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Rascunhos Joaninos (VI) Jo 2,1-12 Osvaldo Luiz Ribeiro É
intrigante a festa de Caná. O texto não é longo: doze versículos. Trata-se
de uma festa de núpcias. Dá-se na cidade de Caná, na Galiléia. Fomos
deixados na Galiléia desde Jo 1,43. Lá encontrara Felipe. Não se diz
explicitamente que também lá foi que encontrara Natanael (1,47), encontrado
por Felipe (1,45), mas se estamos na Galiléia em Jo 1,43, e ainda estamos lá
em Jo 2,1, é natural supor que a intenção implícita de Jo 1,43-2,12 seja a
de descrever acontecimentos dados na Galiléia. Além
disso, a expressão “no terceiro dia” com que se abre Jo 2,1 está
nitidamente relacionada às expressões “no dia seguinte” de Jo 1,29.35.43.
O início da série é o encontro entre João e os sacerdotes e levitas enviados
pelos judeus de Jerusalém para interrogarem João, o batizador, a respeito de
sua identidade (1,19). Se esse dia do encontro for o dia x,
os três dias seguintes (v. 29, 35 e 43) seriam os segundo, terceiro e quarto
dias depois do dia x.
Nesse caso, Jo 2,1 poderia ser considerado de modo a instalar a festa no sétimo
dia, isto é, “no terceiro dia” depois do último “no dia seguinte” (2,1
x 1,43), com o que se tem o transcurso de uma semana:
Essa
observação impõe urgentemente uma revisão na forma como se trata Jo 1. Se os
temas de Jo 1,1-18 reverberam em Jo 1,19-34 e Jo 1,35-51, por outro lado a
construção literária impõe que Jo 2,1-12 seja tomado como parte estrutural
de Jo 1,19-51. Parece ser possível considerar que a narrativa se impõe como
uma unidade estrutural desde Jo 1,19 até Jo 2,12, talvez mais do que se impõe
a estrutura Jo 1,1-51. A prova real
talvez dependa de uma consideração mais próxima dos detalhes de Jo 2,1-12. A mãe de Jesus Jesus
fora apresentado como “Jesus, filho de José, de Nazaré” (1,45). Agora se
menciona a sua mãe. Assim se abre Jo 2: “no terceiro dia houve um casamento
em Caná da Galiléia e a mãe de Jesus estava lá” (v. 1). Visto à luz do
tema da encarnação, o par pai (1,45)
e mãe (2,1) dá o tom fundamental: o verbo encarnou, e nasceu de pai e de mãe.
O acento, contudo, vai cair sobre a mãe, porque se a José reserva-se uma menção
breve em 1,45, ainda que relevante contextualmente, a Maria se reserva um papel
mais significativo em Jo 2,1-12. Houve
uma festa em Caná. A mãe de Jesus estava lá (v. 1). Jesus foi convidado, e
seus discípulos, também (v. 2). O vinho da festa havia acabado (v. 3), ao que
a mãe de Jesus lhe dá a saber: “eles não têm mais vinho” (v. 3). Jesus
responde a sua mãe, dizendo: “mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é
chegada a minha hora” (v. 4). Sua mãe, então, dirige-se aos serventes da
festa: “fazei tudo quanto ele vos disser” (v. 5). O narrador toma a palavra,
e passa a descrever uma cena curiosa. São mencionadas as talhas para as abluções
rituais (v. 6). Eis como Almeida
traduz a cena: 7Ordenou-lhes
Jesus: “enchei de água essas talhas”. E encheram-nas até em cima. 8Então
lhes disse: “tirai agora, e levai ao mestre-sala”. E eles o fizeram. 9Quando
o mestre-sala provou a água tornada em vinho, não sabendo donde era, se bem
que o sabiam os serventes que tinham tirado a água, chamou o mestre sala ao
noivo 10e lhe disse: “todo homem põe primeiro o vinho bom e,
quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom
vinho” (Jo 2,7-10). O
que realmente está sendo dito? As talhas foram cheias de água, os serventes
tiram da água das talhas, que eles mesmos lá colocaram, e vão dar de beber
dela ao mestre-sala. Mas quando o mestre-sala vai beber dela, ei-la tornada
vinho. Não há qualquer indicativo na narrativa de que o mestre-sala tenha
reputado a Jesus o “milagre”, nem mesmo que ele se dera conta da ocorrência
de um “milagre”. Tanto assim que o mestre-sala dirige-se não a Jesus, mas
ao noivo, para fazer-lhe um elogio: guardara o vinho bom até o final. O fato de
os serventes saberem que serviram água ao mestre-sala deve ser ligado ao fato
de o mestre-sala beber “vinho”? Os serventes ficaram sabendo que a água
fora convertida em vinho? A narrativa não dá pistas. Diz que o mestre-sala não
sabia de onde era o “vinho” que tomara, e ele não sabia que fora antes água
e que agora é vinho. Não
está claro para mim o que se quer com o v. 9, e mesmo se se quer alguma coisa
além da ruptura entre o “milagre” e o “elogio”. Observe-se:
Tudo
parece apontar para a conclusão de que a narrativa não diz que o milagre
tornou-se notório, não o tendo sabido o mestre-sala, sequer os serventes.
Pode-se alegar que dificilmente serventes que servem água e vêem ser bebido
vinho não tomariam conhecimento. É um argumento importante. Contudo, não se
está diante da realidade, mas de uma construção teológica. Serventes não são
serventes, mas fenômenos literários, agentes teológicos, atores de uma peça
intencional. Eles devem fazer, e fazer, o que a narrativa determina que façam.
Nesse caso, o que eles fazem é fazer tudo quanto Jesus lhes diz, e na
narrativa, Jesus não lhes diz: “sirvam vinho ao mestre sala”, mas, apenas,
“encham as talhas de água” e “agora levem ao mestre sala”. O argumento
é pobre, é verdade. Contudo, se é essa a intenção por trás da narrativa, a
saber, dar conta de que em Caná o milagre é “secreto”, intramuros,
digamos, o argumento, de pobre que é, torna-se certeiro. Além
disso, de anteciparmos a memória de que o sinal mencionado na próxima seção
do evangelho, em Jo 2,13-22, a saber, a sua referência à “ressurreição”,
é caracterizado como sinal para os discípulos,
a possibilidade de que o sinal de Caná
seja, também, um sinal secreto, doméstico,
deixa de parecer absurdo. Os judeus mesmos acharam muito estranho que, tendo
custado longos 46 anos para ficar de pé, em três dias pudesse Jesus re-erguer
o templo, segundo interpretaram sua fala: “destruí este templo, e em três
dias eu o levantarei”. O narrador, contudo, diz-nos que Jesus falava de sua
ressurreição, e informa-nos de que os
discípulos lembraram-se disso que Jesus falara, lá, “quando ele
ressuscitou dos mortos” (2,22). Um
outro dado com que se pode trabalhar é a série do diálogo entre Maria e
Jesus, e entre Maria e os serventes. Maria dá a saber a Jesus: “eles não têm
mais vinho”. Jesus responde que sua hora não havia chegado, e, contudo, dará
um jeito, porque, afinal, a notificação de Maria de que o vinho acabara é
tratada justamente da forma como se esperaria: eles passam a ter vinho: “tu
guardaste o vinho bom até agora” (v. 10). Se a resposta de Jesus, “mulher,
que há entre mim e ti, minha hora ainda não chegou” (v. 11) deve ser lida
como uma forma de Jesus dar de ombros, não se explica por que, então, Jesus,
afinal, faz que haja vinho. O vinho acabara; Maria faz Jesus saber disso; a
festa volta a ter vinho: logo, o que quer que Jesus tenha querido dizer com sua
resposta não deve ser interpretado como um “eles que fiquem sem vinho”,
conseqüentemente, com um “não se meta nos meus assuntos, mulher”, porque
tanto Jesus atende o apelo de Maria, a festa volta a ter vinho, quanto, por isso
mesmo, Jesus não os deixa sem vinho. Logo, “a minha hora ainda não chegou”
deve estar relacionado, penso, ao fato de que o que quer que Jesus pudesse fazer
a respeito, não era ainda hora de o fazer. E como, então o fez? O fez escondido,
digamos assim, sem que ninguém o soubesse, senão os seus, porque, aí sim, a
narrativa dirá, “os discípulos creram nele” (v. 11). “Os discípulos”
não significa o noivo, nem os serventes, nem os demais convidados – apenas
“os discípulos”. E, se dermos voz à narrativa, trata-se de André, Pedro,
Felipe e Natanael, os únicos nomeados até aqui. Metáforas em Jo 2,1-12 (?) Uma
vez que Jesus entrará no Templo de chicote na mão, e o tratará como “casa
de meu Pai” (Jo 2,13-17), um primeiro sinal, “secreto”, em Caná, soa
desconcertante. O que pode querer dizer? Haverá indícios de que toda a cena é
uma grande metáfora narrativa? Festa
de casamento, vinho, noivo. A fala de Maria soa metafórica: “eles não têm
mais vinho”. Mesmo a descrição do narrador soa metafórica: “não havia
mais vinho, porque o vinho do casamento tinha-se acabado” (v. 3). Subitamente,
ouve-se na boca de Maria a mesma instrução que o Faraó dera ao povo do Egito,
acerca de José: “ide a José, e fazei o
que ele vos disser” (Gn 41,55). Lá, diz-se que a fome assolava a terra, e
que não havia mais pão, e que estava nas mãos de José a solução para a
fome do povo: “então José abriu todos os armazéns de trigo”. Cá, a festa
está sem vinho, e cabe a Jesus, nos termos em que o coloca a narrativa, dar o
vinho bom no final da festa, como o faz: “fazei tudo o que ele vos disser”,
e foi feito. E o que foi feito não está longe de repetir, a seu modo, o estilo
das instruções de José aos oficiais de Faraó, instruídos a encher os armazéns
de trigo, nos anos de fartura, posto que, quando viessem os anos de fome, com o
vieram, tivessem com que comer, como tiveram. No caso de Caná, lá estavam as
seis talhas, foi enchê-las de água, conforme as instruções de Jesus, e eis
vinho na boca do mestre-sala. Assim
como José torna a dar pão para o povo do Egito, Jesus torna a dar vinho para a
festa de casamento, “pois o vinho do casamento tinha-se acabado”. Seria por
isso que se antecipara, em Jo 1,49, o título de Jesus como Rei de Israel? Sim,
pois, afinal de contas, José tornou-se o segundo depois do Faraó, o próprio
Faraó lhe entregara as chaves da cidade, para ligar e desligar: “eu sou o
Faraó, mas sem tua permissão ninguém erguerá a mão ou o pé em toda a terra
do Egito” (Gn 41,44). Talvez seja justamente por isso que a próxima cena será
a da “purificação do Templo” (Jo 2,13-17), onde e quando Jesus identifica
o Templo de Jerusalém com a casa de seu Pai. Se em Caná Jesus é apresentado
como “José”, na cena do Templo, o verdadeiro dono do país é o Pai, de
quem Jesus é o filho, segundo Jo 2,13-17. [O
curioso é perceber que quem sustenta a fala que em Gênesis pertence ao Faraó
é Maria. Como Faraó dissera ao povo para que fizessem tudo quanto José
dissesse, é Maria que, na narrativa de Caná, é posta a instruir da mesma
forma os serventes da festa: “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5b = Gn
41,55b). Isso pretende dizer alguma coisa?] Finalmente,
talvez se possa entrever alguma metáfora na descrição das talhas que deveriam
ser cheias de água. Diz-se que são as talhas para as águas das purificações,
e com isso quer-se indicar para o ritual judaico das abluções. Os serventes
enchem essas talhas com água, e, águas de lavagem cerimonial, tornam-se água
de beber, posto que o que é servido ao mestre-sala é algo de beber – seja água,
seja vinho, posto que a narrativa não precisa em que momento as águas se
transformaram em vinho – se nas próprias talhas, se no caminho entre as
talhas e a boca do mestre-sala, se na boca do mestre-sala. O fato é que essas
águas de lavar são, agora, águas de beber, e, de águas de beber, tornam-se
vinho de festa. Salta-se da lavagem cerimonial para a bebida da festa. Salta-se
das prescrições ritualistas para o ambiente da sabedoria? Seja como for, lendo o “sinal” de Caná, e relacionando a fala de Maria à fala do Faraó, em Gn 41,55, o leitor é transportado para a próxima cena com a sensação de que Jesus é o messias, filho de José. E “filho de José” duas vezes – de José, seu pai, de Nazaré, e de José, o patriarca, segundo no Egito, e salvador do povo egípcio da fome. É assim, enquanto filho dos dois Josés, que Jesus é transportado para o Templo. |
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