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Série
Pragmática: IV – Pragmática Estética
Osvaldo
Luiz Ribeiro
07/09/2007
Ah,
quando sonhávamos que a Razão – criptodivina1
– constituía a marca
distintiva do Homo sapiens sapiens. Breve sonho. Passou. Foi um leve delírio. Explica-se-lhe
por um reflexo condicionado da teologia, que, cuidando ter olhos de Deus,
teve-se-lhes arrancados por um Newton e sua Física, um Napoleão e sua
Política, por um Estruturalismo e sua Filosofia. Uma espécie de
contra-vingança infantil, que talvez Freud explicasse um dia. Já que um
dia Deus virou Logos, chegara
a hora, parecia, de o Logos
tornar-se deusa (cf. por exemplo, Edgar Morin, La
relación ántropo-bio-cósmica, Gazeta de Antropología, n. 11, 1995,
§ 1)..
É
mesmo uma evidência bastante interessante de que sim, ainda que tateando
– e na lama –, possa o Homo
sapiens rearranjar sua cosmovisão e sua autocompreensão em face do real. Uma confusão onírica dos diabos instalou-se há
cerca de duzentos anos, mais ou menos, mais aqui, menos ali, que se
poderia resumir assim. Uns mantiveram-se agarrados ao deus-Deus. Desorbitados os olhos dele, seus oficiais meteram-se nos
buracos, a fazerem-se olhos muito divinos, que em terra de cegos, quem é
olho é rei. Outros, agastados com a sepultura de milênio e palmo e meio,
coroaram deusa a Razão, e tornaram-se seus oficiais. Não foi de todo
ruim, porque, afinal, ainda que com os delírios neoplatônicos de dois
mil anos e meio palmo, olharam para baixo, e, mesmo à custa de muito
falseamento, lograram, sim, aperceber-se muito legitimamente de certos
aspectos perceptíveis do real. Não tanto a sua postura, mas o seu mito,
eis o delírio da deusa-Razão. Finalmente, muito lentamente, ainda vai-se por aí
ainda muito lentamente, alguns foram-se convencendo de que olhos-de-Deus não
são boas coisas nem da Igreja nem no Laboratório, que se Deus tem olhos,
e se há olhos de Deus, não são para nós. A nós, apenas olhos humanos,
demasiadamente humanos.
Assim,
parece – será? – em vias de extinção sistêmica a idéia-pretensão
de que a Razão seja a característica
fundamental da espécie humana. Ah, sim, ela é muito, muito importante
para a espécie – como de resto a sua contra-parte biológica, a
perceptibilidade, a apreensibilidade, a adaptabilidade biológica ao meio
físico e ecossistêmico, o é para a vida de modo geral. Todos os domínios
da vida – eubactéria, archaea e eukaria (e mesmo
os vírus e os príons) desenvolvem-se a partir de instâncias heurísticas,
tanto quanto desenvolvem-nas.
Não,
a razão não é um brinquedo humano,
salvo que nós aprendemos a brincar como ninguém mais. Também não é a
política uma exclusividade humana. A política, contudo, não é tão
universalmente biológica quanto a heurística, ainda que ela esteja
encravada potencialmente também em toda a biosfera, tanto quanto potência,
quanto como atualização.
É
a estética a dimensão pragmática mais distintiva da espécie humana. A
estética desabrocha desde a consciência de si, e floresce como sonho,
imaginação, delírio, fantasia, projeção, poesia, metáfora. A própria
linguagem, em um certo nível funcional constituindo um desdobramento da
heurística e da política, transmuta-se em estética, quando desliga-se
do mundo, e volta-se para dentro de si, si como o sujeito-linguagem que se
expressa na e pela linguagem do sujeito.
Enquanto
a heurística constitui o desdobramento da consciência sobre o mundo como
coisa, como mundo, como topos,
como cenário, como si, enquanto a política desdobra-se sobre a
comunidade humana tomada como sociosfera, como mundo da cultura e das
expressões teleológicas da espécie, a estética desdobra-se para dentro
do sujeito que a desdobra, ricocheteando no “mundo”, e voltando. O
sujeito tomado como si mesmo está fora da consciência. A consciência é a plataforma que –
inclusive – permite a emergência da consciência do sujeito como
sujeito de si. Mas, para o fazer, deve o sujeito de si sair de si mesmo, e
voltar, porque tal consciência de si emerge através da diferenciação
entre o sujeito de si e o mundo das resistências externas. Sujeito de si
e mundo são emergência inseparáveis – e tanto, que mesmo quando se
pretende sozinho, olhando para seu próprio abismo interior, o sujeito de
si obriga-se a, antes, sair de si, recolher o olhar, e voltar para dentro
de si, através do movimento de
retorno. Não há reclusão pura. Não há abertura pura. Só há
abertura-reclusão e reclusão-abertura. Daí que toda experiência estética
é, também e ao mesmo tempo, experiência de cultura.
Terei
de voltar a isso mais detalhadamente. O nó górdio desse entroncamento é
o par indissociável hermenêutica/pragmática. A consciência humana,
desde que é, ab ovo, abertura e
reclusão (uma vez que o sujeito humano é um sistema complexo adaptativo
aberto), enquanto abertura ela se sujeita, de um lado, a sofrer os estímulos
e as resistências da fisicosfera
(da “natureza”), e, de outro lado, a reagir sobre e contra ela.
Daquele par, a face hermenêutica cuida de tratar os estímulos e, com eles,
permitir à consciência a construção – representação – do mapa
mental (cosmovisão e autocompreensão inextricáveis). Por sua vez, a face
pragmática cuida de determinar o filtro teleológico através do qual o
sujeito de si age sobre e contra o mundo. Uma vez que a hermenêutica
constrói-se por meio da pragmática e a pragmática constrói-se por meio
da hermenêutica, a distinção é apenas relativa e didática, porque, a
rigor, as duas faces, malgrado sua especificidade funcional, encarregam-se
de, ao mesmo tempo, a) permitir a consciência do sujeito de si, tanto
quanto esta lhes faculta a emergência, b) receber e tratar os estímulos
externos, convertendo-os, em modelos funcionais de movimentação ecossistêmica,
e c) agir sobre o real, com base no mapa mental criado.
Assim,
mesmo a estética não constitui um capricho da alma. Ela consiste na
dimensão recursiva do sujeito de si sobre si, através do retorno desde fora
de si, logo, hermenêutico e pragmática, para gozo e fruição de si
como si. A estética é a exaltação do prazer como prazer, mais do que
do belo como belo.
A
estética é o encontro do sujeito de si com o próprio sujeito de si. Mas
tal encontro não se dá do mesmo consigo mesmo, mas do sujeito de si com
sua auto-representação cultural e existencial. Sujeito de si como
processo encontrando-se com sujeito de si como conteúdo. Sujeito de si
como foro interior da consciência com a hipóstase psicológica de si,
materializada fora de si, provisoriamente, em egofanias quase-sagradas. É
tanto a identificação de si, fora
de si, quanto a projeção de si
fora de si. Não é conhecimento de si, é gozo de si. Não é relação
consigo mesmo – diálogo interior – mas contemplação de si num
outro si, que é o mesmo, mas é outro, posto que mediado desde
fora de si. Para que eu me contemple, tenho que sair de mim,
materializar-me em gozo fora de mim, e retornar, luminoso – iluminado?
– para dentro de mim. Mas, então, já sou como
que outro, conquanto, ainda, o mesmo. A estética é a solidão
escancarada da alma. Solidão não (só) do mundo. Solidão não (só) do
outro. Solidão de si mesmo.
Que,
contudo, não é defeito. Não é falha. É fator constitutivo,
determinante – sine qua non. A
consciência é ruptura – do sujeito de si com o mundo. A consciência
é esse ruptura. Emerge dessa ruptura. Se a ruptura for, digamos,
corrigida, a consciência dissolve-se. A inexorável condição da consciência
é a solidão ineludível do sujeito de si.
Solidão,
contudo, que se expressa em pulsão de gozo de si, da companhia de si. A
estética se aproxima da suspeita do sujeito de si quanto a si mesmo.
Mediada pelo mundo, pelo fora de si,
a suspeita converge em busca. Na estética, o sujeito de si busca,
inalcansavelmente, a si mesmo. Não pode alcançar-se. Não pode, contudo,
conter a busca. Porque tudo e todos podem ser tocados – inclusive o
corpo do sujeito de si. Mas esse corpo não
sou eu. Ele é meu corpo. Eu
grito nele, dele, por ele, para
ele, contra ele e a favor dele.
Mas ele não sou eu. Eu – o sujeito de si – tateia-se, e nunca se
acha. O outro está disponível. O mundo está disponível. Si mesmo, como outro, está disponível.
Mas o sujeito de si, como sujeito de si, nunca está disponível. E é ele
quem se busca a si mesmo. É ele que faz de tudo e de todos escada estética,
atrás de alcançar-se a si mesmo nas alturas do êxtase e do gozo.
Perder-se,
em gozo, contudo, é apagar a luz. Aí, a ruptura radical da existência
humana, da consciência humana, da hermenêutica/pragmática humana, é
momentaneamente superada, por sublimação. O sujeito de si não dispõe
da capacidade de produzir, ele mesmo, tal estado de sublimação da
ruptura, que, a rigor, jamais acontece. Trata-se, aí, de uma experiência
psicológica profunda, que, contudo, permanece sob controle da consciência.
Há sempre um eu observando o sujeito de si, ainda quando ele se encontra
em arroubos extáticos de gozo estético. A saudade
é a marca da consciência estética. E a busca,
a sua sina.
Uma
vez que o sujeito de si projeta-se hermeneuticamente sobre o real, mais do
que como um véu, como uma alma, o real encontra-se carregado do sujeito
de si. A carga dá-se, naturalmente, no âmbito noológico das representações
funcionais/instrumentais, que o sujeito de si elabora, para nelas e com
elas viver e mover-se no e como que no real. A
fortiori, então, quanto mais o sujeito de si investe sobre o real,
mais encontra-se plasmado ali, já que a interface de aprofundamento até
as estranhas do real é, sempre, o mito-representação, a hipótese de
trabalho, a noosfera, carregada, invariavelmente, da alma humana.
É
por isso, então, que a estética constitui-se de uma pragmática muito
peculiar do ser humano, porque a capacidade de representação noológica
da consciência é uma peculiaridade – até onde se cogita – humana. Não
significa que o sujeito de si não possa investir sobre o real sensível
num recorte teleologicamente heurístico-pragmática, como se toda experiência
do sujeito de si com o real fosse, afinal, encontro de si consigo mesmo.
Absolutamente. A construção de aceleradores de partículas, a prospecção
de petróleo em águas profundas, o envio de sondas espaciais a planetas,
satélites e cometas, a previsão de eclipses solares e lunares, bem como
de alinhamentos planetários, a previsão do clima, cada vez mais aperfeiçoada,
o controle das energias elétrica, eólica, solar, térmica, estática,
nuclear, fóssil, o transplante de órgãos, a Internet e os celulares,
quantas coisas mais poderiam ser escritas?, demonstram de forma inequívoca
– para quem deseja ver, já que há pragmáticos que se recusam a tanto
– que a espécie humana superou em todos os sentidos todas as demais espécies
vivas e quase-vivas (os vírus?), e, contudo, naquilo que todas têm em
comum: a necessidade e a capacidade de mapearem heuristicamente
(funcionalmente, instrumentalmente) seu ecossistema físico.
Essa
capacidade responde pela emergência da pragmática heurística, e não
interdita – pelo contrário – nem inviabiliza – muito menos – a
experiência estético-pragmática. Todos os veículos de investigação
heurísticas podem, conforme o caso, funcionarem como veículos de pragmática
estética. E política. Porque não é o que se faz, o ato bruto, o
movimento das mãos, dos olhos, dos pés, dos músculos, o passo, a
palavra, que determina a pragmática. É a intenção – a alma – do
gesto. ´E a forma como o sujeito de si sai de si, intencionalmente, sobre
o real. É essa razão teleológica
o elemento fundamental e determinante da pragmática.
Por
meio dessa intuição-proposição, dada a sua eventual validade heurística
(pretendida), tudo que se faz pode ser feito ou esteticamente, ou
heuristicamente, ou politicamente. E não se trata de estudar a coisa, mas de a
fazer. Porque estudar a
coisa já é o recorte específico da pragmática heurística. Por
exemplo. O sexo. É estética: êxtase? É política: encontro? É heurística:
aprendizado? Pode-se responder: sexo é tudo isso. E deve-se, nesse caso,
responder: sim e não.
Sim,
sexo é tudo isso. Sexo é estética. Sexo é política. Sexo é heurística.
Mas enquanto potência. Sexo pode
ser estético. Sexo pode ser político.
Sexo pode ser heurístico. Quando faz-se sexo, contudo, ali,
concretamente, enquanto o sexo é feito, ou ele é estético, ou é político,
ou é heurístico, pragmatica_esteticamente falando. Se o sexo é feito como experiência
de êxtase fisiológico, quando o que se busca é o gozo pessoal – para
o que se precisa, nesse caso, do ou da parceira (e cada vez em mais múltiplas
possibilidades correlativas), quando o que se deseja é a satisfação de
necessidades biológico-fisiológicas, químico-hormonais, psicológico-noológicas,
quando essa é a intenção, o
sexo encena-se no palco da pragmática estética. O parceiro ou a parceira
é, aí, apenas instrumento fora do
sujeito de si para o gozo estético de si
e por si. Não se trata, aí, do
encontro de duas pessoas, de dois sujeitos, mas do encontro entre um
sujeito de si e um corpo, que, a despeito de ser corpo de outro sujeito de
si, aí é tomado na condição de – apenas – corpo: carne, a
suculenta carne do corpo. E a evidência – chego a dizer, “prova”?
– de que uma tal pragmática é possível traduz-se no fato de que a
prostituição, o pagamento pelo corpo alheio como veículo de experiência
estético-lúdica, é milenar, modelo perfeito de ilustração do uso estético
da política. Não é verdade que apenas a subcondição humana – econômica
e cultural – propicie a prostituição. Por outro lado, tais circunstâncias
civilizatórias foram, desde muito, muito cedo, percebidas como um veículo
facultador e promotor da estetização política do sexo. Eis a dinâmica:
a) a pulsão erótico-estética transborda em desejo pelos poros do
sujeito de si (dimensão estética da satisfação bioquímica
hipostasiada psiconoologicamente na forma de prazer); b) a infra-estrutura
histórico-social enquadra o corpo de outros sujeitos de si, no jogo da
sobrevivência, no esquema de disponibilidade comercial (teleologicamente
não-subjetivo – o que se vende é o corpo [e a que preço?]); c) a pulsão
estético-lúdica do prazer erótico serve-se da política, a disponibilizada do corpo alheio, para sua
satisfação. A isso chama-se, aqui, uso estético da política. E há
usos políticos da estética. Na religião, por exemplo.
O
sexo pode, por outro lado, constituir-se numa pragmática heurística. Não
me refiro, aqui, ao sexo tomado como objeto de estudo
abstrativo-intelectual: ler livros de fisiologia sexual, por exemplo. Falo
de aprender a fazer, fazendo,
enquanto faz. As duas modalidades são expressões heurísticas, cada qual
num recorte peculiar. Obviamente, ambas são necessárias. O Relatório
Delors, da UNESCO, fala da necessidade
de aprender a aprender e de
aprender a fazer. Quando o sexo, eventualmente, portanto, enquanto
acontece, é utilizado para o aprimoramento da própria performance
(seja da consciência dos movimentos do próprio corpo, seja das reações
do outro corpo como resposta àqueles), ele acontece heurístico-pragmatica_esteticamente.
Quando os dois parceiros – quaisquer que sejam – concentram-se em
aprender de si e do outro, enquanto
se conhecem intimamente, se a intenção específica, se o objetivo
imediato, é esse, o conhecimento do funcionamento do próprio corpo e do corpo do outro,
então esse ato é, para além de um encontro de amor (política) ou de
gozo pessoal (estética), um encontro de abertura ao real, de atenção às
resistências concretas, físicas, biológicas, do ecossistema imediato,
de si, do parceiro, do próprio corpo, do corpo da/o parceira/o – numa
palavra, um encontro de aprendizado. Sexo é, por isso, também
possivelmente heurístico, como tudo quanto o homem faz e venha a fazer.
E,
finalmente, sexo é, também, uma experiência política. Quando? Quando
se trata de abertura de um sujeito de si até outro sujeito de si, através
dos corpos de cada um dos sujeitos. Um senhor de escravos, que subjuga a
negra, e lhe impõe, à força, coito, pode parecer um exemplo de sexo
como política. Mas eu penso que não. O exemplo terrível – mas histórico
– do estupro (física ou psicologicamente) violento da escrava pelo
senhor é mais um caso, como o da prostituição, de sexo como estética,
alcançado por meio da política: ou a pobreza, que prostitui, ou a
escravidão, que submete.
A
pragmática política do sexo, não. Para constituir-se como política, deve o sexo pressupor-se como encontro de dois sujeitos
de si, adultos (sim, o conceito
é cultural e relativo. Eventualmente, por força do processo civilizatório,
tornar-se-á culturalmente planetário, chegando a constituir um valor
universal. Ainda assim, cultural e relativo), autônomos
(conceito bio-antropológico e político-ideológico) e concordes. Está
em jogo, aí, e agora, a satisfação erótica de ambos, em cooperação
com a satisfação erótica do outro. É jogo. O prazer do outro é meu
jogo. O meu prazer, o jogo dela. O meu prazer, é meu jogo. O dela, o jogo
dela. A consciência do jogo, e a intenção de servir
o outro e servir-se do outro, constitui a dinâmica do sexo como pragmática
política. Quando meu admirável Nietzsche resmunga contra o casamento por
amor, é contra essa dinâmica sexual que ele se insurge – saberia
disso? Porque só pode haver essa liberdade e essa fragilidade, onde há
relação entre iguais. O casamento, na história, apenas faz pouco tempo,
quase dias, em que se descobriu relação entre iguais e livres. Até
ontem, até agora há dois minutos, a mulher era – como Nietzsche
reconhece – mercadoria. Aí ela não era sequer mulher. Era uns braços,
mãos e pés, e uma vagina. Corpo e espaço vazio. Para que desse corpo e
espaço vazio emerja a mulher que ele carrega, e que ele é, é necessário
o reconhecimento político dessa mulher.
Com
o que – na hipótese de meus leitores brindarem-me com a consideração
do risco da verdade – resulta ingenuidade considerar-se que a estética
é boa, e a política, ruim. Nada é bom. Nada é ruim. Tudo por der bom.
Tudo por ser ruim. Façamos a coisa, e, então, poderemos dizer se ela é/foi
boa ou ruim. Uma estética que não subsume o outro a si e eventualmente
boa. Uma estética – a de um serial
killer, por exemplo – que subsume a si o ser de outro sujeito de si,
é fatalmente má (sob a ótica
política). Não é apenas verdade que as pragmáticas não têm
“moral” ou “ética” em si mesmas, mas dependem da atualização
política da ética atualizada
para evidenciarem-se, politicamente, boas ou más. A relação é frágil,
difícil, e não pode ser tratada senão com todos os elementos sobre a
mesa. Além disso, também não é verdade que possa haver uma “ética”
estética, ou uma “ética” heurística. Pode haver, sim, uma estética
da ética, e uma heurística da ética. Mas a “ética”, enquanto juízo
e critério, é, sempre, política.
No
que diz respeito à estética propriamente dita, penso estar em vias de
afirmar que a experiência religiosa fundamental é dessa categoria. Não
me distancio de Mircea Eliade, quando ele afirma, numa espécie de resumo
(magistral eu diria) de sua obra histórico-fenomenológica, que a experiência
do sagrado é uma estrutura da consciência, e não um estágio na história
da consciência (Origens, p.
10). Eu apenas especificaria que se trata de uma dimensão muito
particular da consciência – a pragmática estética, ou seja, a dimensão
da consciência que se projeta para fora de si, para, desde aí, retornar
sobre si, teleologicamente, para, somente, olhar-se e fruir-se de si
mesma. Não há conteúdos originais aí. Apenas estrutura e processo
potenciais. Os conteúdos, históricos, tornam-se tradicionais, e
contaminam constitutivamente as experiências posteriores, tanto desse
sujeito, quanto de seus descendentes, quanto dos povos e das civilizações
que deles descendem.
É
difícil imaginar as experiências estéticas primárias –
historicamente originais. Talvez só se possam concebê-las
concomitantemente à própria cultura, e a disponibilização de conteúdos
de ostentação hermenêutico-pragmática. Um bebê humano não pode fazer
arte. Uma criança, nos primórdios de sua iniciação cultural, já pode.
Por
isso penso que a religião seja uma experiência de sentido, cujos conteúdos
nada mais possuam que a criatividade psicológica de sujeitos de si
ecologicamente situados, e também por meio desse ecossistema, já que
toda experiência humana é facultada pela consciência situada
– mente e meio, a mente em um
meio.
Seria
melhor dizer “experiência do sagrado” como experiência estética do
que “religião” – e com isso corrijo a afirmação anterior,
mantendo-a, contudo, para, por meio dela, afunilar o olhar do leitor até
a presente distinção. A experiência “religiosa” original foi uma
experiência do sagrado, tornada religiosa, pela e na cultura, quando
socializada e desenvolvida. Toda experiência religiosa é uma experiência
do sagrado, mas nem toda experiência do sagrado é uma experiência
religiosa. A experiência do sagrado, como estrutura funcional da consciência,
entende-se pelo fato de que o sujeito de si, como sistema complexo
adaptativo aberto, é centro de seu mundo. O encontro estético do sujeito
de si consigo mesmo (mediado pelo ato recursivo da consciência de sair de
si, e retornar até si, ricocheteando no mundo sensível, ou por meio da
abstração noológica cultural, sublimação do meio como a quintessência
do próprio meio, e, assim, carregando-se da mediação externa [não há
encontro do sujeito de si consigo mesmo senão por meio da projeção estética
de si no “mundo”]), repito, o encontro estético do sujeito de si
consigo mesmo como centro do mundo é o protótipo da hipóstase do
Sagrado como centro do mundo. Marx não estava de todo certo (ainda que,
em certo sentido, sim) em criticar Feuerbach por seu “idealismo”. A
projeção não é um defeito da consciência, forçado por subcondições
humanas, político-economicamente deploráveis, alienantes. Sim, religião
pode converter-se em ópio (mas também em espada!), mas a projeção do
sujeito de si responde à estrutura estética da consciência humana. O
“idealismo” de Feuerbach tem um fundamento – sabia-o ele? – biológico.
Por
outro lado, Marx está certo ao afirmar que a religião, assumindo como verdade
um mito – a projeção é estrutural, mas o conteúdo, é cultural, é
mito –, serve a políticas de controle e manipulação, e isso
independentemente de uma intenção opressiva. A religião, quando
converte-se em nível de
realidade, aliena. Mesmo uma teologia que se reconhece moderna, ainda
funciona no diapasão perfeito desse acerto da crítica de Marx – é
alienação: desconhece que é mito o mito que é.
Centro
de seu mundo, sistema aberto num ecossistema recursivo, o sujeito de si
vive do sistema, que vive dele, vive no sistema, que vive nele, a experiência
estética encontra o sujeito de si como sentido desse mundo – e goza-se
como sentido desse mundo. Por isso o belo põe-se como centro do mundo,
numa fulguração epifânica – porque, num momento, o belo é a projeção
da consciência de si para fora se si, aí ricocheteando para voltar-se
sobre si mesma. O sujeito de si torna-se o objeto estético, o objeto estético
torna-se o sujeito de si, para superar, por um milésimo de segundo, a
solidão inescapável da consciência humana. O
Feitiço de Áquila.
Finalmente,
uma observação sobre “objetos de arte”. Sobre “ate”, de modo
geral. Não é incomum que eu receba confrontações quanto ao fato de
aplicar analise do discurso a poesias da Bíblia Hebraica, a fim de lhes
denunciar a má intenção política. A crítica que recebo é: mas
professor, isso é poesia. E eu respondo. Sim, como o Hino Nacional
Brasileiro e La Marseillaise.
Poesia
é estética enquanto estado de alma. Mas é política, quando instrumento
de ideologia. Um Hino Nacional é antes política do que estética, é
antes ideologia, do que arte. Diria: uso político da estética, uso ideológico
da arte. Com o que nada mais faço do que concordar com o que Nietzsche já
disse sobre o fundamento mítico do Estado.
O
objeto de arte é objeto estético quando
assumido por uma experiência estética humana. O objeto em si não é estético.
Nada há nele, que seja estético. É a experiência humana, a
intencionalidade humana, a pragmática humana, que o torna estético, e o
recebe como tal – a dizer: como “tela” para a projeção do sujeito
de si em encontro intermediado consigo mesmo. A consciência intermedia o
encontro do sujeito de si com sua projeção. Intermedia por meio do
objeto estético – que se torna estético apenas nessa e por meio dessa
experiência hermenêutico-pragmática.
O
objeto de arte é objeto político, quando assumido numa pragmática política.
Como os murais do palácio de Senaqueribe – belíssimos. Como o Templo
de Ramsés II e seus colossos de pedra esculpida. Como a Estátua da
Liberdade. Como a Capela Sistina. Aí, os fieis,
os súditos, os cidadãos podem experimentais excitações estéticas, desde
que, todas, muito conformes a mensagem
muito clara que tais “obras” anunciam. Sim, é verdade: se o contexto
político se dissolve, a “obra” política pode converter-se em
“arte”. Ramsés II não possui mais súditos entre nós, e os colossos
fornecem excelentes fotografias para cidadãos do mundo em férias.
O
objeto de arte pode tornar-se objeto heurístico, quando assumido em pragmática
heurística. Um modo de o dizer bastante comovente é o caso de El Greco e
Ticiano. El Greco “converteu-se” ao catolicismo para poder pintar em
perspectiva. Foi estudar pintura com Ticiano, grande mestre renascentista.
El Greco, um dia, quis saber quando estaria pronto. E a resposta e o que
nos interessa aqui: quando observar um erro meu, El Greco, e quando achar
que poderia ter feito melhor. Ah, sim, enfim chegou o dia de El Greco
deixar o atelier de seu mestre.
Porque também fazer arte se aprende.
Notas
1.
" J - No final do século XVIII, durante a Revolução Francesa, a
razão foi aclamada como deusa. P
- Sem duvida" (Martin HEIDEGGER, De uma conversa sobre a linguagem
entre um japonês e um pensador, em Martin HEIDEGGER, A Caminho da
Linguagem. Petrópolis: Vozes, Bragança Paulista: Editora
Universitária São Francisco, 2003. p. 84.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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