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A DIFERENÇA [empréstimo para uma discussão da teoria literária] Osvaldo Luiz Ribeiro
"Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres" [O TEXTO]
Morreu antes de fazer a pontuação. A quem deixava ele a fortuna? Eram quatro concorrentes [O LEITOR].
O sobrinho fez a seguinte pontuação:
“Deixo meus bens à minha irmã? Não, a meu sobrinho. Jamais será paga a
conta do alfaiate. Nada aos pobres.”
O texto acima parece ser bastante útil para discutir-se, num ambiente claramente sem relações com a revelação, o tema das proposições teóricas a respeito da sede do sentido em relação ao texto escrito – intentio auctoris, intentio operis e intentio lectoris. Com isso tocamos o tema da teoria literária.
O pequeno livrinho de Umberto Eco reconhece as três proposições teóricas (ainda que, ali, não se pronuncie imparcialmente). Ei-lo num trecho escolhido:
Portanto, no que diz respeito à hermenêutica, em que a crítica é não só necessária, mas imprescindível, devemos, primeiro, compreender o que tais teorias defendem. O que significa falar de intentio auctoris, intentio operis e intentio lectoris?
Usamos,
em sala de aula, o exemplo da tradução de rûªH
Pois bem: a intentio auctoris responderia: pergunte ao autor. A intentio operis responderia: pergunte ao texto. A intentio lectoris responderia: pergunte ao leitor.
Perguntar
ao autor significa, a partir do texto,
reproduzir a intenção semântica e cultural de rûªH
Perguntar ao texto, em conformidade com a intentio operis, não pode ser compreendido em relação ao seu autor. Recordemo-nos: para a intentio operis, o autor está duas vezes morto. O texto é uma auto-referência autônoma, polissêmico por si mesmo, uma vez que o suporte sintático e semântico de que se utiliza é veículo para a possibilidade de leituras variadas e, todas, com base em si mesmas. Portanto, qualquer tentativa de fugir à utilização do termo autor, para refugiar-se numa pretensa modernidade face às teorias, mormente francesas, de estruturalismo e intentio operis não é verdadeira adoção do princípio da intenção do texto. A intenção do texto é, na verdade, as intenções [polissêmicas] do texto.
Perguntar ao leitor é, finalmente, considerar que tanto esteja morto o autor, como passivo o texto, e que, na verdade, é o pronunciamento ideológico – a práxis – do leitor quem deve decidir-se pelo sentido a ser lido. Trata-se de autêntica eisegese – colocar sentido no texto, antes que exegese – pressupor retirar sentido do texto. Para os defensores da intentio lectoris, o leitor só tem olhos para seu pronunciamento hermenêutico incontornável, seu olhar eisegético e sua práxis fundante.
Não se trata, ainda, de concordar com qualquer das teorias. Trata-se de entender seus pronunciamentos e postulados.
Pois bem, se nos reportarmos ao caso do testamento da ilustração com que se abre o presente artigo, como nos comportaremos? Onde reside o sentido do testamento? Na intenção do [já] defunto (intentio auctoris) – então só há uma interpretação correta [chegar a ela é que é o problema, mas tal constatação não invalida a primeira]. No texto – então tanto faz, o problema é que o tanto faz não há de satisfazer aos quatro hermeneutas e suas pontuações intencionalíssimas... Creríamos que um juiz o dissesse: “_ Tanto faz”? Finalmente, o sentido do testamento estaria no leitor? Mas aí, então, todos, apesar de dizerem coisas radicalmente diferentes sobre o sentido do testamento, estariam, todos, exigindo que a sua interpretação fosso acatada – o que se traduziria em ficarem, cada qual, com toda a fortuna do defunto.
A quem, portanto, cabe a pergunta: o que isso significa?, a saber, as informações necessárias para a compreensão, no sentido de ouvir um pronunciamento, uma fala, um discurso, uma intenção registrada? Ao autor? Ao texto? Ao leitor? É uma pergunta incontornável, ainda que nos furtemos dissimuladamente a ela. Porém, sua resposta gera, necessariamente, posturas não só hermenêuticas específicas e precisas, mas conseqüências relevantes para os passos seguintes à interpretação.
É tarefa do estudante de hemenêutica compreender criticamente os postulados da teoria literária, posicionar-se e ser coerente.
[1]
Umberto Eco, Interpretação e
Superinterpretação. Martins Fontes. p. 29. Leia-se, ainda, P. Ricouer,
passim, e J. S. Croatto, Hermenêutica
Bíblica. |