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Por
que eu acredito cada vez menos em monoteísmo ético-profético
Osvaldo
Luiz Ribeiro
15/07/2008
O presente ensaio
deve ser tomado como uma pausa para respiração. Um pára-pra-acertar.
Ele versará sobre minha posição crítica em face da teoria mais aceita,
recentemente, para “explicar” o surgimento do “monoteísmo” em
Israel/Judá. Quero enfrentar a teoria em três frentes. Primeiro,
refletindo acerca da macro-estrutura “histórica” que separa as
“origens” (?) do “monoteísmo” em “Elias”, bem como a sua
efetiva emersão das águas judaicas por volta/a partir do século V.
Depois, refletindo (mais uma vez), sobre o paradigma “ético-profético”
que (ainda) opera (conscientemente?, inconscientemente? –
sub-repticiamente) as aproximações à história do “monoteísmo” em
Israel/Judá. Finalmente, postulando a incoerência epistemológica, e seu
respectivo anacronismo, da discussão monoteísmo/politeísmo –
respectivamente, da tomada – tácita – do “monoteísmo” como
“valor”. Depois da pausa – convém voltar à prancheta.
1. Por que percebo
“furos” na amarração narrativa “deuteronomista” em torno do tema
da adoração exclusiva a Yahweh – ou: razões histórico-literárias
para pôr minhas barbas de molho.
A (hipó)tese em
voga afirma que os primeiros esboços do monoteísmo ocidental podem ser
observados no século IX, em Israel, especificamente no contexto
relacionado a Elias.
Já afirmei anteriormente, que aposto numa edição sacerdotal/deuteronomista
“desse” Elias.
Diante de mim, esse “campeão” nada tem de “profético” –
aparece-me como uma hipóstase sacerdotal, retroprojetado, disfarçado,
por meio de retórica de cooptação da memória popular (no caso de ter
havido mesmo um tal de Elias, profeta, o que me parece ser suscetível de
questionamentos), de “profeta”. Um zeloso, iracundo e violento
“profeta”. Seja como for, não vou me deter em “Elias”. Outro dia,
trato dele. Deixe-o, por ora, como o suposto ponto de partida da
empreitada monolátrica/monoteísta, somente porque é assim que o toma a
tese em voga.
Interessa-me o que
vem depois. Pois bem: primeiro ato. Esse Elias monoteísta/monolátrico
está em franca “luta” contra reis polilátricos/politeístas –
israelitas! –, bem como contra profetas (sacerdotes! – sacerdote versus
sacerdote[s], “profeta cúltico” de “Yahweh” versus
“profeta[s] cúltico[s]) de Baal e de Asherah). Luta renhida. De morte.
Na outra ponta, aparece Oséias, redondos cem anos depois. Oséias, também
dito profeta, protesta contra a religião popular, o culto nos altos, tudo
quanto o povo faz e que não parece agradar a determinada maneira
“certa” – do ponto de vista do Yahweh desse grupo “ortodoxo” –
de o fazer. Temos, aí, varridos cem anos da história mais antiga de
Israel por uma vassoura monoteísta/monolátrica engajada, vio(ru)lenta, bélica,
mortal. Yahweh encontra-se, aí, sedento de sangue – devem morrer todos
quanto se colocarem contra seu projeto de poder divino. Ainda que porque
esse povo recusou o “amor” quase maternal desse “amoroso” Deus.
Primeira tragédia.
A Assíria vem e destrói tudo. Não sobra nada. Literalmente, Israel é
varrido do mapa. Diz-se que levas e levas de refugiados migram para o sul
– Judá! Entre eles, os “pregadores”. Não deu lá em cima. Vamos
tentar lá embaixo.
Segundo ato.
Ezequias, rei de Judá, “herda” as tradições do norte. Os refugiados
de Samaria/Israel apinham-se em Jerusalém, recebidos. É a década de 20.
Acredita-se que fomentou aí um murmúrio ético-profético. Os herdeiros
dos, se não os próprios, “profetas” monolátricos/monoteístas do
norte “refletem” sobre a destruição de Israel – a causa lhes salta
aos ouvidos: não deram crédito à pregação! Irritaram Yahweh, que lhes
passou o pescoço à espada. Bem-feito! Anos transcorrem. Consta que
Ezequias deixa-se “converter”. A tradição de Reis
dá conta de uma reforma – destruição de Nehushtan, de/da Asherah, de
“estelas cúlticas”, de “altos litúrgicos”. Uma reforma já monolátrica/anicônica,
como bem o quer a Torah. O que Elias e Oséias haviam querido – o que
Yahweh havia querido por eles, acontece agora!
Tragédia dois. Lá
vem a Assíria. Cerca Jerusalém. O povo diz: vem para vingar-se de
Ezequias, blasfemo e iconoclasta, que mexeu onde não devia. Dizem os
representantes da monolatria: nada, vem para mostrar que e para sua glória!,
que ele está do lado da reforma, que ele a quer, que é ele quem a faz!
Dito e feito – Senaqueribe não destrói Jerusalém. Moral da história
– Samaria, idólatra e politeísta, é destruída. Judá, monolátrica e
anicônica, não. Yahweh quer a reforma.
E ela se dá? Mas
nem por dois dias. Morre Ezequias e reina um Manassés; Manassés é um
Acabe e uma Jezabel, diz a tradição. De fato. Volta Judá às suas práticas
“naturais” de polilatria e poliliturgia. A reforma faz água. Acaba.
Morre.
Mas fumega um fogo
morto. No final desse mesmo século, nasce um “messias”. É Josias –
o “nome” da vez, na literatura especializada. Moisés? Não. Davi?
Nada! Ezequias? Improvável. Josias? Ah, sim, Josias – aí dá. Mas a
draga lá vem, e vai arrastar essa terra para ainda mais longe – é só
esperar.
Ato três. Josias.
Nem se nos dá que tenha sido atribuído a ele – de qualquer forma, ao
seu aparelho – a “fraude santa”, seja lá o que tenha sido aquele
“rolo” encontrado. Mas Josias vai fazer o que nem Elias, nem Oséias,
nem Ezequias fizeram. Outra reforma. Exército nas ruas. Faz que faz.
Quebra que quebra. Interdita que interdita. É o que a “saga”
“deuteronomista” diz. É o que mesmo um Israel Finkelstein aceita.
Jerusalém, agora, nas mãos desse homem, desse rei, desse “sacerdote”
de Yahweh, agora, sim, vai transformar-se na Cidade de Deus, mil anos
antes de Agostinho. Yahweh vai ficar feliz que só.
Tragédia três.
Que nada. É pau é pedra é o fim do caminho. Literalmente, as águas
cosmogônicas levam Judá e Jerusalém para o fundo dos abismos. Mata-se o
rei numa campanha maluca – é o que se diz. Pouco depois, ouvir-se-á um
resmungão dum Ezequiel descrevendo um templo que deve ser tudo menos
aquilo que Josias teria feito – só tem estátuas e imagens de répteis
ali (Ez 8). Jerusalém é destruída, cercada, atacada. É a nova Samaria.
Fogo nela. Lá se vão os reformadores – justo eles! – arrastados
pelas estradas, correntes no pescoço, grilhões nos pés – até a mãe
do rei. Lá vão sacerdotes e profetas cúlticos. Lá vai a nata.
É só olhar e ver
ELIAS/OSÉIAS→ASSÍRIA/SAMARIA→EZEQUIAS→SENAQUERIBE/MANASSÉS→
JOSIAS→ BABILÔNIA/JERUSALÉM
Não é muito,
muito curioso que a cada tentativa de reforma, suceda uma “tragédia”?
E isso sistematicamente, desde o século IX/VIII, passando pelo VII, e
chegando ao VI? Durante esse período, das duas uma – ou os reformadores
eram da pior qualidade possível, porque nunca e jamais, em tempo algum,
foram ouvidos, porque, em todo esse tempo, Israel, norte, e Judá, sul,
foram sistematicamente polilátricos e icônicos, ou essa história nunca
aconteceu como se diz ter acontecido. Por que, por um golpe de mágica, no
final do século VI, Judá “renasce” (outro mito judaico), e renasce,
agora, sim, monolátrica. Quer dizer, não da noite para o dia. Mas depois
de uma extraordinariamente muito eficiente campanha institucional, programática,
e monolatrização e aniconização do culto popular.
Faz sentido? Deve
fazer, porque há muitos que seguem essa
narrativa, e ainda a tratam como plausível. Quanto a mim, vou tornando-me
cada vez mais crítico dela. O que é sempre mais difícil, porque tem-se,
então, que caminhar na vala, porque a pista de rolamento está reservada
para as “evidências”.
Mas eu me
pergunto. E se? E se o que há de histórico na “narrativa” são
apenas os nós trágicos? Lá está, no século VIII, a destruição de
Israel. Lá está, na virada do VIII para o VII, o cerco “falido” de
Jerusalém, lá está, logo ali, na virada do VII para o VI, a destruição
de Jerusalém. Marco-estrutural trágico. É possível pensar que a
monolatrização/aniconização de Judá, efetivamente levada a termo no século
V, tenha sido encaixada retoricamente aí, para, digamos, fins didáticos,
para convencer a população recalcitrante? Ah, que ninguém ligou muito
para os reformadores, de início, fica claro nas reclamações de um Ageu.
E que havia muita gente disposta a burlar o “fisco”, sabe-o um
Malaquias. Mas, o fato é, que chega-se à ortodoxia que se conhece mais
tarde justamente aí, nesse período.
Minha hipótese
– a ser testada. A política de administração persa é a chave para a
monoteização/aniconização de Judá. Administra-se a população
conquistada por meio da religião da população conquistada. Assim foi em
Babilônia, no Egito, onde quer que a Pérsia pusesse os pés. Pela mão,
o traz Yahweh para Jerusalém (Is 45,1). Explicar-se-ia por que Judá
torna-se monoteísta, enquanto Babilônia e Egito permanecem polilátricas
pelo fato de Judá ser reconstruída aí e agora, ao passo que aquelas
civilizações foram incorporadas prontas e como estavam. O que faz com
que a atenção se deva dirigir para as crises internas dessa Judá.
Crise e conflito
internos. Uma elite política contra uma população de má vontade.
Deixem-se os claros-escuros para aprofundamentos. Há, no fundo, um sim e
um não. Não penso que o projeto tenha sido, de cara, monolátrico. Não
acredito que a “divindade” estivesse no centro da discussão, que
fosse o foco, que fosse ela a raiz de toda a “criação” – no texto
que está sendo redigido aí e agora, nem nome essa divindade tem! Penso
que a religião, a teologia, a divindade, enfim, vão, foram, à reboque
das verdadeiras intenções – a organização e a administração da
coisa pública.
O projeto de
administração centralizada foi recusado pela população. Nem deu-se
bola. O enfrentamento militar (explicar-se-ia assim o desaparecimento de
Zorobabel?) não resolve. É paliativo. E fere a política de eficiência
persa – é custosa e suscetível de traições. Cooptação subjetiva! E
aí começa a caça do gato ao rato. Tudo o que o poder central quer é
submeter a população a si. Assim, movem-se as peças. É aí que a
divindade entra em cena. No fundo, é da divindade que a população
depende. Traz-se Yahweh para o “projeto”. Mas eles têm outros deuses
lá. Fora com eles. Mas eles têm outros Yahwehs lá. Não – só há um.
Mas eles têm outros altares lá. Derrubem-se. E templos. Ao chão! E
profetas – silêncio neles, ou espada. E sacerdotes. Incluam-nos nos
serviços de Jerusalém. E imagens! Quebrem tudo. Mas para quer? Para que
sejam obrigados a vir – a ir! – a Jerusalém, ao Templo de Jerusalém.
Para isso, não pode haver absolutamente nenhuma outra forma de a população
recorrer ao poder da(s) divindade(s) que não esteja sob o controle do
poder central. Por hora, vai-se parar aí, mas pode-se seguir a estrada e
deparar-se com o fenômeno similar da interdição do Nome, e, finalmente,
da tabernaculização da Sabedoria no Templo. Tudo – conflito e cooptação.
Isso
que aí acontece, entre o final do século VI e o V, projeta-se
retoricamente sobre aquelas tragédias, “explicando-as”. Mas nunca
estiveram lá. Lá, todos eles, profetas, reis, povo, todos, eram como
esse povo aqui, polilátrico e icônico. Não acredito (mais) num Elias
deuteronomista. É mito. Num Oséias da mesma família. Fraude. Um
Ezequias... cuidado aqui. Mas vou-me tornando cada vez mais cético.
Josias? Monstros apostam nele – ainda. Eu, não mais. Em todo caso...
É somente na Judá
sacerdotal que vejo nascer o que se tornou nossa vida e mito – monoteísmo
ético-profético, que de profético tem nada, e de ético, menos ainda.
2. Por que acho
que é tão difícil para nós admitirmos que o monoteísmo não é obra
de profetas, muito menos modelo de ética – ou: a fraude santa de Josias
é ninharia em face da fraude sacrossanta de Josué.
É natural que
tenhamos em altíssima conta o monoteísmo. Tudo em nós grita a favor
dele. Deus grita a favor dele. Deus grita – em nós – a favor dele.
Deus é a prova incontestável dele! O resto caminha ao largo desse prin(pre)cípio.
É, contudo, menos
fácil demonstrar a absoluta dissociação entre monoteísmo e profecia do
que a sua absoluta falta de ética original. Julgo, naturalmente, a partir
da nossa ética – que é, afinal, a que deve valer para
nós. Não posso olhar para a história das reformas monoteístas de
Judá e admitir que isso seja bom. Nada do que ali se processou pode ser
tratado como ético – e, se depois de vitorioso, séculos a fora, o
monoteísmo diz-se campeão da ética, é apenas por meio de dois crimes:
hipocrisia e falta de memória, posto que, primeiro, esquece-se de como
nasceu, e, depois, de como vive/u.
Deus do céu! É
uma “descoberta” dura. Ter que olhar para os próprios intestinos e
ver a fossa que ali está instalada! Mas é um jeito muito nosso
esse. Até ontem – e muitos desavisados, ainda hoje – não tinham na narrativa do Êxodo um modelo
de libertação, quando, ali, o que se tem é a morte de um povo
inteiro, para, dele, tirar outro que assassine outro tanto? Ah, mas quem
liga? O importante não são nossos
projetos? Pois então... O monoteísmo é a mesma coisa. Damos de
ombro e seguimos em frente, porque há multidões de ateus e politeístas
a conquistar – e, de qualquer forma, posições a manter!
Quanto a mim,
prefiro meter o dedo na ferida, e gritar a dor que tem que ser gritada,
porque, enquanto não esvaziarmos essa fossa séptica de sua imundície
sub-reptícia, ela desprenderá seu fedor. Mas a fossa está dentro de nós!
É nosso maior tesouro! Não é – mais – uma Instituição. Não é
(mais) uma tradição. Somos nós.
É preciso olhar
nos olhos de Deus e dizer a ele que não aceitamos que ele se tenha
tornado o que se tornou – e também para
nós – ao preço que se pagou. É pôr Deus no banco dos réus. No
Brasil vai ser difícil, porque não criamos nem ainda um tribunal para as
torturas de ontem de noite, quanto mais para Deus! Mas esse
Deus que está aí precisa ser julgado, condenado e sentenciado. E que
ninguém se engane – não há outro Deus nessa página que não aquele
que Feuerbach denunciou. E, atrás dele, seus sacerdotes. Pois é cada um
de nós sentar-se no pó e na cinza e dizer ao Ancião de Dias que
acabaram os dias em que ele se manterá no poder, depois de o ter tomado
à força, roubado, expropriado, furtado. Deus deve prestar contas a seus
filhos. Como nos ensina Oséias, em relação à Mãe, chegou a hora da
vingança! Chegou a hora do julgamento do Pai.
E esse é o
problema. Não aprendemos a fazer isso. Sequer conseguimos ler isso. Nos
revolta o estômago. Nos apavora a cabeça. Nossas faces ficam quentes.
Mil olhos nos vigiam! E como faremos isso? Simples, muito, muito simples
– passando pelo século XIX, e aprendendo
que nunca foi outra coisa que não nossas própria palavras, nossas próprios
pensamentos, mesmo quando críamos estar diante do Ser de Parmênides. Não há que temer, se estamos prontos... E, se
não estamos, Deus meu, como nos metemos a brincar com fogo?
Ora, que o monoteísmo
nasce anti-ético a própria Bíblia não tem escrúpulos em contar –
isso era glorioso! Matar infiéis é a honra do fiel, canta o Sl 149,
nosso contemporâneo. Nasce anti-ético quando quebra, derruba, destrói,
proíbe, interdita, obriga, exige, impõe. Nada disso, nenhum desses
verbos, cabe me nossa consciência, hoje. Dar de ombros, posto que foram
coisas de mil, dois mil anos, dois mil e quinhentos, e mesmo nosso velho
jeito. Mas esse crime monoteísta não prescreve nunca!
O monoteísmo
nasce anti-ético porque nem evangélico é – não quer aos outros o que
quer para si. O que quer, desde o início, é reproduzir-se no outro, nos
outros. Pela força, se necessário – ah, e quanto é necessário usar a
força, a física, a psicológica, a emocional, toda força, qualquer força,
porque o monoteísmo é um fóssil civilizatório ainda operante. O Jimmy
vai botar a mão nessa cumbuca na PUC. Vai lidar com teologia política.
Ah, se for até o fundo! Meu Deus, não há nudez maior a nos assombrar do
que essa! Um raio X de nossas próstatas e úteros, ah, vai revelar um espírito
maligno anti-ético de fundo, cínico de superfície, hipócrita, por
profissão. Porque nosso corpo não concorda com nossa doutrina, mas não
levamos isso até o fim.
Penso que a
profecia foi “estuprada”. Cooptação sacerdotal da memória profética.
É esse o papel que cabe à profecia – a crítica, dum Amós, de algum
dos Isaías do século VIII, de um Miquéias (o restante tem muito pouco
de “profético”). Então separemos as coisas. “Profecia” é um
termo amplo. Cabem, dentro dele, na Bíblia Hebraica, pelo menos três
grupos muito bem delimitados e delineados. O primeiro, o “clássico”.
No fundo, ativistas políticos. Hoje, seriam representantes do Ministério
Público. A religião, neles, é cultural e secundária. São, antes,
pregadores da justiça. Depois, de Yahweh. De Yahweh, apenas por conta da
justiça. Duvido que um dia tenham achado ruim de um israelita ao pé de
um carvalho, seja a oferendar a Yahweh ou a Asherah. Não se achará uma
linha nesse sentido em Amós, nem em Miquéias, nem em Isaias.
O segundo grupo, são
os profetas cúlticos. No fundo, são funcionários do rei. Sabemos o que
isso significa. Para mim, trata-se de uma inteligência da monarquia. O
jogo da monarquia com o sagrado é perigoso. O vento que venta lá, venta
cá. Pode-se usar o poder da divindade a seu favor, mas pode ser que seja
usado contra você, também. Daí que o sistema bilateral é fundamental
– um oráculo (profecia) e uma liturgia (sacerdote). O rei divide, para
controlar. Assim, o profeta cúltico tem a metade do poder, o sacerdote, a
outra metade, e o rei, o poder inteiro, nesse jogo de gato e rato, de um
olho no padre e outro na missa. A desgraça foi quando Josué assume o
poder. Acaba a profecia. Agora, esse
sacerdote – sumo, sumíssimo sacerdote – tem todo o poder. Pobre de
quem cair em suas mãos! As mulheres que o digam, se lembram... O sangue
que ainda sangram hoje é uma ferida que esse senhor abriu nelas. Um rubi
na coroa ética do monoteísmo.
Finalmente, um
terceiro grupo profético, extático. Não parece terem escrito nada, nem
são muito relatados nos textos bíblicos. Não deviam assumir papel
importante na relações de poder. Essas, reservavam-se aos conflitos
entre o primeiro grupo de profetas e o poder (rei + sacerdote + profetas cúlticos).
Se há profetas metidos no monoteísmo, aceitariam de bom grado que se
tratem desses últimos, os cúlticos. Jamais, eu diria, aqueles, os críticos.
Mas é deles que
falamos, quando tratamos de considerar o monoteísmo um monumento ético-profético.
No fundo, perpassa em nossas consciências a dicotomia weberiana entre
“profetas” (esquerda) e “sacerdotes” (direita). Profetas são
bons. Monoteísmo, também. Assim, tem que ter sido eles – os profetas
éticos e críticos – os inventores do mono teísmo, porque, nós, que
somos bons (??), somos monoteístas, de modo que o monoteísmo só pode
ter saído de alguma coisa essencialmente boa. É nosso mito. Pode ser.
Vou duvidando.
Wellhausen também
tinha pavor do século VI e V. Também achava que a época de ouro de
Israel/Judá tinha sido o século VIII – de quem?, sim, deles, dos
“profetas”. Mas Israel caducou, faliu, e virou o judaísmo tardio.
Wellhausen é Hegel ao contrário. Mas é igual a nós. Que terror,
descobrir, em pleno meio-dia, pernas arreganhadas no século VI, força,
no V, força, respira, que é isso?, que pernas são essas?, não vês?,
dum sacerdote! Um sacerdote? Sim, não vês que está sobre o altar? E que
faz, assim, nessa pose ginecológica? Ora – não vê que ele está a
parir o monoteísmo?
3. Por que me bate
uma impaciência patológica em face do anacronismo teológico que nos
domina – ou: game over.
Ah, meus queridos,
minhas queridas... Nem mal tocamos essa ferida, e não há sequer tempo de
cuidar dela. Ela já está podre. Não tem cura. É como a picada de uma
aranha-marrom, gangrenada – é cortar
e jogar fora. Não resolvemos essa questão no século XIX –
mande-se a conta para Karl Barth, mas há que se cotizar aí, posto que o
inferno não se faz com um diabo só. Lá, podíamos ter resolvido as
coisas. E o que fizemos? Tapamos os ouvidos. Ontem ainda soube, de ouvir
dizer, e bem dito, que o século XIX está morto, porque errado... O que,
afinal, aprendemos nesses cem anos? Nada.
Digo-o de uma vez.
Tolices de crianças, e crianças de jardim de infância, a discussão em
torno da dicotomia monoteísmo – politeísmo. Ambos, mito. Nada sabemos
nem podemos saber sobre nada que não seja apenas humano – e, por meio
da extensão dos sentidos, super-olhos, super-mãos, super-bocas,
super-ouvidos, super-narizes – da Natureza. Ou deus ou os deuses são a
Natureza, e, então, podemos encontrá-los, e, até, controlá-los, ou não
são a Natureza, e, portanto, somos cegos para ele(s) e ela(s) – salvo
para as racionalizações político-ideológicas, anacrônicas e
comprometidas de uma teologia de estilo barthiano. Não nos cabe, mais,
discutir teísmo, ateísmo, monoteísmo, politeísmo, essas coisas. São
temas inúteis. Perderam a validade. Só nos resta a discussão do conteúdo
desses mitos, se e somente se tomados como mitos. Na ignorância deles
como mito, num fideísmo medieval voluntarista, vá lá – mas o que aí
se fala é inaudível fora daí.
Em termos
epistemológicos, teísmo constitui projeção da monarquia. O caso inglês
é interessante, porque revela que uma cultura que torna “decorativa”
a figura de sua rainha, também pode tornar “decorativa” a figura de
Deus, pintando-o, a partir daí, com a palheta deísta. A diferença entre
teísmo e deísmo? Essa – o rei inglês não manda mais nada.
O que chama a
minha atenção para a República e a Democracia. São construções
incompatíveis com o teísmo e o monoteísmo. Pra que vale a idéia de um
deus soberano num Estado Democrático de Direito – numa cultura
democrática? Para nada, senão que para o controle sub-reptício de
consciências e a instrumentalização de rotinas sacerdotais medievais.
Nossa situação
cultural e epistemológica parecem-me impor-nos o seguinte.
Epistemologicamente, tenho que assumir-me cético. E, se tenho pruridos místicos
– e tenho-os! –, sou forçado a dar voz a eles por meio de mitos
conscientes. “Deus” – hoje – só pode ser coerentemente pensado
como e na forma de mito, sem jamais deixar de ser assim tomado. A
Democracia – como valor – impede-me de vontade poder sobredeterminante.
Creio – devo crer – da trindade axiológica republicana: igualdade,
liberdade, fraternidade. Assim, meu deus-mito não pode ser, jamais, um
deus-mito de todos. É meu. Só meu. Nem de minha família pode ser. Bel
tem o dela/a dela. Israel e Jordão, os deles, as deles, conforme o
queiram. Se meu deus-mito começar a sentir vontade de ser de mais alguém,
prendo-o numa garrafa e jogo no lixo. Deverá ser para mim como um amigo
imaginário, e, ao fim e ao cabo, terá as mesmas funções que antes
parece ter tido – só que, agora, estarei consciente do “jogo”,
cujas cartas eu mesmo as darei. Se há uma coisa que não há nesse
cassino são crupiês.
Em que pé
estamos? Eu chamaria de politeísmo noológico. Politeísmo, porque,
afinal, cada um tem seu próprio Deus – mais ou menos como os
“pais”, da tradição bíblica. Mas noológico, porque sempre saberei
que a idéia está na minha cabeça, e nunca sentirei vontade de projetá-la
como expressão ontológica ou metafórica duma realidade de outro modo
inacessível. Não há realidade fora desse mito – ao mesmo não que
possamos saber.
Conclusão
Estamos no olho do
furacão. Fomos/somos filhos da tradição, que nos trouxe até aqui.
Somados todos os seus elementos, posso concluir, provisoriamente. A) o
monoteísmo bíblico não constitui um valor ético-profético, mas uma
grandeza violenta, coercitiva e sacerdotal. B) o monoteísmo não é
necessariamente bom, mas, por outro lado, carrega em si um “mal” genético
– a monoteização de tudo e de todos. É um vírus. Mas pode ser
controlado. C) o contexto democrático e pós-XIX em que vivemos
impede-nos – tem de nos impedir! – de tratar a questão do monoteísmo
como se pudéssemos resolvê-la nos termos não-emancipados da Idade Média.
Só nos resta, agora, o mito. É pois, no mito, enquanto mito, e
consciente do mito, que refletiremos sobre a nossa relação com nossas(s)
divindade(s) – cada qual, querendo, precisando, desejando, crie a sua,
nutra a sua, viva da e com a sua. E lhe baste.
Não. Não é possível
um “culto” assim. Game over.É preciso reinventarmos também o jeito
de lidar com nosso amigo imaginário. Não é à toa que é necessário
fazer-se criança aqui.
Cf. Elias e o Monoteísmo. Ver, quanto a isso, também, Haroldo.
Cf. meu ensaio “A Lembrança das Minhas Faltas”.
©
Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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