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Positivista,
eu?
Osvaldo
Luiz Ribeiro
07/06/2007
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Después
de tantas experiencias, podemos y debemos reconocer que la verdadera
racionalidad es de naturaleza dialógica: es el diálogo entre lo lógico
y lo empírico, diálogo que conlleva en su seno el diálogo entre
lo racional y lo irracionalizable.
Esa
racionalidad, que conlleva en sí misma la potencialidad de autocrítica
y de autosuperación, constituye un tesoro vital para el espíritu
humano. Pero para salvar y desarrollar la racionalidad, nos hace
falta hacerla capaz de afrontar la complejidad, es decir, la
multidimensionalidad, la incertidumbre, la contradicción, nos hace
falta una segunda «nueva Alianza», esta vez entre el modo de
conocimiento científico, que via observaciones,
verificaciones, «falsaciones», mira hacia la objetividad, y el
modo de conocimiento filosófico, propiamente reflexivo, que mira
sobre todo a elucidar la relación entre el sujeto y el objeto del
conocimiento.
(Edgar
MORIN, La
Relación Ántropo-bio-cósmica,
Gazeta de Antropología, n. 11, 1995).
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Não
são poucas as pessoas de meu círculo de conhecimento que, às
escondidas, a maioria, olho no olho, uma ou duas, chamam-me de
positivista. Fazem-no em tom entre desdenhoso e ofensivo. Algumas vezes,
em tom jocoso, que tomo como jocoso, mas sempre sabendo que o jocoso, em
tempos freudianos, quantas vezes é apenas uma capa para o constrangimento
de o dizer na lata.
Há
uma certa culpa em mim, em meu modo de ser, para que essas pessoas não
apenas pensem isso de mim, mas cheguem a comentar, entre pizzas, à mesa,
ou em bate-papos descontraídos, que eu sou um delirante positivista. Estão
lá, falando da vida, e, de repente, olha eu aparecendo na conversa. O
Osvaldo, você viu?, que coisa, não? O cara é um positivista! Mais um
pedaço? É que eu sou um sujeito quase que intratável, eu diria, de tão
chato que eu sou, quando se trata de discutir questões epistemológicas.
Eu aprendi com o Morente, que um filósofo
deve ter duas qualidades: admiração e rigor, isto é, deve fazer-se
criança curiosa e excitada, e fazer-se espírito crítico. Ao mesmo
tempo. Não diria que sou um filósofo, ainda que pense, também, filosoficamente, mas aprendi a
ser um menino-sempre-admirado, ao mesmo tempo que um
ancião-sempre-crítico. Quase poderia repetir, com o mesmo
sentido, as palavras, que repito, de Edgar Morin:
É
preciso ser racional é místico (...) Sou racional e místico.
Tenho esta polaridade antagônica porque não posso passar sem a
racionalidade, isto é, a vontade de argumentar, ter um discurso
que possua um mínimo de coerência, de verificação, enfim, de
tudo que a palavra 'racionalidade', que é crítica e lógica,
engloba (Edgar Morin, Meus Demônios, apud
Alfredo PENA-VEGA e Paula STROH, Viver,
Compreender, Amar - diálogo com Edgar Morin, em A. PENA-VEGA e E. P. DO
NASCIMENTO, O Pensar Complexo - Edgar Morin e a crise da modernidade,
Garamond, 1999, p. 179-198 [p. 192]).
Minha
"racionalidade" é profana. Ela mostra-se na rua. Fora de casa.
E é essa "racionalidade" que me angaria o rótulo de
"positivista". Essa
marca me acompanha na Exegese e na Teologia. E eu não negocio. Tudo que
leio escuto, imediatamente, analiso. Pergunto-me: que tipo de
epistemologia está sustentando isso que estou lendo/ouvindo? Vou
saltando entre as palavras que leio/ouço, vou inquirindo-as, e pego o
centro gravitacional do discurso. Quando encontro o centro gravitacional
do discurso, já era: eu simplesmente o desmonto, desde dentro, até as
suas margens retóricas. E não se trata, apenas, dos discursos políticos,
explícitos ou dissimulados. Mesmo os discursos técnicos. Sem exceções.
Dos amigos, dos adversários, dos “neutros”. De todos.
Como
sou intratável, não deixo quieto. Intrometo-me não no discurso, mas nos
argumentos, e na lógica sistêmico-epistemológica envolvida. Se ela me
parece ideologicamente domesticada, denuncio com toda força. Já virou vício
isso. Não há discurso que me chegue aos ouvidos, e que passe incólume.
Quase que nem as minhas conversas muito amigáveis e mesmo íntimas com
minha adorabilíssima Bel. Tudo e todos eu ouço, critico e devoro. Isso
sou eu.
Eu
poderia dizer que uma razão se deva ao fato de eu ter crescido sem a presença de
meu pai, logo, sem a presença da autoridade paterna. Deus, para mim,
sempre foi mãe, ainda que mamãe o tivesse apresentado a mim de calças
compridas e barba. Mas eu sempre soube que ele era ela. Chamava-o de pai,
sempre, a vida toda, mas, no fundo, eu sabia o segredo dele. Por outro
lado, a ausência do pai poderia ser explicada por uma passividade, uma
falta de virilidade. Bem, eu diria que não sou lá um portento de
virilidade, no que diz respeito à violência física. Nunca briguei na
escola, salvo uns quase-tapas com o Arialdo, meu amigo. A única vez que
ia brigando, o Afrânio estapeou o Marcelo, considerando, com isso, que
pagas estavam as colas que eu lhe dava. Por outro lado, contudo, eu jamais
poderia admitir qualquer laivo de platonismo, uma vez que tudo quanto diz
respeito ao corpo me fala muito alto, e eu diria que minha personalidade
é profundamente masculina, se me faço entender. Talvez a sexualidade me
faça detestar tanto Platão e seu princípio dualista, ao mesmo tempo que
admiro profundamente a cultura judaico-israelita, responsável pela
corporeidade, de que está impregnado o Antigo Testamento. Logo, no fundo
não sei se a ausência de meu pai é responsável por esse meu jeito.
Talvez
o fato de eu ter sido criado preso dentro de casa. No máximo, o quintal,
mas quase nunca com amigos. Isso fez de mim um sujeito fechado, a quem só
Bel conhece. A epistemologia me parece muito importante, mas eu não
magoaria alguém por causa disso. Por outro lado, num cenário de diálogo
acadêmico, não tenho lá muita pena de dizer o que penso dever dizer,
porque deveria ter aprendido, quem sabe?, a ter dó e pena, lá atrás, na
infância. Não aprendi. Falo demais. E, aí, as suscetibilidades, às
vezes, se sentem feridas.
Um
exemplo claro é a Exegese. De minha parte, lamento a situação da
Exegese, pelo menos daquela mais próxima de mim. Sem generalizações, e
honestamente falando, circulo em meios confessionais, onde a Exegese – e
concedo o termo apenas para ser politicamente correto, porque, a rigor, não
há exegese ali (mas fazer o que, se chama-se aquilo de Exegese?) –
apanha mais do que massa de pão, onde os textos são torcidos e
retorcidos, até que assumam a forma que a Teologia x ou y deseja que
assumam. Eu podia dar de ombros, sorrir um sorriso – literalmente –
amarelo, como um amigo exegeta meu faz, e Bouzon, meu ex-orientador,
fazia, e seguir em frente. Mas eu não. Eu sou chato. Eu denuncio mesmo:
alto lá, isso aí não é Exegese nem aqui nem na China. Meia dúzia de
inimigos.
Depois,
meto-me na companhia de biblistas. Conheço cada vez um maior número de
biblistas. Gosto de estar no meio deles, e de ser aceito por eles. Há
excelentes biblistas, que são excelentes exegetas. Entre as feministas,
por exemplo, a Ivoni Richter Reimer. Muito boa. Mas há algumas colegas que, quando vejo
seu exercício, logo percebo falhas epistemológicas graves, e saberia até
dizer onde, e o digo: seus projetos político-religiosos dirigem seus
trabalhos exegéticos. Não dá boa coisa isso. E como eu sou chato,
intratável, e minha língua não cabe na boca, acabo falando. E apanho.
Devem
achar-me um pernóstico. E não sou. Devem achar-se uma cara besta. E não
sou. Chato? Sou. Eu diria que rigorosamente metodológico, rigorosamente
epistemológico. Não dou um passo sem ter avaliado se o passo é
condizente com o processo. O que não significa, claro, que esteja sempre
certo, ou mesmo, confesso, que eu saiba quando estou mesmo certo. Na
maioria das vezes, nunca tenho certeza, e só chego a ela, quando dou de
cara com a parede, e sei que tenho que voltar, e começar tudo de novo. É
o que Rubem Alves (Filosofia da Ciência) quis dizer com a metáfora do labirinto, que eu levo
muito a sério.
Então
está bem. Esses meus colegas de trabalho, de lazer, de vocação, têm
razões para me chamar de chato. Está bem, eles e elas podem achar que eu
não alivio nunca. Mas, cá entre nós, podem me chamar de positivista?
Eles sabem do que estão falando, quando me chamam de positivista?
Primeira pergunta: até podem, se gostam do efeito da palavra, quando a
usam, se lhes parece inteligente dizê-lo. Segunda pergunta: acho que não,
caso contrário, não usariam a palavra, aplicando-a a mim, ainda que lhes
soasse inteligente usá-la. Talvez lhes falte algo melhor para dizer, e
usam essa palavra de cem anos.
Quero
ajudá-los. Primeiro, dizendo que não, não sou positivista. Em que
sentido? Vamos ver. Primeiro, e mais importante, jamais gostei do
estruturalismo, e isso mesmo quando estava na moda entre os biblistas.
Haroldo sabe o que eu dizia para ele sobre trabalhos estruturalistas, por
exemplo, de Croatto. Para mim, o estruturalismo era – e é – um
completo absurdo, e mesmo um estorvo. Para mim, não há estruturas
determinantes inconscientes, agindo sobre a cultura. Não acredito em
determinismo, com ou sem s. De nenhum tipo. Não acredito no conceito de
sociedade como sujeito inconsciente. Creio, sim, no conceito de sociedade
como emergência sistêmica, recursiva, retroativa. Creio no discurso
complexo aplicado à sociedade, rigorosamente nos termos em que Edgar
Morin o expressa em O Método,
em qualquer de seus seis volumes, que devoro como à pele da Bel. Claro
que Morin se tornou íntimo de meu mundo faz dois anos, e antes disso, eu
não tinha os termos apropriados para o dizer, apenas a antipatia diante
de qualquer tentativa de suprimir o conceito de sujeito ativo, agente,
consciente.
Estruturalismo
não passa de calvinismo securalizado, e eu gosto tanto de Calvino, quanto
de estruturalismo, ainda que ache que, se é pra ser um teólogo
confessional, o escore está a favor do pastor de Genebra, mais uma razão
para eu querer cada vez mais distância da confessionalidade engajada. A
simples menção, de Nietzsche, em O
Anticristo, ao cristão típico como besta de carga, por mais pesada
que seja, faz-me dar todo crédito a ele, no sentido de que a Teologia tem
uma tendência a anular a autonomia da gente – pelo menos é o que ela
quer. A heteronomia teológica cristã – quantos aos demais religiosos,
cada um dê conta de sua tradição, pois que falo da minha –, o
calvinismo teológico, impiedoso até a crueldade, o estruturalismo, tudo
isso me causa tontura, e, confesso, não tenho mais condição de sequer
pensar nisso com serenidade.
Ora,
o positivismo pretendia, originalmente, tratar a sociedade dos homens,
como se pode tratar a sociedade das estrelas. Apreender-lhes as leis
eternas, imutáveis, rígidas, matemáticas, previsíveis, para,
controlando-as, como à montaria de Leibniz, manipulá-las. Ah, saber como
apertar um botão, e fazer a sociedade virar para a direita, ou para a
esquerda. Ah, um apito, e lá vão os homens pra cá, outro, e pra lá,
mais dois, e eles dão três pulinhos. Por que os pulinhos? Porque é
divertido, meu filho gosta.
Quanto
a mim, prefiro ouvir Aldous Huxley, que, em Os
Demônios de Loudun, afirma que a manipulação das massas, ainda que,
eventualmente, para o bem, é
indecente, imoral, injustificável. Não é por outra razão que tornei-me
uma espécie de rogeriano, não tendo conseguido impor verdades
alegadamente verdadeiras, nem mesmo as divinas, a meus próprios filhos,
preferindo que eles as descobrissem, no risco, no meu rosto, nos meus pés,
e no amor incondicional que dispenso à mãe deles, meu amor. Lá, na
carteira do Seminário de Nova Iguaçu, na aula da Eva, conheci Carl
Roger, eu, um menino de, o quê?, vinte, vinte e um anos, e apaixonei-me
pela não diretividade, pela liberdade, tornei-me rogeriano.
Os
textos bíblicos de que eu mais gosto são os críticos – e os há às mãos
cheias! Os teólogos, poucos, raros de contar nu’a mão, os críticos.
Lamento todas as vezes que começo a ler um propalado teólogo crítico,
e, não se folheiam nem duas páginas, lá está Nicéia, altíssima, e o
dogma. Fecho imediatamente o livro. Os autores que leio têm que ser,
igualmente, todos, sem exceção, críticos. E se são críticos disfarçados,
detesto-os. Leio Edgar Morin como quem lê as estrelas. Hierofania em dose
cavalar. Leio Nietzsche, para sentir a carne cravada pela palavra dura,
necessária, poética. Karl-Otto Apel, para tentar, com ele, acabar com o
blá-blá-blá relativista, pseudo-inteligente. Prigogine, para delirar de
sorrisos, ao ver a História incrustada até no Universo. Quintana, para
ver o inusitado óbvio ser dito, de um jeito que ninguém mais o diria.
Stephen Jay Gould, para catar conchas na praia, enquanto viajo. Os românticos,
para manter-me lúcido, e vacinado contra a razão instrumentalizante,
racionalizante, ideológica.
Ninguém,
em sã consciência, diria que um sujeito assim, como eu assim, é
positivista. Ou é maldade de quem o diz, ou é ignorância, seja a
respeito de mim, mais provável, ou do que é o positivismo, o que não
seria muito bom para a reputação de meus caros amigos caluniadores.
Beira o patológico, eu chego a cogitar.
Há,
ainda, outro elemento do positivismo que não me cabe muito bem. Trata-se
de um elemento secundário do sistema positivista, mas talvez seja o
elemento central, por meio do qual sou transformado num espirro do Comte.
Trata-se da questão da objetividade.
Bem,
como estamos aqui em confidências cripto-acadêmicas, não vou medir
muito minhas palavras. Chamam-me de positivista tanto porque sou cioso de
meu trabalho exegético, quanto questiono muitos trabalhos que se
apresentam como exegéticos. E aí, apelando retoricamente para
Schleiermacher, Dilthey, até Nietzsche, vejam só, e Heidegger, tomando
Gadamer à direita, acusam-me de ainda acreditar que haja objetividade no
mundo. E eu digo – sim, há sim. Aí desesperam. E eu penso, comigo: iuris
esperniandi. Enquanto esperneiam, podiam ler Edgar Morin, no site da
UNESCO: "trata-se de uma construção que é certamente sempre
incerta, porque o sujeito encontra-se inserido na realidade que pretende
conhecer. Não existe o ponto de vista absoluto de observação nem o
meta-sistema de observação. Existe a objetividade, embora a objetividade
absoluta, assim como a verdade absoluta, constituam enganos" (Educar
na Era Planetária. O pensamento complexo como Método de aprendizagem no
erro e na incerteza humana, p. 37). Meu pedaço de menino
diria: "toma!". O velho que eu sou, ralha comigo, e
sugere aos meus amigos que reflitam mais detidamente na questão
da objetividade. Eu sou um quarto de vozes, que tento controlar.
Nem sempre é fácil.
Na
prática, a Exegese, que é meu campo de labor, eu diria, lúdico labor, não
é levada a sério por quem me toma por positivista, somente porque eu
acredito em objetividade exegética. Eles até escrevem sobre isso, e
acreditam, que coisa!, que serão entendidos. Eu me pergunto: como?, se a
objetividade não existe. Eles acreditam em papéis, sim. Compram casas,
e guardam escrituras em gavetas com chave, e, se perguntam se a casa é
deles, mostram o papel. Mas como?, se o papel fala por si só. E se, de
repente, em vez de o papel dizer que a casa é sua, ele disser que a safra de
espinafre quebrou em um terço? Eles vão ao médico, aviam receitas. A
letra que vai lá é ilegível. Mas eles acreditam na mágica. Levam o
papel mágico para a farmácia. Um sujeito absolutamente desconhecido lhes
pega o papel, ele olha para as garatujas impressionistas, olha para eles,
vai lá dentro, volta com uma caixa colorida, de comprimidos, eles pegam,
pagam e tomam. Impressionante. Por que meios mágicos não apenas o
balconista entende o médico, o que, por si só já seria um fenômeno à
altura de Quevedo, mas eles acreditam que o que o balconista entendeu é exatamente
o que o médico receitou, isso eu não sei. Com certeza não se trata de
objetividade, porque isso não existe.. Eles compram equipamentos eletrônicos
de última geração. Já são meio velhos, como eu. Fossem adolescentes,
não precisariam de manual de instruções, já que meus filhos, quando
tinham sete anos, um, e dez, o outro, já jogavam jogos de computador em japonês,
como se jogassem damas. Mas eles são velhos. Têm de recorrer ao manual.
E não é que, recorrendo ao manual, até aprendem a ligar o negócio?
Desconfie-se que seja alguma magia, porque não pode ser que eles tenham
realmente entendido o texto, já se sabe a razão.
Bem,
vão dizer que eu estou usando exemplos falsos. Está bem. Vamos a casos
mais próximos deles. Alguns são psicólogos. Como aprenderam? De livros.
Como sabem de Freud – se sabem? De livros. E como? Seus pacientes é que
o digam. Vai ver não sabem é nada. Outros são sociológicos. Falam de
Marx, de Weber, de Durkheim, de Pareto, de Aron. Como é possível? É o
quê? Cada um diz o que quiser dizer, ou, no fundo, eles tentam expressar
o pensamento dos senhores sociológicos fundadores das escolas que levam
seus respectivos nomes, sendo, contudo, defuntos, todos eles? Outros,
ainda, são filósofos, e, aí, já nem sei mais, porque é um tal de
ressuscitar Platão, e dar com ele nos alunos, e Aristóteles, e lá vai,
e Parmênides, e mais uma, e Kant, ai, e Marx, dá-lhe, e Wittgenstein,
socorro. Mais uma vez: como? Desconfio que leram, interpretaram, e, agora,
sabem o que vão dizer aos alunos. Sabem? Como?
Podemos
ir mais longe. Podemos falar de História. Todos eles parecem saber de
História. Fazem até leitura de conjuntura. Psicografia? Ou leitura de
livros? Não se esforce o leitor, que eu resolvo o problema: leitura de
livros. O tempo todo, leitura de papéis escritos. E eles acreditam em
tudo que lêem. Já disse: até escrevem livros e artigos e ensaios e
quanto mais vier à mão para escreverem. Até boletins de igreja - mas
aí já deve ser para o Espírito Santo usar como pista de dança
extática. Na cátedra, se
seus alunos discordam, dão até notas baixas, e chove quatro e dois e
seis, porque eles sabem. Eu, não, eu sou positivista. Eu sou uma besta.
Mas eles, não, eles sabem. Eu, não, eu sou um idiota, metido à besta.
Mas eles, não. Eles sabem.
Nenhum
deles, nunca, sentou numa carteira, em uma aula minha, e me ouviu. Nunca.
Alguns foram colegas meus, em classes de mestrado e doutorado. Discutíamos.
Eu, chato. Eu sempre dizia: mas, e isso assim assim? Pronto. Deveriam
acompanhar uma exegese minha. Mas não vão gastar tempo com isso, porque,
no fundo, não querem saber se eu faço direito o que faço, ou não.
Querem apenas me embrulhar num rótulo de despeito, e deixar-me num canto.
Talvez alguns de seus admiradores até os levem a sério, e me tenham por
positivista. Ei, você conhece o professor Osvaldo? O quê?, aquele
positivista, há! há! há! Bobões. Eu mereço, porque, quando dizem
alguma coisa, eu questiono mesmo, e vou continuar a questionar, sempre e
todas as vezes que eu perceber que o que está sendo dito não bate com a
plataforma a partir da qual se pretendia dizer o que foi dito. Incoerência
metodológico-epistemológica na academia é imperdoável. O pecador tem
perdão mil vezes. A incoerência, nenhuma. Se lá não aprendermos
direito, onde aprenderemos?
Não
sou positivista, porque não acredito que a Exegese seja “Ciência
Natural”, ou “Ciência Exata”. Mas não aceito, absolutamente, o
relativismo imposto à Exegese por quem quase nunca o é, se o é alguma
vez, exegeta. A Exegese é jogo
cultural, heurístico, indiciário. Não é política, nem estética –
é heurística. Eu, exegeta, sou caçador, mas não posso trazer o coelho
caçado. Posso, sim, e faço, apontar a trilha dele, olha, aqui passou um
coelho, vê? Não. Aqui, olha. Ah, agora vi. Mas será se é mesmo um
coelho? O que você acha? A pista tem toda a cara de ser de coelho. Deve
ser. Se eu fosse caçador de verdade, e isso não fosse uma metáfora,
ainda que válida, epistemologicamente válida, metodologicamente válida,
eu traria o coelho. Mas sou apenas um exegeta. Acredito, sim, que caço
– e bem. Mas quem deve decidir se cacei mesmo, e bem, são os leitores,
os ouvintes. E esses meus colegas caluniadores nunca me leram, e se leram,
pelo amor de Deus. Nunca me ouviram, e, se me ouviram, pobres coitados.
Eu,
exegeta, sou historiador. Nesse caso, não se trata sequer de metáfora.
Ou o exegeta é historiador, ou não é exegeta. Pode fazer qualquer coisa
com o texto: alegoria, política, psicanálise dos personagens, apropriação
ideológica – menos exegese. Até o manual oficial da Igreja Católica
Apostólica Romana, A Leitura da Bíblia na Igreja, sabe e afirma que a leitura histórica
da Bíblia é a única que pode garantir, metodologicamente, a compreensão
dos textos canônicos do ponto de vista histórico-cultural. O manual é
até condescendente. Sugere a aplicação de vários métodos, inclusive
aqueles próprios da América Latina, além dos feministas,
estruturalistas etc. Mas afirma, categoricamente, que é o método histórico-crítico
aquele que deve nortear a base de aproximação aos textos sagrados.
Quando Lutero falou, há meio milênio, em livre-exame das Escrituras, não
chegou a tanto. Hans Küng, em Teologia
a Caminho, chega a dizer que a única Teologia que deveria estar nas universidades é aquela rigorosamente histórico-crítica, tributária da
exegese histórico-crítica. Outro dia ele escreveu que o método histórico-crítico
é (um)a razão de ele ainda ser cristão – apesar de eu achar que aí
ele exagerou um bocado. Pelo menos eu não chegaria a tanto. E não porque
o método não sirva para o Novo Testamento, que absurdo. Pelo contrário.
Ele não serve é de trampolim para a fé. Uma fé que queira ser exegética,
só pode ser romântica. E um
Jesus romântico, simplesmente, não o há. Quiçá muitos deles, um em cada texto da biblioteca sacra. Mas essa
polissemia histórico-social, melhor, essa sinfonia polêmico-apologética,
não serve bem ao tipo de fé de que Hans Küng pretende falar em Por que Ainda Ser Cristão Hoje.
Não
significa que a História e a Exegese sejam Ciências Naturais, operações
de laboratório, mil experiências e pronto, sai um Ezequias do tubo de
ensaio. Mas isso não significa, absolutamente, que História e Exegese
sejam operações irracionais, devaneios. Quanto a isso, alio-me ao esforço
retórico de Carlo Ginzburg, em Relações
de Força, ele também aborrecido com o tratamento que dispensam à
sua profissão, ora tratando-a como relatividade subjetiva, ora como
ideologia. Pensem o que quiserem pensar meus amigos e inimigos, eu
protesto minha absoluta tentativa de objetividade, imparcialidade e
respeitabilidade no trato histórico-exegético, mesmo sabendo que o
resultado, sempre, estará contaminado pela incerteza, pela
plausibilidade, pelo caráter hipotético. Mas, desde que não se possa
impugnar, metodologicamente, meu trabalho, ele deve ser respeitado.
Considerar-me positivista, sem avaliar, com respeito, meu trabalho, é
despeito e covardia.
Minha
profissão – chamarei a Exegese de minha profissão, sim, porque, mal ou
bem, estou vivendo disso, e o cheiro que vai à pele da Bel é dos
sabonetes cheirosos que a minha Exegese tem podido comprar pra ela – tem
uma característica: ela sofre de crise de verificação. Esse problema é
comum das Ciências Humanas – arena de todos esses meus caluniadores!
Nunca sabemos, rigorosamente, se estamos certos. Karl-Otto Apel está
trabalhando nisso. Li A Transformação da Filosofia I e II, e o tema das pesquisas de
Apel é justamente essa crise de verificação das Ciências Humanas. No século
XX, a briga entre elas e as “ciências duras”, digamos assim, deu-se
no sentido de os teóricos da epistemologia, na sua maioria, terem
exercido um tremendo esforço para trazer para “baixo” o nariz dos
“cientistas”. Veja-se a obra de Thomas Kuhn, ou a sua simplificação
didática, Filosofia da Ciência,
de Rubem Alves. Naturalmente que os próprios teóricos das “ciências
duras” cooperaram, como se pode depreender do Teorema de Gödel, e das
reflexões de Ilya Prigogine. Mas o fato é que, com isso, apenas se
conseguiu afirmar que o chão das “ciências duras” era, no frigir dos
ovos, tão mole quanto o nosso, os profissionais das “ciências
moles”.
O
que não é tão verdade assim. Se alguém comparar Geologia com
Geografia, não sabe o que está fazendo. Geologia é uma “ciência
dura”. Geografia, não. Quem comparar Psicologia com Psiquiatria, não
sabe o que está fazendo. Psicologia é uma “ciência mole”.
Psiquiatria, não. O que há de comum entre todas elas é que, todas, são
operadas por sujeitos históricos. Mas a semelhança acaba aí. E o esforço
da “ciência mole” em acabar com o ar de superioridade das “ciências
duras” conseguiu o quê? No fundo, ficamos como cães que, passando o
Fusca velho, correm atrás, e latem para as rodas gastas. Está bem, o
Fusca pára, e daí? Ganem, metem o rabo entre as pernas, e enfiam-se no
beco de onde saíram.
O
que ganhamos, nós, profissionais das “ciências moles”, com a ação
emoliente aplicada ao cancro duro das ciências positivas? Ganhamos,
porque, em tese, eles perdem? E ganhamos o quê? O mesmo direito à empáfia?
Por ora, não ganhamos nada, porque não conseguimos enxergar sequer o que
estamos dizendo, quando mais o que fizemos. O trabalho de Karl-Otto Apel,
nesse sentido, merece toda torcida possível, porque ele está justamente
tentando resolver epistemológica e metodologicamente o problema da crise
de verdade, ou melhor, da crise de verificação da verdade, própria das
Ciências Humanas. Não chegou ao fim de sua empreitada, mas sugere o
caminho da noção de comunidades de interpretação, o que sugere uma
multiplicidade de eixos fundantes, e uma intrincada rede de eixos
co-axiais, pertinentes às câmaras próprias e internamente válidas, mas
dependentes de validação externa, como exige o Teorema de Gödel, por
exemplo. Mas Apel vai mais longe, e suspeita, intuitivamente, de que tem
de haver uma câmara macro-estrutural, transcendental, sem a qual não
haveria, por exemplo, inteligibilidade intra e inter-sistêmica. E há.
Alguma coisa do logos aristotélico
deve nos ter escapado, quando a sanha relativista causou frisson
e histeria entre os mais afoitos
– e como há afoitos, não?
Acredito,
sim, no princípio da inteligibilidade sócio-antropo-eco-noológica, sem
a qual seríamos, todos, tartamudos, símios imbecis, moucos. E acredito
ser do conhecimento até do reino mineral (plagio a expressão do Mino)
que isso não somos. Alguma coisa entre razoáveis e loucos, entre lúdicos
e construtores. Mas, não, idiotas. Biologicamente, noologicamente,
antropologicamente, sociologicamente – somos seres que caminham sobre o
real, ainda que sobre a representação criativa dele. Mas uma coisa é
certa, a porta é uma criação humana, mas não vá ninguém querer sair
da sala, senão por ela.
Talvez
eu possa dizer, também, que não sou positivista, pelo fato de, meus
alunos, todos, sabem, e meus escritos, todos,
confessam, eu nunca afirmar que esteja indiscutivelmente certo, e,
sempre, trabalhar com a possibilidade honesta de estar errado. Li Os
Sete Saberes Necessários a Educação do Futuro, e me converti a cada
um deles. Li os seis volumes de O Método,
e os seis me correm nas veias. O fato, porém, de eu poder estar errado não
significa que esteja. E, se estiver, cabe à comunidade de interpretação
dizer onde. Não com confetes roxos, a sepultar-me como sujeito pensante,
na retórica baixa da falta de nobreza, no sarcasmo baixo do despeito. Se
estou errado, isso deve ser indicado precisamente: é aqui, Osvaldo, que
você labora em erro. Isso, ninguém nunca me fez. E não porque
eventualmente eu não esteja errado aqui ou ali, mas porque não se
dignaram a prestar atenção ao que eu estou dizendo. Se sequer me ouvem,
como sabem de mim?
Por
tudo isso, amigos meus, inimigos meus, não sou positivista. Não será,
ainda, esse rótulo a me vestir. E, bom, agora, deixem-me cuidar da vida,
que ela se esvai como menstruação, se o tempo não é fecundo.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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