Rascunhos Joaninos (IV)

Jo 1,35-51

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Jo 1,35-51 está dividido em dois pedaços, cada um introduzido pela mesma expressão que já fora usada em Jo 1,29: “no dia seguinte”. A seção começa com a expressão (v. 35), e é fendida ao meio pela mesma expressão no v. 43. Conta-se, portanto, o conteúdo de dois dias de histórias. E são histórias de discípulos.

 

“Encontramos o messias”: Jesus e os discípulos do batizador

 

Desde Jo 1,18, passando depois por Jo 1,19-34, que, a despeito de funcionar, por força da memória de seu testemunho, como fundamento argumentativo para a identificação de Jesus como o messias, a presença de João, o batizador, vai servindo de piso para a construção dos argumentos da narrativa. Anteriormente, suspeitara que tal fenômeno se devia a embate de comunidades – a comunidade joanina confrontando-se com os argumentos da comunidade do batizador. Penso que Jo 1,35-42 reforce consideravelmente essa suspeita. Por quê? Porque a narrativa faz não só dois discípulos de João, o batizador, seguirem Jesus, mas o declararem como mestre e messias. Se até aqui a figura do fundador da comunidade do batizador, que vislumbro por trás das argumentações do texto – se ela existiu, se existe atrás do texto, é um risco assumido – havia permanecido sob o foco do embate, se até se travava uma luta de fundadores, digamos assim, Jesus x João, agora entram em cena os discípulos.

 

Introduzem-se dois discípulos de João (v. 35). A narrativa leva João a repetir sua declaração de Jo 1,29, identificando Jesus como o Cordeiro de Deus (v. 36). Os dois discípulos ouvem João falar que Jesus é o Cordeiro de Deus, e o seguem (v. 37). Jesus pára e os interroga sobre quanto buscam (v. 38a). “Disseram-lhe: ‘Rabi (...) onde moras’”? (v. 38b). “Vinde e vede”, é o que lhes responde Jesus, e eles vão, e vêem onde Jesus mora, “e permaneceram com ele aquele dia” (v. 39).

 

João desaparece da cena. Sua missão foi cumprida. Fora “enviado por Deus” (v. 6), “para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele” (v. 7). “João dá testemunho (...): ‘este é aquele’ (...)” (v. 15.30). Foi enviado a batizar, para manifestar a Israel o Cordeiro de Deus, o messias, o Verbo encarnado, a luz (v. 31). Seus discípulos, agora, viram o mestre, seguem-no, entram em sua casa. Que mais quer João? Para que mais serve? A serventia de João é levar seus discípulos ao mestre, e que sua missão foi bem sucedida confirma-o o testemunho de André, seu discípulo, agora de Jesus: “Encontramos o messias” (v. 41). Como assim, “encontramos o messias”? Não estavam com João? Como, então, encontraram o messias? Não o tinham, estando com João? Não, não o tinham, como o mesmo João, o batizador, o dissera: “eu não sou o messias” (v. 20). É por isso que André não mais levará alguém a João, mas a Jesus, como fez com Pedro: “Ele achou primeiro a seu irmão Simão, e disse-lhe: ‘havemos achado o messias’ (...). E o levou a Jesus” (v. 41-42a). Conclui-se o argumento em torno de João: João leva a Jesus, o messias; os discípulos de João vão a Jesus, o messias; os discípulos de João levam a Jesus, o messias. Ficam claras as posições, sob a perspectiva da comunidade que redige a narrativa.

 

André, um dos discípulos de João, o batizador, que seguiram Jesus, é, contudo, irmão de Pedro (v. 40). Sai de cena João, entra Pedro.

 

“Encontramos aquele de quem falam Moisés (...) e os profetas”

 

A segunda parte da narrativa desenrola-se “no dia seguinte”. Há um primeiro “no dia seguinte” em Jo 1,29. Isso significa, que, nos termos em que dispõe a narrativa, os eventos de Jo 1,29-34 (a identificação de Jesus como Cordeiro de Deus, e filho de Deus) dão-se no dia seguinte aos eventos de Jo 1,19-28 (a negação de João de ser o messias). Se Jo 1,19-28 se dá no dia x, então Jo 1,29-34 se dá no dia x + 1 (“no dia seguinte”, cf. v. 29), Jo 1,35-42 se dá no dia x + 2 (“no dia seguinte”, cf. v. 35), e Jo 1,43-51 se dá no dia x + 3. Essa série cronológica prepara para a cena do milagre do vinho, em Caná, “no terceiro dia”, que se pode deduzir tratar-se do terceiro dia a contar do encontro com Natanael, se não for o próprio dia do encontro que, a rigor, consiste no terceiro dia a contar desde o encontro entre João, o batizador, e a comitiva de notáveis de Jerusalém (v. 19.29.35.43; cf. 2,1).

 

Nesse segundo dia, portanto, Jesus “resolver partir para a Galiléia”. Parece ser a terceira referência geográfica até aqui. Primeiro, diz-se que João, o batizador, batizava “em Betânia, do outro lado do Jordão” (v. 28). Se João permanece lá, quando Jesus se aproxima dele (v. 29), então é ainda em Betânia que João está, quando os dois discípulos o ouvem declarar ser Jesus, que passa, o Cordeiro de Deus, porque está dito que “João se achava lá de novo” (v. 35). Nada se diz sobre se a casa onde Jesus morava era em Betânia mesmo, ou alhures, somente que os dois discípulos foram com Jesus, e viram onde morava, e ficaram lá aquele dia. Seja como for, a narrativa faz Jesus dirigir-se para a Galiléia.

 

Essa mudança de geografia é azo para o encontro com Felipe (v. 43), a quem Jesus diz: “segue-me” (v. 44). Como André fora até Pedro e lhe dissera: encontramos o messias” (v. 41), Felipe encontra Natanael e lhe informa: “encontramos aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, filho de José, de Nazaré” (Jo 1,45). Essa declaração de Felipe remonta ao v. 17: “porque a lei foi dada por Moisés”, e remonta, também, às expectativas a que João ia sendo confrontado: messias? Elias? o profeta? As questões com que se abrira a seção em Jo 1,19-28, isto é, se seria João o cumprimento das expectativas das tradições e Escrituras judaicas, são definitivamente respondidas, agora positivamente, pelo testemunho de Felipe: Jesus é aquele que se esperava, e se esperava porque para isso apontaram Moisés, na Lei, e os profetas. As expectativas, as tradições, as esperanças, estão todas de pé, todas são plenamente válidas, a história de esperança da tradição do povo judaico, gestada, aguardada e transmitida ano após ano, século após séculos, perdida na memória do tempo, tinha valor e validade. A sua concentração é que precisa ser precisa: o cumprimento de todas elas não é João, é Jesus, di-lo João, di-lo André, discípulo de João, agora de Jesus, di-lo Felipe, discípulo de Jesus.

 

Caberá a Natanael portar a chama da suspeita: “de Nazaré pode sair algo de bom?” (v. 46). Como dissera Jesus a André, Felipe diz agora a Natanael: “vem e vê” (v. 47), porque, em se tratando da encarnação do Verbo, tudo é uma questão de “ir e ver”. Natanael termina por confessar Jesus como Filho de Deus e Rei de Israel, dirigindo-se a ele como rabi, como fizera também André. Surpreso com a facilidade com que Natanael submete-se à fé simplesmente por conta do diálogo entre os dois, Jesus é posto a concluir a seção, em tom solene: “em verdade, em verdade, vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51).

 

Jesus se reporta a Gn 28,10-19? Isto é, o narrador concluiu apoteoticamente, levando Jesus a referir-se à cena de Jacó vendo os céus abertos, a escada que liga a terra ao céu, e por ela descendo os anjos de Deus? O sonho que sonhou Jacó descrevia uma cena como essa de que fala Jesus: “teve um sonho: eis que uma escada se erguia sobre a terra e o seu topo atingia o céu, e anjos de Deus subiam e desciam por ela” (Gn 28,12). Se for correto identificar a referência posta na boca de Jesus com a passagem do sonho de Jacó, uma observação é relevante: na declaração de Jesus, a escada ergue-se sobre ele, o Filho do Homem. Quando Jacó desperta de seu sonho, sua reação é imediata: “teve medo e disse: ‘este lugar é terrível! Não é nada menos que uma casa de Deus e a porta do céu” (Gn 28,17). Jacó teve medo, porque “o Yahveh está neste lugar e eu não sabia” (Gn 28,16b). Mas agora Jacó sabe. E tanto sabe que “levantando-se de madrugada, tomou a pedra que lhe servira de travesseiro, ergueu-a como uma Estela e derramou óleo sobre o seu topo” (Gn 28,18). Consta que a esse lugar deu o nome de Betel, casa de Deus.

 

Se a referência é proposital, por que Jesus se coloca como o ponto sobre a qual se ergue a escada? Não é porque se coloca como casa de Deus e porta do céu? Se a referência da fala de Jesus é à cena do sonho de Jacó, onde está Betel, no sonho, está Jesus, na sua fala; onde está a porta do céu, está o Filho do Homem. Jesus é casa de Deus e porta do céu. Mas que Jesus? Jesus, o Verbo encarnado, o verbo que se fez carne e habitou entre nós, o Verbo que, tendo estado com Deus, encarna para o dar o conhecer, e o dá a conhecer assim, encarnado, e é nele assim, encarnado, que Deus está.

 

Se a narrativa de João começa falando do Verbo lá, com Deus, no princípio (Jo 1,1), essa primeira grande seção do Evangelho dito de João termina colocando Deus aqui, no chão, em Jesus, o Verbo (agora) [então] encarnado, Jesus, filho de José, de Nazaré.

 

Trata-se de um (primeiro) recado do Evangelho? Deus não está lá ou acolá, mas cá, encarnado, e, se queres Deus, deves querer achá-lo sempre assim, encarnado? Quem sabe o que nos espera adiante?