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Do
mal
Osvaldo
Luiz Ribeiro
17/05/2007
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De
todas formas, no podemos extraer nuestra moral de la insensata
esperanza en una Salvación terrestre o celeste. Nuestra moral sólo
puede fundarse en sí misma, en nuestra aspiración a desarrollar lo
mejor de nosotros mismos. Nuestra fraternidad debe ser, no la de los
salvados, sino la de los condenados. Si, como dice el ecologísta
Garrett Hardin, «no podemos ganar ni salir del juego», nos
corresponde fijar las reglas de nuestro juego, y jugarlo.
(Edgar
MORIN, La
Relación Ántropo-bio-cósmica,
Gazeta de Antropología, n. 11, 1995).
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Eventualmente,
não há o mal. Em última análise, não há mesmo o mal.
Isto é, não há o mal como alguma coisa que se pudesse apontar, a coisa pela própria
coisa: o que é aquilo?, ah, aquilo é o mal. Nesse caso, o que se costuma chamar de
mal constituiria muito mais um desdobramento noológico propriamente relacionado à emergência
da consciência humana na história do Universo.
E, mesmo assim, inexoravelmente dependente dela.
Cenas.
Cena um. Um menino está batendo com uma pedra firme e pontuda sobre uma lata de
ervilha, dentro da qual vão pedaços de vidro de garrafa. Quer-se moer o vidro para, com isso, fazer cerol para a linha da
pipa, que ele vai empinar. Erra o
golpe, acerta o indicador direito, e, trinta anos depois, ainda pode ver a
cicatriz, mesmo agora, enquanto digita.
Cena
dois. Uma sala mal iluminada. Um homem está amarrado a uma cadeira. Um outro
homem se aproxima. Tem um alicate na mão. O alicate comprime a ponta
do dedo do primeiro. O isolado da sala não
permite que mais ninguém, além dos dois, ouçam o urro que se faz ouvir.
Cena
três. Um menino e uma menina. Irmãos. Estão acocorados sobre uma calçada. Uma tampa de
Leite Ninho. Um sol escaldante. Aquele efeito-vapor sobe da calçada. A
tampa ferve de quente. Os irmãos põem sobre ela uma minhoca. O verme salta, poder-se-ia dizer, em desespero. Pára. Tosta. Frita. Esturrica.
Cena
quatro. Um leão, uma leoa recém-parida, e filhotes. A leoa
descuida-se. O leão aproxima-se da prole. Morde um, dois, três. Não os
come, apenas morde. A leoa avança. Salva apenas um. Os outros jazem ali,
ensangüentados. Mortos, naturalmente.
Cena
cinco. Uma montanha. Em seu sopé oeste, estende-se uma floresta luxuriante,
pululante de vida – insetos, vermes, bactérias, fungos, plantas,
animais. Súbito, uma erupção. Lava escorre, quente. Depois de passar,
literalmente, sobre a floresta, jaz ali um manto enegrecido de morte.
Cena
seis. Um planeta vaga pelo espaço. Carrega um mundo de vida. Súbito,
entra na rota de um meteoro muito grande. Ele atravessa a sua atmosfera e
choca-se contra o seu solo com a força de milhares de bombas atômicas. A
maior parte da vida do planeta ou morre, imediatamente, ou nos dias,
semanas e meses seguintes.
Pergunta.
Nas cenas acima, onde está o mal? A cena um, trata-se de um acidente.
Previsível, já que pedras pesadas e cortantes e carne humana não
combinam muito exatamente, e a mãe do menino acabara de berrar, lá da
varanda, que tivesse cuidado. Agora vai ela levar o pobre ao médico, a
costurar-lhe o dedo. O ferido não tinha a intenção de ferir-se. Mas o
risco estava lá, à espreita, o tempo todo.
A
cena dois descreve uma operação de tortura. Talvez seja uma tortura –
em tese – "necessária", talvez não. O fato é que há uma intenção
humana de ferir um outro ser humano. Necessidade política, barbárie,
terrorismo, demência pura e simples - não vem ao caso.
A
cena três descreve alguma coisa que minha irmã e eu fizemos uma vez,
para meu remorso eterno, eu diria. Trata-se da intenção de ferir um
animal. Uma estética da dor, eu diria. Poder-se-ia dizer,
psicologicamente, que a intenção de divertir-se seria maior do que a de
ferir, propriamente, o verme. A que os pais do bicho poderiam
eventualmente perguntar pela diferença que esse detalhe viria a fazer
para eles.
A
cena quatro leva o problema para a natureza. Diz-se que o leão
faz isso para que a leoa entre no cio, porque, se ela amamenta, demorará
muito tempo para que o leão possa, novamente, fazer aquilo para que
existe: fecundar a leoa. É controvertida a tese. O fato é que leões
podem assassinar suas próprias crias.
A
cena cinco descreve as conseqüências de uma erupção vulcânica, e ela
está ali de propósito, porque há quem possa dizer que o leão mata os
filhotes por causa do “pecado original humano” que, segundo uma teologia
muito conhecida e difundida, teria contaminado a “criação”. Por essa
ótica, não haveria, então, vulcões no Paraíso, e, se houvesse,
cuspiriam lava somente para o lado de lá, ou, eventualmente, vomitariam
mel com própolis.
A
cena seis descreve uma renomada teoria de extinção de grande parte das espécies do
planeta, há milhões de anos, causada pela queda de um meteoro gigantesco na região
do atual Golfo do México. Vale para ela o mesmo que para a cena cinco:
“no princípio”, não havia meteoros, e, se houvesse, a Providência os
desviava de nós. Quer dizer, já que "no princípio", não
haveria "pecado", nem a terra estaria contaminada.
O
que há de semelhante em todas as cenas? O exercício - tanto noético
quanto hilético - da força, a materialização do poder da força. A pedra no dedo, o alicate no dedo, o verme na chapa,
as presas nos filhotes, a lava na floresta, o meteoro no planeta. O exercício
da força sobre terceiros desfigura-lhes a forma estável, e causa destruição.
De modo que se poderia falar desses eventos, todos, como processos de
desconfiguração de formas estáveis, mediante a aplicação de uma força.
Esse
exercício da força sobre terceiros não é necessariamente intencional.
Em primeira instância, é conseqüência do modo como opera o mundo físico
– movimento térmico. Aliás, quanta força não se exerce contra terceiros no
mundo subatômico? E no astrofísico? Ora, essa força é sempre, ao mesmo
tempo, destrutiva, ou seja, ela corrompe a coesão formal dos elementos
sobre os quais atua, e construtiva, isto é, ela promove a emergência de
novas ondas de formas, que se apropriam dos efeitos da própria força
empregada sobre as formas anteriores. Pense-se numa floresta, que queima
sob o efeito de um relâmpago. Primeiro, destruição, depois, criação.
Pense-se numa tempestade, que fustiga o campo, derruba árvores, que,
contudo, verdejam amanhã.
Pode-se
dizer que o sol ardendo em fogo, destruindo partículas e convertendo-as
em elementos químicos, opere no registro do mal? Pode-se dizer que a
cheia do Pantanal, que leva à morte por afogamento uma quantidade enorme
de animais, e por asfixia milhares de peixes, presos, depois, em bolsões
isolados, opere no registro do mal? Pode-se dizer que um tamanduá,
introduzindo sua língua, para isso própria, num formigueiro ou num
cupinzeiro, opere no registro do mal? Ou que um terremoto submarino,
produzindo um tsunami, e levando à morte milhares de pessoas, animais e
plantas, também opera no registro do mal? Ou, tudo isso, no registro do
bem? Há mal no Universo? Há bem no Universo? Ou há apenas o que há,
movimento térmico e poder, força e destruição/criação?
De
onde vem o mal?
Imagine-se
aquele leão. Ele tem força. Ele faz o que quer com os filhotes. Então
ele, subitamente, toma consciência de sua força. Ele toma consciência
de que pode. E quer poder isso que, agora, sabe que pode. E, querendo,
faz. E passa a exercer sua força incontrolavelmente, do ponto de vista de
terceiros, mas intencionalmente, do seu próprio ponto de vista. Ele tem a
força. Ele pode. Ele faz. E sua força, agora, destrói tudo quanto ele
intencionalmente quer e pode destruir. Bem sabido, intencionalmente, aí,
significa geneticamente determinado.
Digamos
que um elefante, subitamente, descubra que tem a força. Que pode. E que,
intencionalmente, conscientemente, porque sabe que pode, e quer, e faz,
percorra cem quilômetros, destruindo tudo à sua frente, não por
loucura, mas por gozo estético da força, da destruição, do poder de
poder. Caso se trate de um fenômeno efêmero, fortuito, ocasional, só
esse elefante, ou aquele leão, mais nenhum outro, e nunca mais, poder-se-á
falar de mal? E quem falará de mal? Ele? As árvores derrubadas e
pisadas? Os insetos esmagados? Os animais destroncados pelas trombadas
violentas? Quem? Como um meteoro noologicamente inerte, o elefante
cruzaria sua órbita, e o Universo sequer consideraria o caso.
Percebe-se
onde se quer chegar?
Qual
a diferença entre a força do meteoro, a força do leão e a força do
homem? Não, não é a força – é a consciência da força. E não, não
é a consciência da força, apenas do ponto de vista desse
homem que a tem, mas a consciência da força por parte de muitos, muitos
homens, igualmente fortes. É a consciência de exercer a força e de sofrê-la.
É quando o homem vê-se como forte, e vê outros homens como igualmente
fortes, e vê o vulcão como força, e o meteoro como poder. É quando o
homem, forte, vê que é mais forte, e exerce sua mais-força. É quando o
homem, sob a força de outro homem, ou do Universo, vê-se sem força, ou
com menos força do que quem, agora, o força. É na consciência. É aí
que nasce o mal. É na consciência, mas não, apenas, na autoconsciência,
numa consciência meramente antropológico-noológica. É na consciência exposta
ao jogo social, desdobrando-se em cultura, em ética, em moral, em valor. O conceito de mal é princípio de consciência ecológica, nesses termos:
consciência antropológica – consciência sociológica – consciência
ecológica.
Não,
o mal não é sequer uma coisa, uma entidade, um ser, um estado. O mal é
um conceito. Um conceito relacional e noológico. O mal é um desdobramento da consciência, que mapeia o
“real”, e lhe dá nomes. O mal é noológico. O mal é um rótulo
noológico.
A
moral, portanto, não é, também, uma coisa, mas um olhar sobre as
possibilidades conscientes dos homens. Basta que eles desapareçam do
Universo, ou até menos, basta que um vírus terrível contamine a todos,
e lhes corrompa as áreas do cérebro que operam, físico-quimicamente, a
consciência, e a moral desaparece, como se nunca houvera moral um dia.
Ah, sim, eventualmente, os homens, inconscientes, tornando à sua existência
meramente zoológica, continuariam a exercer força e destruição. Mas
seria como um gato a brincar com um rato, ou uma avalanche a soterrar
coelhos. Nada além disso. É como se um chipanzé fosse treinado para atirar
com uma metralhadora, e, tendo aprendido, fosse solto, com ela, na Vinte
e Cinco de Março. Acabou-se a moral. O mal, c’est fini. Não há quem cole os rótulos. Não há mais
rótulos.
O
mal é noológico e ecológico. O mal é hermenêutico. Ele não apenas
depende da operação consciente humana, mas só existe por conta dela.
Quando ela é suprimida, a cobertura hermenêutica dos acontecimentos e
dos atos, então classificados como “mal” – ou “bem” –
dissolve-se, e eles voltam a ser o que sempre foram eram: meros fenômenos
eideticamente amorais, pertinentes à História do
Universo. O que torna apropriado afirmar que não é o Mal que explica a
história do universo, é a História do Universo que explica o mal.
O
que não significa que não haja destruição. Ou criação. Há uma e
outra. Mas o valor que lhes é aplicado é meramente noológico,
perspectivista, hermenêutico. Quando Pascal dizia que o Universo não
sabe, e de nada, é também do mal e do bem que ele não sabe. Mas um dia
ele espirrou, pariu, sem querer, esse bólide, no qual vingaram fungos
conscientes, que deram nomes e valores às coisas. Nomes e valores,
contudo, que não são propriamente do Universo, mas, apenas, deles
mesmos, existindo apenas enquanto eles mesmos existem. Os nomes e os
valores, porque o que vai sob os nomes e valores, sem, contudo, esses
mesmos nomes e valores, continuariam sua jornada épica muda, surda e cega.
Calor e inércia.
O
conceito noológico-ecológico de mal, hermenêutico, desdobrou-se em
sistemas morais tantas quantas foram as culturas em que foi cultivado.
Cada cultura operou o conceito em função de sua própria história
circunstancial. À medida que os séculos foram e vão se desenrolando, e a grande
narrativa humana vai sendo escrita, dia a dia, culturas foram e vão fundindo-se,
pouco a pouco, e os respectivos conceitos de mal – e de bem – foram e vão
sendo adaptados uns aos outros, emergindo daí, dessa fusão, um novo
conceito, macrocultural, como o conceito cristão ocidental, por exemplo.
A Democracia é um extraordinário conceito macrocultural
ético-político. Talvez constitua a invenção ética.
Culturas
que, durante essa grande saga, foram e vão seguindo outros caminhos, e
agrupando-se em outras conformações, manejam outros conceitos, e outros
paradigmas, e têm do mal outro tipo de perspectiva. É natural, compreensível
e lógico que seja assim. Não há mecanismos sobredeterminantes para a
formulação do conceito noológico do mal. Que ele emerge em toda e
qualquer cultura, sim, emerge, pelo fato de ser conseqüência da
faculdade humana de tomar consciência de si, do mundo, dos seus atos, dos
acontecimentos do mundo, e de, para além disso, enquadrar tudo isso em
sistemas hermenêuticos operacionais e dialogais, relacionais, em face de sua movimentação física
e sobrevivência no vasto mundo desde onde emergiu como consciência. Mas
essa faculdade hermenêutica não se desdobra da mesma forma em todos nem
em todas as culturas. É
a história dos agrupamentos humanos que coopera na determinação do modo como
os conceitos serão desdobrados desde e sobre o real.
História
- finalmente -,
como Ilya Prigogine insistiu tanto, depois de alguns séculos de uma física
newtoniana atemporal. O Universo é amoral, sim, mas atemporal, não. E
aquilo que se dizia ser ilusão humana, o tempo, mostrou-se o mais real
fenômeno do Universo, constitutivo dele, de modo que a fé na
atemporalidade do Universo é que aparece como ilusão, conceito
importado, mesmo na Física, da contemplação do Deus cristão,
entronizado, acima do Tempo. Os vértices de pó levantados pelos pés de
Heráclito findaram por ser sorvidos para o ventre de Parmênides.
O
Tempo, contudo, e a História, sua face, regem a jornada humana. As
culturas se contaminam, ou se fundem, e os conceitos noológicos de mal se
desconfiguram, se reconfiguram, recuam, avançam. Não se poderia, sem muito esforço,
destituir o conceito cristão de mal, e todo o sistema da conseqüente
teodicéia, do seu elemento histórico casual e causal, circunstancial, original,
conforme se pode constatar do esbarrão da cultura judaica com a cultura persa. O
dualismo persa contaminou irresistivelmente o monismo filosófico da
teologia judaico-sacerdotal incipiente, e o deus judaico já não podia,
mais, fazer mal. O fato de que o Novo Testamento surge como uma imensa
jaula teológica, onde chipanzés diabólicos saltam em todos os cantos,
de todos os galhos, sobre todos, dentro de todos, é conseqüência direta
daquele encontrão judaico-persa, e tudo porque os judeus não puderam
inventar, como os persas, um deus para o mal. Sem dono divino,
criaram-se-lhe centenas, milhares, milhões de mil demônios, cada pequeno
mal sendo parido por um diabo. E as suas hostes, as suas castas, encheram
o Ocidente.
Não
é apenas o sistema que é hermenêutico, noológico e ecológico, seja
esse que se acaba de arriscar desvendar, seja qualquer outro. As associações
entre o sistema, noológico, e os atos humanos e/ou os acontecimentos
naturais, isto é, a classificação hermenêutica destes, é, igualmente,
cultural, de modo que dizer que isto é mal, e aquilo é bom, constitui
operação meramente cultural, dependente da cultura, inexorável em relação
a ela. Dissolva-se a noção de cultura, de intencionalidade humana, de
consciência, e acaba-se o sistema em que se operam as classificações do
mal e do bem.
Por
outro lado, há maneiras de se dissolver o conceito de mal,
hermeneuticamente. Uma vez que o mal consiste em conceito noológico, em
interface noológica, ainda que a contraparte histórica, os atos humanos
ou os acontecimentos naturais, permaneçam, dissolvida a operacionalidade
do sistema, ou construído um sistema que dissolva a consciência ecológica,
dissolve-se, incontinenti, o mal. Por isso tanto o estruturalismo, porque
dissolve a consciência num determinismo inescapável, quanto o existencialismo, que reduz a consciência a uma mônada, dissolvem a relação
com o mal. No caso do estruturalismo, Carlo Ginzburg disse-o bem, em Relações
de Força. Suprime-se a consciência individual-ecológica humana,
dissolve-se a História, dissolve-se o mal, dissolve-se a culpa. Assim
como, no existencialismo, isolado em sua própria autoconsciência, sem
liames estruturantes com o próximo, e mesmo com o mundo, não há mais
qualquer ponto de apoio sobre o qual uma noção de mal ou bem, certo ou
errado, se possa sobre-erguer, e sequer razões para que se venha a
erguer.
As
noções relativas de mal e bem, hermenêuticas, noológicas, ecológicas,
culturais, são conseqüência da História Humana. São próprias
dela. Quer-se, eventualmente, controlar o processo, como a leitura de Gn
2-3 deixa claro. Não pode caber ao homem e à mulher decidirem, eles
mesmos, o que seja bom e mau/bem e mal, mas, apenas, a “deus”. Ora,
mas “deus”, aí, e em toda parte onde nomeado venha a ser, é
noologia, tanto quanto o próprio mal, e, sempre, operado
hermeneuticamente por alguma consciência humana. Logo, ali, alguém
quer que homem e mulher submetam-se ao que ele mesmo, o operador do
sistema, determina como sendo bom e mau/bem e mal. Totalitarismo noológico.
Caso
a humanidade venha a constituir-se como uma grande Família
Eco-Planetária,
resolvendo suas questões internas, relativas a fronteiras, valores,
culturas, poder etc., estará aberta a possibilidade de um sistema
eco-planetário relativo, também, à moral. Essa moral será planetária,
mas não seria totalitária, porque seria fruto de elaboração crítica
de, em tese, todos os componentes da família, e não, apenas, do
“pai”. Ainda assim, o mal, aí, será noção ecológica. Não será
ontologia. Não será teologia. Será, tão somente, sistema operacional
noológico, plataforma de convívio propriamente humano.
Nesse
sentido, talvez seja correto considerar que a Humanidade ainda não
existe. É provável que a consciência tenha levado mulheres e homens a
alcançar um grau de humanidade suficientemente consciente. Mas a
Humanidade, não. Ela, ainda, paródia de si mesma, caricatura grotesca do
híbrido animal-homem, destroça-se em loucura. Ainda há muita vontade de
poder alijada de toda consciência de necessidade de abrir mão do poder.
Onde isso acontece, não é que seja apenas a Natureza, agindo, mas um câncer,
porque, ali, a Natureza sofre de uma patologia auto-imune, e devora-se a
si mesma, num limbo entre o instinto e a consciência infantilizada.
É
necessário que a Humanidade compreenda-se como emergência do Universo,
mas uma emergência de um tipo absolutamente diferente – consciente.
Somente quando ela o conseguir, estará em casa. Porque o Universo não
nos pode receber de volta. Porque não podemos parar onde estamos, sob
risco de aborto espontâneo. É preciso que caminhemos resolutamente para
casa. E a nossa casa somos nós mesmos, os seres humanos, quando vivemos
conscientes de que podemos, mas podemos não querer, e poder não querer
é o que é propriamente humano. Dizer não quero é muito, muito mais
poderoso do que dizer quero.
Quando
chegarmos lá, individualmente, primeiro, e ecologicamente, depois, então
saberemos que o mal é parte do Universo, mas somente porque nós lhe demos
esse nome. Saberemos que por trás do nome está a própria História do
Universo, e seu movimento perpétuo. Sabendo que é um nome, estaremos em
paz. Haverá choro, ainda, mas não porque estejamos sob castigo. A bênção
de ser humano é justamente o fato de que se pode sorrir e ser feliz,
apesar dos momentos em que forças, quaisquer, se choquem contra nossa
estabilidade.
Teremos
de aprender a lidar com isso. E saber que também isso é a vida. Por isso
os músculos de nossas faces sabem sorrir, e, também, chorar, porque nós podemos.
Precisamos é aprender.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
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autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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