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“Experiência
do sagrado” e “religião”
–
hiperonomia hermenêutica e atualização cultural –
Análise
do prefácio de Origens,
de Mircea Eliade
Osvaldo
Luiz Ribeiro
de
16/09/2007 a 21/09/2007
(em
processo)
§
1, p. 9
Transcrevo o
primeiro parágrafo do Prefácio de Origens, de Mircea Eliade:
É
lamentável não termos à nossa disposição uma palavra mais
precisa que ‘religião’ para designar a experiência do
sagrado. Este termo traz consigo uma história longa, se bem que
culturalmente bastante limitada. Fica a pensar-se como é possível
aplicá-lo indiscriminadamente ao Próximo Oriente antigo, ao Judaísmo,
ao Cristianismo e ao Islamismo, ou ao Hinduísmo, Budismo e
Confucionismo bem como aos chamados povos primitivos. Mas talvez
seja demasiado tarde para procurar outra palavra e ‘religião’
pode continuar a ser um termo útil desde que não esqueçamos de
que ela não implica necessariamente a crença em Deus, deuses ou
fantasmas, mas que se refere à experiência do sagrado e, conseqüentemente,
se encontra relacionada com as idéias de ser, sentido e verdade.
Pretendo,
agora, analisar a declaração de Eliade. Diz-se ser “lamentável”
a identificação dos termos “religião” e “experiência do
sagrado”. Mas conclui-se com um “mas, fazer o quê?”,
ressalvada uma exigência – que “religião” não seja um
termo necessariamente ligado à idéia material de “deuses”,
mas uma palavra relacionada às noções mais amplas de “ser,
sentido, e verdade”. A palavra “necessariamente” é relevante. A saída
que Eliade propõe, para que se possa dar de ombros quanto ao fato
de ser lamentável a promiscuidade entre os vocábulos “religião”
e “experiência do sagrado” é que aquela até possa
relacionar-se a sistemas de referência baseados num transcendente
personificado (Deus, deuses, fantasmas etc.), mas não apenas
nesse tipo de transcendente. Conseqüentemente, deve-se aceitar
que o termo religião sirva para referir-se também a sistemas
“religiosos” cujo referencial transcendente não seja
representado pela figura “deuses”.
Outra
observação consiste em ligar a expressão “experiência do
sagrado” aos conceitos de “ser,
sentido e verdade”. Se,
por um lado, a “religião” não deve ser necessariamente
associada à idéia de “deuses”, por outro lado ela deve se
referir à experiência do sagrado, e, “conseqüentemente, se
encontra relacionada com as idéias de ser,
sentido e verdade”.
Deduz-se, portanto, que a expressão “experiência do sagrado”
esteja necessariamente
relacionada – para Eliade – às noções de ser,
sentido e verdade.
Logo,
uma série de conclusões são necessárias.
-
toda
religião relaciona-se às noções de ser,
sentido e verdade;
-
nem
toda religião relacionam-se às noções de deuses e
fantasmas.
-
toda
experiência do sagrado relaciona-se às idéias de ser,
sentido e verdade;
-
nem
toda experiência do sagrado relaciona-se às idéias de
deuses e fantasmas;
-
toda
experiência religiosa é uma experiência do sagrado;
-
nem
toda experiência do sagrado é uma experiência religiosa;
Essa
série de conclusões extraídas, quero crer, da declaração de
Eliade, torna obrigatória a disjunção identitária entre
“religião” e “experiência do sagrado”. “Religião”
torna-se um hipônimo de “experiência do sagrado” – toda
“religião” é uma “experiência do sagrado” (ou resulta
dela), mas nem toda “experiência do sagrado” é um religião
(ou resulta nela).
Sugeriria,
portanto, o seguinte esquema conceitual.

O
esquema apresenta, em negrito, os termos utilizados por Mircea
Eliade, e organizados na forma da proposta do presente postulado.
A “experiência do sagrado” constitui a câmara hiperônima. A
partir dela, uma experiência
religiosa desdobra-se, promovendo culturalmente a articulação
das noções de ser, sentido e verdade por meio
da mediação de “deuses e fantasmas”. Essa, contudo, não
constituiria a única possibilidade de mediação religiosa com as
noções de ser, sentido e verdade.
Eventualmente, outras dimensões mediadoras constituir-se-iam como
fenômenos noológico-culturais, quaisquer que sejam.
A
“religião”, contudo, não constituiria a única expressão
cultural que se desdobraria da “experiência do sagrado”. Uma
vez que a “experiência do sagrado” constituiria, em última
análise” a experiência
de sentido par excellence,
hiperônima, sua atualização conteudística consistiria numa série
de possíveis expressões culturais – políticas, estéticas e
heurísticas. A própria religião, por exemplo, constituiria uma
experiência política, mas não a.
Alunos têm perguntado pela possibilidade concreta de tais expressões
culturais, e tenho indicado para, por exemplo, o modelo de Estado
Nacional, de modo geral, engendrado após a Revolução Francesa e
os desdobramentos políticos do liberalismo político-filosófico
inglês (os hinos nacionais ilustram bastante bem o projeto ideológico
de personificação-mitificação do Estado); o modelo concreto de
Estado Socialista Soviético, a URSS de Lênin e Stálin; o Estado
comunista Chinês, de Mao Tse-tung. Do lado das expressões estéticas,
além da experiência “prosaica” da arte, poderia indicar o “ateísmo”, sempre experiência estética. Poderiam ser
citados exemplos mais refinados – existencialismo, por exemplo.
Nesse
caso, deve-se concluir pela perda de exclusividade eidética da
religião. A experiência religiosa não constitui um modus
distinto de expressão cultural, senão que um dos seus
procedimentos.
Se
meu raciocínio estiver correto, a resistência para a manutenção
da identidade entre “religião” e “experiência do
sagrado” pode consistir na negação da perda do estatuto de
exclusividade expressiva da religião, o esforço pela manutenção
de sua idiossincrasia eidética. Do ponto de vista da pragmática
hermenêutica, contudo, não há uma
pragmática religiosa, mas apenas pragmáticas política, estética
e heurística. A religião atualiza-se, sempre, na forma de uma
dessas pragmáticas. Historicamente, sempre, na forma de pragmática
política. Não é à toa que os Estados mais primitivos, desde o
surgimento da civilização, aliou-se à religião como ferramenta
de controle social, porque, malgrado sua neutralidade ético-teleológica
(ela pode tanto funcionar como “ópio” quanto como
“fogo”), a religião presta-se muito convenientemente bem às
políticas de heterodoxia político-social.
A
sociedade ocidental separou as duas plataformas políticas –
Estado e Religião –, dada a constituição republicana e o
liberalismo político do Ocidente. Mas a religião, em si,
particularmente aquelas acostumadas ao “poder” – o
Cristianismo, majoritariamente – mantém sua autocompreensão
cultural idiossincrática e exclusivista. De um lado, todas as
manifestações da cultura – arte, esporte, política, pesquisa,
trabalho. De outro, ela, a religião. A meu ver, uma tal autocompreensão é falsa. Mesmo
quando encenada por aproximações acadêmico-científicas.
Assumir que cada um desses jogos
culturais tenha suas idiossincrasias internas não justifica que a
peculiaridade lhe seja transbordada eidético-ontologicamente.
Mudam as regras do jogo, mas a condição de jogo
permanece.
§
2, p. 9
Transcrevo,
agora, o segundo parágrafo.
Com
efeito, é difícil imaginar como poderia funcionar a mente humana
sem a convicção de que existe algo de irredutivelmente real no mundo, e é impossível imaginar como poderia ter surgido a
consciência sem conferir sentido
aos impulsos e experiências do Homem. A consciência de um mundo
real e com um sentido está intimamente relacionada com a
descoberta do sagrado. Através da experiência do sagrado, a
mente humana apreendeu a diferença entre aquilo que se revela
como real, poderoso, rico e significativo e aquilo que não se
revela como tal – isto é, o caótico e perigoso fluxo das
coisas, os seus aparecimentos e desaparecimentos fortuitos e sem
sentido.
Trata-se
de um parágrafo interessante. Talvez, confuso. É possível que a
minha impressão derive do fato de que os termos “sagrado” e
“experiência do sagrado” não parecem univocamente referidos.
Já se viu que Eliade ressente-se de que a expressão termine por
ser usada como sinônimo de “religião” – situação a que
se acomoda, no final do primeiro parágrafo. Nesse segundo parágrafo,
Eliade agora fala de “descoberta do sagrado”, um termo de aparência
ambígua. No parágrafo seguinte, falará do sagrado como “um
elemento da estrutura da consciência”. Pergunto-me – afinal,
de que se trata? De uma prática sócio-cultural (“religião”)?,
de um ser, passível de
“descoberta?, ou um “elemento” da estrutura da consciência?
O “sagrado” e “a experiência do sagrado”, seja o que
forem, não podem ser tudo isso ao mesmo tempo.
Nesse
parágrafo, Eliade afirma que a consciência de sentido e de
realidade do “mundo” está ligada à descoberta do sagrado.
Logo a seguir, inflaciona a expressão – de “sagrado” para
“experiência do sagrado” – e chega a afirmar que foi por
meio da experiência do sagrado que a mente humana – a consciência
– “aprendeu a diferença” entre o real e significativo e o
apenas aparente e fortuito da vida. Mais uma vez, Eliade relaciona
a noção de “sentido” à noção de “experiência do
sagrado”, dessa vez aprofundando – reduzindo – a expressão
até seu núcleo sintático: “sagrado”.
Caso
se passe apressadamente pelo parágrafo, deixar-se-á de perceber
uma conseqüência difícil de ser contornada. Ora, se “a
descoberta do sagrado” é a responsável pela percepção de
“realidade” real do
mundo, das duas uma: ou a “experiência do sagrado” é
fundante, e confunde-se necessariamente com a experiência hermenêutica
primordial da emergência da consciência humana, ou não se pode
explicar como, antes da experiência do sagrado, os homens
movimentavam-se num “real” não real, não organizado, sem sentido, caótico, fortuito, vago, aleatório,
falso, ilusório.
Talvez
seja mais produtivo postular-se que a experiência do sagrado seja
secundária em relação à experiência hermenêutica da emergência
da consciência do sujeito de si. Ainda que uma experiência –
em certo sentido – similar. Mas tratar-se-ia, no caso da experiência
do sagrado, de uma re-organização estético-afetiva do real, por
meio de uma centralização secundária do espaço-mundo,
caracterizada, nesse caso, por uma atualização estético-afetiva
de um centro novo, e secundário em relação à organização do mapa
mental, típica da experiência hermenêutica humana de diferenciação
entre si e o não-si (o “mundo”) e sua instalação no
“mundo”.
Poder-se-ia
manter com muita naturalidade a descrição de Eliade para a
experiência do sagrado como uma experiência de sentido, mas
distinguindo-a da experiência de sentido fundante da espécie
humana. A experiência do sagrado, ainda de caráter estrutural,
dar-se-ia no mundo já
hermeneuticamente constituído, logo, na
cultura, logo, no
“mundo” já humano. Diferentemente da experiência hermenêutica
original do sujeito de si – aquela na qual o sujeito de si, por
meio da ruptura hermenêutica, diferencia-se não-si, que será
convertido em “mundo” –, a experiência do sagrado não cria
o “mundo”, mas reorganiza-o por meio de sua expansão
territorial. Nesse caso, por meio de uma expansão potencialmente
metafísica do real.
Uma
vez que as experiência do sagrado primárias – na história da
espécie humana – ocorreram há milhares de anos, deve-se
imaginar que as interpretações culturais dessas primeiras experiências
histórico-psicológicas lograram êxito em seus próprios
contextos e termos. Cada membro da espécie humana, qualquer que
seja, nesse tempo, sabe de poucas, mas significativas coisas,
relevantes para sua sobrevivência.
Sabe,
por exemplo, que as coisas que se movem, são vivas. Com exceção
das plantas, que movem-se pelo vento, os animais, todos, movem-se,
e, ao fazerem-no, vêm de um lugar, e vão para outro lugar. O
tatu, do buraco. A ave, do ninho. O macaco, das árvores. O peixe,
do rio. As formigas, da terra. Os grandes felinos, das savanas. O
homem tem de saber disso, porque precisa correr – seja para
capturar suas presas, e comê-las, seja para fugir de seus
predadores, que querem comê-lo. Por isso, precisa saber, ainda,
de uma coisa muito importante – essa coisa que se mexe, esse
bicho, é manso, ou é bravo?
O
seu mapa mental constitui-se dessas informações. Todas as coisas
precisam ser conhecidas. Assim, quando ocorre aquilo que Mircea
Eliade chama de “experiência do sagrado”, e uma tal experiência
é interpretada como a manifestação de uma força, ela,
imediatamente, essa força, precisa ser identificada – veio de
onde? É perigosa?
Ora,
o mapa mental desse homem sabe que aquela coisa não pode ter
vindo do mato, do rio, da terra, da árvore. Mas tem que ter vindo
de algum lugar. De cima das nuvens? De cima das águas das nuvens?
De baixo da terra? Debaixo das águas da terra? E, tendo vindo de
muito lá em cima, ou de muito lá embaixo, ela é boa, essa
coisa? Pois bem, através do Tratado
de História das Religiões, tomando a hipótese de que a
roupa com que a “manifestação” será vestida traduz a
modalidade do veículo da hierofania – a árvore, a pedra, o
rio, o monte, o céu, o sol, o animal, qualquer coisa material
–, infere-se que o caráter “bom” ou “mau” dessa
manifestação dependerá – e muito – desses dois fatores: o
estado de ânimo da testemunha e a modalidade material do veículo
da manifestação. Um relâmpago pode ser tanto perigoso – o
fogo nas árvores, o ruído, o clarão em meio às trevas (ele
mora nas trevas) – quanto benéfico – está relacionado à
chuva, logo, à fertilidade, à água, elementos importantes para
a sobrevivência. Assim, não é necessariamente boa ou má uma
determinada manifestação. O seu caráter dependerá do
“evento” em si, e do intérprete – naquela ocasião.
Naturalmente
que essa interpretação poderá perder-se na noite dos tempos.
Entretanto, ela pode ser acatada pelos membros do grupo em que a
testemunha vive. Pode converter-se em leitura padrão daquele fenômeno
veicular da hierofania interpretada. Pode transformar-se em mito.
Em rito. Em culto. Em doutrina. Em tradição. Em religião. Em última
análise, migrar da dimensão estética – experiência do
sagrado – para a política – religião. O que, mais uma vez,
conspira contra a identificação dos termos.
§
3, p. 10
Transcrevo,
agora, o terceiro parágrafo.
Já
discutir a dialética do sagrado e a sua morfologia em publicações
anteriores e não é necessário retomar este assunto. Basta dizer
que o ‘sagrado’ é um elemento da estrutura da consciência, e
não um estágio na história da consciência. Um mundo com
sentido – e o Homem não pode viver no ‘caos’ – é o
resultado de um processo dialético a que se pode chamar manifestação
do sagrado. A vida humana adquire sentido ao limitar os modelos
paradigmáticos revelados por seres sobrenaturais. A imitação de
modelos transumanos constitui uma das características primárias
da vida ‘religiosa’, uma característica estrutural que é
indiferente à cultura e à época. Desde os documentos religiosos
mais arcaicos acessíveis ao Cristianismo e ao Islamismo, a imitatio
dei como norma e linha diretriz da existência humana nunca
foi interrompida; na realidade, não poderia ter sido de outro
modo. Nos níveis arcaicos da cultura, viver como um ser humano é, em si, um acto religioso, pois a alimentação, vida sexual e trabalho possuem
um valor sacramental. Por outras palavras, ser – ou antes,
tornar-se – um homem significa ser ‘religioso’.
Se
não me confundo, quando persigo um bom princípio de acesso à
relação entre “experiência do sagrado” e “religião”,
e, por conta dessa aproximação, postulo a hiponomia desta em
relação àquela, a afirmação de Eliade quanto a ser “o
‘sagrado’ (...) um elemento da estrutura da consciência”
inviabilizada completamente qualquer insistência na manutenção
da relação de identidade – frouxa, que seja, mas nem isso é
tolerável – entre as duas expressões e suas respectivas referências.
E isso é muito evidente, pelo simples fato de que, pelo menos a
religião, essa não é nem pode ser, em nenhuma hipótese, “um
elemento da estrutura da consciência”. A religião é uma
atualização pragmática da e na cultura. A religião é política.
É rito. É “fato” social. Penso que, sim, ela decorre de
“potências” noológico-pragmáticas humanas, mas não
coincide com elas – atualiza-as.
Agora,
se é correto afirmar, com Eliade, que “o ‘sagrado’ é um
elemento da estrutura da consciência” – e, desde que não
seja esse termo tratado, em qualquer nível, como uma espécie de
“sinônimo” frouxo para “religião, e, além disso, em hipótese
alguma considerado o elemento
de organização espacial do mapa mental humano, é perfeitamente
possível considerar correta a afirmação –, resulta incontornável
a disjunção dos termos “religião” e “experiência do
sagrado”. No que concerne à sintaxe, sendo o “sagrado” um
elemento da estrutura da consciência, qualquer coisa como uma
“experiência do sagrado” não pode ser algum tipo de experiência,
qualquer que seja, com “alguma coisa” – quanto mais alguma
coisa “fora da consciência”. Logo, a expressão “experiência
do sagrado” deve referir-se a um tipo potencial de experiência, não a uma atualização cultural
disso.
Com
“tipo potencial”, quero referir-me ao fato de que a “experiência
do sagrado” constituiria, por hipótese, numa “experiência de
sentido” – não de conteúdo. Experiências de sentido são
aquelas experiências hermenêutico-estruturais da consciências.
Se incluída for a experiência do sagrado nesse conjunto,
conheceria duas delas: a) a experiência de sentido fundamental da
espécie Homo sapiens
– a emergência hermenêutica da consciência humana, e b) a
“experiência hermenêutica do sagrado”.
Experiências
de sentido são experiências sem conteúdo, experiências que
propiciam o início do processo humano de elaboração, construção,
criação, de conteúdos. Se desejarmos usar a terminologia de
Charles Sanders Peirce,
é a emergência da terceiridade,
atualizando-se, sobre a primeiridade
por meio da secundidade.
Experiência de sentido seriam organizações hermenêutico-estruturais
da percepção, atuando na consciência hermenêutica humana, e
desdobrando-se e atualizando-se nas inumeráveis concretizações
noológicas da secundidade.
Em
termos mais simples. Há coisas no mundo (primeiridade). São o
que são, independente de pelo que a espécie humana (terceiridade)
as tome. Justamente, contudo, porque é a espécie humana, as
consciências humanas (terceiridade) concretas, culturais,
desdobram-se sobre as coisas do mundo (primeiridade) e
apreendem-nas segundo seu jogo hermenêutico-noológico (secundidade),
elaborando, assim, e com elas, seu mapa mental. Na cabeça de uma
pessoa (terceiridade) vivem as representações
funcionais-instrumentais das coisas do mundo, bem como do mundo (secundidade),
através de cujo mapa hermenêutico-noológico essa pessoa caminha
sobre e entre as coisas do mundo (primeiridade).
Experiências
de sentido são experiências no nível da terceiridade (logo,
hermenêutico-estruturais), consolidadas as quais facultam-se os
desdobramentos da secundidade – cosmovisão e
antropo-auto-compreensão. Se meu raciocínio estiver correto,
enquanto a “experiência do sagrado” constitui uma experiência
no nível hermenêutico-estrutural da terceiridade – a consciência
da pessoa humana –, a “religião”, por sua vez, constitui-se
como atualização pragmática, cultural, social, política, a
partir de e dentro de determinadas cosmovisão e
antropo-auto-compreensão.
Assim,
eu poderia dizer que a experiência de sentido fundamental da espécie
humana – a ruptura si/não-si, eu/não-eu, mim/fora de mim,
consubstanciada na emergência da consciência hermenêutica
humana – e a experiência de sentido “madura” dos indivíduos
autônomos dessa espécie – a experiência do sagrado –
constituem “paradigmas” de organização de cosmovisão e
antropo-auto-compreensão, ao passo que, a religião – bem como
qualquer outro fenômeno cultural – constitui atualização
desse paradigma, na forma de um componente do mapa hermenêutico-noológico
humano. Experiências de sentido – emergência da consciência
de si e experiência do sagrado – são estruturas paradigmáticas.
“Religião”, é fenômeno.
“O
Homem não pode viver no ‘caos’”. O que Eliade pretende
dizer com essa afirmação? Que o “Homem” necessita
“escanear” o ecossistema, organizá-lo, dominar sua
topografia, sua ecologia. “Caos”, aí, não é “um outro
lugar”, diferente do “mundo”, mas esse mesmo “mundo”,
mas antes de tornar-se
“mundo”. Porque “mundo” (secundidade) é a “realidade
material”, física,
tomada noologicamente pela consciência hermenêutica humana. Esse
mundo noológico, hermenêutico, é, agora, “criação” – e
não (mais) “caos”. Segundo concebo, tanto a declaração de
Eliade, quanto minha explicação, estão claras.
Há,
contudo, uma problema muito grave na declaração de Eliade, na
forma como ela aparece no texto. O seu referencial me parece
deslocado, e de forma importante. Deparamo-nos, aqui, com o
segundo fenômeno de identificação de Eliade. Na p. 9, Eliade
identificara “religião” e “experiência do sagrado”.
Agora, na p. 10, Eliade identifica, indiretamente, as experiências
de cosmicização humana – superação do “caos” –, e
“experiência do sagrado”. A experiência do sagrado seria,
então, a forma de superação humana do “caos”. Logo, a
experiência do sagrado seria a forma como o homem instala-se no
“mundo”.
Há
muita imprecisão nessas duas páginas. E imprecisão não
conceitual, mas de expressão referencial, ou seja, terminológico-conceitual-referencial.
As proposições de Eliade, em si, separadas umas das outras,
constituem, todas, elementos válidos de uma descrição dos
processos de cosmicização. O problema é que Eliade entrelaça
equivocadamente os termos que usa, tornando todas as proposições
unireferenciadas.
Coopero
com o leitor, explicitando as pontes que Eliade constrói, ligando
conceitualmente todos os termos-chave de que se utiliza:
a)
“religião” e “experiência do
sagrado” – ainda que “lamentavelmente” – são
co-designativos: “É lamentável não termos à nossa disposição
uma palavra mais precisa que ‘religião’ para designar
a experiência do sagrado (...) Mas talvez seja demasiado
tarde para procurar outra palavra e ‘religião’ pode
continuar a ser um termo útil desde que não esqueçamos de que
ela não implica necessariamente a crença em Deus, deuses ou
fantasmas, mas que se refere à experiência do sagrado e, conseqüentemente,
se encontra relacionada com as idéias de ser,
sentido e verdade”.
b)
“experiência do sagrado” e “sagrado”
tornam-se, agora, igualmente co-designativos: “A consciência de
um mundo real e com um sentido está intimamente relacionada com a
descoberta do sagrado. Através da experiência do
sagrado, a mente humana apreendeu a diferença entre aquilo
que se revela como real, poderoso, rico e significativo e aquilo
que não se revela como tal – isto é, o caótico e perigoso
fluxo das coisas, os seus aparecimentos e desaparecimentos
fortuitos e sem sentido”.
c)
Finalmente, “sagrado” e “superação
do caos” (= “cosmicização” = “semantização do
mundo e do ‘eu” no mundo”) tornam-se inter-referentes: “o
‘sagrado’ é um elemento da estrutura da consciência (...).
Um mundo com sentido – e o Homem não pode viver no ‘caos’
– é o resultado de um processo dialético a que se pode chamar
manifestação do sagrado”.
Repito:
a idéia básica de Eliade me parece perfeita. O homem tem de cosmicizar o “real físico”, material, para habitar aí.
É seu modus vivendi. Nada menos do que isso é-lhe imposto – e desde dentro de
si. Não posso, contudo, concordar com a afirmação de que essa função cabe ao “sagrado”, logo, já que Eliade interliga
todos os termos-chave de sua reflexão, à “experiência do
sagrado”, logo, pela mesma razão, à “religião”.
À
“religião” não cabe a função de cosmicizar o real. Pelo
contrário, a “religião” é fruto de uma atualização
cultural, histórico-condicionada, de uma cosmicização anterior.
A “religião” é fenômeno cultural.
À
“experiência do sagrado” – e não ao “sagrado” –
cabe, sim, em certo sentido, mas não em sentido primário, um
sentido de cosmicização do “caos”. Mas essa proposição
precisa ser rasgada ao meio. Rasguêmo-la.
Se
o “sagrado” é um elemento da estrutura da consciência, ou
seja, uma potência estrutural-hermenêutica da atuação da
consciência sobre o “real”, então a experiência do sagrado
é o gatilho dessa experiência sobre o “real”, não a própria
potência. Não há, aí, “conteúdo”. Uma analogia, uma metáfora.
O complexo cérebro-espírito/consciência é o revólver. O
“sagrado” é a sua potência de disparo. A “experiência do
sagrado” é o disparo. A bala disparada, é o “conteúdo”
noológico-hermenêutico – a atualização cultural – da máquina
de disparos hermenêuticos sobre o real. A bala é um fenômeno de
secundidade. O alvo, de primeiridade. O revólver, a potência de
tiro, o disparo, de terceiridade.
Se
a “experiência do sagrado” é a
experiência de cosmicização (nos termos em que Eliade o parece
postular, se o leio bem: “Um mundo com sentido – e o Homem não
pode viver no ‘caos’ – é o resultado de um processo dialético
a que se pode chamar manifestação do sagrado”), resulta necessário
admitir que, antes dela,
o “homem” vivia, então, num “caos”. Está bem, ainda que
fenomenologicamente essa seja a leitura que o “homem” faça de
seu antes, depois que ele mesmo passa pela experiência do
sagrado, ainda assim, contudo, e ainda fenomenologicamente,
qualquer um que não ele mesmo poderá perceber que, aí, houve,
apenas, uma “troca” de cosmovisão. Já havia, antes,
uma cosmovisão. O mundo fenomênico desse
homem, antes, não era um “caos”, conquanto ele possa dizer
desse mesmo mundo, agora que vive em “outro”, que ele era
“equivocado”, falso,
fortuito, fraco, fluido, não-eidético, maya,
ilusão platônica, nome é o que não falta.
Em
termos fenomenológicos, a própria experiência do sagrado –
sim, experiência de cosmicização do mundo – carece de uma
plataforma operacional mental que articule o “conceito” –
logo, está-se falando de “conteúdo” – de “mundo” e de
“caos”. Somente consciências maduras, alimentadas pela tradição,
carregadas de linguagem, podem experimentar o que Eliade chama de
“experiência do sagrado”. Mas, e até lá, em que mundo vivem
tais “homens”?
A
meu ver, vivem na cosmovisão e na auto-compreensão hermenêutico-conscientes
em que cada e todo ser humano vive: o mundo hermenêutico,
“quase-seu” ou “já” seu. Refiro-me, aqui, ao processo de
emergência da consciência de si, do qual decorre o processo de
culturalização pedagógico-traditiva por que necessariamente
passa e tem de passar cada ser humano. Uma criança de três anos
de idade – quero crer – está imprestável – ainda – para
experimentar “experiência(s) do sagrado”, porque ainda
movimenta-se heteronomamente, primeiro, sensorialmente, depois, no
mundo da mãe, do pai, da família, depois, no da sociedade,
depois, ainda, no da formalidade escolar, depois, talvez não por
último, no do Estado, e, talvez, ainda, no da religião. Seu
mundo – seu enquanto cosmogonia autônoma da puberdade – ainda
não emergiu, e, enquanto não emergir, desconfio de toda e
qualquer possibilidade de “experiência do sagrado” como
experiência de sentido. Essa criança, contudo, e mesmo,
eventualmente, inúmeros adultos, não vivem no “caos”. Outros
já operaram a cosmicização para eles. O mundo em que vivem tem
sentido, ainda que o sentido que esse mundo em que cada um vive
foi elaborado por outras consciências, e transferido para essa
por meios pedagógico-culturais, seja na cidade, seja no campo,
seja na oca.
Deve-se
ter em mente, ainda, que a planetização da espécie Homo sapiens completou-se há séculos. Isso significa que não há
a mínima possibilidade de qualquer membro da espécie chegar à
autonomização púbere alheio à inserção cultural em um
“mundo” religioso, ou seja, marcado pela cosmicização
característica das atualizações pragmático-políticas da
religião. Assim, é muito fácil confundir-se “experiência do
sagrado” com “religião”, porque as “experiências do
sagrado”, potencialmente não necessariamente religiosas, são
pressionadas, contudo, pela cultura religiosa que, parece, ganhou
preferência de atualização cosmogônica em todas as culturas
humanas. Mas a confusão traduz um defeito de perspectiva. Dentre
inúmeras possibilidades de atualização da experiência secundária
de sentido – a experiência do sagrado –, a religião
apresenta-se com vantagens, porque une os elementos estéticos
(subjetivos) e políticos (relacionais) úteis à construção e
manutenção de uma sociedade “organizada”. Não se trata de
reduzir a “religião” a fenômeno político, mas de dizer que
a religião, desdobrando-se em outras práticas, nunca deixa,
contudo, de constituir-se, fundamentalmente, como política.
Postulo,
pois, dois “momentos” cosmogônicos fortes
(há outros, fracos) na
constituição histórica humana. O primeiro, fundamental, aquele
da emergência da consciência. Tudo o que se disser quanto ao
sentido do termo “homem”, “humano”, “Homo”,
diz-se por conta desse momento-acontecimento. Mas, já disse, esse momento
não tem conteúdo. Inaugura o início de culturalização desse
ser humano em fase de emergência noológica, de introdução da
linguagem em sua consciência, e de sua consciência na linguagem,
de transmissão de cultura e tradição, e formação, em sentido
amplo. O feto não está pronto. A criança não está pronta.
Esse primeiro momento, não apronta o ser humano – abre-o a que
se apronte, mais tarde.
Será,
então, “mais tarde”, quando completar-se o processo de
culturalização, e preparar-se esse ser humano para sua
autonomização (puberdade), que o segundo momento hermenêutico forte
deverá ocorrer. A sua “conquista” do mundo – agora, seu
mundo. Esse processo pode ser abortado pela família, pela
sociedade, pelo Estado – e, até, pela religião, clínica de
aborto oficial do processo de autonomização humano, conquanto
lhe seja facultada, contudo, a força reversa de autonomização
do homem, tudo depende de como a religião seja encenada, atuada,
jogada. Nesse ponto, contudo, carecemos de conceitos que não estão
disponíveis na argumentação de Eliade. Posso adiantá-los,
postulando que, quando o ser humano liberta-se da castração
(circunstancialmente necessária) do processo pedagógico-cultural
heterônomo, e assume seu
mundo, as “explicações” para a falha fundamental da consciência
hermenêutica da “existência” no “mundo” vão à falência,
e a crise hermenêutica forte
instala-se. É aí – e somente aí – nessa crise hermenêutica,
que a “experiência do sagrado” pode operar-se na consciência,
superando o paradoxo do sentido por meio de conteúdos autônomos.
Mircea ELIADE, Origens.
Lisboa, Edições 70, 1989, p. 9.
Chama a atenção o fato de que, apesar de tratar as noções
de “rito”, “mito” e “culto” como atualizações
hipônimas do jogo,
Johan Huizinga não elabore um capítulo para a “religião”
como jogo,
reservando-os, apenas para a “guerra” e a “política”,
o “conhecimento” e a “poesia” – a rigor, “política”,
“heurística” e “estética” como jogo,
ou, segundo minha preferência, pragmática
(cf. Johan HUIZINGA, Homo
Ludens – o jogo como elemento da cultura. 5 ed. São
Paulo: Perspectiva, 2001).
Mircea ELIADE, Origens.
Lisboa, Edições 70, 1989, p. 9.
Mircea ELIADE, Origens.
Lisboa, Edições 70, 1989, p. 10.
Cf. Charles Sanders PEIRCE, Semiótica.
3 ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.
O leitor deveria aguardar a publicação de meu ensaio Viver
hermeneuticamente no mundo – pragmática como ação
intencional humana, já em fase de redação.
Alternativamente, buscar reflexão aplicada aos meus
argumentos, retificando-os, ratificando-os, ultrapassando-os.
Eu já comecei a fazê-lo eu mesmo.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
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autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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