Ineclipsável
–
se está lá, está lá
Osvaldo
Luiz Ribeiro
24/09/2007
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Martin
BUBER, Religión y Realidad, em Martin BUBER, Eclipse
de Dios – estudios sobre las relaciones entre religión y
filosofía. México: Fondo de Cultura Económica, 1995, p.
35-49.
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Já
tive oportunidade de escrever a respeito do “lapso” semiótico de
Tillich, quando, referindo-se à expressão do ser
de Deus, escreve: “Deus é símbolo para Deus”. Fiz ver à minha
amiga Celeste que a afirmação é – aparentemente – muito
apropriada, mas que – se é olhada mais de perto –, mostra-se
improcedente, porque é flagrada flutuando sobre nada e coisa nenhuma.
Não, algo pior: Tillich é flagrado na supressão pragmática do
fundamento da fórmula: o sujeito humano crente.
Poderia,
à época, ter dito melhor. Poderia, por exemplo, ter recorrido à
Charles Sanders Peirce[1],
e aos termos “primeiridade”, “secundidade” e “terceiridade”,
cunhados por ele. A primeiridade constituiria o ser
das coisas conforme elas são, independentemente da apreensão
sensorial humana. A secundidade é a dimensão noológica desse
objeto, quando e com forme captada pela rede sensorial humana. A
terceiridade é a própria rede sensorial-hermenêutica, apta a captar
noológico-hermeneuticamente os objetos do mundo material,
organizando-os em representações mentais. A primeiridade é inacessível
ao ser humano. As “coisas” do mundo são capturadas apenas sob
certos ângulos, determinadas dimensões, por meio de uma aproximação
específica, que faz certas perguntas, que tem certas intenções, e,
através delas, capta fundamentos restritos do ser
das coisas. Segundo o postulado da primeiridade, o ser das coisas é e permanecerá para sempre inacessível.
Pois
bem. Tillich pretende que o ser
de Deus constitua, em termos peirceanos, um elemento de primeiridade.
Inacessível, ele só poderia ser referido por meio simbólico – a
secundidade. O que ficou de fora? O sujeito humano, a terceiridade.
Nesse caso, a terceiridade, explícita, não é imprescindível não
apenas por conta de que é a terceiridade quem elabora o símbolo
“Deus”, em referência, então, a um (suposto) ser Deus, mas é a própria terceiridade quem “inventa” um ser
Deus, supostamente aquele elemento de primeiridade.
Sem
essa denúncia – de que o sujeito humano tanto funda uma suposta
primeiridade Deus, quando elabora símbolos para ela –, assume-se,
pacificamente, a “existência” de uma primeiridade “Deus”. Ora
– tal afirmação é absurda. Não se pode assumir uma primeiridade
Deus, senão mediante “fé” – e “fé”, conquanto a teologia
o goste de dizer, nada tem de “conhecimento”, mas de “imaginação”
engajada. Nenhum “ser” metafísico-ontológico – Deus, deuses,
anjos, trasgos, fantasmas, gnomos, ninfas, demônios, exus – podem
ter suas realidades afiançadas, senão por meio de fideísmo
voluntarista. O simples fato de que crê-se em anjos, mas não em
fadas, ilustra bem o caráter imaginativo e feérico das crenças
mitológico-metafísicas. Não é que se possa dizer que não existam
– e por mais que seja “natural” imaginar que não, não existem
fadas, e, para ser honesto, então, nem deuses, a sua não-existência
é tão inafiançável, senão fideístico-voluntariamente, tanto
quanto sua existência –, mas que não se pode afirmar que existam.
A declaração – “existem fadas e deuses” – não tem nenhum
sentido. Sentido que ganha, contudo, quando transformada – “eu
acredito que existem fadas e deuses”, ou, o que é muito comum, dado
o caráter desse tipo de fé, “eu creio que existem deuses, mas, não,
fadas”.
A
diferença fundamental entre declarações do tipo “há pedras” e
“há deuses”, é que alguém pode ser convencido da existência
das pedras por meio de uma pedrada, mas, não, por meio de algo que
deuses façam. Sim, é verdade que alguém pode tomar-se por
manipulado, para o bem ou para o mal, por eles, mas, com uma tal crença,
voltamos para o ponto do fideísmo voluntarista. Normalmente, sempre
se quer crer.
Assim,
não se trata de enfrentar o fideísmo voluntarista positivo com o
fideísmo voluntarista negativo – por exemplo, teísmo contra ateísmo.
Uma batalha desse tipo chega a ser circense. Trata-se, apenas, de
perceber que há inúmeros discursos que lidam com a nata, com a
superfície, mas escondem o leite fervente sob a capa gordurosa das
afirmações relativamente impossíveis.
Um
bom exemplo é capítulo “Religión y Realidad”, de Martin Buber.
Buber informa que ele teria sido pronunciado, na forma de conferência,
entre os meses de novembro e dezembro de 1951, nas
universidades de Yale, Princeton, Columbia, Chicago e outras, nos
Estados Unidos[2].
Meio século nos separam – e, no entanto, ela ainda se mostra muito
atual.
Na
primeira parte do texto (p. 35-36), Martin Buber contrapõe uma
religiosidade, segundo a qual “crê-se” numa realidade
absolutamente independente do sujeito crente, realidade essa com a
qual se encontra, este, em “relação vivente”, a uma
religiosidade para quem a experiência religiosa é assumida como uma
realidade meramente subjetiva, “que tem existência somente dentro
da mente” (p. 35). Buber sabe que essa última forma de compreensão
da experiência religiosa decorre do fato de que “esta proclamação
(a “morte de Deus”) significa somente que o homem é incapaz de
apreender uma realidade absolutamente independente de si mesmo e de
ter uma relação com ela” (p. 36), o que deveria lhe bastar para,
interrompendo seus próprios passos, parar, ele mesmo, aí, nesse
mesmo limite. Mas, não, Buber contrapõe a uma tal posição
epistemológica o fato de que as grandes “imagens” de Deus não são
obra de imaginação – mas de “contemplação direta” (p. 36).
Ou seja – não apenas assume-se uma primeiridade divida, mas, além
disso, uma secundidade contemplativa. Buber e Tillich estão cantando
a mesma ária. Teísmo protestante e teísmo judaico, demonstrando o
mesmo princípio de argumentação, segundo a qual, a fé,
de fato, é firme fundamento.
Na
segunda parte de seu texto (p. 36-39), Martin Buber avança para
tratar do conceito que Espinosa tinha de Deus. Dentre um infinito de
atributos, Deus ostentava dois, fundamentais – “extensão” e
“pensamento”: “em outras palavras, o cosmos e o espírito” (p.
38). Martin Buber vê, aí, um bom argumento para recusar a subjetivação
do conceito de Deus, “pois até o espírito é somente uma das
formas angélicas, por assim dizer, nas quais se manifesta Deus” (p.
38). Ou seja – não apenas Deus é, quanto se manifesta. E isso não
em termos subjetivistas e espiritualistas, mas em termos reais.
O
que, contudo, mais interessa a Martin Buber, autor do clássico Eu
e Tu[3],
é o fato de que Espinosa teria tratado o amor que os homens sentem
por Deus como “o amor de Deus por si mesmo, feito realidade em Sua
criação e cobrindo tanto o amor do homem por Deus como o amor de
Deus pelo homem” (p. 39). Martin Buber via, aí, na teologia do amor
divino, de Espinosa, o fato de que “o mais extremo
anti-antropomorfismo evolui até converter-se em sublime
antropomorfismo” (p. 39). O leitor, contudo, não deve esperar por
qualquer referência a Feuerbach[4],
que, sabe-se, teria muito a dizer a respeito dessa linha de argumentação
de Buber – e de Espinosa. Para Buber, contudo, uma vez assumida como
realidade aquilo que sua fé desenha, essa realidade converte-se em
objeto de referência, como se, de fato, lá estivesse, para além ou
aquém da fé que a instala. Trata-se de “teologia” provinciana
– como, de resto, toda teologia mítico-metafísica. Trata-se de
ideologia que se desconhece como ideologia. Trata-se de mito que se
desconhece como mito.
Um
“Deus” assim torna-se ineclipsável. Trata-se de “um Deus que não
existe como princípio espiritual carente de ser salvo na mente de
quem o pensa, mas como realidade, uma realidade subsistente por si
mesma, absolutamente independente de nossa existência” (p. 39).
Martin Buber gostará de utilizar-se do eclipse solar como metáfora
para o “ocultamento” de Deus, fenômeno que ele diz marcar a
cultura contemporânea – 1951. “Um eclipse do sol é algo que tem
lugar entre o Sol e nossos olhos, não é o Sol mesmo” (p. 48). Bem
se vê que, na analogia, o “Sol” está para “Deus”, como o
“eclipse” está para o fenômeno cultural do “ocultamento” de
Deus. Vê-se, pois, que Buber não “problematiza” o objeto da fé
– Deus: ele o assume, o instala, o fundamenta. E o que a fé assume,
instala e fundamenta é – como – o próprio Sol: está lá. Quem não
vê, é porque há um eclipse entre
o Sol-Deus e os olhos (a fé) do sujeito. O argumento é idêntico ao
do Evangelho de João – a Palavra veio para os que eram seus, mas os
seus não a receberam: “Ela era a
luz verdadeira, que ilumina todo homem, vindo ao mundo. No mundo
estava, e o mundo por meio dela foi feito, e o mundo não a
reconheceu. Para os seus veio, e os seus não a
receberam (Jo 1,9-11). Em tudo isso, é a fé
quem opera cada palavra, cada relação sintática, cada expressão
semântica. O discurso é “situado”. Seu eixo referencial é a fé.
Todo ouvido posto fora do eixo axial da fé tem interposto entre os próprios
olhos e Deus uma Lua. Deus permanece lá, mas a Lua o está escondendo
dos olhos humanos.
Naturalmente
que um tal discurso desse não se abre, minimamente, à discussão.
Diante dele, somente se pode: a) ouvi-lo, e recebê-lo, b) ouvi-lo, e
recusá-lo. Recebê-lo, é abrir-se passivamente ao seu conteúdo,
independentemente de sua forma. Recusá-lo, por outro lado, pode ser
feito por meio de dois expedientes: a) um, ateísta (logo, conteudístico),
b) outro, epistemológico (logo, metodológico). Se o expediente é
ateísta, o argumento será o mesmo de Buber, mas ao inverso – não,
não há “nada” lá. Se
epistemológico, o argumento não se concentrará no conteúdo, mas no
caminho que se percorre para se chegar lá, na estrutura de sustentação
do discurso, na sua lógica, nos seus argumentos. E, nesse caso, o
diagnóstico é um só – fideísmo voluntarista.
Não
me surpreende que Buber retroaja uma tal posição até Platão (p.
42), que se caracterizaria (ao lado de Plotino, Descartes e Leibniz)
pela aceitação, no mundo, “da realidade de uma visão ou de um
contato que determina diretamente nossa existência”. Buber não está
apenas interessado em afiançar a primeiridade de Deus, mas o seu caráter
relacional – nada mais judaico. Por isso, polemiza com Hegel, que,
segundo Buber, teria assumido “Deus” como Idéia absoluta: “a
razão universal, a Idéia, quer dizer, Deus” (p. 43). O problema de
Hegel, segundo Buber, não está na dimensão da “primeiridade”, já
que Hegel assumiria que o absoluto “utiliza tudo o que existe e se
desenrola na natureza e na história, inclusive tudo o que
relaciona-se ao homem, como instrumento – quer dizer, instrumento de
Deus – para sua auto-realização e perfeita consciência de si
mesmo” (p. 43). Como se vê, quanto à ontologia, Buber e Hegel não
destoam. Mas, sim, na postura relacional de Deus, assumida por Buber,
e, segundo este, recusada por Hegel (p. 43)[5].
Hegel operaria uma espécie de encarnação do absoluto, superando a
“religião ‘revelada’ (offenbarte)”
pela “religião ‘manifesta’ (offenbare)”,
de modo que, segundo Buber, Hegel assumiria
que “já nada há misterioso acerca de Deus”, arrancando de
Buber seu juízo categórico: “nada misterioso, por certo, salvo que
o que aqui e agora se chama Deus já não pode ser para o homem esse
Deus que encontra, profundamente misterioso e ao mesmo tempo
manifesto, em suas desesperanças e em seus arroubos” (p. 44).
É
curioso como, para Buber assentar – categoricamente – a
“primeiridade” de Deus, logo, sua absoluta independência humana,
é forçado a reportar-se à “experiência humana”, aos
“encontros” humanos com essa mesma divindade absoluta e
relacional. E, antes que lhe seja advertido que, sendo assim, porque
nem todos encontram o absoluto relacional, o próprio Buber,
rapidamente, se antecipa é que há um eclipse de Deus, na
modernidade. Mas, alto lá, grita: não é que o próprio Deus,
absoluto, “morra” ou “desapareça”. É antes a experiência
religiosa moderna que, na forma de uma grande Lua, põe-se na frente
dele, e projeta sua sombra sobre os olhos humanos. O Deus absoluto
continua lá, mas os homens perdem sua capacidade de relacionar-se com
ele. Sim, o homem pode recusar-se a relacionar-se, mas isso não
significa, não para Buber, que o Sol tenha deixado de arder:
“Aquele a quem o nome indica vive na luz de Sua eternidade. Mas nós,
‘os assassinos’, seguimos habitando na escuridão, destinados à
morte” (p. 49). Com um agravante não-evangélico, eu perceberia –
esses “assassinos” não matam um cordeiro, que, de resto, é a
condição de sua própria salvação. Logo, seriam mesmo bastante risíveis
e estúpidos.
Quando
insisto na necessidade de a religião – a teologia – passar pelo
filtro heurístico, proporcionado pelo desenvolvimento das Ciências
Humanas desde o século XIX e XX, e amadurecidas, insisto justamente
por esse recorte “patológico” da fé. O elemento patológico, aí,
é, imaginar, o que é legítimo, substituir a imaginação pelo real
(o que é arriscado), e, finalmente, tomar a todos em função da própria
imaginação. Por meio desse raciocínio, todos os homens e todas as
mulheres somos assassinos, posto que contamos às crianças, quando vão
crescendo, que os mitos de infância, que lhes contamos, eram apenas
jogos de linguagem fantástica, retórica feérica para a educação
maravilhosa dos pequenos e lúdicos projetos de nós mesmos.
Será
por vingança, então, que o fazemos?
[1]
Cf. Charles Sanders PEIRCE, Semiótica.
3 ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.
[2]
Cf. Martin BUBER, Religión y Realidad, em Martin BUBER, Eclipse
de Dios – estudios sobre las relaciones entre religión y
filosofía. México: Fondo de Cultura Económica, 1995, p. 25.
[3]
Martin BUBER, Eu e Tu. 2
ed. São Paulo, Moraes, 1977.
[4]
Cf. Ludwig FEUERBACH, A Essência
do Cristianismo. Campinas: Papirus, 1988, particularmente, p.
77-85, e isso, independentemente da crítica que Karl Marx faz a
Feuerbach em suas Teses
sobre Feuerbach (cf. Georges LABICA, As
‘Teses sobre Feuerbach’ de Karl Marx. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1990, p. 30-35.
[5]
Buber, inclusive, informa que a
“famosa” declaração de Nietzsche – “Deus está morto”
– foi originalmente empregada por Hegel: “Heidegger tem
assinalado ultimamente esta relação. Em seu ensaio ‘Fé e
Conhecimento’, escrito em 1802, Hegel tratou de expressar a essência
do sentimento ‘sobre o qual se apóia a religião da era
moderna’ mediante as palavras ‘o mesmo Deus está morto’.
Hegel se refere em sua explicação à frase de Pascal, ‘o Deus
perdido’. Mas estas três expressões assinalam na realidade três
etapas muito diferentes de um só caminho” (Martin BUBER,
Religión y Realidad, em Martin BUBER, Eclipse
de Dios – estudios sobre las
relaciones entre religión y filosofía.
México: Fondo
de Cultura Económica,
1995, p. 45, nota).