, para com cujos sacerdotes se usa, em termos religiosos, de
condescendência programática. Nakanose ratifica: "Nada escapava ao seu
controle! (...) Nesse sentido, os templos das províncias dominadas eram espaços
privilegiados para esse serviço ao império" (p. 51).
[113]
O que não deixa de transparecer um reflexo da política egípcia de manutenção da Ordem através da função
político-religiosa da cosmogonia: o caos,
o espaço onde a ordem não impera – ordem bem entendida como esta ordem, a ordem deste Poder Central que se pronuncia na cosmogonia (MELLO,
2000, p. 41).
[114]
Em termos gerais, essa é a função teológico-litúrgica da narrativa sacerdotal
do dilúvio: a terra havia corrompido o seu caminho diante de Yahweh; por isso Yahweh
destruiu a terra (preservando Noé na arca – a golah no exílio);
finalmente, Yahweh reorienta o novo regime sob a égide da aliança,
reiteradamente reforçada em Gn 9. Não parece pois ser muito possível a
afirmação de dois pactos – um com Adão e outro com Noé (ASENSIO, 1953, p. 138):
hipostatica e mítico-literariamente, Adão e Noé são a mesma pessoa, representam
a mesma grandeza histórica – o novo homem, a golah, preservado (na arca =
exílio) das águas do dilúvio (destruição de Jerusalém).
[115]
Para um interessante ensaio sobre a representação antigo-próximo-oriental de cidades como deusas, de onde a poesia israelita teria retirado sua simbólica da
cidade como rainha, cf. FITZGERALD,
1972. Por sua vez, "histórias (stories) de
criação incluem não somente a formação do céu e da terra, mas também o estabelecimento
de cidades e os limites entre cidades-estado" (WILLIAMS, 1965, p. 132).
[116]
Remete-se ainda ao Tratado de História das Religiões, de Mircea Eliade (1990).
Cf. ainda, VV. AA. (1990, p. 17-19), no capítulo da “Cosmologia Caldéia”, a
“encantação para o estabelecimento da casa de um deus”, onde explicitamente o
tema da criação do mundo e (as insistentemente afirmadas) construções humanas
são relacionadas. Mencionam-se as grandes cidades mesopotâmicas e seus
respectivos templos.
[117]
“Dualismo” no sentido platônico da contra-parte ideal do mundo material, como
igualmente o descreve, para o mundo grego, VERNANT (1973, p. 77): “saímos do
nosso universo humano, para descobrir, por trás dele, outras regiões do ser,
outros níveis cósmicos, normalmente inacessíveis”, e de modo mais generalizado,
JAMES, 1973, p. 88). Em certo sentido, a discussão poderia tangenciar a questão
das duas perspectivas históricas discutidas no capítulo “seta do tempo, ciclo
do tempo” de Stephen Jay Gould (1991, p. 22-27): “a seta do tempo é a
inteligibilidade de eventos distintos e irreversíveis, enquanto que o ciclo do
tempo é a inteligibilidade da ordem atemporal da estrutura de direito” (p. 27).
A relação entre Jay Gould de um lado, e de Eliade e Vernant de outro é fértil
para reflexões interdisciplinares, como convém. Uma vez que faz teologia,
WESTERMANN (1987, p. 77) considera que Gn 1,1-2,4a antecipa “de modo genial os
períodos geológicos da ciência moderna”; diante do que nos perguntamos se em
lugar de antecipar, a linguagem da narrativa não a tenha determinado.
[118]
Mircea Eliade em todos esses momentos recordará o modelo do templo consignado a
Moisés, bem como o modelo do Templo de Salomão, fazendo ainda referências à
literatura mesopotâmica a respeito dos modelos celestes para as construções. No
que tange Israel: “para o povo de Israel, os modelos do tabernáculo, de todos
os utensílios sagrados e do templo criou-os Jeová desde a eternidade, e foi
Jeová que os revelou aos seus eleitos, para que fossem reproduzidos sobre a
terra” (ELIADE, 1985, p. 72). Widengren, citando Durkheim, afirma que: "o
traço característico da mentalidade religiosa é dividir o mundo em duas
esferas: uma que abarca todo o sagrado e outra que encerra todo o profano"
(Les formes élémentaires de la vie religieuse,
Paris, 1912, p. 50s, apud WIDENGREN, 1976, p. 27).
Não se trata, na argumentação de Eliade, dessa
distinção entre sagrado e profano, mas talvez uma acabe derivando da outra.
[119]
Cf. o comentário de Eliade sobre o testemunho de Flávio Josefo acerca da
descrição do Templo de Jerusalém como uma descrição arquitetônico-simbólica das
“três regiões cósmicas (com o pátio representando o mar – isto é, as regiões
mais baixas –, o Lugar Santo correspondendo à Terra, e o Santo dos Santos, aos
céus)” (ELIADE, 1992, p. 72 [Eliade cita Antiquities of the Jews, III, 7, 7]).
[120]
O case egípcio (XVIII dinastia) é
representativo. A cosmogonia tem a função de sociabilizar a noção de que cabe
ao Poder Central – ao rei e sumo sacerdote – a manutenção da Ordem. A Ordem
equivale ao espaço sagrado da nação
egípcia, além do que tudo é caos.
Observe-se a descrição de Claudio Mello: “nesta época, mais do que nunca, fazia
parte das tarefas dos Soberanos, a ‘serviço’ dos deuses estatais, as incursões
e triunfos militares, pois as terras estrangeiras, como os desertos e tudo mais
que não fizesse parte das ‘Suas Terras’, faziam parte do que chamavam Caos
(Mundo Caótico). Nessa ótica, os deuses estrangeiros, bem como os próprios
estrangeiros eram vistos como sendo parte do Mundo Caótico e, portanto, algo a
ser dominado e a ser sujeito a ‘Ordem’ pelas ações do Soberano’” (MELLO, 2000,
p. 41).
[121]
Remeteria ao precioso ensaio de Carlo Ginzburg, Mito – distância e mentira, em GINZBURG, 2001, p. 42-84,
respectivamente ao meu próprio ensaio Narrativas
de Funcionalidade Mítico-Literárias, ainda sem publicação.
[122]
O capítulo de Rudolf Otto sobre “os meios de expressão do numinoso na arte”
(OTTO, 92, p. 94-101) poderia aqui ser evocado indiretamente. A presença do
numinoso no edifício sagrado é de tal modo eficaz na funcionalidade
político-ideológica (expressões ausentes em Otto) que não admira possa (agora
ele) evocar o texto bíblico: “Javé está no seu santo templo / Que toda a terra
se cale perante ele” (p. 98).
[123]
Na seqüência da argumentação, Eliade passa a descrever como os altares de
sacrifício brahmânico e védico estão inseridos nessa simbologia cosmogônica (p.
72s). Então, concluiu: “portanto, com a construção de cada novo altar védico,
não só a cosmogonia é repetida (...) mas o ano é construído” (ELIADE, 1992, p.
73).
[124] Jon D. Levenson, Creation and the
Persistence of Evil: The Jewish Drama of Divine Omnipotence. Princeton:
Princeton University Press, 1988.
[125]
A rigor, Klawans informa que a leitura que Levenson faz dessas narrativas à luz
de Mircea Eliade conclui que “as narrativas bíblicas da construção do
tabernáculo (e do templo) têm um significado cósmico” (KLAWANS, 2001, p. 143),
com o que parece claro que Levenson deixa de olhar para o Templo e mantém o clássico olhar mítico-teológico no Cosmo.
[126]
Inclino-me a cogitar da necessidade urgente de uma revisão das pesquisas em
torno do tema do êxodo, agora à luz de chave-hermenêutica das projeções
mítico-literárias. Quero crer que o tema do êxodo como desenvolvido
fundamentalmente no Pentateuco seja fruto de cooptação da memória tradicional
para leitura da restauração da golah. A perspectiva já está em certa medida na
Introdução ao Êxodo de Pixley (1987, p. 5-12), mas penso que não teve a
necessária repercussão metodológica, vez que as perspectivas continuam sendo
históricas ou sociológicas. A aproximação fenomenológica do tema do êxodo pode
reposicionar a discussão. Para uma análise do tema êxodo-conquista como nova
cosmogonia no Dêutero-Isaías, cf. Clifford, 1985, p. 516ss.
[127]
Depois de vencer Yam, o Mar, e Nahar, o rio, Baal torna-se rei dos deuses e
constrói para si um palácio ou templo, “que é a imagem do cosmo” (PIXLEY, 1971,
p. 56s). Com as perceptíveis diferenças, trata-se do mesmo tema presente no
Enuma elish – depois da vitória de Marduk, (nesse caso) os deuses lhes
constroem Esagila. Pixley afirma haver um tronco semítico comum por trás das
duas tradições (p. 57). Cf. GROENBAEK, 1985, p. 30ss, especialmente p. 31; cf.
ainda WORDEN, 1953, p. 275. Worden descreve dois ciclos de Baal – um,
relacionado ao Mar e à construção do Templo, e outro, relacionado a Mot (p.
274s). A discussão de Groenbaeck sobre a efetiva presença do tema da criação no ciclo Baal-Mar talvez pudesse
ser resolvida pela constatação de que criação
é, afinal, construção (do Templo,
respectivamente, da cidade, logo, do
estabelecimento de um novo regime e um
novo tempo). Para a construção do templo de Baal, cf. PRITCHARD, 1958, p.
111-114. É interessante observar que é Asherah quem
pleiteia junto a El a autorização para
que Baal possa construir seu templo.
[128]
In loco, Fisher cita Mowinckel, que teria afirmado que “a casa ou o tempo de
Baal era também ‘simbolicamente o mundo todo’” (Sigmund MOWINCKEL, The Psalms in Israel’s Worship, trans. by D. R. ApThomas, Nashville, 1962, v. II,
p. 241, nota xxi, apud FISHER, 1965, p. 318).
Segundo James, Gordon pressupõe um ciclo de sete anos para as celebrações de morte e ressurreição da
divindade (JAMES, 1962, p. 170, citando GORDON, Orientalia,
XXII, 1953, p. 79ss).
Descrevendo o fato de que Marduk e Baal são
coroados reis dos deuses em seus mitos cosmogônicos, Pixley recorda o fato de
que Yahweh não recebe o tratamento. Daí Pixley inferir tratar-se igualmente de
censura teológica, já que Marduk e Baal, sendo reis dos deuses, pressupunha
haver deuses sobre quem reinassem. Yahweh, contudo, era único (PIXLEY, 1971, p.
63-65). Poderíamos, contudo, perguntar se a ausência de “coroação” de Yahweh
não traduz a projeção da ausência de “rei” israelita ou judeu no horizonte de
produção da narrativa, quando Judá está sob a autoridade persa. Para a
afirmação da cosmogonia babilônica como esforço de fundamentação da sociedade
babilônica emergente, cf. CLIFFORD, 1985, p. 509s. Clifford está disposto a ver
vestígios dessa percepção da cosmogonia em textos veterotestamentários como Sl
77 e 78, e Ex 15 (p. 510), mas nada afirma sobre Gn 1,1-2,4a. Se nos dermos
conta de que se trata, a rigor, agora, da Pérsia e dos persas e não da
Babilônia e dos babilônicos, e de que modo essa alteração político-social do
eixo gravitacional de Judá interferiria na relação cosmogonia – novo regime, bastaria recorrermos a comentários de
Mircea Eliade. Mircea Eliade conta o seguinte a respeito de Dario: "Na
primeira das inscrições que Dario mandou gravar em Naqs-i-Rustam, perto de
Persépolis, Aúra-Mazda é exaltado como 'um grande deus que criou esta terra,
que criou o céu, o homem, a felicidade do ser humano; que fez
Dario rei, esse homem singular, rei excelso, esse homem singular, senhor
de muitos súditos' (citando R. G. Kent, Old Persian, p. 138). A inscrição insiste na criatividade de
Aúra-Mazda e, dir-se-ia quase que como uma conseqüência,
na responsabilidade religiosa do Soberano. Foi para manter
a criação de Aúra-Mazda e assegurar 'a felicidade do homem' que se fez,
de Dario, rei" (ELIADE, 1978, p. 157). Não se trata, evidentemente, de uma cosmogonia, mas das implicações dela em termos
político-religiosos. Mais adiante, falando agora de Ciro, Eliade assim se
expressa: "após sua vitória contra o rei dos
medas, Ciro funda um Império e uma nova dinastia (...) o que significa que ele criou um novo mundo e inaugurou uma nova era; em
outros termos, ele realizou uma microcosmogonia
(...) e uma vez que a cosmogonia era ritualmente repetida por ocasião do Ano
Novo, podemos supor que a encenação mítico-ritual da fundação da dinastia
estava integrada nas cerimônias do Nawrôz"
(ELIADE, 1978, p. 158). Quanto ao Templo de Jerusalém e sua cosmogonia em relação ao controle persa,
cf. ELIADE, 1978, p. 166s: "Para todo rei masdeísta, o ato religioso por
excelência consistia em fundar um fogo, isto é, em erguer um templo, dotá-lo de
rendimentos e nomear sacedotes para ele"(citando Duchesne-Guillemin, La Religion, p. 84, nota i).
Quanto aos sacrifícios: "eles são profusamente
atestados no Governo dos Aquemênidas, na época parta e sob os
Sassânidas" (p. 167). É tentador imaginar um desenvolvimento da religião
judaica e sua expressão particularíssima no proto-cristianismo na forma de
empréstimos da religião iraniana (cf. ELIADE, 1978, 137-173).
[131]
Lamentando não ter tido acesso a seu artigo The Temple Quarter, JSS, 8, 1963, p. 34ss, que ele mesmo cita em seu também
artigo Creation and Ugarit
and the Old Testament – esse
consultado.
[132]
"A construção do templo requer sete anos, enquanto trinta e sete anos
foram gastos por Salomão para a construção do seu próprio palácio" (FINEGAN, 1954, p. 151). Sete anos!
[133]
Esse lapso intuitivo de Fisher se apresenta ainda mais surpreendente pelo fato
de que em seu artigo estão presentes citações de Arvid Kapelrud, que mais tarde
afirmaria o seguinte:
Os mitos ugaríticos não eram narrados para
entretenimento. Eles eram usados e, de acordo com analogias da Assíria, de
Babilônia e de Israel, usados regularmente.Eles tinham seu lugar em certa
situação, em uma regularmente repetitiva situação, e o conteúdo dos textos
mostra que se tratava de situações cúlticas (KAPELRUD, 1968, p. 499).
[134]
Não chegará a dizer o que aqui se afirma, mas Hvidberg afirma que é
“indubitavelmente verdade que Gn 1 está de algum modo conectado com o antigo
culto em Canaã” (HVIDBERG, 1960, p. 286).
[135]
Para o que é representativo o seguinte comentário de Claudio Mello: “os templos
oficiais eram par excellence o
domínio da Ordem e tanto sua arquitetura quanto sua decoração procuravam não só
representar, mas reafirmar esta concepção através da ‘força mágica’ das
imagens. As cenas e textos, esculpidos em relevo, nos templos, se referiam
justamente ao ofício sagrado do Soberano e tais representações eram vistas como
algo ‘vivo’, quando as palavras rituais eram pronunciadas” (MELLO, 2000, p.
44). Em que pese o fato de seu artigo referir-se à XVIII dinastia egípcia,
parece possível uma relação entre nossos artigos.
[136]
Não deve ser aqui o lugar para a discussão acerca de um festival do Ano Novo em Israel, nesse caso relacionado a Gn
1,1-2,4a. Não que o tema seja contornável – pelo contrário. Neste artigo,
contudo, bastem as observações de Flemming Friis Hvidberg (1960, p. 286) e
ainda assim exclusivamente na sua discussão acerca do desenvolvimento da
discussão sobre Gn 1,1-2,4a desde Wellhausen, Gunkel, Volz e Mowinckel e,
finalmente, Humbert. Hvidberg vai discordar da tese. Afirma-se, contudo, aqui,
que Gn 1,1-2,4a tem, sim, função litúrgico-teológica. A questão da cerimônia ou
da festa em que se daria a leitura de Gn 1,1-2,4a deve ficar para outro
momento.
[138]
É, de novo, impressionante como Arvid Kapelrud esteve a ponto de afirmar que Gn
1,1-2,4a, como o mito de Baal e o Enuma elish, afirma a fundação do templo de Yahweh
(KAPELRUD, 1974, p. 184s). Mas ele não o diz... Pritchard, contudo,
reconhece que o paralelo ao banquete entre Marduk e
os deuses no Enuma Elish na cosmogonia de Gênesis é
o descanso de 'elohim (PRITCHARD, 1958, p. 192).
[139]
O que estaria bem de acordo com a descrição que Levi-Strauss faz da
“mentalidade primitiva” que, diferentemente da mentalidade científica que
procura avançar (?) dominando as partes, “parte do princípio de que, se não se
compreende tudo, não se pode explicar coisa alguma” (LEVI-STRAUSS, 1989, p. 31;
cf. CASSIRER, s/d, p. 15.18).
[140] Cf. a interessante abordagem de
Fishbane a Jó 3,3-13, “which is nothing less than a counter-cosmic incantation”
(1971, p. 153) baseada em Gn 1,1-2,4a. O caráter encantatório da formula
de des-criação encontraria fundamento na estratégia mítico-litúrgica de
recitação da cosmogonia? Cf. ainda a afirmação de Jakob Groenbaek de que a
função do mito seja mais a manutenção da ordem do que a sua fundação (1985, p.
27), o que ali se diz no contexto do culto – mitos e ritos. Na discussão acerca
de se o mito cananeu da batalha entre Baal e Yam refere-se à criação ou à
manutenção da ordem, Groenbaek pergunta, retoricamente: “e não é possível
também chamar a manutenção da ordem do mundo criado de ‘criação’?” (1985, p.
33). Para a recitação da cosmogonia do Sl 77, cf. CLIFFORD, 1985, p. 513.
Relevante a referência à afirmação de Mary Wakeman de que, na Suméria, o casamento sagrado consistia
originalmente numa instituição religiosa e política, com fins de consolidação
do conceito de realeza sagrada (WAKEMAN, 1982, p. 27s).
[141] No que concerne à visão de mundo
presente em Gn 1, Burrows assim se expressa: "what the writer has done is
to express the monotheistic faith of Israel in terms of the worl-view of his
day, the only terms which could have any meaning for him or his readers"
(BURROS, 1941, p. 284. Ora, a função da cosmogonia não deveria ser incluída no conceito de visão-de-mundo?
[142]
Segundo Claudio Mello, “a liturgia, a decoração templária todos os movimentos
dentro de um templo estavam circunscritos a uma mentalidade que tinha o espaço
físico ao [sic] templo como um território eminentemente sagrado – o recinto par excellence, da ordem e do
Equilíbrio” (MELLO, 2000, p. 45). No que diz respeito ao Templo de Jerusalém, cosmogonia, o próprio templo e a ordem sacerdotal
relacionam-se como conjunto de manutenção da ordem social, sendo que, nesse caso, a cosmogonia afirma a fundação
do Templo como espaço par excellence
da instauração e da manutenção dessa
ordem. É com a construção do Templo que a ordem prevalece sobre as trevas, sobre o deserto e sobre a
desolação.
[143]
Com ALONSO-SCHÖKEL, 1997, p. 217.
[144]
Nela permanece a tenção entre criação
e renovação. Com William Lane,
devemos admitir que não se trata em Gn 1,1-3 de criação ex nihilo (LANE, 1963, p. 72). Aqui, fala-se do parto de Judá, que pariu filhos num dia.
Nessa fórmula, está presente a memória de que a criação é a reconstrução da
cidade e do Templo, é e não é criação; é no sentido de que funda novo tempo e lugar, e não é, porque se
trata de reconstruir. Para Lane dizer o que aqui se diz, faltou-lhe (ou
sobra-nos) apenas a intuição (cf.
LANE, 1963, p. 73).
[145]
Para Lisbeth, a fundação do templo deve ser tomada como o terminus a quo para Is 40-55 (FRIED, 2002, p. 378).
[146]
Para os paralelos entre Gn 1 e a cosmogonia babilônica, cf. CLIFFORD, 1985, p.
508. Para a cosmogonia de Gn 1,1-2,4a como uma reelaboração do Enuma Elish, cf. WIDENGREN, 1976, p. 142. Segundo o mesmo
autor, in loco, o Sl 74,14, por sua vez, apontaria
para a cosmogonia de Ras Shamra.
[147]
A que se deverão acrescentar as referências anteriores ao artigo de Cláudio
Mello sobre a função social da persona
divina do rei da XVIII dinastia egípcia enquanto instrumentalizador da
cosmogonia egípcia como processo de manutenção do status quo (MELLO, 2000).
[148]
Para uma síntese do Enuma Elish, cf. PRITCHARD,
1958, p. 183-201; FINEGAN, 1954, p. 50-54. Finegan estabelece relações entre a
narrativa de Gn 1,1-2,4a e o épico babilônico (p. 53). Seu juízo é no sentido
de afirmar o elevado estilo monoteísta da narrativa bíblica, em detrimento da "mitológica
e politeísta" história babilônica (p. 53).
[149]
Para os quais, cf. HEIDEL, 1954.
[150]
Gwendolyn Leick remete para Alexander Heidel, na sua edição de 1951. A edição
consultada neste ensaio é a de 1954.
[151] J. J. M. Roberts dá conta de que Thorkild Jacobsen (Unity and Diversity, p. 65-97, apud ROBERTS, 1976, p.
11) teria afirmado que o drama da batalha do primeiro milênio era o veículo de um ponto de vista histórico-político: “O Enuma
Elish, por exemplo, celebrava a realização histórica da unificação do mundo babilônico depois da conquista da terra do mar” (ROBERTS, p. 11). Roberts precisa, contudo, que para
Jacobsen trata-se de uma superposição de linguagem – história e mito. Se essa
observação for considerada secundária, valem as conclusões do própria J. J. M.
Roberts: 1) tanto os babilônicos quanto os israelitas celebravam eventos
históricos em seus mitos (p. 12); 2) essa prática seria mais acentuada na
Mesopotâmia do que em Israel (p. 12). Mas nessa última afirmação está implícita
a forma como que a cosmogonia de Gn 1,1-2,4a tem sido lida: uma descrição da criação do mundo, em estilo
ontológico-teológico. Se a intuição do presente artigo for acatada, e a
cosmogonia de Gn 1,1-2,4a for tomada na mesma medida em que as cosmogonias
mesopotâmicas (e canaanitas), a segunda conclusão de J. J. M. Roberts é
plenamente adaptável ao nosso caso: não se trata de mito das origens, mas de linguagem mítica para se remontar a
eventos histórico-políticos presentes no horizonte de produção do texto – nesse
caso, a hegemonia sacerdotal sobre Judá, a reconstrução do Templo, o criação do povo, a reconstrução da
cidade, o ressurgimento da nação. No outro lado da corda, Moye (1990, p. 578)
retorna ao tema do mito cosmogônico como uma forma de linguagem para representar
“some universal aspect of the
origins or of humanity in its relation to the sacred or the divine”: se formos por esse caminho,
voltamos à abordagem clássica ontológica do mito, que presumivelmente se presta
à abordagem de determinadas categorias do mito, mas, quero crer, não para a
abordagem da cosmogonia antigo-próximo-oriental no que concerne à sua gênese
histórico-ideológica: "quando no Enuma Elish
Marduk vence a Tiamat e funda Babilônia (VI, 47ss), isto é um mito; porém para
os babilônios é também um ponto de partida de toda história" (WIDENGREN,
1976, p. 163). Poderíamos acrescentar: porque em termos de
crítica da forma, a cosmogonia é a descrição da nova ordem político-social - a
criação, em Enuma Elish, é a criação de Babilônia. Cf. FINEGAN, 1954, p. 53.
[152]
Segundo de Vaux, “em hebraico, como em fenício e em acádico, as mesmas palavras
designam, pois, a ‘casa’ ou o ‘palácio’ do deus e a ‘casa’ ou o ‘palácio’ do
rei” (2003, p. 321).
[153]
Com isso enseja-se a seguinte citação de Solano Rossi: “era exatamente essa a
situação no Antigo Oriente Médio onde o Deus triunfante e organizador do cosmo
é ao mesmo tempo o patrono da dinastia reinante e protetor da cidade-estado que
detém a hegemonia política. Esse é o caso do Marduque babilônico, de Amon no Egito
e de tantos outros” (ROSSI, 2002, p. 13).
Porath reconhece a função instauradora do mito mesopotâmico: "também os relatos da
criação (Gn 1-3) incorporam essa autocrítica, pois em nenhum momento o falar do
Deus-criador é garantia de ordem estatal como nos textos mitológicos ugaríticos
e mesopotâmicos. Nem se menciona o rei" (PORATH, 1994, p. 16). A meu ver,
o possível equívoco de Porath é, antes de tudo, imaginar que a cosmogonia só
possa servir de fundamentação para a estrutura estatal monárquica
(e aqui tocamos novamente na perspectiva hermenêutico-exegética
latino-americana). A cosmologia de Gn 1, por exemplo, prescinde de referência a
um rei porque não há um rei, apenas o sacerdote. É
o Templo, não mais como casa do rei, mas como espaço teocrático, que está sendo
fundamentado. Nesse sentido, tanto quanto as
cosmogonias ugaríticas e mesopotâmicas muito bem assinaladas por Porath, também
a cosmogonia judaica tem esse preciso objetivo:
fundamentar o novo regime – não monárquico, mas
sacerdotal. Não esqueçamos que o rei está um pouco
mais ao norte, e tem sobre a cabeça uma "coroa" persa.
[155]
O que significa que o teriam conhecido (KAPELRUD, 1974, p. 181), se não mesmo
participado de suas recitações públicas.
[156]
Para uma identificação temática entre os fragmentos de
Baal da literatura de Ras Shamra e o Enuma Elish
quanto a temas como cosmogonia e construção de tempo, cosmogonia
e monarquia e as festas sazonais, bem como sua
repercussão para a compreensão do Antigo Testamento (a rigor com concentração
para as cerimônias de entronização do rei), cf. GRAY, 1979, p. 68-69.
[157] “Our epic is thus not only a
religious treatise but also a political one”.
[158]
Aqui conscientemente avançamos da abordagem fenomenológica da cosmogonia
testada por Eliade (1992, p. 69), para uma tentativa histórico-social (também
sugerida in loco).
[159]
Cf. ainda o caráter mágico da recitação da cosmogonia babilônica (FISHBANE,
1971, p. 155; ELIADE, 1992, p. 55-86). Para o ritual egípcio, cf. Ciro
Flamarion Cardoso, Os Festivais Divinos
no Antigo Egito, p. 8ss e MELLO, 2000, p. 34ss.
[160]
“Quase como uma litania”. Num parágrafo de quatro linhas, Westermann usa três
palavras para classificar Gn 1,1-2,4a: "litany", "hymn" e
"ballad" (WESTERMANN, 1967, p. 20). É esse o momento de advertir que
não é bastante ser poética para que
uma peça literária possa “nomear o numinoso, falar dele, falá-lo, falar-lhe,
deixá-lo falar, mantendo todavia seu segredo, seu mistério” (Vinícius de
CARVALHO, 2001, p. 57). Vinícius de Carvalho afirma que “a poesia (...) se
presta a referir-se ao sagrado mantendo-o sagrado” (idem, p. 57). Bem, sem querer polemizar com o autor no campo em que
ele apresenta as duas afirmações pinçadas – o campo da relação entre “Religião
e Literatura” – não poderia deixar de contra-argumentar dizendo que a poesia pode ser, também [senão sempre],
instrumento político – e quanto a isso não seria o caso de enumerar exemplos.
Baste-nos Gn 1,1-2,4a. Não é, nesse caso, a forma
o fator determinante – mas a intenção genética da peça, ou mesmo sua
instrumentalização político-ideológica posterior. O fim a que uma peça se destina – ou seu uso – falam mais alto do que seu modo de ser.
[161] Segundo Ernest G. Wright, “for
Israel, as for Babylon and for Canaan, the creation
doctrine presented the very conditions of everyday existence” (WRIGHT, 1969, p.
73).
[162]
De Vaus reconhece o tema assim tratado pelo judaísmo tardio, mas o considera
fraco se aplicado ao próprio texto bíblico (DE VAUX, 2003, p. 366). De Vaux
nega explicitamente a relação simbólica entre o Templo e a cosmogonia (p. 368).
Não é essa, naturalmente, a opinião do presente ensaio.
[163]
Com o fim específico de verificar se o fenômeno poderia ser verificado em
cosmogonias de outras regiões geográficas que não o Crescente Fértil,
aproveitei a favorável oportunidade de matricular-me no mini-curso “Religião
Asteca: Calendário e Cosmogonia Mesoamericana”, ministrado durante o V Simpósio
Nacional da Associação Brasileira de História das Religiões pela Profª Drª Ana
Paula Lourdes Oliveira, durante a semana de 27 a 30 de maio de 2003. O material
bibliográfico a que ali tive oportunidade de ter acesso, bem como o diálogo com
Ana Paula não permitem, nesse momento, afirmar do sistema cosmogônico asteca –
quanto menos do mesoamericano – constituir-se funcionalmente num paralelo ao
sistema cosmogônico do Oriente Próximo Antigo. Saio do curso, contudo, com a
suspeita de que um olhar nesse sentido
atento deve ser direcionado àquele vastíssimo material bibliográfico,
pictográfico e arqueológico. Há paralelos pontuais entre os dois sistemas
cosmogônicos, e pode-se perceber uma instrumentalização do mito para a
operacionalização da guerra (que
Davies analisa sem levar a discussão para a direção que intuo possível [DAVIES,
1992, p. 212s]. Ora, Ana Paula apresenta a sociedade asteca justamente como
composta “de uma população consagrada, inteira ou parcialmente, às atividades
não-agrícolas, como serviço militar, sacerdócio, administração e artesanato”
(Ana Paulo OLIVEIRA, 2001, p. 114), deve significar mais do que apenas uma ontologia hermenêutica o fato de que é
justamente nessa sociedade militar e sacerdotal que, no mito,
se assente a necessidade da guerra para prover o sistema ritual de conquistados com cujos corações,
literalmente, alimentavam-se, ritualmente, os deuses: “para que el sol alumbrasse
era necesario que comiese corazones y bebiese sangre, y para ello hicieron la guerra para que pudiesen obtener corazones y sangre. Y porque todos los dioses lo quisieron así,
hicieron la guerra” (KRICKEBERG, 1991, p. 32; cf. Ana Paula OLIVEIRA, 2001, p.
122-125). Se em algum momento os mitos astecas sofreram releitura
espanhola, como sugere Ana Paula e me parece bastante provável, senão
inevitável, e se, também como acredita, constituam narrativas “populares”,
talvez pudéssemos reentrar nesse universo a partir do pressuposto de que, sim,
tornaram-se populares – para isso
foram compostos – mas a partir de uma determinada ideologia e intenção
funcionais derivadas, em última análise e instância, da instrumentalização
militar-sacerdotal da hierarquia. Em outras palavras: os mitos astecas
representariam, igualmente, instrumentalização político-religiosa desde a alta
hierarquia, com vistas à operação ideológica da sociedade. Agradeço aqui
publicamente a Ana Paula, segundo suas palavras, pelo “bom tempo compartilhado
na ABHR”.
[164] Sempre com todo o respeito – agora a
Pixley – é possível que não seja de todo correto afirmar que “los dos mitos de
creación con los que comienza la Torah sirven únicamente para preparar el
escenario para la máxima obra de creación, cuando Yahweh forma para sí un
pueblo en el desierto de Sinaí" (PIXLEY, 1971, p. 54). Pixley
entende que o tema da criação foi tomado aos cananeus (p. 55); daí, por
tratar-se o êxodo do tema israelita, chegar Pixley a afirmar “la primacía del
éxodo sobre la creación cósmica” (p. 54).
[165]
Devem-se explicações, portanto, por outros mecanismos, as traduções que vertem
de forma diferente essas mesmas raízes e formas. A título de exemplo: “Pois eis
aqui que crio novos céus e nova terra (...) pelo que estou criando, pois eis
aqui que recrio (?) Jerusalém (...) e seu povo” (CROATTO, 2002, p. 339). Há o
mesmo vício de tradução em Clifford,
1985, p. 520. Por que duas vezes criar e quanto a Jerusalém e seu povo
“recriar”? Também Bíblia do Peregrino: “eu vou criar (...) pelo que vou criar
(...) vou transformar (?) Jerusalém (...) e sua população”. Almeida (1992)
quase nos salva, mas – creio – põe tudo a perder: “eis que eu crio novos céus e
nova terra (...) no que eu crio; porque crio para Jerusalém (...) e para seu povo”.
Almeida (1992) traduz acertadamente – a meu ver – as três raízes como criar,
mas não atinando que criar a terra e o céu é criar Jerusalém, salta o acusativo
e descaracteriza Jerusalém e o povo dela como objetos diretos. Julgo que tais
traduções enfrentam a dificuldade de captar que nessa literatura exílica e
pós-exílica diretamente relacionada ao exílio e à restauração, criar novos céus
e nova terra é a forma mítica de dizer que Jerusalém foi criada – reconstruída
– e com ela o Templo, e com eles o povo. Cf., por exemplo, Is 45,18.19, onde se
afirma que a terra não foi criada
para ser um tohû, mas para ser
habitada! Essa afirmação, se lida ao contrário, aponta para o fato de que
quando a terra foi criada – a terra de Gn 1,2, tohû vâvohû – ela estava uma
desolação e um vazio, estava inabitada.
[166]
Interessante observar que segundo Heinrich Fries, br’ “é um termo técnico da
linguagem teológica sacerdotal (...) é fácil que seu significado fundamental
fora o de ‘construir’” (FRIES, 1966, p. 327). Semelhantemente, ARBEZ e
WEISENGOFF afirmam que a forma familiar de bârâ’
no aramaico significa “to build, to make” (1948, p. 144). A afirmação se
comporta de uma excelente maneira à tese defendida de que a criação em Gn
1,1-2,4a é uma grande metáfora mítico-literária para a (re)construção de
Jerusalém no século VI. Para o significado de bara’ em arábico como
“form, fashion by cutting, shape out, pare a reed for writing, a stick for na
arrow” (p. 354) e