|
Rascunhos Joaninos (VIII) Jo
3,22-36 Osvaldo Luiz Ribeiro Salto
de Jo 2,13-22 para Jo 3,22-36. Estou convencido – ou me convencendo, de que Jo
2,23-3,21 pertence a uma camada posterior do Evangelho. O indício que
considero mais relevante é a forma como a questão dos sinais é tratada. Quer
seja na festa de casamento de Caná, quer seja na cena da “purificação” do
templo, os “sinais” mencionados não são, propriamente, sinais. Estou ainda
convencido, ou em processo de convencimento, de que a questão dos sinais, ali,
é construída de tal forma a dizer que os sinais seguem-se à fé, e não o
inverso, isto é, que a fé segue os sinais. Numa perspectiva, primeiro o discípulo
se faz tal, e, fazendo-se tal, o sinal se lhe configura como sinal, porque é
discípulo. Na outra perspectiva, os sinais comportam-se como “fazedores” de
discípulos. Ora,
em Jo 2,22, depois dos sinais velados em Caná e no templo, diz-se, sem mais nem
menos, que, “enquanto estava em Jerusalém, para a festa da Páscoa, vendo os
sinais que fazia, muitos creram em seu nome”. Não acredito que se trata da
dimensão presente na primeira camada de João, como então, a partir de
agora, penso deva ser tomada, em princípio, toda a seqüência de Jo 1,1-2,21;
3,21-36. Jo 2,22-3,21 deve ser considerado um acréscimo posterior, e deveremos
ver, através da jornada por João, quantos acréscimos mais parecerá
ter o Evangelho recebido. Penso
que depois da primeira leitura e dos primeiros rascunhos, uma nova leitura se
fará necessária. Nesse momento, talvez seja interessante tentar identificar as
camadas de João, e tentar dar-lhes um perfil histórico-social, como de
resto se tenta aqui. Uma
idéia me persegue. Se Jo 2,21-3,21 não estivesse aqui, depois da cena de João,
o batizador, no capítulo um; depois de Caná, onde “reina” Maria, mãe de
Jesus; depois do retorno de João, o batizador, em Jo 3,22-36, viria, então, o
diálogo entre Jesus e a mulher samaritana. Não sei dizer exatamente, ainda,
porque, mas a cena em torno do poço, entre Jesus e a mulher samaritana, me
lembrou a cena do servo de Abraão, em torno do poço, a conversar com Rebeca,
em Gn 24, perícope a que se costuma chamar, editorialmente, de “o
casamento de Isaac”. Ora, ora, será essa a referência velada à esposa
em Jo 3,29? Vamos
a ela. Último
testemunho de João, o batizador Havíamos
deixado João, o batizador, desde a festa em Caná. Não, não. Na verdade,
desde que, pela segunda vez, João apontara para Jesus, em Jo 1,36, e o
identificara como “o cordeiro de Deus”. Fala-se aí da casa de Jesus. A
partir da casa de Jesus, André busca Pedro. Depois desse dia, Jesus parte para
a Galiléia, Encontra Felipe, e o chama: “segue-me”. Felipe, por sua vez,
chama Natanael, e eis formado o primeiro grupo de quatro discípulos – André,
Pedro, Felipe e Natanael. Somos
informados da festa em Caná da Galiléia. Fala-se que Jesus fora convidado para
a festa, e seus discípulos também. Esses discípulos, até aí, são os
quatro. Não consta haver outros até agora, salvo se João não nos quer ir
contando as coisas a conta-gotas, e devemos nós mesmos ir agregando o que se
sabe através dos outros Evangelhos, o que me parece uma maneira
inadequada de ler João, se o queremos é ler João, e não fazer
uma “breve harmonia dos Evangelhos”. Não é, pelo menos, o que eu quero
aqui. Quero ler João. E João dá conta de quatro discípulos, somente, até
Caná. Depois
da festa, desceram Jesus, sua família e seus discípulos – quero crer, os
quatro – para Cafarnaum (Jo 2,12). Diz João que ficaram ali “apenas alguns
dias”. Daí, Jo 2,13 diz que Jesus foi à Páscoa, em Jerusalém. Não é dito
que os discípulos foram com ele. Contudo, por duas vezes, a narrativa nos faz
saber que Jesus diz coisas, lá, e que, depois, os “discípulos” se
lembraram de que havia dito tais coisas. As duas referências estão em Jo
2,16b-17: “‘Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma
casa de comércio’. Recordaram-se os discípulos do que está escrito: ‘o
zelo por tua casa me devorará’”, e Jo 2,22: “assim, quando ele
ressuscitou dos mortos seus discípulos lembraram-se de que dissera isso, e
creram na Escritura e na palavra dita por Jesus”. Saltamos,
então, Jo 2,23-3,21, e, em Jo 3,22, João nos dá conta do seguinte: “depois
disso, Jesus veio com os seus discípulos para o território da Judéia”.
Parece que se pretende situar Jesus mais ao sul de Jerusalém, ainda que “Judéia”
aqui consista numa referência geográfica tão ampla quanto “Galiléia” em
1,43. Seja
como for, estamos no território da Judéia. Lá estão Jesus e os discípulos,
e até aqui, salvo outras intenções de João, trata-se de André, de Pedro, de
Felipe e de Natanael. Diz-se que Jesus batizava (3,22), e que “João também
batizava” (3,23), em Enon, perto de Salim. A cena se abre. Jesus,
batizador Diz
a narrativa, no estado em que a temos, que houve uma discussão entre os discípulos
de João, o batizador, e um certo judeu. Por conta da discussão, é provável,
foram ter com o próprio batizador, e lhe puseram a questão: é que Jesus, de
quem João dera testemunho, agora se põe a batizar e a receber batizandos
(3,26). Essa é a maneira de João nos colocar a questão. A cena é toda
montada para nos dizer alguma coisa, e fazer o batizador dizer o que se quer
dizer é uma estratégia importante. O
que foi que João, o batizador, disse, diante da questão de Jesus mesmo
apresentar-se batizando? Primeiro, dizer que, se assim é, é porque o céu
assim o quis: “um homem nada pode receber a não ser que lhe tenha sido
dado do céu” (3,27). Não nos importa a validade do argumento. Importa
que é um argumento. E vale tanto para o “judeu” que pergunta, logo, para os
“judeus” de modo geral, quanto para os discípulos de João. Essa dupla
destinação reflete impressões que a narrativa já permitiu fixar. Desde Jo
1,11.19.24; 2,13-22 que os “judeus” estão sob observação da comunidade
joanina, e a essa altura já é desnecessário dizer a importância da confrontação
com os discípulos de João nesses três primeiros capítulos do Evangelho. João
volta a trazer para a cena os mesmos personagens, e, agora, coloca-os discutindo
acerca do próprio Jesus. Penso que essa insistência se deva à presença de
representantes dessas comunidades no horizonte de produção do próprio texto.
Penso que a comunidade joanina esteja mesmo interagindo, em conflito, com elas.
E penso, finalmente, que a arma de que a comunidade se utiliza é, justamente,
fazer com que os personagens da narrativa digam aquilo que a própria comunidade
quer dizer. João,
o batizador, e o anúncio de Jesus como o noivo –
a noiva A
narrativa faz João repetiu sua confissão negativa: “não sou o Cristo”
(3,28). Também reitera sua missão de enviado (v. 28; cf. 1,6.33). E,
então, João, o batizador, é posto a dizer alguma coisa interessante, e nova: 29Quem
tem a esposa é o esposo; mas
o amigo do esposo, que
está presente e o ouve, é
tomado de alegria à voz do esposo. Quanto
aos títulos da “baixa cristologia”, noivo é um título novo. Não havíamos
sido apresentados a ele. O título claramente aponta para Jesus, enquanto que o
amigo do noivo é o batizador, João. O que a narrativa quer dizer? Será a
noiva a “igreja” genericamente, ou o título aponta para algum movimento
narrativo específico? Talvez valha a pena aguardar a cena de Jesus e da mulher
samaritana em torno do poço, a próxima passagem que deve ser enfrentada nessa
caminhada, e imaginar que se trate de uma referência cifrada à cena do poço
entre Receba, a noiva, e o servo de Abraão. O amigo do noivo, João, o
batizador, está alegre, porque reuniu noivo e noiva? Mas a noiva sendo uma
mulher, e uma mulher samaritana, e uma mulher samaritana que fala com um judeu,
e uma mulher, depois de também uma mulher quase roubar a cena em Caná, quererá
isso dizer alguma coisa... mais? Quem
sabe? E quem sabe a caminhada por João não nos vá revelar, adiante, o
que há de relevante, internamente, na presença de Maria, em Caná, e da mulher
samaritana, anônima, em torno do poço... Por ora, baste-nos essa pulga atrás
da orelha... Outras
afirmações de João, o batizador “É
necessário que ele cresça, e eu diminua” (3,30) é uma afirmação que reflete bastante bem o espírito do
conflito que deve estar caracterizando a redação do Evangelho, conflito
de comunidades. Jesus de um lado, e João de outro, deve apontar não
para conflitos entre eles, mas para conflitos entre as respectivas comunidades
que se fundamentam em cada um deles, e que se enfrentam historicamente em algum
momento entre o final do primeiro século e o início do segundo. “Aquele
que é do alto” (3,31) é uma forma
interessante de repetir o que de Jesus se deve ter dito no prólogo. Não me
parece uma afirmação nicênica, propriamente. Talvez esteja mais para Ário do
que para ***. Essa é uma questão importante, ainda não suficientemente
discutida, e, assim considero, ainda não enfrentada com suficiente
desprendimento doutrinário. Que
novos argumentos se agregam a esse? Ah, sim, mais alguns, que lhe dão um peso
subordinacionista considerável. “31eAquele que vem do céu,
32adá testemunho do que viu e ouviu”. Aquele que vem do
céu é uma referência ao que, com grego, se exprimiu pela palavra logos
em Jo 1,1-18. Diz-se que ele viu e ouviu, e, disso que lá viu e ouviu, cá
disse. Não se diz, ainda, que coisas teria visto e ouvido, logo, dito. Não nos
cabe, ainda, tentar adivinhar. Paciência. No momento oportuno, a comunidade
joanina nos fará saber... Não é hora de trazer à memória memórias de
outros Evangelhos, mesmo de outras leituras. Caminhar passo a passo é
uma maneira crítica de ser fiel à narrativa. No
v. 34, João diz algo importante, que nos obriga a voltar atrás no que ele
dissera. O batizador, João, já que agora Jesus também foi feito batizador,
diz o seguinte: “com efeito, aquele que Deus enviou fala as palavras de
Deus”. Ora, João, o batizador, já se caracterizara como enviado de Deus
(cf. 1,6.33; 3,28). A quem João se refere, então, no v. 34. Quem é, agora,
“aquele que Deus enviou”? No
fluxo da narrativa, trata-se, agora, de Jesus, enviado desde o céu, enquanto João,
também enviado foi por Deus, mas enviado desde a terra. Por isso, João
argumentaria: “31aquele que vem do alto está acima de
todos; o que é da terra é terrestre e fala como terrestre. Aquele que vem do céu,
32dá testemunho do que viu e ouviu”. João é da terra,
e o que diz, o diz enquanto tal. Jesus é do céu, viu e ouviu no céu, e o que
diz, diz como do céu, do alto, e se faz testemunha de Deus. O que ouviu, ouviu
de Deus. Por isso, mais uma vez, João dirá que acolher o testemunho de Jesus
é certificar que Deus é verdadeiro (v. 33). É
a pá de cal. O que sobra, agora, do batizador? Nada. Está caracterizada a sua
missão, a sua posição, o seu destino. A sua missão é anunciar aquele que é
enviado desde o céu; sua posição é terrestre; seu destino, é diminuir.
Jesus, não. Jesus é o enviado de Deus desde o céu. Viu e ouviu de Deus, no céu,
e pelo céu foi enviado, tendo sido dado a ele ser o que foi. Encarnado, é,
contudo, do céu, e fala do que viu. Seu destino é crescer. Diante
dessa apologia do enviado do céu, faz todo sentido a forma como termina o
texto: 35O
pai ama o Filho e
tudo entregou em sua mão. 36Quem
crê no Filho tem a vida eterna. Quem
recusa crer no Filho não verá vida. Pelo
contrário, a ira de Deus permanece sobre ele. O
enviado é Filho, é o “único-gerado” de que fala o prólogo. Deus entregou
a ele, ao Filho, tudo, porque também tudo foi feito através dele (cf. 1,3).
Por isso ele tem a vida, o que já fora dito desde o prólogo, em 1,4. Quem o
recebe, recebe a vida, enquanto que, quem o rejeita, rejeita a vida. O
novo aqui é a última fala, uma referência à ira. Refletirá o espírito da
comunidade joanina diante do conflito com os discípulos de João, o batizador?
É tudo ou nada? Quem está dentro, está dentro, e quem está fora, além de
estar fora, é alvo da ira de Deus? Que experiências terá levado uma
comunidade cristã a chegar a tal ponto?
|