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Quenosis
– para
ouvidos distantes
Osvaldo Luiz
Ribeiro
(21/09/2007)
Quer-se
crer que seja possível a paz entre as religiões. Em certo sentido, sim,
é possível, se apenas pessoas tranqüilas, mornas, bovinas, pacíficas,
rasas, translúcidas, mansas, constituírem as religiões. Mas as religiões
são constituídas, também, por pessoas intranqüilas, logo, estressadas,
excitadas, quentes, logo, sangüíneas, coléricas, felinas, logo,
selvagens, ferozes, bélicas, logo, guerreiras, bravas, profundas, logo,
proféticas, inequívocas. De pessoas assim, constituindo-se, assim, uma
religião, duas, três, ou uma engole as outras, ou todas se engolem
mutuamente.
As
religiões em si, não são nem quentes, nem frias, nem fogo, nem gelo.
Quero dizer, não necessariamente. Mas a religião, todas as religiões,
pode ser tanto fogo quanto gelo. Pode ser Lexotan®,
e pode ser Prozac®. Pode ser o
“ópio” de Marx, e pode ser, também, a “cafeína” da TdL. Pode
ser um “gelo” sacerdotal, mas, ao mesmo tempo, um “fogo” profético.
Pode ser um Ex 2,23-25, tanto quanto um Sl 2. Geralmente, quando se tornam
grandes sequóias, tendem a se tornarem conservadoras, tradicionais, e,
para se manterem assim, conservadoras e tradicionais, podem tornar-se
perigosas, letais, terríveis, porque o amor guarda dentro de si o gênio
ígneo da morte. Quando pequenas, nervosas, frágeis, débeis, incertas,
inseguras, tendem a se comportar de forma revolucionária, aproximando a
profecia da revolução, o espírito profético do grito de guerra. Mas não
necessariamente, porque há espíritos proféticos que preferem a fome do
jejum à força, o confronto retórico, ao confronto físico, mas, parece
inapelável, aquilo a que se recusam, engole-os – como a Gandhi, como a
Luther King. Quanto a um Jesus, bem, mesmo ele, fizeram-no dizer, também
veio trazer a espada.
Há
tanto paz potencial quanto guerra potencial dentro da caixa de Pandora. A
religião é como uma toalha de convescote. É estendê-la – e cuidar
das formigas. Porque religião é – necessariamente – fenômeno
cultural, necessariamente político. Religião, só o há de dois pra lá.
Pra cá, não. Um só não faz religião, faz outra coisa, alguma coisa
estética, já que não há política de um só. Assim, é apenas quando a
religião se abre, flor, que se saberá se ali vai uma Euryops
pectinatus – ou uma Drosera
capensis. Antes, ela é, apenas, um coração que pulsa, pulsa, pulsa.
Em cada pulso, um jorro de sangue – vida ou morte. Ah, a religião, um
dia, descobriu que, dentro de cada anjo, asas de penas de ganso, dorme,
imundo, um diabo. Um dia, ele acorda, nem que seja para explicar o, de
outro modo, inexplicável.
Quer-se
crer ser possível, aí, a paz. Somente
a paz. Engaja-se. Talvez – apenas
talvez – seja, mesmo, possível. Arriscaria dizer que uma condição de
possibilidade para a celebração da paz entre as religiões começou a
esboçar-se desde há poucas décadas, quantos séculos?, dois?, três?,
com a invenção humana – essa maravilhosa, necessária, urgente, invenção
civilizatória ocidental, o Estado Democrático de Direito. É um jogo
fragilíssimo esse jogo do Estado Democrático de Direito. Mas qual não o
é? Esse, contudo, colocou-se não abaixo, não acima, mas ao largo –
dos “deuses”. No Estado Democrático de Direito, não é que os
“deuses” tenham sido sublimados. Não – ainda. Foram, contudo,
republicanamente relativizados. Ganharam, todos, cidadania, mas perderam,
todos, soberania. Assim, se um determinado deus tem seu, hum,
“Vaticano”, aí ele é “Deus”, mas, fora daí, apenas mais um
“deus”. Não há, de fato, paz, mas civilidade – e, por ora, é
quanto basta. Quer saibam ou não, Jesus, Maomé, Buda, Krishna, e todos
os seus companheiros, são vigiados. Podem arrebanhar seus rebanhos, podem
demarcar seus respectivos redis, mas em relativo “controle” social.
Jesus não pode forçar uma ovelha de Buda, nem Buda, uma de Krishna. Do
mesmo modo, Jesus não pode impedir que uma ovelha sua fuja para o redil
de Maomé, nem Maomé, que uma sua, para o de Krishna. Dentro de seus
“Vaticanos”, cada um pode dar cabeçadas na parede, aborrecido da
apostasia cotidiana, da traição diária, se, na contabilidade do
troca-troca, perde-se mais para Maomé do que se ganha dele. O Estado
Democrático de Direito não vai – ainda – exigir que Jesus, Buda ou
Krishna, perdendo para o rival, ainda assim fiquem contentes e
sorridentes. Hipocrisia, que a contabilidade traduz-se em números, e, números,
em poder. Mas o Estado Democrático de Direito não vai permitir que
qualquer “deus” pense que ainda vive na Idade Média, na do Ferro, na
do Bronze, na da Pedra. Hoje, “deuses” ronronam. E está muito bom.
Com
o que se pode perceber o risco que o planeta corre. Porque esse jogo de
controle da religião pela sociedade republicana é jogado, apenas, na e
pela sociedade republicana. Essa sociedade “republicana”, ocidental na
sua grande, colossal, maioria, é “cristã” de tradição. Já fez das
suas. Já matou e esfolou quanto pode, e até quando pode – e não mais,
porque não pode. Pudesse, esfolaria, não tenham dúvidas. Mas não pode
mais. Seus livros sagrados ainda guardam memória da “espada” e do
“louvor” – Sl 149 –, mas a lição está proibida. Ainda que a
massa evangélica cante de vitórias, de batalhas, de guerras, de
cavaleiro sobre o cavalo, tem de se contentar com o diapasão retórico,
porque não pode mais – ah, mas ainda o quer – conquistar nada, nem
ninguém, salvo aqueles que saltam-lhes nos braços, como molhos de trigo
ceifado. Pode-se, contudo, dizer-lhes um singelo e peremptório não, e
pronto, acabou-se o “cântico novo”.
Há,
contudo, regiões inteiras do planeta, onde, sob a ótica da civilização,
ainda se vive nas Idades Antigas – e “antigo”, aí, tem pouco de
venerável, e muito de violento. Aí, a religião pode, ainda, e pôde,
ainda, recentemente, fazer-se Lei. Aí, vive-se como se o Sl 149
judaico-cristão lhes servisse de livro-texto. E – ah – como são bons
alunos. Paz, aí, é inconcebível, porque os regimes são incomunicáveis.
É preciso que o vale seja entulhado, ou os montes, desbastados, para que
as estradas se possam ligar uma à outra. Antes, a política-mãe
controlará a política-filha – a religião. E, para reagir ao
“deus” de lá, mesmo cá há de legitimar-se em seu “deus”. Já não
se sente o cheiro de sangue derramado na terra, não coberto?
Vê-se,
pois, quão frágil – ilusória? – é a utopia da paz religiosa. Mesmo
ali onde mais se avançou, é como se nem um passo houvesse sido dado,
porque se trata de um passo, esse que se deu, que, ou todos o dão, ou não
funciona globalmente. É um andar sobre esteira. É preciso, pois, que o
passo político-civilizatório seja dado, mas o chão não se mova sob
nossos pés, e se possa, então, finalmente avançar. Democracia é,
ainda, o melhor remédio contra a baba demente da religião.
A
saída civilizatória será aberta, mais cedo ou mais tarde, se
sobrevivermos à própria civilização. O passo democrático, o vau
republicano, é uma passagem necessária para a Terra. Talvez a democracia
não seja, afinal, a perfeição com que a imaginamos. Mas há, pelo menos
um argumento – monarquia, hierocracia, plutocracia, oligocracia, disso
todos já bebemos, dessa losna amarga. Do soma
democrático, ainda mal sorvemos dois goles. Há esperança. Talvez, cura.
Enquanto
isso, os religiosos – e isso é muito compreensível – movimentam-se.
Muitos, cada vez mais, engajam-se em movimentos pela paz religiosa, alcançada
por meio do discurso religioso, inter-religioso, de uma teologia plural,
de uma teologia das religiões, de uma pedagogia das relações religiosas
– que também o Estado faz, a Constituição exige. Vou chamar esse
caminho de pacificação – dos teólogos, não do Estado – de caminho
da “pacificação ascendente”. Trata-se de uma pacificação pela
osmose da do,xa
– da “glória”, de que, se cuida, o Cristo da fé vê-se revestido,
quando “sobe”. Um Cristianismo, crente em um Cristo glorificado,
considera passível a pacificação de si com todos, e de todos consigo,
pela “democratização” da glória. Todos os “deuses” ganham um D
– maiúsculo. A República tornou todos os “Deuses”, “deuses”. O
DIR, a utopia da paz osmótico-ascendente, devolve-lhes a maiúscula.
Um
aluno do Seminário Batista, na Tijuca, onde leciono, contou-me sua experiência.
Considerando-me um sujeito implicante, porque me ouvindo falar justamente
da insuficiência epistemológica das estratégias de DIR – gostar de
epistemologia é tornar-se irritante –, por muitos dentre as fileiras
engajadas reconhecida, mas, ao mesmo tempo, reconhecendo-me sincero,
comeram-se-lhe as tripas as vontades de me procurar, e falar. E abriu-me o
coração. Fora – eu também – há algum tempo – eu, há muito,
muito tempo – fundamentalista.
Não no sentido técnico-teológico estadonidense, mas naquele sentido de
“para nós, tudo”, “para eles, nada”, “meu Deus, dez”, “os
deuses deles, zero”. Todo bom fundamentalista evangélico-cristão
acha-se chamado à conversão do mundo. Não seria ele a exceção. Boca,
pés e mãos à serviço do “evangelho” – ah, esse amor que ama
tanto, que força ser amado. Que um “deus” o queira, que nada entende
de nós, compreendo, mas um de nós, e eu, entre eles, um dia...
Treinava
as “missões” – é sempre “deus” quem manda. Os filmes ensinam.
E foi um deles, sobre Meca, que o sacudiu, ele conta. A cena “hierofânica”
de presumíveis milhões de árabes, todos de branco, em torno da Kaaba
oculta – de fato, a cena é forte. Como?, perguntou-se, mas não eram de
palavras constituída a pergunta, mas de pedaços de pura perplexidade
contemplativa, como?, e a resposta não viria por meio de palavras, como
posso, eu, perguntou-se, atônito, estar “certo”, e eles, todos eles,
essa multidão, esse mundo de gente, errados? Como?
Disse
que saiu em desabalada carreira, e evangelizou a primeira pessoa com quem
se deparou – era a vendedora de doces, posta desde a eternidade, à
frente do Seminário onde, à época, ele aprendia a ser um bom prosélito,
bem armado e equipado. Ah, a alma dele, coitada, era ela como se, gasosa,
fosse aquecida a sua caixa de contenção a milhares de graus, e ela, por
causa desse calor dispersivo das moléculas, se fizesse bater,
violentamente, contra si mesma, em turbilhão. Ah, dois mundos, duas galáxias,
dois Universos inteiros dentro da cabeça dele, coitado. Levanta, homem, e
vai ganhar o mundo. Não, não posso. Maldito.
Foi
dar no Seminário da Tijuca, lá, onde, em seu braço iguaçuano, fui
liberto de mim mesmo, de minha teologia de rancho, de gueto, de guerra, e
a deixei na sarjeta, ali, perto da Francisco Soares, onde os pés de quem
vai tomar o ônibus a devem pisar, até que se chegue a fundir ao asfalto
da rua. Ele estava atrás de respostas. Arisco, pôs-se a ouvir. E ouviu.
Foi ali que lhe deram a cura, que ele já esboçava. Contaram-lhe a
respeito do “diálogo inter-religioso”, segundo cujas premissas, pelo
menos aquelas de uma certa ala, de uma certa retórica, de uma certa
estratégia, todos os “deuses” são “Deuses” para quem neles crê
com D maiúsculo, e o “deus”
com D maiúsculo de cada
“crente” não fica zangado pelo fato de seu fiel
não se importar – gostar até – de que um vizinho tenha outro
“deus”.
Ah,
ele foi até o céu, lá, aonde nem Paulo foi, e sem cavalo, e sem
Damasco, e sem Jaboque. Foi transladado ao Monte da Transfiguração, e, lá,
em lugar de Pedro, Tiago e João, viu Jesus, Buda e Maomé, e uma procissão
de “deuses” que vinham subindo, para a confraternização plural da fé
dialogal. Meu aluno considerou-se salvo naquele dia, mas eu bem vi que
quem foi salvo foi seu “deus”, com D
maiúsculo, ainda que a salvação dele tenha sido comprada ao custo
da “glorificação” de todos os “deuses”, um céu de anjos, de
exus e de ninfas, e muitos, muitos tronos, para muitos, muitos candidatos.
Vishnu cumprimenta Yahweh, bom dia, distinto cavalheiro, enquanto Asherah
faz café ao lado de Maria, e uma ruma de erês entra pela cozinha, como
pardais de São Francisco.
É
muito compreensível o percurso. Muito honesto. Muito admirável. Uma alma
quebrantada, quenósica, quieta, parece bem a ela glorificar o “deus”
de todo mundo. Ao menos assim o seu próprio mantém-se na glória. Não
perde sequer o trono, conquanto a majestade lhe seja, por força,
dividida, mas ele tem cá o seu povo próprio, e, sobre ele, é, ainda,
rei. É como o mundo dos reis, muitos reis, muitos povos, um rei para cada
povo, para cada povo, um rei. Porque não se assumem os deuses de todos.
Apenas, reconhecem-nos. Mas, sobre cada cabeça, o próprio chapéu.
Periga, ai, é de lembrar que nunca houve paz entre reis, e os povos
desses reis, coitados dos povos, as cabeças não bastaram para as forcas,
os corpos, para o empalamento. Talvez os deuses-reis sejam, contudo,
diferentes dos homens-reis. Quem vai saber? Eu me reservo o direito de
duvidar, porque, eu sei, os deuses-rei são imagens refletidas, com seus vícios
e seus defeitos, suas virtudes e suas bondades, dos homens-rei. Chegará o
dia, eu sonho, em que os homens estarão tão desgostosos dos reis, que
nunca mais usarão essa metáfora para seus mitos. Mas longe vai esse dia,
muito, muito lá na frente, ainda. E tarda. Não chega nunca.
Não
foi por essa razão, isto é, não foi porque eu fiz contas epistemológicas,
e cheguei à conclusão de que a glorificação de todos os deuses, como
solução para: a) a manutenção da glorificação de meu mito, e b) a
paz entre as religiões, todas, glorificadas, poderia causar, no fundo, um
retorno medievalista, ou, pelo menos, apenas adiar conflitos inevitáveis,
como inevitáveis são os conflitos entre “reis”, que inventei meu
percurso. Não, não foi. Minha estrada, descobri-a quando a caminhava,
caminhando. Meu percurso foi absolutamente parecido com o de meu aluno.
Fundamentalista ele, fundamentalista eu. “Missionário” ele,
“missionário eu”, de bater de porta em porta, de entregar folhetos,
de pregar em praça, em púlpito, em palanque, de querer a África, de
ensinar com paixão a verdade passional da fé – a minha. Ao seminário
ele, ao seminário eu. E, pronto, fui liberto. Mas a minha “libertação”
– é assim que chamo minha experiência teológica – foi em sentido
descendente, uma quenosis, tanto de mim, porque cada “crente” da
glorificação tem glorificadas as próprias carnes, quanto de meu
“Deus”, que, republicanamente, muito pacificamente, muito
romanticamente, muito humanístico-cientificamente, muito
epistemologicamente, reduzi a “deus” – mito consciente.
E
só ao meu? Não, naturalmente. Fi-lo com todos eles, de todos os hemisférios,
de todas as paralelas, de todas as coordenadas, de todos os pólos, de
todos os tempos, de Anat a Zeus, e Jesus, com eles. Sim, mesmo “Deus”.
Logo se vê que foi destilada uma poção, com misturas alquímicas de
Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Peirce, e outros alquimistas, que tomei, até
perder a razão. Hoje, louco, creio ser possível fazê-lo, e manter-se são.
Mas – sabe-se – todo louco cuida-se são. Bem, não é verdade. Há
loucos que se sabem loucos, e essa dor é-lhes, às vezes, insuportável.
No meu caso, loucura que sou, cuido-me são e lúcido. E quem me passe
perto que se cuide, porque nunca se sabe.
A
quenosis que operei consiste em reduzir a mito, a noologia, a idéia,
todas as metafísicas celestes. Todas. São reais, elas, todas, as idéias.
Tão reais, que um ateu vai ao céu, volta, e conta que viu – que verbo,
não? – que não há “deus” lá. Fé forte como essa não há.
Apenas a fé teísta rivaliza. Mas apenas empata. Não significa, a minha
quenosis, ateísmo. E, se significasse, diria, nu que ando. Mas não é. E
nisso não vai nem bazófia, nem escusa. Constatação, apenas. Aí estão,
de Asherah a Zeus, todos os mesmos deuses de sempre. Ativos. Eficazes.
Eficientes. Efetivos. Mas são idéias. Que nos controlam. Quanto mais
quando nós mesmos as colocamos em tronos, em carruagens de ouro, à
frente de exércitos, de espada na mão, de rubro e ouro, shofar a tocar, retumbante, a convocar para a vitória, e, nós, as
buchas de canhão, a gozar a morte nobre e beatífica. Matar e morrer
pelos “deuses” – ah, que diferença faz? A mesa se lhes é farta, de
qualquer jeito.
Minha
quenosis transforma todas as metafísicas em idéias fracas, frouxas,
fluidas. Mesmo “quenosis”, essa minha, é uma “idéia” – como
todas. Mas ela é fraca, exangue, debilitada, tísica. Quanto mais forte
ela, mais fraca. Porque minha quenosis retira, toma, rouba, extrai,
suprime, alija, de todas elas, todas as metáforas de poder. Nenhuma metafísica
celeste, eu proíbo, pode mais alguma coisa. O “deus” que eu carrego,
agora, que mora aqui, na minha cabeça, e que sai dos campos de trigo,
como uma criança feliz, é-me amigo, amigo de caminhada. Não é mais rei
– destituí-o. Golpe de Estado? Sim. Não é mais legislador. Fechei o
Congresso. É apenas meu amigo, e tem a idade que eu quero.
Ainda
não aprendi – é difícil – que ele não pode mais. Quando tenho
medo, ainda me socorro nele. Mas, a que ponto chega minha quenosis,
encontro-o trêmulo, olhos arregalados, esperando-me, que também ele tem
medo. Num arroubo, Id dá ordens – levanta, parvo, deus inútil, e
arranca, com a mão, os montes estorvantes! Mas eu o calo – vade
retro, e abraço, confortavelmente, meu deus-mito-amigo trêmulo. O
poder corrompe a divindade. A divindade, com poder, escolherá entre o
amor e o poder, e escolherá, fatalmente, o poder. Sabemos disso.
Ah,
sim, a minha quenosis ameaça de sombras, de novo, o mundo. Talvez tenha
sido o “romantismo” o principal diabo da minha quenosis. Digo diabo,
porque quem crerá que foi “Deus” meu inspirador? Seja como for, o
diabo saiu de dentro de Deus, já era uma quenosis ensaiada, demorou tanto
que os judeus, que inventaram seu diabo, seus diabos, isso prolifera que só
ácaros, de início, nem de nome para ele dispunham. A glorificação,
contudo, é um fenômeno tão forte que, mesmo “Deus” sendo um, e um só,
seus “filhos”, por pouco, muito pouco mesmo, não tratam o diabo por
um “(Quase)-Segundo”. O “romantismo”, contudo, pôs-me num efa,
e pôs tampa de chumbo. Preso aqui dentro, a mim e meus diabos todos. E
minha quenosis completa-se. E volta o mistério, uma sombra de caos,
pairando sobre minha cabeça, às vezes em apogeu, às vezes, em perigeu.
Um abutre em rasante.
Penso
que a quenosis é um caminho para a paz. Penso que a quenosis é compatível.
É compatível com a subjetividade moderna, necessária. É compatível
com a civilidade moderna, necessária. É compatível com a igualdade, a
liberdade e a fraternidade, necessárias. É compatível com a República.
É compatível com o Estado Democrático de Direito. A quenosis é
epistemológica – ela assume os postulados das Ciências Humanas, e
abandona o mito do Homo religiosus como necessariamente opiáceo. Todos os homúnculos
pragmático-culturais de que se constitui o Homo
podem ser articulados na modernidade, conforme
a modernidade. Também o religiosus.
Os bolsões de mito inconsciente de si são, nesse sentido, fósseis. De
direito, mas não necessariamente atualizações da eidética religiosa. São
– apenas – jogos culturais, cujas regras são culturais, fósseis,
porque pré-modernas, medievais, não esclarecidas (não necessariamente
opiáceas, contudo).
Falo,
naturalmente, da paz religiosa. De outras pazes, não sei, ainda. Mas não
haverá razão para pelejas religiosas, quando todos os deuses forem
destronados, quer seja da sua condição de entidades maiúsculas, quer
seja de sua categoria de monarcas celestes. Minúsculos, e amigos, apenas,
desempregados, serão o que são, reflexos nossos, e assim serão
tratados, amorosamente. Talvez cuidem dos jardins da casa da gente. Talvez
podem nossas avencas. Talvez nos despertem, de manhã, com um beijo na
face, depois se dormirem na sala, que o amor é pudico.
Há,
contudo, uma longa jornada. Talvez, impossível para um planeta inteiro.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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