Rascunhos Joaninos (VII)

Jo 2,13-22

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Jo 2,13-22 estende-nos a mão, como a pedir boa-vontade. A cena foi transportada pelo narrador para o início do “ministério” de Jesus. Os paralelos em Mt 21,12-13, Mc 111,11ss, e Lc 19,45-46 guardavam memória desse episódio no final do ministério de Jesus, como o adiantado dos capítulos deixa transparecer. Não sei se é o caso de se pensar em “história”. Talvez seja mais o caso de “teologia”, e, convenhamos, cai muito bem a cena imediatamente depois da (possível) identificação de Jesus com José, do Egito, segundo no reino, justo ele, Jesus, filho de Deus, filho do Homem, segundo no reino.

 

Se Jesus é o filho de Deus e/ou o filho do Homem, logo, o Templo de Jerusalém, que se arroga o lugar de templo de Deus, é a casa de seu pai, não José, mas o Pai. Se o templo é casa de seu Pai, ele, Jesus, como segundo no reino, tem direitos sobre ela, que é a casa dele, do Pai, como o narrador faz dizer na boca de Jesus a citação de Sm 69,10a: “o zelo por tua casa me devorará”.

 

Diz-nos o narrador que Jesus, tendo encontrado no templo os vendedores, faz para si um chicote, e, com ele, dá nos “vendedores de bois, de ovelhas e de pombas”, e nos “cambistas sentados” (2,14). Diz-nos, ainda, que Jesus expulsa não só os vendedores, como também os animais, e derruba no chão o dinheiro dos cambistas (2,15). Aos vendedores de pombas ele teria dito: “tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (2,16b).

 

É uma pena muito grande não termos a cena filmada. Não me refiro à cena em que Jesus faz e diz tudo isso, mas à cena do narrador lendo sua narrativa para sua comunidade. O que ele quer com ela? Em algum lugar da narrativa, talvez haja uma ponte entre narrativa e interpretação oral, leitura homilética, ponte que ligue a narrativa à explicitação de sua intenção primeira. Como está, assim escrita, a narrativa parece deixar muita coisa sem ser dita.

 

Por exemplo, narra-se uma manifestação, naturalíssima, imagino, dos “judeus”. É verdade, contudo, que se espera Jesus terminar sua cena purificadora para que se manifeste, mas, de qualquer forma, é natural que os responsáveis pela manutenção da ordem venham ver o que está acontecendo. É o que acontece: lá vêm os judeus (2,18). Mas quê?! Somos levados a tomar como ponto pacífico o fato de que há uma concordância não expressa, por isso implícita, retórica, cultural, “natural”, em que se pode fazer uma tal algazarra como a que Jesus faz, desde que se tenha um sinal para mostrar. Digo isso, porque é a primeira coisa que “os judeus” são postos a dizer, depois de o narrador descrever a cena da expulsão e da ordem de retirada, bem como de fazer o “ouvinte” de sua narrativa ouvir a fala de Jesus, “casa de meu Pai”, e a citação do salmo: “o zelo por tua casa me devorará”. Depois dessas coisas todas narrativas, os judeus são postos a interpelar Jesus: “que sinal nos mostrar pára agires assim?” (2,18). Não parece muito “natural”, afinal de contas...

 

Um coração piedoso será tentado a montar uma narrativa histórica, usando as quatro informações, “históricas”, que os evangelhos guardaram sobre a “história” da expulsão dos vendedores do templo. É possível fazer isso, e o resultado será uma narrativa unificada, que soará melhor do que soa a narrativa de João, sozinha. Não se pode dizer, contudo, que essa é a única alternativa para um coração piedoso, e, em todo caso, estamos tentando ler João, não os evangelhos. O Evangelho Segundo João tem algo a dizer, e o diz, independentemente do que tiveram a dizer, e disseram, os outros evangelhos.

 

O que parece estranho na narrativa é que João faça “os judeus” usarem sua palavra predileta naquele bloco que é conhecido como o livro dos sinais, isto é, Jo 1-12. Os judeus pedem um sinal a Jesus. Mais do que isso: os judeus pressupõem que uma tal atitude significa a posse de um sinal. Eles pedem o sinal que Jesus tem que ter, porque, para fazer o que faz, tem que ter um sinal – e, se o fez, então o tem.

 

E Jesus o tinha? Bem, o narrador nos põe a ouvir Jesus dizer aos judeus que o interpelam acerca do sinal que ele tem que ter, já que fez o que fez: “destruí este templo, e em três dias eu o levantarei” (2,19). Somos informados pela narrativa, através da reação dos judeus, que tudo indica não terem entendido que Jesus se referia à sua ressurreição: “quarenta e seis anos foram precisos para se construir este Templo, e tu o levantarás em três dias?” (2,20). E não falam mais nada.

 

Bem, se não falam mais nada, não houve sinal algum. Se não houve sinal algum, também nada se diz sobre o que Jesus sofreu por sua “blasfêmia”, ou por seu “vandalismo”. O narrador diz o que quer dizer, aliás, faz ser dito o que quer que seja dito, e pronto, tendo-o feito, pode dispensar as personagens. O papel dos judeus era esse: primeiro, deixar claro que existe um sinal que justifique as prerrogativas apresentadas por Jesus; segundo, dar azo a que Jesus, ops, o narrador faça Jesus apresentar o “sinal”. Que o sinal não signifique (ainda) nada para os judeus é irrelevante como questão de lógica, porque, logicamente, não se trata de Jesus e dos judeus, mas do narrador e de seus leitores, e, nesse caso, o sinal não só significa (já) alguma coisa, como já aconteceu.

 

Toda a cena parece preparar discursos subliminares dirigidos aos ouvintes do narrador. A cena descrita aponta para grandezas além dela mesma, ou seja, para os ouvintes de Jesus, os “discípulos” de 2,22, e para os judeus, novamente colocados em polêmica (1,11.17; cf. 1,19). Se é correta a percepção, então ainda está acesa a polêmica entre os “cristãos” e os “judeus”, pelo menos entre a comunidade de João, e os judeus. Jesus ainda tem de ser apresentado como alguém cuja ressurreição, como sinal, é sinal de que tem, sim, autoridade sobre o Templo, porque o Templo é casa de seu Pai. Jesus é, assim, maior do que o Templo, e, se o Templo é casa de seu Pai, é, também, casa sua. Não sobressai na argumentação um pedido de licença para que Jesus se instale no templo, como se o templo fosse seu lugar. O que sobressai é o seu perfilhamento ao lado do templo, a medida dos dois, e a constatação de que Jesus é de altura maior, porque o templo é casa do Pai, do seu Pai, e o sinal (da ressurreição, que apenas os discípulos [os ouvintes do narrador], mas não os judeus [da narrativa], reconhecem) apresentado por Jesus encerra a questão...

 

Bem, encerra, mas não encerra muito, porque, se encerrasse, Jo 2,13-22 não precisa ser escrito. Mas o foi, e certamente mais para os discípulos, que, ali e então, ouvindo a narrativa, crêem no “sinal”, do que os judeus, que tanto lá, quanto cá, nada sabiam disso.

 

A conclusão da narrativa denuncia que foi escrita para os discípulos, como fundamentação teológico-(pseudo)mnemônica do sinal da ressurreição: “assim, quando ele ressuscitou dos mortos seus discípulos lembraram-se de que dissera isso, e creram na Escritura e na palavra dita por Jesus” (2,22). Se “Escritura” significa o que agora constitui o “Antigo Testamento”, isto é, “a Lei (...) dada por Moisés” (1,17a), “(n)a Lei, e os profetas” (1,45), resulta que o narrador constrói uma pequena peça interessante. Ele abre a peça fazendo referência ao “templo”, e encerra a peça fazendo referência à “Escritura”, ou seja, abre e fecha com os pilares da religião judaica: culto e escritura. No centro da peça, põe na boca de Jesus a declaração de que o templo é a casa de seu Pai, e relaciona Jesus ao Sl 69,10. Com esse movimento, circunscreve as duas grandezas, templo e escritura, que estavam na moldura da peça, também no seu núcleo, e estabelece a pertinência de ambos a Jesus. A ressurreição é, finalmente, apresentada como sinal, eficiente e eficaz, dessa pertinência, porque o zelo pela casa do Pai efetivamente o devorará, e ele efetivamente morrerá por conta do zelo, mas, por outro lado, tendo sido destruído o templo, ele o erguerá em três dias – ressurreição.

 

Tudo isso reverbera na leitura para quem já sabe das relações de antemão. E quem as já sabe de antemão são justamente os discípulos. Parece que não estamos diante da “história”, mas da homilética da comunidade, da sua apologética interna, que, claro, vaza pela fôrma.

 

Interessante é que o sinal da ressurreição seja apresentado aqui, justo aqui. Por quê? Penso na referência, sempre possível, a José, do Egito, naquela instrução (ordem?) de Maria aos serventes: “fazei tudo o que ele vos disser” (2,5). Uma comparação entre José e Jesus parece estar no fundo de toda essa narrativa (2,1-22). José é o segundo no Egito, Jesus, o segundo no “reino”; José, para chegar lá, desceu aos porões do Egito, mas saiu de lá para a glória; Jesus, o templo, “foi” destruído (na perspectiva do momento histórico em que a narrativa é redigida/lida), isto é, desceu aos porões, e de lá saiu [ressuscitou] para a glória – bem entendido, para dar o sinal de que é o segundo no reino.