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O que é, afinal, Teologia?
Osvaldo
Luiz Ribeiro
03/05/2007
A
pergunta-título parece impaciente. Mas é mais do que impaciência. É a
constatação de que se tem levado pouco a sério a crise constitutiva da
Teologia. Em termos da questão posta no Brasil, é até curioso dizê-lo,
uma vez que a Teologia foi recentemente acolhida como disciplina universitária,
compondo, desde 1996, uma das especializações do Sistema Federal de
Ensino. Não foi, contudo, graças à superação de sua crise interna que
a Teologia chegou onde chegou, mas apesar dela, e por gestões
propriamente políticas da bancada evangélica. Teologia, agora, senta-se
ao lado de Filosofia e Física, Biologia e Oceanografia. Mas não sabe
quem é.
Quer
dizer, diz saber. Mas é um dizer saber que carrega em si ares não
suficientemente ventilados, e questões não suficientemente esgotadas.
Por conta disso, faz-se alguma coisa, em classes de Teologia, que ali se
chama Teologia. E pronto.
O
estatuto constitutivo da Teologia, contudo, precisa ser enfrentado. E com
uma certa urgência. Não, o mundo não depende disso, e pode,
razoavelmente, tolerar o auto-desconhecimento estatutário que
caracteriza, hoje, a Teologia. Quem não pode esperar, quem não pode
tolerar esse estado de coisas, somos nós, os teólogos.
Naturalmente
que dizer que a Teologia não sabe quem é não significa dizer que não
haja definições de Teologia. Há. E podem ser resumidas em duas. Todas
as definições com que se trabalhar, em qualquer instituição, seja a
igreja, seja a faculdade, seja o espaço privado-pessoal, podem ser
resumidas nessas duas, reciprocamente interditantes:
a)
ou a Teologia é o estudo sobre o Sagrado (= Deus);
b)
ou a Teologia é o estudo sobre o pensamento humano sobre o Sagrado.
Teologia
como estudo sobre Deus
Esse
tipo de definição pressupõe que a Teologia disponha de informações
sobre Deus. Sua existência é pressuposta dogmaticamente, e seus
atributos são dados a conhecer. Teologia é estudo sobre Deus porque é
conhecimento de Deus. Não importa se a Teologia pretende saber tudo de
Deus, e tudo sobre Deus inteiro, ou se considera que saiba apenas alguma
coisa, muita coisa, pouca coisa, não importa, sobre Deus. O que quer que
a Teologia fale sobre Deus, ela o fala em tom de saber, de conhecimento. A
Teologia fala porque sabe do que fala, e o que fala sobre do que fala.
Também
é pouco relevante considerar que essa forma de definir Teologia entenda
logicamente seu discurso-conhecimento sobre Deus, ou o trate
analogicamente. Lógica ou analogicamente, denotativa ou conotativamente,
objetiva ou subjetivamente, o que a Teologia diz saber ela considerar
saber.
Algumas
conseqüências são incontornáveis. Primeira, o teólogo é um sujeito
que conhece Deus. Conhecendo Deus, o teólogo sabe que ele existe, sabe
quem ele é, sabe o que ele quer, sabe como ele quer as coisas que ele
quer. O teólogo é, portanto, um sujeito que sabe. Claro, lógica ou
analogicamente. Mas, viu-se, tanto faz.
Segunda,
isso que o teólogo sabe sobre Deus e as coisas de Deus, sendo
conhecimento, torna-se critério de verificação, aplicado a tudo quanto
se diga de Deus. E nos seguintes termos: se o teólogo sabe quem Deus é,
é Deus tudo aquilo que ele o considere como sendo Deus, e apenas isso, de
tal modo que alguma coisa que qualquer pessoa diga de Deus, não
coincidindo ou concordando, sob certos limites internamente razoáveis,
com o conhecimento que o teólogo tem de Deus, não é verdadeiro
conhecimento de Deus. Ou seja: o conhecimento do teólogo torna-se critério
para o conhecimento de Deus.
Terceira,
a Teologia torna-se, necessariamente, fechada. Não tem mais a mínima
possibilidade de diálogo. Qualquer aproximação de terceiros dá-se por
instrumento da catequese, do proselitismo, do convencimento racionalizador.
Uma vez que o teólogo sabe, torna-se, imediatamente, professor,
confessor, catequista.
É
pertinente considerar que essa seja uma definição de Teologia que
carrega a atmosfera epistemológica do período pré-romântico. Não
seria sistematicamente atacado nos séculos XVIII, XVII e daí até suas
origens. Trata-se de uma definição propriamente medieval, com o que se
quer dizer, apenas, que ela passa ao largo, muito ao largo, o mais ao
largo possível, das teses romântico-humanistas, kantianas e pós-kantianas.
A noção de “céu de chumbo”, kantiana, é-lhe desconhecida, e, se
conhecida, como no caso da teologia neo-ortodoxa do final do século XIX e
século XX, é contornada através de um argumento válido apenas
internamente ao círculo racionalizador, que é o que se pode dizer de um
argumento que tem a coragem de afirmar que, sim, o “céu é de
chumbo”, mas que Deus se revela ao homem. A Teologia neo-ortodoxa não o
quer dizer, nem gosta que seja dito, mas o que ela faz, na prática, é
tornar Teologia revelação.
Para
uma tal definição, teses romântico-humanistas como as de Kant,
Schopenhauer e Feuerbach são ou sombra de ateísmo, e coerentemente, já
que Deus é o que a Teologia diz que ele é, ou o próprio. Sim, tudo é
histórico e historicamente condicionado, mas o conhecimento que o teólogo
tem de Deus, esse não, esse é supra-histórico, a-histórico, porque não
tem nada de fundamentalmente histórico, posto ser revelação. Ora,
considerar-se revelação um tema teológico é uma coisa. Raciocinar e
agir a partir da identificação, inconsciente ou não, por
ingenuidade-ignorância epistemológica ou má fé político-religiosa,
entre revelação e Teologia, revelação e doutrina, revelação e dogma,
revelação e verdade, isso constitui improcedência teológica.
Sim,
o homem lida com o mundo real, por assim dizer, mediante interfaces
representativas, como bem o viu Schopenhauer, assume a Teologia. Mas o que
o teólogo sabe de Deus, não, isso é conhecimento mesmo, imediato, para
cuja comprovação estão, aí, se não os dogmas inexoráveis, certamente
a experiência pessoal do fiel.
Sim,
que as religiões não passam de projeções da vaidade humana é a coisa
mais clara do mundo, e Feuerbach não fez mais do que confessar uma
verdade conhecida até do mundo mineral. Não é o caso, contudo, da
Teologia, que homem algum pode projetar-se em Deus, tanto é que a
Teologia é, antes, projeção do próprio Deus na forma de conhecimento
humano.
Para
esse tipo de Teologia, permita-se-me ousar dizê-lo, é imperiosa, para a
saúde da civilização, a República e o Estado de Direito. Como evento
didático, seja estabelecido a Revolução Francesa. Para o bem e para o
mal, a mim quer-me parecer mais para o bem do que para o mal, a República,
não-religiosa, o Estado, não-religioso, funcionam como moderador das
verdades conflitantes das Teologias medievais e pré-medievais. Sim,
porque trava-se, entre elas, uma batalha cósmica, mística, carismática,
ciclópica. Fosse ainda permitido – e não o é justamente por conta da
constituição político-social da República –, como muito genialmente
o diz Edgar Morin, não apenas os homens se matariam, ainda hoje, em nome
de Deus, mas cada Deus, igualmente verdadeiro aos olhos de seus exércitos,
levaria à hecatombe santa multidões excitadas e embriagadas de sangue.
Considero
legítimo o direito de um cidadão da República considerar que conhece
Deus, que sabe dele, das coisas dele. Considero, também, contudo, que a
República deve me dar o direito de não dar a mínima atenção ao que
esse cidadão pretende dizer, sem que, por conta disso, possa fazer-me
algum mal concreto. Que ele me possa endereçar sete vezes aos infernos de
sua teologia, vá lá, é uma incoerência própria desse tipo de Teologia
que o amor, fronteiriço ao ódio, confunda-se com ele. A República,
contudo, tratará de manter os maus sentimentos desse teólogo reclusos à
sua cabeça de teólogo e ao seu quarto fechado. Quanto a mim, defenderei
o direito dele pensar o que pensar saber, e viver assim, ao mesmo tempo em
que não abrirei mão de meu direito de considerar muito engraçada a sua
condição, protegido pelas garantias constitucionais do Estado de Direito
republicano.
Como
Hans Küng já afirmou, essa Teologia não tem condições de estar na
Universidade. Está. Em cursos de pós-graduação, Mestrado e Doutorado,
ela até procura mostrar feições próprias das Humanidades, mas são só
feições, máscaras mal colocadas, que não permitem a folia no salão,
que caem depois de dois pulinhos mais felizes. O dogma nuclear, mais ou
menos dilatado, lá está, misturado a discursos pretensamente antropológico-culturais,
mas, no fundo, apenas medindo forças, fazendo contas e concessões,
dispondo do que é propriamente periférico, mas só do que é
propriamente periférico.
Ora,
se já aí, no topo da cadeia alimentar, a Teologia, universitária,
conhece Deus, ensina-o, e ainda pretende comunicá-lo aos ignaros, o que não
se imaginar, esperar e ver nas classes da Graduação? Catequeses
inflamadas, mitigadas, apenas, pela aparente atmosfera de
livre-pensamento. Mas se sabe, e muito bem, que essa história de
livre-alguma coisa, no Protestantismo não é séria, como penso poder
dizer do princípio do livre-exame das Escrituras. No catolicismo, então,
não passa de sonhos de tantos Luteros quanto aquele.
Teologia
como estudo de Deus é possível, mas somente para quem concorde em viver
ou no mundo pré-medieval, ou como se estivesse nele, e que, além disso,
queira que todos os ouvintes de boa-vontade se mudem pra lá. Se os séculos
XIX e XX não tivessem acontecido, essa Teologia estaria feliz.
Teologia
como estudo sobre o pensamento humano sobre Deus
Uma
definição como essa é claramente romântico-humanista. Ela reconhece as
teses de Kant, de Schopenhauer e de Feuerbach. Reconhece e enamora-se
delas. Não é possível reconhecê-las e apenas tolerá-las. Ou elas são
reconhecidas, e apaixonadamente recebidas, ou são reconhecidas, e
contornadas. Não há apatias aqui, mas somente ou ódio, ou paixão. Pois
essa Teologia romântico-humanista é apaixonadamente romântico-humanista.
Ela
não diz saber qualquer coisa sobre Deus, porque ouviu dizer, e creu, que
os teólogos são homens comuns, que sabem o que os outros homens comuns
sabem e podem saber. E o que romântico-humanisticamente todos os homens
podem saber é o que é propriamente histórico e humano. Logo, o que os
homens dizem saber de Deus, o teólogo – desse tipo – trata como doxa,
opinião, cultura. Respeitosamente. Mas doxa,
opinião, cultura.
Um
teólogo – desse tipo – não dirá que não se sabe nada sobre Deus.
Sua coerência epistemológica interna permite apenas a coerência de
dizer que, se há Deus, não se pode saber que o que se pensa ser sabido
dele seja real sabedoria dele, e que, além disso, saiba-se o que se
souber, isto é, se pense e diga saber, seja o que for, chegou-se a isso
pelas vias da representação mediadora, como o disse Schopenhauer. Logo,
não, não se pode dizer que não se sabe nada de Deus, mas apenas que não
se pode saber que o que se pensa saber de Deus é, de fato, sabedoria,
também sendo epistemologicamente coerente, ao lado disso, reconhecer que,
seja o conhecimento que for, é, sempre, construído histórico-culturalmente,
por meio de interfaces hermenêuticas bio-psicológicas.
Logo,
o teólogo desse tipo aproxima-se do fiel que pensa saber de Deus e até o
ouve de bom grado, mas não assume nem que seja nem que não seja, porque
ele, o teólogo, não tem como saber. Assume, apenas, como
que é, na superfície: discurso humano sobre Deus. E não importa
se esse fiel seja um camponês do Pantanal, um teólogo de Harvard ou um
bispo católico ou protestante. O fiel pode dizer o que quiser, e crer no
que quiser, e sentir o que quiser, e respaldar-se nos argumentos que
quiser – em todas e quaisquer situações, o teólogo – desse tipo –
ouvirá todos os discursos como o que são romântico-humanisticamente
falando: representações humanas (Schopenhauer), projeções humanas
(Feuerbach), cultura (Kant).
Conseqüências?
Muitas. Primeira, o teólogo não pode dizer que saiba alguma coisa de
Deus. Se pensa saber, não é um teólogo romântico-humanista. Ah,
aquelas tentativas no final do século XIX de, atravessando o vale romântico
do silêncio e da angústia, sair com a fé do outro lado. Nostalgia
medieval. O vale romântico-humanista do século XIX é vale de solidão,
é ermo angustiante, do qual não se pode sair pelas mesmas saídas
medievais. Karl Barth nunca entrou nele. Olhou-o desde a entrada, pôs a mão
côncava sobre as sobrancelhas, firmou as vistas, temeu o que viu, ou
pensou ter visto, e contornou-o. A simples sensação do seu calor
escaldante fez com que, rapidamente, corresse dali, e aquela Teologia
medieval foi salva. Entrar no vale, contudo, e tomá-lo como a casa do
homem e da mulher românticos, é uma coragem tremenda, um risco não
pouco significativo, cujo epitáfio são as primeiras palavras de Assim
Falou Zaratustra. Não há mais metas, mas só pontes, na condição de
serem, sempre, pontes. Não se pode, aí, voltar, nem seguir em frente.
Mas, ai de nós, não se pode, aí, nem tão-pouco, parar de andar.
Não,
o teólogo não tem a mínima idéia de que, se o que ele sabe, é alguma
coisa relacionada a Deus. Ele só sabe que o que pensa sobre Deus é pura
noologia, pura idéia, pura imaginação e fantasia, as virtudes
propriamente humanas. Ir além disso, ele não pode. Daí que a segunda
conseqüência é seu interesse sincero pelas teologias de terceiros,
porque são, todas, igualmente humanas. Todas as teologias são
equivalentes. Não é por outra razão que o MEC tenha autorizado
Faculdades de Teologia de diferentes tradições: cristãs, tanto católicas
quanto evangélico-protestantes, e, também, kardecistas e umbandistas. E virão mais.
Enquanto nos templos, teólogos do primeiro tipo chamam de demônios os
deuses dos outros, nas Faculdades de Teologia, protegidas pelo Estado de
Direito, esses mesmos demônios são cridos e ensinados como deuses. É
divertidíssimo o espetáculo.
Um
teólogo do segundo tipo, contudo, seja ele cristão, kardecista ou
umbandista, para falar em termos de MEC, ou de qualquer outra tradição,
saberá, primeiro, que sua teologia é pura construção romântica,
enquanto ele mesmo tratará como construções também românticas as
demais teologias do planeta. Caso ele seja do primeiro tipo, contudo, e
ainda que esteja vinculado a IES credenciadas pelo Sistema Federal de
Ensino, esse teólogo terá, no mínimo, enormes dificuldades de sentar à
mesa com um colega umbandista, e, olho no olho, reconhecer que ali vão
dois românticos, namorando opiniões culturais sobre um possível Sagrado
além-noológico. O próprio conceito de fé desse teólogo exercerá tão
profunda pressão sobre sua epistemologia, que a simples consideração
civil do colega teólogo umbandista já aparecerá como pré-apostasia, pré-heresia,
pré-concessão, e, finalmente, como provação da verdade. Nesse
contexto, o segundo teólogo,
o de tipo romântico, aprenderá, sem sursis,
a lidar com seu chão romântico.
Uma
terceira conseqüência, coerente com a episteme
romântica, que a tudo transforma em interface hermenêutica e
processamento histórico-cultural, é que a Teologia tornar-se-á investigativa. É por isso que Hans Küng afirmou que a única
Teologia que tem direito a estar na Universidade é a histórico-crítica.
Nesse sentido, concordo, uma vez que a Teologia, se universitária, se
coerentemente universitária, se não é uma catequese de luxo, disfarçada
em saber universal, só pode ser conhecimento universalmente falseável.
Logo, deve reduzir-se às expressões historicamente verificáveis. Um teólogo
do segundo tipo, por exemplo, jamais poderia, enquanto teólogo do segundo
tipo, afirmar alguma coisa sobre a divindade de Jesus. Se Jesus era ou não
era Deus, não se trata de uma informação verificável, investigável. O
que o teólogo pode, e deve fazer, é verificar se os textos, por exemplo,
do Novo Testamento afirmam alguma coisa sobre o tema. Para tanto, não se
trata, agora, de fazer alguma coisa chamada Teologia, porque, se a questão
é a interpretação de texto, que sabe disso a Teologia, senão aquilo
que a ensinarem fazer a Exegese, a Crítica Literária, a História? Além
disso, se o teólogo vier a se convencer, enquanto teólogo do segundo
tipo, que, sim, o Novo Testamento, não no todo, pelo contrário, mas aqui
e ali, considera a divindade de Jesus, essa conclusão jamais poderá ser
tratada, por ele, teólogo do seguindo tipo, como conhecimento que não
conhecimento histórico-social, o que significa dizer que ele terá a hipótese,
própria das Ciências Humanas, de que um sujeito x, há dois mil anos,
dizia crer e ensinava que Jesus era divino, e só. O salto que
eventualmente esse teólogo faça entre essa hipótese e a adesão fideísta
voluntarista a ela transforma-o, automaticamente, em teólogo do primeiro
tipo. Um teólogo do segundo tipo não pode mais crer, senão sabendo que
crê que crê. As investigações teológicas são o que são: investigações.
E o teólogo é investigador, não juiz. Se tornar-se juiz, tornou-se teólogo
do primeiro tipo, porque todos os teólogos do primeiro tipo fazem-se,
automaticamente, juízes. O de segundo tipo, não. Se o fizer, muda de
tipo.
Risco
da Teologia romântico-humanista
Sendo
essa a Teologia que abraço e defendo, importa-me a lucidez epistemológica.
Se a Teologia não é mais conhecimento de Deus, logo, legitimada por
apologias de revelação e retóricas de iluminação privilegiadas, mas,
antes, operações epistemológicas internas às Ciências Humanas, se a
Teologia é, agora, uma operação noológica kantiana (do primeiro Kant),
schopenhaueriana e feuerbachiana, o que é que essa Teologia faz, ou diz
fazer, que, eventualmente, outras disciplinas das Ciências Humanas já não
o fazem? O que é, afinal, essa
Teologia?
Recupera-se,
aqui, a questão da relação concorrente entre Teologia e Ciências da
Religião. Deixando de lado a Teologia de primeiro tipo, que aqui não se
considera mais, o que diferiria a Teologia das Ciências da Religião? Por
exemplo, o que difere a Teologia da Fenomenologia da Religião? Quando eu
disse, certa vez, que meu acesso aos textos bíblicos não se faz mais senão
mediante a Fenomenologia da Religião, o que estava eu, de verdade
dizendo? Que eu faço Teologia, utilizando-me da Fenomenologia da Religião?
Ou que eu faço, na verdade, Fenomenologia da Religião, mas que ali,
porque se usa a Bíblia, a Fenomenologia da Religião é chamada de
Teologia? Ou o que se faz ali, de fato, é, apenas, Exegese?
Se
a Teologia é o estudo do que os homens pensam sobre o sagrado, o objeto
de estudo está claramente delimitado. Ora, mas a Psicologia da Religião
não lida com o mesmo objeto? Não estão a Antropologia da Religião, a
Sociologia da Religião, a Filosofia da Religião, todas, igualmente,
interessadas nele? Ah, claro que cada uma dessas ciências da religião tem
um interesse específico, a psique
do ser religioso, a cultura, as relações inter-sociais, os fundamentos
da religião. Mas cada uma dessas especializações humanistas tem, contudo,
muito razoavelmente claro o seu estatuto. Quando se fala de Psicologia,
sabe-se do que se está falando, e se ele concorre, algumas vezes, com a
Antropologia, trata-se, somente, de interposição circunstancial de
temas, mas não de foco. A Filosofia, mal ou bem, vá lá, sabe-se do que
se trata, haja ou não boa-vontade. Da Sociologia, ainda que se diga
consistir, as mais das vezes, em teorias de sociólogos, ainda assim está
claro o que seja. Mas e a Teologia? O que é ela? Nem quando se rouba
dela, e justamente por isso até, sua pretensão de privilégio ontológico,
tornando-a uma mera investigação humana acerca de fenômenos humanos,
pode-se precisar em que consista.
Na
prática, ou a Teologia se comporta como ontologia, descarada ou
dissimuladamente, ou confunde-se com Ciências da Religião. E, enquanto não
se descartar definitivamente a pretensão ontológica da Teologia, e
enquanto não se puder dizer, em termos romântico-humanísticos, qual sua
especificidade, a Teologia está em dívida com os teólogos, ou eles, com
ela.
Talvez
a Teologia romântico-humanista não seja uma disciplina, mas um
congresso, uma abóbada temática, no interior da qual se moveriam
disciplinas circunstancialmente instrumentais, sem que a Teologia em si,
se tornasse, não obstante, alguma outra coisa, de um outro tipo ou
qualidade. No interior da Câmara de Teologia, dando-lhe sustentação epistemológico-metodológica,
estariam as Ciências Humanas operativas: Exegese, Antropologia, Sociológica,
Psicologia, Filosofia, Epistemologia, as Neurociências, a Pragmática, a
Lingüística, a Literatura, as Artes, a Geografia, a História, a Arqueologia, a Biologia,
a Ecologia, a Política etc. O foco temático, instrumentalizado pelas operações
pertinentes dessa imensa massa de metodologias, consistiria no discurso
humano sobre o sagrado. Teologia, então, consistiria num olhar focado, e
seria levada à efetividade mediante a operação, sob esse olhar
específico, das demais especificidades humanistas.
Nesse
caso, em outros salões temáticos, essas mesmas disciplinas estarão
trabalhando em função de outros projetos investigativos, como o tema do
belo, por exemplo, ou da ética. Porque tais disciplinas não seriam,
absolutamente, em nenhuma hipótese, servas da Teologia, Deus nos livre.
Seriam apenas, nesse sentido, imprescindíveis, operações sine
qua non para qualquer – absolutamente qualquer – investigação
romântico-humanista, que é como aqui se faz referência ao conjunto das
Ciências Humanas.
Além
disso, em torno da Teologia, e acima dela, circunscrevendo-a enquanto teoria,
uma metateoria igualmente romântico-humanista a vigiaria. Essa metateoria
seria constituída pelas mesmas disciplinas que, internamente à Teologia,
por ela são operadas. Nesse complexo do anel metateórico, contudo, seria
a vez delas controlarem as operações da Câmara de Teologia. Não se
pode fazer Teologia sem Epistemologia, mas tão-pouco se pode pensar
Teologia sem Epistemologia, de modo que uma recobre a outra, num complexo
teórico e metateórico, nos moldes que Edgar Morin defende em O Método 4 – as Idéias, quando reflete sobre o teorema de Gödel
aplicado à insuficiência crítico-epistemológica das teorias.
Teologia
não seria, nesse sentido, operação de crentes. Mas de profissionais. O
que crentes fizessem, ainda que imprecisamente, se chamasse teologia,
como quando se fala de estilos de vida como sendo filosofias
de vida, efetivamente corresponderia à racionalização doutrinária,
que, a seu tempo, e a depender do seu interesse, a Teologia, aquela câmara
multi, inter e transdisciplinar, poderia, eventualmente, investigar, mais
ou menos como a Filosofia poderia fazer, nesse caso, investigando a filosofia hippie.
Se,
em sua caminhada crítico-investigativa, por acaso, um teólogo romântico-humanista
fosse surpreendido com o discurso catequético de um teólogo ontológico,
e este pusesse sob risco, sob seus próprios critérios teológicos, a fé
do primeiro, seria ocasião para se ouvir o seguinte: “Se Deus é como
você diz que é, não posso saber, e, conseqüentemente, se valem para
mim as suas advertências teológicas, também não o posso saber. O que
posso dizer, razoavelmente, que se pode descobrir, é de onde se tirou
essa idéia, quando ela nasceu, quem é seu pai, quem são seus patronos
ancestrais e patrocinadores contemporâneos, a quem, politicamente, ela
interessa, quem, economicamente, ela sustenta, de quem, socialmente, ela
se nutre. Chegando a esse ponto, somente de má vontade você não
reconheceria a razoabilidade da descoberta. E então a questão se altera:
o que você diz ser ontologia, pode ser mostrado a você tratar-se de
cultura. Agora, o que eu digo a você tratar-se de cultura, você me impõe
considerar ontologia. Quem exige mais de quem? E quem tem má vontade
nesse jogo? Eventualmente, se Deus é como você diz, as coisas são o que
são, porque ele teria querido. Sendo elas, portando, de tal consistência,
que eu não posso ir além da constatação de que idéias são idéias, e
doutrinas, também idéias, esse Deus, eventualmente real, não poderia
exigir de mim saltar não no escuro, que saltar no escuro o romântico
faz, mas saltar para dentro das doutrinas como se elas fossem o escuro, e
para os dogmas, como se ele fosse o mistério. E o são, mas só sob a
condição da cegueira espontânea do teólogo, desde que a fé virou
sacrifício”.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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