|
OS PRINCÍPIOS BATISTAS E O ESTUDO DA BÍBLIA Osvaldo Luiz Ribeiro
Poucas coisas se vêem mais juntas do que um batista e uma Bíblia. Historicamente, os batistas têm valorizado sobremaneira o estudo da Palavra de Deus. Nossos documentos históricos estão carregados de orientações para o estudo das Escrituras Sagradas. O excelente livrinho Impacto – Realidade Batista, publicado pela Convenção Batista Fluminense, faz renovar-se nosso interesse pelos Princípios Batistas. Esse manifesto batista, reúne princípios históricos reconhecidamente queridos ao povo batista desde suas origens, no século XVII[1]. Gostaria de propor uma simples comparação entre dois pequenos trechos dos Princípios Batistas e Pr 2,1-6.
1. Reverência, vontade e trabalho
O trecho dos Princípios Batistas é o seguinte: “O indivíduo tem de aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia, com a mente aberta e com atitude reverente, procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração, orientando sua vida debaixo de sua disciplina e instrução” (p. 11).
Por sua vez, o texto de Pr 2,1-6 pode ser dividido da seguinte maneira, a partir da pergunta didática: o que é necessário para estudar a Bíblia?
O leitor prestou atenção que Pr 2,1-4 apresenta três condições? Veja que cada um dos versos se abre com um “se”. Se cada uma das condições for seguida, um resultado é obtido. Qual resultado? O resultado está descrito nos versos de Pr 2,5-6: “Então entenderás o temor do Senhor (...), pois é o Senhor quem dá a sabedoria”. Mas veja: é o Senhor quem dá, se... se... se... Primeiro cumpram-se as exigências: reverência, vontade e trabalho; depois, o Senhor dá a sabedoria, que virá naturalmente, cumpridas as exigências. Quer estudar a Bíblia? Então: seja reverente; tenha vontade; e dedique-se, trabalhe, gaste tempo com a Bíblia, lendo, estudando, pesquisando.
E aí está na hora de juntarmos Pr 2,1-6 com aquele princípio batista. Vamos relacionar cada princípio a cada exigência de Provérbios:
Penso que os batistas somos campeões de reverência e vontade. Não é por falta dessas qualidades que temos dificuldades em compreender as Escrituras. Nosso problema reside no trabalho. É essa a condição que não temos cumprido como devíamos, às vezes até por desconhecimento. É necessário, então, que trabalhemos, isto é, que estudemos a Bíblia.
Se não sabemos como começar, vamos abrir a boca e perguntar. Nossos líderes saberão indicar os caminhos necessários para que um batista cumpra as exigências de Pr 2,1-6 quanto ao trabalho, que se traduzem em estudo da Bíblia com mente aberta e pesquisa, nos Princípios Batistas.
2. Fé e razão
Na primeira parte do artigo, vimos a relação entre o capítulo I.2 [AUTORIDADE – As Escrituras] dos Princípios Batistas e Pr 2,1-6 [reverência, vontade e trabalho – “estudar a Bíblia, com a mente aberta e com atitude reverente, procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa de oração”.
Nessa segunda parte, desejo aprofundar o tema, agora a partir do capítulo V.8 [NOSSA TAREFA CONTÍNUA – Educação Cristã (p. 20). Vejamos sua afirmação: “a fé e a razão aliam-se no conhecimento verdadeiro. A fé genuína procura compreensão e expressão inteligente. As escolas cristãs devem conservar a fé e a razão no equilíbrio próprio. Isto significa que não ficarão satisfeitas senão com os padrões acadêmicos mais elevados”.
Se analisarmos a afirmação, veremos que conhecimento verdadeiro é apresentado como uma grandeza que possui duas colunas: a fé e a razão. Conseqüentemente, um conhecimento que se construa exclusivamente sob o fundamento da fé não seria verdadeiro conhecimento, ao passo que tão pouco o seria um conhecimento erguido apenas sobre a razão. Fé e razão, juntas, construiriam o conhecimento verdadeiro. E diz-se mais – diz-se que a fé genuína, i. é, aquela fé que não se finge fé, mas é fé verdadeira, fé real, fé autêntica – essa fé genuína procura compreensão e expressão inteligente. A fé quer entender-se a si mesma e compreender seus construtos.
Ora, podemos retornar a Pr 2,1-6 também para avaliar a proposição de que a fé e a razão aliam-se na construção do conhecimento verdadeiro. Sim, porque Pr 2,1-2 fala de reverência como acatamento das palavras como Palavras do Pai – se tratarmos essa expressão reverência no sentido mais profundo de fé, qual seja o de lançar-se nos braços do Sagrado nos termos de uma decisão de vida, penso estaremos fazendo uma boa compreensão do que seja, ali, reverência e, logo, fé. Contudo, não deixemos de perceber que o desejo por conhecimento só virá no verso três. Primeiro, reverência – à reverência, segue-se o desejo de compreensão. Ao desejo de compreensão, deve-se seguir o trabalho (= estudar a Bíblia).
Observemos o esquema:
Se a análise que proponho estiver correta – o caríssimo leitor o julgue -, então, assim como reverência + vontade + trabalho implica que o Senhor nos conceda conhecimento, também se deve compreender, com os Princípios Batistas, que a fé (= reverência) + a razão (= vontade e trabalho), unem-se para a construção do conhecimento verdadeiro.
Entendamos, porém, que fé ou reverência devem ser compreendidas no sentido amplo. A Ortodoxia Protestante dos séculos XVI e XVII converteram o conceito de fé em assimilação de crenças. Mas em Pr 2,1-6, reverência, logo, fé, é uma grandeza anterior não só ao conhecimento, mas ao próprio desejo por conhecimento. À fé genuína – a fé que acata as palavras do Pai como Palavras do Pai, segue-se a vontade de compreender as Palavras do Pai. Fé não é, ainda, compreensão – é puro encanto, é puro encontro, é inefável, indescritível, indemonstrável, intransferível. Mas, se genuína, deseja imediatamente racionalização – deseja compreender tanto o fenômeno fantástico do encontro, quanto as Palavras desse encontro.
O crente que acata as Palavras do Pai, antes que as conheça, demonstra fé e reverência. Mas, se é genuíno esse acatamento, esse mesmo crente vai desejar compreender essas palavras, e vai estudá-las, com mente aberta, através de pesquisa e oração.
Digamos – a fé não nasce da razão. Nasce antes, germina no coração do homem que se depara existencialmente com o Sagrado. Mas a fé não se basta, se é genuína, porque o homem deseja compreensão. À fé, segue-se o esforço e a busca pela compreensão. Não é por outra razão que outro trecho dos Princípios Batistas, falando da competência do indivíduo (II.1, p. 12), assim se expressam: “estreitamente ligada a essa competência está a responsabilidade de procurar a verdade e, encontrando-a, agir conforme essa descoberta e de partilhar a verdade com outros”. Se “o indivíduo tem que aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia” (p. 11) e sua competência está relacionada à “responsabilidade de procurar a verdade” (p. 12), segue-se que o crente, imbuído de genuína e verdadeira fé, reverente, acatando as Palavras do Pai (Pr 2,1-2), deve desejar estudar e estudar as Escrituras (Pr 2,2-4) a fim de compreender sua fé e os construtos de sua fé (Pr 2,5-6).
Mas veja bem, caro leitor – essa é uma responsabilidade sua, intransferível. Ninguém – absolutamente ninguém, tem o direito de lha tirar, ainda que munido das melhores intenções cristãs. Tão pouco, irmãos, temos nós o direito de, desprezando-a, depositarmos nossas responsabilidades pessoais diante de nossa fé e das Escrituras nas mãos de quaisquer autoridades que não o Pai, diante de nossas consciências e competência – no uso, portanto, de nossa razão, mediante súplicas humildes ao Espírito Santo, que nos dê luz. A responsabilidade é sua e minha. Não se dê que sejamos pegos negociando nossa primogenitura por um guisado vermelho[2]...
|