|
Rascunhos Joaninos (V Jo 1,1-51 recapitulação Osvaldo Luiz Ribeiro Embate
entre comunidades como pano de fundo de Jo 1,11-51 Termino
os rascunhos do primeiro capítulo de João com a forte impressão de que todo
ele é construído em torno da polêmica entre a comunidade joanina e a
comunidade do batizador sobre quem efetivamente é o messias. A forte impressão
deriva da própria narrativa, e da forma como percebi sua estrutura. Há
três grandes seções em Jo 1,1-51. O famoso prólogo
(v. 1-18); a narrativa da confissão de João diante dos notáveis de Jerusalém
de que ele não era nem o messias, nem Elias, nem o profeta, e o seu testemunho
diante de Jesus de que ele, sim, Jesus, era o Cordeiro e o Filho de Deus (v.
19-34); e, finalmente, a narrativa do seguimento de Jesus por parte dos dois
discípulos de João, o batizador, e dos outros dois discípulos, Felipe e
Natanael (v. 35-51). Nas
três grandes seções, a figura de João comporta-se como argumento apologético
fundamental. Na primeira parte, é dito que Deus enviara o batizador (v. 6) para
dar testemunho da luz (v. 7), testemunho de que ele se encarrega, ao testificar
do Verbo encarnado como “aquele de quem eu disse: ‘o que vem depois de mim,
passou adiante de mim, porque existia antes de mim’”. Nessa primeira parte
da narrativa, João é apresentado como, sim, tendo sido enviado por Deus, mas
que sua missão desde o envio teria sido a de dar testemunho, o que ele faz. É
importante para a comunidade joanina assumir o envio divino de João, o
batizador, porque, na segunda parte, o testemunho de João será levado muito a
sério. Na segunda parte, a fala de João, o batizador, se desdobra em duas
afirmações: a confissão de própria boca de que não é o messias (v. 20), e
o testemunho, diante de Jesus, de que ele, Jesus, é o Cordeiro de Deus (v. 29)
e o Filho de Deus (v. 34), título que serão recapitulados na terceira parte
(v. 36 e 49), e ampliados até o ponto de ser Jesus apresentado como messias por
um dos discípulos de João, André (v. 41), e como Rei de Israel (v. 49), isto
é, “aquele de quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, filho de
José, de Nazaré” (v. 45). Nessa última parte, João, o batizador é posto a
ver dois de seus discípulos seguirem a Jesus, o que deve ser interpretado tanto
como cumprimento e fim do ministério de batismo de João, que desaparecerá da
narrativa, bem como argumento de que os discípulos de João, o testificador do
messias, devem a rigor, tornarem-se discípulos de Jesus, o messias. Tomadas
as duas vezes em que a declaração de João, o batizador, aparece na narrativa
(v. 15 e 30), uma outra possibilidade de evidência se apresenta. Trata-se do
argumento da declaração de João: “este é aquele de quem eu disse: ‘o que
vem depois de mim, passou adiante de mim, porque existia antes de mim’”.
Chama a atenção a fórmula “o que vem depois de mim”. Se lida à luz da
hipótese de embate entre as comunidades joanina e do batizador, parece natural
inferir dali que a comunidade do batizador, na defesa do messianado de seu
fundador, argumentasse, por exemplo, que o ministério de João era anterior ao
de Jesus, logo, mais antigo, conseqüentemente, mais importante. A resposta da
comunidade joanina ao argumento pode estar na continuação do testemunho de João:
“passou adiante de mim”. Com essa afirmação, a narrativa dá conta de
assumir o ministério de João como anterior ao de Jesus, ao que responderá
como a função do envio por Deus para testemunho, logo, necessariamente
anterior, mas que, sendo anterior, é, contudo, ultrapassado, como devia ser,
posto que João é testemunha, e Jesus é o objeto do testemunho. A
justificativa do próprio testemunho de João da ultrapassagem de Jesus liga-se
à pré-existência de Jesus em relação a João, mas, em termos narrativos,
liga-se à pré-existência do Verbo em relação a todas as coisas, objeto da
cristologia de Jo 1,1-18. Curioso
é observar que não será a única vez que a comunidade joanina vai se referir
a uma ultrapassagem. Em Jo 20,1-10, “o outro discípulo, que Jesus amava” é
posto a correr na frente de Pedro, e a chegar primeiro ao sepulcro: “os dois
corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro, e chegou
primeiro ao sepulcro” (Jo 20,4). Não entrará primeiro, será dito, no sepulcro, esperando por
Pedro e permitindo a ele o privilégio,
mas somente o fato de que o “outro discípulo” ter chegado na frente,
esperado por Pedro, e dado a ele o
privilégio de entrar no sepulcro parece indicar para questões além da história,
e mais tocantes à política. Quando chegar a hora de ler Jo 20,1-5, talvez
venha a ser necessária a leitura do testemunho constante de Lc 24,12, onde se
narra a tradição do retorno de Pedro ao sepulcro, depois do anúncio das
mulheres acerca da ressurreição de Jesus. A nota unânime de Almeida
e de A Bíblia de Jerusalém de que se trata de um versículo ausente em
manuscritos antigos é razão suficiente para lidarmos com Lc 24,12 e Jo 20,1-5
a partir da perspectiva da dinâmica da elaboração das tradições político-sociais
das comunidades cristãs primitivas. Por ora baste a alusão. Poder-se-ia,
portanto, concluir que Jo 11,1-51 tem por pano de fundo a polêmica entre a
comunidade relacionada à redação do Evangelho de João e a comunidade do
batizador. Pano de fundo, contudo, não é tese. A tese qual seria? A
encarnação do Verbo em Jesus de Nazaré como tese de Jo 1,1-51 Que
a encarnação do Verbo deve ser considerada a tese de Jo 1,1-51 pode ser
sustentada por dois argumentos. O primeiro se refere à própria afirmação da
encarnação do Verbo, objeto de Jo 1,1-18. A declaração de que “o Verbo se
fez carne e habitou entre nós”, posta em Jo 1,14, é mesmo o centro de Jo
1,1-18 em torno do qual todo o mais se circunscreve. Diz-se que o Verbo, no
princípio, estava com Deus, mas, em certo momento, o Verbo encarna, faz-se
carne. Esse momento da encarnação não
é o momento em que a narrativa é composta, eu imagino, e o testemunho de João,
o batizador, é, também por isso, fundamental. Seja como for, insiste-se em que
a encarnação do Verbo (v. 15), em Jesus Cristo (v. 17), é o único veículo
de “revelação” do Pai: “ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que
está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer” (v. 18). O
tema da encarnação é ainda desenvolvido teologicamente no restante da
narrativa (Jo 1,19-34 e 35-51). Em Jo 1,19-34, o tema da encarnação é
desenvolvido pelo testemunho do batizador de que Jesus é o Filho de Deus (v.
31-34). A identificação entre “Jesus, filho de José, de Nazaré” (v. 45)
e o Verbo encarnado é atestado na narrativa por uma tríplice evidência:
primeiro, que Deus, isto é, “aquele que me enviou” (v. 33; cf. v. 6), dá a
saber a João que o Espírito Santo pousará sobre o Filho de Deus; segundo, o
Espírito Santo pousa sobre Jesus, o Filho de Deus (v. 33); terceiro, João, o
batizador vê o Espírito Santo pousar e permanecer sobre Jesus: “e eu vi e
dou testemunho que ele é o Filho de Deus” (v. 34). Jesus de Nazaré é o
Verbo encarnado, e disso dão testemunho Deus, o Espírito Santo e João, o
batizador, independentemente do fato de que o testemunho dos dois primeiros
seja, a rigor, argumento do testemunho do último. Em
Jo 1,35-51, Jesus é apresentado como messias (v. 41), como “aquele de quem
escreveram Moisés, na Lei, e os profetas” (v. 45), e como Rei de Israel (v.
49). Ao lado do título de messias vai o de Cordeiro de Deus (v. 36), e ao lado
de Rei de Israel vai o de Filho de Deus (v. 49). Cordeiro de Deus e Filho de
Deus são títulos já apresentados na seção anterior (v. 29 e 34), e devem
estar sendo repetidos na terceira parte de Jo 1,1-51 para ligá-la à segunda,
onde haviam sido introduzidos. Uma vez que o título de Filho de Deus em Jo 1,34
se refere ao testemunho da identificação de Jesus como a encarnação do
Verbo, o tema da encarnação transborda como fermento, e entorna sobre a tradição
de Israel. Sim, porque, ao lado de Cordeiro de Deus, vai messias, e, ao lado de Filho de Deus, vai Rei de Israel, e messias e
Rei de Israel são títulos
relacionados à declaração de Felipe a Natanael: “encontramos aquele de quem
escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas: Jesus, filho de José, de Nazaré”
(v. 45). Ora, o que está sendo dito, que vem de transbordar desde a figura do
Filho de Deus como encarnação do Verbo, é a absoluta interligação de todos
os títulos e de todas as expectativas tradicionais da fé judaica, incluídas aí
especialmente as referências ao batizador, aos sacerdotes e levitas, e aos
fariseus, todas elas em Jesus. Mas
esse Jesus é Jesus, filho de José, de Nazaré, encarnação com nome,
sobrenome e cidade natal. Quem
é Jesus? Jesus é filho de José, de Nazaré. Jesus é aquele de quem
escreveram Moisés, na Lei, e os profetas, logo, é ele o messias e o Rei de
Israel. Jesus é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, e o é enquanto
Filho de Deus, isto é, encarnação do Verbo que, no princípio estava com
Deus, mas, agora, fez-se carne, e habitou entre nós o Filho de Deus. O
que tem Jesus a dizer sobre isso? “Vinde e vede” (v. 39). “Segue-me” (v.
43), além de suas duas declarações, a Pedro e a Natanael. Do conteúdo dessa
última, importa ressaltar aquela que constitui o arremate de Jo 1,1-51 e que,
acredito, seja a confirmação do próprio Jesus de que se constitui a sua vida
um fenômeno significativo: “’vereis o céu aberto e os anjos de Deus
subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (v. 51). Nela, Jesus apresenta-se
como Filho do Homem, produzindo assim o dístico Filho de Deus – Filho do
Homem (v. 34.49.51). Filho do Homem será o título da encarnação? Filho de
Deus, o Verbo encarnado, Filho do Homem, a encarnação do Verbo? Se a declaração de Jesus a Natanael
reporta-se programaticamente a Gn 28,10-19, é possível que sim, porque, se
Jesus se coloca como o lugar sobre o
qual a escada dos céus se desdobra, pela qual os anjos de Deus sobem e descem,
então Jesus se apresenta a Natanael como Casa
de Deus e como Porta dos Céus.
Por quê? Porque ele é o “Filho Único, que está voltado para o sei do
Pai” (v. 18), Pai esse a quem ninguém jamais viu, mas que agora é dado, pelo
Filho Único, a conhecer. Como? Mediante a encarnação do Verbo em Jesus, filho
de José, de Nazaré, o Filho do Homem. À
luz das observações feitas até aqui, poderia ser sugerida a seguinte
estrutura para Jo 1,1-51: I Jo
1,1-18 Jesus
é o Verbo encarnado
João, o batizador é envidado para dar testemunho
II Jo
1,19-34 Encarnado, Jesus
é o Cordeiro de Deus e o Filho de Deus
João, o batizador, dá testemunho
III Jo
1,35-51 Encarnado, Jesus
é o messias e o cumprimento das Escrituras
O testemunho de João, o batizador, frutifica
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||