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Série
Pragmática: III – Pragmática Política
Osvaldo
Luiz Ribeiro
18/08/2007
Olho
para a “página” em branco com um certo temor de estar errado, de não
estar enxergando as coisas convenientemente, de estar vendo o que não há
para ser visto, de estar cuidando construir alguma coisa, e, ao fim e ao
cabo, ter estado apenas a brincar com palavras. Perguntei-me – e ao meu medo
– que podia eu fazer. Um de mim disse-me que me calasse. Mas – retruquei –
calar é sanar a dúvida? Ou recalcá-la? O de mim calou-se. Ninguém
mais, na sala, falou nada, pois todos estávamos – e estamos – temerosos.
A
“folha” em branco, então, tossiu, para chamar nossa atenção. E aqui
estamos.
No
fundo, o temor é compreensível. Mas não pode ser superado. Não há um
ponto de vista, um promontório, ao qual eu pudesse me dirigir, para, de lá,
olhar a Série Pragmática, e, desde lá, então, daquela posição crítica
definitiva, “descobrir” que estivera certo o tempo todo. Não há esse
mirante. Nem para mim, nem para qualquer outra pessoa. O que resta a nós,
que ousamos escrever, é que sejamos lidos. Lidos, poderemos ser
criticados, e, criticados, poderemos enfrentar heuristicamente as
confrontações, as refutações, as confirmações. Não, não se chegará
ao absoluto da certeza – mas se há de ter refinado, assim, a perspicácia
do discurso recém-construído, a funcionalidade do instrumento montado.
Sim, instrumento, porque nossos discursos não são exatamente descrições
do real, mas instrumentos para uma descrição do real, humanamente
circunstanciada, historicamente determinada. Dou a mão a Schopenhauer. Há
verdade – eis a minha
fé: mas ela é, para sempre, humana. Basta-me essa.
(...)
Continuo,
pois, a trilha insegura. No primeiro
ensaio, falei das três pragmáticas:
a política, a estética e a heurística, definindo-as genericamente. No
segundo, aprofundei o conceito de pragmática heurística. Comecei por
ela, porque, a meu ver, a pragmática heurística é aquela mais
biologicamente assentada. Não consiste numa invenção humana, ainda que
a espécie sapiens tenha desenvolvido-a, e que, presentemente, chegue a esboçar
a aparência de marca características do Homo.
Não, não é. A mais simples ameba constitui-se a partir de uma
plataforma heurística – inconsciente, é claro, determinada biológico-geneticamente,
mas, nem por isso – absolutamente – dissociada do “mapeamento”
perceptivo-sensorial do ecossistema – do “real”. A diferença entre
a plataforma heurística do Homo
sapiens sapiens e da Entamoeba
histolytica é a consciência, que desdobra-se na emergência de um
“novo mundo” – a noosfera – onde, vivas, a seu modo,
multiplicam-se as “idéias”. Uma ameba “sabe” sensorialmente – e
vive bem assim. Um Homo
“sabe” sensorial-noologicamente – e vive bem assim.
A
discussão quanto à “validade” do conhecimento – discussão
enfrentada, por exemplo, por Karl-Otto Apel em A
Transformação da Filosofia, seria muito mais satisfatoriamente
fundamentada, e melhor encaminhada, se fosse discutida a partir da emergência
físico-biológica do conhecimento como equipamento de sobrevivência da
“vida”. Edgar Morin tem assumido a empreitada – de longe, as
abordagens mais lúcidas que já li, até hoje, a respeito do
“conhecimento do conhecimento”. Para Edgar Morin, o pensamento
constitui uma emergência biológica, e carrega consigo as marcas dessa
emergência biológico-evolutiva da espécie humana.
Por
meio dessa estratégia de raciocínio, que, como todas as demais, é uma
espécie de pesquisa às apalpadelas, como quem vai tateando no escuro, o
“pragmatismo” filosófico de Rorty, e a “hermenêutica”
fatalista-relativista-metafórica – ela é quase uma deusa, falando, a
Hermenêutica – de Vattimo surgem como reduções idealistas da vida
humana, na esteira de Platão e Descartes, como se possível fora, a nós Homo
sapiens, depararmo-nos com “linguagens”, passeando sob o sol. Bom
dia, Dona Linguagem. Está de regime?
Não
me parece um caminho lúcido. Beira, a meu ver, o recalque freudiano –
enfiar o “real” num buraco, e dormir com Narciso. Quanto a mim, sinto
até a última gota o gosto amargo da vida, que pesa sobre a cabeça, os
ombros, as pernas fraquejam, o real é pesado. É preciso aprender a lidar
com ele, aceitando a sua força, aproveitando-nos de sua fraqueza. No
fundo, como as amebas.
Nesse
terceiro ensaio, gostaria de aprofundar minhas reflexões a respeito da
pragmática política. Penso que ela seja, como a pragmática heurística,
tributária de fenômenos próprios da biosfera. Em certo sentido, desde
as primeiras associações de bactérias, nos primórdios da vida na
Terra, desenhavam-se os esboços da pragmática política, que consistira,
em última análise, na relação entre “sujeitos”. Bactérias são
sujeitos – centros de mundo, na definição de Edgar Morin –, ainda
que não sujeitos conscientes. Na condição de sujeitos, desenvolveram
estratégias de associação, com as quais lograram aperfeiçoar os
mecanismos de sobrevivência – inclusive, aqueles relacionados à
adaptabilidade sensorial ao “real”. Leituras instigantes nessa área são
os livros – quaisquer deles, de Stephen Jay Gould.
Não
é sem importância notar, contudo, que esse primeiro nível de associação
político-pragmática redundou na emergência de seres-sistemas, eles
mesmos o resultado de uma associação inter-sistêmica de estruturas
vivas menos complexas – uma formiga, por exemplo. Uma jornada de alguns
bilhões de anos, e as primeiras bactérias organizam-se em sistemas
associativos, dos quais, ao término desse período, emergem
seres-sistemas, na forma de animais, plantas, fungos – a vida, como hoje
se conhece. Nesse nível, contudo, os seres-sistemas “percebem” a
possibilidade de uma melhoria de performance nas condições de sobrevivência,
quando e se organizam-se, mais uma vez, de forma associativa. Assim
insetos – tão antigos sobre a Terra – “descobrem” a possibilidade
de constituírem colônias de centenas, milhares, milhões de indivíduos,
e tornam-se as primeiras “civilizações”, por assim dizer.
Outras
classes de animais “descobrem” a vantagem associativa. Os mamíferos,
particularmente, “aprendem” – alguns dentre eles – a
organizarem-se em grupos, bandos, manadas, alcatéias, colônias, perenes
ou temporárias. Desenvolvem-se estratégias político-pragmáticas
diferenciadas para cada tipo de associação. Estabelecem-se hierarquias,
papéis, privilégios, deveres, direitos.
Não
se pode, contudo, afirmar, ainda – e a rigor – que se trate
apropriadamente do que aqui se chama de “pragmática política”. Falta
a elas, para poderem ser tratadas perfeitamente como pragmática política,
a intenção consciente – a consciência humana. No reino animal,
vegetal, entre os fungos, tais associações são fruto de milhões de
anos de evolução bio-ecológica, em que a genética se encarrega de
garantir a perpetuidade das adaptações/associações.
O
Homo, contudo, emerge com e
desde uma estrutura psicobiológica que lhe faculta a consciência. É a
consciência humana quem determina as procedências comportamentais das câmaras
pragmáticas. Já esboçados de forma geneticamente teleológicas, os
comportamentos puramente biológicos das espécies – todas –
anteriores ao Homo carecem, contudo, comparativamente, da condição
auto-reflexiva, recursiva, da vida sobre si mesma, e do sujeito sobre si,
na forma de espelho recursivo. O Homo
vê-se e sabe-se como sujeito – e é esse saber de si como sujeito que
determina a abertura dos portais hiperônimos da pragmática humana.
O
conceito de hiperonomia e hiponomia é importante para a aproximação
heurística ao conceito de pragmática. A vida biológico-psicológica do Homo sapiens sapiens – para recortar a espécie humana moderna
constitui, obviamente, a câmara-mor. Tudo quanto esse Homo vier a fazer, ele o faz, em última análise, por conta de
constituir-se como “vida”. Fazer,
aí, significa agir em direção a – biológico-geneticamente, no caso
da vida, de modo geral, teleológico-conscientemente, no caso da espécie sapiens, consciente. Esse fazer
é própria da vida, uma vez que os minerais não fazem. Sofrem as forças construtivas-destrutivas da ecosfera,
chegam a constituir elementos de transformação da própria ecosfera, mas
nada que constitua uma “ação” dos próprio minerais. Um fragmento de
carbono não se transforma em
diamante, por um determinismo constitutivo de si mesmo, mas somente por
meio de forças que atuam sobre ele. Mesmo tais forças não atuam
“sobre ele”. Ele é que, eventualmente, esteve submetido à ação
daquelas forças. Nada, aí, é movimento auto-constitutivo – tão
somente movimento conseqüente de leis históricas do Universo,
estabelecidas – essas, e não outras – por conta das relações
estabelecidas aleatoriamente entre os primeiros elementos químicos.
Sim,
é verdade que já aí esboça-se o elementos “relacional” característico
da história do Universo. Mas é preciso diferenciar: a matéria bruta
relaciona-se mutuamente, gerando forças poderosíssimas, por conta de
leis relacionais da matéria, que a Física estuda, mas a matéria não
“faz”. A vida, emergindo desde a matéria, arregimenta a faculdade do
movimento e da transformação, e o faz, nesse nível, de forma genético-biologicamente
determinativa. É com a espécie Homo
que o movimento e a transformação – a ação direcionada – torna-se
intencionalmente consciente. Pragmática.
A
Vida, pois, constitui a câmara-mor das ações humanas, que, contudo,
avançaram para a consciência da ação. Nesse caso, a ação
conscientemente dirigida precisa, antes de desdobrar-se em ato material,
especificar-se teleologicamente. É nesse ponto que a Vida, enquanto câmara-mor
da pragmática, desdobra-se em três câmaras hipônimas em relação a
ela, e em relação às quais ela – a Vida – é hiperônima. Essas três
câmaras são as câmaras pragmáticas humanas – política, estética e
heurística. Todo movimento humano é vivo – mas nem todo é estético.
A pragmática estética constitui uma atualização hipônimas da – está
contida na – Vida.
Pode-se
dizer – com a ressalva do “lugar comum” – que o Homo sapiens sapiens é o que é porque está vivo. E o que enquanto
está vivo. A vida é-lhe um estado, intrínseco à sua definição de
ser-no-mundo. Antes de tudo, o Homo
é um ser vivo, carregado das sobredeterminações dessa condição biológica.
Mas é vida consciente, e a vida abre-se para ele, materializando-se em três
faculdades incontornáveis – e exclusivas: política, estética, heurística.
Uma
ação humana, qualquer uma, é aquilo que a intenção pragmática faz
dela. Cada vez que a mão humana se estende, ela avança por meio de uma
das três câmaras – trata-se ou de um gesto político, ou de um gesto
estético, ou de um gesto heurístico – necessariamente.
Assim
como cada câmara constitui-se uma materialização hipônimo-teleológica
da intenção biológica consciente humana, cada câmara constitui-se de
uma interminável série de ações pragmáticas. Naturalmente, porque, se
tudo quanto o homem faça – tudo – constitui materialização de intenções
pragmáticas, resulta dizer que cada gesto humano, por menor que seja
(para além do fisiológico-biológico, e, ainda assim, desde que o a
operação fisiológico-biológica não tenha, já, como é normal, sido
capturada por mitos resignificantes, como o “coito”, por exemplo)
representa a atualização de uma intenção que pode ser política, estética
ou heurística. Assim. Consoante à intenção com que o gesto foi
operado, pode-se classificá-lo como conseqüentemente – e
respectivamente – político, estético, ou heurístico.
As
associações humanas são, portanto, hipônimas em relação à pragmática
política: Vida - pragmática política - associações
humanas histórico-sociais. As primeiras associações familiares e
tribais da espécie humana e a complexa sociedade planetária que se
forma, diante dos nossos olhos, constituem momentos materiais da pragmática
política humana. Mas apenas exemplos dentre um conjunto interminável de
“momentos”.
Cada
vez que um Homo sapiens
dirige-se a um outro sapiens
como sujeito, a câmara pragmática política se abre, e tudo quanto
eventualmente aconteça, a partir desse gesto fundante – teleológico,
intencional, consciente – constitui hipônimos materiais, gestos,
pensamentos, ações, atitudes, daquela intenção político-pragmática.
O
Estado Democrático de Direito é uma forma refinada – e frágil – de
pragmática política humana. Uma invenção humana, fruto de séculos de
“testes”. Tanto o Estado Democrático de Direito quanto o Estado
Absolutista – monarquias, hierocracias (sempre disfarçadas de
teocracias), “ditaduras” modernas – constituem “modelos”
materiais de atualizações da pragmática política humana.
Mas
não apenas tais grandes estruturas civilizatórias. Mesmo as menores
dentre todas. A monogamia e a poligamia, por exemplo, constituem modelos
de atualização material da pragmática política. Legítimas, em termos
de história da civilização, ainda que, do ponto de vista puramente ético-subjetivista,
apresentem diferenças filosóficas consideráveis. Eu arriscaria dizer
que o modelo monogâmico pressupõe a igualdade inalienável dos gêneros
– mais do que dos sexos –, ao passo que os modelos históricos de
poligamia estejam fatalmente marcados por alguma diferenciação noológica
entre eles. Não há verdadeira correspondência noológica entre a
subjetividade masculina e feminina nos modelos poligâmicos, o que é mais
perceptível naqueles modelos de poligamia em que a mulher constitui
(quase?) “propriedade” do homem, mas não de todo ausentes nos casos
dos modelos mais “éticos” de poligamia, que se auto-legitimam e
justificam pelo argumento da necessidade de cuidado da mulher. Ora, a
necessidade desse cuidado já não resulta de uma diferenciação noológico-cultural
desse gênero, naquela sociedade particular, em relação ao gênero
masculino?
Chegaram-me
aos ouvidos informações a respeito das conseqüências sócio-econômicas
da pregação missionária da monogamia, na África. Disseram-me que a
progressiva adaptação da cultura de algumas sociedades daquele
continente ao sistema monogâmico cristão teria levado ao recrudescimento
da prostituição, uma vez que, alijadas da “rede de proteção
social” – em que, segundo o argumento – constituía-se a relação
poligâmica, as mulheres passaram a buscar meios de sobrevivência através
da prática da prostituição.
Não
contesto o argumento. A história faz sentido, e posso dizer que, se é
verídica, não tem nada de surpreendente. Não se pode, contudo, concluir
que, nessas culturas, a poligamia é melhor do que a monogamia.
Tratar-se-ia, a meu ver, do fato de que essa cultura é sócio-economicamente
“machista”. Nela, a mulher não constitui papel de sujeito concreto.
Se os homens passam a não poder “ter” duas, três mulheres, passam a
ter apenas uma. As demais, sem a rede de proteção, segundo o argumento,
terminam por acharem uma possibilidade de sobrevivência, atendendo aos
homens que, agora com apenas uma mulher em casa, ainda querem os benefícios
sexuais de outras fêmeas. Assim, a monogamia impõe-se, culturalmente, e
a prostituição encontra caminho para instituir-se como veículo de
satisfação do ego sexual masculino, bem como das necessidades de
sobrevivência das mulheres.
No
Ocidente cristão a situação é diferente? Não o diria. A prostituição
– aqui entendida como comércio do corpo como meio de sobrevivência –
resulta de uma injustiça ético-político-econômica da sociedade com um
todo. Do ponto de vista ético, e uma ferida, uma chaga aberta na face da
sociedade ocidental.
Retornemos,
contudo, ao tema das relações conjugais. Elas exemplificam de forma
bastante importante a noção de pragmática política. Não se perca de
vista que a pragmática – em sentido geral – consiste em tomada de
decisão consciente. Se for acrescentada a tal noção, a idéia de que a
tomada de decisão consciente implica numa cosmovisão, numa antropovisão,
numa autocompreensão, elementos mítico-epistemológicos que se desdobram
em “cultura”, chegar-se-á à conclusão possível de que os elementos
distintivos das pragmáticas sofrem interferência da cultura.
A
noção de sujeito, por exemplo. Caso a cultura trate a mulher como
“mercadoria”, em sentido político-econômico, propriedade masculina,
faltará a noção de “mulher”, reduzida à figura de fêmea e mãe, a
condição de sujeito social. Não resta dúvida, a meu ver, de que tais
noções noológicas que precisam ser conquistadas e garantidas, porque não
são “naturais”. As fêmeas, no reino animal, algumas vezes, não têm
o status que têm os machos (o
inverso também é verdadeiro). Não se há de pensar que se trate de um
absurdo. Não há ética ou moral na “Natureza”. Lá, não há certo e
errado. Aquilo é o império da força – e nada mais. Entre os
exemplares da espécie Homo sapiens,
contudo, a emergência da consciência – e, com ela, da possibilidade
noológica da ética e da moral, das noções possíveis de dignidade e
valor – possibilita a constituição social de uma relação igualitária
entre sujeitos humanos, cujo fundamento, é verdade, não é biológico
– nem pode ser – mas humano, demasiado humano, antropológico, como
apenas pode ser. Logo, é a própria sociedade quem deve articular-se,
cada vez mais complexamente, até o estabelecimento, tornado
“cultural”, dos valores de igualdade, fraternidade, justiça.
É
aí que surge a possibilidade de homens e mulheres olharem-se como iguais.
E é aí que a relação conjugal emerge como a experiência política por
excelência – encontro inter-subjetivo de dois sujeitos ético-morais,
histórico-sociais, mítico-políticos. Nesse caso, mesmo o sexo,
conquanto funde raízes até as regiões “reptilianas” do velho cérebro
biológico, malgrado constituir uma experiência estética profunda, passa
a ser “ensaiado”, “encenado”, “vivenciado”,
“experimentado” como experiência política profunda. Primeiro, política,
e, então, estética. É na condição de não redução do/da parceiro(a)
à condição de “objeto” que a pragmática política pode conceder ao
sexo a plataforma lúdica da experiência política mais profunda do Homo sapiens.
Uma
série de elementos denunciam a pragmática política. O mais geral é o
fato de que envolve mais de um sujeito. Não há possibilidade de experiências
políticas na solidão – salvo o fato de que a solidão assumida e
desejada possa ser fruto de uma experiência política prévia, da qual
resulte o desejo de afastamento das outras pessoas. Ressalvada a solidão
politicamente assumida, a pragmática política desdobra-se na e através
da relação de sujeitos humanos.
Naturalmente
que ela jamais se encontrará “pura” – uma pragmática política
exclusivamente política. Todas as ações humanas estão carregadas por e
de aspectos de nunca menos do que duas das câmaras pragmáticas, não
necessariamente, contudo, das três. Um ação política pode desdobrar-se
em uso político da estética, por exemplo, ou em uso político da heurística.
Hiroshima, por exemplo, ilustra perfeitamente bem – como ícone e ídolo
– o uso político (a guerra) da heurística (o controle heurístico das
forças nucleares atômicas). Conta-se – e é muito provável – que os
agentes militares envolvidos na viagem do Enola Gay teriam “orado”,
buscando em “Deus” a orientação – e talvez a paz – necessárias
à missão que, sabiam, lhes cabia. Não sabemos o que “Deus”
eventualmente lhes tenha respondido, mas devo admitir que tenha sido
alguma coisa parecida com um “sinal verde”, já que a Fat Boy
mergulhou, rasgando o azul, desde o ventre do B-29. Trata-se, essa conjunção
de “oração” e “bomba”, um exemplo de uso político da estética.
As
ações humanas, pois, podem estar marcadas por mais de uma pragmática
– mas, não se perca de vista – elas são o que a pragmática
determinante faz delas. O Homo
sapiens sempre tem em mente fazer uma coisa. Essa uma coisa que ele
tem a fazer, essa é a pragmática fundante. Para o fazer, poderá fazer n
outras coisas, subordinadas, todas, àquela. É a necessidade de estratégia
da ação que exige uma série de encadeamentos pragmáticos, coisas que são
feitas com vistas a uma coisa maior que se está em vias de se fazer,
necessárias para que ela seja feita. Essas práticas menores, mas necessárias,
articulam-se, pragmaticamente, à pragmática determinante.
Assim,
os mesmos gestos, em pessoas diferentes, podem constituir atualizações
de pragmáticas distintas. A leitura da Bíblia, por exemplo. Ela pode
constituir-se em atualização de pragmática estética, caso o
“crente” esteja experimentando um momento de devoção pessoal. Em última
análise, essa devoção pessoal circunscreve-se a um sistema político-mitológico,
religioso, ao qual o “crente” está submetido ideológica e
culturalmente. Não vem ao caso. Heuristicamente, é importante saber
disso, para a compreensão mais adequada do contexto dessa devoção em
particular. Mas, do ponto de vista da devoção em si, esse contexto é, nada mais, nada menos, do que
cosmovisão, plataforma mítico-política em que opera a consciência do
sujeito religioso – esse aí. Ora, toda ação humana constitui-se a
partir de uma plataforma operacional, noológica, equivalente. Logo, não
é o fato de ser essa uma plataforma mítico-religiosa que determina a
pragmática como religiosa. Absolutamente. A devoção religiosa consiste
na experiência extática, mais ou menos profunda e radical, mais ou menos
extática, mais ou menos racionalizante. O sujeito experimenta sua “fé”
noológico-dialogalmente, projetando-se, in
totto, subjetivamente, no “mito” e no “rito”. Ele experimenta,
ele fruiu, ele haure, ele goza. Pode-se diferenciar apenas
circunstancialmente uma experiência estético-religiosa desenvolvida em
sociedades religiosas complexas – cristianismo – daquela desenvolvida
numa sociedade religiosa mais relativamente arcaica e simples – as
religiões animistas. Mas, em si,
não há diferença. Trata-se da experiência estética fundamental da
pragmática humana. Heuristicamente, Feuerbach afirmou que se trata, aí,
de projeções do eu na forma de hipóstases fantásticas. Sim, eu
acredito que seja exatamente isso. Mas não apenas isso. Porque a experiência
estética é anterior a toda elucidação heurística, bem como posterior
a ela. Será diferente, num ou noutro caso, mas não é suprimida.
Encontrará outros caminhos. Nem que os construa.
Na
mesma sala, outra pessoa lê a também a Bíblia, mas tem intenções heurísticas.
Quer “entender” o que determinado autor quis dizer quando escreveu
determinado texto. Aqui está-se diante de um refinamento pragmática dos
mesmos mecanismos biológicos que precisam saber identificar o fogo da água,
e a caça do predador. O refinamento humano é noológico, mas seus
fundamentos enraízam-se não apenas na “vida orgânica”, mas na própria
matéria.
Finalmente,
outra pessoa lê a Bíblia atrás de respostas com as quais possa
responder ao vizinho, kardecista, quanto à questão polêmica da
reencarnação. Aparentemente, pretende-se “estudar” a Bíblia, nesse
momento. Mas isso não é verdade. O estudo pressupõe a plataforma pragmática
heurística, conquanto o termo possa ser usado para contextos de
catequese, que, evidentemente, nada têm de heurísticos, e, sim, de políticos.
Quando – e se – a intenção desse leitor é recolher fórmulas – a
saber, conforme lidas por sua tradição –, expressões – sempre nos
termos da sua “fé” –, proposições – nunca divergentes das de
sua própria instituição-denominação –, isto é, quando tal leitura
reduz-se à colheita acintosa de textos-prova, tal intenção instala essa
leitura na câmara da pragmática política. O objetivo dessa leitura não
é “descobrir” – heurística –, mas de “calar” o outro,
impondo como “correta”, desde sempre, e independentemente dos
argumentos do outro – a própria “verdade”. Como considero uma tal
prática lamentável, igualmente considero lamentável que o mercado
editorial evangélico e cristão brasileiro esteja carregado de
“obras” políticas. Poucas, raras, mesmo, são adequadamente heurísticas.
O mais que se tem querido é defender posições, atacar posições, em
lugar de se questionar as próprias posições, eventualmente – e, dada
a história da interpretação da Bíblia, que conhecemos, fatalmente –
equivocadas.
A
pragmática política, retornando a ela, é fundamental para a espécie
humana. É verdade que uma pessoa pode decidir viver só. Não vejo nisso
qualquer problema de ordem “psicológica”. A pragmática política, eu
disse, tem suas raízes no mundo biológico. Não é, constitutivamente,
uma emergência humana. Abelhas, formigas, térmites e cupins são
insetos, e vivem em regime de associação. Mas besouros e borboletas são,
igualmente, insetos, e vivem sós. Eventualmente, copulam, e voltam a
voar, livres, por aí. Penso ser perfeitamente possível que consciências
humanas menos socialmente susceptíveis desenvolvam o desejo de viver só,
sem que isso constitua “patologia”, no sentido técnico do termo. No
geral, contudo, a espécie humana “gosta e “precisa” da associação
político-social. Parece que desde as eras mais remotas.
Da
forma como vejo, todos os sistemas noológicos inter-subjetivos – ética,
moral, “política” (em sentido estrito) – constituam
desenvolvimentos culturais, histórico-sociais, ensaiados durante os milênios
de peregrinação da espécie da face do planeta. Não vejo, como afirmei,
uma ética biológica, uma vez que, no nível biológico, a regra é comer
e não ser comido, e se você tem a oportunidade de devorar um gnu jovem,
doente, ou fraco, melhor, do que tentar competir com um gnu mais adulto,
logo, mais forte. Não há misericórdia na Natureza. Mesmo a misericórdia
é uma “invenção” – bendita invenção – humana, ensaiada,
certamente, nas noite dos tempos, sob as estrelas, em torno do fogo, na
experiência do medo.
Ao
contrário do que afirmamos, o homem não terá o que aprender – nesse
aspecto – com a Natureza. Misericórdia? Justiça? Ética? Moral?
Fraternidade? Na Natureza? Não. Isso é mito. Nesse sentido, poderíamos
tranqüilamente – (?) – copiar a Natureza. De certa forma, o Nazismo
representa uma posição conscientemente teleológica em face da “força”
e da “violência” da Natureza. Não é à toa que a figuras do
Super-Homem, de Nietzsche – a meu ver cínica e equivocadamente
interpretado – serviram de inspiração ao modelo. A Natureza, é
verdade, “limpa” as espécies, mantendo vivos apenas os mais fortes e
saudáveis. Claro – não há uma moral natural, lá, determinando o
processo. Apenas esquemas evolutivos naturais, a-éticos, a-morais. Além
disso, não se trata de mitologias de pureza étnica, naquele caso, mas de
“lei do menor esforço”. No caso da espécie humana, contudo, a consciência
ética, que criamos, pode – sim, pode – converter-se recursivamente em
elemento de sociabilidade e civilidade. Uma opção civilizatória –
consciente, histórica, democrática – pela ética inter-subjetiva é o
fenômeno político mais aguardado pelo Homo
sapiens – nesse caso, o Homo
politicus. E deve ser tanto aguardado, porque não pode ser fabricado
unilateralmente, quando engendrado, porque não emergirá por si só. E,
no dia em que vier a emergir – caso seja uma tal coisa possível, em
termos históricos, caso não se trate de uma utopia, logo, atópica –,
nada, absolutamente garantirá que permanecerá. A civilização planetária
não é a emergência de um sujeito – mas de um sistema. Depende da
decisão livre de cada um de seus componentes conscientes – os homens e
mulheres concretos. Assim, pode demorar milênios a emergir, e durar dois
dias.
Daí,
a necessidade de sistemas educativos crítico-formativos. Daí a
necessidade de a civilização erguer-se sempre no risco de sua desintegração,
levando-o a sério, sem encapsulamentos político-teológicos. Os deuses não
construirão essa sociedade. Deus não a construirá – teve dois mil
anos para o fazer. Nós, e apenas nós, devemos – se queremos –
construí-la. Eu considero muito importante o livro de Edgar Morin – Os
Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro – nesse sentido.
É um projeto de caminhada crítico-formativa. Um projeto educacional para
a civilização planetária.
Aplicando
tais reflexões à pesquisa bíblica – e interessa-me a Bíblia num
recorte heurístico-pragmático –, pode-se chegar a uma série de afirmações,
com as quais se pretenderia “ler” os diversos contextos de uso da Bíblia.
Interessa-me, aqui, apenas os ambientes de manipulação sistemático-metodológica
da Bíblia.
Primeira
afirmação – não pode ser reduzida a positivismo a tentativa de
interpretação histórico-social, crítica, heurística, das Escrituras.
A ser verdade que toda e qualquer leitura da Bíblia é arbitrária, à
luz de tudo quanto tenho dito – se o que disse tem validade – nenhum
biblista poderia, por exemplo, “saber” distinguir entre banana e
borracha. Mas ele “sabe”. E, a menos que uma civilização
extra-terrestre tenha desenvolvido mecanismos de digestão das moléculas
de látex ou petróleo, ela saberá, imediatamente, a diferença entre uma
e outra. O fato de Platão, Descartes e os “ensaios hermenêuticos”
mais recentes trabalharem sobre a disjunção radical de pensamento e matéria,
logo, pensamento e vida, perdeu-se completamente de vista o fato de que o
pensamento é tão adptável ao real quanto a própria vida, porque a vida
depende dessa capacidade de
adaptação. É natural que o pensamento pode,
em tese, transpor os limites do real. Mas isso é uma potência noológica,
e não significa que o pensamento humano seja, por “natureza”, neurótico.
A
confusão, que se resiste em enfrentar, e por uma série de razões,
muitas vezes político-engajadas, dá-se entre a noção de “verdade”
humana, histórico-social, e “verdade” ontológico-metafísica, de
“tipo” dogmático-cristã. O que se demonstrou impossível para nós
é o acesso a uma verdade eu não humana, uma verdade divina, absoluta,
atemporal, de tipo platônico-hegeliana. A metafísica, como mito crítico-reflexivamente
alienado, está morta. Mas a verdade, como estrutura heurística de adaptação
ao real, não. Caso contrário, a vida inteira, num átimo, desapareceria
da face da Terra.
Positivista
é uma tentativa de mirada divina, absoluta, por meio de fixação político-epistemológica
de “leis” a-históricas, atemporais. Mas a verdade não é,
necessariamente positivista, porque ela constitui um critério de
adaptabilidade físico-noológica ao real. O critério da verdade é, ao
mesmo tempo, físico, biológico, sociológico e noológico. A civilização
não pode abrir mão da noção de verdade. Deve, sim, abrir mão da idéia
de “Deus” como fundamento de proposições apresentadas com status
de verdade ontológica. Mas a verdade como construção (elaboração noológica)
social (elaboração) da espécie Homo
sapiens (elaboração biológica) eco-situada é inalienável à condição
civilizatória.
Grande
dificuldade reside no fato de que sistemas ideológicos – de recorte
pragmático político – se enfrentam, e encenam batalhas em torno das
Escrituras. Há uma batalha “evangelical” brasileira contra
uma “teologia fundamentalista” estadunidense. Na linha demarcatória
do front, as Escrituras apanham
de todo lado, com porretes e baionetas. Há uma batalha entre teólogos de
libertação e teólogos “papistas”, e, eu arrisco dizer, no front, a Bíblia apanha de todos os lados. O uso das narrativas político-mitológicas
do Êxodo, bem como a própria
imagem do “êxodo” bíblico, por exemplo, como narrativas de
“libertação” – argumento importante da teologia político-socialmente
engajada, marca característica dessa teologia marcadamente
latino-americana, erigiu-se às custas do óbvio da narrativa: uma
divindade que tira do Egito um povo, mata esse povo no deserto, e, depois
de o refazer, com ele quer matar outro povo, em Canaã. Ora, apenas a
ideologia – mesmo a da justiça e a dos pobres, mesmo a embebida de
“ira santa” contra a injustiça social e os vitupérios das
“elites” (e eu endosso em muitos, muitos aspectos, essa
“ideologia” de esquerda) – é capaz de não enxergar a violência
constitutiva dessas narrativas. E a tentativa de fazer convergir a violência
contra os “poderosos” é puramente retórica, porque, nelas, se
desenvolvidas, pobres, velhos, mulheres, crianças, homens, afinal, de um
lado e de outro, são mortos pela mão da divindade.
Tenta-se,
recentemente – testemunhei pessoalmente, no último congresso da ABIB,
em 2006 –, buscar novas “narrativas”, depois que se começou a
perceber o constrangimento de dizer libertação o que é morte. Mas temo
que a política continue a determinar os acessos às Escrituras,
determinando uma alienação heurística na massa de pobres, que reduzirão,
se bem ensinados, a existência social à imposição de desejos,
dissociados completamente da noção de “verdade” heurística. Temo
que os articuladores das teologias socialmente engajadas tenham, dos
pobres, uma visão simplista. Temo que, no fundo, tenhamos reduzido a vida
à política.
O
que eu desejo dizer – para que não seja mais uma vez mal interpretado
– não é que a teologia deveria dissociar-se da política. Pelo contrário.
O que eu quero dizer é que qualquer tentativa de usar a Bíblia para
projetos de libertação é fomento e incremento de alienação. A mística
do Deus-libertador fomenta e incrementa a alienação. Quantos agentes de
pastoral sabem disso – mas acomodam-se à alienação dos pobres.
Gottwald não me respondeu, no congresso, se é verdade que toda libertação
só pode constituir-se como utopia religiosa. Não entendeu a pergunta? Não
sabia a resposta? Fugiu dela? Minha resposta é: toda utopia de libertação
teologicamente dirigida fomenta e incrementa a alienação humana, e
quanto mais teleologicamente aplicada, tanto mais dá razão à crítica
da religião de Marx. E a ironia – a máxima ironia – é que as
teologias e as exegeses ditas de libertação terminam por usar Marx contra Marx. Como me obrigo a cuidar de que meus amigos biblistas,
politicamente engajados, operem suas consciências com a mais profunda ética
humana, não posso admitir uma hipótese de manejo consciente da alienação
religiosa humana em benefício de modelos político-teológicos pessoais.
Seria indecente. Resta-me considerar, com o risco de meu equívoco
pessoal, que meus amigos acreditam mesmo que é através da manutenção
da alienação dos pobres que se poderá libertá-los.
Por
outro lado, o embrutecimento político das consciências gera o risco de
que toda e qualquer maleabilidade ético-dialogal entre pobres e ricos,
entre os “oprimidos” e os “opressores” seja tornada inviável.
Desde aqui, desde minha inação intelectualizada, suspiro um desejo de
que meus amigos politicamente engajados sejam sábios, e, oxalá, mais,
muito mais do que eu.
Segunda
afirmação – nos espaços carismático-teológicos (espaços
evangelicais, histórico-protestantes, católico-populares,
neo-evangelicais), desde uma visada teleológica heuristicamente
denunciada, a Bíblia constitui um elemento estético sob a coação política.
Pesa-me a constatação de que, lamentavelmente, pode-se deixar ser
tentado pela tentativa de usar a Bíblia ao inverso: aqui, nos espaços denunciados, “alienação”,
enquanto que naqueles supostamente “libertários”, desalienação. A
rigor, alienação nos dois casos, já que a Bíblia aparece, em ambos,
como cristalização do elementos divino de inspiração à ação. Uns,
apassivam-se, pois é isso que “Deus” espera deles. Outros,
“agitam-se”, pois é a quanto “Deus” os obriga. “Deus”, nos
dois casos, não vai além de uma palavra de ordem na boca de um agente
religioso. E é preciso a mesma fé para as receber.
Assim,
não faço minha denúncia, como se pretendesse que a Bíblia fosse usada,
aí, para a libertação. Penso que somente seria possível uma tal coisa
a partir de e depois de toda desmistificação da Bíblia. Penso que a
mais importante visada heurística sobre as Escrituras é aquela que se
depara com a constituição política inalienável de todos os seus
textos, conseqüentemente, de todas as suas proposições. A Bíblia me
parece constitui uma formidável plataforma de discussão ético-moral,
sim – e é o que eu penso que eu faça, salvo melhor juízo –, mas
desde que operada na agora heurístico-dialogal.
Somente a crítica histórica, com base em uma radical consideração histórico-social
de seu conteúdo, pode proporcionar um uso não-alienado das Escrituras. A
“liberdade” das Escrituras demandam a sua absoluta culturalização,
condição indispensável para que possa ser acessada ético-politicamente,
inclusive contra “nós” mesmos.
Finalmente,
terceira afirmação – quanto às aproximações heurísticas às
Escrituras. O uso heurístico da política faz-se necessário. É preciso
construir espaços dialogais – política – heuristicamente orientados.
É minha opinião que um encontro aleatório de performances de acesso à
Bíblia não redunda, necessariamente, em melhoria da compreensão de seus
textos. Sim, talvez em uma melhor performance do “jogo” social. Mas não
estou convencido de que a função da Bíblia – e o papel dos biblistas
– seja, em primeiro lugar, promover melhores meios de performance
social. Sim, claro, em última análise, processos heurísticos
politicamente controlados tendem a proporcionar melhorias de performance
social. Gottwald gracejou alguma coisa nesse sentido, quando disse que,
apesar de enxergar nos primórdios das origens de Israel uma plataforma ético-comunitária
igualitária, libertária, fraterna, ele, contudo, não trocaria sua vida
atual, nos Estados Unidos, pela paragens bucólicas daqueles dias
campesinos. Nem eu.
O
desejo por uma sociedade mais justa e igualitária é necessário, eu
diria. O engajamento político-social, que me falta – salvo se escrever
o constitua, de certo modo – imperioso. Mas a pesquisa bíblica, ainda
que animada por tais valores e anseios profundamente relevantes e justificáveis,
não pode ser operada
ideologicamente por eles. Sob nenhuma circunstância e hipótese
(ressalvadas emergências civilizatórias?). Uma política de pesquisa bíblica
deve ater-se, necessariamente, à pesquisa em si. E eu acredito, mas isso
não significa que é por causa disso que se deva fazer pesquisa, que,
contudo, a pesquisa pela pesquisa proporcionará resultados “úteis”
à sociedade – ainda que “apenas” (?) epistemologicamente úteis.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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