Rascunhos Joaninos (III)

Jo 1,19-34 (b)

[Jo 1,29-34]

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

“No dia seguinte” (Jo 1,29a) pode servir como indicativo de que o narrador separa aqui sua narrativa. Dentro da seção constituída por Jo 1,29-34, a descartável introdução ao testemunho de João (“e João deu testemunho, dizendo:”), por sua vez indica uma divisão interna na seção, que corresponde às duas apresentações de Jesus: como Cordeiro de Deus (v. 29-31) e como Filho de Deus (v. 32-34).

 

Jesus, Cordeiro de Deus

 

João, o batizador, apresenta Jesus como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. E diz mais: diz que foi enviado a batizar justamente para manifestar a Israel a identidade do Cordeiro: “Eis o Cordeiro de Deus (...) para que ele fosse manifestado a Israel, vim batizar com água” (v. 29a.31b).

 

O fato de que João, o batizador, foi justamente enviado a batizar, para manifestar o Cordeiro de Deus retoma, a seu tempo, a pergunta que, “ontem”, fizeram os fariseus: “por que batizas?” (Jo 1,24b). Lá João não respondera, efetivamente, porque aprouvera ao narrador utilizar-se daquele espaço para colocar João no lugar de João, e, Jesus no lugar de Jesus. Jesus, e não João, é o messias.

 

Jesus é messias, mas, enquanto messias, é o Cordeiro de Deus, “que tira o pecado do mundo” (v. 29). Trata-se de uma precisão, de uma qualificação: messias-cordeiro é um termo mais preciso do que messias somente. Além disso, o narrador põe João a referir-se a seu testemunho que, agora, consta de Jo 1,15. Em Jo 1,30, lê-se: “dele é que eu disse: depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim”. Esse testemunho e memória remonta, na narrativa, a Jo 1,15: “João dá testemunho dele e clama: ‘este é aquele...’”. Ora, em Jo 1,15, na introdução narrativa ao testemunho de João, o batizador, o demonstrativo “dele”, que introduz o próprio testemunho de João, refere-se ao Verbo de Jo 1,14. Jo 1,14 é o centro da composição constituída por Jo 1,1-18: “e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e nós vimos a sua glória”. Jo 1,15 diz que, desse Verbo, mas desse Verbo encarnado, dele é que João deu testemunho.

 

Agora o narrador põe o próprio João a recordar-se de seu próprio testemunho. Em Jo 1,30 inscreve-se, também, um demonstrativo: “dele”, dessa vez ligando o mesmo testemunho, que em Jo 1,15 se liga ao Verbo encarnado, agora ao título de Cordeiro de Deus. Em outras palavras, os dois títulos, Verbo encarnado e Cordeiro de Deus tornam-se correspondentes a partir da referência que o testemunho de João faz ao mesmo tempo a ambos quando é posto a dizer “este é aquele de quem eu disse...” (Jo 1,15b = Jo 1,30b). O Quadro 1 pode ajudar a visualizar isso que estou tentado dizer. Reparem-se nas correspondências entre os títulos dos v. 15 e 30; no uso do demonstrativo “dele”, isto é, do Verbo encarnado (v. 14.15), mas também “dele”, isto é, do  Cordeiro  de  Deus, que tira o pecado do mundo” (v. 29.30); e no demonstrativo “este”, que, se tomado a partir do v. 15, refere-se ao Verbo encarnado, se tomado a partir do v. 30, se refere ao Cordeiro de Deus, mas se tomado à luz do conjunto, identifica os títulos, e se refere tanto ao Verbo encarnado, quanto ao Cordeiro de Deus.

          Quadro 1

 

“E o Verbo se fez carne,

e habitou entre nós”

(Jo 1,15a)

ó

 

“Eis o Cordeiro de Deus,

que tira o pecado do mundo”

(Jo 1,29a)

 

ô

 

ô

“João dá testemunho dele” (Jo 1,15a)

ó

Dele é que eu disse” (Jo 1,30a)

 

ø

 

 

÷

Este é aquele de quem eu disse:

o que vem depois de mim passou adiante de mim,

porque existia antes de mim” (Jo 1,15b = Jo 1,30b)

 

 Ver: encarnação e testemunho

 

Fará parte da estrutura consciente da narrativa a presença do verbo “ver” tanto em Jo 1,14 quanto em Jo 1,29? Lá, diz-se que “vimos a sua glória”, isto é, vimos a glória do Verbo encarnado. E a vimos por quê? Vimos, porque “o Verbo se fez carne”. Por sua vez, cá, o narrador não deixa de precisar que “no dia seguinte, ele (João, o batizador) Jesus aproximar-se dele” (v. 29). Por que João viu Jesus? Porque Jesus aproximou-se dele. Coincidência demais, não? Uma vez que o tema de “ver Jesus” voltará no Evangelho e fará parte também do prólogo da primeira carta joanina, aposto que não é coincidência...

 

E, se não for coincidência, para o que apontaria, conscientemente, a insistência no ver? Penso que se tomarmos os dois detalhes analisados, primeiro, o conjunto de referência demonstrativa que une o Verbo encarnado ao Cordeiro de Deus e, por sua vez, afirma-os como se tratando de Jesus: “viu Jesus aproximar-se dele”. Logo, o Verbo é Jesus, diz o narrador, dizendo-o pela memória de João. Jesus é o Verbo, e o Verbo encarnado.

 

Por outro lado, Jesus é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Mas se, enquanto Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, Jesus é, também, o Verbo encarnado, então se conclui que o poder de tirar o pecado do mundo está depositado sobre o Verbo enquanto encarnado. O Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo é o Verbo encarnado. Não é o Verbo, mas o Verbo encarnado, e o Verbo encarnado é Jesus. Jesus é o Verbo encarnado, e, porque encarnado, é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O narrador insiste em dizer que João viu o Cordeiro de Deus, e que “nós vimos” a glória do Verbo-carne. Por que a “vimos”? “Porque a vida manifestou-se: nós a vimos e lhes damos testemunho (...) e isto vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1 Jo 1,2a.4).

 

A encarnação apresentou-se como o centro geográfico e semântico de Jo 1,1-18: Jo 1,14 apresenta o Verbo que se fez carne. Mais uma vez a encarnação, agora transbordando, insinua-se de forma teologicamente relevante: o Cordeiro de Deus é Jesus, o messias, ou, dito de outro modo, Jesus é o messias-cordeiro, que tira o pecado do mundo, sendo que, o messias-cordeiro que tira o pecado do mundo, é tanto de Deus, quanto é o Verbo, e o Verbo encarnado.

 

Jesus, o Filho de Deus

 

Se dá testemunho da identidade de Jesus como Verbo encarnado e como Cordeiro de Deus através do testemunho de João, o batizador, o narrador também se serve de João para apresentar Jesus como Filho de Deus. Esse é o tema da quarta e última parte de Jo 1,19-34, isto é, de Jo 1,32-34. João dirá, no término da seção: “E eu vi e dou testemunho que ele é o Filho de Deus”.

 

Acentua-se a relevância do testemunho de João, o batizador, para o narrador, ou para a comunidade que lhe está na base da argumentação. Nos três versículos que constituem a seção, Jo 1,32.33.34, três vezes aparece o verbo “ver”: “Vi o Espírito descer, como uma pomba vindo do céu, e permanecer sobre ele” (v. 32); “’aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é o que batiza com o Espírito Santo” (v. 33); e “eu vi e dou testemunho que ele é o Filho de Deus” (v. 34). “Ver” constitui-se numa questão fundamental para a narrativa. E se é importante o fato de se ter visto, conseqüentemente passa a ser de suma importância aquele que viu. Por isso a comunidade joanina recorre ao mesmo João, para transpor a distância visual, distância essa que se interpõe entre a fé da comunidade joanina e a própria encarnação, e isso ainda que tenha que, entretanto, ultrapassar João, o batizador (Jo 115.30). João, o batizador, é ultrapassado por Jesus, o messias: esse é o motivo de fundo de toda a narrativa, até o v. 34. Não obstante, a narrativa não abre mão do testemunho de João, o batizador. Que fique lá atrás, mas que dê seu testemunho...

 

Há, então, na presença de João, o batizador, nos argumentos narrativos de Jo 1,1-34, uma certa coerência argumentativa, que se poderia traduzir numa série de proposições:  

  1. ninguém jamais viu a Deus (Jo 1,18a)

  2. o Filho (= o Verbo encarnado) o deu a conhecer (Jo 1,18b)

  3. João, o batizador, não o conhecia (Jo 1,31.33)

  4. esse João viu o Espírito descer sobre Jesus (Jo 1,32)

  5. esse João, porque viu o que devia ver, testemunha que Jesus é o Filho de Deus (Jo 1,34)

  6. esse João fora mandado como testemunha (Jo 1,7)

  7. esse João dá testemunho do Verbo encarnado (Jo 1,15)

  8. a comunidade joanina pode tomar o testemunho para si: “nós vimos a sua glória” (Jo 1,14)

 

Trata-se de um argumento viciado, porque fundamentado na memória do testemunho de João, o batizador, que, a seu tempo, testemunha ter visto o Espírito, em forma de uma pomba, descer sobre Jesus. Em si mesmo, isso nada significaria, porque, afinal, o que significa a visão de uma pomba descer sobre uma pessoa? Ocorre que, contudo, o mesmo João dá a saber que “aquele que me enviou para batizar com água disse-me: ‘aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é o que batiza com o Espírito Santo” (Jo 1,33b). Resulta dizer que a visão que João, o batizador, tem, faz sentido apenas a partir da informação que obteve junto àquele que o teria enviado. O argumento é:

  1. aquele que o enviara a batizar lhe dissera que aquele que viria a batizar com o Espírito Santo seria justamente aquele sobre quem João visse descer e permanecer o Espírito Santo na forma de uma pomba;

  2. enviado por aquele que o enviou e lhe deu a chave hermenêutica da revelação do segredo, o batizador vê descer sobre Jesus o Espírito Santo em forma de pomba;

  3. uma vez que João viu o que lhe teria sido dito ser o sinal, e uma vez que a cena desenrola-se tendo Jesus como centro, o batizador pode testemunhar que Jesus é aquele que batiza com o Espírito Santo, isto é, Jesus é o Filho de Deus: João vê descer sobre Jesus o Espírito Santo, conforme aquele que o enviara a batizar lhe dissera aconteceria.

 

Que premissa é a premissa fundamental? Se é tomada a autoridade “daquele que me enviou”, deixa-se de notar que ela está sustentada pelo testemunho de João: só tomo conhecimento dela, porque João ma dá a saber. Se é tomada a autoridade de João, ela retorna para aquele que o enviara, uma vez que o próprio João fundamenta nele o seu testemunho. Por outro lado, nem João, nem o próprio Cristo estão mais presentes na gênese da narrativa, e se trata mesmo de embate de comunidades – a do batizador, de um lado, a joanina, de outro – recorrendo a suas memórias e tradições. Nesse sentido, a autoridade de João, o batizador, vale para a comunidade joanina, que escreve o texto, por conta do fato de que João é considerado relevante para a comunidade do batizador. Por força do fato de que João, o batizador, goza de prestígio naquela comunidade, mesmo a despeito do esvaziamento do papel central que ocupa naquela comunidade, João é sacado como argumento, porque, a rigor, é o traço de união entre a encarnação, Jesus, e a comunidade de fé. Assim como Jesus é a encarnação do Verbo, assim como João é a encarnação do testemunho de que Jesus é o Verbo, a tradição da comunidade do batizador é tomada como a encarnação da validade do testemunho de João, o batizador, porque é para aquela comunidade, mais do que para qualquer outra, que João, o batizador, é autoridade e testemunho. Por isso o argumento funciona, porque ele é usado dentro do próprio círculo que o institui e vicia – ligações tradicionais, memórias religiosas e espirituais relevantes, significativas, fundamentais e fundantes. O leitor contemporâneo percebe o círculo. Deixar-se-á convencer por ele? Consistirá a sua adesão à fé a subscrição do círculo? A consciência crítica da fragilidade epistemológica do argumento trai o que se considera fé? A consciência da relevância sociológica do argumento, na história concreta por trás do texto, substancia o argumento? O que se considera fé deve submeter a sacrifício a consciência e a percepção críticas? A função da catequese será sustentar o argumento da narrativa, independentemente do vício de argumentação em que ele se constitui? Uma proposição sustentada por um círculo vicioso de argumentos deve ser criticamente considerada, a despeito do vício de argumentos? Mesmo se a base escriturística é o conjunto dos argumentos?

 

De que forma os homens e as mulheres, leitores e leitoras de João, devem se posicionar diante da proposição narrativa? Assentá-la e assumi-la? Compreendê-la e refletir sobre ela? Desfrutar dela e se deliciar com ela? Diante de que devem se posicionar esses homens e mulheres, entre os quais, naturalmente, me incluo? Diante da narrativa, da plástica de personagens e ações, de personagens em ação, de dizeres e argumentos, no mundo próprio das palavras no texto? Ou diante da carne concreta e crua que carrega na tinta, que vive por trás das palavras do texto, na vida e na história, de que o texto é fruto e flor? Dogmática? História? Qual o caminho para nós, cristãos do século XXI, se o campo consiste nas Escrituras? É uma estrada de palavras? Ou é uma estrada de carne encarnada em corpo, presente, nesse caso, não na narrativa, mas por trás dela?