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Neurose
e Metáfora
Osvaldo
Luiz Ribeiro
29/05/2007
Quero
crer que a metáfora sabe. A metáfora é lúcida. A metáfora não sofre
de disfunção cognitiva, de dislexia, de males da mente. A metáfora é
consciente. Se me pego crendo – e dizendo – que a metáfora é um
dizer passarinho, pousando de galho em galho, à toa, eu é que me pego em
flagrante delito de disfunção cognitiva. Sim, porque a metáfora pode até
ser passarinho, pousando de galho em galho, mas – jamais – à toa, senão
que sabendo, ela mesma, em que galho, e por que esse galho, e não aquele.
A
metáfora se desenha depois da
imagem. Primeiro a imagem, o discurso. Depois, a metáfora. A carruagem de
fogo rasga a vereda azul é uma metáfora, que descreve o percurso do sol,
opticamente considerado, sob a perspectiva de um sujeito situado no
planeta. O sujeito olha, vê a bola de fogo percorrendo o céu, e faz
poesia com isso. Metáfora, vá lá, mas que sabe o que está dizendo.
Isso que ela está dizendo não é a leitura, eventualmente possível. Mas é uma leitura,
perspectivisticamente elaborada, possível a qualquer mortal, sabida,
reconhecida, funcional. O sujeito sabe que o sol caminha, e o diz, dizendo
que a carruagem de fogo rasga a vereda azul.
Metáfora,
portanto, é consciência pura. Despejada em poesia, que seja, de um jeito
que faz tremer a solidez do discurso prosaico, mas que, contudo, sabe,
tanto quanto o discurso prosaico, o que está falando.
Mesmo,
diga-se, trate-se de metafísica. Não há, em tese, qualquer
incompatibilidade essencial entre metáfora e metafísica. Basta que um
objeto metafísico seja tomado sob discurso, tomado como sabido, trazido
à consciência, e ei-lo disponível à metáfora. O coração do Amor
sangra misericórdia sobre a alma contrita é uma metáfora. Tanto quanto
aquela, aplicada ao sol. Não faz a menor diferença que o sol seja um
objeto do mundo físico, e que Deus seja, a seu tempo e modo, um objeto do
mundo metafísico. O discurso subjetivo torna um e outro elementos de seu
mundo representativo, e os iguala, tornando-os objetos conhecidos,
manipulados, conscientes. E, então, o sujeito pode fazer metáfora.
Porque só se faz metáfora com o que se conhece.
Deve-se
ter em mente que, sim, há diferença entre o sol e Deus enquanto objetos,
uma vez que o sol é um sistema do mundo físico, enquanto Deus é uma
personagem do mundo noológico. A metáfora, contudo, trata ambos da mesma
forma, porque, para a metáfora, cogumelos e duendes têm a mesma consistência
ontológica.
Não,
metáfora não é um jeito de se falar do que não se conhece. Metáfora
é um jeito conotativo de se falar, por associação e analogia, de um
objeto qualquer, conscientemente configurado. Deve-se, primeiro, ver a
coisa, para, depois, falar dela, metaforicamente. E não é que a metáfora
fale do que não sabe. Fala é porque sabe.
Quando
a metáfora aplica-se a Deus, qualquer que seja ele, aplica-se a alguma
coisa que já conhece, que já desenhou, que já escreveu, que já viu, de
modo que não se trata, mais, de mistério. A metáfora não conhece o
mistério. A metáfora não conhece o silêncio. Ela é tagarela.
Quando
a metáfora tenta dizer que Deus é mistério, ela tenta, apenas, gerar
mais magia sobre sua própria percepção. Porque ela, no fundo, e no
raso, sabe quem é Deus, e tanto, que fala dele. Constrangida, a metáfora,
contudo, percebe que acaba de capturá-lo, de modo que, incontinenti,
tenta, debalde, cobrir-lhe de nuvens, de véus, de mantos. Inutilmente.
Porque seja Deus, sejam as nuvens, os mantos, os véus, tudo isso são
coisas domesticadas, representações muito conscientes. É tão somente o
constrangimento do próprio sujeito, e sua percepção de que, falando,
destrói Deus, que o leva, em vão, a querer ocultá-lo. Coisa,
entretanto, inútil, já que a metáfora é justamente uma pulsão de
falar.
Quer-se
deixar Deus quieto? Negue-se a ele até a metáfora. Apenas o silêncio, o
absoluto silêncio, pode conter os limites da idéia de Deus. Esses que aí
vão, arrastados nas teologias, nas doutrinas, nas contemplações místicas
dos místicos e nas metáforas modernas da envergonhada teologia-poesia são
como que caricaturas humanas, filhas da vontade incontrolável de falar de
si.
Feuerbach,
Feuerbach, meu amigo. Ainda serão necessários muitos anos, muitos,
muitos anos, para nos darmos conta de que falar como que dele é, sempre,
inexoravelmente, falar de nós mesmos, e que a metáfora é excelente
disfarce para a pulsão dessa neurose. Eu quase chego a ver em ti um anjo,
mandado por ele, para suplicar-nos a que o deixemos. Em paz.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
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autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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