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Da indefensável
posição protestante
Osvaldo Luiz
Ribeiro
20/06/2008
Eu
o disse há três dias. Depois – (pura coincidência?), bateu-me a mão
de ler o Aforismo 358 de A Gaia Ciência
– dele, de Nietzsche. Bel, ao meu lado, fechei o livro e lhe contei que
dissera aquilo à turma de Teologia Bíblica do Antigo Testamento. Ela me
olhou com aqueles olhos dela de olhar, profundos como as Marianas, mas que
ela me deixa entrar. E sorriu-me.
Quanto
a mim, voltei ao meu amigo. Outra hora, nas Nietzcheanas,
chegará o momento de comentar o 358. Aqui, repito, mais ou menos, o que
dissera: não há defesa possível para o Protestantismo. Ou o
Protestantismo arrepende-se do que fez, e torna-se, de novo, conciliar –
o que significa, em sentido programático, tornar-se, de novo,
tradicional, ou abre-se, definitivamente, sem reservas, para a consciência
histórico-crítica, onde não há doutrina possível.
O
leitor, a leitora, logo perceberá que este ensaio recorta uma dimensão
específica do Protestantismo – seu fundamento retórico-político. Não
analiso a Reforma e suas conseqüências evangélico-protestantes no todo,
mas, apenas, esse elemento. Mas, contudo, é o
elemento. Todos os demais ratificam-se ou retificam-se – diante dele.
No
fundo, não digo nada de novo. Lá e então, Erasmo já o havia
denunciado. Há cem anos, Nietzsche pronunciara o veredicto. O que há de
“novo” em minha fala, contudo, é que um evangélico-protestante o
diga, o reconheça, faça, ele mesmo, a denúncia, sem corporativismo de
qualquer espécie.
Erasmo
teria advertido Lutero de que a proposta de “livre-exame” poria a
perder a unidade da Igreja. A informação, bem desenvolvida, encontra-se
em Richard Popkins, História do Ceticismo – de Erasmo a Espinosa. A
resposta que Popkins afirma ter Lutero dado é constrangedora – o
verdadeiro crente interpretaria corretamente as Escrituras. Não quero
julgar Lutero lá, mas é meu dever julgá-lo aqui.
E julgá-lo, aqui, significa julgar-nos, porque, se o tempo dele era tempo
impossível de o perceber – argumento falso, porque Erasmo o percebera,
e, se Erasmo o percebera, Lutero, igualmente, podia ter-se rendido ao óbvio,
e não se rendeu, porque não quis –, o nosso é tempo de apodrecerem as
frutas no pé, de tão para muito além da maturidade, e não as colhemos,
porque não quisemos, não queremos.
O
espetáculos das Igrejas Protestantes – incluo aí toda a grande
constelação não-católico-romana do Cristianismo ocidental – é
constrangedor, triste, patético. Todas as igrejas estão cheias,
abarrotadas de verdadeiros crentes, de modo que era para todos nós
interpretarmos da mesma forma as Escrituras. Como Lutero dissera. Mas,
assim como Lutero dissera um tal disparate, e, logo, as Igrejas
Protestantes foram dividindo-se, dividindo-se, como as rochas nas praias,
até a condição de farelo, também hoje, ainda nos esfarelamos, cada
qual verdadeiro crente, cada qual, igreja de verdadeiros crentes.
Nem
se nos dá o papel risível que fazemos. Porque, no fundo, não enxergamos
nada além de nós mesmos. Qualquer um que fale qualquer coisa que não
nossas próprias palavras, simplesmente torna-se invisível para nós. O
artifício da invisibilização ontológica do outro é o mais empregado
entre nós. O outro não existe.
Reflitamos.
Até Lutero, e depois, a partir da Contra-Reforma, e até o Vaticano II, o
Catolicismo romano baseava-se na Tradição. Esta, por sua vez, constituía-se
pelas formulações normativas conciliares. Erasmo sabia que esse
fundamento político era o responsável pela possibilidade retórica do
governo eclesiástico. A catedral cristã mantinha-se de pé sobre esse
alicerce, esse fundamento, essas fundações. Sem elas, a catedral desaba.
E
Lutero pôs dinamite aí. Mil bananas, e acendeu o pavio. Bum! Foi tudo
para os ares. Não sobrou nada. A Igreja Católica correu a remendar os
fundamentos – com sucesso. A Contra-Reforma reprovou o gesto terrorista
do monge alemão, anatematizou todos os seus seguidores e filhos, e
ratificou sua posição de Igreja Milenar, fundada na Tradição. Esse
gesto católico deu-lhe sobrevida, que o Vaticano I remenda no sentido de
reforçar a amarração dos ferros, depois do abalo sísmico romântico.
E
Lutero vê-se com uma batata quente nas mãos. É fácil jogar pedras no
telhado papal, quando não se é o papa. Duvido que Lutero suspeitasse do
que iria acontecer – que ele, agora, deveria tornar-se, também, um
papa. E tornou-se. Mas – eis o problema protestante! – como
estabelecer um fundamento? A Tradição? Não! Por quê? Porque a Tradição
é o diabo católico. Ah. E qual, então? A Bíblia. Ah. Mas cada um que
ler a Bíblia vai entender uma coisa diferente, você sabe. Ah, não, só
quem não sabe ler. Mas a gente ensina. Hum, mas não vai acontecer de
cada um ler do seu jeito, e dizer que esse jeito é a maneira certa? Ah, não,
isso só pode acontecer com falsos crentes. Já os verdadeiros crentes,
eles saberão interpretar de forma correta, e, então, a Igreja estará
segura e tranqüila. Mas, Lutero, se me permite insistir, não vai
acontecer, sei lá, de cada um interpretar de seu jeito, dizer que esse é
o jeito certo, porque ele, o que lê, é um verdadeiro crente? Ah, sim,
mas isso se esse sujeito que lê é um sujeito carnal, porque, aí, lerá
segundo a carne. Mas não será assim com um cristão, um crente, um filho
de Deus, porque, nele, o Espírito Santo fará a obra. Hum – quer dizer,
então, Lutero, que quem, de fato, controlará o processo de leitura da Bíblia
será, em última análise, o Espírito Santo? Isso! Finalmente você
entendeu. Ah – e posso fazer uma última pergunta? Claro, meu filho. Então
– quem poderá dizer qual foi a interpretação correta que o Espírito
Santo inspirou?
Eu
não concluo a cena. Mas ela é óbvia. Na Igreja de Lutero, o Espírito
Santo é Lutero. Na de Calvino, Calvino. Agora, basta que se analise a
situação. O que significam, em suas respectivas Igrejas, Lutero e
Calvino, em face do Catolicismo, de onde saíram?, de onde o
Protestantismo saiu? Não se trata, rigorosamente, do Colégio Apostólico?
Em que sentido? No sentido de que a “palavra” do Colégio Apostólico,
que interpreta a Tradição – os Concílios – é a “voz” normativa
da Igreja, assim, como, agora, a “voz” de Lutero e de Calvino, em suas
Igrejas, representa a “voz” normativa da Igreja. Se um luterano e um
calvinista, cada um por sua vez, lê a Bíblia, tira dela uma interpretação,
e, em dúvidas quanto à “verdade” dessa interpretação, quer saber
se ela está mesmo certa – o que significaria perguntar ao “Espírito
Santo” –, o que lhe resta, na prática, fazer? Não é irem, cada um
deles, a seu pequeno papa, e perguntar a eles, a Lutero e a Calvino, mas o
luterano a Lutero, e o calvinista a Calvino (só funciona assim!), o que o
Espírito Santo diz sobre essa interpretação? O que acontece, agora? Se
me permitem o sarcasmo, um Espírito Santo luterano responderá ao
luterano, ratificando ou retificando a interpretação dele, enquanto
outro Espírito Santo, calvinista agora, responderá ao calvinista. Como
se parecerá o Espírito Santo luterano? Com Lutero. E o Espírito Santo
calvinista? Com Calvino. Mais que isso – são a mesma coisa. O Espírito
Santo luterano é Lutero, e o calvinista, Calvino.
Há
muito que dizer. Primeiro que chegaram longe esse reformadores, porque,
enquanto a Igreja Cristã, milenar, afiançara sua “voz” normativa na
autoridade – compreensível – do Colégio Apostólico, com base na
interpretação que este fazia da Tradição, conforme consignada nos Concílios,
os “novos” cristãos – Protestantismo – afiançavam basear-se no
próprio Espírito Santo. Se, recorrendo a tal expediente retórico-político,
já encenavam um constrangedor espetáculo, que dizer desse teatro diante
das ambíguas, contraditórias, antagônicas, díspares, “interpretações/revelações”
que o “Espírito Santo” – ai, meu Deus, quanta blasfêmia em nome de
Deus! – produz, dia e noite, nos paramos protestantes?
Ainda
mais. Esse espetáculo, se analisado sob o efeito invasivo do Raio X,
revela-se uma paródia do modelo retórico-político da Igreja Cristã, o
mesmo que foi ratificado na Contra-Reforma. Mas, apesar de ser o mesmo, é
diferente. Ele é o mesmo, porque, na prática, há, em toda Igreja
Protestante (quem sabe haverá exceções locais, mínimas, plânctons a
flutuar num mar de incoerência) um
Lutero, um Calvino – aqui entendidos como aquela instância político-retórica
que, da mesma forma como o Colégio Apostólico romano, decide o que é
verdadeiro e falso. À medida que os Protestantismo(s), esboroando-se,
esfarelando-se, pulverizando-se, forem se desenvolvendo – sempre sob o
modelo “um novo Lutero se levanta contra um velho Lutero, um novo
pequeno papa contra um velho pequeno papa –, as Declarações de
Doutrina acabarão assumindo alguma posição relativa, mas sob o risco
de, como Lutero fez com a Tradição, qualquer um fazer com elas. Agora
mesmo, enquanto eu escrevo esse linha, e você a lê, eu sei, você sabe,
acabou de nascer mais uma Igreja.
O
procedimento é, contudo, também diferente – porque, ao passo que a
Igreja Cristã, até a Reforma, e, depois, a partir da Contra-Reforma,
fazia o que fazia – controle dos fiéis por meio da autoridade eclesiástica
– assumindo o que fazia, a(s) Igreja(s) Protestante(s) passaram a fazer
a mesma coisa – controle dos fiéis por meio da autoridade eclesiástica
–, mas dizendo fazer outra coisa. No caso Protestante, segundo os
protestantes (incluídos aí tudo quanto não-católico, mais aqui, menos
ali), é a Bíblia (?) e o Espírito Santo (?) que controlam a verdade, a
práxis, a fé. Mas são as autoridades eclesiásticas, mesmo,
rigorosamente como no Catolicismo (até, pelo menos, o Vaticano II).
É
porque é assim que vejo a “história” dos Protestantismos que afirmo
que não há modo de os Protestantismos defenderem-se. A sua retórica –
a nossa retórica – política é falsa. É disfuncional. Dizemos uma
coisa, mas não é nada disso, na prática. Na prática, Lutero sustenta a
catedral. Cada catedral, um Lutero. Papa.
Qual
teria sido a alternativa protestante? Em certo sentido, Lutero foi uma
cunha fincada entre o velho e o novo. O velho, Platão. Platão, em
Lutero, está encarnado no princípio cristológico – as Escrituras
devem ser lidas segundo a cristologia. E quem o diz? Lutero. Com base em
quê? Por um lado, em sua fé, e, por outro, na Tradição – Lutero não
repete Nicéia? Todo cristão, católico e evangélico-protestante, não
é nicênico até a próstata, até o útero? Nicéia é o momento
inaugural dA República, que,
reformada segundo um gosto hierocrático todo especial, dará nA
Cidade de Deus – os mitoplastas fornecem os mitoplasmas, e o Governo
governa por meio deles. Não há modo algum de haver nada de novo aí. E o
Lutero que pregou esse postulado era e continuou sendo tradicional, católico
e platônico até morrer.
Mas
havia outro Lutero – aquele humanista, revolucionário contra a Igreja,
que serviu-se de Aristóteles, por meio da Renascença, trazido a cavalo
pelos árabes. Desse Aristóteles (que Tomás de Aquino, muito sabiamente,
muito rapidamente, muito politicamente castrou, ao passo que, Lutero,
justamente porque queria a força viril dele contra
o papa), Lutero tirou o princípio (que nunca deixou ser usado, e apenas
usou-o contra o papa) do
“livre-exame”. Não nos enganemos. Em Lutero, “livre-exame”
significou, apenas, “exame contra-papal”, mas, jamais, exame livre.
Aos luteranos, Lutero, aos luteranos, o Espírito-Santo-Lutero. Mas o
“livre-exame”, em si, pressupunha a epistemológica aristotélica –
e não foi por outra razão que Lutero foi ler a Vulgata em hebraico,
aramaico e grego, porque isso era de “bom tom”, segundo o gosto do
Renascimento.
Pois
bem, o quadro da Reforma é complexo. De um lado, a Igreja Cristã,
milenar. Autocrática, hierocrática, única, católica. O poder exerce-se
com gestos e gostos aristocráticos. Manda o clero do clero. Obedecem o
clero, o povo. Nada de tolices e ingenuidades políticas de o governo ser
“de Deus”. Se Deus governa, é por meio da Igreja dentro da Igreja –
da “ordem” clerical dentro da ordem clerical. Princípio inteligente
– o governo é materializado. “Eu” sou o governo. Isso é Platão.
Sem tirar nem pôr.
De
outro lado, uma invasão aristotélica não programada. Os árabes o
trouxeram, como a muitas outras coisas. Mas Aristóteles é dinamite! Fez
bum!, e eis a Renascença, bum!, e eis a Reforma, bum!, e eis o empirismo
inglês, bum!, e eis o Iluminismo, bum!, e eis a maior abalo sísmico
desde a queda de Roma. O aristotelismo a que aqui me refiro é a
epistemologia indutiva, ambiciosa, positiva, corajosa, incentivadora da crítica.
Aquino tinha mesmo de o castrar, se a Igreja sabia a que preço se
mantinha de pé.
De
outro, um Lutero acuado contra o poder papal. Nesse contexto, Aristóteles
é uma arma. Dar com ele na cabeça de Roma tem seu efeito – o de
reivindicar “autonomia” para Lutero. Ah, sim, com isso se derruba uma
Catedral. Com isso Lutero derrubou uma. “Livre-exame!”, gritava ele,
profeta quixotesco, “livre-exame”. Na cabeça do papa. E Lutero, por
caminhos insuspeitos, que faltaram a um Huss, tem de construir outra
Catedral.
E
aí está – Aristóteles é bom iconoclasta, mas péssimo político. Que
Igreja Lutero poderia construir com Aristóteles, fazendo de cada fiel um
iconoclasta, um crítico, uma pessoa autônoma? Nenhuma!, deve ter
pensado. Se não, porque cargas d’águas, malditas cargas d’água, com
a mão direita pregava uma coisa, e, com a esquerda, fazia outra? Se não,
porque a Igreja que construiu é igualzinha, sem tirar nem pôr, àquela
que cuidara derrubar, instrumento de Deus, martelo do Espírito, exceto
que, aquela, sabia-se senhora do mundo, e esta, querendo sê-la, não o
pode confessar? Em Roma, manda o papa e o Colégio Apostólico. Lá se
sabe disso, e isso está escrito no portal da capela. Em Wittemberg, manda
Lutero. Mas o que se diz, ali, é que é o Espírito Santo. Mas tem mais
de um, porque logo teremos uma capela calvinista, e, depois, outra, de
outro pequeno papa, e, depois, outra, de outro. Que sejam pequenos papas não
é o problema – como seria, se não fossem? O problema é que o são,
mas não o podem confessar.
O
preço que pagam(os) é a incoerência absurda, que se traduz – a
palavra é essa – em hipocrisia retórico-política. Temos de mentir o
dia inteiro – seja para nós mesmos, seja para todo mundo. Mentir, para
que Deus seja honrado – a nosso jeito.
Pois
eu penso que o Protestantismo deveria confessar sua incoerência de fundo,
sua hipocrisia retórico-política, e decidir-se. E a decisão é,
tecnicamente, muito simples.
Primeiro,
se deseja uma norma, uma verdade, um dever, como fundamento político, tem
de, obrigatoriamente, materializar, de um lado, uma instância
proposicional normativa – um Concílio, os Concílios – e, de outro,
uma instância político-jurídica que afiance a correta interpretação
dessa normal, e julgue os desvios, com poder e autoridade, sem que haja
disfunção discursiva – hipocrisia – entre o regime retórico-político
e a prática política. Em outras palavras – só é possível haver
doutrina normativa, doutrina verdadeira, doutrina canônica, chame-se-lhe
pelo nome que se quiser, se houver uma instância política de decisão. O
modelo é exatamente aquele que Lutero destruiu, o mesmo que Erasmo dizia
que, se destruísse, perder-se-iam todos os fundamentos políticos para a
unidade da Igreja.
Segundo,
se deseja romper com a norma, se deseja construir-se com autonomia em
torno das tradições bíblicas, tem de abrir mão de toda e qualquer
esperança de doutrinas verdadeiras, normativas. Tornar-se-á uma escola
de pesquisa e comunhão, aberta. Tornar-se-á o que se tornaram as escolas
de pesquisa, homens e mulheres em busca de descobrir, de construir, de
revisar, de reconstruir, de destruir, de refazer, sempre criticamente.
Caem os papas todos, os cleros todos, e os Protestantismos assumem que as
Escrituras constituem plataforma de trabalho, não norma ético-teológica.
Não querem(os) isso? De volta ao modelo católico – que é o que somos,
de fato! –, mas, dessa vez, sem hipocrisias.
Se
estou certo em minha análise, não é possível haver doutrinas num
Protestantismo “bíblico”. Um nome Cristianismo tem de ser inventado.
Até aqui, o Cristianismo – todos – erigiram-se em torno de uma
Verdade. Sem ela – ela não é possível senão por meio do fundamento
político-retórico católico-romano – só é possível imaginarmos um
Cristianismo (se quisermos continuar imaginando-nos sob o recorte cristão)
como projeto – mas projeto
aberto, esperança aberta, utopia aberta (e não aquela esperança do
projeto de Mueller, que, a rigor, é a velha doutrina-revelação que não
serve para nada fora do modelo político-retórico católico-romano.
Um
Cristianismo sem doutrina(s), sem “proposições reveladas” – que
Mario França de Miranda não crê possível (mas, e quanto ao Vaticano
II, Mario?). Um Cristianismo que, à maneira “romana”, confunde-se com
a própria vida e cultura de uma civilização. Não sem Deus,
necessariamente, mas tendo deus
por mito. Não sem Escrituras, necessariamente, mas tendo-as por diálogo
crítico. Não querem(os) isso? Algo assim nos assusta? Nos revolta?
Corram(os), depressa, para o modelo que Lutero fingiu que destruiu, mas só
mudou de nome – mas, por favor, sem hipocrisias. Reconheçam(os) que
quem manda, mesmo, é quem dirige a Igreja. E não falo aqui, do mito, mas
da política concreta do “clero” – em todas as suas formas
pseudo-mitigadas.
Post
scriptum
O
Vaticano II concluiu pela necessidade de fundamento escriturístico da
Tradição. O manual operacional católico-romano da Dei
Verbum afirma que a Bíblia deve ser lida e estudada através do método
histórico-crítico. Onde isso vai dar? Até que ponto, nesse programa, não
se encontra, ironia, o projeto do primeiro Lutero? Mas, igualmente, até
que ponto, contudo, não se esconde, aí, um ovo do segundo? Não terá o
Catolicismo inteiro metido-se num vespeiro terrível – que o levará (?)
à mesma crise luterana? Romper com a autoridade ou afiançá-la por meio
de retóricas hipócritas. Mas, se a Igreja Católica vinha, até aqui, tão
bem fundada – o próprio Nietzsche, no aforismo 358 de A
Gaia Ciência reconhece seu sólido fundamento político –, porque,
afinal, meteu-se a dizer tal coisa? Terá sido o síndrome de Lutero nos
exegetas do Concílio? Ah, amigos meus, se foi, quantos Luteros não
dormitam pelas catedrais de Roma!
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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