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No
pote de balas coloridas
–
instabilidade, probabilidade, irreversibilidade
Osvaldo
Luiz Ribeiro
(01/09/2007)
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"A
ciência moderna baseia-se, pois, na noção de ‘leis da
natureza’. Estamos tão acostumados com ela que para nós
se tornou algo como um truísmo, e, no entanto, ela
encerra implicações muito profundas. Uma dessas características
essenciais consiste precisamente na eliminação do tempo.
Sempre pensei que em tudo isso o elemento teológico
tivesse desenhado um papel importante. Para Deus, tudo é
dado; novidade, escolha ou ação espontânea dependem do
nosso ponto de vista humano, ao passo que aos olhos de
Deus o presente contém o futuro, assim como o passado.
Sob essa ótica, o estudioso, graças ao conhecimento das
leis da natureza, aproxima-se progressivamente do
conhecimento divino. Sem dúvida, é preciso dizer que
esse programa teve um êxito extraordinário, tanto que
muitas vezes pareceu ter-se chegado à sua realização
completa".
(Ilya
Prigogine, As Leis
do Caos. UNESP, 2002, p. 15).
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"Devo
agora deter-me e falar em nome da grande fraternidade que
une os especialistas em mecânica. Hoje estamos plenamente
conscientes de como o entusiasmo que os nossos
predecessores nutriam pelo maravilhoso êxito da mecânica
newtoniana os levou a fazer generalizações no campo da
preditibilidade... que hoje sabemos serem falsas. Todos nós
desejamos, por isso, apresentar nossas desculpas por haver
induzido em erro o nosso público culto, definindo, a
respeito do determinismo dos sistemas que aderem às leis
newtonianas do movimento, idéias que após 1960 se
revelaram inexatas".
(Declaração
de James Lighthill, como presidente da Union Internationale de Mécanique
Pure
et
Appliquée,
em 1986. Cf.
J. LIGHTHILL, The Recently Recognized Failure of
Predictability in Newtonian Dynamics, em
Proceedings
of the Royal Society, v.
A/407, p. 35-50, 1986, apud
Ilya PRIGOGINE, As
Leis do Caos, p.
33-34).
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Eu
devo começar o presente ensaio confessando minha absoluta
indisposição diante de qualquer “teoria” determinista. Sim,
trata-se de uma confissão, e tenho consciência de que uma tal prévia
indisposição de ânimo diante de tendências predibilistas pode
constituir, em relação à minha performance epistemológica, ou
uma fraqueza, ou uma força. No momento, aposto que constitui uma
força, mas o futuro é quem dirá.
Não
se trata, contudo, de um recalque de toda e qualquer determinismo
contingente da vida. Isso seria um absurdo. A morte é um
determinismo – inevitável. Fala-se, hoje, em demortalidade, ou
seja, o estado de desenvolvimento da ciência que proporcionaria
– e não se espera esse dia para muito longe – a substituição
ininterrupta de órgãos essenciais do corpo humano, em caso de
falência. Assim, um coração poderia ser substituído inúmeras
vezes, tanto quanto um pé, ou um olho. Não se trata de
imortalidade, porque sempre haverá o risco de traumas irreversíveis.
Mas a morte tenderia a tornar-se um evento necessariamente traumático,
diante de cujas circunstância seria impossível a intervenção médica.
Imortalidade, não – demortalidade. Mas, ainda assim, pairaria a
inescapável foice da morte sobre a espécie humana.
O
que me aborrece é, contudo, a tentativa de inserir-se a existência
humana no centro de uma esfera determinista absoluta. Diga-se o
que se quiser dizer, inclusive que se trata de uma defesa psicológica
essa minha atitude. Não contestarei. É mesmo uma defesa. E uma
defesa não contra a vida, mas contra manipuladores da vida. Antes
de tudo, os manipuladores religiosos.
O
Pote de Balas Estava Fechado
Até
o mais longe onde se pode ir, a perspectiva determinista tem
origem na teologia. Deus (o Ser
[?]) passou à frente da casa de Parmênides, e foi aprisionado. O
Ser de Parmênides – agora em sua gaiola – era uma coisa Imóvel,
Imutável e Eterna. Imóvel, porque, sendo o Ser
que se diz ser, está em tudo. Se está em tudo, não tem como
mexer-se daqui para ali, nem de lá para cá, porque ele já
está aqui, ali, lá, cá e acolá. Imutável, porque o Ser – coisa incrível – é tudo. Sendo tudo, nada há que não
seja. Logo, não pode deixar de ser uma coisa, para tornar-se
outra, porque já é
tudo. Eterno, porque, sendo o fundamento de tudo, não se pode
cogitar de um “algum dia” quando o Ser
não estivesse, nem tão pouco um dia quando o Ser
não seja mais. Nessa perspectiva, a vida humana não passa de um
“capítulo” desse marasmo imobilista – determinista.
O
Ser de Parmênides saiu
da gaiola e pousou na janela de Platão, que lhe pôs uma argola
em torno da pata, e lhe podou as asas. Transformado em Idéia –
incontaminável pela “ilusão” da matéria bruta, matéria que
está sujeita à transformação, à mudança, à deterioração,
ao apodrecimento, ao movimento, à imperfeição, ao erro, ao
grosseiro, à erosão – o Ser-Deus-Providência
pára, agora,, sobre o “mundo”. Cá embaixo (?), os homens e
as mulheres seguem sua existência – destinados à morte eidética,
salvo, contudo, se abraçam a Idéia, e renegam suas existência
concretas. Entregar-se à orientação do filósofo, pedagogo do Ser,
e caminhar contra as aparência, mas em segurança, rumo ao Sublime. Pode parecer que o Ser-Deus-Providência
de Platão seja mais tênue, menos sólido, do que o Ser de Parmênides. Não penso assim. O Deus de Platão tornou-se protegido de todo contato com o mundo das
transformações – Heráclito tornou-se seu demiurgo. Heráclito
dissera que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Heráclito
olhava para o rio. Heráclito dava atenção às transformações
cotidianas. Ao risco. A flor, durante horas, forçando-se a
abrir-se à luz e às línguas lascivas de miríades de insetos,
mas, ah, tragédia, uma menina a colhe, e põe no cabelo...
Platão
tinha uma deformidade nas sete vértebras cervicais, de modo que
a cabeça lhe pendia para trás, e só podia olhar para cima.
Houve quem dissesse que não, não se tratava de má formação
congênita dos ossos do pescoço, mas de um espectro maligno que
lhe agarrava os cabelos, assim, pouco acima da nuca, e os puxava
com muita força para baixo, de modo que a cabeça ficava para
cima, coitado. Num ou noutro caso, Platão adquiriu um vício
metafísico, e o Ser foi expulso do planeta, da matéria. Ficamos à deriva.
Não,
não ficamos. Não demorou muito para que Platão fizesse fama
entre os judeus de Alexandria. Daí, passou a Paulo, e, de Paulo,
a Agostinho. O vírus neoplatônico contaminou o Ocidente. Deus
assumiu o controle? Não exatamente. Nenhuma teocracia é, de
fato, uma teocracia. Todas as teocracias são, na verdade,
hierocracias. Todos de pescoço torno, como Platão. Olhando para
cima. Mas com o dedo em riste, dirigido a nós, mortais. O Ser-Deus-Providência
de Platão, agora cristão, precisa de mediadores, porque sequer
tem uma boca física com que fale. Serve-se da boca de senhores e
de senhoras que lhe repetem as instruções. A mais comum dentre
elas: tudo está decidido. Não há surpresas. Ou, como Einstein
gostou de afirmar até os últimos momentos da vida: Deus
não joga dados.
Quanto
a mim, eu prefiro achar é que os hierocráticos senhores do
governo “teocrático” é que não querem saber de um sistema
imprevisível. Nada como um hierocrático semi-divino dormir todas
as noites, sabendo que, amanhã de manhã, quando ele acordar,
tudo estará como sempre esteve, e ele, claro, onde sempre está.
O que fazer com um sistema onde as coisas nunca estão onde devem
estar, onde é o lugar delas?
Ah,
mas nem sempre é tão fácil. A hierocracia dorme, torcendo para
que o mundo construa-se à semelhança do Deus
parmenidesiano-platônico, mas, invariavelmente, quando acorda,
sempre tem de lidar com pessoas – ah, as pessoas – que
insistem em querer dar um passo para o lado (errado!). A perfeição
determinista da catedral fica prejudicada. É necessário, então,
o exercício do direito e da justiça, e a correção de rumo,
digamos assim, torna-se uma ferramenta importantíssima da política
de Estado.
É
curioso recordar que, em certo momento, quando a catedral soltou
reboco, e um pedaço caiu em Genebra, o pedaço comportou-se como
em plena esporulação, e desenvolveu-se na forma de uma nova
catedral determinista. Não entendi até hoje, no fundo, a razão
de o esporo não ter voltado ao fundo original, porque, afinal,
apenas a gestão política mudou ali. A gestão – porque as
ordens são as mesmas: mandam quem podem, obedecem quem têm juízo.
Perdoem-me os leitores, mas minha alma tem horror a tudo quanto
soe coercitivamente impositivo.
Mas
nós já sabemos que essa história deu no que deu. Tanto fez o
Senhor Hierocrático, que lhe expulsaram do palácio,
trancafiaram-no na catedral, e que ele fique lá, olhando para as
estrelas, a ver anjos e demônios, ele e aqueles que sentem
saudades. O palácio, contudo, foi tomado por uma turba
emancipada.
Que,
contudo, crescera ao pé da laranjeira. As laranjas que chupara a
vida toda, colhera-as de lá. Resultado? A emancipação humana
desenhou-se ainda sob o regime do determinismo. Newton, por
exemplo, quando pensava o Universo, pensava para além das impressões
sensoriais, onde as transformações são inescapáveis, a
irreversibilidade, irrevogável, as incertezas, instransponíveis.
Pensava com o pescoço neoplatônico, com os olhos parmenidesianos,
um Ser à semelhança de Deus. Sim, do Deus da fé. Que, ironia, nascera do Ser
da mitologia-filosofia grega. Um círculo vicioso. Girando.
Girando.
O
Tempo, por exemplo, por mais que nossos sentidos o tomassem por
uma grandeza ineludível – iniludível –, foi artificialmente
tomado da teologia. O Tempo não era o tempo dos homens – maya
–, mas o Tempo de Deus. A Natureza estampa, ainda que de modo
imperfeito, a impassibilidade metafísica do Ser.
No Universo, tudo é Ordem. Tudo é Organizado. Tudo tem seu
Lugar. Tudo é Determinado. O Universo é o reflexo de Leis
Naturais. Imutáveis. Eternas. Sobredeterminantes.
Num
cenário de pura matemática e estética da ordem, a efervescência,
a balbúrdia, a excitação humana constituíam, novamente,
defeito, insuficiência, inadaptação, pecado.
Tentou-se superar também essa
dimensão demiúrgica. Comte pensou poder descobrir as Leis
Naturais também por trás da espuma aparentemente desorganizada
– descontrolada! – da sociedade humana. Ah, se as Leis
Naturais que certamente
regem os homens puderem ser descobertas,
tanto quanto é possível prever-se eclipses solares e
alinhamentos planetários, poder-se-ia prever o movimento sistêmico
das massas. Quantas possibilidades! Um Admirável Mundo Novo se
anuncia.
O
Estruturalismo bebeu dessas águas. Uma vez que as Leis Naturais não
puderam ser descobertas – pelo contrário, quanto mais se
enfiava a mão dentro da carne humana, mais se descobria o caos,
uma psiquê ignorante de si mesma,
inconsciente-semi-inconsciente-consciente, um Homo
demens –, estabeleceu-se a
priori, a fé estrutural-determinista, cuja principal conseqüência (programática?)
é a dissolução do sujeito, da história, o escárnio de Heráclito.
Gosto muito da leitura que Carlo Ginzburg faz do estruturalismo
em seu Relações de Força.
É natural que alguém que pretenda ser possível contar a vida de
um insignificante (?) moleiro italiano do século XVII tenha umas
verdades a dizer ao estruturalismo.
Mas
os anos sessenta chegaram, finalmente. E até na Física. As Leis do Caso e O Fim das
Certezas, de Ilya Prigogine narram as transformações por que
as “ciências duras” passaram, desde então, nesses últimos
quarenta anos. A que mais me interessa é justamente essa – o
Tempo retornou. E, com ele, a instabilidade, a probabilidade, a
irreversibilidade. Um pote cheio de balas. Posso enfiar a mão?
Talvez. Depende. É meu? Não é? Tem alguém olhando? Não tem?
Meto a mão. De que cor será a bala? De que sabor? Amarela? Roxa?
Verde? Ah, as amarelas costumam ser muito gostosas, mas,
curiosamente, sempre parece haver menos delas nos saquinhos de
jujubas e delicados. Tiro a mão. Pronto. Acabou. Fez-se história.
O
Pote de Balas e a “Hermenêutica”
Que
a Física tenha admitido não apenas a existência do pote de
balas, mas, acima de tudo, que ele está aberto, digamos, oficialmente,
na década de sessenta, não significa que foi aí que os olhos se
voltaram para a mesa, e, sobre ela, para o pote de balas
coloridas.
O
Romantismo alemão – num recorte relativo especificamente à
epistemologia – já sabia disso, quando enfrentou
programaticamente o Racionalismo de Estado francês. As palavras
“Assombro” e “História” já anunciavam que o Universo era
um pote de balas, que Deus
jogava dados.
A
rigor, essa parcela específica do Romantismo alemão apercebeu-se
do fato de que Deus deixava a cena. Nietzsche vai denunciar sua
morte um pouco mais adiante, e, com esse gesto – jornalístico
– nada mais fará do que deparar-se visualmente com a cena. No
fundo, seu corpo nunca foi encontrado, mas, dado o fato de que a
“civilização” ocidental começava a aprender a caminhar com
os próprios pés – bem entendido, sem a casta hierocrática a
indicar-lhe por que alpondras deveria transpor o mistério da vida
–, era de se pressupor a morte do Ancião de Dias (não faz
pouco tempo, contudo, compreendeu-se que a demissão da corte
hierocrática não significou, necessariamente, a morte de Deus,
porque, como o rabi Yochanan Ben Zakai, ele apenas saíra fugido
num caixão, mas vivíssimo, conforme Vespasiano testemunharia
pouco depois. E tanto, que é possível saber dele, sob autorização
romana, ensinando judaísmo em Iavne. Não é – será – uma
tarefa fácil “matar” Deus. O caso inglês, por exemplo,
demonstra como é mesmo possível um acordo de cavalheiros: uma
monarquia decorativa, “para inglês ver”, uma divindade
decorativa, ao gosto deísta: deus
otiosus. Ao contrário do que pensam alguns aposentados
deprimidos, aposentadoria não é morte. Sempre há (novas) coisas
a se fazer.
Mas
voltemos ao Romantismo alemão, ao “assombro”, alemão, à
história “alemã”. Eu não conheço expressão moderna mais
profunda do que essas duas. Contextualmente falando, elas são retóricas
específicas, obuses homiléticos contra a Deusa Razão napoleônica,
e é assim que precisam ser analisadas. A Revolução Francesa
havia retirado o chão ontológico-teológico da hierocracia,
substituindo-a (aqui o assumo didaticamente, é claro) pelo
conceito de República: o mundo, a vida, nós, não somos dos
deuses – da Igreja! –, mas de nós mesmos. Nem reis, nem
“padres”, a crer no testemunho remontado a Jean Meslier,
setenta anos antes de a França fazer história.
Até
1789 – didaticamente – os fundamentos estão bem assentados. A
teologia – Deus – é tanto o fundamento político quanto filosófico.
Deus está sentado em um alto e sublime trono. À sua direita, Constantino, em seu barroco rubro-dourado. Os dois tem as mãos
dadas, e isso significa que o fundamento da política, da ética,
da moral, essas questões de caráter sócio-político, é teológico.
Se você cava – e não precisa ser muito fundo – para ver o
que sustenta a sociedade, logo pode observar os primeiros tufos
das cãs divinas, porque os alicerces da catedral humana
soerguem-se altaneiras desde sobre a cabeça divina. À esquerda
de quem posta-se um parmenidesiano Platão mitólogo/político/filósofo,
estrategista epistemológico dos fundamentos divinos, mitoplasta dA
República, mas, sobretudo, das Idéias fundamentais. Ah, que
excelente conjunção essa entre a filosofia-mitologia e a política.
Que dupla fazem Platão e Constantino.
Pois
bem. Quando a Bastilha cai, os fundamentos esboroam-se. Todos. É
preciso reformá-los, urgentemente. Negociações entre a política
republicana e a filosofia liberal inglesa intentam em desenvolver
uma modelo – ainda imperfeito – de Estado Democrático de
Direito. O fundamento político torna-se democrático – ao menos
em termos, talvez, apenas, em tese. Seja como for, o Ocidente
aprendeu a acender e a apagar a luz do sol diariamente. Não se
conseguiu, ainda, aí, a cura contra a teologia do direito político,
e, volta e meia, um governo qualquer sente nostalgia. A República
torna-se uma paródia grotesca de Olimpo. É preciso dar tempo ao
tempo.
No
campo da “ciência”, viu-se que a emancipação escondeu vícios
teológicos – a noção de tempo como ilusão do (pecado do)
homem. Como Prigogine informou, há vinte e um anos –
maioridade! –, descobriu-se que a teologia ainda dava cartas, e
corrigiu-se esse ponto (quantos outros ainda restarão?). Assim, a
política vai aprendendo a caminhar com pernas humanas, e a ciência
vai chegando à conclusão de que, também ela, não tem inclinação
à divindade, reconhecendo que os olhos científicos são, afinal,
bastante humanos, também.
Mas
houve uma crise. A crise hermenêutica. Dessa, ainda não saímos.
Bem, talvez a porta já tenha sido aberta, mas vejo uma confusão
infernal de gente, correndo pra cá e pra lá, tão agarrada a uma
perspectiva unilateral que, afinal, não é nem que não enxerguem
a porta, não conseguem mesmo é sequer ver que ainda refletem a
partir da ótica teológica. O comportamento aí parece
equivalente àquele do teísta que, convencido de que não há
Deus, torna-se ateísta, sem dar-se conta de que, apenas, virou a
moeda que tinha não mão, quando devia é ter mudado a forma de
pensar a moeda.
A
“hermenêutica” moderna emergiu no e do cadinho alquímico do
romantismo. Seu parto põe-se às portas do nascimento das Ciências
Humanas. Pode-se traçar uma linha desde Schleiermacher e Dilthey,
até Heidegger e Gadamer. Eu penso que as coisas começarem muito
bem. Cuido que avançaram adequadamente. Mas chegaram a um ponto
em que – receio – tenha se perdido de vista o objetivo da
caminhada.
Quando
Schleiermacher e Dilthey começaram a partida – e, sim, afirmo
que se trata de um jogo
social –, tinham nas mãos um problema heurístico grave. Com a
dissolvição e a dissolução dos fundamentos retóricos pré-românticos
(teológico-medievais), perdeu-se o fundamento do “sentido”.
Ainda que Pedro eventualmente assuma a cátedra – e se torne
infalível ali pelos mesmos dias –, ainda que Karl Barth vá
propor que se finja ter sido um sonho – uma demência – a
Revolução Francesa e a emancipação romântica do espírito
humano (para não mencionar o acordo fundamentalista
estadonidense) –, a sociedade, agora, emancipada, não
“sabe” mais qual é o fundamento da consciência humana. O que
é “saber”? O que e “compreender”? Se não há – mais
(graças a Deus) – alguém a dizer o que é e o que não é, isso
que agora é uma tarefa, em tese, coletiva, o que, efetivamente,
vem a ser isso?
Muito
coerentemente, já que se trata de traçar fundamentos humanos
para a compreensão humana, as primeiras reflexões da “hermenêutica”
resultam em propostas de caráter histórico-psicológico. A
compreensão humana deve consistir em processos que envolvem tanto
a psicologia, quanto a história. O “sentido” é uma função
humana, logo, reside na intencionalidade. O homem achava-se entre
irmãos de angústia, e o Romantismo ganhava um ponto.
Heidegger
recebe a tradição hermenêutica de Dilthey (também de
Schleiermacher) e a aprofunda. Não é que os homens
“interpretem” – eles são pura interpretação. Hermenêutica
não é uma coisa que os homens fazem, mas é aquilo que faz os
homens serem o que são. O Homo
sapiens é um Homo
hermeneuticus.
O
que parece tão claro, corre o risco, contudo, de bifurcar-se. E,
de fato, há duas estradas diante desse Heidegger. Uma delas é
aquela que traça, por exemplo, Emilio
Roger Ciurana, no ensaio
Antropologia
Hermenêutica (Sobre Dilthey, Heidegger y Gadamer) (será
inocente a ausência de Schleiermacher no título do ensaio?).
Trata-se de uma estrada que une, através de fios,
Dilthey-Heidegger, a Ludwig Wittgenstein e Richard Rorty. Uma crítica
(não muito fácil de ser acompanhada) a essa interceptação da
“hermenêutica” pela dupla Wittgenstein e Rorty – e eu
acompanho em todos os sentidos tal crítica – pode ser lida em
Karl-Otto Apel, Transformação da Filosofia.
Em
linhas gerais – e tais observações parecem-me pessoais – que
a estratégia hermenêutica de alinhar-se Dilthey, Heidegger,
Wittgenstein e Rorty representa, mutatis
mutandis, aquela “troca” de teísmo por ateísmo. O
argumento final da proposição dessa “hermenêutica” – de
que Gianni Vattimo, por exemplo, bebe até à completa embriaguez,
é a completa dissolvição do real, e da completa relativização
de todos os construtos noológicos. À perda do fundamento ontológico
neoplatônico da teologia medieval – da civilização ocidental
– só ode significar, agora, que não haja absolutamente
fundamento algum, a não ser aquele que as palavras inventam. No
fundo, ainda que Emilio Roger Ciurana chegue a afirmar que Rorty
desconsidera Platão, porque Rorty não trabalha com a hipótese
de essências, mas apenas com o conceito pragmatista – não
pragmático – de “linguagem”, o que eu vejo, em Rorty (e, de
resto, no “sistema” hermenêutico daí derivado, onde a Hermenêutica
se torna um visão de mundo), é a abdicação completa a Platão,
ainda que por passagens sub-reptícias. Para que haja um
fundamento firme, é necessário que haja um eixo axiológico primário,
metafísico, desde cuja perspectiva, então, poder-se-ia
contemplar Tudo, e, assim, “saber”. Bem, não há esse ponto,
ou, eventualmente, não temos acesso a ele. Logo, permanecendo
verdadeira aquela afirmação pressuposicional (implícita e não
confessada [ignorada?]), o estado atual da humanidade é de
absoluta não-referenciação, não-fundamentação.
Segundo
esse roteiro, os homens são espectros ectoplasmáticos perdidos
num vale indissociável de sombras e neblina eterna. Não fica bem
claro como, sendo assim, os homens conseguem pôr-se em acordo uns
com os outros – talvez seja genético!, como as tartarugas! –,
mas o fato é que os homens inventam uma linguagem – ou é ela
quem os recolhe, ela, a Idéia neoplatônica disfarçada em estratégia
pragmática? – e, nadando, inertes, dentro dela, jogam um jogo
de dizer palavras.
A
diferença entre esse roteiro, e Platão, é que Platão via
sentido, apenas, nas idéias, enquanto reconhecia, contudo, que,
afinal, é na matéria mesmo que se vive. Essa “hermenêutica”
pragmatista, de estilo rortyano, no entanto, nostálgica das idéias
essenciais, expulsas, talvez, por uma agressão compreensível à
teologia medieval, recalca a ineludível situação hilética
humana, e faz de conta que somos, afinal, fluidos lingüísticos,
gotas espermáticas de um coito retórico. É uma vingança e
tanto. Como a criança, que bate com a cabeça na parede, porque a
mãe não lhe quer dar um biscoito. Está bem, fui excessivamente
irônico. Mas não há como dialogar com essa “hermenêutica”,
porque ela dirá que eu não estou sabendo usar as palavras como
deveria – sob que estratégia mesmo? –, e que eu deveria
aprender a usá-las – com quem mesmo? –, antes de poder estar
à altura do diálogo.
(Outro
dia, no congresso da ABIB, ao término de um comunicação minha,
o frei Ludovico Garmus orientou-me a voltar pra casa, e re-estudar
a passagem bíblica que fora objeto de minha comunicação,
revendo meu hebraico. Pude, gentilmente, dizer-lhe que faria de
bom grado a tarefa, conquanto tinha convicções a respeito do que
estava dizendo. Deixava implícita a sugestão de que ele fizesse
o mesmo, e, em permanecendo a “dúvida” , que se recorresse a
um árbitro neutro. Eu fiz meu dever de casa, e continuo afirmando
o mesmo que disse naquela ocasião. Quando há uma relação entre
“discurso” e “plataforma de análise”, sempre se pode
estar equivocado, sempre se pode corrigir, sempre se pode ser
advertido quanto à possibilidade de equívoco, sempre se pode
dizer o mesmo a quem nos sugere a possibilidade – porque há uma
plataforma sob análise. O problema consiste, nesse caso, no erro,
no engano, na miopia, na self
deception. Mas com Rorty, não. Porque não há uma base sob
análise. O que há são, apenas, palavras. Uma escada interminável
de palavras. O jogo é um jogo de palavras marcadas. Para você
conversar com Rorty, precisa saber usar as palavras – como ele
as usa. Bem, se alguém lhe diz que você não fez seu dever de
casa direito, você pode dar uma resposta. Mas se alguém lhe diz
que você não sabe usar as palavras, o que é que você faz?).
Não
conheço idealismo mais recalcado do que a redução da “vida”
à linguagem. Essa “hermenêutica” é mesmo uma psicografia irônica
do filósofo das idéias,
um fantasma que vem nos assombrar de se túmulo metafísico.
Outra
tendência dessa nova “hermenêutica” traduz-se numa ênfase
no Dasein, assumindo-o
como “expressão eidética de uma entidade” – o
ser-no-mundo. A idéia está em Heidegger, quando ele assume que o
modus vivendi humano é
a “hermenêutica” – e aqui ela nada tem de “discurso”,
como ela vai aparecer em Vattimo. Aí, a “hermenêutica” é a
formulação noológica de uma faculdade intrínseca e
constitutiva da espécie humana. Se Schopenhauer pudera ter intuído
que a vida humana consiste em elaborar representações do
“real”, e nelas “viver” – Vattimo e Rorty recusam esse
“real”, e fica, apenas, com a espuma –, Heidegger, agora,
acrescentava a isso que a consistência de tais representações
era “hermenêutica” – construtivista, e não, reflexiva. Os
homens não refletem representações do “real” – eles
constroem-nas.
Até
aí, nada de grave. Mas Gadamer assume essa herança, e a traduz
na forma de “tradição”. O que em Rorty e em Vattimo é a
linguagem, em Gadamer aparece como sendo a “tradição”. Quase
uma entidade, tão arriscadamente próxima do conceito
estruturalista. Mais uma vez, a hermenêutica deixa de ser uma
estrutura da consciência, e torna-se uma operação pragmatista.
O homem vive na e a tradição, e não pode sair dela.
O
que é comum em ambas as tendências – a dissolução do real e
a deificação ontológica da tradição – e a dissolvição da
instância biológico-material humana. O homem,
enquanto sujeito hilético, e enquanto sujeito às sensibilizações
do “real” dissolve-se numa mônada lingüístico-retórica, ou
dissolve-se no ogro hegeliano do Espírito. Cadê João? João
sumiu.
O
Pote de Balas Aberto
Em
tudo isso, na desesperança “hermenêutica” de recorte
pragmatista e tradicional, no encantamento ontológico de uma ciência
com saudades de Deus, que ainda pensa como Deus, de uma teologia,
escorraçada, mas que permanece enfeitiçando as mentes mais
aparentemente desteologizadas, pressinto uma dificuldade de
livrar-se do modelo metafísico-ontológico, ou, de outra parte,
de admitir que, afinal, foi-se apenas o modelo, e que a vida pode
respirar como sempre respirou, como se nunca houvera tal modelo.
A
fé – epistemologia
– cristã – ocidental – está tão profundamente arraigada
nos espíritos-cérebros do homem ocidental, que, das duas uma, o
ela se desespera de saudades de Platão, ou – estratégia mais
psicologicamente complexa – hostiliza-se o filósofo
das idéias, para, contudo, representá-lo num recorte cenográfico
recalcado.
A
idéia de “verdade” está tão inextricavelmente agarrada à
idéia de “verdade ontológica” que a dissolvição da metafísica
deveria corresponder – deve corresponder –, necessariamente,
à dissolvição da idéia de verdade. Quanto mais se achincalha a
teologia, mas ela se diverte em ver seu reflexo na retórica que a
trancafiou nas catedrais. E como se Verdade e Justiça fossem
atributos de Deus. Morto ele, morrem aquelas. E isso mesmo
eideticamente, porque as idéias dissolveram-se com o cadáver de
Platão.
O
equívoco me parece tão grosseiro, que chego a desconfiar de que
meu ensaio careça de procedência. Contudo, Edgar Morin incentiva
a produção de ensaios, e aqui estou. E para dizer que não é
necessário atribuir-se à teologia a gestão da verdade e da
justiça. Assim como o Estado Democrático de Direito trabalha com
um conceito ético humanista, porque a justiça, afinal, consiste num postulado noológico
humano – demasiadamente humano –, também a verdade deve ser
tomada como um construto noológico humano.
O
primeiro passo é a admissão do caráter hilético da vida
humana, sua dimensão biológica e física. Verdade como adequatio é um conceito fundamental da biologia, porque a vida
depende – inexoravelmente – de mecanismos de adaptação ao
“real”. Sugiro a leitura de O
Método 2 – a vida da vida, de Edgar Morin. A “verdade”
como adequatio emerge
desde as bactérias e as amebas, até a emergência do espírito-cérebro
nos sujeitos humanos conscientes. Bastaria esse capítulo para
fazer ver a absoluta desmaterialização da “hermenêutica”
rorty-vattimoiana – mesmo os fundos mais “primitivos”
precisam comunicar-se
eficientemente com o “real” – ainda que sua linguagem seja
química, e não-noológica. Não se dá algo de muito diferente
no caso humano. Há um nível da verdade que corresponde
justamente a essa adequatio
físico-biológica ao “real”. Além disso, o conceito
quase-ontológico de tradição na vertente heidegger-gadameriana
da montanha hermenêutica” poderia ser – talvez – válida
para o mundo biológico não-humano, onde cada ser-vivo responde,
inapelavelmente, à pulsões genético-congênitas inconscientes.
E, contudo – ironia! – foi justamente desse universo determinista
que emergiu a espécie demens,
nós, alguma coisa entre anjos e demônios, entre andorinhas e
abutres, entre prazer e dor. Nem ainda assim, reduzindo-se à
dimensão biológica da vida humana, uma noção
quase-determinista de tradição, de inescapabilidade traditiva,
sustenta-se por muito tempo. A idéia fixa de um Deus Monarca –
que a tudo guia e dirige, cujas ordens fazem-se ouvir desde os
protozoários mais simples, até à elaboradíssima espécie
humana – parece constituir uma neurose, como bem justamente
Freud intuiu. Não necessariamente a religião seria essa neurose,
mas a neurose humana de precisar compreender-se como determinada
desde fora.
Ah,
a solidão parece assustadora. Olhar para as estrelas e não ter a
quem pedir socorro. De ter de assumir a responsabilidade a cada
passo. Pavoroso. Que essa
é a idéia fixa, e não a própria idéia de um deus, ou de
quantos deuses sejam, parece indicar essa neurose de, mesmo
deixando Deus de fora do jogo humano, concentrar-se esforços na
elaboração retórica de um Alguém qualquer – linguagem, tradição
– que me justifique.
Nesse
caso particular, penso que a prática política humana tenha
percebido muito mais rápido que não há tempo para choramingações
pequeno-burguesas - iuris esperniandi - , nem dinheiro para análises intermináveis.
Politicamente, resolvemos – muito bem – o abandono humano a si
mesmo. O Estado Democrático de Direito assume a solidão humana
(o homem está só), a solidariedade humana (os homens estão sós,
juntos), a solidez
humana (os homens bastam-se), a solicitude humana (os homens
precisam de ajuda). A crise ecológica planetária talvez seja a
última barreira para a sedimentação sociológica na ecosfera. A
sociedade política humana havia perdido de vista a sua ligação
intrínseca com sua casa.
Recém-saída das catedrais, achou que flutuava numa bolha
imaterial. Mas, não – era bem o contrário. E a bolha, agora,
reclama.
Crise
bem-vinda. Vai despertar o Estado Democrático de Direito para a
verdade enquanto adequatio.
Cada vez que eu piso a terra, meu pé sente, e a terra sente.
Reciprocidade. Interconexão. Vivemos no
real.
Não,
não chegaremos a ver esse real, nunca mais, como achávamos que o
víamos, ou como pensávamos poder vê-lo, um dia. Nossos olhos são
olhos reais, olhos de ver, sim, e vêem, sim, mas não são olhos
divinos, com os quais se pode chegar a ter a visão desde
Deus. Isso é bobagem. Como bobagem é considerar-se que, por
causa disso, não há sequer olhar.
Mas há, sim. Nascemos com ele. E chegamos com ele até aquele
momento em que inventamos que tínhamos olhares divinos.
Felizmente, descobrimos que fomos enganados – e como gostávamos
de ser enganados, como gostamos de nos enganar –, e temos de,
como no início, começar de novo. Mas será um novo começo em
espiral, porque estamos numa sociedade milhares de vezes mais avançada
– em vários sentidos – do que aquela de onde emergidos, e nos
umbrais da qual arrancamos os olhos humanos da cara, e pusemos,
nas órbitas vazias, olhos de Hermes.
A
Hermenêutica – como visão de Hermes – acabou. Mas não a
Hermenêutica, como diálogo com a Natureza. Nosso corpo fala com
a Natureza. Nossos olhos falam com ela. Nossos espíritos-cérebros
podem falar com ela também.
Sim,
como seres hermenêuticos, construindo humanamente as representações
humanas da Natureza, de nós mesmos, do “outro”. Não podemos
saber que bala pegaremos. Mas o pote de balas está sobre a mesa.
Está aberto. É enfiar a mão no pote, tirar a bala, e ver de que
cor ela é.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
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autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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