|
Por
uma teologia pós-metafísica
–
diálogo com um epílogo circunstancial
Osvaldo
Luiz Ribeiro[i]
19
e 20/08/2007
|
|
Paul
TILLICH, La significación de la historia de las religiones para el
teólogo sistemático, em Paul TILLICH, El
Futuro de las Religiones. Con
una introducción de Mircea Eliade. Trad. de Ricardo Marcelo
Iauck. Buenos Aires:
La
Aurora, 1976 (1966, Hannah Tillich), p. 93-118.
|
|
|
(publicado em Correlatio,
12)
|
Resumo:
o ensaio serve-se da última conferência pública de Paul Tillich, A
Significação da História das Religiões para o Teólogo Sistemático,
ainda proferida sob o diapasão epistemológico da metafísica e ontologia
cristãs pré-modernas para, criticando seus pressupostos, postular,
incipientemente, uma teologia pós-metafísica comprometida e articulada
com a plataforma epistemológica peculiar ao jogo das Ciências Humanas.
Abstract:
e article uses of the last public conference of Paul Tillich, The
Meaning of History of Religions for Systematic Theologian, yet issued
under the epistemological standard of pre-modern Christian metaphysics and
ontology, to, criticizing their assumptions, postulate, incipiently, a
post-metaphysical theology compromised and combined with the platform
epistemological peculiar to the play of Human Sciences.
É
sintomático – sou tentado a escrever “místico”, mas ressinto-me de
escrúpulos, e não escrevo – que eu tome às mãos o texto dessa conferência
de Paul Tillich justamente nesses dias. Tillich chamou sua conferência de
O Significado da História das Religiões para o Teólogo Sistemático.
Ela foi apresentada na Universidade de Chicago. A data? 12 de outubro de
1965. Dez dias após, a 22 de outubro, Paul Tillich faleceria. Amanhã, 20
de agosto, Tillich faria aniversário. Nasceu na Alemanha, em 20 de agosto
de 1886. Um homem do século XIX. Ademais, dois exatos meses depois da
morte dele, em 22 de dezembro de 1965, curioso do mundo, eu, minha mãe
dava-me à luz.
Meu
eventual leitor não levará essas considerações a sério. Elas vão
aqui somente para registro de que elas passaram por minha cabeça,
enquanto eu lia o texto da conferência. Ela voltou-me à mão por meio de
um artigo de Faustino Teixeira[ii],
catalisador de uma polêmica entre um aluno e eu sobre o estatuto
epistemológico da teologia. Nele, Faustino menciona Tillich. Lembrei-me
de El
Futuro de las
Religiones,
livrinho que carrego desde a graduação. Tomei-o, e deparei-me com o
texto da conferência de Tillich. Decidi-me a dialogar com ela.
Mais
do que isso. Minha intenção foi e é ultrapassá-la. Bem entendido: tomá-la
como ponto de partida, identificar, segundo me parecer, suas insuficiências
programáticas e pressuposicionais, corrigi-las, sempre sob risco –
sempre tremendo, sempre temendo –, e, com isso, tentar esboçar um
roteiro muito provisório para uma teologia pós-metafísica. Quem sabe
uma teologia complexa – a saber, uma teologia compatível com o
Pensamento Complexo, e por ele perpassada.
O
texto da conferência é marcante. Escrevi outro dia que Tillich foi o último
teólogo ontológico. Nela, quase parece já não serem mais seus dois pés
a pisarem o solo da metafísica ontológica. Sem dúvida, um deles lá está,
firmemente apoiado no solo “Sagrado”. Mas o outro pode ser visto a
arriscar-se num desconhecido, como quem busca mais chão. Tillich,
contudo, ali, certamente ainda é um homem tocado pelo modelo teológico
neoplatônico milenar da Igreja. Ainda que nascido no alvorecer do século
XX, ocaso do XIX, é um homem do século XVIII, mesmo que o peso
incomensurável dos séculos XIX e XX o esmague, e ele sente a lhe faltar
nos peitos o ar fresco duma Alemanha pietista, bastante conhecida, por
esta fama, por Nietzsche[iii].
Em
alguns momentos, Tillich parece tocado por profundas transformações
pessoais. À certa altura, dirige aos ouvintes – e aos leitores de sua
obra – um pedido de perdão, talvez porque reconhecesse o engajamento
apologético de sua opus magna.
E
em uma espécie de desculpa, ou, inclusive, auto-acusação, tenho que
confessar que minha própria Teologia
Sistemática foi escrita antes dos ditos seminários (com Mircea
Eliade) e teve, em princípio, outro propósito, a saber, o debate apologético e contra o secularismo (p. 114, grifo meu).
Foi
preciso, sem dúvida, muita coragem. Não era um Dinâmica
da Fé que recebia a crítica – era sua obra-prima. Decerto que
Tillich não sabia – como? – que ser-lhe-iam concedidos apenas mais
dez dias de vida, depois de uma tal confissão, de modo que, é plausível,
tinha planos de transformar o esboço da conferência em projeto.
Não se tratava, eu acredito, de uma prestação de contas, mas apenas de
um pedido de desculpas, acompanhado, contudo, de uma petição de prazo.
Penso que Tillich gostaria de corrigir seu “equívoco” – sobretudo
sua formação e constituição de “teólogo provinciano”. Tillich
preparava-se – com atraso, mas, ainda assim, na frente de todos, eu
suspeito –, para o século XXI. A prestação de contas dar-se-ia mais
tarde – talvez ele o planejasse. Mas a morte lhe frustrou os planos.
Ficaram – ao menos elas – as suas desculpas. Em se tratando de um teólogo
protestante, isso não é pouca coisa.
Se
por um lado eu considero que o roteiro que traçou na conferência não
era suficiente para o pôr sob os portais deste século, sou, contudo, forçado
a admitir que Tillich ensaiou passos decisivos nessa direção. Ainda o
percebo, enquanto caminha, arrastando velhas posturas, antigas proposições,
olhares ancestrais, e não naquilo
que velhas, antigas e ancestrais compartilham do
sentido de veneráveis. Ali, constituem, antes, uma semântica de
medievalismo teológico ainda dissimulado, uma saudade de Deus tão
profunda, que, não obstante toda a roupagem racionalizadora da teologia
em que vem embalada, acalenta, no fundo, o sonho de reclinar-se ao colo
divino – mas do jeito que se fazia antigamente, esse é o problema.
Nas
suas obras, Paul Tillich fez concessões ao secularismo que, contudo,
confessou, entendeu ter recebido por “missão” enfrentar. Chegou a
fazer tantas concessões que há, entre seus pares criptometafísicos, a
impressão de que Tillich tornara-se um “teólogo do secularismo”. Mas
nada mais equivocado. Como Barth e Bultmann, seus contemporâneos, Tillich
foi um “crente”. Esforçou-se o máximo que pôde para contextualizar
a sua fé, e terminou descobrindo que qualquer tentativa de contextualização
dela não passa – em termos epistemológicos –, contudo, de esforço
inútil. Consubstancia-se em negociações contábeis com a secularização:
quem ganha?, e quanto?, e quem perde?, e o quê?, com o que se pretende
garantir a manutenção da propriedade, lavrada em cartório, de terras
seguras. Protegidos na terra santa, podemos maldizer o secularismo, como
os “romanos”, os “bárbaros”.
Quanto
a mim, pretendo justamente extrair da conferência de Tillich – e, de
preferência, de suas próprias palavras, se lá elas houver –, o “espírito”
de uma teologia pós-metafísica, pós-ontológica, pós-medieval. Talvez
seja essa a melhor retribuição a Tillich, agora – um tributo à sua
morte. Não, à sua vida, porque foi ainda nela que Tillich decidiu-se a
investir no risco. Estava muito bem acompanhado. Estava com Mircea Eliade.
Da
Introdução, de Mircea Eliade
Mircea
Eliade nos dá o prazer de ter escrito a apresentação ao livro que contém
o texto da conferência. Mircea Eliade marca – indelevelmente, eu diria
– minha reflexão “teológica”. Penso que deva a Mircea Eliade, ao
conjunto de sua obra, mas mais particularmente ao Tratado
de História das Religiões, a definitiva desontologização de minha
teologia. E eu diria que o fato de seu “manual de Fenomenologia da
Religião” designar-se a si mesmo como um tratado de História das
Religiões assinala bastante bem a necessidade de se unirem, numa grande câmara
científico-humanista, as três perspectivas: História das Religiões,
Fenomenologia da Religião e Teologia (pós-metafísica, naturalmente). E
isso não “interdisciplinariamente”, ou seja, cada uma como si mesma,
ciosa de “si”, ainda que disposta a “ouvir” as outras. Não, tem
de ser mais, muito mais do que isso. O encontro deve ser
“transdisciplinar”[iv],
cada uma delas assumindo o olhar da outra, mantendo apenas sua
peculiaridade perquiridora. Ressalvada uma ainda pressentida tendência
metafísica, penso que não estaríamos, com essa plataforma, distante do
que o próprio Tillich – segundo a expectativa entusiástica e esperançosa
de Eliade – vislumbrava para seus próximos anos de teólogo, anos que,
no entanto, a vida – na sua forma de morte – lhe roubou.
Eliade
escreveu a Introdução, e a chamou de Paul
Tillich e a História das Religiões. Abre-a com a seguinte declaração:
“é significativo (e acaso simbólico) que a última conferência pública
de Paul Tillich se tenha intitulado: ‘O Significado da História das
Religiões para o Teólogo Sistemático’” (p. 7). Segundo Eliade,
naquela “soberba e dinâmica” conferência, Tillich havia se
comprometido a elaborar “uma nova Teologia
Sistemática, orientada e em diálogo com toda a história das religiões”
(p. 7). Tal projeto lhe exigiria, para além de dirigir-se aos “homens
modernos ocidentais, agarrados à história e plenamente comprometidos com
o mundo secular da ciência e da tecnologia” – elemento de sua opus
magna que, contudo, Tillich confessara ter sido desenvolvido sob o
diapasão da confrontação e da apologia –, voltar-se, agora, aos
vastos continentes orientais, bem como ao mundo “primitivo”. Tillich,
de fato, empreendera os primeiros passos. Viajara ao Japão. Iniciara diálogos.
Traçara perspectivas. Ah, como me agradaria tê-lo visto rasgar as
nuvens, desde dentro delas, e deixar que vazassem as velhas águas neoplatônicas.
Não, não vencemos a morte, não. Ela ainda brinca conosco. Mas, talvez,
com isso mais nos incite à reação – ela há de receber o troco, ainda
que na forma das muralhas de Eridu, que Gilgamesh constrói.
Devo
insistir, contudo, que, se haveria uma “novidade” na nova Teologia Sistemática de um novo Tillich, ela não seria o fato de
trazer para dentro de sua opus
os vastos territórios do Oriente. Assim como não há, a rigor, nenhuma
“novidade” no fato de as expressões neo-evangélicas brasileiras,
mais comumente ditas neopentecostais, arregimentarem explicitamente os
“orixás” africanos, porque o fazem na mesma direção demonizante –
e, nesse caso, tanto ontologizante de si, quanto demonizante do outro –
da postura milenar cristã, quando em contato com outras expressões do
sagrado. Em última análise, a redução barthiana do ser
das religiões não-cristãs encaixa-se de forma epistemologicamente
perfeita no rito neo-evangélico, ainda que se poderia testemunhar um
constrangimento público-burguês em Barth pela absurda falta de educação
e civilidade desta última teologia.
A
novidade, então, seria o diálogo. E não aquele do tipo conforme se
tenta ensaiar nas discussões sobre “diálogo inter-religioso”, que, a
rigor – e isso é compreensível – testam arranjos “pragmatistas”,
modelos de convivência maximamente pacíficos, à luz das circunstâncias,
sem, contudo, chegarem a abordar – o que seria explosivo, certamente –
a problemática dos fundamentos epistemológicos, seja da própria base
religiosa, seja da base religiosa dos interlocutores, seja do fenômeno
religioso como um todo. Quero ainda crer que as intenções do diálogo
inter-religioso, necessárias, legítimas e compreensíveis, desdobram-se,
contudo – e a rigor – da lei, consoante as prerrogativas e exigências
político-sociais de um Estado Democrático de Direito que aí está. Em
se tratando da estrutura social “real”, ali, onde a vida pulsa
incontrolavelmente e demanda arranjos provisórios, justifica-se a limitação
não-epistemológica programática. O que não seria admissível, no
entanto, num projeto teológico não comprometido, desde a partida, com
uma metafísica normativo-dogmática. Para uma nova Teologia
Sistemática, seria necessária uma nova postura dialogal, que
implicaria em – exigiria – uma postura de ouvir com interesse
auto-crítico, sem reservas de mercado, sem reservas psicológicas, sem
reservas políticas, sem reservas doutrinárias. Em termos didático-pedagógicos,
diria que o acontecimento maior da história da igreja, maior mesmo do que
a própria Reforma (que fragmenta o cristianismo), e apenas não maior do
que Nicéia (que refunda o cristianismo – ou funda o
cristianismo?), mas tributário direto dela, e do que ali se deu, foi a
Revolução Francesa (que abre uma via alternativa ao cristianismo, e,
potencialmente, a um novo cristianismo). Mas nós, teólogos, não
aprendemos até o fim. Ainda temos saudades medievais. Ah, o majestoso
barroco eclesiástico.
Não
se trata nem de se dissolver em face da alteridade do outro, nem
agarrar-se à própria “identidade”, em face do risco de dissolução
dialogal. Não se trata, ainda, de conformação catequética à tradição
do outro, nem de simples curiosidade pequeno-burguesa pelas tradições
antípodas. Trata-se de avançar para dentro da própria tradição, em
regime de auscultação aberta das tradições alheias, e isso por parte
de cada uma das tradições que se assentam para diálogo, em busca do ou
dos critérios de validade mútua do discurso. Trata-se de investigação
crítica das inúmeras materializações de self
deception[v]
que a fé unge com os óleos da revelação, tanto aqui quanto acolá.
Trata-se de construir – em todos os sentidos – uma plataforma planetária
para a compreensão e a expressão “inteligente – não alienada – do
fenômeno religioso. O elemento crítico – para citar um dos três
elementos-chave que Tillich enumera – é fundamental. Ou seja: a base
deve ser, necessariamente, crítica. Auto-crítica. E mutuamente crítica.
Não
sejamos ingênuos. Eliade sabe que Tillich sempre teve um “grande
interesse” pelos trabalhos de Rudolf Otto, C. G. Jung e Arnold Toynbee.
Tais trabalhos movem-se, cada qual a seu tempo e modo, uns mais, outros
menos, Otto menos do que todos, na geografia científico-humanista – e não
na metafísica. Quando pretendem arriscar uma visada, como Jung, por
exemplo, fazem-no – como prescreve a metodologia da Fenomenologia da
Religião (de Eliade, por exemplo) – a partir dos “testemunhos”
humanos, tomados como documentos,
de forma que se caminha, aí, sempre, embaixo.
A despeito da proximidade deles, Tillich ainda pensava ter, contudo, um
“pescoço” metafísico. Por conta disso, qualquer “evidência”,
qualquer diálogo, qualquer tema, qualquer cultura, será como que
metafisicamente “avaliada” (a pretensão da metaposição metafísica
de visada não a estabelece, contudo, e tão somente a pressupõe,
assumindo-se como tal entre os domésticos e catequizados). Apenas uma
postura não-metafísica de partida, não-ontológica, epistemologicamente
comprometida com o “espírito” científico-humanista – a depender de
mim, carregada das tensões próprias dos conceitos epistemológico de
complexidade e transdisciplinaridade – pode garantir a “novidade”
pressuposta. Porque não há nada de novo, de verdadeiramente novo, quando
se passa de Paulo a Agostinho, de Agostinho a Lutero, de Lutero a Barth,
e, de Barth, ao “primeiro” Tillich. Em cada uma dessas estações, a
locomotiva metafísico-doutrinária, a fé neoplatônico-cristã, troca as
cores da lataria, às vezes, até mesmo o som do apito. Mas é – sempre
– o mesmo “anjo” a entupir de carvões ontológicos a caldeira da fé.
Eliade
comenta que Tillich havia renovado continuamente seu pensamento teológico,
premido cada vez mais “pela declaração de Nietzsche sobre a morte de
Deus” (p. 13), e acrescenta: “agora opino que um processo criativo análogo
se inicia a partir do encontro de Tillich com as religiões arcaicas e
orientais”. Esse é o ponto. Há, sim, um deslocamento de Tillich. Seu
horizonte se amplia. Sua perspectiva prepara-se para cortar novos
enquadramentos. Mas – insisto de novo – o que isso significa? Caso o
movimento de Tillich seja – tivesse sido – apenas horizontal, nenhuma
propriamente novidade haveria de se materializar. Seria necessário – e
a conferência dá poucos vislumbres de que poderia ser que essa viria a
ser a perspectiva de acesso de Tillich às novas terras a desbravar – um
deslocamento em espiral, o que implicaria em duas alterações
fundamentais na posição epistemológica do teólogo. Primeira,
desprovincializar-se espaço-temporalmente, exigência que seria
satisfeita pelo olhar epistemologicamente voltado para as religiões
arcaicas (tempo) e orientais (espaço). Segunda – e nevrálgica e
constitutiva e incontornável –, a irrecalcável abertura dialogal,
franca, fraterna com os dois principais interlocutores indispensáveis: a
racionalidade crítica ocidental e a espiritualidade idiossincrática das
religiões arcaicas e orientais. Eliade e eu jamais saberemos o que teria
sido essa jornada. Eliade já foi levado a desistir.
Da
conferência
A
conferência O Significado da História
das Religiões para o Teólogo Sistemático foi dividida por Tillich
em três partes. Na primeira parte [I] (p. 95-101), e com base no
argumento “o teólogo que aprova o tema [da conferência] (...), e o
assume com seriedade, já tomou, explicita ou implicitamente, duas decisões
fundamentais”, Tillich apresenta duas declarações teórico-metodológicas:
esse teólogo A) recusa-se a considerar como válida apenas
a sua própria religião, e B) recusa-se a assumir “o paradoxo de uma
religião da não-religião, quer dizer, uma teologia sem deus” (p. 95).
Na
segunda parte [II] (p. 101-113), Tillich tratará das condições e exigências
do que considera “uma teologia da história das religiões” (p. 101).
Apresentará sua aproximação dinâmico-tipológica (A) e encerrará com
uma discussão acerca da relação entre sagrado
e profano e sua relação com a
história das religiões (B).
Na
terceira parte [III] (p. 113-118), Tillich se propõe a enfrentar o
problema da “interpretação da tradição teológica à luz do fenômeno
religioso” (p. 113). Cioso de abandonar a metodologia teológica sistemática
clássica, bem como – novidade? – a metodologia da teologia natural,
afirma a adoção do que chama “método da história das religiões”.
Pretendo,
agora, entrar em cada parte da conferência de Tillich, ouvi-las, dialogar
com elas e ultrapassá-las naquilo que elas tiverem, a meu juízo, de
insuficiente, de insatisfatório, de impróprio, a uma “teologia” pós-metafísica.
E não hei de ter pouco trabalho.
Da
nudez dialogal exigível de um novo teólogo - I
O
que chamo aqui de “novo teólogo” é aquele teólogo que, nos termos
da conferência de Tillich, “aprova” e “aceita com seriedade” o
tema: o significado da história das religiões para a teologia. Deve-se
ter em mente que todo teólogo aceita a relação entre a teologia e a
história das religiões. Os teólogos antigos – que eu costumo
classificar de pré-medievais, medievais, ontológicos, justamente porque
seu registro teológico dá-se em conformidade com a autoridade político-epistemológica
que a Igreja, em face do “mundo”, pretendia, então, exclusivamente
ter - aceitam-na. Segundo esse recorte epistemológico, a verdade, a
autenticidade, o ser,
expressa-se (apenas) pela boca do teólogo, na
e pela teologia. As religiões
– todas – e sua história – inteira – constituiriam (apenas)
alguma coisa entre “preparação ultrapassada” (Hegel),
“inautenticidade ontológica” (Barth), “autonomia auto-instauradora
defasada” (Bultmann), e isso apenas para ficarmos com os “educados”,
já que há inúmeros teólogos que as classificam com palavras menos
civilizadas – pondo-as, incontinenti, na boca de “Deus”.
A
conferência de Tillich propõe, ao contrário, que a história das religiões
seja tomada positivamente, heuristicamente, criticamente. Precisamente é
isso que, ali, significa “aprovar” e “aceitar seriamente” o tema.
Qualquer dúvida quanto a uma tal interpretação da proposição de
Tillich ele mesmo a elimina, uma vez que cita explicitamente Karl Barth
como um dos representantes da teologia que deve ser ultrapassada pelo teólogo
que aprove e aceite os termos da conferência. Barth teria “renovado em
nosso século” a pretensão exclusivista da teologia – da religião,
da fé – cristã. Não é Barth, naturalmente, o arquiteto da plataforma
exclusivista, e – reconheço – será tarefa do “novo” teólogo,
tanto reconhecer que se coloca contra
a orientação paulina original, quanto superá-la.
Não
me parece, contudo, que a posição de Tillich enseje comemorações. Ela
parece apontar para um caminho. Entretanto, pergunto-me sobriamente: será?
Das
pressuposições sistemáticas da conferência de Tillich – I A
Em
face de sua primeira declaração, Tillich apresenta as seguintes
“pressuposições sistemáticas” (p. 97-98). Primeira: “as experiências
revelatórias são universalmente humanas”. Segunda: “o homem recebe a
revelação no contexto de sua finitude humana”. Terceira: a aceitação
do fundamento histórico-religioso das experiências de revelação
implica no reconhecimento, de um lado, do “processo revelatório na história”,
e, de outro, da necessidade de ser aplicada crítica a tal processo histórico.
Quarta: pode haver – e Tillich repete, em aposto: “e sublinho este pode”
– um acontecimento concreto que marque, na história das religiões, a
possibilidade de “uma teologia concreta que tenha significado
universal”. E quinta: “a história das religiões – em sua natureza
essencial – não se desenrola dentro da história da cultura”. Após
enumerá-las e apresentá-las muito sucintamente, Tillich declara:
Somente
se o teólogo aceita voluntariamente estas cinco pressuposições poderá
defender, com seriedade, e de maneira total, o significado da história
das religiões para a teologia, contra aqueles que a rechaçam em nome de
um antigo ou novo absolutismo (p. 98).
É-me
necessário analisar mais detidamente as “pressuposições sistemáticas”
da conferência. As duas primeiras ostentam a aparência de axiomas teórico-metodológicos
da Fenomenologia da Religião. Se é, de fato, o caso, poderiam ser
encontradas no capítulo Aproximações – Estrutura e Morfologia do
Sagrado, do Tratado de História das
Religiões, de Mircea Eliade[vi].
A meu ver, a Fenomenologia da Religião deve
constituir-se em plataforma operacional de uma teologia pós-metafísica.
Uma tal aproximação teórico-metodológica imporia à teologia que
levasse radicalmente a sério o fato de que “o homem está limitado
biologicamente, psicologicamente e sociologicamente” (p. 97). E isso sem
tergiversações.
Mas,
e quanto a Tillich? Ele tergiversa? Ainda? Em plena conferência? Sou forçado
a afirmar que sim. Porque, de outro modo, o que significaria a afirmação:
“a revelação processa-se dentro das condições alienantes do homem”
(p. 97), justamente quando parecia que Tillich acessava a sua segunda
pressuposição sistemática desde a Fenomenologia da Religião? Como
assim “a revelação”? Um acesso pós-metafísico ao fenômeno
religioso, mesmo quando e ainda que teológico – e isso se pós-metafisicamente
teológico ou, pelo menos, se crítico-acadêmico – deve fazer-se
imperiosamente sob o movimento da ótica do testemunho humano, não sob a
suposta ótica da “essência” supostamente manifestada na
“hierofania”, para cuja pretendida visada seria incontornável um
acesso metafísico-ontológico, a que, segundo o próprio Tillich, o homem
está impedido, dadas as suas condições de limitação biológica,
psicológica e sociológica. Ora, se é de fato aceito que esse homem
experimente-se na condição de homem, logo toda e qualquer impressão que
“de fora” lhe advenha estará indelevelmente marcada pelas respectivas
limitações antropológicas – e, mesmo, determinada por elas. O
resultado será uma interpretação antropológico-cultural do fenômeno.
Interpretação que carrega a marca da limitação humana. Quando olhamos
para o conjunto, deparamo-nos com um homem limitado, elaborando e portando
discursos antropologicamente limitados. Como Tillich pode saltar dessa
situação limitada – a que ele mesmo submete o homem – para a afirmação
da “revelação”?
Percebo
duas possibilidades. Ou Tillich ouve, ingênua e inocentemente –
alienadamente[vii]
– o testemunho humano, que lhe informa acerca da revelação hic et
nunc, ou Karl Barth ainda sopra em seus ouvidos de teólogo
protestante uma mística política, hierocrática, exclusivista, sobre
conteúdos normativo-dogmáticos que ambos tomam por adventícios. Quanto
à primeira possibilidade, nem a Fenomenologia da Religião toma
inocentemente e ingenuamente – alienadamente – os testemunhos humanos
consignados em seus documentos de trabalho. Logo, uma teologia pós-metafísica
igualmente deveria manter, diante deles, uma atitude científico-humanista
(a Fenomenologia da Religião quer compreender o processo, histórico-antropológico,
não o conteúdo, imaginativo, fictício). Quanto à segunda
possibilidade, Tillich deveria saber onde vai dar a teologia de Karl
Barth, que ele já assinala como de caráter exclusivista. Por que meios,
então, pode chegar à afirmação de “revelação”? Estará Tillich
esboçando uma gigantesca conta de chegada, um acordo universal, em torno
da manutenção mítico-teológica da alienação religiosa humana? Será
se o que Tillich pretende é sair de seu provincianismo, mas não de seu
mundo teológico-metafísico? Tillich tem a pretensão de levantar as
fronteiras de seu provincianismo teológico, como quem levanta, nas mãos,
uma corda demarcatória, e arrastá-lo por sobre todas as extensões do
planeta, para sair de seu bairrismo teológico, engolindo a Terra, fazendo
dela seu próprio “bairro”?
Quanto
a mim, afirmo que uma teologia pós-metafísica deve assumir o conceito de
“revelação” apenas como hierofania,
terminus tecnicus da Fenomenologia da Religião que encerra o
sentido de “testemunho humano da manifestação do sagrado”, e que
permanece com o sentido antropológico – e pelo acesso antropológico
– de “manifestação do sagrado”. Assim como a Fenomenologia da
Religião não salta do documento para a aceitação mítica do conteúdo
do documento, de igual modo, porque epistemológico-metodologicamente
religioso-fenomenológica, a teologia pós-metafísica jamais
manejará o conceito de “revelação” – hierofania – de
cima (aceitando - por meio de fé - o conteúdo do testemunho,
tornando-a pressuposto racionalizador), mas por
baixo (tratando-o como afirmação antropológico-cultural, noção
cultural fictícia, ainda que assim não considerada pelo “fiel”). Uma
teologia pós-metafísica não vai, subrepticiamente, fazer dessa afirmação
antropológica uma janela metafísica.
Porque, científico-humanisticamente, a teologia não o pode, nem a janela
é metafísica.
Nesse
sentido, é muito importante tomar um termo que Tillich usou nessa segunda
“pressuposição sistemática” – “alienação”. Ei-lo: “a
revelação processa-se dentro das condições alienantes do homem”. Se
eu abro a declaração de Tillich por meio de sua própria formulação,
ela quer dizer o seguinte. O homem está “alienado”. Sua condição
humana é, intrinsecamente, de alienação. Por causa disso, a “revelação”
deve ocorrer enquanto o homem
está nesse estado de alienação. Dir-se-á, ainda: a “revelação”
ocorre apesar desse estado de
alienação do homem. Visto por essa ótica, o estado de alienação
humana apenas “enfraqueceria” a plenitude da revelação. Uma vez que
o homem encontra-se “limitado” (= alienado) biológica, psicológica e
sociologicamente, resulta necessária uma compreensão quanto à inevitável
“contaminação” antropológica da “revelação”. Entretanto,
enfraquecida que esteja pela limitação antropológica humana, a
"revelação" dá ao homem informações metafísicas legítimas.
Pois bem: a meu ver, quando afirmamos o que Tillich acaba de afirmar,
estamos, todos, sentados em plena catedral metafísica da teologia cristã.
A “revelação” é assumida como dada
– e pronto. O caráter relativamente mitigado desse fideísmo (a aceitação
do quebrantamento da plenitude da revelação, por conta da “fraqueza”
histórico-social humana) não o transmuta em saber – é fideísmo
voluntarista, é doutrina neoplatônica cristã, hierocraticamente
mediada, tomada como “reflexão”. É racionalização – para
empregar um termo muito usado, como denúncia (mesmo sentido com que,
aqui, eu o manejo) por Edgar Morin, seja em seu monumental O Método, seja em seu mais popular, e não menos relevante, Os
Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro[viii].
Tillich apropria-se de um velho termo teológico neoplatônico-cristão, e
tenta – mas é impossível – articulá-lo a partir de uma plataforma
supostamente religioso-fenomenológica. Recusei enfaticamente todas as críticas
que um relativamente recente artigo de Frank Usarski fez “ao ramo clássico
da Fenomenologia da Religião”[ix]
– crítica esta minha que, registre-se, o próprio Usarski recusou
veementemente. Eu aceitaria, contudo, aquelas contundentes críticas – a
meu ver, como lhe tentei dizer, válidas para a “manipulação teológica
do ramo clássico da Fenomenologia da Religião” –, se aplicadas à
segunda pressuposição sistemática da conferência final de Paul
Tillich: criptoteologia, sob o disfarce de fenomenologia da religião.
Dever-se-ia
recordar, agora, que a tradição do século XIX, aquela que passa por
Schopenhauer, Feuerbach, Marx e Nietzsche (para nos movimentarmos, apenas,
nas antecâmaras fundamentais das "ciências do espírito"),
maneja o termo “alienação” em um sentido completamente oposto àquele
com que foi empregado na conferência de Tillich. Emerge da conferência a
afirmação de que o homem encontra-se alienado do
“Sagrado”, alienação essa marcada por limitações biológicas,
psicológicas e sociológicas. Trata-se, aí, da mesma afirmação de Platão,
a mesma de Paulo, a mesma de Agostinho, a mesma de Lutero, a mesma de
Barth. Segundo o roteiro previsto pela epistemologia teológica que se
descortina de Platão a Tillich, o “Sagrado” constituiria o
veículo necessário e exclusivo de desalienação do homem. Quanto a
Paulo, Agostinho, Lutero, Barth e Tillich eu não sei, mas, ao menos com
relação a Platão, desde que li A Invenção da Mitologia, de Marcel Detienne[x],
está muito claro para mim que o filósofo tinha consciência do teor político-hierocrático
de uma tal “epistemologia” – de certo modo ainda presente, na forma
de resquícios sutis, na menção marxiana da “educação” humana pelos
educadores[xi].
Escondido atrás de cada palavra pronunciada por uma teologia neoplatônico-cristã,
às vezes explicitamente – catolicismo romano –, às vezes
implicitamente (cf. a discussão entre Erasmo e Lutero a respeito das
conseqüências político-sociais do princípio do livre-exame das
Escrituras, em Richard Popkin, A
Histórica do Ceticismo – de Erasmo a Espinosa[xii]
, na qual Lutero faria saber a Erasmo que o "verdadeiro crente",
por obra e graça do Espírito, chegaria à correta e perfeita compreensão
das Escrituras, preservando-as de confusões interpretativas), posta-se,
na penumbra, um olho-e-ouvido-e-boca-de-Deus, um sacerdote, que desde
sempre, “sabe”. Não foi por outra razão que Karl Barth disse o que
disse a respeito da “revelação”, retornando a Lutero, a Agostinho, a
Paulo – a Platão, pai de todos. O Romantismo alemão, na esteira do
primeiro Kant, de Schopenhauer, de Feuerbach, de Nietzsche, de um
Heidegger, denunciou o caráter ineludível da condição histórica
e epistemológico-hermenêutica humana. Oh, sim, condição essa
expressa nos termos do próprio Romantismo, e da qual, é verdade, uma
civilização “arcaica” ou “oriental”, por exemplo, poderia
prescindir em sua cosmovisão, mas não
– absolutamente não – se
essas culturas decidem-se por articular conceitos por meio das Ciências
Humanas – justamente o público para quem Tillich, eventualmente,
pretende escrever (ou que pretende cooptar).
Ora,
a alienação é, para aqueles ilustres cavalheiros, justamente, deficit
de autonomia – epistemológica, antropológica, política, econômica
etc. Tal “deficiência” de autonomia pode ser observada em
lugares-comuns atribuídos a Marx – “religião é alienação”[xiii]
– e a Nietzsche – “todo cristão é uma besta de carga”[xiv].
Ambas as afirmações tomam como alienação aquele estado do homem
concreto no qual ele mesmo não segura as rédeas da própria consciência,
e isso por meio de mecanismos político-econômicos de manutenção dessa
deficiência histórico-social. O homem religioso é aquele para quem a
religião serve de lenitivo. É também
verdadeiro – apesar de não sempre verdadeiro. Todo cristão é uma besta de carga. É também
verdadeiro – a despeito de não
sempre verdadeiro. Confirma-o, agora, Tillich, que pretende que, para
que eu caminhe com ele em sua conferência, das duas, uma: ou finja não
ver que há um demiurgo escondido na
e por trás da doutrina da
“revelação” – uma conjunção bizarra de sacerdote e oráculo –,
ou, mais cinicamente, em se tratando de um protestante, que reconheça no
próprio teólogo o papel que cabia, originalmente, a Platão – o
“revelador”. Não sei quanto aos demais leitores. Este não pode
(mais) acompanhar o jogo. Os
dados estão viciados. A banca sempre ganha.
A
“desalienação” humana, a meu ver, ao contrário do que pressupõe o
roteiro programático da conferência, não advém de uma adequação
existencial em relação à “revelação”. Antes, parece-me necessário
afirmar que justamente qualquer retórica de “revelação” impõe um
olhar severamente crítico. Arrisco a afirmar que, se não ainda
suficientemente, se não ainda completamente, se não ainda perfeitamente,
as Ciências Humanas, manejadas que sejam por “cientistas”, “teólogos”,
“religiosos” ou “orientais”, enquanto Ciências Humanas – e, seria necessário dizer: em sua transformação
por meio do Pensamento Complexo (e indico, à guisa de precisão: nos
termos em que o propõe e expõe Edgar Morin), são as únicas elaborações
contemporâneas disponíveis, no Ocidente, para um princípio de
auto-desalienação humana. É forçoso admitir que a segunda pressuposição
sistemática da primeira parte da conferência de Tillich (e, sem boa
vontade, também a primeira) ratifica a crítica de Marx à religião, e
restitui aos ombros do cristão moderno a velha canga metafísica. Por
mais elaborada que seja a estratégia de racionalização da passividade
psicológica subentendidamente exigida da parte do cristão pelo argumento
de Tillich, ela ainda é alienação.
Nesse caso, alienação epistemológica científico-humanista, a saber,
recusar-se a aceitar a plataforma epistemológica das Ciências Humanas
– românticas – para, com ela, aproximar-se, até – senão
principalmente – dos próprios mitos político-religiosos, com a consciência
de que se trate do que são: mitos. E isso de um tão inextricável modo
que a tentativa - de um Bultmann, por exemplo - de centrifugação dos
conteúdos resulta em novo mito, se ao resultado do experimento de laboratório
se pretende anexar um rótulo extra-físico. O querigma de Bultmann
é tão mítico quanto a base mitológica de onde ele pretende tê-lo
extraído.
A
sua terceira pressuposição sistemática está contaminada pela segunda,
mas devo conceder-lhe atenção. Uma vez que vem de dizer que a revelação
“encarna” na limitação humana, que a “revelação” torna-se histórica,
e uma vez que Tillich leva a sério o significado do ser histórico, as suas implicações epistemológicas, Tillich
reconhece que os discursos teológicos da história das religiões devem
ser objeto de crítica constante. São os “limites da adaptação e os
erros da distorção” que demandam por juízo crítico. Bem, dadas as
minhas observações críticas à segunda pressuposição sistemática,
resta questionar em que medida pode haver “crítica”. Antropológica?
Limitada, que é, biológica, psicológica e sociologicamente? A visada crítica
humana, essa mesma, “alienada”, lograria separar o joio
– as fabulações míticas dos homens – do trigo
– a “revelação” –, por exemplo? Os componentes estruturantes
dessa crítica – a epistemologia, a ética e a estética, constroem-se
por que meios? Os mesmos que caracterizam o estado de alienação e limitação
humano? E como, assim limitados e alienados, tais critérios poderão
discernir flashes do “ilimitado”? Ora, se Tillich não mantiver um olho de
Deus entre nós, não poderá propor uma crítica ao dedo de Deus que
eventualmente nos cutucasse. O vício incontornável da teologia ontológica
– explícito e mal-educado, ou implícito e civilizado -, é que todas
as suas materializações históricas já “sabem” tudo quanto há de
ser sabido, antes que se chegue a saber se fora possível que se viesse a ter
sabido. A “fé” desconhece a self
deception.
Essas
duas – segunda e terceira – pressuposições sistemáticas de Tillich
me recordam um diálogo com meu professor de Teologia Sistemática, na
PUC-Rio, onde, atualmente, cumpro o oitavo – último – semestre de um
doutorado em Teologia Bíblica (Antigo Testamento). O tema era a
“inculturação da fé”. A plataforma epistemológico-operacional,
alegada, Cliford Gertz. O argumento fundamental da proposta de
“inculturação da fé” consistia no caráter cultural das cosmovisões
sócio-culturais das comunidades locais. Por meio dessa estratégia retórica,
argumentava-se que os cristãos deveriam
admitir que o “cristianismo” deve
ser adaptado culturalmente, quando recebido nas
e pelas comunidades locais, porque a “cultura” local deve
ser a articuladora dos “fundamentos da fé”. Minha pergunta: e quanto
ao caráter igualmente “cultural” desses supostos “fundamentos da fé”?
A resposta, inevitável sob o regime teológico em que ela se processa: se
o “cristianismo” não sustentar a manutenção de um núcleo
proposicional revelado, ele se dissolve. Um eventual leitor, eventualmente
ontológico-metafísico, considerará muito natural a resposta.
Tillich
desce – ou sobe? – o mesmo rio. Não chegou, ao menos até esse ponto
da conferência, a conseguir abrir mão do pressuposto neoplatônico (e,
conseqüentemente, porta-se como um pequeno demiurgo, funcionando como uma
espécie de “sacramento” retórico-discursivo [a rigor, a pregação
evangélica ressente-se de ciúmes do status de sacramento do
cristianismo católico]). Sob esse aspecto, toda a conferência está
contaminada. Mas, talvez, ainda se possam encontrar insights
– atos falhos – escondidos nas tentativas de recalque de nosso iniludível
provincialismo epistemológico.
À
luz dos meus argumentos anteriores, relacionados às segunda e terceira
pressuposições sistemáticas de Tillich, a quarta pressuposição
resulta totalmente prejudicada. Ela trata da possibilidade de um
acontecimento histórico, teologicamente assumido, teologicamente
interpretado, chegar a obter “significação universal”. Não se pode
afirmar que se trata de uma reserva de mercado para a teologia cristã –
se o foi, foi mal planejada –, uma vez que outras religiões possuem memória
traditiva também relacionada a tais (alegados e/ou interpretados)
acontecimentos históricos. O problema desse tipo de afirmação é que
ela é epistemologicamente escorregadia, se não, já, esquiva. O que ela
signifique para uma determinada teologia que a empunhe somente os
desdobramentos retóricos que se lhe venham a seguir revelará. Ela
poderia ser uma afirmação da Fenomenologia da Religião, e ser assumida
como tal. A primeira pressuposição sistemática da conferência
recortou-se da metodologia religioso-fenomenológica. Seria o caso dessa
última? Bem, à luz das segunda e terceira, não. Lá, já se viu,
Tillich fala de um modo que pressupõe a sua pretensão de que o leitor
acredite que o teólogo tem uma posição epistemológica mais ou menos
alinhada à perspectiva do “Sagrado”, e que a sua fala “esclarece”
as coisas – e, ouvir-se-á dele, antes que a conferência termine, isso
não de forma restritamente antropológica, mas de forma teologicamente
antropológica. Trata-se, portanto, de uma proposição teológico-metafísica.
O acontecimento duro haverá de ser tomado a partir da encarnação que
nele se fizer tomar por “revelada” – mito, desconhecendo-se enquanto
mito –, e conforme formulada e transmitida pela teologia – política.
Finalmente,
a última pressuposição sistemática. Após declará-la, Tillich
acrescenta:
O
sagrado não se coloca junto ao secular, mas, sim, em suas profundezas. A
sacralidade é o elemento criativo, e, ao mesmo tempo, o juízo crítico
da secularidade. Porém a religiosidade pode existir unicamente se ao
mesmo tempo constitui um juízo de si mesma; um juízo que deve empregar a
secularidade como um instrumento da auto-crítica religiosa” (p. 98).
Recorde-se
a fórmula proposicional de abertura: “a história das religiões – em
sua natureza essencial – não se desenrola dentro da história da
cultura”.
Não
é tarefa fácil entrar com segurança no território circunscrito por
meio de tais afirmações. Flagra-se Tillich em plena crise epistemológica?
Não, ao contrário, Tillich, ciente do risco de dissolução da teologia
metafísica, que articula, e desde a qual se pronuncia, captura a
complexidade do tema do “sagrado”, domesticando-o teologicamente na
forma de “Sagrado”? Não, não, ainda o contrário disso: Tillich
beira o abismo, e chega tão próximo do salto sobre ele, que suas
palavras ressentem-se do risco? Voltar as costas à metafísica é fácil.
Para empregar uma expressão de John Huizinga, em Homo Ludens[xv],
basta assumir a atitude do estraga-prazer. Ao teólogo que alguma vez
vislumbrou o anacronismo civilizatório ocidental da metafísica teológica
neoplatônico-cristã, ele que jogava tão bem o jogo, restam-lhe, agora,
duas opções. Tornar-se um trapaceiro, mais tolerado pelos outros
jogadores do que os estraga-prazeres, ou um estraga-prazer, insuportável
segundo as imposições lúdico-agonísticas do jogo. Em termos analógicos,
um jogador do jogo teológico metafísico neoplatônico-cristão jamais
vislumbrou, sequer de soslaio, a inescapável condição físico-biológico-histórica
humana. Há um que viu, de relance, olhou de novo, uma segunda vez,
assombram-lhe as conseqüências disso para o jogo, e, por conta das
contas que faz, continua jogando – esse trapaceia.
Finalmente há aquele que foi tomado pela convicção romântica ineludível
da solidão antropológica, a um só tempo graça e desgraça, glória e
inglória, da espécie humana. Esse é o estraga-prazer, porque, para ele,
aquele jogo acabou. Tillich viu alguma coisa que agora o assombra?
Queimam-lhe agora, nas mãos, as cartas? Alguém, cujo pressuposto de saída
é ratificar os postulados da historicidade inexorável do Homo sapiens sapiens, para, no mesmo gesto, como se um pudesse
nascer do outro, assumir a “revelação” como saída
– esse tal é jogador ou trapaceiro? Decerto, não, um estraga-prazer.
Retornemos
às formulações de Tillich, então. Mais uma vez, flagramo-lo manejando
o discurso desde a metaposição do “Sagrado”: “o sagrado não se
coloca junto ao secular, mas, sim, em suas profundezas”. Que Tillich
saltou, já, dos testemunhos humanos para o seu conteúdo, fideísta e
racionalizadoramente assumido, eu já o disse. Mas a sua próxima afirmação
pode constituir um fator heurístico importante, ainda que apesar
da intenção retórica de Tillich, e, mesmo, contra
ela. Dizer que “a sacralidade é um elemento criativo e, ao mesmo
tempo, o juízo crítico da secularidade” não é apenas dizer alguma
coisa diferente do que acabara de dizer, mas, eventualmente, dizer alguma
coisa em outro registro epistemológico. Uma futura teologia pós-metafísica
que eu elaborasse, ou, alternativamente, encontrasse elaborada, não teria
dificuldades com a fórmula, conforme proferida. Porque o conceito de
“sacralidade” não é necessariamente o mesmo conceito de
“sagrado”, muito menos de “Sagrado”, uma espécie de substituto
filosófico-teológico para “Deus”.
A
sacralidade – melhor dito – o conceito de sacralidade, a sua percepção
antropológica, nada tem de necessariamente neoplatonicamente metafísico.
Tendo eu atravessado a linha limítrofe entre os séculos XVIII e XIX –
e como gosto de tê-lo feito! –, ainda assim posso manejar o conceito,
por meio da Fenomenologia da Religião (e, Frank, honestamente,
rigorosamente nos termos da Fenomenologia da Religião, sem que isso signifique, sob nenhuma
hipótese, dissimulação “teológica”, pelo menos não nos termos em
que você concebe a sua crítica a um certo recorte metafísico-ontológico
de criptoteologia). A “sacralidade” é resultado
concreto de experiências histórico-antropológicas da espécie humana,
e, em que pese ser mesmo “razoável” – e legítimo – pressupor a
possibilidade de alguma "coisa" extrafísica
– metafísica – ser também sua co-produtora, o meu discurso pode
lidar, apenas, honestamente, com a primeira inferência. Porque, na
totalidade das regiões vastíssimas da Terra, e num período vastíssimo
do Tempo, homens e mulheres testemunharam o que interpretaram como
manifestações as mais díspares do “sagrado”, e a geografia humana,
seja a física, a geopolítica, a sociológica, a noológica, foi tomada,
aos olhos desses homens e mulheres – entre eles, a meu tempo e modo, eu
mesmo – como fraturada. Posso tomar um tal estado de coisas em minhas mãos,
e articulá-lo em palavras? Posso. Mais que isso – devo, se o que
pretendo é tomar o real complexo nas mãos, o real físico, o real biológico,
o real antropológico, o real sociológico, o real ecológico, o real noológico.
Mas, atenção: eu só posso pegar isso
nas mãos, esse estado de coisas. Eu não posso pegar, contudo, sob
nenhuma circunstância – não, em face do
projeto de uma existência pós-metafísica, desalienada da inconsciência
do mito como mito, no projeto de
uma teologia pós-metafísica –, o elemento racionalizado desse status quo – um “Sagrado” criptopolítico – como se isso – “Ele”
–, na forma de minha racionalização,
pudesse constituir elemento ao mesmo tempo ontológico-metafísico e
discursivo. A condição epistemológica para que esse
elemento possa ser articulado em meu discurso é o epistemologicamente
consciente reconhecimento disso
como imaginação humana. Feuerbach está de todo certo[xvi].
Inclusive porque era somente desse
elemento que Feuerbach, como estraga-prazer, podia falar. Como
Feuerbach deve ter parecido inconveniente, e mesmo pernicioso, aos olhos
de um teólogo da altura metafísica de Karl Barth. Como Barth deve ter
reclamado de Feuerbach a Deus, porque lhe estragava a brincadeira.
O
que, para uma teologia pós-metafísica, resulta do manejo criticamente
controlado de um conceito de “sagrado” rigorosamente formulado com o
recurso à Fenomenologia da Religião, ainda me considero moço demais
para responder. Subsume-se aí, afinal, a
pergunta teológica pós-metafísica. A depender da resposta
heuristicamente determinada que ela merece, Marx torna-se definitiva e
incontornavelmente certo. Até o momento, Marx permanece apenas provisória
e circunstancialmente certo – religião (e teologia, naturalmente) é
alienação – e, isso, seja na forma de ópio, seja na forma de cafeína,
porque há tanto articulações reacionárias quanto revolucionárias da
religião, ambas movendo massas em nome do “divino” carismaticamente
articulado. Mas o será eideticamente? Constituirá o ser da religião a
exigência de alienação, e será a imposição de tal monta que a conseqüência
de uma científico-humanística desalienação do homem é a dissolvição
inapelável da religião? Provisoriamente, eu responderia que, sim, e que
não. Se religião, aí, significa o modelo mítico-heterônomo com que as
religiões se inventaram historicamente, sim, a autonomia científico-humanista
dissolve a religião, porque o jogo
acaba, a inocência se perde. Porém, se a religião não precisa ser,
necessariamente, ingênua, acrítica de si mesma, então não, a autonomia
“moderna” não a dissolve. Mas a transforma. É impossível – salvo
na forma de trapaça – que o jogo
permaneça como era jogado antes das “Luzes” e do “Romantismo”.
Ele não precisa necessariamente acabar, mas deve ser reinventado. Atenas
não chegou a levar suficientemente até o fundo a crítica da mitologia -
porque, a rigor, ela não procedeu à crítica da mitologia: Atenas
submeteu-a a si, domesticou-a. O que aí parece crítica do mito, é
apenas etiqueta à mesa, e uma sofisticação econômica da política. Não
deve causar espécie o fato de que a caricatura que Rubem Alves faz dos
"cientistas" modernos como "sacerdotes" do século XX
possa ser usada perfeitamente para ilustrar o modo como o filósofo Platão
não chegou, de fato, a abandonar o banquete mitológico - apenas vestiu
trajes filosóficos, que ainda se fazem vender em manuais de Teologia.
Quase
chegaria a dizer, e somente não o digo por força da incapacidade de
determinar, inequivocamente, sob qual registro epistemológico Tillich as
pronunciou, que esse é mesmo o sentido das seguintes e imediatas
palavras: “a religiosidade pode existir unicamente se ao mesmo tempo
constitui um juízo de si mesma; um juízo que deve empregar a
secularidade como um instrumento da auto-crítica religiosa” (p. 98). O
juízo – não o digo, di-lo Tillich, eu apenas concordo em todos os
sentidos – é o juízo da secularidade, e não outro. Ora, o juízo da
secularidade é o juízo autônomo, esclarecido epistemologicamente por
meio do jogo das Ciências
Humanas, sujeito às suas regras, às suas limitações – e uma metafísica,
aí, é perversão. Se as duas pontas do fio que Tillich tece forem
amarradas uma à outra, provoca-se um curto-circuito irremediável. Ora,
Tillich começa apontando o “Sagrado” – metafísica – e, depois,
passando pelo conceito volátil, escorregadio, dúbio, esquivo, de
“sacralidade”, chega ao agora inequívoco assentamento da crítica
religiosa sob o regime secular.
O fio somente poderia continuar a ser tecido sob duas formas: uma, ao
estilo do trapaceiro, em que a contradição é dissimulada, a consciência
do ouvinte é persuadida, sua autonomia, convertida em heteronomia acrítica,
e a proposição passa por um argumento de defesa da legitimidade de uma
teologia (ainda) metafísica. Ao meu ver, isso é trapaça.
Alternativamente, pode-se resolver o paradoxo por meio do recurso à
espiral. Trata-se o “Sagrado” da fórmula teológica de Tillich nos
termos do “sagrado” da Fenomenologia da Religião, não
necessariamente reduzindo um eventual “Sagrado” – e como saber dele?
– a um “sagrado” antropológico, mas assumindo, do fenômeno
antropológico da manifestação do “sagrado”, apenas a parte articulável
à consciência humana autônoma e científico-humanisticamente
esclarecida. A seguir, reconhecendo, como o faz Peter Berger, O
Dossel Sagrado, mas isso não sob a ótica mítico-ingênua do
“Sagrado”, mas, sempre, sob a ótica autônoma científico-humanisticamente
esclarecida, que reconhece culturalmente
e como cultura as materializações político-sociais do conceito de
“sacralidade” que se derrama das experiências psicológico-antropológicas
humanas. Finalmente, concluindo pela inabdicável necessidade e
responsabilidade do juízo crítico secular
– explicite-se: científico-humanístico. O que fiz? Tomar as mesmas
palavras de Tillich, e articulá-las na
e segundo a plataforma epistemológica
da secularidade.
Não,
o “Sagrado” não se torna, aí, “sagrado”. O “Sagrado” – na
sua eventual condição de Ser
extra-noológico – não pode, aí, ser verbalizado, sob risco de
“sacrilégio”. Permanecendo sob a impressão hermenêutica dos
sentidos humanos, deve ser tomado e deixado como mistério inacessível. O
que pode e deve ser tomado como cultura e mito, aí, sim, são as
interpretações humanas, histórico-sociais, das experiências religiosas
psicológico-antropológicas e político-sociais da “humanidade”
concreta e situada. Disso uma teologia pós-metafísica pode dar conta. Ou
melhor – deve dar conta. Teísmo? Mas como? Ateísmo? Deus nos livre.
Uma
palavra é necessária. Não se trata de teologia negativa, ou teologia do
silêncio, ainda que, em termos místicos, uma tal "devoção" não
esteja de todo distante da plataforma epistemológica de uma teológica pós-metafísica.
Uma teologia pós-metafísica, contudo, não é a mesma coisa do que um
recorte positivo de teologia negativa. Há uma diferença epistemológica
grave entre as duas postulações teóricas. A teologia negativa -
enquanto elaboração teórico-metodológica existencial - "crê"
no mistério, e o assume como coisa-em-si. Da mesma forma como o faz uma
teologia positiva teísta, a teologia negativa olha para cima, para baixo,
para dentro, para fora, e "vê. Mas o que vê é "invisível".
O que "ouve", é "inefável". O que "sente",
é "inexprimível". O que "sabe", é "indemonstrável".
A teologia negativa é muito mais uma mística do que uma heurística. Eu
diria que a minha mística pessoal gravita em torno desse sol, com a
ressalva, no entanto, de que não sou capaz de perder de vista, mesmo aí,
o fato de que inclusive essa mística e os seus conceitos manipuláveis são
invenções de uma cultura.
Uma
teologia pós-metafísica sabe apenas do que os homens dizem saber. Uma
teologia pós-metafísica que eu mesmo levasse a termo saberia apenas de
minhas incursões místicas à terra dos sonhos-de-e-em-mim. Enquanto eu
pudesse permitir-me devaneios místico-lúdicos, a teologia pós-metafísica
que eu fizesse, não. Ela deveria ter sob a mira dos olhos não apenas o
fenômeno místico em que eventualmente mergulho, mas - e principalmente -
os elementos noológicos e os instrumentos biopsicológicos com que o mar
é psicológica e noologicamente criado. Qualquer especulável reverberação
de uma presença adventícia nesse fenômeno, certamente psico-antropológico,
contudo, não despertaria o interesse dessa teologia pós-metafísica,
porque ela tem assumido pressupostos teórico-metodológicos e hermenêutico-epistemológicos,
segundo os quais uma aproximação humana a fenômenos humanos retorna de
lá carregada de compreensões - ou incompreensões, eventualmente - também
e sempre humanas. E ela leva tão a sério tais pressupostos, que
deixou-se convencer de que um deus eventualmente se manifestasse, mas
jamais, a ela, uma vez que ela não tem (mais) olhos de ver deuses.
Conquanto seu operador eventualmente...
Quanto
a uma teologia sem Deus – I B
A
segunda parte da primeira questão fundamental da conferência de Tillich
parece dirigida a um destinatário burguês, ocidental, secularizado até
à beira do quase-ateísmo pragmático adquirido, porque a sua leitura
pressupõe uma realidade desse tipo, e ela não parece coincidir com a
geopolítica ocidental. Eu chegaria a dizer que Tillich fala
para o público universitário, seu contexto sócio-econômico polêmico-apologético.
Contudo, uma vez que mais adiante, classifica “boa parte do
Protestantismo” como “uma associação de clubes morais”, e isso,
“devido, precisamente, a que perdeu sua base sacramental”
(p. 107, grifo meu), talvez Tillich esteja mesmo tomando até mais do que
a sociedade, incluindo aí alguma parte do “protestantismo
secularizado” como representação contemporânea de alguma coisa como
“a assim chamada linguagem da teologia-sem-Deus” (p. 96) ou
“teologia da linguagem-sem-Deus” (p. 98).
Preocupado
com o fato de que o teólogo secular, levando muito a sério “a ameaça
do oráculo: ‘Deus está morto’” (p. 99), termina por recusar-se a
conceder pertinência eidética à história das religiões, como
eventualmente o faria com a da astrologia e da magia, Tillich postula a
atitude do teólogo que aprova e aceita seriamente o tema do significado
da história das religiões para o teólogo sistemático diante da
teologia “sem Deus”. Ele “tem que assumir que a religião, como uma
estrutura de símbolos intuitivos e ativos (...), tem a permanente
necessidade de algo”. A seguir, deve, esse mesmo teólogo, afiançar que
“o espírito requer corporizar-se a fim de converter-se em algo concreto
e efetivo”. Com isso, Tillich considera oportuno, então, afirmar, que
“a Sacralidade, o Último, ou a Palavra, se encontram dentro do domínio
da secularidade”. Com essa afirmação, Tillich raciocina,
apologeticamente: “mas para poder afirmar que algo está dentro
de outra coisa, deve ao menos, existir uma possibilidade de estar fora
dessa coisa” (cf. p. 99-100).
Bem,
ou muito me engano, ou Tillich imagina estar falando a pessoas que
raciocinam como devem raciocinar os domésticos – a Divinity
School da University of Chicago. Esse é o contexto pragmático da
conferência. Em que pese o fato de o destinatário-alvo de sua polêmica
consistir na “sociedade secularizada”, os ouvintes concretos que tem
diante de si são os legítimos representantes das duas teologias
pressupostas na sua prédica – a “clássico-metafísica” e a
“secular”. Talvez isso possa explicar o tipo de argumento a que
Tillich recorre para tentar confrontar uma teologia eventualmente sem
Deus. Estou, contudo, em condições de afirmar que, até onde posso
imaginar, essa série de orientações resulta inapropriada. Inapropriada
para os teólogos “clássico-metafísicos”, porque o “Sagrado” que
eles articulam em suas respectivas teologias (homiléticas) possui uma
consistência muito mais ontologicamente firme do que esse esboço de
silogismo fideísta que Tillich propõe. E igualmente inapropriada para,
agora, um eventual “teólogo secular”, porque a compreensão que esse
teólogo eventualmente teria do construto final dessa manobra retórico-racionalizadora
é um simulacro de “Deus”, e quero crer que a cartilha metodológico-teológico
dessa teologia tenha como primeiro axioma a leitura semanal de Feuerbach.
Ou será se Tillich sabe que, afinal, os “teólogos” seculares são,
no frigir dos ovos, bons trapaceiros?
Tillich
pretende ilustrar o ponto anterior através do caso mais “popular” da
afirmação dos reformadores quanto ao fato de que “todos os dias são o
Dia do Senhor”. Tal afirmação, argumenta, só faz sentido na medida em
que haja, anteriormente, e como condição de sua possibilidade, a afirmação
de um Dia do Senhor (p. 100). Com uma tal ilustração, Tillich não
apenas considera ter esclarecido aquele ponto, eventualmente difícil, mas
ter justificado convenientemente a sua assertiva da necessidade sine
qua non de uma teologia que articule a “linguagem-sobre-Deus”:
“isto é o que faz tão necessária uma linguagem-sobre-Deus, por mais
a-tradicional que seja. Ela possibilita uma declaração séria a respeito
da história das religiões” (cf. p. 100).
Quanto
ao exemplo dos reformadores, bem, aquele certo
Dia do Senhor constitui um dado concreto da tradição. Nem sequer se
pode identificar univocamente a expressão bíblica com a prática cristã.
Em termos históricos, o “sábado” tornou-se “domingo”, de modo
que sequer a tradição repousa sobre alguma forma histórico-antropológica
de hierofania, senão sobre a alteração político-religiosa de uma tradição
mais antiga, agora num contexto culturalmente renovado. Como saltar da
constatação de que, com o “Dia do Senhor”, está-se diante de uma
questão puramente cultural, de uma “sacralidade administrada”, para,
daí, constituir-se um fundamento metafísico que seja dialogalmente
pertinente para a crítica da teologia secular? O transbordamento desse
Dia do Senhor por sobre todos os dias – agora “D”ele – resulta
justamente no contrário, porque põe a mostra que a “sacralidade”
consiste, culturalmente, num recorte topográfico, que, quando suprimido,
leva consigo aquela noção antitética de sagrado,
que somente pode ser manejada diante de seu oposto – profano.
Ora – onde foi parar o elemento profano,
quando os reformadores transformaram todos os dias em Dia(s) do Senhor?
Desapareceu? Não. Antes, emergiu desde dentro do próprio gesto de
afastamento dele, porque, onde o profano
não está, o sagrado não está
– essa é a primeira lição do Tratado
de História das Religiões. E, se o sagrado
não está, o que está? O sacrilégio retórico da ostentação do
“Sagrado”, aliado à sua pretensa universalização radical, à sua
total absorção do “mundo”, resultou na “secularização”. Como
Tillich imagina poder utilizar o precipitado do gesto alquímico
protestante par excellence – a
securalização, conseqüência da completa noologização sacramental do
mundo (os ídolos protestantes são noológicos!) – para enfrentar, com
ela, ela mesma?
Considero-me
em posição de sugerir que o termo “sagrado” seja tomado, na teologia
– com o que postulo, de forma incipiente, provisória, incompleta,
imatura, uma teologia pós-metafísica –, não como referência a um
Inefável, que a teologia manteria como um elemento exterior ao sistema,
mas como referência à tradução político-social das experiências
psico-antropológicas humanas, eventualmente promotoras de sistemas
religiosos que se tornam históricos e tradicionais, sejam “arcaicos”,
“ocidentais” ou “orientais”. Com um tal paradigma teórico-metodológico,
não se suprime a noção de “sagrado” – assumida pela Fenomenologia
da Religião, nem de “Sagrado” – tão caro à teologia clássico-metafísica
e à política, e assim assumida pela experiência mítico-mística
humana. Quanto à primeira noção – religioso-fenomenológica – ela
comporia os discursos críticos da teologia pós-metafísica, e,
eventualmente, mesmo as representações mítico-míticas da experiência
de indivíduos ou grupos de indivíduos esclarecidos científico-humanisticamente.
O segundo termo – “Sagrado” – constituiria uma reserva estético-epistemológica
(uma vez que não se poderia, dados os termos pressuposicionais da
secularidade moderna ocidental, representar qualquer papel heurístico-epistemológico)
aberta. Digo aberta, e apontaria para um exemplo concreto, dentro da obra de
Edgar Morin, que poderia até ser considerado, depois de uma série de
“saltos” retóricos, um tipo excêntrico do “teólogo secular” que
Tillich pressupõe enfrentar. Edgar Morin talvez aceitasse a provocação
– mas apenas em termos complexos, claro.
Gostaria
de recorrer a um argumento, quase um exemplo, de como se podem articular
os conceitos abertos de “sagrado”, recorrendo a Edgar Morin. Desnecessário
seria dizer que não se trata de recorrer à opinião de um “teólogo”
– coisa que Edgar Morin obviamente não é, nem postula ser. Meu
argumento consiste em explicitar, da fala
de Morin, momentos retóricos em
que as materializações discursivas relacionadas ao “sagrado” são
apontadas. Primeiramente, recordo o fato de que Edgar Morin, discorrendo
acerca da origem e da história do Universo, recorrendo heuristicamente à
teoria astrofísica do Big Bang, tomando como “acontecimento” histórico
esse singular “evento” cósmico, não se furta a especular a respeito
da necessária pergunta pelo momento anterior a esse, e à condição da
existência, e do “existente”, anteriormente a essa singularidade. Sua
formulação não poderia ser mais apropriada: o Inefável. Em todo caso,
o (por minha conta) Inespeculável. Por
exemplo: "Este Cosmos nace de lo inconcebible, está fundado sobre lo
insondable"[xvii].
Em
seguida, transcrevo um relativamente longo trecho de O
Método 2 – a vida da vida:
Para
conceber a ecologia das idéias, importa, em primeiro lugar, conferir
muito mais autonomia às teorias, ideologias, mitos, deuses, e considerá-los
como seres noológicos dispondo de certas propriedades da existência viva
(...). Nesse sentido, as ideologias, mitos, deuses deixam de aparecer como
‘produtos’ fabricados pelo espírito humano e pela cultura. Tornam-se
entidades alimentadas de vida pelo espírito humano e pela cultura, e
constituem assim o seu ecossistema co-organizador e co-produtor.
Os
deuses são, no seus aspectos biomórficos e antropomórficos, os
seres-de-espírito mais acabados. Os deuses provêm certamente de projeções
imaginárias dos humanos; são certamente substâncias ectoplásmicas
segregadas por uma comunidade de crentes no seio de uma cultura. Mas essa
substância ectoplásmica autonomiza-se, auto-ativa-se e dita suas
vontades aos espíritos/cérebros de que provém. Assim, estabelece-se um
circuito auto-ecológico no qual a comunidade de crença e de fé dos espíritos/cérebros
constitui o ecossistema dos deuses (...) Assim, uma cultura é o
ecossistema dos seus deuses e dos seus mitos, e esses deuses e mitos
extraem dos nossos espíritos/cérebros o alimento vital (p. 103).
Finalmente,
uma última citação, agora de O Método
5 – a humanidade da humanidade: “não são apenas os homens que
guerreiam por deuses e religiões, são, ao mesmo tempo, os deuses e as
religiões que guerreiam através dos homens” (p. 45). Uma aproximação
apressada e desavisada ao conjunto de tais pronunciamentos de Edgar Morin
produziria um grande equívoco. É preciso tomar cada qual no contesto
discursivo do próprio Morin. Quando ele “especula” a presença-existência
de um Inefável anterior ao Big Bang, com isso ele não está
aproveitando-se de uma brecha da astrofísica moderna para, aí, inserir
seu demiurgo. Absolutamente. O que Morin está fazendo é confessando que,
aí, chega-se ao “limite” humano – pelo menos por enquanto. Morin
faz uma concessão aberta – talvez as intuições profundas das religiões
não sejam de todo infundadas. Talvez, para além – ou aquém, afinal
– do Universo e de sua história haja
alguma coisa. Se o Universo é histórico,
é mesmo forçoso admitir que haja.
Seja como for – isso é Inefável,
Inverificável, Inescrutável, Inespeculável. Qualquer tentativa de
“manipular-se” apologeticamente essa “brecha” da “ciência”,
em benefício de apontar para “Deus” deixa evidente a pobreza – senão
o ridículo – das argumentações cripto-ontológicas. Segundo minha
opinião, esse primeiro momento de Edgar Morin aponta para limites
humanos. Tais limites salvaguardam-nos de uma tomada de posição
simploriamente ateísta, tanto quanto de uma posição igualmente simplória,
mas, dessa vez, teísta. De um ponto de vista epistemologicamente secular
– complexamente científico-humanístico – não se pode nem ser “teísta”
(ou equivalente metafísico) nem ateísta. Aí só se pode saber o que
pode ser sabido.
Se
por um lado, Morin não quer dizer que haja (um) Deus por trás do
Universo (este seria um Cosmo sem um Deus genésico, sem centro, sem Lei a
priori e sem eternidade [cf. Edgar Morin, La Relación Ántropo-bio-cósmica]),
Morin, contudo, fala abertamente em deuses. Sua última afirmação chega
a ser surpreendente. Ele fala de deuses como de “sujeitos”. Mais do
que isso – fala que deuses provocam-nos à guerra, dominam-nos. Edgar
Morin ter-se-ia convertido à teologia metafísica neoplatônico-cristã?
Não. Edgar Morin expressa-se a partir de seu conceito de noosfera, o
ecossistema noológico das idéias humanas. A sua segunda formulação
consiste numa apresentação sucinta do conceito. Em termos muito simples,
a ecosfera, física, gera a biosfera, viva, que, por sua vez, por um lado,
nutre-se da ecosfera, para manter-se “viva”, e, por outro, gera a
sociosfera, antropológica, a qual, por sua vez, por um lado, nutre-se dos
níveis ecossistêmicos anteriores, para manter-se “viva”, e, por
outro lado, gera a noosfera, noológica, que, por sua vez, nutre-se do
ecossistema sociológico, para manter-se “viva”. Nos termos de O Método, de Edgar Morin, as idéias – entre elas, os deuses –
são seres-de-espírito, formas noológicas criadas pelos seres humanos,
com as quais eles se relacionam dialogalmente, utilizando-se delas, e
sendo por elas utilizadas. Todos os níveis ecossistêmicos compõem o
“real”. O “real” também é noológico. Os “deuses” são
noologicamente reais.
Desse
modo, Edgar Morin pode falar em
deuses, sem que, com isso, esteja movimentando-se num paradigma metafísico.
Diferentemente de Tillich que, quando usa o termo “Sagrado”, finda por
referir-se, ainda que com todas as reservas registradas em Dinâmica
da Fé, por exemplo, a um Ser
teológico-ontológico, inadmissível, nesses termos propositivo-fideístas,
às Ciências Humanas. Ao contrário dele, Morin recorre ao conceito de
noologia, extraído de Teilhard de Chardin, para referir-se de uma maneira
absolutamente revolucionária, é verdade, àquelas mesmas grandezas que,
sem instrumental epistemológico também suficientemente refinado,
Feuerbach classificara – contudo, já acertadamente – de hipóstase
antropológica, e, Freud, de neurose. A superioridade do paradigma
conceitual de Edgar Morin, comparativamente aos de Feuerbach e Freud,
reside no fato de que Edgar Morin não recalca as críticas do século
XIX, nem as endossa, simplesmente, mas, com elas, e contra elas, por meio
delas, e superando-as, mantém a superação da metafísica presente
naqueles postulados pioneiros, mas resolve
– é meu juízo – a questão das interferências concretas de tais hipóstases
e neuroses na vida humana. Porque tais hipóstases neuróticas não se
tornam fantasmas impalpáveis: verdadeiros incubi
e sucubi, segundo Edgar Morin,
os deuses – como de resto todas as formas noológicas –, retroagem
recursivamente sobre seu ecossistema psico-antropo-sociológico,
nutrindo-se aí e daí.
Talvez
eu esteja laborando em equívoco primário. Difícil um diagnóstico
preciso. Se me consulto com um clínico metafísico, certamente me
prescreverá escalda-pés e compressas frias na cabeça. Uma vez que uma
teologia pós-metafísica não está dada, e sua possibilidade epistemológica
somente começa a ser timidamente esboçada, a solução é enfrentar o
risco. Quero, contudo, crer que a plataforma operacional para uma teologia
pós-metafísica, nem teísta, nem ateísta, e rigorosamente adaptada às
exigências e implicações das Ciências Humanas, constitui-se por –
pelo menos – duas obras fundamentais do século XX, que, cada uma a seu
tempo, representariam, de certo modo, o conjunto da obra de seus
respectivos propugnadores: Tratado
de História das Religiões, de Mircea Eliade – Fenomenologia da
Religião –, e os seis volumes de O
Método, de Edgar Morin – Pensamento Complexo. Se uma tal refundação
da teologia for levada a sério, e a bom termo, penso que a história das
religiões terá, efetivamente, uma enorme influência sobre a teologia
– como o parece ter querido Paul Tillich, naquela sua última conferência
pública, naquela sua última chance, que de fato teve, e se de fato o
quis.
De
uma teologia filiada à história das religiões – II A
Passo,
agora, à segunda parte da conferência de Tillich – escrevo, agora,
naquele que seria seu aniversário. Eliade viu como “significativo (e
acaso simbólico)” que a última conferência pública de Tillich
versasse justamente sobre sua especialidade – História (como
Fenomenologia) das Religiões. Sinto-me justificado em considerar
igualmente simbólico – para mim – que escreva o presente ensaio no
aniversário de Tillich.
É
aqui que Tillich esboçará sua aproximação dinâmico-tipológica a uma
teologia seriamente interessada no diálogo com a história das religiões.
Mas tem coisas a dizer antes que chegue a tanto. E Tillich começa por
denunciar que a consideração – tanto judaica quanto cristã – da
exclusividade de validade eidética das suas respectivas religiões carece
de fundamento inclusive histórico-traditivo, uma vez que ambas teriam
sido inextricavelmente influenciadas pelas religiões de seus
conquistadores e conquistados (p. 102). Diante da denúncia, Tillich
declara a necessidade de equilíbrio entre “a valorização positiva da
revelação universal e a crítica”. Chamo a atenção para o termo
“revelação”, conforme aí empregado. Deve-se procurar saber em que
sentido Tillich o está empregando.
Há
algo de hegeliano no olhar de Tillich. Logo a seguir, ele refere-se,
bastante nostalgicamente, e é muito compreensível, a seu “próprio período
formativo”, e a seu contato com a Escola
de História das Religiões. Segundo seu testemunho, aprendera, aí, a
tomar, numa única visada hegeliana, o desenvolvimento das “motivações
universais”, partindo da Ásia Menor e o Mediterrâneo, consignando-se
no Gênesis, perpassando-se pelo “existencialismo helênico” e pela
“escatologia persa”, consubstanciando-se nas últimas porções da Bíblia
Hebraica e no Novo Testamento. Segundo a aproximação hegeliana de
Tillich à história das religiões
– percebe-se o afunilamento cristão
de sua narrativa – “toda a história das religiões produziu símbolos
de figuras salvadoras que logo estruturaram a visão neotestamentária de
Jesus e sua obra” (p. 103). Ter-se-ia tratado, afirma, de um longo
processo histórico-traditivo – de um kairós,
chega a ser dito – que teria proporcionado a “aparição de Jesus como
o Cristo”.
Sou
forçado a afirmar que, nos termos em que Tillich se expressa, a sua
interpretação da história das religiões da Ásia Menor e do Mediterrâneo,
faz delas matrizes culturais do “cristianismo” – interpretação, a
rigor, muito mais antiga, uma vez que uma aproximação histórico-alegórica
já se havia esboçado mesmo antes do período neotestamentário, pelos
judeus helênicos responsáveis pela tradução e reorganização dos
“rolos sagrados”, processo que se consubstanciaria na Septuaginta
como hermenêutica político-religiosa. Tillich permanece afinado com essa
corrente. Eu devo me perguntar se uma posição hegeliana tão assentada não
impõe à teologia que é proposta um caráter fechado,
já de saída tão previamente configurado que resulta retórico qualquer
tentativa de crítica. Em que sentido é possível assumir passivamente a
tradição (para cujo esforço muito contribui Gadamer, é verdade, mas
Karl-Otto Apel pretende ultrapassá-lo nesse ponto – como plataforma de
ensaio crítico)? Certamente não num sentido que seja adequado às Ciências
Humanas. Além do mais, o tipo de argumento que sustenta essas últimas
declarações de Tillich deveria levá-lo a considerar o secularismo como
resultado desse mesmo kairós, uma vez que o secularismo é conseqüência histórica da
crítica protestante aos fundamentos político-teológicos da tradição
cristã com que Lutero se depara. Por que, então, Tillich pára
justamente onde a tradição pára? Não será porque a tradição já lhe
chega previamente configurada, e, agora, quando vai abrir-se mais
“dialogalmente” com a história das religiões, ainda o faz riscando
limites configurativos no chão? O gesto recorda aquele das magias simpáticas,
em que se traça um círculo no chão, a giz ou com sal, e, assim,
situando-se dentro dele, protegido se “está” dos perigosos poderes
situados do outro lado. Com um tipo de movimento dessa natureza, Tillich não
vai tirar o pé de onde está, e o máximo que fará será convencer-se de
que o “cristianismo” fará bem em receber, em
sua casa, as religiões que, até então, ele teria considerado
perversões e nulidades eidéticas. No entanto, dever-se-ia esperar um
movimento mais brusco, mais radical, mais subversivo, da parte de Tillich,
se ele realmente pretende romper com os vícios epistemológicos da
teologia clássico-metafísica – e, conforme ele mesmo denuncia,
exclusivista – rumo a uma teologia que aprove e leve a sério o tema de
sua própria conferência.
Tillich
passa, então, a indicar três abordagens da teologia moderna ao tema da
história das religiões (p. 104-106). Inicia a série por meio da referência
ao Iluminismo do século XVIII como um kairós
dentro da história das religiões, consignada em A
Religião Dentro dos Limites da Razão Pura, de Kant. Tratar-se-ia,
essa, da “primeira questão que confronta uma teologia da história de
Israel e da Igreja Cristã” – a história da salvação”, ressalvada
a observação de que “nada discriminaria a história das religiões da
da salvação, ou da revelação, senão que se tem de buscar esses
momentos simbólicos” (p. 104). Difícil não perguntar por
que o Iluminismo pode ser tomado como um kairós,
ao passo que o secularismo, que lhe é tributário, não. Fica claro que
mesmo a leitura hegeliana que Tillich recebe da tradição consiste em
preferências aproximativas a temas de interesse, recortes político-teológicos
de certas linhas de força atuantes, sim, na história, mas que não a
encerram, nem a sintetizam. É somente com o recurso à desconsideração
de inúmeros outros elementos dessa mesma história, que uma abordagem no
estilo de uma filosofia da história – a rigor, uma pretensão de teleologia
metafísica da história, de orientação teológica da história – pode
converter-se em seu fundamento teológico.
O
segundo ponto que Tillich desenvolve apresenta uma segunda postura em relação
ao contato entre a teologia e a história das religiões (p. 104-106).
Trata-se da filosofia da história,
de Hegel, para quem, segundo Tillich, o cristianismo possui um status de “religião revelada”, que seria negado às demais
religiões, às quais caberia, apenas, uma condição de
“incorporadas” e “assimiladas” à fé cristã, sob risco de
desintegração de sua procedência eidética.
Finalmente
(p. 106), Tillich menciona, brevemente, a posição de Teilhard de
Chardin, “que destaca o desenvolvimento de uma consciência universal e
centrada na divindade, que seja basicamente cristã”. Está aí esboçado
o projeto – que Vattimo dá seqüência, ainda que sob outra plataforma
teológico-filosófica – de universalização do cristianismo como
catalisador “dos elementos espirituais de futuro”.
Tendo
atrás de si as três abordagens, inicia, então, a apresentação de sua
própria perspectiva (p. 106-113), que classifica como “dinâmico-tipológica”.
Tillich esboçará – talvez de forma excessivamente breve – o que
chamará de A Religião do Espírito Concreto (p. 108). Chega a ela por
meio de três elementos. Primeiro, o pressuposto teórico-metodológico da
Fenomenologia da Religião – “a experiência da sacralidade dentro da
finitude é a base religiosa universal”. É nesse momento que Tillich
faz aquele comentário a respeito do fato de que, sem o elemento
sacramental pressuposto, uma religião tende a converter-se numa
“associação de clubes morais, como o é boa parte do Protestantismo”
(p. 107). Já tive oportunidade de considerar o fato de que Tillich
utiliza-se do pressuposto religioso-fenomenológico, mas “à moda teológica”,
saltando sobre o caráter científico-humanístico da Fenomenologia da
Religião, e cooptando-a ao interesse da teologia (ontológico-metafísica)
em manejar um discurso sobre o “Sagrado”, que lhe pareça
razoavelmente adequado ao “espírito do homem moderno”.
O
segundo elemento, Tillich aponta-o como “a tendência crítica contra a
demonização do sacramental” (p. 107). Interessa-lhe acentuar o modelo
místico dessa crítica, segundo o qual não se pode “conformar-se com
as expressões concretas do Último, da Sacralidade, e dAquele que o
transcende”. Tillich aqui revisita suas declarações a respeito do caráter
simbólico da fé e do risco de idolatria que decorre da imprecisão
conceitual e litúrgica da confusão acrítica entre a concretização
provisória do “Sagrado” e o “Sagrado” em si – “Deus é símbolo
para Deus”, segundo sua famosa fórmula. Não se perca de vista que se
está diante de uma pressuposição metafísica – mitigada, é verdade,
mas não por isso menos ontológica.
O
terceiro elemento é o “ético ou profético”: “aqui se questiona a
sacramentalidade por causa de suas conseqüências demoníacas tais como a
negação da justiça em nome da santidade” (p. 107).
Segundo
Tillich julga, não se poderia identificar com nenhuma das religiões
atuais, nem mesmo com o “cristianismo”, essa sua formulação teórica
dA Religião do Espírito Concreto (p. 108). Contudo, não se furta a
“perceber” – “logicamente, em minha qualidade de teólogo
protestante” (p. 108) – seu esboço na “doutrina paulina do Espírito”.
Vislumbrar-se-iam ali “os elementos fundamentais”: a união do
elemento extático e o racional, bem como o entrelaçamento do “êxtase”,
do agape e da gnosis. E Tillich precisa: “se trata disso, um conhecimento, não
a desordem nem o caos” (p. 108-109). Sim, naturalmente –
“conhecimento”. Com o que não resta dúvida quanto ao encantamento de
Tillich diante de uma teologia metafísica, condição insuperável para
que seja tratada “a gnosis, o conhecimento de Deus”, como “conhecimento”.
Certamente que, sob o juízo de Tillich, um tal conhecimento
corresponderia ao que ele classificara como o elemento “racional”, que
se fazia acompanhar ao elemento extático, na doutrina paulina. Edgar
Morin – e eu o acompanho – faria uma severa ressalva: “racional”,
não, “racionalizador”. A diferença consiste no fato de que o
primeiro é científico-humanisticamente crítico, ao passo que o segundo
consiste num desenvolvimento fechado em sua própria lógica. O primeiro
é aberto. O segundo, fechado.
Não,
essa “teologia” não aceita e aprova seriamente a história das religiões.
Ela a racionaliza em benefício do status
quo da teologia metafísica. Há alguma coisa de tamisação nesse
processo, o ouro sendo recolhido das águas da história, e, surpresa?,
quando se olha bem de perto a pepita, eis que ela é justamente aquela
feito de cujo material um anel enfeita o dedo teológico. Tillich ficará
a meio termo? Assim não chegará a agradar aos metafísicos inveterados,
porque permite uma contaminação da verdade pela cultura, e nem chegará
a agradar aos críticos da metafísica, a mim, por exemplo, dado o caráter
comprometidamente tradicional de sua conferência.
Tillich
tem em vista um projeto teológico-religioso que se materializa “em
todos os aspectos da luta contra a resistência demoníaca da base
sacramental e a distorção diabólica e secularista da crítica dessa
base” (p. 109). Assim, se por um lado A Religião do Espírito Concreto
não se identifica com nenhuma religião concreta, por outro lado “se
produz, de maneira fragmentária, em muitos momentos da história das
religiões” (p. 109). A conseqüência não se faz demorar: “podemos
contemplar toda a história das religiões, neste sentido, como uma luta
em prol dA Religião do Espírito Concreto”. Tillich está operando sua
análise através do modelo conceitual de “igreja espiritual” e
“igreja concreta” próprio do protestantismo histórico. A “igreja
de Cristo” não se identifica, aí, com as “igrejas concretas”. Não
é interior a elas, nem exterior a elas, ainda que seja tanto interior
quanto exterior às mesmas. É que a “igreja de Cristo” constitui-se
dos “salvos”, que podem estar tanto dentro quanto fora das
“igrejas locais”. Tillich apenas adapta o modelo. E, para que não
reste dúvida de sua metaposição metafísica, eis seu arremate: “uma
luta de Deus desde a religião e contra ela” (p. 109).
Cui
prodest? Julgue-se
pelo que se segue: “e esta expressão (a luta de Deus desde a religião
e contra ela) se pode converter na chave para compreender a (de outra
maneira extremamente caótica ou pelo menos aparentemente caótica) história
das religiões” (p. 109). Tillich pressupõe que um recorte
interpretativo, metafísico, que a seu tempo constitui ele mesmo um
momento da história das religiões, tenha a prerrogativa de
transformar-se em chave hermenêutica. Naturalmente que uma tal atitude é
concebível – com a imposição de que a história das religiões seja
lida não apenas por meio de um recorte parcial dela, mas por meio de uma
retroprojeção teleológica que, a rigor, constitui tão somente uma
cristalização racionalizadora e racionalizante de um programa político-religioso
incidental, mesmo em relação a esse recorte eleito como critério
epistemológico.
Não?
Sim. Ao menos é o que se torna cada vez mais insofismável, quanto mais
com o recurso a uma afirmação do tipo: “como cristãos vemos a vitória
decisiva nesta luta na aparição de Jesus como o Cristo” (p. 110), já
que “nosso critério, como cristãos, se encontra no acontecimento da
cruz”. Sim, é verdade que o que há de simbólico nessa cruz cristã
“também ocorre, de modo fragmentário, em outros lugares, em outros
momentos, e tem sucedido e sucederá ainda quando estes não estão
conectados histórica ou empiricamente com a cruz” (p. 110), mas o fato
é que, para os cristãos, a “vitória” é o Cristo, e o Cristo da
cruz.
Ora
– e como se pode saltar da história
das religiões, da qual, com efeito, o Cristo da cruz e a cruz do
Cristo fazem parte, mas não como dados
imediatos, senão como construções polêmico-apologéticas,
finalmente consubstanciadas numa
doutrina politicamente sustentada – à custa do recalque histórico de
inúmeras outras expressões (menos legítimas do ponto de vista da história
das religiões?, ou apenas inapropriadas para a metodologia de assumir o
“sentido” [?] da história das religiões por meio de um recorte ideológico
anacrônico, final,
retroprojetado desde as fontes ecológicas das vicissitudes históricas?)
– para a adesão a uma tal doutrina dita e auto-assumida como “metafísica”?
Tillich quer considerar que uma abordagem cristológica de “um antigo símbolo
do Cristo, Christus Victor (...) pode livra-nos de muitas das vias mortas
às quais a discussão do dogma cristão levou as igrejas cristãs desde
seu começo mesmo” (p. 110). Tillich esquece – não sabe? – que a
interpretação de um evento que não possui, em si mesmo, sentido metafísico,
senão que pode chegar a ter agregado a si inúmeros sentidos metafísicos
concorrentes – como de fato sucedeu, até que Nicéia impusesse sua
interpretação – jamais pode
ser superada, senão por meio da
aceitação passiva, logo, acrítica, ou a imposição heterônoma, logo
violenta, de uma interpretação
metafísica, e que, no conjunto, o resultado constitui uma falsa
realidade, na melhor das hipóteses – e não é esse, contudo, o
caso, na “cristologia”? – uma “conta de chegada”, de modo que
jamais se prestaria a fundamento para uma reflexão do fenômeno histórico
de base, nos termos das Ciências Humanas? Bem, se é verdade o que conta
John Dourley sobre o fato de que Tillich, já no final de sua produção
teológica, sentiu-se sensível à crítica de seu colega em Harvard,
Cantwell Smith, a respeito do “confinamento de seus esforços teológicos
ao âmbito cristão como forma de um isolacionismo próprio da mentalidade
de gueto”[1],
devo confessar que a impressão que tenho é que Tillich tão somente
desejou ampliar sua base de legitimação. Não há, até quase o final da
segunda parte da conferência, qualquer real
interesse pela história das religiões senão
naquilo em que ela poderia servir a uma retórica supostamente
desprovincializada. Mas o provincialismo teológico não se reduz à referência
ou não a outras expressões também teológicas, mas à conformação
destas aos interesses apologéticos do teólogo.
Certo,
Tillich não produz um monstro maior do que aquele em que se constitui a
teologia cristã, de que se faz tributário até as suas fontes neoplatônicas.
Minha frustração fica, contudo, por conta do fato de que eu realmente
esperava que um teólogo que aprove e leve a sério o tema da conferência
tenha mais interesses do que a ampliação da plataforma retórica de sua
fé. Interessava-me, realmente, ver Tillich trazer o próprio tema da fé
para dentro do speculum científico-humanista e tratá-lo de acordo com as aproximações
levadas a termo por Schopenhauer, Feuerbach, Nietzsche, Marx, Freud, não
necessariamente repetindo-os, mas ultrapassando-os, sem, contudo, recalcá-los.
Para Tillich, para a conferência de Tillich, o século XIX simplesmente
nunca existiu. A meu ver, para constituir-se como discurso socialmente
relevante – e não socialmente relevante para si mesma, legitimadora de práticas e de estruturas, de
doutrinas e de modelos de racionalização provinciana –, a teologia tem
de urgentemente abrir mão se seu espírito neoplatônico-metafísico,
aliando-se inegociavelmente à plataforma epistemológica das Ciências
Humanas. E, cá entre nós, um sopro mais forte das abordagens científico-humanistas
à conferência de Tillich, e ela revela-se em todo o seu provincialismo
ainda constitutivo.
Do
sagrado e do profano
e sua relação com a história das religiões – II B
Tillich
reserva um último ponto para o encerramento da segunda parte da conferência
(p. 110-113). Mais uma vez, ele retorna ao elemento teórico-metodológico
da Fenomenologia da Religião de Mircea Eliade – a distinção morfológico-estrutural
entre sagrado e profano.
Tillich
começa sua peroratio indicando
para a relação inter-constitutiva do “religioso” e do “secular”
(p. 110-111). Daí, avança para os conceitos pertinentes da Fenomenologia
da Religião – sagrado e profano. A ponte se dá pela argumentação de que a sacralidade
permite, ao mesmo tempo, tanto a demonização quanto a secularização,
aspectos a que Tillich já fizera referência anteriormente, quando, desde
uma metaposição metafísica, falava – como agora, mais uma vez, fala
– da “luta de Deus contra a religião como uma batalha contra as
implicações demoníacas da religião” (p. 111). Tendo chegado, agora,
ao binômio religioso-fenomenológico sagrado
e profano, e articulando o conceito deste ultimo termo a partir do
sentido de “o que está diante das portas do santuário”, liga-o ao
conceito de “secular”, anteriormente sacado, dizendo-o “o que
pertence ao mundo”. Assim, o “secular” torna-se o “profano”, ao
passo que, deduz-se, o “religioso” resulta permanecendo “sagrado”.
A inserção do fiel no mundo profano
ou secular leva à perda do
“extático e misterioso temor à Sacralidade”, ao mesmo tempo em que o
joga “no mundo das estruturas racionais ordinárias”. Segundo sua
afirmação, não se pode, contudo, pretender “preservar” o fiel
do contato com o profano e o secular,
porque “a secularidade é a racionalidade, e está última deve julgar a
irracionalidade da Sacralidade, deve julgar sua demonização” (p. 111).
Um
novo movimento de Tillich é revelador. Essa secularidade, afirma,
“implica no moral, no legal, no cognoscitivo e no estético”. Uma vez
que “a consagração que a sacralidade confere à vida é, ao mesmo
tempo, a representação dos direitos intrínsecos à bondade, à justiça,
à verdade e à beleza”, resulta que “a secularização, levada a cabo
dentro de um contexto assim, constitui uma libertação” (cf. p. 111).
Tillich
avança. Os profetas “foram os precursores da secularidade”. A
sacralidade ter-se-ia convertido progressivamente “no moralmente bom ou
filosoficamente verdadeiro, e, mais tarde, no cientificamente verdadeiro
ou esteticamente expressivo”. Ou seja: a sacralidade, convertendo-se em
“ética e moral, em conhecimento e em estética”, seculariza-se.
Secularizando-se, converte-se, agora, “numa vacuidade”. Chega a
demonizar-se, e isso em um nível ainda pior do que o risco da sacralidade
de demonizar-se. Solução? Tillich a chama de teonomia
– “o objetivo intrínseco da história das religiões” (p. 112).
Numa afirmação dessa envergadura, reúnem-se Platão e Hegel – a teonomia
(neoplatonismo) encarna o objetivo
intrínseco da história das religiões (hegelianismo): “se as forças
autônomas do conhecimento, da estética, e da lei e da moral apontam para
o significado último da vida, existe teonomia” (p. 112). Não é que a teonomia
há de concretizar-se historicamente
nA Religião do Espírito Concreto – senão que “seu cumprimento é
escatológico” (p. 113).
Minha
análise dessa sessão da segunda parte da conferência de Tillich é a
seguinte. Tillich pressupõe que haja uma distinção eidética entre a
secularidade, de um lado, constituída, a seu tempo, pelos elementos ético
e moral, cognoscitivo e estético, e, de outro lado, a sacralidade.
Gostaria de fazer uma afirmação que consideraria corretiva. A vida
humana materializa-se em três dimensões teleológico-antropológicas: a
pragmática política, a pragmática heurística e a pragmática estética.
Não se trata de uma dimensão da secularidade comparativamente à sacralidade.
Trata-se do modus operandi da
consciência humana – teleológica –, que sobredetermina cada modus
faciendi concreto da espécie Homo
sapiens sapiens. Devem ser alocadas na câmara pragmática política,
na forma de hipônimos, a ética e a moral. O que Tillich designa por
elemento cognoscitivo da secularidade, adquire maior funcionalidade quando
identificada com a pragmática heurística, e o elemento estético, quando
convertido em pragmática estética. Não se trata de “elementos” da
secularidade, como se, ao lado deles, houvesse outros. As pragmáticas política,
heurística e estética
sobredeterminam todos os pensamentos, atitudes e ações humanas, porque
se definem teleologicamente. Nada está fora de sua sobredeterminação.
Assim, quando Tillich pretende, como mencionei, que a sacralidade alimente
ideais de bondade, justiça, verdade e beleza, nada mais faz que recorrer,
sob a forma de novos nomes, àquelas mesmas câmaras pragmáticas
sobredeterminantes das expressões vivenciais humanas. Bondade e justiça
são hipônimos da pragmática política, verdade é um hipônimo da pragmática
heurística, enquanto a beleza insere-se no campo da pragmática estética.
Não se trata de duas séries de “elementos”, uma operada pela
secularidade, e, outra, operada pela sacralidade. Trata-se, em ambos os
casos, de hipônimos psico-antropológicos da expressão pragmática
teleológica da consciência humana.
Em
termos pragmáticos, não há diferença entre uma atividade venatória
(caça) e uma indiciária (exegese histórico-crítica) – pragmáticas
heurísticas. Ou entre a Missa do Galo e a parada de 7 de setembro –
pragmáticas políticas. Ou, ainda, entre a contemplação mística de um
São João da Cruz e a contemplação do pôr-do-sol em Fernando de
Noronha – pragmáticas estéticas. Em termos pragmáticos, o que o próprio
Tillich tem classificado como “experiência do sagrado” – a
manifestação, à consciência humana, do que lhe toca da expressão do
sentido último da vida – constitui uma experiência estética. E ela
nada tem de necessariamente religiosa. A “religião” não é uma
categoria pragmática independente. O termo “religião” constitui um
conjunto operacional retórico, onde cabem inúmeras expressões, características,
cada uma, de uma determinada teleologia pragmática. A leitura da Bíblia,
por exemplo. Como atividade descontextualizada, pode-se tomá-la como uma
atividade própria da religião, ou seja, a leitura da Bíblia, quando
encenada no contexto do mito cristão. No entanto, independentemente de
estar inserida no mito cristão, ora lê-se a Escritura por conta de
momentos pessoais de devoção mística (pragmática estética), ora, por
conta da inserção em grupos de catequese (pragmática política), e,
ainda, ora por conta de um interesse pela compreensão histórico-social
do sentido de uma determinada afirmação posta na boca de Jesus (pragmática
heurística), por exemplo. Enquanto a pragmática estética tende, na
religião, a fundamentar o mito no qual o fiel encontra-se inserido por
sua inserção política na comunidade de fé (pragmática política), que
por sua vez tende à manutenção do status
quo do mito, o mito servindo-se da política, e a política, do mito,
a pragmática heurística pode corroer desde dentro o véu mítico,
exposto como ideologia tradicional, e reformular, completa ou
parcialmente, a “casca” cosmovisual do sujeito religioso. Pode,
inclusive, dependendo da forma como seja manejada a ferramenta heurística,
substituir o “dossel” sagrado (Peter Berger), hermenêutico, por um
“dossel” não-sagrado, igualmente hermenêutico.
Quer-me
parecer que a experiência religiosa psicológico-personalista pressuposta
no conceito de hierofania constitua, a rigor, uma experiência estética.
O conflito entre a expressão teológica e a expressão estética,
discutida por Karl-Josef Kuschel em Os
Escritores e as Escrituras[2],
quer-me parecer uma deterioração política de uma questão, a rigor,
heurística. O que realmente me parece em jogo no conflito entre estética
e religião é tão somente o véu mítico assumido fideístico-voluntaristicamente
pelo religioso na forma de cosmovisão normativo-traditida – perpetuação
da experiência estética, marmorizada pela formulação política. A meu
ver, a pragmática estética sobredetermina a expressão religiosa, e, em
culturas secularizadas, não controladas normativo-coercitivamente pela
autoridade eclesiástica, que impõe uma cultura religiosa politicamente
constituída e instituída, uma experiência estética não-religiosa
chega a rivalizar com a experiência estética religiosa. No front
político, representantes das duas expressões hipônimas da pragmática
estética pretenderão a propriedade de
direito sobre o valor estético, que, a rigor, não pertence a nenhuma
das duas experiências em si, senão que é facultada a ambas por uma câmara
vivencial-existencial teleológica hiperônima.
Caso
Tillich permanecesse no território da Fenomenologia da Religião, o que
lhe imporia a proibição do acesso a uma metaposição metafísica,
aceitaria os pressupostos ali bem assentados de que o “sagrado” não
se dispõe na hierofania. As elaborações mitológicas necessárias ao
sufocamento semântico da própria hierofania, Mircea Eliade já o
afirmou, produz-se mediante o recurso às características de
personalidade do sujeito hermenêutico, bem como da estrutura do objeto
natural no ou através do qual a hierofania produziu-se na consciência do
sujeito. Nesse véu mítico político-socialmente necessário, nada é “sagrado”, senão que é
tomado como tal. Mas, ainda assim, apenas na condição de a
interpretação pessoal da experiência hierofânica tornar-se coletiva,
e, desde aí, traditivo-normativa. As atitudes “religiosas” constituirão
atitudes humanas de respeito, temor, reverência, adaptadas aos conteúdos
circulantes do mito, sejam os oficiais,
sejam os subversivos, assim como
mesmo os conteúdos circulantes desse mito, uns e outros, a seu tempo
constituirão, eles mesmos, imaginações – imagem e ação –
culturais político-socialmente eficientes.
As
noções de “sacralidade” e “secularidade” não estão
relacionadas ao “mundo”, ao ecossistema sociológico humano. Sim, é
certo que há equipamentos “religiosos” ali, funcionalmente vinculados
a usos exclusivos do recorte mítico-ritualista daquela cultura. Mas tais
equipamentos são o que são por conta de processos político-religiosos.
Não são os equipamentos que são
“sagrados”, senão que é a consciência dos sujeitos que devem
assumi-los como tal, processo esse que a catequese e a inculturação se
encarregam de promover. Ora, no momento em que a consciência, por
qualquer razão, casual ou programática, recusa-se a aceitar a
“regra” mítica oficial, o que até então é tomado como
“sagrado” dissolve-se. A relação dos reformadores, e das comunidades
reformadas, com as imagens da liturgia e da devoção popular católicas
é um bom exemplo disso.
Um
exemplo, que me parece inclusive ter sido escrito nessa direção, qual
seja, a de explicar porque os judeus não-crentes não criam, enquanto
judeus crentes criam em Jesus como Messias, é a narrativa de João
9. Durante toda a narrativa, o cego testemunha sua cura, mas em nenhum
momento tem, em Jesus, a figura do Messias, ainda que, contudo, ele o
cresse e esperasse, tradicionalmente. Depois, contudo, – e isso é chave
– que o cego é expulso da sinagoga, e, então, fora da tradição da
sinagoga, Jesus se apresenta a ele, trava-se o diálogo hierofânico. O
cego espera, sim, pelo Messias, mas não sabe se já veio, nem quem ele é.
Jesus diz-lhe que é. Ele “identifica” um e outro. A “sacralidade”
instaurou-se, aí, claramente por meio de uma estratégia catequética,
que recorda bastante bem a tese de Jean Pierre Vernant sobre a razão pela
qual os gregos criam em seus mitos: já porque os mitos constituem
narrativas racionalizadas, retoricamente elaboradas para a fé, já porque
a autoridade concedida ao narrador do mito transborda em quocientes de
credibilidade sobre o mito. “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir a Palavra
de Deus” – o que está escondido aí? A autoridade de quem narra a
leitura, a passividade crédula – fideísta voluntarista – do ouvinte.
A
teologia poderia progredir em sua inclusão social no conjunto das Ciências
Humanas caso assumisse a sua condição de engendradora de alienação
racionalizada. Caso concedesse admitir que tanto se movimenta no mito,
quanto o produz, poderia perguntar-se científico-humanisticamente por seu
status psicológico-sociológico, e, passando, seriamente, pelo século
XIX, e “ouvindo” – muito seriamente – os discursos dos fundadores
incontornáveis das Ciências Humanas (Kant [o primeiro], Schopenhauer,
Feuerbach, Marx, Freud – para apenas citar os lugares-comuns), então
estaria pronta para, nos termos da provocação de Cantwell Smith a
Tillich, superar o seu provincialismo, sua psicologia de gueto, sua heurística
de gueto, sua política de gueto, sua estética de gueto, e, nos termos de
meu postulado de uma teologia pós-metafísica, aceitar, finalmente,
depondo sob os pés da congregação humana toda síndrome de
“sacerdotalismo” alienante e auto-alienante, que sob sua cabeça posto
foi um céu de chumbo.
Para
isso, não é preciso, insisto, abdicar do conceito de “sagrado” –
uma interpretação de meu postulado que chegue a afirmá-lo laboraria em
equívoco. Trata-se de, sob todos os aspectos, ter a consciência -
a todo instante – de que o “sagrado” materializado não é
que pode demonizar-se, é mesmo já
demonizado, salvo quando reconhecido como um como se. O mito não pode ser retirado – ele tem é de ser
reconhecido como tal, porque, caso contrário, esse é retirado, e outro
assume seu lugar. Bultmann julgou ser possível desmitologizar a mensagem
do Novo Testamento, e, desde seu mais profundo abismo, sair de lá com um querigma
nas mãos. Ora, o gesto é mesmo cinematográfico, mas em absolutamente
nada difere do gesto simples e político-social de uma boa senhora que
acredita na mensagem do evangelho, quando ainda carregada dos mitos
inextricáveis que a constituem. Ambos crêem em seus mitos. A boa
senhora, bem pacificamente. Bultmann, inventando para si uma forma de
tornar aceitável a loucura do Evangelho. Fideísmo voluntarista.
O
mito constitui a realidade, ainda que seja constituído a partir de experiências
humanas nessa mesma realidade. O
jogo recursivo instaura-se, e a consciência humana aliena-se no interior
do mito engendrado. Não há como superar os mitos, porque os homens
caminham sobre alpondras noológicas, saltando entre os buracos do real.
À consciência autônoma moderna importa é tomar consciência do mito em
que está mergulhada – e não para tornar respeitável e “racional”
sua atitude, mas para arrancar do jogo as possibilidades de manipulação
acrítica.
O
mito de Tillich é Jesus Cristo. O das demais religiões tem suas
cristalizações históricas próprias. Cada qual, tomado em sua própria
reivindicação normativo-traditiva, constitui alienação da consciência
que os experimenta sem a noção de que se trate de mito. A consciência
de mito não os dissolve, não os legitima, não os moderniza. Ela promove
a libertação autônoma do jogo heterônomo da religião política. A meu
juízo, e controlando a pena para que não vaze mais nanquim do que o
necessário, somente aí o “sagrado” pode voltar a ser o que é –
qualquer coisa de inefável. E, se Morin o pôde dizer, também eu: Inefável.
[o
leitor atento perceberá que nessas duas últimas linhas, talvez três,
flutua meu espírito teológico. Eu o confessaria como um olhar
envergonhado na direção do céu de chumbo, uma auto-repreensão crítica
pelo gesto abusado, uma consciência da inalienável solidão humana,
inexorável solidão humana, e uma saudade mítica e mística de fundo.
Terminado o momento nostálgico, a percepção imaterializável – nem
mesmo por meio da estética! (os poetas se pretendem os substitutos dos oráculos,
mas, ah, cantam apenas nosso vazio e dor intestinos) –, a experiência
hierofânica, por assim dizer, o ato falho da consciência, eu diria, meu
olhar volta-se pragmaticamente para a “vida”, consciente dos jogos míticos
encenados, necessariamente encenados, e assumidos como tal. Sempre alerta,
jamais esquecer o ditado de uma outra tradição religiosa, aquele com
quem Tillich foi, quem sabe?, dialogar – “se achares o Buda,
mata-o”. Talvez sejamos como as baleias, mergulhadas nos abismos, e
eventualmente subindo à superfície para respirar. Mas é quando elas
respiram, que são arpoadas]
Da
interpretação da tradição teológica à luz do fenômeno religioso –
III
Tillich
inicia o término de sua conferência. E o abre já por meio de uma tensão
dupla. Menciona, elogiosamente, seu “colega muito maior”, Adolf
Harnack, tributando-lhe a afirmação de que no “cristianismo” estão
presentes todos os elementos da história das religiões, mas terminando
por lamentar que, no final das contas, tenha acabado por limitar “sua própria
teologia construtiva a uma espécie de teologia da alta burguesia
individualista e moralista” (p. 114). Eu desconfiaria de que,
extraindo-se da teologia de Tillich, sua insistente sobreposição do véu
mítico-metafísico, não sobraria alguma coisa muito diferente daquela
que ele mesmo acaba de questionar.
Seja
como for, Tillich abre-se, a seguir, em sorrisos, numa referência ao seu
“amigo, o Professor Eliade”. Tillich e Eliade desenvolveram seminários
de história das religiões na Universidade de Chicago, a que também
Eliade faz referência na Introdução. Diante da menção ao “Professor
Eliade”, Tillich apresenta uma confissão pública. Mais do que isso,
segundo seus próprios termos.
E
em uma espécie de desculpa ou, inclusive, auto-acusação, tenho que
confessar que minha própria Teologia
Sistemática foi escrita antes dos ditos seminários e teve, em princípio,
outro propósito, a saber, o debate apologético contra e com o
secularismo (p. 114).
Talvez
não se trate tanto de um pedido de desculpas pelo fato de ter
transformado sua opus magna em
uma polêmica apologética com e contra o secularismo, mas, em face do
contexto em que ela é apresentada, pelo fato de ter sido apenas
isso, tendo deixado de considerar as implicações – para a teologia
– da história das religiões. Isso deve significar, mas é incerto,
nunca saberemos, que Tillich não diminuiria sua crítica teológica
dirigida contra o secularismo, mas acrescentaria à sua reflexão teológica
– e, eu diria, fatalmente no mesmo diapasão apologético – as implicações
da história das religiões. Não se pode deixar de reter o fato de que o
projeto dA Religião do Espírito Concreto de Tillich pressupõe a
autonomia do “Sagrado” em face da secularidade, de modo que a história
das religiões deve ser incorporada aos argumentos fundamentais desse
projeto, em benefício da solidariedade cultural-universal do
“Sagrado”, ao mesmo tempo que contra o secularismo, na qualidade de
pretensão de autonomia humana em face do “Sagrado”. A teonomia a que
Tillich está ideologicamente vinculado constitui uma espécie de
supra-sumo da teologia protestante: uma sociedade piedosa (interessada na
e atenta às linhas de forças do “Sagrado” cristalizadas na cultura
– uso pragmático-político da pragmática estética), na qual uma pulsão
místico-profética promove o discurso ético, estético e cognoscitivo
– sempre “religiosos”. Trata-se de um projeto político, bem se vê,
ainda que Tillich cuide de o dizer escatológico. Tillich não reconhece
no Estado Democrático de Direito – a meu ver ainda inacabado, e também
muito subdesenvolvido em suas propriedades civilizatórias, mas, ainda
assim, uma das mais sofisticadas, delicadas e extraordinárias criações
do Homo sapiens sapiens – uma emergência político-noológica que,
por si só, substitui o projeto dA Religião do Espírito Concreto. O fato
de manter seu mito na dimensão escatológica apenas repete a tradição
cristã e protestante do mito da peregrinação humana, resultado natural
do fato de ter projetado para o além todo o valor eidético da vida. É
admirável como Tillich dê voltas espetaculares, e reprise, sempre, os
motivos mais caros à sua tradição teológica protestante ocidental. Não,
Tillich não quer dar um passo adiante. Talvez não pudesse. Porque,
afinal, o “Sagrado” quer a seus pés, escravizados, sempre, seus fiéis
mais dedicados. No fundo, malgrado viver mais de mil anos depois do
arquiteto dA Cidade
de Deus, Agostinho, que, por sua vez, consta ter roubado, num momento
de distração dele, as plantas baixas dA
República, de Platão, Tillich é um teólogo à altura deles – e,
se não chega a ser um arquiteto, porque, a rigor, parece lhe bastar A
Cidade de Deus, comporta-se como um Estadista dessa Cidade.
Já tem esboçado a sua Constituição – A Religião do Espírito
Concreto.
Eu
advertiria à comunidade dos teólogos que a nossa época não é uma época
para guetos e projetos provincianos – muito menos para projetos
universalistas, ideologicamente unilaterais. Os portais da planetização
humana já se põem sobre os nossos ombros, e já entramos nessa era que,
em termos etnológicos, paleontológicos, antropológicos, une, em
espiral, o começo milenar da peregrinação planetária da espécie
humana, que, agora, tendo se dispersado em redes autônomas, se
reencontra, sem nunca ter estado antes assim tão próxima. Talvez as
mitologias de peregrinação, presentes nas religiões, derivem dessa
jornada histórico-genética da espécie, desde, assevera-se, a nossa casa
primitiva, nas savanas da África. Milênios de caminhada em direção a
um lugar. Mas não há mais lugar. Vivemos todos sob uma esfera – a mesma esfera.
Chegamos a esse lugar. Cobrimos o planeta com nossos filhos e filhas, e,
agora, ou reinventamos nossos mitos, não mais mitos de peregrinação,
mas mitos de chegada ao lar, ou corremos o risco de promover uma
esquizofrenia teológica planetária. Porque os mitos sempre serviram de véu
para o real. Nosso real, agora, é a casa – a Terra-Pátria, que ainda não
sentimos, ainda não vemos, da qual ainda não nos demos conta, mas na
qual já chegamos, cansados, de uma longa e difícil jornada. É imperioso
um mito planetário – e uma teologia pós-metafísica pode, ao lado de
todas as demais expressões político-heurístico-estéticas da família,
contribuir para tanto.
Retorno,
contudo, ao projeto de Tillich dA Religião do Espírito Concreto. Depois
de descrever brevemente o método teológico da teologia da revelação,
próprio das grandes religiões, confronta-o com uma ainda mais breve
descrição do, mais raro, método da teologia natural – Bultmann também
detestava uma tal possibilidade. Ao protestante de modo geral, mau
resolvido em termos de fundamentos políticos da sociedade política em
que se constitui a igreja abstrativo-teológica, apavora uma perda de
controle noológico da graça, porque, se ela jorra pelas estradas, os
pedintes da graça tornam-se agricultores de sua própria salvação, e
isso põe a risco as catedrais da fé.
Tillich,
então, pode avançar para o que realmente lhe interessa, e apresentar os
cinco passos para o método da história das religiões. Primeiro,
colhe-se e utiliza-se o material da tradição como uma “experiência
existencial”, que o historiador deve “analisar”, e para o que é
demandado um “isolamento necessário para lograr uma perspectiva de toda
realidade”. Segundo, por meio da utilização da metodologia naturalista
de análise da mente e da realidade, aplicada ao material recolhido
durante o primeiro passo, “demonstra[-se] onde se encontra o elemento
religioso dentro do plano da experiência humana”. Terceiro passo,
elabora-se uma fenomenologia da religião, desdobradas em capítulos como
“símbolos, ritos, idéias e diversas atividades”. Quarto passo,
relacionam-se entre si os diversos aspectos religiosos e culturais
identificados através das análises anteriores, “sua conexão, suas
diferenças, suas contradições”. Quinto passo, de posse “dos
conceitos reinterpretados”, insere-se-lhes dentro do marco da dinâmica
da história religiosa e secular e, em especial, no marco de nossa atual
situação religiosa e cultural”.
Segundo
Tillich, comparativamente aos dois anteriores, o método possui duas
vantagens. Primeiro, permitiria a apreensão dos símbolos religiosos em
seu contexto gerativo, que lhes co-determina o sentido, a partir do qual
eles podem ser reintroduzidos no contexto da consciência religiosa atual.
E, alem disso,
a
segunda conseqüência positiva deste método consiste em que podemos usar
o simbolismo religioso como expressão da doutrina acerca do homem, como
uma linguagem antropológica, não no sentido empírico do termo, mas no
da doutrina acerca do homem, o homem
em sua verdadeira natureza (p. 117, grifo meu).
“O
homem em sua verdadeira natureza”. A meu ver, isso encerra a discussão.
Para Tillich, existe uma “verdadeira natureza” do homem. Para Tillich,
a teologia (ele postula o projeto dA Religião do Espírito Concreto),
utilizando-se – sob que critérios? – do “método da história das
religiões” – pode chegar a apresentar uma adequada “doutrina acerca
do homem”. E não uma abordagem (também) estritamente antropológica – e como não? – mas uma teologia em linguagem antropológica. Tillich perdeu
completamente a perspectiva do papel da teologia numa sociedade emancipada
e em emancipação. Não percebe, mesmo agora, em plena maturidade, que
uma compreensão acerca do homem não é tarefa para uma visada ideológica.
Esqueceu-se de que não há, desde o século XIX – salvo nas províncias
teológicas ou filosófico-ideológicas, de recorte político-institucional
–, uma eidética humana. Desde Nietzsche se sabe que o homem é ponte, e
não meta. Mas Tillich não leu Assim
Falou Zaratustra, ou, de resto, não leu Ilya Prigogine, nem
inteirou-se dos desenvolvimentos da etnologia, da paleontologia, da genética,
da antropologia, da história, da sociologia, da psicologia, da biologia,
das neurociências, todas, historicamente paralelas à sua própria
provincialização teológica.
Ora,
caso a teologia esteja mesmo interessada numa doutrina acerca do homem,
deverá articular-se com uma enorme quantidade de visadas
transdisciplinares, nenhuma das quais com poder de determinação
unilateral de uma “natureza” humana. Deverá assumir uma atitude heurístico-pragmática
consciente e metodológica, e isso segundo as regras da comunidade das
“ciências do homem”. Deverá ouvir com muita humildade. Toda a
humildade. Nenhuma mitologia nostálgica poderá substituir o trabalho
heurístico de campo. Nenhuma utopia cristã poderá reassumir o controle
da cultura. Nem mesmo as bem intencionadas. Nem mesmo como véu poético.
Poesia é experiência subjetiva, incomunicável, e um suposto véu poético
– cosmovisão – constitui uso político da estética.
Uma
teologia pós-metafísica, antes de tudo, quando pretender falar sobre o
homem, e até quando o fizer por meio da leitura de seus registros
esscriturístico-traditivos, o fará por meio das afirmações razoáveis
do consenso da comunidade das “ciências do homem”. Não se pronunciará,
mais, como que do púlpito. Uma coisa que a teologia pós-metafísica não
fará é pregar. Antes, estará convertida a uma incontida curiosidade
heurístico-infantil, tomada de excitações e pruridos próprios daqueles
que acabam de aprender que pouco ou nada sabem, mas querem tudo aprender,
se o podem.
O
fato de que Tillich pressuponha uma doutrina do homem em
linguagem antropológica, mas não seriamente antropológica, mas
“teologicamente antropológica” revela o significado dA Religião do
Espírito Concreto – uma saudade medieval, saudade de dizer, saudade de
poder dizer, saudade de ter poder para dizer. Não, Tillich, não temos, não,
poder algum para dizer. Não no Estado Democrático de Direito. Quando tínhamos
poder de dizer, tínhamos porque o construímos, politicamente,
totalitariamente. Nunca mais. O Ocidente nos tomou o poder de poder dizer
com poder, e, sejamos gratos, afinal, ao menos, nos deixaram brincar de
teologia. Talvez tenha chegado o momento, dois séculos depois do nosso
destronamento iconoclástico civilizatório, de chegarmos a descobrir o
que nos cabe dizer à sociedade contemporânea, como parte dela, parte crítica,
que seja, mas não como cripto-representantes de uma classe angelical,
teologicamente antropológica, dissimulados na figura de homens e
mulheres, mas, no fundo, no fundo, apenas olhos e ouvidos e bocas de
“Deus”.
Somos
homens, Tillich. É só o que somos. E mulheres. Nada, absolutamente nada
além de homens e mulheres. E que nos baste esse peso, essa glória, essa
maldição.
Considerações
finais
Paul
Tillich faria 121 anos hoje. Nasceu em 20 de agosto de 1886. Mas faleceu
no ano que eu nasci. Se Mircea Eliade considera simbólico que a última
conferência de Tillich antes de sua morte, a 22 de outubro de 1965,
tivesse discorrido sobre seu tema predileto, história das religiões, eu
considero também muito, muito simbólico, que eu tenha escrito o presente
ensaio hoje. Bem, comecei ontem. Devo revisar amanhã. Mas penso que 20 de
agosto fica uma data simpática para o término deste ensaio.
Para
mim, Paul Tillich é o último teólogo ontológico. Depois dele, deve vir
a teologia pós-metafísica. “Deve”, aí, não significa “há a
possibilidade de que venha”, mas “tem necessariamente de vir”. É
bem provável que algum outro teólogo de grande vulto continue a
caminhada resignadamente metafísica de Tillich, mas esse será, apenas,
sombra do teólogo da correlação – melhor seria dizer, da cooptação
da cultura, tanto quanto, no seu núcleo clássico e filosófico, o próprio
Tillich não passe de uma sombra de Barth, e Barth, de Lutero, e Lutero,
de Agostinho, e Agostinho, de Paul, e Paulo, de Platão. Lá, A
República. Cá, uma coerentemente evangélico-protestante Religião
do Espírito Concreto. Nem aí há corpo real, só ansiedade pelo fim.
Eu
confesso que gostaria que Tillich tivesse dado o passo. Não deu. Pediu
desculpas por sua Teologia Sistemática,
pelo fato de ela ter-se concentrado exclusivamente
na polêmica apologética com e contra a secularização ocidental.
Pensei, por um momento, que se tratasse de uma retratação. Não, não
era. Tillich não pedia desculpas pelo que fez. Pediu desculpas pelo que não
fez.
O
que ele não fez, confessa, foi ter, desde o início, cooptado, para
dentro da apologética sistemática, o método da história das religiões.
Mas agora ela fará isso. Ainda há tempo. Não, não havia mais tempo.
Dez dias depois, seu tempo terminaria, definitivamente.
Tillich
enfrentou como pôde a secularização – contra ela e com ela. Com ela,
para trazê-la para dentro da sua perspectiva teológica, aproveitando-se
dos termos circulantes. Custou-lhe a censura, mesmo o ódio, de evangélicos
e protestantes cujo assento cuida-se mais próximo do Trono do que o
assento que Tillich cuidava poder ocupar – ossos do ofício metafísico.
Contra ela, por causa de sua reivindicação de autonomia face ao
“Sagrado”, que, para Tillich, consiste numa forma licenciada para uma
referência velado-analógica a Deus – custou-lhe o anacronismo
epistemológico, a incompletude epistemológica, a urgência de ganhar o
mundo roubou-lhe o tempo de aperfeiçoar suas ferramentas heurístico-culturais,
e o forçou a pensar como se no século XVIII, antes de um certo dia do século
XVIII. É civilizado, contudo, falar “Sagrado”, talvez até mais maleável,
do ponto de vista da apologia contra a secularização. Mas se trata de
“Deus” mesmo, o leitor não se deixe enganar.
Tillich
ainda defende uma teologia metafísica, e o “ainda” só faz sentido à
luz de minha expectativa de que, talvez, quem sabe?, Tillich fosse romper
a bolha. Enganei-me redondamente. O que o teólogo que aprova e aceita
seriamente o tema de sua conferência deve estar disposto a conceder é a
procedência eidética às religiões, porque assim, constituindo-se uma
rede abstrativo-ideal de religiões, elas convertem-se em “idéia”, e
promovem a possibilidade de legitimação ideológica do próprio
“cristianismo”. Não se trata de reduzir o “cristianismo” à condição
das religiões, mas de conceder alguma coisa do status religioso do “cristianismo” a elas, para, assim, poder
aplicar ao “cristianismo” as estruturas de aproximação ao
“sagrado”, próprias da fenomenologia da religião. Sim, a teologia
operará as ferramentas, e, num movimento apologético de ânimo
redobrado, cooptar e enfrentar quer o secularismo, quer as religiões
arcaicas e orientais.
A
operação teológica de Tillich é a desmaterialização do
protestantismo concreto – afinal, boa parte dele, segundo afirma, não
passa de clubes sociais – no projeto renovado de uma Igreja Espiritual,
não, minto, de uma Religião do Espírito Concreto, em que a “lei” de
Deus” – teonomia – esteja encarnada concretamente em todas as
estruturas de uma Nova Jerusalém escatológica. Platão tinha ambições
mais concretas e politicamente descaradas. Agostinho só podia falar de
religião e política ao mesmo tempo,
e uma Cidade de Deus, a seu
modo, constitui uma existência teônoma, que, não se conte, mas, desde
Platão, consiste, sempre, no postulado de uma classe filosófico-sacramental,
por meio de quem a “teonomia” se expressa. Tillich ressente-se de um deficit
sacramental. Sua saída é sonhar com uma utopia mitológica da
universalização teonômica da Religião do Espírito Concreto. Ele,
justamente ele, que acabara de referir-se ao amigo, Professor Eliade, de
quem deve ter aprendido que a universalização do “sagrado” coincide
com a absorção do “sagrado” pelas estruturas seculares, porque onde
tudo é “sagrado”, nada é “sagrado”. A estratégia recorda a de
certa tradição oriental, segundo a qual os homens devem desprender-se a
tal ponto da vida que, finalmente, não se lhes dê o sofrimento, porque
aquilo a que você não se apega, não lhe causa dor. Sim, é verdade. O
preço? Aniquilar, também, o prazer. A Religião do Espírito Concreto de
Tillich tem, para mim, a cara concreta do Estado Democrático de Direito.
Basta que seja descascada de sua mitologia pietista e metafísica, e a
nostalgia medieval de Tillich desnuda-se na forma política do Estado
Democrático de Direito.
Quando
Paul Tillich foi acusado de provincialismo por seu amigo de Harvard,
talvez Tillich tenha interpretado a crítica como uma insuficiência
epistemológica geopolítica. Por que deixara, por Deus do céu, de fora,
as religiões? Por que não as incorporara à sua opus
magna? Submetera aos pés de Cristo a secularidade e a sacralidade
cristã, ambas, piedosas protestantes germânico-estadonidenses. Por que não
impusera o mesmo às religiões? Ah, como deve ter sido pesado o seu
remorso, grande, a sua culpa. Tão grande que se desculpa, e, consoante
uma boa mente teológica protestante, mesmo depois disso, se auto-acusa,
pelo fato de ter sido insuficientemente corajoso, audacioso. Podia ter
ganho para a fé não apenas a sacralidade titubeante do
“cristianismo” moderno, e, com ela, a secularidade emancipada – mas,
além de ambas, o conjunto teórico-filosófico do universo neoplatônico
em que consiste o ser das religiões. Permitir ao “Sagrado” emergir
desde elas, e, emergindo aí e daí, articulá-lo como o
“Sagrado” – único, afinal, e, como não?, cristão, desde
sempre. Ora, e como não, se até o próprio mago do ateísmo, meu admirável
e admirado José Saramago, num rasgo retórico de cansaço, num artigo
imediatamente posterior ao ataque às Torres Gêmeas, dirigindo-se
homileticamente aos religiosos do mundo, argumenta: “se há Deus, há só
um Deus”[3].
Ah, Tillich, se um ateu confesso pode racionalizar assim, quanto mais um
crente, engajado no serviço de fazer brilhar a luz de Deus sobre o
conjunto dos homens.
Quanto
a mim, penso que o provincianismo de Paul Tillich é de resto, salvo ignorância
de minha parte, o da teologia do século XX, encabeçada por Karl Barth,
teologicamente reacionário em todos os aspectos, ombreada por Rudolf
Bultmann, capaz de converter história e mitologia em pó de palavras, só
para dormir em paz, à noite. Hans Küng tentou uma teologia histórico-crítica.
Pretendeu que ela fosse a única a estar na Universidade. Não conheço
repercussões, lamentavelmente. Suspeito que essa teologia possa, a
depender da real intenção de seu postulante, adentrar o novo século, o
novo milênio, como filha dos dias. Roma publicou um texto controvertido
– mais revolucionário, em termos bíblico-metodológicos, do que
qualquer princípio histórico protestante: A
Interpretação da Bíblia na Igreja, de 1993. Ali afirma-se
rigorosamente o que Hans Küng afirmara em seu Teologia
a Caminho – a teologia tem de ser exegética, e histórico-crítica[4].
Mas Bento XVI acaba de dar sinais de que não será levada a sério a
ousadia. Ao menos os protestantes poderão dizer que, sendo assim, então,
doravante, os católicos não mais poderão contra-argumentar os seus críticos
biblistas protestantes com o argumento de que, pelo menos, não são hipócritas.
O tempo o dirá. Depois de A
Interpretação da Bíblia na Igreja, só resta a Roma seguir o que
escreveu – e as conseqüências são, inevitavelmente, uma teologia pós-metafísica
– e como eu a espero, como quem espera a aurora – ou re-encenarão a
longa travessia evangélico-protestante de meio milênio de um livre-exame
das escrituras jamais levado eclesiasticamente a sério, posto que
controlado pro uma teologia alegórica, cristológica, metafísica e ontológica
desde a entrada. Numa palavra: Tradição. Nicéia.
E
Tillich desperdiçou sua última chance. Não pode ser mais culpado por
isso do que todos os teólogos cristãos, que, conquanto defendam o
livre-exame das Escrituras, na prática fomentam uma teologia metafísica
nicênica que é muito pouco respeitável, do ponto de vista histórico-crítico.
A cristologia reina sobre a exegese. A teologia, sobre a Bíblia. A tradição,
sobre as Escrituras. Tradição por tradição, que seja. Teologia bíblica
histórico-crítica? Nem com muito boa vontade. E, contudo, em pleno
portal do século XXI, é Nicéia e Constantino quem dão as cartas.
Enquanto
teólogo, anseio pelo dia em que a teologia se construa depois de
“aprovar” e “aceitar” seriamente a história das religiões, não
para cooptar a fenomenologia da religião de forma provinciana. Depois de
“aprovar” e “aceitar” seriamente a leitura dos clássicos românticos
do século XIX – Kant (basta o primeiro, que o segundo teve enxaquecas
político-metafísicas demais com o clero), Schopenhauer, Feuerbach, Marx,
Nietzsche – e suas sombras, as Ciências Humanas, desenvolvidas no século
XX, e em desenvolvimento complexo recentemente. E não para aprender a
como refutá-los. Mas para criticar-se a si mesma, e reconhecer que sua
metafísica constitutiva é vício cultural e mito político. Como mamíferos,
aprendemos a assimilar jeitos e modos traditivo-culturais, os quais
encerram séculos de adaptação ao ecossistema. O que, convenhamos, nos
leva a economizar muito, muito tempo. O que, é óbvio, é muito bom. Como
mamíferos, entretanto, e mamíferos humanos, conscientes, aprendemos, ah,
sim, aprendemos, a desenvolver novos métodos de adaptação, mais
eficientes, às vezes mais “humanos”, a criar novas culturas, novas
formas de jogar o jogo da vida. Passou da hora. O século XXI não esperou
por nós. Ficamos para trás, teólogos. Amamentâmo-nos no colo morno da
mamãe Idade Média. Mas a puberdade explode em nós hormônios de sair de
casa, e de constituir família.
Mas
nunca é tarde, nunca é absolutamente tarde, enquanto estamos vivos.
Tillich
se foi. Ficamos nós. Há duas longas estradas pela nossa frente, possíveis.
Eu tomo aquela escura, aquela que não sei onde vai dar, aquela que
assusta pelo desconhecido, aquela que amedronta pela solidão. Protejo-me
do frio. Olho de lado. Sim, Bel está aqui. Tudo está bem. O que me faz
recordar de antigas palavras, já empoeiradas de uma metafísica mística.
Eu as tomo, sacudo o pergaminho, e espalha-se o pó do tempo. As palavras
que restam, leio-as nesse novo caminho escuro:
Para
chegares ao que não sabes, hás de ir por onde não sabes.
Para
vires ao que não possuis, hás de ir por onde não possuis.
Para
chegares ao que não és, hás de ir por onde não és.
Ser-me-á
perdoada a heresia pós-metafísica? Mas ela dança em mim uma dança de
amanhã.
[1]
John DOURLEY, Substância Católica
e Princípio Protestante: Tillich e o diálogo religioso, Correlatio,
1, 2002.
[2]
Karl-Josef Kuschel,
Os escritores e as escrituras. São Paulo: Loyola, 1995.
[i]
Graduado, mestre (livre) e doutorando em teologia (Seminário Teológico
Batista do Sul do Brasil, Faculdade Teológica Batista do Paraná e
PUC-Rio). Teólogo-biblista histórico-crítico e histórico-social.
Casado, dois filhos. 42 anos. Página de trabalho:
www.ouviroevento.pro.br.
[ii]
Faustino TEIXEIRA, O Lugar da Teologia na(s) Ciência(s) da Religião,
em Faustino TEIXEIRA (org), A(s) Ciência(s) da Religião no Brasil – afirmação de uma área
acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 297-346.
[iii]
Cf. Aforismos 103, 104, 105, 127, 129 e 148, em F. NIETZSCHE, A
Gaia Ciência. 5 ed. Lisboa: Guimarães Editores, 1996.
[v]
“Cada mente é dotada também de potencial de mentira para si próprio
(self deception), que é
fonte permanente de erros e de ilusões” (cf. Edgar MORIN, Os
Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. 9 ed. São
Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2004) – e isso, igualmente a
minha e a de Morin.
[vi]
Cf. Mircea ELIADE, Tratado de História das Religiões. Lisboa: Cosmos, 1990.
[vii]
A não-articulação dos temas da “fé” (dogmas, doutrinas,
“esperanças”) na conta de “mito” assume as feições da
“alienação”, desde que a religião os experimente sem a necessária
noção de mito. Os temas de fé são, sim, constitutivos da vida
humana, mas, desde quando desconhecem-se como tal, promovem a alienação
do sujeito que os articula.
[viii]
Para O Método, cf. Edgar
MORIN, O Método. Porto
Alegre: Sulinas. VI volumes. Para Os
Sete Saberes, cf. nota 4.
[x]
Marcel DETIENNE, A Invenção da Mitologia. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília,
DF: UnB, 1998.
[xi]
Cf. a Tese 3 das Teses sobre Feuerbach, de Marx, em Georges LABICA, As
‘Teses sobre Feuerbach’, de
Karl Marx. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. “(...) se
esquece de que as circunstâncias são mudadas pelos homens e que o próprio
educador deve ser educado. É por isso que ela deve dividir a
sociedade em duas partes – das quais uma é elevada acima dela”
(p. 31-32).
[xii]
Richard POPKIN, História do ceticismo de Erasmo
a Spinoza. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2000.
[xiii]
Cf. Marl MARX, Critique de la philosophie du droit de Hegel -
Introduction, em Karl MARX e Friedrich ENGELS, Sur la Religion.
Textes choisis. Traduits et annotés por G. Badia, P. Bange et E.
Bottigelli. Paris: Éditions Sociales, 1960. p. 41-58.
[xiv]
“O animal doméstico, a rês gregária, a enferma besta de carga –
o cristão...” (cf. F. NIETZSCHE, O Anticristo. Ensaio de uma crítica
do cristianismo. Lisboa: Guimarães, 1988, p. 16. Cf., ainda, o
Aforisma 129, em A Gaia Ciência
(cf. nota 2).
[xv]
Johan HUIZINGA, Homo Ludens – o jogo como elemento da cultura. 5 ed. São Paulo:
Perspectiva, 2007. Nos termos de Huizinga, o estraga-prazer desiste do
jogo, e denuncia sua indisposição. Já o trapaceiro, mantém-se jogando, ainda que burlando as “regras”. Os jogadores
prefeririam os trapaceiros, porque, ao menos, o jogo continua.
[xvi]
Refiro-me, naturalmente, a L. FEUERBACH, A
Essência do Cristianismo. 2 ed. Campinas: Papirus, 1997.
[xvii]
Edgar MORIN, La Relación Ántropo-bio-cósmica,
Gazeta de Antropología, n. 11, 1995, disponible em http://www.ugr.es/~pwlac/G11_01Edgar_Morin.html.
©
Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem
alterações no texto – |