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Rascunhos Joaninos (I) Jo 1,1-18 Osvaldo Luiz Ribeiro Parece
uma cebola cortada ao meio. Lendo Jo 1,1-18, pude perceber a distribuição da
narrativa de um jeito que me fez lembrar o formato de uma cebola cortada ao
meio. Vejo assim:
Penso
poder entrever uma divisão em cinco partes: um “miolo” (C), em torno do
qual se distribuem duas “rodelas”, uma maior, mais externa (A + A’),
outra, menor, mais interna (B + B’), como uma cebola. A cebola tem
“camadas” em forma de círculo, as rodelas. Se eu imaginar uma cebola, e
colocar Jo 1,14 como o miolo das camadas, no meio da cebola, então as outras
quatro partes estarão em volta desse centro, desse olho, de Jo 1,14, assim como
as rodelas da cebola estão em torno do olho da cebola, as rodelas maiores mais
longe, as menores, mais perto. Se
Jo 1,14 é o centro, então sobram duas rodelas – as “molduras”. Uma
moldura mais próxima do centro é formada por Jo 1,6-13 mais
Jo 1,15 (B e B’ no quadro). A outra moldura, externa, mais distante do
centro, é formada por Jo 1,1-5 mais
Jo 1,16-18 (A e A’ no quadro). Disso resulta uma série que pode ser
visualizada também de forma “horizontal”:
Se
o jeito de eu ver o texto corresponde ao jeito com que o texto foi “pensado”
e “escrito”, tenho de admitir que se espera que eu preste atenção em Jo
1,14, porque aí está o centro da “cebola”, logo, o núcleo da narrativa. As outras duas partes, A – B e B’ –
A’, sustentam-se, erguem-se, constroem-se como molduras a partir desse núcleo,
ou em volta dele, se se preferir. O
que isso quer dizer? Quer dizer que Jo 1,14 serve de fundamento para Jo 1,1-5 +
Jo 1,16-18 (moldura A + A’), e para Jo 1,6-13 + Jo 1,15 (moldura B + B’). E
se for assim, nenhuma dessas partes pode ser tomada sozinha. Antes, todas as
partes devem ser lidas uma em relação às outras, e, além disso, e
principalmente, todas à luz do centro – Jo 1,14. O miolo da cebola O
que diz o centro? “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos
a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho Único, cheio de graça
e de verdade”. No centro está a encarnação
do Verbo – o Verbo, que verbo era,
faz-se carne; fez-se, sabemos, Jesus,
o messias, que é o que quer dizer “Jesus Cristo” (v. 17b). E, se a encarnação
está no centro de Jo 1,1-18, como as suas duas molduras se comportam em relação
ao tema? A rodela maior da cebola A
moldura externa do miolo é formada por Jo 1,1-5.16-18. O início e o final da
narrativa. De que tratam esses versos? E qual sua relação com o miolo, isto é,
com o tema da encarnação? A
primeira parte da moldura externa (A), diz que, no princípio, o Verbo estava
com e era Deus. Tudo foi criado por meio dele. Trata-se da relação entre o
Verbo e Deus. Mesma relação de que trata a outra parte da moldura externa
(A’): “ninguém jamais viu a Deus” (v. 18a). Somo as duas partes, e o que
tenho? Tenho a afirmação de que o Verbo estava com Deus, e que ninguém jamais
viu a Deus. Essa afirmação parece forte – e é – ainda mais que vem logo
depois de uma referência a Moisés, no v. 17. Ou seja, ninguém, nem mesmo Moisés,
viu a Deus. É tanto uma afirmação forte, quanto polêmica. No
centro, a encarnação; em volta da encarnação, a afirmação de que o Verbo
estava com Deus, de que era Deus, e de que ninguém jamais houvera visto a Deus.
De que forma essa moldura se relaciona com o centro? A julgar pelo que se diz no
v. 18b, de forma radical: “o Deus unigênito, que está no seio do Pai (isto
é, o Verbo), esse o deu a
conhecer”. A soma do miolo e da rodela maior da cebola afirma que apenas o
Verbo encarnado dá Deus a conhecer,
porque ninguém jamais viu a Deus, somente o Verbo, que, encarnado, encarnando
revela o Pai. A rodela menor da cebola Também
tendo duas partes (B e B’), de que fala a moldura interna de Jo 1,1-18? E Também
como se relaciona com o tema da encarnação?
Bem, o tema de Jo 1,6-13.15 está relacionado a João, o batista. Seu nome
aparece nas duas partes da moldura, no v. 6 e no v. 15, e isso para dizer que João
era testemunha do Verbo encarnado, da luz, mas igualmente para dizer que ele não
era a própria luz (v. 8), porque o Verbo encarnado é mesmo anterior
ao batizador (v. 15). A
figura de João, o batizador, parece, contudo, servir de ligação para um outro
tema, talvez mesmo o tema da moldura
interna: a recusa do testemunho da encarnação
do Verbo. Primeiro, diz-se que “o mundo não o conheceu” (v. 10), mesmo
tendo sido feito por intermédio dele; depois, diz-se que os seus não o
receberam (v. 11). E finalmente, conclui-se dizendo que “a todos quantos o
receberam (...) deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (v. 12). Numa
palavra: encarnado, o Verbo teria vindo revelar Deus ao mundo e aos seus. Mas
nem o mundo, nem os seus, o receberam. Quer dizer, não “todo o mundo”,
porque “a todos que o receberam” (v. 12), a esses foi dado tornarem-se
filhos de Deus. Considerações Saltam
aos olhos temas que se inter-relacionam: a pré-existência do Verbo em relação
ao mundo; a criação do mundo por intermédio do Verbo; a encarnação do
Verbo; a revelação do Pai pelo Verbo; o testemunho do Verbo por João; a
recusa do testemunho do Verbo pelo “mundo” e pelos “seus”; e,
finalmente, a situação de filiação divina por parte daqueles que receberam o
Verbo – entenda-se, que receberam Jesus (enquanto) Cristo (enquanto)
encarnado. Quem
quer que fale na narrativa, isto é,
quem quer que tenha escrito Jo 1,1-18, incluiu-se nesses que o receberam. No momento da redação do texto, quem quer
que o redija conta-se e se inclui a si mesmo entre os filhos de Deus. Logo, quem
escreve o texto tem em Jesus, o messias, a encarnação do Verbo, única testemunha
do Pai, e revelador do Pai, instrumento
para a adoção divina. Se eu olho agora o texto por esse prisma, o que
acontece com a narrativa? Primeiro,
vejo uma polêmica acentuada através da figura de João, o batizador. A encarnação
do Verbo passa por ele (v. 6): “houve um homem enviado por Deus”, mas deve
ultrapassá-lo (v. 15): “o que vem depois de mim, passou adiante de mim”. A
memória de João, o batizador, é
necessária para o argumento de João, o
Evangelho, mas a “comunidade” de João, o batizador, que, imagino, está
viva quando o texto está sendo escrito,
deve estar considerando-se suficientemente fundamentada em sua memória e
tradição, independentemente do recebimento da encarnação do Verbo. Seja quem
for que escreve Jo 1,1-18, ele polemiza com essa independência dos herdeiros de
João, o batizador: João não era a luz, mas dava testemunho dela. Quem
escreve o texto também polemiza com a herança judaica. Reconhece que os judeus
eram especialmente ligados ao Verbo (“o que era seu”, v. 11), mas afirma
que, apesar disso, não o receberam. Também
polemiza com o “mundo”, com o que se quer indicar para além da comunidade
do batista, e para além da comunidade judaica, para o mundo greco-romano, o
mesmo de Jo 3,16: “mundo”, massa humana. Para
quem escreve Jo 1,1-18, apenas o Verbo viu a Deus e o revelou, e o revelou,
porque foi o único a vê-lo. Excluam-se João, o batizador (que testemunhou do
Verbo), a tradição judaica (Moisés intermediou a Lei, v. 17), e o
“mundo”. Deus tem quem recebe o Filho, encarnado. Quem
escreve Jo 1,1-18 dialoga polemicamente com seu tempo, com seus conterrâneos e
com seus concidadãos. Fala de si, e a partir de si. Seu pronunciamento é
radical e exclusivista, porque liga Deus ao Verbo, o Verbo à encarnação, a
encarnação ao testemunho dela, e a afiliação divina ao recebimento do
testemunho da encarnação. Quem está dentro, está dentro; quem está fora,
está fora. Em
pleno século XXI, como ouvir tal pronunciamento? Como recebê-lo? Como falar
dele? De que forma ele se desdobra no Evangelho de João? De que forma se
desdobra nas epístolas joaninas? O que, afinal, ele quer dizer e significa para
mim, hoje, cidadão do mundo e do século XXI? Preciso
ler mais João. (continua) |
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