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Rascunhos Joaninos (II) Jo 1,19-34 (a) [Jo 1,19-28] Osvaldo Luiz Ribeiro João,
a batizador, recebe uma atenção especial no início do Evangelho de João. É mencionado pelo nome no prólogo, em Jo 1,6-9
e 1,15. Agora merece toda uma seção, só para ele. O que isso quer dizer? No
prólogo (Jo 1,1-18), o batista merecera atenção, sim, mas num tom de polêmica.
Quando fora mencionado nos v. 6-9, fora para ser desconsiderado como “luz”:
“ele não era a luz”. Quer-se fazer João assumir a posição que se entende
lhe caber: “veio para dar testemunho da luz” (Jo 1,9). Que o batizador não
era a (própria) luz, mas (apenas) testemunha dela o disse o próprio narrador
do texto em Jo 1,6-9. Depois, contudo, no v. 15, fará o próprio João
declarar: este é aquele de quem eu disse: o que vem depois de mim passou
adiante de mim”. Assim, o narrador do texto faz também o próprio João
concordar com sua declaração: João não é a luz; a luz é aquele que passou
adiante de João, que lhe vai na frente... Como
será que se comporta, agora, toda a série de Jo 1,19-34, toda ela reservada
para João? “Eu não sou o Cristo” O
texto começa pondo em cena uma comitiva de judeus de Jerusalém, do Templo,
sacerdotes e levitas (v. 19), e também fariseus da sinagoga (v. 24), cuja missão
é a de interrogar João: seria ele o messias?
A narrativa é inapelavelmente clara, contundente como um tiro à queima roupa:
“Eu não sou o Cristo” (Jo 1,20). O narrador apresenta a fala de João, o
batizador, como uma confissão: “ele confessou e não negou, confessou: ‘eu
não sou o Cristo’”. Dizer que não é o Cristo é dizer que não é o messias.
Dizer que não é o messias é dizer
que não era aquele para quem todos os olhos se dirigiam, em esperança e fé. Não,
não era ele, ele confessava. Tão pouco era Elias, nem mesmo o
profeta (Jo 1,21). O narrador faz João dissociar-se, por confissão, de
todas as expectativas da tradição judaica (Ml 3,23; Dt 18,15), além de
descaracterizar-se como messias. João
não era nada disso. “Quem és?” O
narrador apresentará João, o batizador, de duas maneiras: João, a voz que
clama, e João, o batizador, as duas, ligadas à tradição da atividade de João:
pregador e batizador. João, a voz que clama A
comitiva é posta a ouvir “não sou” atrás de “não sou”, e como toda
boa comitiva que se preze, considera seu dever levar um “sou” para aqueles
que lha enviaram (Jo 1,22): “disseram-lhe então: ‘quem és, para darmos uma
resposta aos que nos enviaram?”. João, então, vai dizer quem é, e, para
tanto, o narrador do texto o põe a citar uma outra tradição judaica, dessa
vez transcrevendo-a:
“Voz do que clama no deserto:
endireitai o caminho do Senhor
(Jo 1,23). João
é posto a dizer que cita Isaías. Curiosa essa citação, que outro
evangelista, Mateus, também usa (Mt 3,3). Na verdade, Jo 1,23 é uma citação
mais abreviada do que a de Mt 3,3: “Voz
do que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas
veredas”. Apesar disso, as duas citações concordam entre si, porque a
sua citação faz a “voz” clamar “no deserto”: “voz
do que clama no deserto”. Essa
unanimidade de citação entre João (Evangelho) e Mateus, deveria me fazer
seguir em frente. Mas como o nome de Isaías é citado, não custa conferir o
que Isaías teria dito. A citação é de Is 40,3, e a tradução de Almeida
é:
“Eis a voz do que clama: preparai
no deserto o caminho do Senhor;
endireitai no ermo uma estrada para o nosso Deus”. Se
eu ler apressadamente, irei adiante, com a sensação de que “conferi” bem.
Mas será uma falsa impressão. A citação que Mateus e João fazem não é
exatamente igual ao que está escrito em Is 40,3. O sentido não é
rigorosamente o mesmo. Se colocado num quadro, o conjunto mostra-se melhor aos
olhos:
Para
que a diferença entre Is 40,3 e a sua citação em Mt 3,3 e Jo 1,23 fique ainda
mais clara, faço duas perguntas aos textos: 1) onde a voz clama? 2) onde o
caminho deve ser preparado? As respostas são diferentes, depende se as buscamos
em Isaías ou nos Evangelhos. Em Isaías, não se diz onde a voz clama; ela apenas
clama; e o que ela clama? Clama para que no
deserto, aí sim, o caminho do Senhor seja preparado. Já em Mateus e João,
no deserto clama é a voz, enquanto
que não se diz onde o caminho deve
ser preparado; só é dito que o caminho deve ser preparado. Por
que a diferença de respostas? Julgo simples a explicação: as citações de
Mateus e João não são citações diretas de Isaías, mas, segundo estou
pronto para admitir, citação de alguma tradução de Isaías, as tradução
grega, por exemplo, que lhe teria subvertido o texto. A subversão do texto fica
clara em Mateus. Perdeu-se a expressão “no ermo”, que consta da última
parte de Is 40,3: endireitai no ermo
uma estrada”. Além disso, o que era “uma estrada para nosso Deus” em Is
40,3, simplificou-se para “ as suas veredas” em Mateus. Com isso, a expressão
“no deserto”, que consta da segunda parte de Is 40,3, e que se referia não
onde a voz clamava, mas onde o caminho do Senhor deveria ser preparado, foi
“aproximada” da expressão “voz do que clama”, e passou a constituir uma
afirmação que não existe em Isaías: “voz do que clama no
deserto”. Enquanto Isaías se referia a uma voz que clama que,
no deserto, o caminho do Senhor deveria ser preparado, por sua vez Mateus se
refere, como se se referisse a Isaías, a uma voz que clama no deserto, para que o caminho do Senhor (sem lugar específico)
seja preparado. Isaías se refere ao retorno dos cativos da Babilônia
utilizando-se da figura do “êxodo” no deserto, e, por isso, a voz clama
que, no deserto, o caminho (dos cativos) seja preparado para o Senhor (que vem
com os cativos (cf. Sl 126). O “deserto” em Isaías é a figura do retorno
para a terra, enquanto que, por causa da “tradução” a que se servem, quero
crer, em Mateus e João, “deserto” torna-se o lugar onde a voz clama, e a
voz, então, torna-se figura perfeita para “João, o batizador”. Seja
como for, João, o batizador, é posto a identificar-se com quem prepara
o caminho do Senhor. Com isso, obtêm-se dois efeitos: fundamenta-se o ministério
de João na tradição das Escrituras (Is 40,3), e, por outro lado, também a
partir da Escritura, confirma-se o que tanto o narrador, quanto o próprio João
já haviam dito e confessado: João não é o messias, e sua missão é preparar
o caminho do messias. Tanto esforço para dizer que João não
é (Jo 1,6-9.15.19-23) deve traduzir, creio, um confronto ideológico entre
a comunidade de cristãos por trás do texto do Evangelho de João, e alguma
comunidade ligada à memória e à tradição de João, o batizador, comunidade
suficientemente forte para ser considerado necessário enfrentar sua ideologia
na porta de entrada do Evangelho de João. E sua ideologia aponta para a confissão
de que João, o batizador, era o messias. É por conta disso que a comunidade
joanina tem de insistir em que João não é o messias, porque a comunidade de
João não apenas diz que, sim, que João é o messias, mas ela faz suficiente
barulho ao dizê-lo. Minha
percepção de que se trata de um esforço polêmico parece reforçada pelo fato
de que, como fizera em Jo 1,11.17, polemizando por tabela com a tradição
judaica sobre a identificação de Jesus como messias, também em Jo 1,19-34 a
polêmica transborda. Só que não se trata apenas da tradição, mas os próprios
representantes oficiais da tradição são trazidos para a cena: sacerdotes,
levitas e fariseus. O narrador os põe a duelar entre si, e pretende recolher os
despojos da peleja. E nesse preciso ponto parece ser oportuna a sistematização
da estrutura de Jo 1,19-34:
A
seção Aa (Jo 1,19-23) termina com a “citação” de Isaías. Diz-se quem João
não é – nem o messias, nem Elias, nem o profeta – e diz-se quem ele é –
o anunciador, a voz que clama. A seção Ab (Jo 1,24-28) será então construída
sobre essas declarações do batizador. João, o batizador O narrador usa como gancho tudo quanto João dissera, e faz-se pronunciar pela boca dos representantes da sinagoga, os fariseus: “e por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?” (Jo 1,25). Trata-se de uma pergunta que me faz pensar estar ouvindo os argumentos da própria comunidade de João, em resposta às prerrogativas messiânicas da comunidade joanina: por que cargas d’água João batizaria, se ele não se considerasse ou o messias, ou Elias, ou o profeta? É um tipo de pergunta que se faz quando já se está às proximidades do abismo. Por quê? Porque ela admite os argumentos contrários (João não é), e sobre esses argumentos constrói uma tentativa de defesa. Se estou diante de argumentos da própria comunidade de João, o batizador, devo reconhecer que já estão espremidos contra a parede além do que seria conveniente para sua sobrevivência. De um jeito ou de outro, a pergunta dos fariseus dá azo para que o narrador ponha a pá de cal sobre as expectativas da comunidade do batizador: “aquele que vem depois de mim, do qual eu não sou digno de desatar as sandálias” (Jo 1,27). João não era Elias, não era o profeta, não era o messias. Não, o messias já estava “no meio de vós” (v. 26), e João não era digno de desatar-lhe as sandálias. Das prerrogativas da comunidade do batizador, até a imagem construída pelo narrador de Jo 1,1-34, João, o batizador, despenca: de “messias”, é convertido em um homem indigno de desatar as sandálias do messias. É um pena que não saiba como a comunidade do batizador reagiu – se reagiu – a uma tal descaracterização. Chega-me às mãos apenas a perspectiva da comunidade joanina... |
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