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Série
Pragmática
–
II: Pragmática Heurística
Osvaldo
Luiz Ribeiro
11/08/2007
Pode-se
descrever a Pragmática Heurística como desdobramento noológico de
procedimentos biológicos da espécie humana, comuns, inclusive, às espécies
vivas de modo geral. Naturalmente, não há mais relação necessariamente
direta entre aqueles procedimento especificamente biológicos e as práticas
heurístico-pragmáticas humanas, ainda que algumas das ações heurístico-pragmáticas
humanas atendam-lhes, ainda.
As
espécies vivas, de modo geral, “decidiram-se” entre a mobilidade
heterotrófica, e a imobilidade autotrófica. Isso significa dizer que há
seres-vivos, as plantas, por exemplo, que “decidiram-se” pela síntese
de seus próprios alimentos, através da coleta de elementos do mundo
externo. Assim, fixaram-se (raízes), produziram coletores – folhas raízes
– e passaram a ter uma dependência severa do meio ambiente onde se
fixam. Sua melhor performance na produção de energia é compensada,
negativamente, pela sua menor adaptabilidade. Assim, determinados
terrenos, determinadas regiões, mesmo subaquáticas, vêem desenvolver-se
nelas espécies especialmente adaptadas – e não outras. E, quando, por
qualquer razão, esse território sofre graves transformações em seu
substrato químico-orgânico, instala-se uma crise ecológica, às vezes
insuperável.
Por
outro lado, outro ramo dos seres-vivos, os animais, por exemplo,
“decidiram-se” por uma menos eficiente modalidade de obtenção de
energia. Em lugar de tornarem-se sintetizadores eles mesmos de sua própria
fonte de energia, “optaram” por coleta-la in
natura do meio ambiente, através da coleta e da caça. Herbívoros,
simplesmente coletam materiais vegetais, que, processados, convertem-se na
energia necessária. Uma vez que tais fontes alimentares são limitadas, a
capacidade de locomoção proporciona a mobilidade necessária ao animal
coletor de deslocar-se de uma região esgotada, para outra, abundante em
material energético.
Alternativamente,
os animais tornaram-se carnívoros. Há registro em fóssil mole, de
quinhentos milhões de anos, no sítio de Busgess Shale, de animais já
canibais – logo, carnívoros. A especialização das espécies carnívoras
deve ser ainda mais fina, porque sua presa – a fonte de sua energia
vital – e igualmente móvel, logo, mais difícil de “recolher”.
Assim a imagem “bovina” de uma vaca, arrancando capim do chão, tranqüila,
tranqüila, ou mesmo de um gnu, fazendo o mesmo em plena arena de guerra
dos felinos africanos, destoa plasticamente das estratégias dos
predadores. É compreensível, porque a gramínea, ao ver a bocarra
escancarada da vaca, sequer balbuciará um “ai, meu Deus”, ao passo
que uma Thompson vai fazer de tudo para escapar da garra do guepardo.
Vê-se,
com isso, que a relação entre caça e caçador torna-se complexa, porque
o animal e, ao mesmo tempo, caça e caçador. Não lhe basta apenas
“saber” onde há água e comida. Deve, igualmente, “saber” onde
está o perigo. Não é necessário apenas “saber” como coletar água
e alimento do meio externo. É necessário, igualmente, “saber” como não
se transformar em comida de outro caçador que, no mesmo momento, deve
resolver esses mesmos problemas que o afetam.
Caso
o animal não disponha de, primeiro, equipamento biológico para a sua
tarefa de identificar e coletar água, ar e alimento, e, segundo,
equipamento “cultural” – aprendizado –, morrerá. Sua vida
depende, absolutamente, de sua eficiência biológica e tática. Isso
implica em que o animal deve adaptar-se perfeitamente ao “mundo”. Ele
deve “saber” que água é água. O que ele identifica como água, é a
água de que seu organismo precisa. Caso contrário, se ele identificar
como água, digamos, a areia, o resultado será desastroso. Por conclusão,
admitir-se-á que tanto o real é real, quanto o animal deve submeter-se
às imposições do real. O leão não imagina – na linguagem – água,
e a bebe. No mundo animal, água é água.
O
mesmo vale para a comida. O animal deve “saber” identificar sua fonte
especializada de alimentação. Comem-se folhas de eucalipto, e não de
urtiga. Se o anima que come folhas de eucalipto não “sabe”
identificar folhas de eucalipto, morre de fome.
A
coruja caça roedores, por exemplo. Deve “saber” o que são. Se lançar-se
sobre uma bola de golfe, por exemplo, e acreditar profundamente que se
trate de um ratinho do campo, nem por isso deixará de ser uma bola de
golfe. A “natureza” não negocia.
Em
resumo, a dimensão biológica das espécies vivas pressupõe a incontornável
necessidade de adaptação ao “real”. Tal imposição reflete-se no
sistema sensorial – olhos, nariz, ouvidos, paladar, tato. Todos os
sentidos estão voltados à necessidade dupla e insuperável de
identificar oportunidades e perigos. Comer e fugir. Devorar e não ser
devorado. Um herbívoro que nasça portador de disfunção olfativas
dificilmente sobreviverá. Uma águia míope não tem chances de
sobreviver. Um lince surdo? Inimaginável. Na “natureza”, os sentidos
são armas de caça e se sobrevivência. Sem eles, morre-se.
Uma
vez que a simples posse das faculdades sensoriais perfeitas não se
traduz, em todas as espécies, na corresponde posse das habilidades de caça
e fuga, importa, no caso dos mamíferos, por exemplo, a transmissão das técnicas
de caça e de fuga. Mães e pais “ensinam” seus filhotes a caçarem e
a escaparem de perseguições, a identificar predadores à espreita, a
deslocar-se de uma região para outra. Não se trata, agora, apenas de ter
os equipamentos de sobrevivência, mas de, além disso, saber usá-los.
Pois
bem, é a partir dessa necessidade de perfeita adaptação a um real real
que emerge, na espécie humana, a pragmática heurística. Em sua dimensão
puramente biológica, o bicho-homem serve-se dos sentidos da mesma forma
como seus parentes biológicos – coleta, caça e produção de
alimentos, e fuga do perigo. Na espécie humana, contudo, tais habilidades
desdobram-se noologicamente na faculdade humana de “investigação”.
De caçadores – habilidades venatórias – a historiadores –
habilidades indiciárias – os homens e as mulheres “aprendem” a
adaptar-se ao real, fazendo dele, quase, uma “roupa”, que vestem.
No
campo puramente geográfico, a espécie, como um todo, aprendeu a
adaptar-se em qualquer região do planeta, desde as regiões geladas do
norte e do sul, os desertos escaldantes da África e da Ásia, as
florestas inóspitas dos trópicos e equatoriais, as montanhas, os vales,
as tundras – e, até, o mar. Não se duvida que o espaço seja a próxima
etapa, e as únicas dúvidas que persistem é quando e se o fundo do mar não
será conquistado primeiro, já que foi mais fácil pôr o homem em órbita,
e, diz-se, na Lua, do que nas Fossas Marianas.
A
atividade de caça, quando desenvolvida pela espécie humana,
desenvolveu-se para além das performances dos animais, ainda que, entre
eles, haja, inclusive, operações conjuntas de caça, como entre as
hienas e os tubarões. Mas a espécie humana desenvolveu as habilidades
venatórias para além do mundo animal. O caçador aprende a “ler” o
terreno, ao mesmo tempo em que aprende tudo quanto diz respeito aos hábitos
da caça em questão. Não se trata, absolutamente, de arte adivinhatória,
mas de “pesquisa”, já que o caçador deve perquirir o campo de caça,
interrogando as pistas, extraindo delas as informações que, analisadas
à luz do “arquivo” venatório adquirido, indica a direção que se
deve seguir para encontrar a presa.
O
arquivo venatório constitui-se das informações apreendidas em anos de
experiência, e confirmadas por anos de sucesso. O caçador “sabe”, não
porque nasceu sabendo, mas porque, por mil vezes, mil caçadores
aprenderam que aquela pista significa tal coisa, e aquela outra, aquilo
assim, assim. O passado bem sucedido de centenas e centenas de experiências
de caça constituem a plataforma operacional de “consulta”. E trata-se
de atividade tão especializada, que um “leigo” olharia para aquele
metro quadrado de chão e não veria nada além de gramíneas, pedras,
terra, gravetos, folhas, arbustos e mais que houvesse, ao passo que o caçador
“veria”, ali, o coelho que por ali passara há três minutos,
dirigindo-se para noroeste.
A
vantagem epistemológica do caçador sobre seus parceiros de pragmática
heurística é que ele pode, eventualmente, claro, “provar”
categoricamente, sua leitura. Não crê que um colho passou por aqui? Então
ele vai “lá”, segue o rastro, segue o rumo, e encontra a caça.
Captura-a. Pega-a pelas orelhas, e a traz. Ponto final. E ele faz isso uma
vez, duas, três, dez. Alguma vez ele falha, porque um dia é do caçador,
outro, da caça. Mas confia-se na habilidade do caçador profissional.
Porque acredita-se que ele sabe “ler” o cenário, e, confrontando-o
com seus arquivos venatórios, encontrar o que quer.
Todas
as vezes que uma pessoa faz a pergunta “o que é isso?”, e comporta-se
de modo pragmaticamente coerente em relação a ela – instaura-se a
dimensão da pragmática heurística. Trata-se da relação entre o
sujeito e o “mundo”, mundo, aí, considerando-se a “natureza”, e
tudo quando “ocorre” nela – fenômenos físicos, químicos, históricos.
Corresponde à primeira das três perguntas fundamentais de Kant: “o que
eu posso saber”.
A
caça, a medicina, a história, a arqueologia, a investigação forense, a
exegese histórico-(crítico)-social, são exemplos de pragmáticas heurísticas
– ainda que todas elas possam ser “contaminadas”, até o ponto de
sua adulteração teleológica, pela política, e, eventualmente, pela estética.
Pode-se, naturalmente, questionar a possibilidade de uma pesquisa
“isenta” e “neutra” – o que, em si mesmo, já traduz um exercício,
se honesto, de pragmática heurística –, mas, jamais, afirmar que a
história, por ser frágil a sua verificabilidade, dever assumir-se
ideologicamente como catequese política. Assim, a Guerra do Paraguai, por
exemplo, tem recebido cores de “direita”, e cores de “esquerda”,
segundo cujas leituras, os antagonistas trocam de papéis – ora o
mocinho é o Paraguai, ora, a “Tríplice Aliança”. O que não
significa, contudo, que, tendo havido uma guerra do Paraguai tal qual ela
“realmente” foi, não possa ser investigada e razoavelmente reconstruída
– nos limites das possibilidades teórico-metodológicas e epistemológicas
da história – tal qual, de fato, foi.
O
fato de que atividades tão plasticamente diferentes, como caça e
exegese, por exemplo, constituam “exemplos” – possíveis – de
pragmática heurística não significa que toda pragmática heurística
seja “igual”. A pergunta fundamental é a mesma, em todos os casos –
“o que é isso?”, mas ela tanto significa coisas diferentes, em cada
caso, como conduz a situações diversas.
A
relação do “homem” – de resto, dos seres-vivos – com a
“natureza”, é, sempre, funcionalizada. Um coelho, para um leão, é
comida. E mais nada. E, ainda assim, quando o leão precisa dela. Não é
rara a cena de leões deitados, rodeados de gazelas, zebras e gnus,
pastando, sem medo. Os herbívoros “sabem” quando leões e leoas põem-se
à caça. A consciência humana trata a natureza de forma mais refinada,
mas, ainda assim, é com sua representação cultural-antropológica,
traditivo-funcional, que ela lida.
Não
se pode, a meu juízo, converter a natureza num “si-mesmo” objetivo,
tanto quanto não se pode reduzi-la, como Vattimo a faz em seu último
artigo, constante de O Futuro da Religião, em pura linguagem. No campo físico,
pele contra pele, o real faz resistência, ora passiva, ora agressiva –
ora somos comidos, ora comemos. No campo epistemológico, esse mesmo mundo físico é representado na e pela
linguagem-cultura, no jogo
cultural. Assim, o que a consciência humana tem nas representações noológicas
que faz – necessariamente – desse real corresponde não apenas à
linguagem, mas, igualmente, ao jogo
social, à pragmática, bem como, claro, à própria natureza. A
imagem-conceito que se tem das coisas é, sempre, fruto de três elementos
indissociáveis: a própria coisas “dada” desde a natureza – em silêncio,
sem tarjas descritivas, sem cartão de visita –, o jogo
social, no qual a natureza é instrumentalizada pragmaticamente
(heuristicamente, politicamente ou esteticamente), e a linguagem, que, por
sua vez, tanto é matéria para a criação do jogo
social, quanto é constituinte dele.
Nesse
caso, não se trata de “saber” o “sentido” da natureza, mas de
desvendar-lhe as constituintes fundamentais, sempre consoante os estereótipos
funcionais-instrumentais, hermenêutico-epistemológicos, teórico-metodológicos,
pragmático-culturais. No jogo
científico, por exemplo, o corte de acesso ao “real” é o corte heurístico,
e a ciência insere-se constitutivamente na pragmática heurística.
Claro, quantas vezes a política não toma conta do parque de operações?
Inúmeras. O que não significa, contudo, que, por causa disso, ciência
seja política, conquanto possa abdicar de seu recorte pragmática, e
servir a ideologias político-econômicas.
Outro
fator importante da pragmática heurística é o fato de que os
“objetos” naturais e os “objetos” culturais recebem tratamento
diferenciado. Objetos naturais (elementos químicos, elefantes, quasares,
o corpo humano, a ameba, a água) são apreendidos heuristicamente pela
consciência heurístico-pragmática humana, sem que, nisso, tenham alguma
participação lingüística. Oferecem-se – ou são arrancados de seu
ambiente – sem que “falem” sobre si mesmos. Dão-se à fala humana,
aos conceitos funcionais-instrumentais humanos. Mas eles mesmos não os
corrigem, se não que oferecem, enquanto “real”, resistência às
teorias menos conformadas às suas evidências sensorialmente disponíveis,
ou logicamente dedutíveis. Eventualmente um pesquisador pode refutar a
conclusão de um colega, para tanto, utilizando-se do mesmo “objeto”,
como é o caso central de A Vida Maravilhosa, de Stephen Jay Gould, que contesta a interpretação
original do descobridor do sítio arqueológico de Burgess Shale. A
contestação deve-se à diferente reconfiguração histórico-arqueológica
do sítio, e isso com base em pressupostos, argumentos e análises
diferenciadas. Ao mesmo tempo em que a regra é: quem decide são os próprios
fósseis, quem deve “falar” é o Marrella
splendens ou o Vauxia gracilenta
– ainda que o pesquisador deve “fazer com que falem”. Sem torturas,
naturalmente.
Os
objetos naturais não são apreendidos na e pela pragmática heurística
segundo seu próprio “em-si”, uma vez que não há “em-si” na
natureza, senão que há o resultado de processos histórico-naturais de
bilhões de anos. O em-si constitui um conceito heurístico humano,
incontornável, mas, ainda assim, hermenêutico-epistemológico. Resulta
desse pressuposto a conclusão de que o “em-si” dos objetos da
natureza corresponde, já, ao locus noológico em que se encaixa aquele objeto, de modo que o
“em-si” corresponde ao sistema classificatório do jogo heurístico-pragmático,
conceito que compõe a imagem noológica (funcional-instrumental) desse
objeto classificado na
classificação que ele recebe. Fora dele, fora do jogo, e fora dela, fora
da classificação, não se lhe dá dever satisfações a qualquer dos
dois.
Destarte,
a heurística humana – a pragmática heurística humana, (re)cria
objetos, agora, noológicos, como representação dos “objetos
naturais”, para melhor lidar com eles, através dos conceitos que deles
gera. Tais objetos noológicos (re)criados não são meras abstrações
– idealismo –, nem meras convenções arbitrárias –
convencionalismo lingüístico-pragmatista (de “pragmatismo”, não de
“pragmática”), nem são as próprias coisas –
materialismo-positivismo. Tais objetos são imagens dinâmicas,
(re)criadas e constantemente (re)criadas desde a “natureza”, pela
consciência humana, que, para sua lucidez biológica, psicológica e
existencial, deve manter contato ininterrupto com o chão da fábrica –
o próprio “real” –, inclusive para reformular, constantemente, seu
quadro noológico-conceitual, com o qual move-se no mundo. Como defende
Edgar Morin: nem idealismo, nem materialismo. Eu acrescentaria: nem
pragmatismo lingüístico. Trata-se de uma noção de complexidade: real mais ideal, real versus
ideal, real pro ideal. Um sobre
o outro, um contra o outro, um pelo outro. Um no
outro. E, contudo, sempre, e necessariamente, os dois.
Os
objetos culturais, contudo, fazem-se – mais do que deixam-se –
apreender como “em-si” que falam por si mesmos. Não são como átomos
de carbono, que se recolhem em sistemas noológicos dinâmicos, sem,
contudo, testemunharem de si mesmo, senão com sua presença e movimento.
Um objeto de cultura dá-se na e
por meio da linguagem. O
universo cultural foi plasmado teleologicamente, e a sua fala intrínseca
diz respeito à intenção com que foram plasmados. Em que pese o fato de
que, por exemplo, um documento pode ser programaticamente interpretado de
forma a adulterar seu sentido original, a pergunta “o que é isso?”,
quando aplicada a um documento, e quando respeitadas as condições da
pragmática heurística, exige a resposta histórica inegociável – ele
é aquilo que foi feito para ser. Nesse sentido, quando, por exemplo, o
Novo Testamento serve-se, politicamente, de textos do Antigo Testamento, e
os faz dizer coisas que não diziam, quando foram escritos, ainda que a
aparência do jogo seja a pergunta pelo sentido, não se trata, aí, do
sentido histórico – logo, de heurística, mas de sentido apologético,
logo, política. Ou seja, pode-se usar textos politicamente. Mas não na
pragmática heurística. Nela, os textos falam o que deviam falar quando
foram escritos.
Os
textos oferecem maior resistência à consciência humana do que os
camundongos. Um camundongo é epistemologicamente passivo. Não
“fala”. Um texto, contudo, tem reivindicações incontornáveis.
Tem-se contornado algumas de suas reivindicações, é verdade, mas
somente ao custo da sua desintegração como “fala”. O texto é
reduzido a “coisa”, a “instrumento”, a “objeto”, mediante o
artifício de se cortar o cordão umbilical teleológico-gerativo que lhe
deu à luz. Cometem-se inumeráveis “assassinatos”, e, assim, o
“texto” torna-se um fractal, e a leitura, um caleidoscópio. Justificável,
seja em contextos pragmáticos políticos – leituras ideológicas
programaticamente dirigidas – e estéticos – experiências “literárias”
de performance artística. Legítimas, não respondem, contudo, à
pergunta “o que é isso?”, senão de duas maneiras pragmaticamente
diferentes: “como isso deve
ser entendido” (política) ou “como isso pode
ser experimentado” (estética).
Contudo,
os objetos culturais estão marcados, desde sua origem, pela própria
intencionalidade da cultura. São marcados funcionalmente,
instrumentalmente, conceitualmente. Nascem com rótulos – são os próprios
rótulos (ainda que sempre possam transformar-se em arte, perdendo os rótulos,
ou política, transformando-se em instrumentos de intervenção social
programática. Essa identidade constitutiva entre ser e função de ser
dos objetos culturais, decorrente do fato de que são invenções
funcionais-instrumentais humanas, encarna o elemento agressivo de tais
objetos, quando dão-se à consciência humana. Eles invadem-na com
cartazes designativo-funcionais, porque eles “sabem” o que são,
porque “são” aquilo para o que foram feitos e escritos.
Não
é essa a única diferença, portanto, entre ciências “moles” –
humanas – e “duras” – naturais. Para a relação entre as duas
“ciências”, indico a leitura de Karl-Otto Apel, A
Transformação da Filosofia, e, sem dúvida, a O
Método, de Edgar Morin. Aqui, contudo, particulariza-se a diferença
entre a apreensão epistemológica de objetos naturais e culturais em
contextos de pragmática heurística, já que os primeiros são
“mudos”, ao passo que os segundos, “falam”, ou seja, têm
encarnados em si conceitos e funcionalidades previamente designados para
eles na e pela cultura.
A
pesquisa “dura”, portanto, desenvolve-se de forma dinâmica entre
sujeito e objeto, apenas, não negligenciado o fato de que o sujeito
contribui para a identificação e conceituação do objeto com que ele
mesmo lida, conforme já se disse. A pesquisa “mole”, contudo, dá-se
para além da constituição física da natureza. Ela introduz-se no campo
teleológico da própria cultura, e está, desde aí, contaminado por
insuficiências de verificação, já que as garantias de perfeita
adaptabilidade a esse “real” demandariam confirmações às quais a ciência
está impedida de recorrer, qual seria a de perguntar aos respectivos
autores de suas peças, obras, textos, construções, a sua “intenção”,
da qual estão carregados, inalienavelmente, no campo histórico, tais
objetos. Na impossibilidade de o fazer, resta à heurística das Ciências
Humanas trabalhar no campo da comprovação retórica (cf. Relações
de Força, de Carlo Ginzburg).
O
fundamental, contudo, é a postura epistemológica determinante da pragmática
heurística. Saber. E saber o que é saber. E saber o que é possível
saber. E saber como saber. O que, agora, constitui “luxo” civilizatório
está, na origem, na base biológica da inexorável necessidade de adaptação
da vida ao seu nicho ecológico.
A
pragmática heurística, portanto, é jogo
social, segundo regras específicas, que podem ou não ser observadas.
O jogo são as regras do jogo, e os jogadores constituem-se teleologicamente em
jogadores. Não significa dizer que a heurística constitui “o” olho
do Universo, como se a consciência humana situasse-se fora da própria
natureza, para, desde lá de fora, olhar ara ela. Não. É desde dentro
dela, e nos limites dela, e dentro do jogo,
e segundo suas regras, que o conhecimento heurístico se desenvolve. E
funciona. Os navios chegam aos portos de destino. Os andarilhos, aos
centros de peregrinação. As cartas, aos destinos. Os e-mail, às caixas
postais. Não se trata de ilusões abstrativo-fantasmagóricas. São
conhecimentos concretos, mapeamento do “real”, e classificação noológica
segundo padrões culturais estabelecidos pela comunidade do jogo. Nesse
sentido, são consensuais – ou não são. Mas não se reduzem à
consenso. Devem satisfação ao “real”, que, em última análise, é a
constituinte incontornável da pragmática heurística.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
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autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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